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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Tom Jobim - The Man From Ipanema [1995]


Há 30 anos, o mundo perdia um de seus maiores compositores, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, ou simplesmente Tom Jobim. O carioca e multi-instrumentista (exibiu domínio amplo no violão, piano e flauta) se consagrou mundialmente como arranjador, compositor e intérprete, e faleceu por conta de duas paradas cardíacas, causadas por uma embolia pulmoar, após uma operação de emergência, por conta de problemas urinários, aos 67 anos. Mesmo que em um período de vida relativamente curto, comparado com outros artistas, Tom deixou um legado gigante para a música brasileira, e por que não, mundial. Lembro de assistir Tom tocando na Globo, quando pequeno, por diversas vezes, e toda a comoção que sua morte gerou na empresa de televisão, mas confesso que nunca fui um apreciador da música dele, principalmente por sua forma arrastada de cantar. 

Porém, com o passar dos anos, e influenciado por obras de (principalmente) Elis Regina e Gal Costa, bem como Tim Maia e Caetano Veloso (em proporção menor), acabei conhecendo as músicas de Tom com um outro ouvido, assim como ir atrás da vasta obra do carioca me abriu os horizontes para entender por que do enaltecimento do cara pelo mundo, e todo o sucesso que ele fez nos Estados Unidos.

Parte do livreto que acompanha o álbum aqui resenhado,
apresentando Tom ao lado de Baden Powell, Lucia Proença e Vinicius de Moraes

Tom é um dos pais da bossa nova, adaptando a música francesa e o jazz americano junto ao samba carioca, criando um estilo único, complexo, e que só foi sendo aprimorado com o passar dos anos. Com letras que flertam com amor e relacionamentos, indo para tons políticos, principalmente sobre o meio-ambiente, apreciar a obra de Tom na sua totalidade exige uma audição dedicada, mas, para quem quer se iniciar e não tem ideia de onde ir, vá atrás de The Man From Ipanema, coletânea lançada (somente lá fora) em 1995, e que resgata muitos dos pontos altos de artistas e do próprio Tom interpretando suas canções.

São 3 CDs, dividos em Vocals, Instrumentals e Side By Side, e que apresentam Tom para aqueles que desconhecem seus discos, ou até mesmo para os já iniciados em sua obra, de uma forma bastante plural. No total, canções de 10 discos aparecem nas três mídias, sendo eles quatro de Tom (Antonio Carlos Jobim - The Composer Of Desafinado, Plays - 1964; Wave - 1967; Tide - 1970; e Passarim - 1987), a famosa parceria com Elis Regina, Elis & Tom (1974), mais os álbuns Jazz Samba Encore!, parceria do saxofonista Stan Getz com o violonista e compositor brasileiro Luiz Bonfá (1963),  Getz/Gilberto, projeto fantástico que uniu Getz ao violão de João Gilberto, em 1964, e do qual Tom contribui com o piano e/ou violão, The Astrud Gilberto Album (1965), da esposa de João Gilberto, Astrud Gilberto, Elis Especial (1979), coletânea não autoriza de Elis Regina, e o espetacular The Carnegie Hall Salutes The Jazz Masters (1994), trazendo Tom Jobim e outros convidados na apresentação realizada em 6 de abril de 1994 em homenagem aos 50 anos da gravadora Verve.

CD 1, acondicionado em um envelope no formato de peixes

Começando pelo CD 1, com quase 80 minutos de música,  passeamos pela nata da obra de Tom em nada mais nada menos que 23 canções. Pegando aquelas gravadas pelo próprio Tom, temos a bela "Lamento" (de Wave) e nada mais nada menos que sete faixas de Elis & Tom (sendo que o álbum original possui 14 canções), a saber a mega-clássica "Águas De Março", "Chovendo Na Roseira", "Modinha", "Soneto Da Separação", "Retrato Em Branco E Preto", "Inútil Paisagem" e "O Que Tinha De Ser". O timaço que acompanha a dupla aqui é César Camargo Mariano (piano), Luizão Maia (baixo), , Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão), Oscar Castro Neves (violão) e Helio Delmiro (violão, guitarras). Quem assistiu o documentário Elis & Tom, Só Tinha De Ser Com Você (2022) percebe o clima de tensão que acompanha a gravação deste que é sem sombra de dúvidas um dos álbuns fundamentais da MPB, e ao ouvir as faixas aqui escolhidas para representar este grande encontro, o quão grande era o talento de Elis Regina para interpretar, como só ela sabia fazer, letras tão belas e pessoais de outros compositores, principalmente nas doloridas “Modinha”, somente Elis e cordas (arrepiante e assustador), “Retrato Em Branco E Preto” e “O Que Tinha de Ser”, essa para cortar os pulsos! Elis também contribui com "Bonita", do álbum Elis Especial, que é apenas ais um pequeno grande acréscimo do talento da gauchinha de voz mais espetacular que o Brasil já teve. 

Por fim, de Passarim saem "Borzeguim", "Passarim", "Luiza", "Anos Dourados (Looks Like December)", "Gabriela" e "Chansong". A line-up aqui conta com um timaço de vozes (Ana Lontra Jobim, Danilo Caymmi, Elizabeth Jobim, Maucha Adnet, Paula Morelenbaum, Paulo Jobim e Simone Caymmi) que enaltecem a inquestionável qualidade de criação e composição de Tom, pois os arranjos e harmonias vocais, mesclados com instrumental aguçadíssimo e uma orquestra em perfeita combinação com os demais músicos, fazem deste não à toa um dos meus álbuns preferidos de Tom. Poderia ter entrado a excelente "Borzeguim", uma letra forte e atemporal (não parece que faz mais de 40 anos que Tom escreveu algo tão poderoso) na versão que Gal Costa lançou em Minha Voz (1982), e também a épica “Matita Perê”, uma de suas obras mais belas e complexas. Mas ok, para quem está conhecendo Tom, foram ótimas escolhas.

Mas não acabou o CD 1, já que ainda temos, de Getz/Gilberto, as excepcionais e exclusivas versões para "Só Danço Samba" e "O Grande Amor", com o destacado Getz no saxofone, além de uma bandaça formada por Tommy Williams (baixo), Milton Banana (percussão) e Tom ao piano, e a delicadíssima voz de Astrud Gilberto com 6 das 11 faixas de The Astrud Gilberto Album em "Amor Em Paz", "Água De Beber", "Dindi", "Photograph", "Meditation" e "O Morro Não Tem Vez". Vale ressaltar o trabalho de tradução das letras de Tom para o inglês, feitas por Ray Gilbert, e a bela banda que acompanha Astrud em seu álbum, a saber Joe Mondragon (baixo), Bud Shank (flauta), João Donato (piano), Milt Bernhart (trombone) e Tom no violão/piano. Difícil saber qual a melhor faixa dessas citadas, mas o fato é que toda a audição do CD 1 é uma experiência fantástica.

O CD 2, acondicionado em um envelope no formato de flor

Passamos para o CD 2, com as faixas instrumentais, onde destacam-se os álbuns Wave e Tide, que juntos entregam 7 das 15 canções do CD. Do primeiro saem "Wave", "Mojave", "Triste" e "Captain Bacardi". Aos perdidos, são faixas nas quais Tom une o jazz americano ao samba brasileiro, essencialmente por conta dos músicos estadunidenses que o acompanham aqui (Ron Carter no baixo, Claudio Slon na bateria, Jimmy Cleveland e Urbie Green no trombone, mais um naipe de metais e cordas, bem como a percussão de Dom Um Romão). Músicas de arranjos complexos, belos, e que facilmente se apresentam como o ápice da criatividade de Tom, assim como as três faixas de Tide, a saber a faixa-título, "Sue Ann" e "Tema Jazz". Se Wave é um grande álbum de jazz/samba, Tide já é um álbum mais conservador, com Tom acompanhado por uma orquestra, Ron Carter ao baixo e Hermeto Paschoal na flauta, sendo este o principal nome nos improvisos de "Tema Jazz", fácil candidata a melhor deste álbum em especial. Mas se você quer realmente saber de onde vem as origens de Tom, concentre-se nas 7 faixas de Antonio Carlos Jobim, The Composer of Desafinado, Plays. Este é o primeiro álbum solo de Tom, gravado em Nova Iorque no ano de 1963, e nas faixas escolhidas para esta coletânea, estão "Amor Em Paz", "Chega De Saudade", "Samba De Uma Nota Só", "O Morro Não Tem Vez", "Meditation", "Água De Beber" e "Só Danço Samba". Fica claro aqui que Tom era um músico exímio, e que suas canções, mesmo tendo belas letras, funcionam melhor com ele somente no piano, acompanhado pelos exímios arranjos orquestrais, e deixando então as interpretações vocais para outros artistas. Fecha o CD dois a versão de "O Morro Não Tem Vez (Favela)" retirada do álbum Jazz Samba Encore!, e que por si só já vale toda a audição do CD, afinal, Getz e Bonfá simplesmente estraçalham aqui.

O CD 3, acondicionado em um envelope no formato de folha

O CD 3 ataca com diferentes versões para as mesmas canções, destacando as faixas de Antonio Carlos Jobim - The Composer of Desafinado, Plays, as quais, instrumentais, são "Desafinado", "The Girl From Ipanema", "Corcovado", "Insensatez" e "Vivo Sonhando", fechando portanto as 12 canções originais deste disco todas na coletânea aqui representada. Porém, estas cinco faixas em especial surgem com outras versões. "Desafinado", que com Jobim é privilegia o piano do músico, aparece também na interpretação de Getz/Gilberto, já com a voz manhosa de Gilberto, e com a exímia versão registrada no citado show do Carnegie Hall, tendo Tom ao lado de Joe Henderson (saxofone), Charlie Haden (baixo) e Al Foster (bateria), na qual Henderson dá um espetáculo a parte. A dupla Getz/Gilberto também manda ver na versão definitiva de "The Girl from Ipanema", com João dividindo os vocais com a esposa Astrud (ele em português, ela em inglês), que na versão de The Composer of Desafinado ... possui um grandioso arranjo orquestral, "Corcovado" (outra com os vocais de João e Astrud, e um banho de Getz) e "Vivo Sonhando (Dreamer)", esta com os vocais de João e tipicamente bossa-novista, totalizando 6 das 8 faixas originais deste discaço. Complementam o CD a versão de Tide para "The Girl From Ipanema", totalmente instrumental, que lembra bastante a versão de The Composer of Desafinado ... a espetacular interpretação de Elis para "Corcovado", e as inebriantes interpretações de Astrud Gilberto para "Insensatez" e "Vivo Sonhando", fechando 8 das 11 faixas originais daquele disco, assim como o Getz e Bonfá acompanhando os vocais de Maria Toledo em "Insensatez", e as performances no Carnegie Hall para  "Insensatez", com Tom ao piano e vocais e Pat Metheny arransando no violão, e "The Girl From Ipanema", esta última retirada do raro VHS lançado no mesmo nome, e que até então nunca havia sido lançada em CD ou LP somente com Tom no vocal e piano. 

Um pouco mais do livreto, agora destacando Elis Regina e Tom

A grande surpresa deste CD 3 é que ao acabar a décima sétima faixa, no caso a versão de "Vivo Sonhando" feita por Astrud Gilberto, temos alguns segundos de puro silêncio, para então, em uma faixa escondida, comerçamos a ouvir as vozes de Elis e Tom em estúdio, criando "Águas De Março" entre muitas risadas e conversas. A discussão de quem canta "é o pé, e o chão" é hilária, com Elis falando "nossa senhora, please ..." e Tom dizendo "não, eu tô errado, que sacanagem hein", seguindo por mais erros, risadas e Tom brincando com Elis dizendo "vamos prestar atenção nesta bosta!". São pouco mais de 4 minutos de uma audição até então inédita, demonstrando a parceria que surgiu entre estes dois gigantes, e que depois acabou sendo uma das grandes atrações do lançamento No Céu Da Vibração - Parte 2 (1974-1980) da Folha de São Paulo (2014).

No recheado livreto de 60 (!) páginas, fotos diversas e entrevistas com o próprio Antonio Carlos Jobim, Oscar Castro-Neves, Gene Lees e Creed Taylor, assim como a biografia de Tom por Sergio Cabral, track list comentado por Oscar Castro-Neves e Liner Notes por Gene Lees, relatando como conheceu Tom e foi o responsável por traduzir e adaptar diversas de suas canções para o inglês.  A entrevista de Oscar Castro-Neves, conduzida por Richard Seidel, foi feita em agosto de 1995, pouco antes do lançamento do álbum, assim como a de Creed Taylor, essa conduzida por Gene Lees. A primeira concentra no fato de como Oscar e Tom se conheceram, e como surgiu a amizade entre eles, realizando diversos projetos (Elis & Tom, o filme Gabriela, entre outros), com destaque para a criação da palavra bossa-nova por outro grande nome da música nacional, Newton Mendonça, na canção "Desafinado".  arte de The Man From Ipanema também é muito bela. Já na segunda, temos Creed trazendo o processo de gravação do ábum Getz/Gilberto e de sua vinda ao Brasil para gravar outros álbuns de Tom. Na parte dos textos, com certeza a atração maior vai para a entrevista de Tom conduzida por Gene Lees, feita em 1974, na qual o carioca faz uma ampla retrospectiva de sua vida e carreira. 

Outra imagem do livreto, destacando a super
Banda Nova que acompanhou Tom nos anos 80

A arte de The Man From Ipanema também é muito bela. Os 3 CDs vêm em um livreto encadernado, cada um em um "envelope" especial que remetem a natureza, sendo o CD 1 no envelope em formato de peixe, o CD 2 no formato de flor e o terceiro CD em formato de folha, bastante caprichado. Um álbum mais que especial, que celebra a grande obra de um grande artista, e que se você tiver a sorte de encontrar em algum Mercado Livre ou Shopee da vida, e esteja afim de conhecer quem foi Tom Jobim, pegue sem medo!

Contra-capa do CD

Track list

Vocals

1-01 Antonio Carlos Jobim– Passarim

1-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim– Só Danço Samba (Jazz Samba)

1-03 Elis  & Tom – Águas De Março (Waters Of March)

1-04 Astrud Gilberto – Amor Em Paz (Once I Loved)

1-05 Antonio Carlos Jobim – Lamento

1-06 Antonio Carlos Jobim – Luiza

1-07 Elis & Tom – Chovendo Na Roseira ("Double Rainbow" And "Children's Games")

1-08 Antonio Carlos Jobim – Anos Dourados (Looks Like December)

1-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – O Grande Amor

1-10 Astrud Gilberto – Água De Beber

1-11 Elis & Tom – Modinha

1-12 Antonio Carlos Jobim – Borzeguim

1-13 Elis & Tom – Soneto Da Separação

1-14 Antonio Carlos Jobim – Gabriela (From The Film Gabriela)

1-15 Elis & Tom - Retrato Em Branco E Preto (Portrait In Black And White) ("Zingaro")

1-16 Astrud Gilberto – Dindi

1-17 Elis & Tom - Inútil Paisagem (Useless Landscape)

1-18 Astrud Gilberto – Photograph

1-19 Antonio Carlos Jobim – Chansong

1-20 Astrud Gilberto – Meditation

1-21 Elis & Tom - O Que Tinha De Ser

1-22 Astrud Gilberto – O Morro Não Tem Vez (Aka "Favela")

1-23 Elis Regina – Bonita


Instrumentals

2-01 Antonio Carlos Jobim – Wave

2-02 Antonio Carlos Jobim – Tide

2-03 Antonio Carlos Jobim – Amor Em Paz (Once I Loved)

2-04 Antonio Carlos Jobim – Chega De Saudade (No More Blues)

2-05 Antonio Carlos Jobim – Sue Ann

2-06 Antonio Carlos Jobim – Samba De Uma Nota Só (One Note Samba)

2-07 Antonio Carlos Jobim – Mojave

2-08 Antonio Carlos Jobim – O Morro Não Tem Vez (aka "Favela")

2-09 Antonio Carlos Jobim – Tema Jazz

2-10 Antonio Carlos Jobim – Meditation

2-11 Antonio Carlos Jobim – Triste

2-12 Antonio Carlos Jobim – Água De Beber

2-13 Antonio Carlos Jobim – Só Danço Samba (Jazz Samba)

2-14 Antonio Carlos Jobim – Captain Bacardi

2-15 Stan Getz / Luiz Bonfá – O Morro Não Tem Vez (aka "Favela")


Side By Side

3-01 Antonio Carlos Jobim – Desafinado (Off Key)

3-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Desafinado

3-03 The Carnegie Hall Jazz Band – Desafinado

3-04 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-05 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-06 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-07 The Carnegie Hall Jazz Band – The Girl From Ipanema

3-08 Antonio Carlos Jobim – Corcovado (Quiet Nights Of Quiet Stars)

3-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Corcovado

3-10 Elis & Tom – Corcovado

3-11 Antonio Carlos Jobim – Insensatez (How Insensitive)

3-12 Astrud Gilberto – Insensatez

3-13 Stan Getz / Luiz Bonfá – Insensatez (Instrumental, 1963)

3-14 The Carnegie Hall Jazz Band – Insensatez

3-15 Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando (Dreamer)

3-16 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando

3-17Astrud Gilberto – Vivo Sonhando

Hidden Track

3-18 Elis & Tom – Águas De Março (Studio Outakes)

sábado, 7 de junho de 2014

ECM Records



Depois de ter apresentado aqui a Fábrica de Discos Rozenblit, hoje irei complementar aquele texto falando sobre uma das mais poderosas gravadoras de jazz do mundo, a alemã Edition of Contemporary Music Records, conhecida mundialmente como ECM Records.

Sua história é muito longa e repleta de curiosidades, que para complementar, indicarei alguns sites no final do texto, mas aqui, farei um resumo suficiente para o leitor ser apresentado ao selo (caso não conheça).

Fundada em 1969 na cidade de Munique, esta gravadora foi um dos grandes trunfos que o ser humano pode registrar nos anais como parte de sua história. Afinal, a ideia de Manfred Eicher, o principal nome por trás da ECM, era ampliar o mercado do jazz americano na Europa, e mostrar ao mundo a potência que o jazz da Europa também tinha.


Manfred Eicher, em 1969

Eicher era um baixista de jazz, apaixonado pelo estilo, e que garimpava álbuns importados nas diversas lojas da Alemanha e Europa. Porém, os mesmos não eram tão simples de serem encontrados, ainda mais o jazz europeu que Eicher ouvia nos locais por onde se apresentava.

Do próprio bolso, Eicher investiu 16 mil marcos alemães (algo em torno de 40 mil dólares na época) para montar o selo, sendo acusado por muitos como um amador, o qual ele mesmo adotou como insígnia, já que se considerava um amador (amante) do jazz. Depois de montar a companhia, passou a buscar os artistas que iria lançar, procurando sempre aqueles que ele gostava. 


Primeiro LP lançado pela ECM Records
Em suas próprias palavras: "Minhas escolhas nunca foram influenciadas pela evolução do mercado musical. Eu escolhia os artistas intuitivamente, principalmente por causa do que suas músicas causavam em mim, tocando-me e fazendo sentir que deveria estar em nosso catálogo da ECM. Se eu tinha dinheiro suficiente no banco, eu produzia a gravação".

O primeiro disco lançado pelo selo coube ao pianista americano Mal Waldron, o excepcional Free at Last (1969), com a marcação ECM 1001. Depois dele, vieram diversos artistas ingleses (Dave Holland e Derek Bailey), americanos (Paul Bley, Bayy Autschul, Barre Phillips, Marion Brown,Robin Kenyatta, Chick Corea alemães (Alfred Harth, Wolfgang Dauner) e europeus (Jan Garbarek - Noruega, Bobo Stenson - Suécia e Terje Rypdal - Noruega), até que em 1972, surge a primeira grande estrela da ECM Records, Keith Jarett.



Keith Jarrett (acima) e três de seus principais álbuns com a ECM
O pianista estava excursionando com Miles Davis pela Noruega, e conquistou a mente de Eicher, que ofereceu-lhe a oportunidade de registrá-lo com um trio, caso achasse necessário. Jarrett decidiu lançar-se sozinho, e assim, registrou uma série de improvisações no ótimo  Facin' You (1972), o primeiro álbum da ECM a ultrapassar a marca de meio milhão de cópias vendidas. 

Jarrett lançou mais onze álbuns pelo selo, dentre eles os clássicos  Hymns/Spheres (1976) e The Köln Concert (1975), esse o primeiro disco do selo a ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas (quase três milhões de cópias até hoje), enquanto teve alguns discos lançados por outro grande selo de Jazz, o americano Impulse! no mesmo período, e a partir de 1977, TODOS os álbuns de Jarrett saíram pela ECM, totalizando quarenta e cinco discos até o presente momento.


A estreia do Return to Forever, alavancando o nome da ECM na América

Ainda em 1972, outro álbum vendeu extremamente bem para a ECM, o inquestionável Return to Forever, lançado pelo grupo de mesmo nome. A fusão de estilos de Chick Corea (teclados), Joe Farrell (saxofone, flautas), Stanley Clarke (baixo), Flora Purim (vocais, percussão) e Airto Moreira (percussão, bateria) e alcançou a oitava posição entre os álbuns de jazz mais vendidos dos Estados Unidos, uma proeza para uma gravadora com apenas três anos. Não à toa, o Return to Forever é reconhecidíssimo como um dos pilares do jazz fusion, ao lado de Weather Report e The Eleventh House.

Foi graças ao sucesso do Return to Forever nos Estados Unidos que a ECM começou a ser reconhecida, e cada vez mais nomes americanos passaram a ser lançados pelo selo, que manteve o americano Jarrett sempre como principal força-motor.


Pat Metheny (acima)
e seu principal lançamento pelo selo (abaixo)

Depois de Jarrett consolidar-se como estrela no cast da ECM, e de ter lançado no mercado a carreira solo de nomes como Ralph Towner, John Abercrombie e Dave Liebman, eis que surge o segundo artista a reinar soberano no selo, mais uma jovem surpresa americana que Eicher conheceu em suas audições, o talentosíssimo Pat Metheny. Metheny assustou Eicher com seus fraseados e estilo único, e rapidamente, o alemão lançou o primeiro álbum com o guitarrista, o essencial Bright Size Life, na qual ele está acompanhado por nada mais nada menos que Jaco Pastorius (baixo) e Bob Moses (bateria). Foram apenas quatro álbuns junto ao selo, entre 1977 e 1981, mas o suficiente para que a ECM ganhasse uma sequência de milhões de dólares para The Köln Concert, já que o clássico disco de estreia solo de Metheny, New Chautauqua (1979) é até hoje um dos discos de jazz mais vendidos na história da música.

Outro fator genial de Eicher e sua companhia era a união de nomes do cast para a gravação de um álbum. Foi assim que surgiram diversos trios e duplas de jazz consagrados, como: John Surman / Jack DeJohnette; Paul Bley / Gary Peacock / Paul Motian; Keith Jarrett / Gary Peacock / Jack DeJohnette; John Abercrombie / Dan Wall / Adam Nussbaum; Charles Lloyd / Billy Higgins; Ralph Towner / Gary Peacock; entre outros nomes que acabaram não sendo reconhecidos mundialmente, mas de valores comparáveis com os gigantes citados, dos quais destaco Kimiko Hagiwara / Dohyung Kim / Junko Kuribayashi e Trygve Seim / Øyvind Brække / Per Oddvar Johansen.


Os brasileiros Egberto Gismonti e Nana Vasconcelos tiveram álbuns lançados pela ECM
Como vocês podem ver, os nomes que saíram pela ECM durante a década de 70 são extremamente valiosos, mas durante a segunda metade daquela década, Eicher decidiu aumentar o leque de gravações, não ficando apenas no Jazz. Assim, investiu em áreas bastantes distintas, buscando nomes que fugiam do eixo Estados Unidos - Europa. Foi assim que os brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram alguns de seus álbuns registrados pelo selo (Dança das Cabeças, de 1977, por Egberto, e Saudades, 1979, por Nana, além de Duas Vozes, unindo ambos os músicos em 1985), que tornou-se um precursor no lançamento do gênero hoje conhecido como World Music, trazendo ao mundo obras de países que não eram ainda ouvidos pelo ocidente, como Tunísia, Tchecosováquia, Finlândia e Índia.

A música clássica uniu-se aos lançamentos de música local, que receberam uma marcação nova no selo, batizados sob o título New Series. Todos os álbuns com a sigla ECM NS significavam álbuns voltados essencialmente para a música clássica e/ou lançamentos de música característica de um determinado local/país. O selo foi fundado em 1984, e seu primeiro lançamento foi o CD de Octet / Music for a Large Ensemble / Violin Phase, de Steve Reich, que havia sido lançado originalmente em 1980. Esse também foi o primeiro CD lançado pelo selo.

A NS ganhou força com o passar dos anos, e atualmente, é tão responsável pelos lançamentos do selo quanto o Jazz, sendo que por ela também saíram algumas trilhas sonoras de filmes e documentários europeus, principalmente em colaboração com o diretor francês Jean-Luc Goddard.

A ECM notabilizou-se também pela qualidade de suas gravações. Mixagens em Stereo, com instrumentos tendo caixas exclusivas (piano na esquerda, baixo e bateria na direita, por exemplo, em discos de trio) ou efeitos sonoros são algumas das "modernidades" que o selo trouxe ao mundo. Para Eicher, a qualidade de gravação era o essencial para poder captar aquilo que o conquistava. Assim, ele gravava os instrumentos obedecendo duas regras importantíssimas:

1) Imagem de estéreo completamente homogênea (o som deveria ser gravado com mesmo nível em ambos os canais, a não ser em casos especiais, quando fosse um pedido do autor);

2) Muitos níveis de profundidade do som durante a mixagem (eram feitas quantas mixagens fossem possíveis para se obter o som mais claro possível).


Alguns álbuns lançados pela New Series

Nas palavras de Eicher: "Eu coloquei em prática tudo que eu aprendi durante minhas sessões como produtor assistente em algumas sessões de gravação de música de câmara. Até então, eu tinha ouvido muitos discos de jazz, principalmente da Impulse! e da ESP. Eu achava a música muito interessante, mas eu não gostava da forma como ela era produzida, principalmente por que eu sentia um vazio na qualidade final, como se parte da mensagem tivesse desaparecido. Meu principal objetivo, quando fundei a ECM, foi respeitar cada aspecto da música, o que significa ser hábil a ouvir cada nuância do instrumento, cada colorido, e respeitar as dinâmicas do som, como dadas pelo músico. Era uma forma muito diferente de se gravar o jazz, e o público foi  muito sensível para isso".

Ainda hoje, milhares são os que creditam aos álbuns da ECM como os que possuem a melhor qualidade de gravação. As mixagens eram feitas com modernas técnicas de unidades eletrônicas, capazes de inserir no som reverberações (pequenas distorções e sobreposições de instrumentos) e os famosos decays (aquela diminuição do volume do som no final de cada faixa). 


Eicher sempre gostou de participar das produções dos álbuns da ECM.
Acima com Keith Jarrett, e abaixo, com Pat Metheny


Pode ser normal nos dias de hoje, mas no início da década de 70, isso era uma grande novidade. O mais interessante é que Eicher tentava capturar as gravações praticamente ao vivo no estúdio, na primeira tomada. Poucos foram os discos que levaram mais que dois dias para serem gravados, e a mixagem percorria um dia inteiro, agilizando no lançamento do material praticamente depois de ele ter sido construído.

Por fim, outro ponto marcante nos lançamentos da ECM era a combinação de música clássica e jazz. Frequentemente, Eicher resolvia que um artista seu iria gravar com uma orquestra, e o resultado não-raramente tornava-se uma obra-prima. 


Officium, marcante fusão do Jazz com a Música Clássica lançada pela ECM em 1994

Alguns bons exemplos são Officium (1994), de Jan Garbarek, gravado ao lado da The Hilliard Ensemble, um quarteto vocal que arrepia durante o álbum com cantos gregorianos sob os solos de saxofone de Jan, e A Wider Embrace, magnífica fusão do saxofone de Trevor Watts com as percussões africanas da Moiré Music Drum Orchestra, lançado também em 1994.

A ECM tem em seu catálogo são quase mil e quinhentos álbuns, registrados em quarenta e cinco anos de existência. Em uma média de 33 LPs por ano, ou 3 LPs por mês, mostrando toda a importância do selo para divulgar seus músicos.


Manfred Eicher, em 2009

Entre 2002 e 2004, foi lançada uma série de compilações de vinte dos principais artistas do selo. Jan Garbarek e Keith Jarrett foram agraciados com coletâneas duplas, e os demais, com CDs simples que resumem a obra do artista na ECM. Aos interessados, os artistas são: Keith Jarrett, Jan Garbarek, Chick Corea, Gary Burton, Bill Frisell, Art Ensemble of Chicago, Terje Rypdal, Bobo Stenson, Pat Metheny, Dave Holland, Egberto Gismonti, Jack DeJohnette, John Surman, John Abercrombie, Carla Bley, Paul Motian, Tomasz Stanko, Eberhard Weber, Arild Andersen, Jon Christensen.

A infinidade de fãs do selo pelo mundo garante ainda mais sua importância para a história da música. Para se ter uma pequena ideia, entre 23 de novembro de 2012 e 10 de fevereiro de 2013 foi realizada uma exposição no Museu Haus der Kunst, em Munique, somente com os álbuns de Jazz lançados pela ECM até meados dos anos 80. Durante a exposição, músicos como Enrico Rava, Evan Parker, Jan Garbarek, Meredith Monk, Anoham Brahem Quartet, entre outros apresentavam-se para a plateia, que levou mais de 10 mil pessoas por dia (aproximadamente) durante o período de exposição. Há ainda um belíssimo site dedicado à obra da gravadora, o qual é frequentemente atualizado por seu idealizador, o fã Tyran Grillo.


Pôster de exposição dedicada ao selo (acima)Anoham Brahem Quartet, na exposição em homenagem ao selo (abaixo)

O sucesso da ECM foi tão grande que nos Estados Unidos, o selo foi distribuído pela Warner Bros., BMG Records e Polygram. Desde 1999, a Universal Music (que comprou os direitos da Polygram) é a responsável pela distribuição dos álbuns do selo, que já conquistou cinco vezes a premiação de Melhor Selo do Ano (1980, 2008, 2010, 2012 e 2013), selo este que permanece intacto até hoje, com as três letras ECM (o C como sendo um vinil retirado da capa M sobre o encarte E) com um fundo alternando de cores entre um verde escuro, preto ou cinza, e que dia após dia, faz cada vez mais mentes ferverem com as preciosidades do jazz e da música clássica que a gravadora lançou, e que certamente lançará por muitos anos.

Eicher continua ativamente seus estudos e interesse pela música, atuando como produtor na maioria das gravações, e sempre buscando novos artistas, mantendo a chama de um Selo Lendário acesa e com força.


O famoso selo com o C em formato de vinil saindo da capa M sobre o encarte E



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