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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Ouve Isso Aqui: Álbuns que fazem 50 anos em 2022


Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Daniel Benedetti
Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Fernando Bueno, Líbia Brigido e Mairon Machado

Lá se vão cinquenta longos anos desde que esses álbuns foram lançados e, como sempre acontece com clássicos atemporais, estes mesmos continuam encantando gerações de ouvintes mundo afora. Nosso amigo Daniel fez uma bela lista de cinco discos lançados em 1972, o ano em que muitos consideram o melhor da história do rock (ou um dos melhores). Convenhamos, daria para tranquilamente fazer cinquenta clássicos lançados há cinquenta anos que ainda assim faltaria disco. Mas os que estão aqui são muito representativos de uma época em que o rock brilhava. Quais os que faltaram? Deixe suas sugestões nos comentários.


T.Rex - The Slider

Daniel: Acho muito interessante a sonoridade do T. Rex, especialmente levando-se em conta a época em que seus álbuns foram lançados. Evidentemente, trata-se de um Rock suave e bem acessível, mas contando com uma atmosfera que sempre me soou estranha e, este contraponto, é o fator que me causa mais interesse. Outro ponto bem relevante é o groove das canções, com um trabalho bem legal do baixista Steve Currie. The Slider é o meu disco favorito do grupo, pois conta com faixas como “Metal Guru”, “The Slider”, “Telegram Sam” e, claro, “Ballrooms of Mars”. Infelizmente, Marc Bolan morreu muito jovem para que pudéssemos desfrutar mais de sua criatividade.

Anderson: O momento em que o projeto de Marc Bolan desenrola e se torna gigante! Não creio estar sendo justo com os demais, mas a cabeça idealizadora e pensante do T. Rex merece o destaque sugerido na capa. O clássico do Glam me agrada bastante principalmente a partir de "Rock On" e segue firme até "Rabbit Fighter". Não sou um grande apreciador da banda, mas respeito muito a história.

André: Nunca tinha ouvido este disco do T.Rex em específico e achei bem legal. O que eu mais ouvi deles foi Futuristic Dragon [1976] que nem é considerado um dos melhores deles mas que eu gosto bastante. Os riffs e melodias são bem simples mas gostosos de ouvir. Apenas achei que ele deu uma exagerada nas faixas, dava para tirar umas três ali que considero fillers. Todavia, um ótimo disco dos tempos áureos do glam rock.

Davi: Clássico do glam rock, simples assim. Aqui, Marc Bolan mantém o alto nível de seu trabalho anterior, o (ótimo) Electric Warrior. Mesclando a levada rock com as linhas vocais mais puxadas para o pop (no bom sentido da expressão), o rapaz criou uma sonoridade bem própria. Há espaço para algumas baladas, onde por alguns momentos nos remetem aos seus dias de Tyranossaurus Rex, mas os momentos mais rock são os meus favoritos. Para ser mais específico, minhas faixas favoritas ficam por conta de “Metal Guru”, “Rock On”, “Telegram Sam”, além da faixa-título. Bela lembrança.

Fernando: Disco com a difícil tarefa de fazer sequencia à um clássico do rock. Geralmente quando uma banda faz muito sucesso com um disco a sequencia tende a ser mais fraca pela pressa de se gravar um disco e capitalizar o sucesso. Mas The Slider é tão bom quanto Electric Warrior. "Metal Guru" seria uma referência ao novo estilo musical? Pelo menos musicalmente não. Interessante pensar que David Bowie tinha uma relação de admiração e competição com Marc Bolan, mas quando se ouve esses discos do T.Rex e os discos até então gravados pelo Bowie percebemos muita similaridade.

Líbia: Músicas seminais nunca envelhecem, sempre serão referências principais em seu nicho, se transportando por gerações. É o caso do T.Rex no The Sliders, você percebe a modernidade já nas primeiras audições. Uma pessoa desavisada e sem conhecimento da banda poderá achar que é um lançamento do século XXI. Há muitos detalhes com um capricho sem igual, se eu for indicar uma música para perceber toda a essência do álbum seria a faixa-título, porém não há fraqueza nas treze faixas dele.

Mairon: Um dos grandes clássicos do Glam Metal, lançado no mesmo ano do aclamadíssimo The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spider from Mars. A sonoridade dos álbuns são um tanto quanto distintas, com o conceito do álbum de Bowie superando em muito as composições não-homogêneas de Marc Bolan. Porém, é inegável a qualidade das baladaças "Mystic Lady" e "Spaceball Ricochet", o bom uso de influências de blues em "Rabbit Fighter" e "The Slider", bem como a grandeza festiva de faixas como "Baby Boomerang", "Baby Strange", "Main Man" e "Metal Guru", para se cantar embriagado a plenos pulmões. E claro, não há como não alavancar muitos pontos para o disco com a pesadíssima "Chariot Choogle", e aquela que talvez seja a melhor canção da carreira do T. Rex, a fantástica "Buick Mackane", com seu riff que destrói sua casa em apenas 3 minutos. Temos ainda a mais Bowie das faixas Bolan, curiosamente chamada "Ballrooms of Mars", a lembrança de "Get it On" no riff de "Telegram Sam", o riff inconfundível de  "Rock On", e é isso o que acaba sendo o predominante ao longo de The Slider, um álbum com riffs que marcaram época. Uma boa escolha de disco para colocar em uma festa roqueira.


Rod Stewart - Never a Dull Moment

Daniel: Sempre fui fã dos trabalhos iniciais do Rod Stewart, seja com Jeff Beck, no Faces ou mesmo na carreira solo. Considero Never a Dull Moment um de seus melhores álbuns. A guitarra afiada de Ronnie Wood é um destaque ao lado da bela e afiada voz de Stewart. Adoro canções como “True Blue” e “Italian Girls”, além da versão matadora para “Twistin' the Night Away”. Quando alguém me fala sobre Rod Stewart, é desta fase que eu me lembro.

Anderson: Na minha concepção o mais fraco dessa seleção (de respeito, aliás), porém com uma música que está facilmente entre as melhores dentre os cinco: "I’d Rather Go Blind". Que som é esse! No mais eu curto bastante "Mama You Been On My Mind" e a animada "Italian Girls". Obviamente que tem a ótima "Twisting the Night Away", mas que não me cativa muito. Baita trabalho.

André: Nunca gostei do Rod Stewart em sua carreira solo. Aliás, nunca também fui fã de seus vocais (principalmente suas interpretações vocais). Porém, ao menos aqui, ele se utiliza de mais influências (mesmo que pequenas) daquele rock mais sessentista que ainda continha blues e um tantinho de folk. Não é ruim, é um disco ouvível para a minha pessoa. Por sinal, peguei ranço dele depois de ouvir um chatíssimo disco antigo que tem ele todo brilhante e de rosa na capa. Depois disso, só o ouvi no Faces. Mas foi bom ouvir esse aqui para saber que talvez eu possa aproveitar algo dele dos seus quatro primeiros discos.

Davi: Sempre gostei muito do Rod Stewart e essa fase inicial sempre foi a minha favorita. Never a Dull Moment é seu quarto álbum solo e mantém o que o cantor vinha fazendo até então. Ou seja, misturava-se canções de rock n roll com baladas folks. Misturava-se canções autorais com covers. A versão de “Twistin´ The Night Away” (Sam Cooke) ficou brilhante e traz um ótimo trabalho vocal de Stewart. Também gosto muito da versão que fez de “Mama, You Been On My Mind” (Bob Dylan). Muito bem resolvida e casou bem no disco. A bola fora fica por conta de “Angel”, que não chega nem perto da linda gravação de Jimi Hendrix. Gosto muito quanto cai de cabeça em um rock mais básico como “Italian Girls” ou até mesmo “True Blue”, canção que carrega a assinatura do The Faces, por sinal. A música mais lembrada pelos fãs de FM é, certamente, “You Wear It Well”, que nada mais é do que uma tentativa de recriar o clássico “Maggie May”. A música não é ruim, mas não tem o mesmo brilho do hit de Every Picture Tells a Story. Contudo, nada disso tira o brilho desse LP. Discaço e um dos meus favoritos dessa lista.

Fernando: Uma galera tende a desmerecer o Rod Stewart pelo direcionamento de sua carreira nos anos 80, mas poucas dessas pessoas chega a ouvir os discos do início dos anos 70 tanto como um artista solo, quanto no Faces. Com um voz única Rod Stewart é um dos melhores cantores de sua geração. Never A Dull Moment, assim como o disco do T Rex citado acima, sucede um grande clássico e também não faz feio. Na verdade esses dois discos compõe o auge do material gravado pelo cantor escocês/inglês.

Líbia: Sabe aquela voz inconfundível e capaz de lotar estádios? Esse é o Rod Stewart. Foi isso que pensei quando coloquei o Never a Dull Moment no play. Conheci esse músico por indicação de uma amiga da minha irmã, e por anos ouvia vez ou outra de forma bem aleatória. É o primeiro álbum ouço inteiro, e Rod com sua voz tão única, interpreta com perfeição as suas composições, passando facilmente do folk ao rock. A "I'd Rather Go Blind" ficou perfeita na versão de Stewart. É um álbum bastante curto, mas bem pensado, e parece tocar todas as áreas do paladar do ouvinte.

Mairon: Depois de sair dos Faces, Rod Stewart se tornou um dos queridinhos da grande mídia musical, com seus discos de um rock pop de fácil acesso. Never a Dull Moment é mais um deles, e olha, não sei o que é, mas a carreira solo de Rod não consegue me conquistar. É um disco com boas músicas? Sim, é sim. A banda que acompanha Rod é praticamente os próprios ex-colegas de Faces ou Jeff Beck Group, tem tudo para dar certo. Mas ao ouvir os metais em "Lost Paraguayos", o rock animado de "Twistin' the Night Away" (Sam Cooke), a revisão country de "Mama, You Been on My Mind" (Bob Dylan), ou mesmo a bonita adaptação para "Angel" (Jimi Hendrix) parece que tudo o que estou a ouvir é algo requentado, já feito anteriormente, e de pior qualidade. Há momentos que são legaizinhos, como "Italian Girls", a delicadeza da baladaça "I'd Rather Go Blind", ou a boa apresentação inicial de "True Blue". Mas quando em todo um disco o que mais me chama atenção é uma peça de 40 segundos no violão, chamada "Interludings", é que algo está errado. Não é um disco ruim, mas não me convenceu de ir atrás da coleção (vasta) do britânico.


Uriah Heep - Demons and Wizards

Daniel: Demons and Wizards é um dos melhores e mais impressionantes álbuns dos anos 1970 que, apesar de ter seu valor mais reconhecido na última década, penso ser ainda pouco reverenciado. A mistura de Hard e Progressivo, com toques de Metal, guiada pela voz inconfundível de David Byron e as guitarras de Mick Box e regida pela genialidade de Ken Hensley forma uma peça fundamental desta banda impressionante. Que álbum, meus amigos!

Anderson: Um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos. Simples assim. "The Wizard", "Easy Livin’",  "Poet’s Justice", "Circle of Hands",  "Rainbow Demon" enfim… Se ainda não ouviu pare tudo e faça a lição de casa.

André: Eu simplesmente adoro esse disco. Tenho na minha coleção (que infelizmente anda parada há algum tempo). Não tem faixa ruim aqui, mas minhas favoritas são a lindíssima "The Wizard", a clássica "Easy Livin'" e aqueles teclados divinos de "Circle of Hands" então? Eu duvido que tenha algum ser que frequenta esse site que nunca tenha ouvido esse disco, mas se esse ser existe, não faz ideia do que está perdendo!

Davi: Está aí uma banda que preciso me aprofundar mais. Sim, conheço e tenho alguns discos deles na minha coleção, mas ainda não caí de cabeça na obra como deveria. Demons and Wizards é um de seus trabalhos mais cultuados e não é por acaso. O disco é de uma qualidade ímpar. As execuções são brilhantes e o repertório é bem consistente. A primeira música que ouvi deles foi o hit “Easy Livin´”, que é uma das canções desse álbum, e isso já ajuda a colocar um sorriso no meu rosto. “The Wizard”, com sua belíssima introdução de voz a violão, “All My Life” com uma empolgante slide guitar e a contagiante “Traveller In Time” são os meus momentos favoritos e são faixas que me peguei ouvindo repetidas vezes.

Fernando: Clássico inquestionável. Se você não conhece esse disco pare tudo e trate de ouvi-lo agora, mesmo que antes você tenha colocado um dos dois discos citados acima. E quando você ficar doido pelo que Byron, Hensley, Box, Kerslake e Thain fizeram em Demons and Wizards, ouça de novo por que muito provavelmente você não absorveu tudo o que o disco tem para oferecer.

Líbia: Um dos melhores álbuns que você pode escutar na vida. Já nos primeiros segundos dessa maravilha, você até confunde a realidade com o sonho. É um álbum especial pra mim, de uma forma que acho difícil comentar sobre ele, sinto que fico sem palavras mas a poesia fica no ar. O som da guitarra acústica no "The Wizard" é soberbamente detalhado e tem uma sensação de “ao vivo”. O álbum inteiro parece que foi gravado ontem. As músicas entram em carne e osso imediatamente após dar o play. Elas sobreviverão a décadas inteiras sem danos, o que significa que você pode ouvir daqui a 50 anos, e ainda não ter ouvido o suficiente deles.

Mairon: É bem difícil para mim escolher qual dos lançamentos do Uriah Heep em 1972 eu curto mais. Este é o irmão mais velho (The Magician's Birthday é o mais novo), e marca a estreia da formação clássica do Heep, com David Byron (vocais), Mick Box (guitarras), Ken Hensley (teclados, guitarras, vocais), Gary Thain (baixo) e Lee Kerslake (bateria), esses dois últimos estreantes na banda, e completando as harmonias vocais que se tornaram tradição na banda. O álbum já começa surpreendendo com os violões de "The Wizard", seguida por duas pauladas ("Traveller In Time" e "Easy Livin'") que logo se tornaram hinos da banda. A evolução do disco é fantástica, mesclando faixas pesadas ("All My Life", "Poet's Justice" e "Rainbow Demon") com outras mais amenas ("Circle of Hands", com a  bela e verdadeira frase "today is only yesterday's tomorrow" e a dupla "Paradise"/"The Spell", fantásticas e lindas). Era o Uriah Heep vivendo o início de sua fase áurea, onde cada membro fazia sua participação com destaque, carregados pela genialidade de Ken Hensley. A história conceitual dos dois álbuns é um tanto quanto confusa, mas que são discos incríveis musicalmente, ah, isso ninguém nega.


Santana - Caravanserai

Daniel: Tenho para mim que este é um dos discos mais subestimados dos anos 1970. Talvez por não ser tão direto quanto Abraxas, por exemplo, Caravanserai não é tão citado ou comentado. Mais intimista e introspectivo, Carlos Santana se aprofunda no jazz fusion, com solos ainda mais arrepiantes e menos óbvios, com um quê de imprevisibilidade que faz de suas canções ainda mais instigantes. Ouça “All The Love Of The Universe” e sentirá o que foi afirmado.

Anderson: Um clássico. Santana, mandou essa pérola pros anais da música já quando a banda original não estava em paz completa. O álbum é intenso com longas passagens instrumentais e com um ar um tanto quando introspectivo e hipnotizante. Em minha opinião é um dos álbuns mais icônicos do Santana, mas considere seriamente organizar um momento seu para apreciar a obra, não irá se arrepender.

André: Carlão sempre soube o que faz. Seus discos que misturam rock com aquele sacolejo latino sempre me agradaram. E este é o melhor que de sua longa discografia aqui como banda. Tendo as feras Neal Schon e Gregg Rolie (que logo depois formariam o Journey) é fácil verificar que o mexicano sempre esteve muito bem acompanhado de bons músicos durante toda a carreira. Minha canção de destaque aqui é a que fecha o álbum "Stone Flower" (que eu não reconheci que era uma canção do Tom Jobim) e seu grande conjunto de percussão (algo normal em se tratando de um álbum do Santana).

Davi: O Santana é um artista que sempre gostei muito. Adoro o estilo de tocar do Carlos Santana. É um músico que além de ter um incrível domínio de seu instrumento, tem um estilo muito próprio. Tanto de composição, quanto de timbragem. Basta uma palhetada para sabermos que estamos ouvindo sua guitarra. A sua discografia considero, no geral, muito boa, porém sempre teve um ou outro álbum que nunca consegui morrer de amores e esse é um deles. Claro, o nível de execução é inquestionável, mas as composições nunca me chamaram muito a atenção. A maior parte desse álbum é instrumental e traz os músicos buscando arranjos mais complexos, com uma forte influência de jazz rock. Nada contra, mas ainda prefiro a sonoridade de seus 3 primeiros álbuns, com uma maior influência de música latina. De todo modo, foi legal reescutá-lo.

Fernando: Santana nunca me agradou muito. Ouvi diversas vezes suas músicas, mesmo que nunca, confesso, tenha me apegado à um disco ou à uma fase de sua carreira para conhecer melhor. Ouvi novamente esse disco, algumas passagens me chamaram atenção, mas por muitas vezes fiquei disperso. A primeira faixa, "Eternal Caravan", já não ajuda, pois é quase que uma paisagem musical que não me remete à lugar algum. Aí a faixa seguinte "Waves Within" segue quase a mesma fórmula. Acho que Carlos Santana não é para mim. O mais interessante é saber que os músicos que o acompanhavam sairiam logo depois e formariam uma banda histórica, o Journey.

Líbia: Não consigo pensar em muitas outras bandas que despertam tanta emoção interior como Santana nos primeiros 4 álbuns. No Caravanserai a banda está no auge da sua criatividade. Ele é feito para apreciar como um todo, as faixas servem de pilares uma para as outras, ao longo do caminho vai mostrando o incrível virtuosismo que esta banda era capaz de fazer. Você não quer que ele acabe, e quando menos espera, finaliza com a "Every Step of the Way". Aproveite essa viagem sem pressa.

Mairon: Esse eu lembro até hoje o desbunde que foi a primeira audição. Era fã de Santana da fase Abraxas, III e Amigos, e não sabia nada de uma fase Devadip. Não lembro como Caravanserai chegou às minhas mãos (Micael, foi naquelas promoções de 5 por 10?), mas lembro que ao colocar o disco para rodar, aquele monte de grilos, saxofone, não fazia sentido nenhum com o que já havia ouvido de Santana. O magistral lado A seguiu praticamente todo instrumental, com apenas duas faixas com vocais, e nas demais 4 canções, muito experimentalismo, com a tradicional percussão da Santana destruindo, e um Devadip Carlos Santana em plena forma, com solos animalescos. Destaque mais que especial para a leveza de "Song of the Wind", o ritmo flamenco de "All the Love of the Universe" e a pancadaria em "Waves Within". O lado B segue com mais experimentalismo, através dos teclados de Gregg Rollie (outro que está mandando muito bem aqui) e percussões de "Future Primitive", nas maluquices na introdução da sensacional "Every Step of the Way", e o destaque central para o estonteante ritmo de "La Fuente Del Ritmo", de tirar o fôlego. Temos ainda uma magistral revisão para "Stone Flower", de Tom Jobim, com cuíca e tudo. Um dos melhores discos da carreira do Santana, e uma grata audição para esse Ouve Isso Aqui.


Stephen Stills & Manassas - Manassas

Daniel: Eu li uma vez que Stephen Stills considera Manassas uma de suas melhores obras e eu não consigo discordar dele. Manassas traz um time de músicos de primeiro nível o acompanhando em uma mistura riquíssima de Blues, Country, Folk e, claro, Rock. O lançamento original em vinil é álbum duplo, com cada um dos quatro lados, teoricamente, dedicado a um dos supracitados estilos, mas, o que faz desta obra inesquecível, é justamente a sobreposição das abordagens musicais, sempre realizadas com refinamento ímpar. Apesar da duração extensa, o álbum passa de modo muito fluido. Discaço!

Anderson: Não conhecia e logo na segunda música achei muito bom! Muito blues, folk, country e um rock aqui e ali modulando uma constante alternância entre momentos mais calmos e agitados. Originalmente um disco duplo cujos quatro lados possuem denominação e teoricamente nos provem diferentes perspectivas sonoras. Baita álbum que ainda não terminei de digerir.

André: Tá aí uma grande surpresa dessa lista. Serviu para me mostrar como eu devo ir atrás com mais frequência dos discos-solos de integrantes de bandas famosas. Geralmente não são tão falados, mas volta e meia me surpreendo com ótimas músicas. Mesmo sendo bastante longo, a variedade de blues, country e folk e as composições de tão boa qualidade, com uma ou outra exceção, fazem este disco passar rápido que nem senti. Adorei a percussão e a guitarra ardida de "Anyway". E "So Begins the Task" virou meio que obrigatória nos shows dele e digna de uma beleza típica do CSN. Obrigado pela sugestão aí Daniel, esse disco merece mesmo ser muito mais divulgado internet afora.

Davi: Depois do Rod Stewart, esse é o meu favorito da lista. O repertório é bem variado e conta com levadas de rock, blues, folk, bluegrass, country e até música latina (influencia perceptível na levada de percussão de algumas faixas). O LP era duplo e cada lado era focado em uma sonoridade diferente. O lado A e lado D eram os lados mais roqueiros, enquanto o lado B e o lado C eram os mais calmos. É até difícil citar um momento de destaque, já que o LP é bem consistente, mas para não ficar em cima do muro vou citar as faixas “Song of Love”, “Anyway”, “Colorado”, “Johnny´s Garden” e “Right Now” como destaques.  Discaço!

Fernando: Ok...todo mundo conhece Stephen Stills, lá do Crosby, Stills & Nash, ou mesmo na versão com Neil Young. O Buffalo Springfield eu também conheço, mas nunca fui atrás do que ele fez depois disso. Para uma primeira audição, achei bastante interessante, mas esse é daqueles discos que precisam de várias audições para sacar melhor todo o conteúdo de seus quatro lados dos LPs.

Líbia: Como nunca tinha ouvido falar desse monumento? Ótima indicação do Daniel. Pra não ficar tão vergonhoso, já conhecia o Stephen Stills do Buffalo Springfield e da superbanda Crosby, Stills, Nash & Young, essa segunda estou escutando os trabalhos com calma a pouco mais de 1 ano. Mais essa beleza chamada Manassas também conquistou meus ouvidos com sua variedade de country, folk e blues rock, com uma sobreposição dos estilos durante todo o álbum. Parece ser aquele tipo de álbum que envelhece bem, e em qualquer época ele vai te curar. Imagino que quem é músico enxergar muitos detalhes entusiasmantes e inspiradores!

Mairon: Confesso que fui surpreendido com esse álbum. Achei que ia encontrar algo na linha folk da Crosby Stills & Nash, mas ... O disco é dividido em 4 lados distintos. O lado A (The Raven) é encantador. A percussão e linhas de guitarra das duas primeiras canções me remeteram direto ao Southern da Allman Brothers, e na sequência, o blues de "Jet Set (Sigh)" fez com que qualquer pré-conceito que eu tinha contra Manassas caísse por terra (que gaitinha mágica). O southern segue em "Anyway", e que lindeza é essa "Both of Us (Bound to Lose)" hein? O lado B (The Wilderness) já é mais o que eu esperava, com muitas influências country, e não me foi uma audição tão agradável quanto The Raven. O lado C (Consider) me levou à Califórnia do fim dos anos 60. Gostei de "It doesn't Matter", uma mera amostra do que a Quicksilver Messenger Service foi em sua segunda fase, as inspirações Grateful Deadianas de "The Love Gangster", os violões e harmonias vocais de "Bound to Fall" a la Jefferson Airplane, a viajante "Move Around", muito da maluquete, e "Johnny's Garden" é muito Moby Grape, assim como "How Far". Excelente lado. Finalmente, o lado D (Rock & Roll Is Here to Stay) é o mais versátil com elementos country ("What To Do"), a jam roquer de "The Treasure" (Take One)", os elementos acústicos de "Blues Man", e em essencial, "Right Now", faixa impressionante com sua velocidade e belas passagens de piano e guitarra. No geral, foi uma grata surpresa, valeu a indicação Daniel?

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Quando as Cifras que Importam Não São as Musicais



E passou-se mais um Rock in Rio, o terceiro dessa década no Brasil, o sexto na história de 30 anos do evento - isso sem contar as edições internacionais.

Dessa feita, o evento que durou sete dias entre 18 e 27 de setembro, com uma pausa entre os dias 21 e 23, trouxe muitos nomes de peso do cenário mundial, a maioria consagrado, e não deu para os fãs reclamarem que não rolou rock 'n' roll. Pelo contrário, dos sete dias do evento, em cinco tínhamos pelo menos um GIGANTE do rock como atração principal no Palco Mundo.

FÃ COM ROUPA INUSITADA SALTA DIANTE DE UM DOS BRINQUEDOS DO ROCK IN RIO


Mas, será que um evento desses, com as dimensões infinitas que circulam pelos arredores da Cidade do Rock, tem como seu objetivo principal a música? Esses GIGANTES são representativos da cena musical atual?

Acompanhei o Rock in Rio via televisão - infelizmente, o fato de o evento ser realizado em pleno setembro impede que eu possa ir na cidade maravilhosa conferir os shows - e depois de ouvir quase todas as bandas que se apresentaram no Palco Sunset e no Palco Mundo, cheguei em algumas conclusões que gostaria de repartir com vocês.

Primeiro: sempre acompanhei o Rock in Rio pela TV. Nunca pude ir, mas o que passava no canal aberto era visto por meus olhos aguçadíssimos - e ouvidos mais ainda - desde a edição de 1991. A transmissão desse ano pude ver por canal fechado, e parabéns para a Multishow, que foi impecável. Som bom, imagem boa e nenhuma interferência nas transmissões dos shows. Muito bom.

ELENCO DO MULTISHOW QUE ACOMPANHOU O ROCK IN RIO: DEDÉ TEICHER, DIDI WAGNER, LUISA MICHELETTI, GUILHERME GUEDES, BETO LEE, RODRIGO PINTO, BRUNO DE LUCA, DANI MONTEIRO, LAURA VICENTE E MARI CABRAL.

Segundo: o festival tinha que voltar a ser em janeiro. Além de ser possível acompanhar os shows em casa até mais tarde (ou poder ver os shows de tarde do palco Sunset), possibilita que mais pessoas que estão em férias possa ir ao Rio. Isso talvez permitiria que o ingresso fosse mais barato, ou trazer shows maiores. Mas aí é que vem a questão: será que é isso mesmo o que os organizadores pensam?

Afinal, se analisarmos os grandes artistas que vieram para essa edição, poucas lançaram álbum esse ano. System of a Down, Elton John, Mastodon, Queens of the Stone Age, Metallica, Slipknot e Mötley Crüe são os exemplos principais, mesmo com o Slipknot tendo lançado um álbum ano passado. Apenas Faith No More, A-ha e Rod Stewart, trouxeram algo de novo para seus fãs, e fizeram shows muito distintos.

Rod Stewart

Rod Stewart (20/09) concentrou sua apresentação em clássicos que colocaram o asilo para dançar, mas que no geral foi bem monótona e sem sal, principalmente por saber que o cara já liderou a voz do Faces e do Jeff Beck Group, mas isso era esperado. Antes dele, passou o Rei Elton John, com um show extremamente burocrático, recheado de clássicos executados em marcha lenta, e que já tinha feito o pessoal do asilo dar uma sacolejada no esqueleto.



Para mim o show do Elton foi melhor do que Rod Stewart, mas a apresentação em si não foi das mais empolgantes, e foi ali que me deu o estalo na mente de "estou aqui mais pelo $ do que pelo show em si". Ainda no domingo do dia 20, Seal e Paralamas do Sucesso abriram o mundo relembrando o seu passado - Seal até tentou trazer algo novo, mas ninguém conhecia - e nada conseguiu superar o que aconteceu de tarde.

Elton John


Sim, os shows da tarde no Palco Sunset foram muito mais animados no dia 20 do que o Palco Mundo. Alice Caymmi só não fez chover. A mulher tem um vozeirão rasgado de arrepiar, e ainda vai dar o que falar. Magic! e John Legend foram gratas surpresas para acompanhar o fim de tarde. Não conhecia eles e gostei do que vi, tanto que estou buscando mais informações.

Pepeu Gomes, Baby do Brasil e Pedro Baby Gomes


A união de Baby e Pepeu foi simplesmente de chorar. Acompanhados do filho Pedro Gomes, o ex-casal Novos Baianos simplesmente colocou o Rio de Janeiro em um córrego de lágrimas de saudades. Pepeu é um monstro na guitarra, e Baby ainda é uma das melhores vozes de nosso país. A lamentar apenas o excesso de dedicações religiosas feito entre as músicas, mas nesse caso, via-se claramente a felicidade por estar diante de uma plateia enorme tocando aquilo que gosta, até por que há algum tempo Baby não colocava no seu repertório canções do Novos Baianos e/ou de sua carreira solo. Foi outro show revival, mas com muito mais feeling do que os grandiosos do Palco Mundo.

Paul Waaktaar-Savoy e Morten Harket


Uma semana depois, o A-ha foi a Ovelha Negra do dia 27. Entre Katy Perry, AlunaGeorge e Cidade Negra (primeira banda de reggae a apresentar-se na história do Palco Mundo), o A-ha, debaixo de muita chuva, mesclou canções de seu mais recente álbum, Cast in Steel, com versões modificadas de grandes sucessos de sua carreira, e arregaçou. Apesar da voz de Morten Harket falhar por diversas vezes, foi emocionante ouvir "Hunting High and Low", "Take on Me", "Crying in the Rain", "Stay on These Roads", "Cry Wolf" entre outros grandes sons que consagrou os noruegues na década de 80. Dos shows da tarde do dia 27 só assisti a Suricato, banda que injustamente perdeu a primeira edição do SuperStar da Rede Bobo para os malfadados almofadinhas da Malta, e que no Rock in Rio, fez um show competente, mostrando que eles são os verdadeiros candidatos a permanecerem como banda de sucesso daqui há alguns anos.


Me recusei a assistir qualquer show do sábado, dia 26, mas não tenho nenhum preconceito em fazerem uma noite dedicada para o pop, tendo Rihanna como headliner, já que isso aconteceu em todas as edições anteriores, com destaques para artistas como Dee-Lite, Nina Hagen, Britney Spears, Shakira, Beyoncé, entre outros.

Mike Patton com o mosh que deu errado

No dia 25, a grande atração era o Slipknot. Horas antes, o Faith No More começou seu show com tudo, tascando uma versão foderosíssima para "Motherfucker", mostrando a audácia esperada para uma banda como o FNM em começar um show com uma música de seu álbum mais recente, e prometendo ser o melhor grupo a passar pelo Palco Mundo naquele dia. Porém, Mike Patton inventou mais uma das suas, e em um momento tipicamente "vou cometer uma loucura", fez um mosh totalmente errado, se espatifou no chão e a partir dali, o show decaiu bastante. Patton ficou praticamente estático - depois soube-se que ele machucou gravemente as costelas - e a animação que começou lá em cima foi diminuindo na pouco mais de uma hora de apresentação que sinceramente, não deixou saudades.

Corey Taylor


O Slipknot fez um show para mim extremamente chato. As canções são tudo parecidas, e o excesso de pirotecnia encobre uma música que não me trouxe nenhuma emoção. O show de 2011 foi muito bom principalmente pela surpresa que causou naqueles que viam o Slipknot pela primeira vez, mas dessa feita, não houveram surpresas. Claro que os músicos são muito bons (principalmente os guitarristas Mick Thomsons e Jim Root, assim como o novato baterista Jay Weinberg), mas foi difícil ficar diante da TV durante as duas cansativas horas de apresentação da banda.

Antes dos dois, o Mastodon acabou roubando a cena no palco mundo, com uma apresentação pegada e cujo destaque foi para a extrema competência vocal dos músicos, já que todos se saem muito bem diante dos microfones não só como backing vocals, mas também como lead vocals. Além disso, o som dos caras é muito bom. Os novatos, nem tão novatos assim, já que estão há quinze anos na estrada, mandaram ver, e entendo quando eles não querem ser chamados de Heavy Metal, até por que as canções são muito mais rock do que heavy, e foi um show divertidíssimo de se assistir na sexta-feira à noite, mas que não chegou perto da maior apresentação do Rock in Rio, a qual ocorreu no Palco Sunset às 20 horas, e que fácil fácil podia ter colocado o Mastodon lá.

Steve Vai, "comendo" as cordas de sua guitarra


Essa apresentação foi do lendário guitarrista Steve Vai, acompanhado pela Orquestra de Câmara de Florianópolis. O homem que já esteve ao lado de Frank Zappa conduziu a orquestra ao mesmo tempo que conduzia suas guitarras com uma habilidade exclusiva. Por vezes, era impressionante as caras do maestro verdadeiro da orquestra, perdido e alucinado com as barbaridades que Vai cometia em seu instrumento. Ele detonou, só isso. Puxando as cordas da guitarra com a boca, abusando de escalas, bends, vibratos, hammers e todas as técnicas de guitarra com altíssima sapiência, em uma hora de apresentação o homem fez por merecer todas as críticas positivas que o colocam como um dos maiores guitarristas de todos os tempos. A Orquestra foi uma ótima acompanhante para o músico, que encerrou sua apresentação com a lindíssima "For the God of Love", e fez um dos momentos mais incríveis que já vi um guitarrista fazer, quando com a língua, conseguiu "entrar" na frequência de um vibrato, alterando-a com a passagem da língua pela corda de forma arrepiante. Não tinha como não ficar de olhos vidrados com aquilo, foi demais! Até por isso acho que o que veio depois não teve tanto impacto em mim, pois o orgasmo musical que Vai propiciou na noite do dia 25 era imbatível.

Naquele mesmo dia ainda rolaram Nightwish - não consegui aturar -, De la Tierra, esse no palco mundo e com um show bem agitado, os portugueses do Moonspell, com a participação de Derick Green do Sepultura, e o clássicos do terror, o único do dia que não consegui ver.

Serj "Ouro Preto" Tankian


Para o dia 24, a expectativa ficava por conta do System of a Down. Apesar de estarem afastados dos estúdios há dez anos, o grupo fez um dos principais shows de 2011, e óbvio que a nostalgia imperava na apresentação da banda, a qual foi muito boa. Porém, apesar dos inúmeros clássicos e de uma pancadaria bem dosada e boa de se ouvir, ficou uma sensação de "Quando vai vir algo novo? Qual será a novidade?". Isso aconteceu com outro headliner, o Metallica, mas comento mais adiante sobre o quarteto. Sobre o System of a Down, foi um bom show, valeu a pena ficar acordado até as duas da madrugada de sexta-feira para vê-los, mas tomara que apresentem algo novo em breve.

Johny Depp e Joe Perry


A noite do dia 24 na verdade teve como o melhor momento a apresentação do Hollywood Vampires. Liderados por Alice Cooper, tendo a cozinha do Guns Duff McKagan (baixo) e Matt Sorum (bateria) e contando com Joe Perry (Aerosmith) e Johnny Depp nas guitarras, o grupo fez um showzão para realmente animar a festa, Depois da passagem nada a ver do CPM-22, os Vampiros trouxeram ao Palco Mundo clássicos do rock 'n' roll, reconhecíveis até por uma marmota bêbada, e não teve como não cantarolar junto da TV. Apesar de focarem muito no fato de Depp estar na banda, isso foi o de menos. O ator toca bem seu instrumento, faz bases e solos com simplicidade e foi muito simpático, sendo apenas mais um desse poderoso time, que ao que parece, irá lançar um material em breve. Foi um belo show, tanto para compensar os fracos do CPM-22 (não gostei mesmo) quanto o chatérrimo Queens of Stone Age, banda que não consegui aturar e troquei de canal pouco depois da menina mostrar os seios e ser apalpada para todo mundo ver na Multishow - atitude lamentável que se repetiu também pouco antes do show do Slipknot. Engraçado que em 2001, o pessoal do QOSA ficou peladão no palco, mas dessa vez ficaram bem comportadinhos nos seus cantos.

Na tarde do dia 24 só consegui conferir o Halestorm, com um show pancada que podia fácil fácil ter ocupado o lugar do CPM-22. Os demais - Lamb of God, Project 46 e Deftones - infelizmente não consegui assistir por terem ocorrido durante o horário de trabalho.

Thiago Bianchi e Michael Kiske


Voltando para a primeira semana, o festival começava com tudo. Afinal, dois nomes consagrados do evento estariam no dia 18 e no dia 19 como headliners - Queen e Metallica respectivamente. O dia 19 abriu com o Noturnall, acompanhado por Michael Kiske, em um show que teve altos e baixos. A participação da mãe do vocalista Thiago Bianchi em "Women in Chains" não foi das melhores, e podia ter passado longe do Rio de Janeiro, mas quando Kiske entrou no palco, daí o Rock in Rio explodiu em vibração. O show do Angra também foi muito bom, ainda mais com as participações de Doro Pesch (como a velhinha continua linda) e de Dee Snider, que mostrou como se faz e levantou a galera. Acredito que quem estava assistindo essa apresentação no Palco Sunset deve ter ficado encantado com o que saía das caixas de som. Ministry e Korn, com seus experimentalismos exacerbados, acabaram fazendo eu mudar de canal, mas voltei a tempo de conferir a surpreendente apresentação do Royal Blood, uma banda que achava que ia fazer fiasco, mas fez um belo show, mesmo com a fria recepção do público no local. O Gojira havia passado no palco mundo, mas este não assisti.

Palco do Mötley Crüe


Antes do Metallica, o lendário Mötley Crüe fez sua despedida do Rock in Rio com um show competente, mas muito fraco. Vince Neil, com seu formato de queijo, nunca foi um grande vocalista, e apesar de trazer muito carisma, não contagiou. Por outro lado Mick Mars esganiçou. O cara está tocando como nunca, e tomara que ele mantenha uma carreira solo pós-fim do Mötley, pois será uma pena perder de ver esse homem em ação. Outro que está mandando ver é Tommy Lee, segurando as pontas na bateria como poucos. Uma pena que não trouxeram o famoso palco com a Montanha Russa, e apesar dos pesares, foi um bom show, marcado mais pelo saudosismo e pelo velho e bom rock 'n' roll, meio que no arrasto, mas capaz de fazer balançar o pescoço.

James Hetfield (Kirk Hammett ao fundo)


Quando o Metallica subiu ao palco, ficava a esperança de que eles mudassem o repertório que está rolando há cinco anos praticamente. Só que não, o Metallica não trouxe nada de novo. Foi o mesmo e velho show que já vimos em diversos DVDs e passagens da banda pelo país. Sinceramente, o Metallica podia esperar mais para vir ao Brasil, e mesmo com a avalanche de clássicos apresentados no Palco Mundo, não deu para empolgar. Para piorar, o som caiu por duas vezes durante "Ride the Lightning" - seria consequência de haver um torcedor portando a bandeira do Grêmio Football Portoalegrense em cima do palco? - estragando o solo de Kirk Hammett, mas que por outro lado, foi depois disso que o grupo resolveu tocar um pouco mais. Prometeram voltar em 2017, mas honestamente, bem que podiam trazer o Slayer no lugar deles.

E um dia antes, a abertura do evento com a tão aguardada apresentação de Queen + Adam Lambert. Foi um dia de ansiedade geral. Por ser na sexta-feira, não consegui ver nenhuma das apresentações do Sunset e do Palco Mundo antes do Queen, já que só cheguei em casa do trabalho às onze horas. Ainda bem, pois não tive que ver os seios da Martinália no topless em homenagem à Cassia Eller.

Adam Lambert e Brian May


Brincadeiras a parte, assim que cheguei em casa, me preparei para conferir o show dos headliners da noite. Foi um baita show? Sim, claro que foi, só que parecia muito mais um Queen on Broadway do que um show normal do Queen. Nem vou comparar Adam Lambert a Freddie Mercury. O garoto - nem tão garoto assim - é um bom vocalista, mas não tem como aceitá-lo como vocalista de uma banda do Queen. Ele não pode assumir os vocais da banda de jeito nenhum, ainda mais com um estilo que imita, mas não consegue ser, Freddie Mercury. George Michael foi George Michael quando esteve naquela posição, assim como Paul Rodgers foi Paul Rodgers, e Adam Lambert não consegue ser Adam Lambert. Talvez o peso de ser um menino perto dos vovôs Brian May e Roger Taylor afete isso, mas o problema não é só Lambert. May está totalmente fora de forma. O solo de "Brighton Rock" foi vergonhoso, e mesmo na bela "Love of My Life" (com Mercury dando as caras no telão) May não conseguiu reproduzir o acompanhamento sem dar uma engasgada. Taylor sempre foi um ótimo baterista, e não pecou no show, até surpreendendo quando assumiu os vocais de "A Kind of Magic". As surpresas ficaram por "The Show Must Go On" e "Stone Cold Crazy", e acredito que quem esteve lá deve ter adorado o show, mas para mim ficou a sensação de que "estamos aqui por que estão nos pagando bem". E isso aconteceu com outros amigos que assistiram os shows da banda em São Paulo e Porto Alegre, onde os preços dos ingressos eram quase do mesmo valor (ou até maior) do que o pago para ir no Rock in Rio.

E aí está, será que realmente é a música o que está no pensamento da maioria dos artistas "veteranos"? Ao ver o show do Queen + Adam Lambert e do Metallica, que não trouxeram nada de novo, confesso que me decepcionei bastante com a atitude deles. E não foi só no Rock in Rio. O valor de R$ 380,00 para assistir somente o Queen + Adam Lambert em Porto Alegre foi tão pornográfico quanto os lançamentos da Bruna Surfistinha. Em um local onde cabem pelo menos 10 mil pessoas, chutando por baixo, imagine a renda que os promotores não tiveram? Mas imagine também quanto a trupe de Brian May cobrou para essa apresentação? É muito dinheiro rolando.

The Allman Brothers Band, detonando no final da década de 60


Foi-se o tempo em que um Yes ou um Genesis ousavam em apresentar na íntegra um álbum duplo recém lançado, sem nada de velho, apenas canções novas, ou de um Pink Floyd, que levava para o palco canções que só iriam ser lançadas anos depois, ou um Led Zeppelin, Allman Brothers, Grateful Dead, que pegavam uma canção clássica e a transformavam em uma viajante sessão sonora. Esses momentos não existem mais no rock de hoje, e é uma pena. Ao ver uma banda como o Metallica ficar oito anos sem lançar material inédito, e continuar cinco anos com o mesmo set list de apresentações, é como ver filme da Sessão da Tarde: é bom, mas já se sabe o que vai acontecer. E o pior é que não fica só no Metallica. O próprio System of a Down, uma banda que confesso não sou fã e não acompanho muito, também está nessa barca.

O novo Kiss, com as máscaras antigas


Saltando para fora do Rock in Rio, é mais vexatório ainda ver que o próprio Yes continua na ativa mesmo com a morte de seu líder, Chris Squire, tendo apenas Steve Howe e Alan White como membros clássicos, mas não originais. Esses estão excursionando com material antigo, e prometem lançar material novo, o qual, se for do mesmo nível de Heaven and Earth (2014), é melhor não lançar. Claro que várias bandas já seguiram sem seu líder, mas no caso do Yes, é uma lástima que isso esteja acontecendo. Outra banda que também só vive pelas cifras monetárias é o Kiss. Não que o grupo nunca tenha vivido para isso, mas ter Tommy Thayer e Eric Singer emulando as máscaras de Ace Frehley e Peter Criss é uma afronta bizarra e debochada com os fãs antigos, que vivenciaram as duas primeiras fases do grupo e que, acredito fielmente, não se importariam em ver o atual quarteto sem as máscaras, pois as músicas apresentadas estão acima do espetáculo circense, mas falsificado, que acabou virando o show do Kiss nessa última década. Claro que assistir Gene cuspindo fogo, a guitarra do Spaceman atirando e tudo o mais é sempre bem-vindo, só que é duro saber que aquele Spaceman não é o original (o Kiss não é um 007 para ficar trocando de pessoas, está mais para um Chaves, Indiana Jones, Kevin McCallister, Marty McFly …).

Legião Urbana?


Aqui por terras brasilis, há pouco tempo Davo Villa-Lobos e Marcelo Bonfá confirmaram a volta do Legião Urbana com André Frateschi como vocalista. Acredito que os fãs do grupo - os verdadeiros - devem ter soltado um sonoro "Put@ que Pariu!" ao ler essa notícia. Como vão substituir um ícone como Renato Russo nos palcos? É da mesma proporção que colocar o Adam Lambert no lugar de Freddie Mercury. Desconheço a carreira de André, mas duvido que ele tenha o carisma que Renato tinha. E pior que muita gente vai pagar para ver essa turnê, e isso, óbvio, vai dar um $ para os músicos, e novamente me pergunto: "Será que é a música que vem em primeiro lugar".

Posso estar errado, mas vejo que cada vez mais as bandas estão nessa por dinheiro, e não pela música em si. E os fãs gostam disso. Em épocas onde as possibilidades de buscar por novidades com o avanço da internet são tão fluentes, permitindo que sejam conhecidos grupos e artistas obscuros, parece que esses Indiana Jones da música são uma parcela pequena perante a esmagadora quantidade de fãs que lotam os shows dos artistas citados. E isso que estou falando apenas dos artistas que passaram pelo Rock in Rio. Quantos outros vem navegando no mar calmo de "fazer shows com velhos sucessos sem lançamento de algo original" pelo mundo?

Ingresso do festival
Ao mesmo tempo, leituras durante e pós-Rock in Rio deixaram-me ainda mais intrigado com esses fãs e com os organizadores do evento. Afinal, o preço em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais) para cada noite do festival é nada convidativo, mas todos os dias a Cidade do Rock estava lotada, com mais de 80 mil pessoas, e pelas imagens e entrevistas dadas na TV, uma ampla maioria formada por adultos de classe média-alta, que figuram em protestos contra o atual governo federal seja nas ruas, seja em redes sociais. Então, onde está a crise para eles?. Mas isso é o de menos, o ser humano tem total liberdade de gastar seus tostões naquilo que lhe convém e de reclamar idem.

Só que além dos ingressos exorbitantes, o consumo de bebidas e comidas também atingia níveis altos de valores. Para se ter uma ideia, um saco de pipocas custava R$ 10,00. Um copo de refrigerante era R$ 7,00, enquanto um copo de sucou ou R$ 10,00. Ainda existia uma variedade incrível para um festival de rock, com lojas especializadas em pizzas, batatas e até yakissoba e sushi (!), tudo com preços girando entre R$ 10,00 e R$ 25,00. Alimentação a parte, o pessoal tinha também opções de diversão em Roda Gigante, Tirolesa, Montanha Russa, XTreme eram algumas opções de diversão (pombas, como vai se divertir em um evento de música se não for ouvindo música?), e pior que teve gente brigando para usar os brinquedos. Resumindo, só para adentrar a Cidade do Rock em uma noite de evento, fazer dois lanches, considerando que o cidadão ia ficar lá das 14 horas até as 02 da manhã, no mínimo R$ 500,00 reais seria gasto por dia, e para ver atrações que não são mais nada além de um DVD ao vivo.

Mas além disso, lojinhas e lojinhas de patrocinadores distribuindo lembrancinhas, aumentaram a sensação de que Comércio é Comércio Mesmo, e pela TV, era possível ver pessoas constantemente passeando em todas as apresentações. Não a maioria do público, mas sempre tinha gente caminhando e perdida em TODAS as apresentações que eu vi, assim como uns malucos cruzavam na tirolesa diante do palco. Depois reclamam que Geovanna Tominaga foi lá para ver o Nirvana ...

A lama de 85, colhida em 2015
Pior ainda, alguns souvenirs eram tão inusitados quantos os valores cobrados por eles. Tirando uma camiseta com a inscrição de todos os participantes de todos os Rock in Rio (custando R$ 35,00), e uma mini-Cidade do Rock no valor de R$ 70,00, os produtores conseguiram a façanha de inventar um souvenir tão babaca quanto suas vontades de ganhar dinheiro: A Lama de 85. Pelamordedeus. Os caras recolheram a lama da Cidade do Rock em 2015, trinta anos depois, jogaram dentro de placas de acrílico, e vendiam como se aquilo fosse de 1985 por modestos R$ 185,00. E pior, quatorze pessoas compraram isso (pra quê?). Daí repito, onde está a crise? Onde está o bom senso com o dinheiro ganho suado? Ou essa gente aí tem dinheiro sobrando e um pouco de lama da Cidade do Rock em casa vai ser legal para plantar as samambaias?

Enfim, para um evento tão grandioso, fica que o que menos contou foi a música, ou melhor, o sentimento que a música traz. Não vi um Bruce Springsteen tocando durante duas horas, suadão e faceiro, indo pro meio da plateia, ou um Slayer homenageando seu fundador com uma emoção quase raivosa de ter que fazer aquilo, ou um Neil Young estourando as caixas de som. Vi shows basicamente burocráticos e mornos, e no Palco Sunset, ou nos de menor porte, a presença de que "vale a pena eu estar aqui, pois a emoção é maior do que a cifra que entrará na minha conta bancária". Muitas das bandas do Palco Sunset fizeram os melhores shows do dia, mas por outro lado, o publico também não é nada receptivo com novidades. Que adianta trazer um Ghost se ele não consegue animar a plateia? Acho que o Mastodon sofreu do mesmo problema que o Ghost em 2013.

Imagina se em uma noite do Rock in Rio tivéssemos, na ordem, El Efecto - que duvido que tocasse num festival como esse - Blue Pills, The Winery Dogs e, fechando o palco mundo, o Slayer? Que espetáculo de novidades musicais nao teríamos? Mas será que é isso que o público quer?

Valores altos para pagar os cachês de artistas consagrados, cuja maioria já pisou no palco do Rock in Rio, e hoje estão afundados em um passado glorioso, não são dignos de um festival como esse. Atitudes de montar bandas usando nome de gigante, mas com outros artistas no lugar, soa-me tão charlatanista quando as criações do New-Steppenwolf ou do New-Deep Purple no final da década de 70, ou seja, bandas covers de si mesmo, com um ou dois artistas originais, e sem nada de novo a acrescentar. 

Entendo que muita gente gosta disso, mas na minha visão, e talvez eu deva estar totalmente errado, isso não me serve mais. E mais, com uma sociedade tão desnivelada financeiramente como a nossa sociedade brasileira, a arte por si só não chegou a ser consumida, mas sim um mero Jardim de Infâncias com trilha sonora e alimentação cara para a diversão de pessoas com um pouco mais de poder aquisitivo. Claro que nem todo mundo que estava lá era assim (tenho vários amigos que juntaram grande o ano inteiro para poder chegar perto de Brian May), mas fica aqui o meu desabafo. Joguem as pedras ...
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