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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Maravilhas do Mundo Prog: Marcio Rocha - Desolation of Fools [2000]


 

Em 2006 tive a minha primeira experiência aérea. Já viajava com música desde pequeno, mas nunca tinha colocado meus pés em um avião. Graças a minha área de trabalho (Física difrativa de partículas altamente energéticas), fui convidado a participar de um evento no Rio de Janeiro, e assim, conheci uma das cidades mais bonitas do mundo, na primeira de muitas viagens que acabei realizando por causa da minha pesquisa, e que eu espero possa continuar por muitos anos.

Foto no encarte de Juno
Exatamente nessa viagem, através de uma grande amiga com a qual infelizmente acabei perdendo o contato (ELÔ, CADÊ VOCÊ???), conheci diversas lojas de discos no centro do Rio de Janeiro. Em uma delas, acabei fazendo amizade com o dono do local, Márcio Rocha, responsável ao lado de Bruno pela Tropicália Discos, uma loja especializada em vinis de todos os gêneros. Com as diversas idas para o Rio, passei a frequentar a Tropicália como minha segunda casa, principalmente pelos papos de música entre eu e o Márcio.

Foi justamente durante um papo sobre Ravi Shankar que Márcio me surpreendeu com a notícia de que havia gravado um CD. Dei altas gargalhadas, pois achei que ele estava brincando, e foi então que ele me deu o CD, e falou para ouvir quando voltasse para Porto Alegre. Quando vi o CD nas minhas mãos, logo percebi que ele falava sério, e fiquei uma semana no Rio de Janeiro até poder voltar  para Porto Alegre e ouvir o que estava contido ali dentro.

Formado em música no Instituto Villa-Lobos, Márcio teve sua carreira apresentada ao público ao entrar, em 1995, no magnífico projeto Luz da Ásia, que possuía uma influência dos sons orientais bem diferente do que já havia sido visto no Brasil, e infelizmente ficou perdido no subúrbio da decadência musical que viveu o nosso país no final dos anos noventa, envolto em barbaridades como É O Tchan, Araketu e tantas outras porcarias da época. No  Luz da Ásia, Márcio se encantou com o talento dos demais músicos da banda e com instrumentos como craviola, cítara e swaramandal. Com o grupo, registrou o álbum Amistad (1999), e então Márcio dedicou seu talento e carinho no lento e dedicado trabalho de gravação de seu álbum solo.

Áutografo no encarte pertencente ao bolha que vos escreve
Por fim, em 2000 Márcio lançou, através da Odisséia Records e com a ajuda de Alex Frias, o CD Juno, que foi exatamente o CD que ele me passou, e onde empregou todos os elementos que o Luz da Ásia tinha e mais as pitadas de clássico que havia aprendido no Instituto Villa-Lobos, fazendo uma espetacular mistura entre harmonia e sonoridade em um disco praticamente instrumental. Com uma curta vinheta "Samadhi", o CD abre espaço para conquistar os ouvidos dos amantes de rock progressivo com uma maravilha que será difícil ser encontrada em qualquer outro projeto do rock progressivo nacional.
"Desolation of Fools"  conta com a participação de músicos de bandas como Cláudio Cepeda (baixo, Anima Dominum), Alexandre Fonseca (tablas, Cheiro de Vida e Pepeu Gomes)  além de Alexandre Costa (bateria), Daniel Andrade (violino), Michel Mujalli (cítara) e Alessandra Balocchi (castanholas), e é uma mescla perfeita de sons orientais com música erudita e  principalmente, do bom e velho rock progressivo dos anos 70. Linda e complicadíssima, essa canção começa com os violões de Márcio acompanhado por bateria e baixo, fazendo a base para o solo de violino de Daniel Andrade. 

Márcio Rocha
A melodia da canção é belíssima, principalmente pela levada cadenciada  de toda a primeira parte da canção. Violino e guitarra solam juntos em um tema sensacional, seguidos pelo andamento do baixo e da bateria, e o timbre da guitarra de Márcio lembra muito Robert Fripp. Então, de repente, sintetizadores  tornam a canção ainda mais King Crimson, onde Márcio utiliza um violão para solar em uma escala flamenca, com um andamento de bateria/baixo/violino muito quebrado. Doideira pura! As escalas de Márcio são praticamente impossíveis de serem memorizadas, tamanho grau de dificuldade das mesmas, e a sequência de repetições nos faz parecer que a viagem não irá parar. 

Mas, após a doideira, o clima da canção muda totalmente com a entrada dos instrumentos orientais. Tabla e cítara fazem suas partes acompanhados pelo dedilhado do violão de Márcio, e então, castanholas mudam a canção mais uma vez, agora para uma sessão flamenca do violão acompanhando uma linda   participação da cítara. Por fim, a quebradeira volta novamente, em uma sessão onde a craviola introduz uma sequência de riffs ainda mais complicados do que os executados anteriormente, retomando então o belo tema inicial ao violino e com a guitarra solando junto, encerrando a faixa com o barulho de portas se fechando, mas abrindo um gigantesco leque para o resto de Juno, que ainda trás canções Maravilhosas como "Concertino", "Juno" e "Odisséia", mas nenhuma delas com tamanha intrincação e passagens fantásticas como "Desolation of Fools".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Podcast Collector's Room #35



Este podcast era para ter ido ao ar na última semana do mês de setembro de 2010, mas por diversos problemas, saiu somente no twitter da Collector's Room em dezembro de 2010.

O podcast da Collectors Room dessa semana irá apresentar canções voltadas para a musicalidade acústica. Canções suaves, para começar a semana de forma leve e tranquila, com um bloco especial apresentando umas das bandas mais pesadas da história. Ouça em volume moderado e saboreie cada segundo.



Allman Brothers - "Melissa"
Álbum: An Evening With Allman Brothers Vol. I (1992)

Curved Air - "Melinda (More or Less)"
Álbum: Phantasmagoria (1972)


Moody Blues - "Nights In With Satan"
Álbum: Live at Isle Of Wight 1970 (2008)


Beach Boys - "Don't Talk (Put Your Hand On My Shoulders)"
Álbum: Pet Sessions (1966)


Rolling Stones - "Wild Horses"
Álbum: Sticky Fingers (1971)


Los Hermanos - "Dois Barcos"
Álbum: 4 (2005)


Mutantes - "Você Sabe"
Álbum: O A E O Z (1992)


Ney Matogrosso - "Basta de Clamares Inocência"
Álbum: Interpreta Cartola Ao Vivo (2003)


Fernando Pacheco - "Progressivo L2 Sul"
Álbum: Himalaia (1987)


Márcio Rocha - "Desolation of Fools"
Álbum: Juno (2000)


Bacamarte - "Portais"
Álbum: Sete Cidades (1999)


Led Zeppelin - "The Rain Song"
Álbum: Houses Of The Holy (1973)


Led Zeppelin - "Going To California"
Álbum: IV (1971)


Led Zeppelin - "That's The Way"
Álbum: III (1970)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Entrevista Exclusiva: Marcio Rocha



Olá Márcio, primeiramente gostaria de te agradecer por colaborar com o Baú do Mairon. Conte-nos um pouco sobre sua formação e suas influências

Estudei violão clássico,e música de uma maneira formal no instituto villa-lobos de música no Rio de Janeiro. Minhas influências são muitas, e de variadas searas musicais, como a MPB (minas,tropicália,etc), rock em geral, jazz e musica erudita,e sei lá mais o que

Em que ano surgiu a Luz da Ásia? Por que esse nome?

O Luz surgiu no início dos anos 90, e pelo que sei o nome era uma referência a grande influência que o grupo tinha da música oriental, principalmente a indiana e a árabe, ou seja, um grupo brasileiro com um gosto de oriente, isso já ficava evidente na própria formação da banda, cheia de instrumentos orientais, e tal. Considero o grupo um marco no Rio de Janeiro, apesar de não ter sido muito conhecido nos grandes meios, marcou muito o underground.

Como você entrou neste incrível projeto?

Entrei para o grupo no final de 95. Fui convidado para cobrir um “buraco” num show, e acabei ficando, o que foi muito bom para mim, já que foi uma grande escola, e fiz amigos para a vida inteira lá.

Além do Amistad (1999), você chegou a gravar outros discos com a Luz da Ásia?

Olha, têm algumas curiosidades aí. Após o amistad nós gravamos um disco que nunca foi lançado, a gravadora lançouno lugar um disco de lounge com um dj criando em cima de loopings de músicas da banda, eu, particularmente, nem considero esse disco como do Luz, é mais um disco do dj que fez as recriações, e algumas até ficaram legais, mas não éramos nós realmente. Outra coisa é que o meu disco Juno foi gravado no mesmo estúdio e simultaneamente ao amistad, e tenho uma sessão de gravações com o tablista indiano que participou do disco do Luz nesta mesma época, espero um dia lançar isso, antes que a fita vá para o beleléu, hehehehe

Quando começaram as sessões de gravação do álbum Juno (2000)?

Elas começaram em outubro/ novembro de 97, tipo trabalho de formiguinha, eu, minhas guitarras e o metrônomo, mais nada.

Por que demorou para ser lançado?

Várias razões. Primeiro, grana, ou melhor, a falta dela. Segundo, a impossibilidade de se formar uma banda para ensaiar o repertório, era muita gente pra colocar num estúdio. Então eu escrevi todos os arranjos, certo de que poderia contar com a ajuda dos meus amigos, e foi o que aconteceu. Quem sabia ler música, eu entregava a partitura, quem não sabia, eu passava no instrumento etc., deixei todos os músicos à vontade para interpretar do seu jeito e também de opinar em qualquer coisa que não estivesse confortável para tocar etc, mas dei sorte, tudo funcionou bacana, e o pessoal gostou. Por
tudo isso, o processo de gravação foi lento, pois tive que fazer as sessões de acordo com a agenda de cada um. Por exemplo, excetuando o moog do André Mello (da Tempus Fugit) em uma das faixas, o disco não tem tecladista, não dava mais para esperar, então escrevi os acompanhamentos e solos, transformei em midi, e com a imensa ajuda do Alex Frias, engenheiro de som, coloquei o sample para tocar o que havia escrito, então o solo de hammond no final de “Horizonte”, por exemplo,  foi o computador quem tocou, e me obedeceu direitinho, hehehehe

A idéia de usar diversos instrumentos "diferentes" como craviola, Swaramandal, cítara, ... surgiu desde o início ou foi influência de sua passagem pelo Luz da Ásia?

Ah, é claro que eu não ia deixar de convidar o pessoal do Luz da Ásia, com aqueles instrumentos maravilhosos, para dar uma forcinha, não sou bobo, né?!, é lógico que a influência do grupo tava lá, no meio de tudo. a craviola mesmo comprei do Michel, citarista do grupo, então não tem como desvincular uma coisa da outra.

Conte para nós como conheceu os músicos que tocam instrumentos orientais nesse álbum (Silvia Brasil e Alex Fonseca)

A Silvia é um do seres humanos mais bacanas que eu já conheci, uma pessoa espiritualizada, muito ligada com a índia, e que tem uma paz interior incrível, além de ser uma musicista muita criativa e tocar vários instrumentos. Eu a conheci no Luz, ela fez parte da última formação do grupo. Teu conterrâneo Alex Fonseca, conheci através do meu amigo Denner Campolina, que participou também do disco. Eu já conhecia o trabalho dele, com o Cheiro de Vida, Pepeu Gomes e tantos outros, e o convidei para tocar tabla no disco, é um grande músico e uma pessoal muito correta, que eu passei a admirar mais ainda depois dessa participação, não é a toa que o Gilberto Gil está com ele lá na banda dele.

Por que da gravação de "O Vento" em português e em inglês?

Cara, "Vento" é a única música que não é minha no disco, ela é de uma compositora chamada Eliana Teixeira, e que foi erroneamente digitada no encarte como parceria nossa. A "Wind" sim, que é a versão em inglês, é uma letra adaptada por mim e Daniel Dutra, o que caracteriza uma parceria na letra. A grande questão é que eu gravei essa música à revelia da autora (espero que ela me perdoe por isso), porque a Eliana, que foi minha colega na Villa-lobos, sumiu do mapa, tentei encontrá-la diversas vezes e não consegui, tive que “forçar” essa parceria no inglês para poder colocar a música no cd, é estranho, mas foi isso que aconteceu. Nós chegamos a defender essa música num festival da escola no final de 96, ela foi injustamente desclassificada, então nessa época ainda estava sob o efeito da música na minha cabeça. Minha idéia era ter a Eliana cantando no disco, mas não deu. hoje jamais faria uma loucura dessas. Um beijo e felicidades para ela, onde quer que esteja.

A faixa "Desolation Of Fools" para mim é a melhor do cd Juno. Quantos dias ela demorou para ser gravada e como foi o processo de construção da mesma?

Essa música estava toda na minha cabeça havia tempo, aí quando entrei no estúdio com a craviola, as guitarras e o metrônomo, foi só gravar cada parte, a base foi feita em uma sessão, e quem dita a música é a craviola e o violão, depois vieram  bateria, baixo, violino etc. Na realidade isso ocorreu em todas as músicas, as minhas partes só com metrônomo, e depois os outros instrumentos. Deu trabalho rapaz, e como..., o Alex Frias, engenheiro de som do disco, é que me salvou.

De onde veio a idéia de lançar um disco tão progressivo e setentista durante uma década onde pouco material de qualidade foi visto nas lojas?

Nem todos acharam o disco tão progressivo. Alguns disseram que era uma miscelânea, sei lá, acho que os sintetizadores fazem falta para alguns, ou algo assim. O fato é que, eu tinha acabado de terminar meu curso de violão clássico, e tava cheio daquelas idéias de orquestração, e tudo mais. As músicas foram compostas, por incrível que pareça, num período em que eu não estava ouvindo muito rock, não. Mas, no subconsciente, todas aquelas informações, que são minhas influencias, né?!, estavam presentes. Me lembro quando tava gravando “Concertino”, e toquei um trecho do violão solo, o Frias me falou que aquilo tinha um lance tipo Egberto Gismonti, e eu não ouvia os discos do Gismonti já
fazia tempo, então esse coisa toda não foi pensada, foi natural. Os anos 90 foram, com poucas exceções, os piores anos da música mundial, aqui no Brasil foi terrível, acho que melhorou muito, e a tendência, penso, é de melhora mesmo, a internet é a chave.


Juno chegou a ser apresentado ao público em uma turnê? Quantos shows de divulgação foi feito para o álbum?

Pouquíssimos. teve um como quinteto, depois alguns como quarteto e só. O que ficou dessa época é o trabalho que estou fazendo hoje com o Cláudio Cepeda, baixista do disco, que se tornou meu parceiro musical. Nós começamos a desenvolver o projeto da banda, que acabou sendo feito em duo mesmo. O CD já está gravado, e espero, em breve, estará nas ruas.

Márcio, mudando o papo, mas seguindo na música, desde quando você trabalha com venda de discos/cds?

Desde o início dos anos 90. Eu comecei colecionando disco, molequinho, nos anos 80 e foi algo natural. Confesso que não era bem esse o plano, mas o barco da vida segue e você vai junto.

E na sua coleção, quantos discos você tem?

Rapaz, não tenho mais coleção, na realidade nem tempo pra isso tenho, as dívidas falam mais alto, hehehehe

Você já chegou a colocar uma raridade à venda e depois levou para sua coleção ou vice-versa?

Não que eu lembre. Desde que comecei a negociar disco como forma de sobrevivência, eu mantive as coisas separadas, depois a coleção foi pro espaço. Eu já tive uns lps excelentes que pouca gente conhece, mesmo os mais “taradões”, hehehehe.

Existe algum vinil que você tem vontade de adquirir e que nunca viu pessoalmente?

É como eu disse, vinil é um luxo que não posso ter, mas tive um que tinha uma arte gráfica tão bacana, que talvez pudesse ter de volta por isso. É o The Pentateuch of the Cosmogony do David Greenslade, a música é meio fraquinha, mas a arte gráfica vale o disco.


Por que você acredita que ainda existem pessoas que procuram vinis? Ainda, em sua loja, seus compradores são mais de colecionadores de vinil ou de gurizada querendo conhecer som.

Os clientes da Tropicália Discos são basicamente colecionadores. Tem uma galera nova tentando começar a colecionar lps, mas hoje é mais difícil,  aqui no Rio, por exemplo, no final dos 80 tinha um monte de sebos de discos, eu era um rato-de-sebo nessa época, agora acabou tudo, não tem mais nada, só umas 3 ou 4 lojas, e só. Os discos também estão cada vez mais escassos, é difícil começar agora. 

Qual a melhor prensagem de vinil no seu ponto de vista e por que?

A japonesa, sem dúvida. Os japoneses são criteriosos ao extremo em tudo o que eles fazem. E no vinil não é diferente. 

Como vendedor de discos/CDs e também como músico, qual a sua relação com os demais músicos do Brasil, seja ele um conhecido ou não?

A melhor possível. Na loja recebo músicos conhecidos e não conhecidos, tanto do Brasil, como lá de fora, e não há distinção, procuro me relacionar bem com todo mundo.

Voltando ao som, como foi a participação no álbum "A Memória das Naus" (2008) da Roque Malasartes e também nos shows de divulgação do mesmo?

Nunca toquei com o Roque Malasartes ao vivo, quem sabe um dia, né?!. O caso é que o Raul Branco, baixista e líder-mentor do grupo, é um grande amigo meu. E, há algum tempo atrás, ele me chamou para dar uma força no arranjo de algumas músicas, até porque o grupo tava reduzido a ele e mais uns dois membros, que aliás, já não estão mais lá. Então a banda tava meio “fora de combate”, mas o Raul, que é um guerreiro, nunca desistiu desse projeto fantástico, que é o Malasartes. Então foram alguns encontros na casa dele, depois no estúdio gravando com participações de ex-membros do grupo e tal. Dessas gravações, só ficou a música “Memória das Naus”, as outras, acho que toquei em mais duas, foram regravadas pela nova formação do grupo, que foi formada depois daquelas gravações. Então acho que aqueles encontros de alguma forma, ajudaram o Raul a manter a chama acessa e seguir com o Malasartes. Além de ter sido um prazer imenso a companhia do meu compadre, foi uma honra muito grande para mim.


Como anda o projeto Juno atualmente? Quais os integrantes da banda?

Então, como disse antes, o que posso garantir é a minha presença e a do Cláudio cepeda, os outros membros tão sendo pensados no momento dessa entrevista. A princípio será um quinteto, e´o que posso falar de momento.


Ouvi a faixa disponível na internet e senti uma diferença grande na musicalidade com relação ao seu álbum solo, mesmo contando com as cordas. Na verdade, trata-se de um novo projeto ou as demais canções irão seguir a linha de seu álbum solo?

As músicas novas têm todos os elementos do meu álbum solo, só que sob uma perspectiva mais da MPB. Como essa música nova, as outras têm uma influência muito forte do clube da esquina, do Milton Nascimento e sua turma. O elemento erudito, clássico, foi abortado, ou melhor, guardado, explico, nós gravamos como trio(baixo-bateria-violão), toda a base de um concerto para violão, grupo e orquestra que compus, e que dura 30 minutos!!!, só que, para nossas pretensões, tava muito distante, então acho que devo lançar num segundo cd solo, algo assim.

Como você vê o processo de downloads e o uso da internet para venda de vinis, CDs e outros itens ligados à cultura?

Acho que a internet se tornou peça fundamental para a vida das pessoas, em todas as áreas, e com a cultura não é diferente. A internet é muito democrática, acho que é a maior revolução das últimas décadas, e veio para ficar. É claro que aspectos de mal uso, coisas como pedofilia, por exemplo, são amplificados através dela, porém, vale lembrar que , nesses casos, o problema está nas pessoas, não na rede. O que se tem de criar são mecanismos para reprimir essas coisas. Acho a internet um negócio fantástico.

Como atualiza-se sobre som hoje em dia?

Olha, tem muita coisa rolando. A internet ajuda muito nisso.

Muitos falam que o vinil era melhor para o músico por que era mais difícil de ser pirateado. Você concorda com isso?

Acho que as gravadoras sempre deram muita “rasteira” nos músicos, mesmo na época do vinil. Então quando a CBS, por exemplo, dizia que o Roberto Carlos vendeu 1 milhão de discos, pode ter certeza que eram 2 milhões, e assim vai. Com o cd foi e é a mesma coisa, essa área não tem controle. O download favorece muito mais o músico do que a gravadora, já que os músicos sempre ganharam dinheiro com shows, não com venda discos. Na realidade, bandas como o Radiohead, muito provalmente, estão ganhado mais dinheiro agora com venda de músicas pela internet e discos, do que quando eram contratados por uma grande gravadora.

Márcio, muito obrigado pela participação. Saúde, paz e sucesso pra você e pra todos próximos de ti

Eu é que agradeço essa oportunidade de está aqui no Baú do Mairon.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Marcio Rocha


Sou um cara que, como expresso aqui no
Baú do Mairon, amo vinil e o som dos anos sessenta e setenta. Dificilmente consigo me apegar em algum som recente, mesmo tentando. Claro, respeito o trabalho de bandas como Nightwish, Therion, Dream Theater entre outros, mas, mesmo assim, pra mim fica faltando um tempero no meio do som dos mesmos, o que faz meu ouvido acabar preferindo curtir o bom churrasco dos 60/70 aos Macs dos 90/2000. Porém, não abro mão de conhecer trabalhos diferentes. Como grande fã do rock nacional, fiquei muito feliz ao ouvir bandas como Los Hermanos, Trem do Futuro, Magnum Opus, Quaterna Réquiem, Tempus Fugit e Octophera, e mais ainda, quando tive o prazer de receber em minhas mãos o CD Juno, do músico carioca Márcio Rocha, que para mim é um dos melhores trabalhos dos últimos anos.

Márcio formou-se em música no
Instituto Villa-Lobos, e teve sua carreira apresentada ao público ao entrar, em 1995, no magnífico projeto Luz da Ásia, que possuía uma influência dos sons orientais bem diferente do que já havia sido visto no Brasil, e infelizmente ficou perdido no subúrbio da decadência musical que viveu o nosso país no final dos anos noventa, envolto em "tchans" e "Pires". No Luz da Ásia, Márcio se encantou com o talento dos demais músicos da banda e com instrumentos como craviola, cítara e swaramandal. Com o grupo, registrou o álbum Amistad (1999), mas dois anos antes Márcio empregava seu talento e carinho num lento e dedicado trabalho de gravação de seu álbum solo.

 
 
 
Por fim, em 2000 Márcio lançou, através da Odisséia Records e com a ajuda de Alex Frias, o CD Juno, no qual empregou todos os elementos que o Luz da Ásia tinha e mais as pitadas de clássico que havia aprendido no Instituto Villa-Lobos, fazendo uma espetacular mistura entre harmonia e sonoridade em um disco praticamente instrumental.

Contando com a participação de músicos de bandas como Cláudio Cepeda (Anima Dominum), André Mello (Tempus Fugit), Alexandre Fonseca (Cheiro de Vida e Pepeu Gomes) e até mesmo do próprio Luz da Ásia, bem como diversos convidados, Juno abre com a vinheta "Samadhi", onde o destaque fica para o uso do swaramandal de Sílvia Brasil e do e-bow de Alex Frias, dando um clima espacial para o que vai vir pela frente, com a linda e complicada "Desolation of Fools", a qual começa com os violões de Márcio acompanhado pela banda (bateria de Alexande Costa e baixo de Cepeda) fazendo a base para o solo de violino de Daniel Andrade. A melodia da canção é belíssima, principalmente pela levada. Violino e guitarra solam juntos, seguidos pelo andamento cadenciado. O timbre de guitarra lembra Robert Fripp. Sintetizadores abrem a sequência mais
Crimsoniana, onde Márcio utiliza um violão para solar em uma escala flamenca, com um andamento de bateria/baixo/violino muito quebrado. Após a doideira, entram os instrumentos orientais, com a tabla e a cítara fazendo a sua parte, acompanhadas pelo dedilhado de Márcio. Castanholas mudam o clima para mais uma sessão flamenca do violão acompanhando uma linda participação da cítara. Por fim, a quebradeira volta novamente, em uma sessão onde a craviola introduz uma sequência de riffs complicadíssimos, que lembram muito o King Crimson, retomando o tema inicial ao violino e com a guitarra solando junto. Uma bela amostra do que estaria por vir nas demais faixas do CD.

Após a porta se abrir com "Desolation of Fools", temos "Horizonte", onde a guitarra de Márcio comanda essa linda balada. Alex Frias também participa da canção, executando um dos solos. Claro, as quebradeiras aparecem durante o solo de teclados feito por Márcio, mas que dão um tempero excelente para a balada. Violões tomam seu espaço, encerrando a faixa com os teclados viajando.

Agora a porta se fecha, com a tabla introduzindo a setentista "Vento". Cheia de cordas e violões, a introdução nos traz a voz suave de Márcio em uma típica canção para acampamento. As cordas dão um clima ainda mais belo para a linda melodia criada por Márcio, que conta ainda com a participação de clarinete e flautas.

A faixa seguinte é um petardo. Uma aula de construção de uma composição é o que ouvimos na suíte "Concertino". Tocando violão clássico, Márcio mostra todo o seu talento acompanhado pelas cordas de Daniel Andrade (violino) e Luciano Rocha (violoncelo). A flauta de Celso Ramos sola acompanhada pelas escalas clássicas de Márcio, agora no sintetizador, executando o tema principal e que traz a parte mais agitada da canção, onde o guitarrista Mindinho sola sobre a levada do tema principal. Porém, é na sequência da faixa que entendemos o porque de Márcio ter demorado tanto para lançar o álbum. O carinho e a atenção em cada nota executada no seu solo de violão clássico é simplesmente fantástico. O violoncelo muda o clima da canção com um pequeno solo, para o violão executar um complicado dedilhado . Flautas executam um segundo tema, que abre espaço para o trêmolo perfeito de Márcio. Violinos voltam a ser o centro da atenção, voltando ao trêmolo. A construção de Márcio, sozinho ao violão, está ao nível de Turíbio Santos e Elomar, mestres na arte de interpretar e compôr ao violão clássico. Os dedilhados clássicos voltam, executando um terceiro tema, para então as cordas e flautas acompanharem a mesma melodia deste terceiro tema. Por fim, o violão dedilha acordes mais agressivos, voltando ao tema principal, com guitarra, violino e violoncelos dividindo democraticamente seus espaços, terminando com violão, violino e violoncelo executando o mesmo acorde. Uma incrível faixa, com certeza!

A música clássica se faz presente na intrincada "Juno". Composta em homenagem a seu filho, Márcio Rocha Jr, "Juno" apresenta uma linda melodia no violão de nylon, mostrando que um grande artista não escreve somente uma única peça de fundamento. As escalas de Márcio variam entre a espanhola e a de blues, mas o clima clássico é mantido em toda a faixa, terminando com uma risada gostosa do homenageado.
"Instante", alternando os vocais de Márcio com os de Beth Pellicione, lembra bastante as faixas de Jane Duboc no Bacamarte. Destaque especial para o solo de violoncelo de Luciano. Nessa canção, Márcio nos mostra seu talento como multi-instrumentista, tocando craviola, violão, guitarra e moringa.

A linda "Odisséia" retoma o clima clássico. Nela não temos a participação de Márcio em qualquer instrumento, mas a sua composição, lembrando "Jesus, Alegria dos Homens" de Bach, na flauta de Djalma, com os acompanhamentos de violino, violoncelo e contrabaixo acústico, faz nos sentirmos em um castelo da realeza, tomando chá e comendo
cakes enquanto casais dançam em nossa volta.

"Fly With Your Wings" é a única faixa que destoa das demais, mas não por ser uma música ruim, pelo contrário, é uma bela faixa que somente foge das qualidades acústicas das canções anteriores. Com letra em inglês, é uma faixa pesada, onde Márcio toca guitarras distorcidas enquanto Mindinho executa o seu solo. Nela, encontramos a participação de André Mello tocando mini-moog, o que deu um toque diferente para a composição de Márcio. Uma boa faixa, principalmente pelas quebradas de bateria e guitarra, além claro de ser muito progressiva, com viajantes intervenções de moog.

Uma releitura em inglês para "Vento" é ouvida em "Wind", com o mesmo acompanhamento de sua irmã em português.

Por fim, a vinheta "Samadhi" encerra o álbum, contando com a participação do pequeno Juno dizendo "
acabou, eeeee", vibrando com o magnífico trabalho feito por seu pai e que deixa a sensação de que é possível existir cabeças pensantes e talentosas na música brasileira, basta saber aonde procurar.

O álbum contém ainda um belo trabalho gráfico feito por Michel Mujalli. Márcio participou ano passado do álbum
A Memória das Naus, do grupo Roque Malasartes, tocando violão e craviola, e atualmente está desenvolvendo o projeto Juno ao lado de Cláudio Cepeda, tendo uma sonoridade um pouco mais à brasileira, mas com elementos que participaram do álbum Juno, devendo lançar em breve seu segundo disco.

Ao final de
Juno temos a sensação de sair de uma experiência que ficará para sempre no sangue e no cérebro. Em épocas onde a principal atração na TV aberta é uma famigerada representação sobre casamentos no oriente, Juno é uma lua cheia em um dia sem nuvens, caindo como uma luva em quem quer realmente aprender o que existe de bom na cultura do outro lado do mundo.

Termino essa sessão citando o jornalista Marcelo Valença: "
Diferente de quem leva a vida na flauta, o carioca Márcio Rocha optou por reverenciá-la nos sons da guitarra e do violão (...)  o músico cercou-se de talentosos artistas, e fez de Juno um vôo ousado e ao mesmo tempo único".

Boa viagem!!!
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