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terça-feira, 30 de junho de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Brasileiros em Montreux



Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini na Consultoria do Rock, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas "Brazilian Nights", levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.

Gilberto Gil - Ao Vivo [1978]

A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros ("Chuck Berry Fields Forever", com letra cantada em inglês,  ainda para uma plateia em marcha lenta, e "São João, Xangô Menino", já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada "Respeita Januário", que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, "Chororô" e "Ela". Porém, são os delirantes improvisos de "Bat Macumba", com citação à "Exaltação À Mangueira" e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, "Procissão", mesclando ainda "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano, e fazendo os suíços entoarem "Mamãe Eu Quero" a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show eu teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título "Triole (Jam Session)". As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais. 

Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)

Participação

A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)

1. Chuck Berry Fields Forever

2. Chororô

3. São João, Xangô Menino

4. Respeita Januário

5. Ela

6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira

7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero

8. Triole (Jam Session)

A Cor Do Som - Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]

Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais "conservador", e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de "Dança Saci", ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em "Chegando Da Terra", a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). "Cochabamba" e "Festa Na Rua" são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto  "Espírito Infantil" e a inesperada "Eleanor Rigby", voltada para o frevo,  apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda.  Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de "Arpoador" que os membros d'A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo - difícil saber qual o melhor - sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns. 

Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)

Com

Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)

1. Dança Saci

2. Chegando da Terra

3. Arpoador

4. Cochabamba

5. Brejeiro

6. Espírito Infantil

7. Festa na Rua

8. Eleanor Rigby

Hermeto Pascoal - Ao Vivo Montreux Jazz [1979]

Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazilian Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de "O Bruxo Dos Sons". Nobs o apresenta como "O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível". Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de "Pintando o Sete", "Maturi" e "Quebrando Tudo", essa alucinante, com vocalizações - endiabradas - duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em "Remelexo", o saxofone, sobre as palmas da plateia, em "Sax E Aplausos", com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em "Sax e Aplausos", também soltam os pulmões em "Nilza" e "Forró em Santo André", onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda "Montreux", música "muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel", nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco. 

Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)

Com

Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão) 

1. Pintando O Sete

2. Forro Em Santo André

3. Remelexo

4. Bem Vinda

5. Sax E Aplausos

6. Lagoa Da Canoa

7. Fátima

8. Terra Verde

9. Maturi

10. Quebrando Tudo

11. Nilza

12. Forró Brasil

13. Montreux

14. Voltando Ao Palco

15. E Adeus

Elis Regina - 13th Montreux Jazz Festival [1982]

Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 - o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 - ela teve que fazer um show extra como matiné - superlotada - durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e - a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: "Cai Dentro", peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira "Madalena", "Na Baixa Do Sapateiro", esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e "Upa Neguinho", com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, "Ponta De Areia" e "Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria", nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa "Cobra Criada", de João Bosco, e o registro de um fundamental terceiro fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a - sorte/ventura - de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruno albino impõe toda sua virtuosidade em "Corcovado", "Garota de Ipanema" - que Elis detestava - e "Asa Branca", tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançado pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!

Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)

1. Cobra Criada

2. Cai Dentro

3. Madalena

4. Ponta De Areia

5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria

6. Na Baixa Do Sapateiro

7. Upa Neguinho

8. Corcovado

9. Garota De Ipanema

10. Asa Branca

Com 

Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)

Os Paralamas do Sucesso - D [1987]

Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d'Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita "Será Que Vai Chover?", que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar "Alagados" que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de "Ska", "A Novidade", "Selvagem" e "Meu Erro". O ápice da noite vai para a espetacular versão de "Óculos", com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d'Os Paralamas. 

Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)

Com

João Fera (teclados)

George Israel (saxofone em 3)

1. Será Que Vai Chover?

2. Alagados

3. Ska

4. Óculos

5. O Homem

6. Selvagem

7. Charles Anjo 45

8. A Novidade

9. Meu Erro

bonus tracks

Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80. 

Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira - Brasil Night - Ao Vivo em Montreux [1981]

Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em "Davilicença", mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de "Bate Coração" e o baião de "Baião", mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa "Tudo Azul". Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em "Berimbau", com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando "Asa Branca" de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica "Samba de Orly", obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar. 

Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso - Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]

Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada "No Balanço da Canoa", faz os europeus baterem palma e cantarem durante "Pelas Ruas Que Andei", mas tem como ponto alto a tocante "Talismã" e a endiabrada "Casinha de Buinha", levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz "Fé Cega, Faca Amolada", emociona com "Ponta de Areia" e encerra o LP com a entusiasmada "Maria Maria", curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada "Banda da Capital", levantando o Cassino de Montreux, e "Balão", conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocada à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto. 

Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco - Brazil Night Montreux 83 [1983]

O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a "noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux", e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de "Maria Bethânia", as belas revisões para "Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi" e a lindíssima "Terra", apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para "Eclipe Oculto" e "Odara", as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça "Deixar Você", fazendo os europeus vibrarem com "Andar Com Fé", "Napoleão" e o forró de "Folia No Matagal", esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco ("Ruan basco", segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai "cantar um samba" para a galera. O que ele faz em "Linha de Passe", um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com "Nação", "Aquarela do Brasil" - com o Cassino vindo abaixo - e "O Mestre Sala dos Mares", é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.

domingo, 30 de novembro de 2025

Eu Desprezo O Meu Passado - Parte I

N. R. Este texto é também uma breve homenagem ao nosso leitor Igor Maxwell, fã de Roberto Carlos

Ah, os álbuns de estreia. Quantas bandas e artistas orgulham-se de terem em seus primeiros discos verdadeiras escolas da arte, essenciais em qualquer prateleira dedicada à música. Led Zeppelin, Black Sabbath, Kiss, The Doors, Jimi Hendrix, Cream, King Crimson, The Stooges, Ramones, Van Halen, Dire Straits, Posssessed, Slayer, Metallica, Mötley Crüe, Guns N' Roses,  Pearl Jam, Rage Against the Machine, Os Mutantes, Secos & Molhados, Legião Urbana ... a lista é enorme de nomes que eternizaram seus primeiros álbuns, e passaram o resto da carreira tendo que tocar no mínimo uma canção destes discos nas suas apresentações. 

Porém, muitos artistas surgiram em sua carreira cantando não exatamente aquilo que gostariam, mas sim fazendo algo que o empresário, ou os pais, ou até mesmo a gravadora obrigou/sugeriu. Fora aqueles que, com o passar dos anos, acabam modificando formações, e abandonaram os estilos que construíram inicialmente, tomando novos rumos inimagináveis quando de seus primeiros discos.

Dentre esses dois mundos, há com certeza uma boa gama de artistas que simplesmente, ao se tornarem gigantes, desprezaram totalmente seus lançamentos iniciais. Quando eu digo desprezar totalmente, quero dizer que nunca mais apresentaram canções de seus primeiros discos, ou se quer as colocaram em alguma coletânea. Trago aqui alguns nomes conhecidos nacional e mundialmente, com a certeza de que deixei outros de fora, mas que o nobre leitor terá o espaço dos comentários para relembrar aquele artista que desprezou totalmente seu passado. Começo com três gigantes nacionais e três nomes do progressivo britânico, e em dois dias, apresento mais seis nomes consagrados mundialmente. 

Roberto Carlos 

Álbum desprezado: Louco Por Você [1961]

Este talvez é o caso mais emblemático de todos os discos que irão aparecer por aqui. Lançado dois anos depois da estreia em compacto do jovem Roberto (com apenas 20 anos), Louco Por Você é uma mistura de estilos musicais que variam de boleros e roquinhos (com destaque para "Só Você"), até MPB (aqui destaca-se "Ser Bem") e música romântica (com uma constrangedora versão para "Cry Me A River", batizada "Chore Por Mim"). A maioria das composições é de Carlos Imperial (responsável por lançar Roberto nas rádios no fim dos anos 50, início dos 60), com arranjos orquestrais feitos por Astor Silva para agradar os "jovens" daquela época. O disco foi um fracasso de vendas (estimativas dizem que vendeu no máximo 500 cópias), e o Rei Roberto, após adquirir esse status monárquico, nunca quis relançar o álbum em formato algum, inclusive quando foram resgatados todos os seus discos da década de 60 no formato de CD. Além disso, solicitou (ordenou?) a retirada do disco na edição digital do iTunes, no ano de 2012, ficando apenas versões piratas e as raras edições comercializadas nos anos 60. Há boatos que ele teria comprado as cópias restantes do disco e mandado destruí-las, o que é uma lenda tão grande quanto a referente ao seu maior rival em termos de raridade nacional, a cópia original de Paebirú. De qualquer forma, apesar de chatinho, a voz marcante de Roberto está lá para todos conferirem. 

Elis Regina 

Álbuns desprezados: Viva a Brotolândia (1961), Poema de Amor (1962), Ellis Regina (1963) e O Bem Do Amor (1963)

A linha musical destes discos da Pimentinha vai na mesma da de Louco Por Você. A diferença central aqui é a idade de Elis. Se Roberto tinha apenas 20 anos em seu disco de estreia, Elis tinha apenas 15 em Viva a Brotolândia, e continuou uma adolescente de 17 e 18 anos nos demais discos, nos quais ela foi rebatizada como Ellis Regina (com dois L's), em uma tentativa indecorosa de conquistar um mercado internacional. Totalmente incapaz de controlar sua carreira, Elis submeteu-se a gravar de tudo um pouco nesse período. Sambinhas, roquinhos, boleros, jazz, tcha-tcha-tcha, e outros estilos da moda, em discos praticamente tão confusos quanto as lembranças de Elis para estes álbuns. Mas, apesar de mesmo muito jovem, e cantando "canções de amor" que pouco correspondiam para uma adolescente, a menina Elis já mostra o vozeirão que a consagraria anos depois em faixas como "À Noite", "Dá Me Um Beijo", "Há Uma História Triste", "Mesmo de Mentira", "Murmúrio", "Outra Vez", "Podes Voltar" e "Retorno" (para pescar duas canções de cada álbum). Estas 4 raridades nunca tiveram relançamentos oficiais enquanto Elis estava viva. Há uma coletânea não oficial, lançada pela Disco Lar em 1969, que apresenta canções dos dois primeiros álbuns, e com a capa idêntica a de Poema de Amor. Em 1982, com o falecimento de Elis, a Som Livre lançou um compacto com "Baby Face" e "Me Deixas Louca", no que seria a primeira e a última gravação de Elis unidas em um único disquinho, bem como a Continental lançou Nasce Uma Estrela..., álbum duplo com Viva a Brotolândia no vinil 1 e Poema de Amor no vinil 2, e em 1989, a Phonodisc relançou Nasce Uma Estrela em versões individuais, batizadas respectivamente 1961 Nasce Uma Estrela - 1º LP De Elis Regina e 1962: A Estrela Brilha - Segundo LP De Elis Regina, totalmente caça-níqueis. Ellis Regina e O Bem Do Amor saíram em raras edições em CD no final dos anos 90 e em meados dos anos 2000, mas honestamente, os quatro são discos apenas para completistas.

Rita Lee 

Álbuns desprezados: Build Up [1970] e Hoje É O primeiro Dia Do Resto da Sua Vida [1972]

Diferente de Elis e Roberto Carlos, aqui o caso de desprezo não é pela qualidade, mas talvez por quem acompanha a artista principal na produção: Arnaldo Baptista. Nos seus dois discos de estreia, Rita Lee estava ainda nos Mutantes, e é na companhia do então marido Arnaldo, Sergio Dias, Liminha e Dinho Leme (os então colega de Mutantes) que ela grava álbuns muito bons, que facilmente estão entre os melhores que ela já lançou. Build Up fez um pequeno sucesso quando de seu lançamento, tendo sido responsável, segundo as más línguas, pelo início do fim de Rita com os Mutantes - o álbum havia vendido mais sozinho do que os 4 discos lançados pela banda até então, e a fama teria subido à cabeça de Rita. Faixas como "Sucesso Aqui Vou Eu" e "José" viraram preferidas dos fãs logo de cara, mas há bem mais neste bom disco. Já o segundo álbum tem a forte presença dos músicos do Mutantes, e é uma sensacional experiência sonora para quem admira o som do então quinteto, com destaque para faixas como "Superfície do Planeta", que já revela os caminhos progressivos que eles iriam assumir logo em seguida, "Tapupukitipa", outra faixa com grandes temperos progressivos, e a própria faixa-título. Coloco facilmente este num Top 5 da ruiva (se bobear, Top 3). Porém, após sair dos Mutantes, criar a Tutti-Frutti logo em seguida, e passar o resto de sua vida ao lado do marido Roberto de Carvalho, Rita nunca se deu ao trabalho de tocar uma única canção destes discos. Ambos foram relançados em vinil em 1986, e em CD em 1992, e canções de ambos os discos saíram por coletâneas não-autorizadas da Fontana (selo ligado à Philips), no caso O Melhor De Rita Lee (1976), e da Polyfar (selo ligado à Polygram), no caso Os Grandes Sucessos De Ritta Lee (1981), e estão presentes no Box Discografia (de 2015), que abrange toda a carreira solo de Rita, mas mesmo assim, a ruiva nunca mais deu atenção para essas joias musicais. 

Genesis 

Álbum desprezado: From Genesis to Revelation [1969]

O Genesis começou mudando de baterista como quem muda de roupa. Em menos de um ano passaram 3 nomes pelas baquetas da banda, sendo os principais John Silver e Chris Stewart. From Genesis to Revelation é a estreia do grupo, e surgiu através do produtor, escritor e empresário Jonathan King, que foi o responsável por batizar o nome da banda, sugerir arranjos (a cargo de Arthur Greenslade), ajudar nas composições, e que com tudo isso, ficou detentor dos direitos sobre o disco. Até hoje, ele é o nome para o qual From Genesis To Revelation pertence, mesmo com a insistência de Tony Banks (tecladista do Genesis) em comprá-lo. É um Genesis muito diferente daquele que se torna um gigante prog no ano seguinte, com letras místicas/religiosas, e que junto com a capa preta somente com o título do álbum, foi catalogado em lojas de música nas seções religiosas, sendo impossível de ser encontrado por alguém que quisesse ouvir o som leve da banda. Dentre as 13 faixas há várias músicas de bom nível, e destaco "In the Beginning", "In Limbo", "The Conqueror" e principalmente "The Serpent". O álbum foi relançado inúmeras vezes pelas mãos de King, mas o Genesis que se forma com Banks, Peter Gabriel, Mike Rutherford, Steve Hackett e Phil Collins a partir da década de 70, jamais tocou uma única canção deste bom disco  (apesar de reaproveitar alguns trechos instrumentais de uma que outra canção). E mesmo coletâneas oficiais como os boxes Genesis (1982),  Genesis - The Best Of! - Special Club Edition - 10 records (1985) e  Archive 1967-75 (1998) não trazem nada do álbum, no máximo algumas mixagens diferentes no caso de Archive ..., e só.

The Moody Blues 

Álbum desprezado: The Magnificent Moodies [1965]

Para quem conhece o Moody Blues como um dos pais do rock progressivo, com letras densas, álbuns conceituais, camadas de mellotron, a flauta brilhante de Ray Thomas e os vozeirões de John Lodge e Justin Hayward retumbando nas caixas de som, não consegue entender como essa banda transformou-se tanto em pouco tempo. A estreia dos Blues é um bom disco de British Blues, onde quem comanda a trupe é o vocal e a guitarra de um certo Danny Laine (futuro Wings), o qual destaca-se junto de ótimas vocalizações e o piano agitado em rocks/blues típicos do período, como mostram "Bye Bye Bird" (de Sonny Boy Williamson, com Danny comandando a harmônica), "I'll Go Crazy" e "I've got a Dream". Há baladinhas sessentistas para o piano de Mike Pinder brilhar, principalmente na faixa mais conhecida do álbum, "Go Now!", que inclusive batizou relançamentos do disco ao longo dos anos nos Estados Unidos e Canadá, ou nas lindinhas "I Don't Mind" e "Let Me Go". Ray surge com sua flauta aqui acolá, sendo mais atração por seu vozeirão na ótima interpretação vocal para "It Ain't Necessary", de Ira e George Gershwin. O Moody Blues era mais uma boa banda britânica lutando por seu espaço, na linha de Animals, Stones, Beatles, Yardbirds, entre outras, e é inacreditável que apenas a saída de Laine, e a entrada de Lodge e Hayward, levou o grupo a criar algo tão inédito quanto Days of Future Passed dois anos depois, seguindo na mesma linha e conquistando o mundo a partir de então. Nada do que foi gravado aqui foi apresentado ao vivo pós-entrada da dupla Hayward/Lodge. A Decca (detentora dos direitos do álbum) lançou uma coletânea batizada The Beginning Vol. 1, em 1973, pouco depois do primeiro término da banda, que resgata algumas faixas deste período, mas as principais coletâneas da banda, This Is The Moody Blues (1974) e 20 Super Hits By The Moody Blues (1980) não trazem uma única musiquinha de The Magnificent Moodies

Renaissance 

Álbuns desprezados: Renaissance [1969], Illusion [1970]

Quando os Yardbirds acabam em 1968, o vocalista e gaitista Keith Relf já estava pensando em outros caminhos musicais. Sua ideia era focar-se na música renascentista, fugindo do blues e do british rock que o haviam consagrado anos antes. Assim, com a irmã Jane Relf, o parceiro de Birds Jim McCarty e mais baixista Louis Cennamo (baixo) e John Hawken (piano, teclados), forma a Renaissance em 1969. De cara lançam um álbum excelente, um dos pilares do que podemos chamar de prog sinfônico, com lindas faixas comandadas pela voz suave de Jane, o complexo piano de Hawken e melodias/harmonias muito bonitas, vide "Kings & Queens", "Islands" e "Bullet". Divergências musicais e brigas internas levaram à mudanças na formação para o segundo álbum, Illusion - o qual é lançado originalmente só na Holanda e França - , o qual também é uma obra sensacional, mas foi gravado durante mais problemas, já que Keith no meio das gravações, decide pular da barca, deixando o nome Renaissance nas mãos de Hawken e Jane. O álbum acaba sendo uma miscelânea de canções gravadas com Relf e após sua saída, mas com lindas faixas como "Face of Yesterday" e "Golden Thread", estas ainda com Relf. Para terminar o disco, Hawken chamou amigos de uma ex-banda com quem tinha tocando pré-Renaissance (o The Nashville Teens), e dentre eles, Michael Dunford, além da escritora Betty Thatcher. Dentre os registros da nova formação, destaque para "Mr. Pine", primeira composição de Dunford para o grupo, e que teve seu trecho instrumental central reaproveitado anos depois em "Running Hard", um dos mega-sucessos do grupo. Illusion teve uma parca turnê de divulgação, Hawken e Jane desistem do projeto, e Dunford fica a ver navios. Com a parceria de Thatcher, eis então que reformam a Renaissance, agora com Annie Haslam  (vocais), John Tout (piano) e Jon Camp (baixo), mais Terence Sullivan (bateria) e Mick Parsons (guitarra), e o resto é história. Veio Prologue (1972) e a Renaissance de Haslam lançando discos de sucesso atrás de sucesso ao longo dos anos 70, desprezando totalmente o período dos Relf (tanto que após a morte de Keith, os demais ex-Renaissance criam a Illusion, justamente para resgatar canções da primeira geração do Renaissance em homenagem ao loiro). Levou anos para que Annie desse o ar da graça e inserisse a faixa "Island" no repertório do Renaissance, e nas diversas coletâneas da banda, são pegas somente canções a partir de Prologue, sem fazer uma citaçãozinha para estes dois lindos e fundamentais álbuns.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Tom Jobim - The Man From Ipanema [1995]


Há 30 anos, o mundo perdia um de seus maiores compositores, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, ou simplesmente Tom Jobim. O carioca e multi-instrumentista (exibiu domínio amplo no violão, piano e flauta) se consagrou mundialmente como arranjador, compositor e intérprete, e faleceu por conta de duas paradas cardíacas, causadas por uma embolia pulmoar, após uma operação de emergência, por conta de problemas urinários, aos 67 anos. Mesmo que em um período de vida relativamente curto, comparado com outros artistas, Tom deixou um legado gigante para a música brasileira, e por que não, mundial. Lembro de assistir Tom tocando na Globo, quando pequeno, por diversas vezes, e toda a comoção que sua morte gerou na empresa de televisão, mas confesso que nunca fui um apreciador da música dele, principalmente por sua forma arrastada de cantar. 

Porém, com o passar dos anos, e influenciado por obras de (principalmente) Elis Regina e Gal Costa, bem como Tim Maia e Caetano Veloso (em proporção menor), acabei conhecendo as músicas de Tom com um outro ouvido, assim como ir atrás da vasta obra do carioca me abriu os horizontes para entender por que do enaltecimento do cara pelo mundo, e todo o sucesso que ele fez nos Estados Unidos.

Parte do livreto que acompanha o álbum aqui resenhado,
apresentando Tom ao lado de Baden Powell, Lucia Proença e Vinicius de Moraes

Tom é um dos pais da bossa nova, adaptando a música francesa e o jazz americano junto ao samba carioca, criando um estilo único, complexo, e que só foi sendo aprimorado com o passar dos anos. Com letras que flertam com amor e relacionamentos, indo para tons políticos, principalmente sobre o meio-ambiente, apreciar a obra de Tom na sua totalidade exige uma audição dedicada, mas, para quem quer se iniciar e não tem ideia de onde ir, vá atrás de The Man From Ipanema, coletânea lançada (somente lá fora) em 1995, e que resgata muitos dos pontos altos de artistas e do próprio Tom interpretando suas canções.

São 3 CDs, dividos em Vocals, Instrumentals e Side By Side, e que apresentam Tom para aqueles que desconhecem seus discos, ou até mesmo para os já iniciados em sua obra, de uma forma bastante plural. No total, canções de 10 discos aparecem nas três mídias, sendo eles quatro de Tom (Antonio Carlos Jobim - The Composer Of Desafinado, Plays - 1964; Wave - 1967; Tide - 1970; e Passarim - 1987), a famosa parceria com Elis Regina, Elis & Tom (1974), mais os álbuns Jazz Samba Encore!, parceria do saxofonista Stan Getz com o violonista e compositor brasileiro Luiz Bonfá (1963),  Getz/Gilberto, projeto fantástico que uniu Getz ao violão de João Gilberto, em 1964, e do qual Tom contribui com o piano e/ou violão, The Astrud Gilberto Album (1965), da esposa de João Gilberto, Astrud Gilberto, Elis Especial (1979), coletânea não autoriza de Elis Regina, e o espetacular The Carnegie Hall Salutes The Jazz Masters (1994), trazendo Tom Jobim e outros convidados na apresentação realizada em 6 de abril de 1994 em homenagem aos 50 anos da gravadora Verve.

CD 1, acondicionado em um envelope no formato de peixes

Começando pelo CD 1, com quase 80 minutos de música,  passeamos pela nata da obra de Tom em nada mais nada menos que 23 canções. Pegando aquelas gravadas pelo próprio Tom, temos a bela "Lamento" (de Wave) e nada mais nada menos que sete faixas de Elis & Tom (sendo que o álbum original possui 14 canções), a saber a mega-clássica "Águas De Março", "Chovendo Na Roseira", "Modinha", "Soneto Da Separação", "Retrato Em Branco E Preto", "Inútil Paisagem" e "O Que Tinha De Ser". O timaço que acompanha a dupla aqui é César Camargo Mariano (piano), Luizão Maia (baixo), , Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão), Oscar Castro Neves (violão) e Helio Delmiro (violão, guitarras). Quem assistiu o documentário Elis & Tom, Só Tinha De Ser Com Você (2022) percebe o clima de tensão que acompanha a gravação deste que é sem sombra de dúvidas um dos álbuns fundamentais da MPB, e ao ouvir as faixas aqui escolhidas para representar este grande encontro, o quão grande era o talento de Elis Regina para interpretar, como só ela sabia fazer, letras tão belas e pessoais de outros compositores, principalmente nas doloridas “Modinha”, somente Elis e cordas (arrepiante e assustador), “Retrato Em Branco E Preto” e “O Que Tinha de Ser”, essa para cortar os pulsos! Elis também contribui com "Bonita", do álbum Elis Especial, que é apenas ais um pequeno grande acréscimo do talento da gauchinha de voz mais espetacular que o Brasil já teve. 

Por fim, de Passarim saem "Borzeguim", "Passarim", "Luiza", "Anos Dourados (Looks Like December)", "Gabriela" e "Chansong". A line-up aqui conta com um timaço de vozes (Ana Lontra Jobim, Danilo Caymmi, Elizabeth Jobim, Maucha Adnet, Paula Morelenbaum, Paulo Jobim e Simone Caymmi) que enaltecem a inquestionável qualidade de criação e composição de Tom, pois os arranjos e harmonias vocais, mesclados com instrumental aguçadíssimo e uma orquestra em perfeita combinação com os demais músicos, fazem deste não à toa um dos meus álbuns preferidos de Tom. Poderia ter entrado a excelente "Borzeguim", uma letra forte e atemporal (não parece que faz mais de 40 anos que Tom escreveu algo tão poderoso) na versão que Gal Costa lançou em Minha Voz (1982), e também a épica “Matita Perê”, uma de suas obras mais belas e complexas. Mas ok, para quem está conhecendo Tom, foram ótimas escolhas.

Mas não acabou o CD 1, já que ainda temos, de Getz/Gilberto, as excepcionais e exclusivas versões para "Só Danço Samba" e "O Grande Amor", com o destacado Getz no saxofone, além de uma bandaça formada por Tommy Williams (baixo), Milton Banana (percussão) e Tom ao piano, e a delicadíssima voz de Astrud Gilberto com 6 das 11 faixas de The Astrud Gilberto Album em "Amor Em Paz", "Água De Beber", "Dindi", "Photograph", "Meditation" e "O Morro Não Tem Vez". Vale ressaltar o trabalho de tradução das letras de Tom para o inglês, feitas por Ray Gilbert, e a bela banda que acompanha Astrud em seu álbum, a saber Joe Mondragon (baixo), Bud Shank (flauta), João Donato (piano), Milt Bernhart (trombone) e Tom no violão/piano. Difícil saber qual a melhor faixa dessas citadas, mas o fato é que toda a audição do CD 1 é uma experiência fantástica.

O CD 2, acondicionado em um envelope no formato de flor

Passamos para o CD 2, com as faixas instrumentais, onde destacam-se os álbuns Wave e Tide, que juntos entregam 7 das 15 canções do CD. Do primeiro saem "Wave", "Mojave", "Triste" e "Captain Bacardi". Aos perdidos, são faixas nas quais Tom une o jazz americano ao samba brasileiro, essencialmente por conta dos músicos estadunidenses que o acompanham aqui (Ron Carter no baixo, Claudio Slon na bateria, Jimmy Cleveland e Urbie Green no trombone, mais um naipe de metais e cordas, bem como a percussão de Dom Um Romão). Músicas de arranjos complexos, belos, e que facilmente se apresentam como o ápice da criatividade de Tom, assim como as três faixas de Tide, a saber a faixa-título, "Sue Ann" e "Tema Jazz". Se Wave é um grande álbum de jazz/samba, Tide já é um álbum mais conservador, com Tom acompanhado por uma orquestra, Ron Carter ao baixo e Hermeto Paschoal na flauta, sendo este o principal nome nos improvisos de "Tema Jazz", fácil candidata a melhor deste álbum em especial. Mas se você quer realmente saber de onde vem as origens de Tom, concentre-se nas 7 faixas de Antonio Carlos Jobim, The Composer of Desafinado, Plays. Este é o primeiro álbum solo de Tom, gravado em Nova Iorque no ano de 1963, e nas faixas escolhidas para esta coletânea, estão "Amor Em Paz", "Chega De Saudade", "Samba De Uma Nota Só", "O Morro Não Tem Vez", "Meditation", "Água De Beber" e "Só Danço Samba". Fica claro aqui que Tom era um músico exímio, e que suas canções, mesmo tendo belas letras, funcionam melhor com ele somente no piano, acompanhado pelos exímios arranjos orquestrais, e deixando então as interpretações vocais para outros artistas. Fecha o CD dois a versão de "O Morro Não Tem Vez (Favela)" retirada do álbum Jazz Samba Encore!, e que por si só já vale toda a audição do CD, afinal, Getz e Bonfá simplesmente estraçalham aqui.

O CD 3, acondicionado em um envelope no formato de folha

O CD 3 ataca com diferentes versões para as mesmas canções, destacando as faixas de Antonio Carlos Jobim - The Composer of Desafinado, Plays, as quais, instrumentais, são "Desafinado", "The Girl From Ipanema", "Corcovado", "Insensatez" e "Vivo Sonhando", fechando portanto as 12 canções originais deste disco todas na coletânea aqui representada. Porém, estas cinco faixas em especial surgem com outras versões. "Desafinado", que com Jobim é privilegia o piano do músico, aparece também na interpretação de Getz/Gilberto, já com a voz manhosa de Gilberto, e com a exímia versão registrada no citado show do Carnegie Hall, tendo Tom ao lado de Joe Henderson (saxofone), Charlie Haden (baixo) e Al Foster (bateria), na qual Henderson dá um espetáculo a parte. A dupla Getz/Gilberto também manda ver na versão definitiva de "The Girl from Ipanema", com João dividindo os vocais com a esposa Astrud (ele em português, ela em inglês), que na versão de The Composer of Desafinado ... possui um grandioso arranjo orquestral, "Corcovado" (outra com os vocais de João e Astrud, e um banho de Getz) e "Vivo Sonhando (Dreamer)", esta com os vocais de João e tipicamente bossa-novista, totalizando 6 das 8 faixas originais deste discaço. Complementam o CD a versão de Tide para "The Girl From Ipanema", totalmente instrumental, que lembra bastante a versão de The Composer of Desafinado ... a espetacular interpretação de Elis para "Corcovado", e as inebriantes interpretações de Astrud Gilberto para "Insensatez" e "Vivo Sonhando", fechando 8 das 11 faixas originais daquele disco, assim como o Getz e Bonfá acompanhando os vocais de Maria Toledo em "Insensatez", e as performances no Carnegie Hall para  "Insensatez", com Tom ao piano e vocais e Pat Metheny arransando no violão, e "The Girl From Ipanema", esta última retirada do raro VHS lançado no mesmo nome, e que até então nunca havia sido lançada em CD ou LP somente com Tom no vocal e piano. 

Um pouco mais do livreto, agora destacando Elis Regina e Tom

A grande surpresa deste CD 3 é que ao acabar a décima sétima faixa, no caso a versão de "Vivo Sonhando" feita por Astrud Gilberto, temos alguns segundos de puro silêncio, para então, em uma faixa escondida, comerçamos a ouvir as vozes de Elis e Tom em estúdio, criando "Águas De Março" entre muitas risadas e conversas. A discussão de quem canta "é o pé, e o chão" é hilária, com Elis falando "nossa senhora, please ..." e Tom dizendo "não, eu tô errado, que sacanagem hein", seguindo por mais erros, risadas e Tom brincando com Elis dizendo "vamos prestar atenção nesta bosta!". São pouco mais de 4 minutos de uma audição até então inédita, demonstrando a parceria que surgiu entre estes dois gigantes, e que depois acabou sendo uma das grandes atrações do lançamento No Céu Da Vibração - Parte 2 (1974-1980) da Folha de São Paulo (2014).

No recheado livreto de 60 (!) páginas, fotos diversas e entrevistas com o próprio Antonio Carlos Jobim, Oscar Castro-Neves, Gene Lees e Creed Taylor, assim como a biografia de Tom por Sergio Cabral, track list comentado por Oscar Castro-Neves e Liner Notes por Gene Lees, relatando como conheceu Tom e foi o responsável por traduzir e adaptar diversas de suas canções para o inglês.  A entrevista de Oscar Castro-Neves, conduzida por Richard Seidel, foi feita em agosto de 1995, pouco antes do lançamento do álbum, assim como a de Creed Taylor, essa conduzida por Gene Lees. A primeira concentra no fato de como Oscar e Tom se conheceram, e como surgiu a amizade entre eles, realizando diversos projetos (Elis & Tom, o filme Gabriela, entre outros), com destaque para a criação da palavra bossa-nova por outro grande nome da música nacional, Newton Mendonça, na canção "Desafinado".  arte de The Man From Ipanema também é muito bela. Já na segunda, temos Creed trazendo o processo de gravação do ábum Getz/Gilberto e de sua vinda ao Brasil para gravar outros álbuns de Tom. Na parte dos textos, com certeza a atração maior vai para a entrevista de Tom conduzida por Gene Lees, feita em 1974, na qual o carioca faz uma ampla retrospectiva de sua vida e carreira. 

Outra imagem do livreto, destacando a super
Banda Nova que acompanhou Tom nos anos 80

A arte de The Man From Ipanema também é muito bela. Os 3 CDs vêm em um livreto encadernado, cada um em um "envelope" especial que remetem a natureza, sendo o CD 1 no envelope em formato de peixe, o CD 2 no formato de flor e o terceiro CD em formato de folha, bastante caprichado. Um álbum mais que especial, que celebra a grande obra de um grande artista, e que se você tiver a sorte de encontrar em algum Mercado Livre ou Shopee da vida, e esteja afim de conhecer quem foi Tom Jobim, pegue sem medo!

Contra-capa do CD

Track list

Vocals

1-01 Antonio Carlos Jobim– Passarim

1-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim– Só Danço Samba (Jazz Samba)

1-03 Elis  & Tom – Águas De Março (Waters Of March)

1-04 Astrud Gilberto – Amor Em Paz (Once I Loved)

1-05 Antonio Carlos Jobim – Lamento

1-06 Antonio Carlos Jobim – Luiza

1-07 Elis & Tom – Chovendo Na Roseira ("Double Rainbow" And "Children's Games")

1-08 Antonio Carlos Jobim – Anos Dourados (Looks Like December)

1-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – O Grande Amor

1-10 Astrud Gilberto – Água De Beber

1-11 Elis & Tom – Modinha

1-12 Antonio Carlos Jobim – Borzeguim

1-13 Elis & Tom – Soneto Da Separação

1-14 Antonio Carlos Jobim – Gabriela (From The Film Gabriela)

1-15 Elis & Tom - Retrato Em Branco E Preto (Portrait In Black And White) ("Zingaro")

1-16 Astrud Gilberto – Dindi

1-17 Elis & Tom - Inútil Paisagem (Useless Landscape)

1-18 Astrud Gilberto – Photograph

1-19 Antonio Carlos Jobim – Chansong

1-20 Astrud Gilberto – Meditation

1-21 Elis & Tom - O Que Tinha De Ser

1-22 Astrud Gilberto – O Morro Não Tem Vez (Aka "Favela")

1-23 Elis Regina – Bonita


Instrumentals

2-01 Antonio Carlos Jobim – Wave

2-02 Antonio Carlos Jobim – Tide

2-03 Antonio Carlos Jobim – Amor Em Paz (Once I Loved)

2-04 Antonio Carlos Jobim – Chega De Saudade (No More Blues)

2-05 Antonio Carlos Jobim – Sue Ann

2-06 Antonio Carlos Jobim – Samba De Uma Nota Só (One Note Samba)

2-07 Antonio Carlos Jobim – Mojave

2-08 Antonio Carlos Jobim – O Morro Não Tem Vez (aka "Favela")

2-09 Antonio Carlos Jobim – Tema Jazz

2-10 Antonio Carlos Jobim – Meditation

2-11 Antonio Carlos Jobim – Triste

2-12 Antonio Carlos Jobim – Água De Beber

2-13 Antonio Carlos Jobim – Só Danço Samba (Jazz Samba)

2-14 Antonio Carlos Jobim – Captain Bacardi

2-15 Stan Getz / Luiz Bonfá – O Morro Não Tem Vez (aka "Favela")


Side By Side

3-01 Antonio Carlos Jobim – Desafinado (Off Key)

3-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Desafinado

3-03 The Carnegie Hall Jazz Band – Desafinado

3-04 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-05 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-06 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-07 The Carnegie Hall Jazz Band – The Girl From Ipanema

3-08 Antonio Carlos Jobim – Corcovado (Quiet Nights Of Quiet Stars)

3-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Corcovado

3-10 Elis & Tom – Corcovado

3-11 Antonio Carlos Jobim – Insensatez (How Insensitive)

3-12 Astrud Gilberto – Insensatez

3-13 Stan Getz / Luiz Bonfá – Insensatez (Instrumental, 1963)

3-14 The Carnegie Hall Jazz Band – Insensatez

3-15 Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando (Dreamer)

3-16 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando

3-17Astrud Gilberto – Vivo Sonhando

Hidden Track

3-18 Elis & Tom – Águas De Março (Studio Outakes)

sábado, 22 de junho de 2024

Ouve Isso Aqui: Casais

                                       


Tema escolhido por Mairon Machado

Com Andre Kaminski, Anderson Godinho, Davi Pascale e Marcello Zappelini


Sei que esse tema já rolou por aqui em um Consultoria Recomenda, mas aproveitando o mês dos namorados, quis trazer algumas obras que ficaram de fora daquele Recomenda, e que acho que merecem uma atenção dos meus colegas. Vamos às pedras! (Mairon)
Ike & Tina Turner – Come Together [1970]

Mairon: Disco de total mudança na carreira do casal Ike & Tina Turner. Lançado em abril de 1970, traz uma guinada forte na direção musical do casal, influenciados por sua turnê abrindo para o Stones (inclusive participando do conturbado Concerto de Altamont, como filmado em Gimme Shelter). Se seus discos anteriores eram caracterizados por uma potência sonora avassaladora, aqui o que prevalece é a voz soberana de Tina sobre os arranjos e criações de Ike. Daí temos soul com vocalizações gospel (a cargo das Iketttes) em “Keep On Walkin’ (Don’t Look Back)”, “Why Can’t We Be Happy”, “Unlucky Creature”, rock suave em “Too Much Woman (For a Henpecked Man)”, e as embaladas “Contact High”, “It Ain’t Right (Lovin’ to Be Lovin’)” e “Young And Dumb”. Além disso, a provocante “Doin’ It” é um encerramento excitante para um álbum fabuloso, cujos grandes destaques vão para as versões de canções surgidas havia pouco tempo. No caso, a ótima faixa-título (que os Beatles tinham lançado em outubro do ano anterior), que como diz meu irmão Micael, todas as músicas dos Beatles ficam melhores em suas versões por outros artistas, “Honky Tonk Women” (que os Stones lançaram um pouco antes, em julho), muito fiel ao original, apenas com adaptações na letra para que a personagem central seja a própria narradora, “Evil Man”, com um belo naipe de metais, sendo outra que teve alterações na letra, já que essa é a mundialmente conhecida “Evil Woman (Don’t Play Your Games With Me)”, que o Black Sabbath imortalizou no seu álbum de estreia de 13 de fevereiro de 1970 (dois meses antes desse), e que o Crow tinha lançado originalmente em agosto de 69, e a espetacular “I Want to Take You Higher”, a mais “velhinha” das três, que o Sly and the Family Stone tinha colocado no mundo em abril de 69, e que aqui está totalmente fiel ao original, inclusive com o naipe de metais e os “boom-shaka-laka-laka-boom” dos vocais. Para perder o preconceito e conhecer uma das grandes duplas da história da música.

Anderson: Uma regravação muito forte e que traz o clássico dos Beatles para a praia do Soul e o R&B. A versão ficou muito energética e animada na voz da maravilhosa Tina Turner. Interessante, também, ficaram os arranjos e a guitarra funkeada de Ike em várias músicas como na ótima versão de “Too Much Woman”. Outro destaque, agora pela interpretação de Tina, é “Unlucky Creature” que conta com uma dramaticidade intensa enquanto a música em si faz uma ambientação para a atuação da artista. Destacaria também a intensidade da versão de “Honky Tonk Women” e a animação de “Contact High”. Por outro lado, esperava um pouco mais da versão do clássico “Come Together”, a versão é bem fiel à original, mas, uma vez que a proposta da reinterpretação ocorreu poderiam ter sido mais inventivos na proposta. Talvez o receio de mexer em um clássico tenha pesado. Por fim, gostei muito da versão de “Don’t it” que fecha o material muito bem. Com certeza é um material especial que merece a lembrança.

André: É um disco um tanto dolorido de ouvir em se tratando de contexto pelo fato de Tina ter sofrido horrores na mão de Ike Turner. É necessário “desligar a chavinha mental do contexto ruim entre eles” para apreciar uma dupla que fazia rocks com uma qualidade estupenda. Os covers também ficaram ótimos. Gosto mais dessa Tina Turner mais blues do que a pop dos anos 80 e 90. Ike também é um grande compositor e guitarrista. Um disco sem erros e excelente.

Davi: Todos conhecem a história conturbada do casal Ike e Tina Turner. Sendo assim, não é preciso dizer que Ike não era a melhor pessoa do mundo. É por essas e outras que precisamos separar a pessoa do artista. Afinal, não há como negar seu talento enquanto compositor e esse disco é uma prova disso. Misturando soul e rock, o LP mistura composições próprias com regravações e brilha tanto com a voz do furacão Tina Turner, quanto na qualidade do repertório. Entre os covers, a maior curiosidade fica por conta de “Evil Man”, originalmente lançada com o nome de “Evil Woman” pelo Crow (sim, aquela mesma que o Black Sabbath regravou), que ganha um singelo naipe de metais. A versão de “Come Together” não traz muitas novidades e a gravação não tem a mesma magia que tem a do fab four. Tem uma história de que certa vez, Ike Turner apontou uma arma para que Keith Richards demonstrasse como havia tocado na gravação de “Honky Tonk Women”. A faixa aparece aqui e dá para ver que ele foi muito bom aluno, só que assim como acontece com a versão dos Beatles, a música não chega nem perto da versão gravada pela trupe de Jagger e Richards. Entre as composições próprias, minhas preferidas estão no lado A: “Too Much Woman”, “Unlucky Creature” e “Young and Dumb”. Para a garotada que estiver lendo esse texto: ouça esse LP prestando atenção no (fabuloso) trabalho vocal de Tina e repare que muitos dos maneirismos vocais que Joss Stone faz hoje, já apareciam aqui. Será mera coincidência?

Marcello: O casal mais disfuncional dessa lista, como ficou provado pela autobiografia de Tina. Entretanto, musicalmente falando, como se davam bem! O talento inacreditável de Tina, aliado à guitarra, aos arranjos e produção de Ike Turner, gerou muitas coisas boas ao longo dos anos, e este Come Together não é exceção. O duo (que participara com B. B. King da turnê dos Stones em 1969) tinha começado a se distanciar um pouco do soul e rhythm & blues, gravando material mais rock, como atestam “Honky Tonk Women”, a faixa-título e “Evil Man”, que as pessoas conhecem da versão do Black Sabbath baseada no original do Crow (e, aliás, a versão dos Turner é mais parecida com a do Sabbath do que com a original), “Evil Woman”. Há ainda uma versão para “I Want to Take You Higher”, do Sly & The Family Stone, em que as Ikettes têm cada uma sua chance de brilhar e as outras oito músicas são de Ike. Dentre estas, os destaques vão para “It Ain’t Right (Lovin’ to be Lovin’)”, “Too Much Woman (For a Henpecked Man)” – conta outra, Ike: você quer que a gente acredite que era dominado pela Tina? – e “Keep on Walkin’ (Don’t Look Back)”. Apesar de tentarem conquistar o público mais rocker, Ike & Tina Turner não foram muito bem-sucedidos na empreitada, pois o álbum só chegou ao 130º lugar na parada geral da Billboard – ainda que tenha sido 13º na de soul. Mas o álbum seguinte, Workin’ Together, trouxe a enérgica versão de “Proud Mary”, que ganhou um Grammy e levou o LP ao 25º lugar na parada geral da Billboard.


Paul Kantner & Grace Slick – Sunfighter [1971]

Mairon: Esse disco foi o que me baseou para este Ouve Isso Aqui. De imediato, o tema que pensei seria “Somos Nós, Mas Com Outro Nome”, só que o fato de ser o mês de junho me remeteu aos casais e como não são todas as músicas que os parceiros do casal Kantner / Slick participam (a saber Spencer Dryden e Joey Covington na bateria, Jorma Kaunonen nas guitarras, Jack Casady no baixo e Papa John Creach no violino), Sunfighter entrou de qualquer jeito. Os pombinhos haviam acabado de parir a pequena China Wing Kantner, que teve uma linda canção em sua homenagem, levada pelo piano e os vocais dramáticos da mamãe, após pouco mais de 1 ano de relacionamento (lembrando que Grace já tinha tido um affair com o Dryden), e lançou esse álbum sensacional tendo além dos colegas da Jefferson Airplane uma série de convidados, que passam por Jerry Garcia, Graham Nash, David Crosby, entre outros, como o novato guitarrista Craig Chaquico (que veio a fazer parte da Jefferson Starship anos depois), mandando ver na pesada “Earth Mother”. O disco já abre com a pancadaria comendo solta em “Silver Spoon”, tratando sobre veganismo (algo incomum para a época) com destaque para o peso do baixo de Casady, o insinuante violino de Papa e os vocais hipnóticos e gritados de Slick, paulada que mostra o que o Jefferson Airplane estava fazendo desde Volunteers, e que se estende até o derradeiro Long John Silver. Esse estilo se mantém na espetacular faixa-título, dedicada ao ex-parceiro de Airplane, Marty Balin, com o casal dividindo os vocais como nos bons tempos de “Volunteers” e “We Can Be Together”, na alucinógena “Million”, onde Jerry Garcia abrilhanta na guitarra junto do piano de Slick, e também na longa “Holding Together”, outra a contar com a marcante guitarra de Garcia. Crosby e Graham são peças centrais na ótima “Look at the Wood” e na linda demais “When I Was a Boy I Watched the Wolves”, com uma introdução acústica incrível e variações muito interessantes, e ambas com uma excelente harmonia vocal. E tente não se assustar com a recriação do que seria o Titanic afundando em “Titanic”, ou com o enigmático piano de “Universal Copernican Mumbles”, acompanhado de barulhos muito soturnos e um vocal ainda mais tétrico por Kantner. Assombroso em um disco assombrosamente ótimo!

Anderson: Não poderia faltar algo psicodélico pra valer e cá estamos. O álbum possui uma atmosfera criada tanto pelos vocais de Grace quanto pela instrumentação que vai de pianos/teclados, distorções de guitarra que achei um tanto excêntricas, violões e diferentes influencias como folk ou jazz em algumas passagens. As músicas não são, no geral, muito extensas mas demandam parar para absorver tudo que está acontecendo, vale o tempo disposto nesse trabalho. Quem curte um som intenso e complexo vai gostar. Particularmente me atraíram a primeira música: “Silver Spoon” com seus quase seis minutos (minha melhor experiência), curiosamente a, também extensa, “When I was a Boy I Watched the Wolves” me agradou bastante. No geral, não me agradou como os demais trabalhos da lista, me falte mais coisas dessa época na cabeça para poder contextualizar melhor o material. Assim de bate pronto, não me chamou muita atenção.

André: A riqueza instrumental é grande, há caras fodas como David Crosby e Graham Nash tocando, mas o casalzinho do Airplane não andava muito inspirado por aqui. Sinto falta de composições mais marcantes como faziam no Jefferson Airplane (e mesmo no Jefferson Starship) que aqui parecem mais sobras e lados B de ambas as bandas, mas com o acréscimo de mais instrumentos. A que eu gosto mais é a faixa título “Sunfighter”, com o restante bem abaixo do que todo esse time de músicos já produziu na vida. Não é um disco ruim, mas um menor na discografia particular do casal (que juntos, pelo que eu saiba só lançaram este mesmo).

Davi: Esse álbum é basicamente um trabalho solo de Paul Kantner com a participação de Grace Slick. Na maior parte das músicas, a voz dela fica em segundo plano, o que realmente é uma pena já que eu gosto muito mais da voz dela do que da dele. O disco captura bem aquela sonoridade San Franciso, com violões folk e arranjos sutis, e impressiona pelo time de convidados que contou, com nomes de peso como Graham Nash, David Crosby e Jerry Garcia. O disco é bom e deve agradar aos fãs de Jefferson Airplane. Contudo, para mim, o grande destaque é mesmo a faixa de abertura onde temos Grace Slick comandando a música que fez para provocar seus vizinhos vegetarianos que queriam doutriná-la. A letra era tão forte que muitas pessoas pensavam (e ainda pensam) que era uma ode ao canibalismo. Interessante…

Marcello: Grace Slick e Paul Kantner iniciaram um relacionamento ainda nos anos 60, quando ela ainda estava casada com o primeiro marido (Jerry Slick) e tivera um caso com o segundo baterista do Jefferson Airplane, Spencer Dryden Os dois tiveram uma filha, China Wing Kantner (que nome mais era de Aquário!), que aparece na capa. Paul já gravara um disco com ela e os amigos da cena de San Francisco antes, “Blows Against the Empire”, e convidou a turma toda novamente neste álbum (Jack Casady, Jorma Kaukonen, Papa John Creach, Spencer Dryden e Joey Covington, do Jefferson Airplane; Jerry Garcia, do Grateful Dead; David Crosby e Graham Nash; o futuro guitarrista do Jefferson Starship, Craig Chaquico; e mais um monte de gente), que abre com a voz poderosa de Grace na excelente “Silver Spoon”. Kantner assume o vocal solo em “Diana Part 1” e “Sunfighter” (que traz Steven Schuster e parte da turma do Tower of Power nos sopros). “When I Was a Boy I Watched the Wolves” e “Earth Mother” são ótimas músicas que não fariam feio num álbum do Airplane. “Million” traz Jerry Garcia para formar uma espécie de Grateful Airplane em outro destaque do disco. Em “China”, Grace mais uma vez assume o vocal solo e homenageia a bebê do casal. “Universal Copernican Mumbles” é levada nos teclados, numa música diferente das demais, mas não menos interessante. A música mais longa do LP, “Holding Together”, encerra o álbum com brilho. Grace e Paul ainda colaborariam no álbum “Baron von Tollbooth & The Chrome Nun”, com David Freiberg e outros colegas de San Francisco, e, por anos, no Jefferson Starship. O relacionamento entre os dois durou até 1975, e Grace casou-se novamente no ano seguinte; quando Paul trouxe o Jefferson Starship de volta, ela colaboraria com o ex-companheiro, mas desde o início dos anos 90 ela se mantém afastada da música. Kantner, infelizmente, morreu em 2021.


Wings – Venus and Mars [1975]


Mairon: O casal Paul e Linda McCartney formaram o Wings, tendo como álbum cultuado Band on The Run. Porém, penso que é em Venus And Mars que Linda conseguiu mostrar algum talento para estar ao lado de um gigante musical como Paul. A técnica da garota era ínfima, mas pelo menos aqui ela aprendeu a ser “um pouco” mais instrumentista e fazer música. Os seus acordes no sintetizador na faixa-título já são uma pequena demonstração disso. Ela traz intervenções precisas do sintetizador em faixas como “Love Song”, “Medicine Jar”, e principalmente, além dos sintetizadores, nos vocais de apoio em “Magneto and Titanium Man”. Sua contribuição nos teclados e vocais de “Listen to What the Man Said” dão um charme a mais para essa boa faixa. Curto bastante o clima alegre de “Rock Show”, que também tem um sintetizadorzinho interessante ao seu final, o rock lisérgico de “Spirits of Ancient Egypt”, cantada por Denny Laine, e também com boa participação de vocais e sintetizadores por Linda, e a delicadeza de “Treat Her Gently – Lonely Old People”, que fecha muito bem esse belo disco. E para os fãs xiitas dos Fab-4, divirtam-se com “Call Me Back Again”, “Letting Go” e “You Gave Me The Answer”. Comentar sobre o trabalho de Paul aqui é desnecessário, já que nos anos 70, o cara ainda estava em alta criativamente. Joguem as pedras, mas para mim esse é o melhor disco da carreira de Paul, inclusive junto aos Beatles.

Anderson: Os anos 70 são incríveis, sempre me surpreendo com a qualidade e diversidade de coisas. Não conhecia o Wings que, liderado pelo Paul McCartney, faz um som Rock and Roll, com uma sonoridade pop em vários momentos. Talvez, pudesse enquadrar alguma coisa de soul, mas muito sutil no meu entender. O material começa fervendo com a ótima intro “Venus and Mars” casada com “Rock Show”, pegada que aparece em “Medicine Jar” só que aqui de modo mais pesado. Dentre outros destaques coloco “Magneto and Titanium Man”, música dinâmica, criativa e animada que me lembrou, por algum motivo, o que Queen faria posteriormente. Já “Letting Go” me chamou a atenção pela mescla de instrumentos que apontam um tanto para o soul, só que mais lento, algo que é presente nos Rolling Stones. Teclado, metais, guitarras na medida certa. Pra não me estender, poderia falar das baladas do álbum mas vou destacar a ótima “Call me Back Again” que me lembrou o Joe Cocker pela estrutura ascendente da música. Recomendadíssimo esse disco!

André: Confesso, nunca fui lá grande fã nem do McCarta solo e nem do Wings. Fui escutar esse disco sem nenhuma expectativa e me surpreendi positivamente com o que ouvi. Entre os besouros, o meu favorito ainda é o Harrison e sim, gosto mais do Ringo solo do que do Mac. Mas ele subiu alguns degraus no meu conceito apresentando uma sonoridade rica e classuda, diferente daquela coisa mais juvenil dos Beatles (que gosto tanto). Linda aparece legal aqui com seus backing vocals e colaborando nas composições e instrumentais. Me animei a ir atrás de outros discos do baixista canhoto, devo ter escutado os álbuns errados.

Davi: Paul McCartney é sobrenatural. Depois de ter feito parte dos Beatles (uma das maiores bandas da história do rock), ele criou mais um grupo de primeiríssima linha: os Wings. Venus and Mars é o quarto registro do grupo e mais um grande trabalho com a assinatura de Macca. O disco, que traz composições de Paul McCartney e sua esposa, a sua ‘gatchinha’ Linda (como ele gostava de dizer em suas passagens pelos Brasil), tinha a tarefa ingrata de suceder o brilhante Band On The Run. E não é que eles conseguiram entregar um trabalho à altura? O álbum é bem variado e demonstra muitas das facetas de Paul. O lado A, iniciando com “Venus and Mars/Rockshow” e encerrando com “Letting Go”, é simplesmente perfeito. Nenhuma música descartável. No lado B, temos como destaques; o blues “Call Me Back Again”, o single “Listen What The Man Said”, além de “Treat Her Gently – Lonely Old People”. Um dos grandes álbuns do sir Paul McCartney e o melhor dessa lista, sem sombra de dúvidas.

Marcello: Paul & Linda McCartney, mais Denny Laine, Jimmy McCulloch e Joe English (em algumas músicas, Geoff Britton): Wings em 1975, perto do auge da popularidade, e tentando ser uma banda de verdade, não um veículo para Paul. Quando recebi a lista, pensei comigo: por que esse disco e não Ram, creditado ao casal? De minha parte, nada contra: gosto muito de Ram, mas Venus & Mars sempre esteve perto do topo na minha lista do melhor que Macca fez em toda a sua vida. As músicas são creditadas a Paul e Linda (mas, honestamente, não sei o que Linda efetivamente contribuiu), à exceção de “Medicine Jar” (de McCulloch e Colin Allen; o guitarrista se encarregou do vocal principal) e “Crossroads Theme”, vinheta que encerra o disco, de autoria de um certo Tony Hatch. Os dois lados do álbum começam com a linda faixa-título, forte candidata ao posto de minha balada favorita de Paul. “Rock Show” é uma das músicas mais roqueiras de Paul, e daria nome ao filme que documentou a turnê mundial de 1976 do Wings. “Call Me Back Again” e “Letting Go” são mais bluesy, algo não muito comum na obra de Macca, “Listen to What the Man Said” e “Magneto and Titanium Man” são aqueles rocks descompromissados típicos dos anos 70 (a segunda, uma música ótima para uma letra ridícula), e ainda tem a curiosa “Spirits of Ancient Egypt” (com vocal de Denny Laine), a bela “Love in Song” e a linda “Treat Her Gently – Lonely Old People” – espere sentir o peso da idade para ver se você não se emociona com ela. Vou me estender nessa que é minha música favorita do disco; a balada mistura uma declaração de amor ao reconhecimento de que a velhice traz o fantasma da solidão. O truque genial foi seguir a música com o tema da mais popular soap opera da época na Inglaterra, “Crossroads”: Macca imaginou um casal de idosos assistindo à novela na TV. Ainda que inferior ao excelente Band on the Run, Venus & Mars prova que Macca poderia ter sido o melhor dos quatro na carreira solo – se tivesse tido saco para tentar provar isso. Confesso que quando soube da morte de Linda, achei que Paul não se recuperaria – mas ele continua ativo e excursionando.


ABBA – The Album [1977]

Mairon: Todo mundo sabe que o ABBA era constituído não por um, mas por dois casais. O que poucos sabem é que The Album é o último de Bjorn Ulvaeus e Agnetha Faltskog (o outro casal era Benny Anderson e Anni-Frid Lyngstad) juntos. As consequências para a separação de Bjorn e Agnetha, após quase 8 anos juntos (6 como casados), são diversas. A insegurança familiar de Agnetha, os excessos de viagens, e também, o fato de Bjorn e Benny buscarem sempre uma perfeição tanto para fãs quanto para a imprensa. Aqui, a dupla alfa tentou calar a boca de muitos críticos, que em pleno 1977, com o nascimento do punk, alegavam que os suecos não eram capazes de compôr “música séria”. Foi com essa expressão em mente que nasceu obras-primas como a progressiva “Eagle”, que ganhou anos depois, entre outras, uma pesada versão feita por Sargant Fury, além do grupo punk Leatherface recriá-la de forma muito interessante, o rockaço “Hole In Your Soul”, que me remete muito ao que Styx faria anos depois, e claro, a suíte “The Girl With The Golden Hair”. Dividida em três partes (originalmente, a suíte era composta por quatro partes, apresentadas somente ao vivo, e que podiam superar facilmente os 25 minutos), é “inspirada” nas carreiras de Agnetha e Frida (o que teria sido mais um motivo para a separação do casal), e teve sua primeira parte como um dos grandes sucessos do grupo, a delicada “Thank You For The Music”. Porém, são nas outras duas partes que vejo os méritos dessa suíte. Afinal, o que Frida faz com a voz em “I Wonder (Departure)” é embasbacante, mas nada, nada supera a violência progressiva musical que Benny e Bjorn construíram para “I’m a Marionette”. É indescritível, só colocar as caixas de som no talo e admirar o solo de guitarra, as orquestrações e a harmonia vocal perfeita das meninas aqui. Uma pena a banda não ter registrado em estúdio “Get On The Carousel” (a quarta parte citada), que concluía a história muito bem, o que não impede do encerramento com “I’m A Marionette” ter sido no mínimo brilhante. Aos que já estão torcendo o nariz, saibam que nada mais nada menos que o Ghost fez uma versão para essa faixa, e ao meu ver, bem menos assustadora do que a original. Seguindo, naquilo que o ABBA era exclusivo em fazer, que era pop de melhor qualidade, nasceu a atemporal “Take a Chance On Me”, com sua inesquecível harmonia vocal de introdução, e as passagens de sintetizadores permeando as vozes de Agnetha e Frida. Se “I’m A Marionette” foi coverizada pelo Ghost, saiba que “Move On”, linda faixa com inspirações andina, teve uma versão feita por Rob Rock (que também regravou “Eagle”) com Tobias Sammet nos vocais (!). Um dia irão dar valor as baladas do ABBA como fazem com Fleetwood Mac por exemplo, já que o arranjo de “One Man, One Woman”, que já traz em sua letra indicios de que a coisa não estava bem entre Agnetha (voz principal) e Bjorn, ou então a suave soul de “The Name of the Game”, com seu complexo e fantástico arranjo vocal inspirado nos Beach Boys, mas que aqui é feito com um trabalho hercúleo de encaixe de vozes impossível de se reproduzir, e que como o próprio Bjorn atestou, somente Agnetha e Frida seriam capazes de fazer. Não é o melhor disco da banda, o que atribuo ao seguinte, Voulez-Vous, papo para um Recomenda ou Ouve Isso Aqui Discos de Separação, mas The Album é um disco a ser descoberto!

Anderson: Os suecos do ABBA são uma grande unanimidade dentre a geração Boomer e entre muitos dos Mileniuns, fato. Particularmente meu conhecimento não passa dos clássicos ouvidos pelos meus pais. Ao ouvir (pela primeira vez diga-se de passagem) um material completo da banda ficou um sentimento ambíguo de que realmente não é a sonoridade que me cativa, mas que foi uma audição agradável. Apesar de algumas coisas conhecidas como a, insuportavelmente animada, “Take a Chance on Me”, a sem sal “Eagle” ou a sonolenta “Thank You fot the Music” me chamou muito mais atenção as românticas “One Man, One Woman” e “I Wonder” (que com um solo no estilo Primal Fear em Tears of the Rage ficaria interessante). Porém, as que mais gostei foi a surpreendente “Move On” com uma sonoridade e ambientação muito gostosa em que percussão e instrumentos de sopro (ao que parece gravados com sintetizadores e teclados) proporcionam uma experiência diferente no álbum, e ainda a melhor do álbum: “I’m a Marionete” que traz um som orquestrado muito poderoso. No geral, particularmente, é um ótimo material de pop em sua concepção, mas me soa bem datado, não me empolga apesar de saber de sua importância para a música.

André: Sei que o Mairon ama essa banda, acho eles legaizinhos também, mas nunca me fizeram querer botar roupas coloridas e mostrar meus passos de dança por aí. É um disquinho divertido, com as vocalistas suecas cantando muito bonitinho, mas sem aquela coisa que me empolga. Mas isso sou eu em uma época não muito bem humorada de minha parte. Acho que eu mudaria de opinião se eu ouvir este disco uns anos depois.

Davi: Embora seja um dos grandes nomes da música pop, e eu seja um admirador de música pop, ainda não me aprofundei na discografia do Abba como deveria. Tenho alguns discos deles em minha coleção, mas não tenho tudo ainda. Esse é um dos que me faltam, sendo assim, ouvi ele pelo Spotify e a primeira impressão foi de um bom disco, mas não espetacular. O disco começa maravilhosamente bem como a belíssima “Eagle”, emendando no divertido hit “Take a Chance on Me” e nas bonitas “One Man, One Woman” e “The Name of the Game” (mais um grande hit do grupo sueco), mas o nível cai em “Move On” e a partir daí, a única que me chamou realmente a atenção foi “I´m a Marionette”, responsável por fechar o LP. É indiscutível a qualidade dos músicos e a influência deles na música pop, mas eu provavelmente teria indicado álbuns como Arrival ou Abba. De todo modo, foi bacana vê-los por aqui.

Marcello: Como alguém que cresceu ouvindo Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Uriah Heep, Pink Floyd e Emerson, Lake & Palmer, eu fui musicalmente educado para desprezar o quarteto sueco. Ao longo dos anos, passei a respeitar os dois casais (Anni-Frid, Benny, Agnetha e Bjorn), mas continuou não gostando; admito que são bons cantores, que a banda de apoio era ótima, que Benny e Bjorn são mestres em compor músicas que grudam no ouvido da gente, mas não adianta, não são para mim. Anos atrás, ouvi o catálogo completo do grupo, e o deixei de lado; ao reouvir esse The Album, fiquei surpreso com a pomposa “Eagle”, mas músicas como “Take a Chance on Me” e “One Man, One Woman” passam muito longe do meu gosto e me lembraram das razões para não gostar do ABBA. “The Name of the Game” me soou meio reggae, um ritmo que pouquíssima gente associaria à Suécia; atestando a versatilidade do grupo. “Move On” impressiona pelos vocais, em especial pela voz solo da bela Agnetha, mas é apenas um aperitivo para “Hole in Your Soul”, melhor música do disco, na minha opinião – apesar de, curiosamente, deixar a desejar no quesito vocais, o ponto forte do quarteto. O álbum se encerra com as três partes de “The Girl with the Golden Hair”, “Thank You for the Music”, “I Wonder (Departure)” e “I’m a Marionette”, que, com mais de doze minutos, mostra que o ABBA buscava fugir um pouco da sua fórmula consagrada. The Album acompanhou The Movie, filme sobre a banda lançado mais ou menos na mesma época, liderou a parada inglesa e chegou ao 14º lugar na Billboard – prova do massivo sucesso do grupo, até hoje uma das bandas que mais vendeu discos na história. O ABBA tem seu lugar na história do rock, mas nunca me atraiu e provavelmente nunca me atrairá.


Elis Regina – Transversal do Tempo [1978]

Mairon: Esse aqui vai trazer discussão, certeza que geral vai torcer o nariz, mas foda-se. O papel de Cesar Camargo Mariano neste disco é fantástico. Ele comanda os arranjos para a esposa Elis desfilar a sua técnica, que aqui estava perfeitamente mais que perfeita. Logo de cara, ele já manda ver no seu mais novo brinquedinho, um moog, introduzindo “Fascinação”, na qual Elis arrebenta acompanhada pelo piano sempre emotivo. Mas vem mais: o piano dá o tom dramático de “Sinal Fechado”, uma das obras mais complexas de Chico Buarque, que Elis canta numa naturalidade invejável. E então entra a bandaça formada por Nathan Marques (guitarras), Crispin Del Cistia (guitarra, teclados), Dudu Portes (bateria) e Fernando Sizão (baixo), para interpretar versões apocalípticas de “Deus Lhe Pague”, intrincadíssima e progressiva para abrir um sorriso na cara amarrada de Robert Fripp, Os arranjos de Cesar desconstróem clássicos da MPB do porte de “Boto” (Tom Jobim), com acordes tensos no piano elétrico, “O Rancho Da Goiabada” (João Bosco e Aldir Blanc), mandando ver no piano elétrico e acrescida com uma monumental “Construção” (Elis se rasgando em tristeza aqui, e que arranjo sombrio), tendo apenas a vinheta da polêmica inserção de “Gente” (Caetano veloso), e até a “Saudosa Maloca” de Adoniran Barbosa, aterrorizante o que Cesar e Elis fazem nessa. O auge da dramaticidade, soturna e desconstrução musical vai para “Meio Termo / Corpos”, com um show a parte do violão e da guitarra de Nathan, e canções de letras pesadas que Elis e Cesar jogam na cara dos fãs com um descomunal desprezo aos arranjos originais. Fecham o play versões depressivas (e belas) de “Cão Sem Dono” e “Querelas do Brasil”, mas com um forte tom de que “a vida continua” através da empolgante “Cartomante” de Ivan Lins. O casal permaneceu juntos, entre brigas, idas, vindas e o temperamento sempre “apimentado” de Elis Regina, por mais 2 anos, criando no mínimo mais duas grandes obras (Elis … Essa Mulher, e Saudades do Brasil). O show Transversal do Tempo percorreu e foi aclamado pelo mundo, e também recebeu fortes críticas justamente por seu teor complexo e pesado. Já o álbum Transversal do Tempo peca por ter as músicas “cortadas” do nada muitas vezes, mas ainda hoje, 20 anos depois de ouvir ele pela primeira vez, ainda me choca. Quem sabe um dia lancem a obra em sua totalidade.

Anderson: Realmente uma lista complexa e diferente esta proposta pelo nosso querido Mairon! Elis Regina é uma referência em muitos sentidos e, mesmo sem conhecer sua obra a fundo, imagino que esse ao vivo é uma prova de seu gigantismo como artista. Pois bem, é impressionante o que essa mulher canta! Não gosto de material ao vivo, não ouço quase nada dessa categoria, mas fiquei realmente abismado com esse disco. Logo de cara “Fascinação” já eleva o nível a um patamar altíssimo. Feita a aposta, na sequência “Sinal Fechado” continua intensamente!! Extremamente emocionante a canção de Paulinho da Viola, mas que com a voz de Elis se torna algo surreal. Todavia não para por aí, a terceira é “simplesmente” “Deus lhe Pague” do Chico Buarque que traz um arranjo agressivo e icônico, e, novamente, Elis deita e rola! Ela destrói tudo por meio de uma interpretação que faz jus a cada palavra da música. Esse começo arrebatador da espaço para experiências em um degrau mais abaixo, porém ainda assim muito bom! Após um “intervalo” com o pot-pourri de O “Rancho de Goiabada” e uma breve interpretação de “Construção”, entra uma bossa nova de “Saudosa Maloca”. Creio que a ideia não é uma resenha, mas é difícil de não comentar todas as músicas. Vou parar por aqui destacando, ainda, as versões lindas de “Boto”, e o ótimo pot-pourri de “Meio Termo/Corpos”, lembrando que todas as músicas ficaram fenomenais.

André: Cara, acho que esse é o disco mais “pesado” da Elis que eu já ouvi na vida. Tem guitarras aqui. Guitarras de verdade, com overdrive e tudo mais. O baterista Dudu Portes batendo forte, com viradas e tudo mais. Uma interpretação intensa, forte, não sei o que o César Camargo Mariano fez com ela, mas eu gostei. Discaço hein Mairon, acertou em cheio aqui.

Davi: Elis é considerada, por muitos, a maior cantora da música brasileira e ouvindo esse álbum dá para entender o porquê. Nessa apresentação gravada no Teatro Ginástico (Rio de Janeiro), a pimentinha transborda emoção em cada uma das interpretações, além de ter uma invejável técnica vocal. Embora eu goste muito de seu trabalho inicial, é indiscutível que sua obra toma outro nível quando seu marido César Camargo Mariano assume as rédeas. Todo esse cuidado com o arranjo também é perceptível no show. O concerto não está completo. Inicialmente seria lançado um volume 2 com as outras faixas, mas o projeto acabou sendo abortado. Sabendo da importância da Elis e do barulho que causou na época, se eu trabalhasse na gravadora, nem teria corrido esse risco, teria lançado um álbum duplo de uma vez. Voltando ao álbum em questão, colocaria como destaque os clássicos absolutos “Fascinação” e “Querelas do Brasil”, além de “Sinal Fechado” e “Cartomante”. Se você tem interesse na música brasileira, além do rock/metal, diria que essa é uma audição obrigatória.

Marcello: Gravado ao vivo em apresentação da turnê do mesmo nome, realizada em 1977, Transversal do Tempo traz a melhor cantora da história recente da MPB – ao menos na minha opinião – ao lado do marido tecladista, produtor, arranjador, diretor musical, o que mais você quiser, César Camargo Mariano. Se o ABBA eu desprezava, Elis – e toda a MPB – eu não me interessava. E não me interesso, admito. Por isso não posso comparar esse disco com a produção da cantora, ou as versões de músicas conhecidas com outras. Abrindo com a linda “Fascinação”, com Elis soltando toda a extensão de sua voz privilegiada, o disco traz outro clássico da música brasileira (“Saudosa Maloca”), bem como “Sinal Fechado”, que mostra que só um talento como o de Elis consegue fazer você ouvir uma música do Paulinho da Viola sem sentir saudades do autor. “Querelas do Brasil” é outro destaque absoluto, com um acompanhamento fantástico dos músicos de apoio em um arranjo quase jazzístico. César Camargo Mariano é um tecladista de mão cheia e a banda é excelente, e o desempenho de Elis é impecável (só não curto muito a voz dela na versão de “Deus Lhe Pague”). O álbum se encerra com “Cartomante”, uma aula de domínio de voz no autor Ivan Lins (não entendam errado, o cara canta bem, mas Elis é covardia). Diferentemente do ABBA, este aqui eu vou ouvir mais vezes no futuro.
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