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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Young Person's Guide to: Caetano as Guest [Parte I]


Um dos maiores arroz de festa na música mundial se chamado Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, ou simplesmente Caetano Veloso. O baiano de Santo Amaro da Purificação, que está de aniversário hoje, completando 84 anos, e reverenciado e aclamado como talvez o maior nome da MPB em todos os tempos, tem uma lista infinita de participações em discos de artistas e bandas, que não negaram - ou até usaram do - o nome de Caetano para ganhar uma promoçãozinha extra com a mídia e, por que não, até com os fãs do cantor e compositor.

Como a lista é enorme, resolvi fazer uma série de três partes com 14 canções de Caetano como convidado em discos de artistas masculinos (parte 1), femininos (parte 2) e bandas + Bethânia / Gal (parte 3). Um critério que escolhi é pegar canções que não apareceram no CD de raridades/inéditas dos boxes da série 40 Anos Caetanos (a saber Pipoca Moderna, Certeza da Beleza e Que De-Lindo), mas algumas são tão boas que, caso surjam nestas listas, serão citadas que estão nestas compilações. O segundo foi não pegar participações de Caetano cantando músicas dele em discos de outros artistas, e acredite, há muito disso. Por fim, Gil e Chico também ficaram de fora, já que com eles, Caetano gravou com cada um no mínimo dois álbuns.

Além dos 14 citados, vale trazer que o artista também colaborou com os seguintes artistas (álbuns): Jorge Ben (Salve Simpatia); Carlos Mendes (Ímã); Marito (Companheiros); Arrigo Barnabé (Janete); Nilton Marçal (Recompensa); Moraes Moreira (Mestiço É Isso); Péricles Cavalcanti (Canções); Carlinhos Vergueiro (15 Anos de Carreira); Pablo Milanés (Ao Vivo no Brasil); Toni Costa (Gente de Rua); Luiz Caldas (Flor Cigana); Toots Thielemans (The Brasil Project Vol. 1 e Vol. 2); Roberto Mendes (Matriz); Lô Borges (Meu Filme); Cauby Peixoto (Cauby Canta Sinatra); Carlinhos  Brown (Alfagamabetizado); Francis Hime (Álbum Musical); Ivan Lins (Viva Noel); Roberto Mendes (Roberto Mendes & Convidados); Orlando Morais (Agora); Saul Barbosa (Cidade Aberta); Raphael Rabello (Mestre Capiba); Carlos Bolão (Pulsação); Lee Ritenour (Festival); Lanny Gordin (Duos); Dadi (Dadi), Leo Gandelman (Sabe Você), Jorge Drexler (Bailar En La Cueva), Stefano Bollani (Que Bom) e Jherek Bischoff (Composed), assim como as participações ao lado de Zeca Pagodinho e Roberto Silva nos álbuns 2 e 4 do projeto Casa de Samba, respectivamente.  Mas com certeza há muito mais além destes que tenho na minha coleção, o que exige um grande tempo de pesquisa e garimpo. Mas deve ter mais além destes que tenho na minha coleção. 

Sendo assim, vamos para as quatorze faixas gravadas em álbuns de artistas masculinos, e daqui um tempo, a segunda e terceira parte.

"Pra Chatear": Ronnie Von - Ronnie Von N° 3 [1967]

Pouco antes de sua estreia com Gal Costa em Domingo, Caetano participou ao lado de Ronnie Von nesta marchinha de carnaval psicodélica, escrevendo e fazendo um dueto vocal muito bom com o eterno Pequeno Príncipe. Caetano parece ainda bem tímido no estúdio, mas sua marcante voz já é característica, além de ser a primeira gravação oficial do baiano ligada ao Carnaval. Simples, mas fundamental!

"Áquas" - Walter Smetak - Smetak [1975]

O músico e compositor suíço veio para o Brasil em 1937, e aqui, tornou-se um dos maiores nomes do cenário avant-garde nacional, dando origem ao grupo Uakti e influenciando muitos outros artistas. Dentre eles, Caetano Veloso. No seu álbum de estreia, em 1975, Caetano participa como editor, produtor e também com o corpo. Sim, com o corpo, já que ele usa de palmas e batidas em diversas partes do corpo (barriga, pernas, bochechas) para criar uma canção fora dos padrões chamada "Áquas". Entre grunhidos, barulhos de água, gotas, bolhas estourando, uma gaitinha desafinada e sons aleatórios, o ouvinte que não tem um contato com o estilo se quer imagina que é Caetano quem está fazendo alguns destes barulhos. Serve como um registro raríssimo da capacidade do baiano perambular por dentre os mais variados mundos musicais.  

"Não Quero Ver Você Dançar": Sergio Dias - Sergio Dias [1980]

Canção do álbum de estreia de Sergio Dias - o qual havia participado na Sitar de "Terra", do álbum Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), lançado por Caetano em 1978 -  em carreira solo, ela recoloca os tropicalistas em uma faixa puramente funkeada e cheia de swingue. O naipe de metais aqui é assombroso, no melhor estilo Motown, e o baixão grooveado de Jamil Joanes, junto com a batera de Paulinho Braga, dão ainda mais movimento para uma ótima canção. Caetano colabora com a letra e com o rap que contrapõe os vocais de Serginho, e este manda ver nos seus solos. Se você gosta de Mutantes, irá torcer o nariz. Mas se você aprecia boa música de qualquer gênero, irá se deliciar. Detalhe adicional: no mesmo álbum, Caetano contribui com a letra de "O Grão". Apesar de não colocar sua voz nela, vale a pena a audição, assim como todo o disco em si.

Com Erasmo Carlos

"Quero Que Vá Tudo Pro Inferno": Erasmo Carlos - Convida ... [1980]

Uma das mais brilhantes reconstruções musicais que Caetano fez em sua carreira está aqui. O rock cheio de energia que Roberto Carlos registrou em Jovem guarda (1965), e que virou um dos símbolos de uma geração no Brasil, ganha uma cara mais romântica e leve na voz de Caetano junto d'A Outra Banda da Terra. Um dos melhores discos com convidados na história do Brasil, Erasmo Carlos Convida ... fornece muitas obras similares às gravações originais do Tremendão ao lado de gigantes como Tim Maia, Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil ..., mas é nessa desconstrução malemolente de Caetano que está um de seus maiores brilhos. Sensacional!

"Cidadão-Cidadã": Jorge Mautner - Bomba De Estrelas [1981]

Extraída do sensacional disco de convidados de Jorge Mautner, "Cidadão-Cidadã" tem uma vibe Thin White Duck em seus quase 5 minutos de duração, que me encanta. As vozes de Caetano e Mautner - que vieram a gravar em 2002, juntos, o álbum Eu Não Peço Desculpas - se complementam junto a um andamento envolvente de baixo (Arnaldo Brandão), bateria (Wilson Meirelles) e piano (Tomaz Improta). O saxofone, a cargo de Marcelo Neves, e o mandolim de Ronald Pinheiro, dão um charme a mais para a canção. E como não valorizar as passagens do piano elétrico de Improta? Um dos grandes músicos da música brasileira nos anos 70 e 80, e que aqui entrega mais uma contribuição essencial. Muitos acham que Mautner é um exagerado, e suas composições são no mínimo sem graça. Honestamente, curto muito a carreira dele, e tenho em "Cidadão-Cidadã" uma de suas melhores composições musicalmente falando. A letra aqui, honestamente, que se foda. Eu quero é me maravilhar com a voz de Caetano e o solo de saxofone. 

Com Milton Nascimento

"As Várias Pontas De Uma Estrela": Milton Nascimento - Ănĭmă [1982]

Tendo um timaço de banda (Wagner Tiso ao piano, Robertinho Silva na bateria, José Renato no violão de 12 cordas e Paulinho Carvalho no baixo), "As Várias Pontas de Uma Estrela" é a fusão da baianidade tropicalista de Caetano com a sensibilidade mineira do Clube da Esquina. Que música! As vocalizações de Milton acompanhadas pelo piano de Tiso introduzem para a voz marcante de Caetano surgir cantando sua linda letra. O contraponto vocal de Milton, com seus falsetes ao fundo da voz de Caetano, funciona muito bem, e a faixa desenvolve-se com o piano e o dedilhado de violão, com Caetano soltando a voz no refrão. Na medida que a faixa vai rolando, Caetano canta com uma raridade, enquanto Milton apenas surge fazendo sempre o contraponto vocal. O encontro de dois gigantes, que trabalhariam juntos anos depois na trilha do filme O Coronel e o Lobisomem. Mas isso é papo para outra postagem, ficando aqui a dica de uma das belas canções da MPB nos anos 80. Esta faixa aparece em Certeza Da Beleza - Raridades 3 (83-94), o box da terceira caixa Quarenta Anos Caetanos, mas ela é tão bela que merece estar aqui.

"Chegou No Vento": Vinícius Cantuária - Vinícius Cantuária [1982]

Vinícius foi um dos fundadores d'O Terço, e foi membro crucial das bandas de apoio de Caetano entre 1978 e 1984, no caso A Outra Banda da Terra e Banda Nova, gravando álbuns cruciais como Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), Cinema Transcendental e Velô, só para citar alguns. Em Outras Palavras (1981), Caetano já havia gravado o que se tornou sucesso "Lua E Estrela", composição de Vinícius, que em sua estreia solo no ano seguinte, chama o chefe para colaborar com "Chegou No Vento". Este xote animado é ótimo, lembrando "Esperando Na Janela" (de Gil), contando a relação de amor de alguém que anda pelas estradas que levam a Maceió, e é perfeito para se curtir uma festinha ao som de música nordestina. Caetano e Vinícius se alternam nas vozes com um entrosamento de quem se conhece há tempos, e a música flui com uma naturalidade gostosa que, mesmo não se gostando do ritmo, acaba agrando. No mesmo álbum, Vinícius registra "O Grande Lance É Fazer Romance", também de Caetano, essa já mais soturna, que sempre fiquei curioso em ouvir na voz do baiano, o qual ainda participou de "Banda Nova" no álbum Siga-Me, lançado por Vinícius em 1985, e também de "Aqua Rasa", do álbum Vínicius (2001).

Com Vinícius Cantuária

"Maria Bethânia": Nelson Gonçalves - Eu & Eles [1985]

Na metade dos anos 80, o gigante Nelson Gonçalves tentou revitalizar sua carreira, gravando grandes sucessos ao lado de cantoras e cantores modernos. Assim, lançou os álbuns Nós (1987), Eu & Eles (1985) e Ele & Elas (Vol. 1 de 1984 e Vol. 2 de 1986), com convidados diversos, como Lobão, Milton Nascimento, Tim Maia, Fagner, Gal Costa, Tetê Espíndola e Caetano Veloso, entre outros e outras. Quando criança, Caetano era apaixonado pela música "Maria Bethânia", tanto que seu amor por essa música foi responsável pelos pais batizarem a irmã com o nome da canção. Nada mais justo que Nelson chamar Caetano para interpretar essa pérola do cancioneiro nacional, obra de Capiba. Apesar dos teclados oitentistas, a canção conta com um belo arranjo orquestral de Reinaldo Arias, e nela, Nelson solta seu vozeirão grave na primeira estrofe, com a delicada voz de Caetano fazendo a segunda estrofe. A partir de então, os dois vão alternando suas vozes, dando dramaticidade e dor para uma das maiores obras que a música popular brasileira pariu. Clássico!

"Olhos Negros": Johnny Alf - Olhos Negros [1990]

Falar de Johnny Alf é chover no molhado. Um dos maiores cantores, pianistas e compositores do Brasil, Johnny fez fama como um dos primeiros nomes da Bossa Nova, ao lado de João Gilberto e Tom Jobim, mas com um detalhe: o músico era de classe pobre, negro e homossexual, e conseguiu mesmo assim se sobrepor através do seu talento em uma classe totalmente racista, preconceituosa e da elite carioca. Em 1990, Johnny uniu uma constelação de estrelas para gravar Olhos Negros. Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso são alguns dos 10 convidados do álbum, e coube ao baiano Caetano registrar a faixa-título. Conduzido pelo indefectível piano de Johnny, e o maravilhoso arranjo orquestral a cargo de Guto Graça Mello, Caetano brilha nesta faixa que tem todo o ar e charme da orla de Copacabana misturados com a embriaguez de Ipanema. Ou seja, uma faixa puramente do sul carioca, que ganha a pimenta baiana para complementar a grave voz de Johnny. Para quem aprecia MPB, melhor que isso não há.

"Responso": Keiler Rêgo - Oratório De Santo Antônio [1993]

Para quem acha que Caetano só começou a flertar com o evangelismo e com religião no final da década passada, mero engano. Em 1993, através de convite do maestro e compositor Keiler Rêgo, Caetano entregou sua voz para o hino "Responso", lançado no álbum Oratório de Santo Antônio. É no mínimo curioso ouvir a doce voz de Caetano cantando um hino religioso sobre camadas de teclados e do piano elétrico. A letra é dedicada à Santo Antônio, e o hino é uma bonita canção, além de uma raridade dentro da vasta discografia de Caetano. 

Com Fito Páez

"Mariposa Tecknicolor": Fito Paéz - Circo Beat [1994]

Esta faixa bônus de Circo Beat ficou bem curiosa de se ouvir na voz de Caetano. Um dos grandes sucessos da carreira de Fito Paéz, aqui recebe uma versão em português, feita por Herbert Vianna, cantada pelos dois, dividindo os vocais igualmente, e não sei o que é mais curioso, se Paéz cantando em português ou Caetano soltando sua voz em um rock rápido e bem discrepante da malemolência baiana que conhecemos. Um ótimo rock, quase que uma preciosidade musical para os que curtem o rock advindo dos hermanos, principalmente pela energia portenha exalada na canção. 

"Assum Branco": José Miguel Wisnik - Pérolas Aos Poucos [2003]

A música minimalista de José Miguel Wisnik é praticamente desconhecida pela população geral brasileira, mas dentre os chamados "intelectuais" da cultura nacional, Wisnik é considerado um dos grandes compositores deste século. Eu fico no meio termo em relação à sua obra, mas gosto bastante de Onkotô, álbum/trilha que ele gravou ao lado de Caetano em 2006. Pouco antes, no álbum Pérolas Aos Poucos, a parceria Wisnik/Caetano começou através de "Assum Branco", uma faixa que óbvio, liricamente remete à "Assum Preto". Mas aqui, na dramaticidade do piano de Wisnik, e na tocante interpretação de Caetano, o qual não faz força para simplesmente arregaçar as caixas de som, é de arrancar lágrimas de um totem. Linda faixa, mais uma das tantas a serem descobertas deste grande compositor/músico brasileiro. 

"Lisboa Que Amanhece": Sérgio Godinho - O Irmão Do Meio [2003]

No final dos anos 90, Caetano era um nome super em voga na Europa, principalmente pelo sucesso do álbum ao vivo Prenda Minha. Isto acabou o levando a fazer shows por lá, e também a gravar com músicos europeus, dentre eles, o ator, compositor e cantor português Sérgio Godinho. Em seu álbum de convidados, O Irmão do Meio, Godinho chamou Caetano para contracenar na romântica "Lisboa Que Amanhece", uma bela canção carregada no órgão farfisa e na bela condução bossa-novística do violão, com um clima bem tropicalista, onde a voz de Caetano predomina, contrastando com o português carregado de sotaque de Godinho. Uma boa canção, que remete fácil a musicalidade do nosso Brasil varonil, mas com toda a presença de Portugal na voz de Godinho.

Em estúdio, com Vitor Ramil

"Milonga De Los Morenos": Vitor Ramil - Délibáb [2010]

Em um disco intimista, no qual Vitor retoma seus tempos de Ramilonga, privilegiando a cultura dos pampas, eis que surpreendentemente ele convida o baiano Caetano para interpretar "Milonga De Los Morenos" E não é que o sotaque baiano se encaixa muito bem com a letra em espanhol? Ok, Caetano já havia tido a experiência de gravar em espanhol no álbum Fina Estampa (1994), mas confesso que sempre que ouço esta canção, me assusta positivamente como a voz acalentada de Caetano se encaixa perfeitamente no ritmo milongueiro. Belíssima canção, que encerra aqui a primeira parte de Caetano como convidado de artistas masculinhos. Daqui umas semanas, apresento então ele como convidado de artistas femininos.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Brasileiros em Montreux



Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini na Consultoria do Rock, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas "Brazilian Nights", levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.

Gilberto Gil - Ao Vivo [1978]

A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros ("Chuck Berry Fields Forever", com letra cantada em inglês,  ainda para uma plateia em marcha lenta, e "São João, Xangô Menino", já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada "Respeita Januário", que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, "Chororô" e "Ela". Porém, são os delirantes improvisos de "Bat Macumba", com citação à "Exaltação À Mangueira" e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, "Procissão", mesclando ainda "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano, e fazendo os suíços entoarem "Mamãe Eu Quero" a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show eu teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título "Triole (Jam Session)". As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais. 

Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)

Participação

A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)

1. Chuck Berry Fields Forever

2. Chororô

3. São João, Xangô Menino

4. Respeita Januário

5. Ela

6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira

7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero

8. Triole (Jam Session)

A Cor Do Som - Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]

Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais "conservador", e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de "Dança Saci", ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em "Chegando Da Terra", a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). "Cochabamba" e "Festa Na Rua" são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto  "Espírito Infantil" e a inesperada "Eleanor Rigby", voltada para o frevo,  apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda.  Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de "Arpoador" que os membros d'A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo - difícil saber qual o melhor - sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns. 

Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)

Com

Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)

1. Dança Saci

2. Chegando da Terra

3. Arpoador

4. Cochabamba

5. Brejeiro

6. Espírito Infantil

7. Festa na Rua

8. Eleanor Rigby

Hermeto Pascoal - Ao Vivo Montreux Jazz [1979]

Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazilian Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de "O Bruxo Dos Sons". Nobs o apresenta como "O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível". Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de "Pintando o Sete", "Maturi" e "Quebrando Tudo", essa alucinante, com vocalizações - endiabradas - duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em "Remelexo", o saxofone, sobre as palmas da plateia, em "Sax E Aplausos", com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em "Sax e Aplausos", também soltam os pulmões em "Nilza" e "Forró em Santo André", onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda "Montreux", música "muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel", nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco. 

Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)

Com

Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão) 

1. Pintando O Sete

2. Forro Em Santo André

3. Remelexo

4. Bem Vinda

5. Sax E Aplausos

6. Lagoa Da Canoa

7. Fátima

8. Terra Verde

9. Maturi

10. Quebrando Tudo

11. Nilza

12. Forró Brasil

13. Montreux

14. Voltando Ao Palco

15. E Adeus

Elis Regina - 13th Montreux Jazz Festival [1982]

Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 - o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 - ela teve que fazer um show extra como matiné - superlotada - durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e - a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: "Cai Dentro", peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira "Madalena", "Na Baixa Do Sapateiro", esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e "Upa Neguinho", com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, "Ponta De Areia" e "Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria", nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa "Cobra Criada", de João Bosco, e o registro de um fundamental terceiro fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a - sorte/ventura - de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruno albino impõe toda sua virtuosidade em "Corcovado", "Garota de Ipanema" - que Elis detestava - e "Asa Branca", tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançado pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!

Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)

1. Cobra Criada

2. Cai Dentro

3. Madalena

4. Ponta De Areia

5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria

6. Na Baixa Do Sapateiro

7. Upa Neguinho

8. Corcovado

9. Garota De Ipanema

10. Asa Branca

Com 

Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)

Os Paralamas do Sucesso - D [1987]

Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d'Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita "Será Que Vai Chover?", que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar "Alagados" que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de "Ska", "A Novidade", "Selvagem" e "Meu Erro". O ápice da noite vai para a espetacular versão de "Óculos", com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d'Os Paralamas. 

Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)

Com

João Fera (teclados)

George Israel (saxofone em 3)

1. Será Que Vai Chover?

2. Alagados

3. Ska

4. Óculos

5. O Homem

6. Selvagem

7. Charles Anjo 45

8. A Novidade

9. Meu Erro

bonus tracks

Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80. 

Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira - Brasil Night - Ao Vivo em Montreux [1981]

Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em "Davilicença", mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de "Bate Coração" e o baião de "Baião", mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa "Tudo Azul". Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em "Berimbau", com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando "Asa Branca" de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica "Samba de Orly", obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar. 

Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso - Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]

Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada "No Balanço da Canoa", faz os europeus baterem palma e cantarem durante "Pelas Ruas Que Andei", mas tem como ponto alto a tocante "Talismã" e a endiabrada "Casinha de Buinha", levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz "Fé Cega, Faca Amolada", emociona com "Ponta de Areia" e encerra o LP com a entusiasmada "Maria Maria", curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada "Banda da Capital", levantando o Cassino de Montreux, e "Balão", conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocada à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto. 

Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco - Brazil Night Montreux 83 [1983]

O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a "noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux", e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de "Maria Bethânia", as belas revisões para "Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi" e a lindíssima "Terra", apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para "Eclipe Oculto" e "Odara", as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça "Deixar Você", fazendo os europeus vibrarem com "Andar Com Fé", "Napoleão" e o forró de "Folia No Matagal", esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco ("Ruan basco", segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai "cantar um samba" para a galera. O que ele faz em "Linha de Passe", um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com "Nação", "Aquarela do Brasil" - com o Cassino vindo abaixo - e "O Mestre Sala dos Mares", é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.

terça-feira, 3 de março de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Willy Verdaguer



Nascido em 21 de julho de 1945 na Argentina, Willy Verdaguer é com certeza um dos maiores nomes da música da América Latina em todos os tempos. Ele construiu sua carreira musical no Brasil, onde veio morar nos anos 1960 e se destacou como contrabaixista, compositor, arranjador, diretor musical e maestro, gravando seu nome na cena da música brasileira tocando ao lado de gigantes da MPB, do Pop e do Rock nacional. São inúmeros discos ao longo de uma carreira de 60 anos, e selecionar apenas cinco foi difícil, mas aí vão eles. 

 Beat Boys - Beat Boys [1968]

Famosos por acompanharem Caetano Veloso no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com "Alegria, Alegria", o Beat Boys foi um dos grandes nomes da psicodelia nacional no final dos anos 60. Comandados por Tony Osanah e Willy Verdager, o grupo foi pioneiro ao misturar rock e MPB em um festival de música popular, e logo ganhou espaço para lançar seu primeiro e único disco. O disco é rock 'n' roll puro misturado a muita psicodelia como atesta "Abrigo de Palavras em Caixas de Céu", curiosamente cantada em inglês, "Torta De Morangos", misturando espanhol e inglês, trazendo até citação de valsa, música clássica e tango, além da receita da torta dada em português, e a engraçada "Era Uma Menina", composta por Verdaguer, com um forte sotaque portenho e um interessante trecho orquestral. Verdaguer se destaca no arranjo para "Pauvre Cœur", de André Hossein e Gilles Thibaut aqui chamada "Pobre Coração", com o tocante tema de destaque do banjo, harmônica e orquestra, na monumental "Aria Para A Corda Sol", de Bach, na viajante "Abre, Sou Eu", onde órgão e guitarra chamam a atenção para esta faixa do italo-argentino Billy Bond, originalmente chamada "Abre, Soy Yo" (com quem Willy tinha sido parceiro no grupo Los Guantes Negros), e "Your Mother Should Know", dos Beatles, que virou a bonitinha "Coração Que Ninguém Mais Cantou", com um belo arranjo vocal, Temos ainda duas versões para faixas cantadas em inglês, "Wake Me, Shake Me" (de Al Kooper), alucinante e lembrando Animals da segunda metade dos 60, destacando a guitarra ácida de Osanah e o órgão de Toyo, além claro, da marcação fundamental do baixo de Verdaguer, e a linda versão de "A Time For Remembrance" (The Cowsills), com um belíssimo arranjo vocal, além da versão de "Green Tambourine" (Lemon Pipers), aqui batizada de "O Meu Tamborim". Psicodelia puramente latina para quem achava que os ácidos só contagiaram Estados Unidos e Reino Unido. 

Tony Osanah (guitarra e voz), Cacho Valdez (guitarra), Toyo (órgão), Willy Verdaguer (baixo) e Marcelo Frias (bateria)

1. A Felicidade

2. A Time For Remembrance

3. O Meu Tamborim

4. Era Uma Menina

5. Abre, Sou Eu

6. Abrigo De Palavras Em Caixas De Céu

7. Wake Me, Shake Me

8. Pobre Coração

9. Sempre Esperando

10. Canção Que Ninguém Mais Cantou

11. Aria Para 4ª Corda De Sol

12. Torta De Morangos


Caetano Veloso - Caetano Veloso [1968]

O disco de estreia de Caetano Veloso conta com os Beat Boys como banda de apoio em algumas faixas, e claro, Willy deixa sua marca lá. Se você admira o riff de guitarra e teclado no inicio da canção, e o andamento da clássica "Alegria, Alegria", saiba que o responsável por ambos é o argentino. Preste atenção e veja como é o baixo quem faz a sustentação para todos os demais instrumentos deste clássico da Tropicália. Não à toa, quem estuda música e arte no Brasil, reconhece que o arranjo dessa canção, de autoria de Willy, é um marco para a entrada da guitarra elétrica e do baixo elétrico na MPB, criando então o rock em nosso país. Mas há mais em Caetano Veloso e nas criações de Willy. Temos o sacolejante baixo na psicodélica "Anunciação", dando indícios do que Willy faria ano depois com o Secos & Molhados, e o agito de " Soy Loco Por Ti, América", onde o riff inicial é um dos mais marcantes da carreira de Willy, além de ele comandar o ritmo empolgante da festa que é esta animada canção. O Beat-Boys faz as bases ainda da balada-rock "No dia Que Eu Vim-me Embora", entoam a psicodelia tropicaliana em "Clara", e se divertem na sensacional "Ave-Maria", cantada em latim e tendo o baixo de Willy novamente como destaque, solando enquanto Caetano entoa sua "oração". Era a Tropicália começando a ferver, e semanas depois, explodir no Brasil com o sensacional Tropicália ou Panis Et Circensis, com os Mutantes ocupando o espaço dos Beat-Boys. Mas as bases já haviam sido lançadas aqui.

Caetano Veloso (Vocais, Violão)

Com: Cacho Valdez (guitarras em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Willy Verdaguer (baixo em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Tony Osanah (guitarras, violão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Marcelo Frias (bateria em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Toyo (órgão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Gal Costa (Vocais em 9)

Mutantes (banda de apoio em 12)

1. Tropicália

2. Clarice

3. No Dia Em Que Eu Vim-me Embora

4. Alegria, Alegria

5. Onde Andarás

6. Anunciação

7. Superbacana

8. Paisagem Útil

9. Clara

10. Soy Loco Por Tí, América

11. Ave Maria

12. Eles

Secos & Molhados - Secos & Molhados [1974]

Criador de riffs, Willy acabou apresentado à João Ricardo, e foi responsável por criar obras como a famosa introdução de "Sangue Latino", ou  o riffzão de "Amor", considerado o mais fundamental feito no Brasil, tornando Verdaguer uma referência no baixo, ambas presentes no álbum de estreia do Secos & Molhados. Mas ao meu ver, é no segundo disco da banda que ele consegue colocar realmente a mão na massa e fazer uma performance impressionante. Se não vejamos, o que é a estupidez de velocidade do riff de "Vôo", arrebentando as caixas de som com uma velocidade impressionante, mandando ver na palhetada como se fosse um riff de Heavy Metal. A mesma velocidade surge no riffzão de "Angústia", uma pancada que não entendo como ainda não foi feita uma versão completa com guitarras e um hammondzão, já que é puro hard setentista. Junto com o piano, é o monstro responsável para a base do vocal arrepiante de Ney Matogrosso no arrepiante blues "Delírio" (Cazuza certamente ouviu muito essa música para criar "O Tempo Não Pára"). Além disso, conduz "Flores Astrais" com maestria, em uma base que por si só é um lindo solo de baixo (acompanhe e se delicie com a linha do instrumento durante as vocalizações iniciais. as estrofes e o solo de flauta, além da marcação pulsante do refrão). Em "Hierofante", também o baixo é um instrumento de destaque, solando ao fundo ao invés de simplesmente fazer marcação do tempo, em escalas velozes que acompanha a furiosa guitarra de John (o trecho onde guitarra e baixo duelam é sensacional). Por mim, faz o simples, mas marcante, acompanhamento do pseudo-blues "Toada & Rock & Mambo & Tango & etc.", mostrando que também era um gigante quando tinha que fazer o básico. Um dos melhores trabalhos em toda a sua carreira. 

Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (vocais, violões, harmônica), Gerson Conrad (vocais)

John Flavin (violão solo em 1; guitarras em 2, 7, 8, 12 e 13), 

Jorge Omar (violão em 3, 5 e 10; viola em 10)

Emilio Carrera (piano em 2, 4, 7, 8, 9 e 12; órgão em 2 e 12; sanfona em 13)

Norival D'Angelo (bateria em 2, 6, 8, 12 e 13; timbales em 4, percussão em 7)

Sérgio Rosadas (flauta transversal em 2, 4 e 11)

Willie Verdaguer (violão baixo em 1, baixo em 2, 4, 6, 7, 8, 12 e 13), 

Triana Romero (castanholas em 1)

1. Tercer Mundo

2. Flores Astrais

3. Não: Não Digas nada

4. Medo Mulato

5. Oh! Mulher Infiel

6. Vôo

7. Angústia

8. O Hierofante

9. Caixinha de Música do João

10. O Doce e o Amargo

11. Preto Velho

12. Delírio

13. Toada & Rock & Mambo & Tanto & Etc. 


João Ricardo - João Ricardo [1975]

Ok, fica meio estranho colocar um disco do Secos & Molhados e este do João Ricardo aqui, mas é que a participação de Willy no álbum de estreia do eterno português é crucial. Se não, ouça suas linhas estonteantes de faixas como os rockaços "Rock E Role Comigo", "Se Sabe, Sabe" e "Salve-Se Quem Puder", na leve e hipnotizante "Janelas Verdes", onde seu baixo marca e sola conduzindo magnificamente esta linda canção. Sem sombra de dúvidas, seu trabalho na paulada "Viva E Deixe Viver" e no mini-épico prog "Sorte Cigana", esta forte candidata a melhor música de toda a carreira de João Ricardo (incluindo o Secos & Molhados), é um atestado final de por que o cara é um dos maiores baixistas da América Latina. E o que é o seu solo na introdução de "Balada Para Um Coiote"? E ainda resgatar o riff de "Amor" na mesma faixa, que coisa mais linda! Willy puxa o ritmo da caribenha "Os Metálicos Senhores Satânicos", e além disso, é responsável pelos arranjos de 10 das 11 canções do disco, com destaque para o de "Vira Safado" - com importante participação do baixo na marcação. Depois daqui, sua carreira perambulou por diversos outros gêneros, mas em termos de rock, João Ricardo para mim é a melhor performance de Willy ao baixo. 

João Ricardo (violão de 6 cordas, violão de 12 cordas, harmônica, percussão)

Roberto de Carvalho (guitarra, steel guitar), Emílio Carrera (órgão, piano, sintetizador, sanfona), Pestana (flauta, saxofone tenor, alto saxofone), Willy Verdaguer (baixo), Roberto De Barros (bateria)

1. Salve-Se Quem Puder

2. Vira Safado

3. Janelas Verdes

4. Sorte Cigana

5. Se Sabe, Sabe

6. Balada Para Um Coiote

7. Rock E Role Comigo

8. Fofoquinha 

9. Os Metálicos Senhores Satânicos

10. Doce Doçura

11. Viva E Deixe Viver

Verdaguer - Humauaca [1994]

A estreia de Willy em carreira solo acontece quase 30 anos depois de ele começar a sua carreira como músico, e é uma pedrada. Ao lado de um timaço musical, o músico cria aqui uma das melhores obras do progressivo nacional nos anos 90. Faixas como as complexas "Charara",  "Dança Dos Dedos" e "Jogo da Memória", atestam cada vez mais a genialidade de Verdaguer para criar riffs incríveis. As influências de nomes como King Crimson, Focus e Gentle Giant são nítidas aqui. Mas há bem mais do que os gigantes do prog europeu ao longo de Humauaca. Aprecie o ritmo dançante de "Nova Espanha", com ótima participação da flauta de Marcelo Mig e da guitarra de Marcelo Pizzarro, além de um solo magistral de Verdaguer, com o baixo carregado de efeitos, as lindas "Montanhas" e "Humauaca", as quais apresentam fortes inspirações latinas, tendo a faixa-título vocais que nos remetem ao Vox Dei de La Biblia, e o swing brazuca de "Galho de Arruda", trazendo Derico (aquele, do Sexteto do Jô) no saxofone, Derico este que dá um show à parte na já citada "Jogo da Memória". Quer curtir um blues portenho, vibre com seu uísque e rasgue seu portunhol cantando "Rara Vez". E fechando a audição, delicie-se com os mais de dez minutos de experimentações e variações em "Pulomelu", simplesmente sensacional. Daqueles discos quase desconhecidos, mas com uma qualidade imensurável!

Willy Verdaguer (baixo), Marcelo Pizzarro (guitarras), Tadeu Passareli (teclados), Marcelo Mig (flauta), Gilberto Faveri (bateria)

com

Eduardo Avena (percussão)

Derico Sciotti (saxofone)

Luiz De Boni (sintetizador em 4)

Billy Bond (vocais em 4 e 9)

1. Dança Dos Dedos

2. Nova Espanha

3. Charara

4. Humahuaca

5. Pulomelu

6. Galho De Arruda

7. Montanhas

8. Jogo Da Memória

9. Rara Vez

Bônus Track

Inspirado pelo meu amigo e colega de Consultoria do Rock Marcello Zapelini, e com uma discografia tão vasta, ficar apenas em cinco discos de Willy é muito pouco. Sendo assim, incluo aqui um bônus, para atiçar ainda mais a curiosidade do leitor.

Raíces de América - Fruto do Suor [1982]

Surgido no Brasil para um espetáculo musical, com produção e direção a cargo do produtor Enrique Bergen, como uma espécie de união contra a ditadura que assolava a América do Sul nos anos 70, o Raíces da América uniu músicos argentinos, chilenos e brasileiros, e dentre eles, Willy Verdaguer e o velho parceiro Tony Osanah. Seus dois primeiros álbuns traziam fortes críticas à opressão que o povo latino-americano sofria contra os militares, mas é em Fruto do Suor que o grupo se torna um dos queridinhos dos movimentos estudantis Brasil (e por que não, América Latina inteira) à fora. Baseado em um som carregado de temas políticos, folclóricos, cotidianos e musicais, que privilegia as raízes musicais dos países supracitados, o Raíces da América tem exatamente em Willy  um dos seus pilares centrais. Ele compôs a folclórica "Pajarito Gorríon", mas não é como compositor que ele brilha, mas sim, ao violão, e claro, no baixo. Sua veia de criar ótimos riffs está no violão-baixo de "Charanguito" (admire a linha que ele constrói aqui), na ótima "Canción Con Todos", com o baixo carregado de efeitos, ou na flamenca "Angelitos Negros", cujo baixo retumba junto das castanholas de forma espetacular. Mas são versões mais que fantásticas que se destacam ao longo de Fruto do Suor. O grupo revisita a linda "Pedro Nadie", obra do ítalo-argentino Piero, que havia ganho o V Festival Internacional da Canção de 1970, saudando o trabalhador do campo, mandam ver em uma épica versão para "O Violeiro" de Elomar, aqui batizada "El Guitarreiro", emocionam na fundamental "Canción Para La Unidad Latinoamericana" de Pablo Milanés, com um show a parte do baixo de Willy, e eternizam uma das mais belas versões para "O Que Será" (Chico Buarque), com Willy brilhando agora ao violão e também no órgão. A versão para "Soy Loco Por Ti América" (de Gil, Capinan e Torquato Neto) sacudiu bastante o povo brasileiro, e claro, o baixo de Willy marca presença no riff inicial e conduzindo essa dança com muita energia, assim como fôra em Caetano Veloso. O ápice do álbum é a faixa-título, obra-prima na carreira de Tony Osanah e Enrique Bergen, cuja linha de baixo de Willy conduz o forte texto da dupla, exaltando a força dos imigrantes que auxiliaram a construir a América do Sul, e que por diversas atrocidades e interesses, separaram em países povos irmãos, clamando por não serem chamados de estrangeiros, em um país construído por todos e que não tem dono, A canção foi segunda colocada no Festival MPB Shell de 1982, promovido pela Rede Globo, e tornou-se o hino dos imigrantes latinos que vivem no Brasil. Disco fundamental em qualquer Diretório Acadêmico das universidades de nosso continente, de um grupo que eternizou um momento triste que infelizmente, as vezes parece querer retornar para assombrar nossas vidas. 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Ouve Isso Aqui: 1975 por Mairon Machado


 Com André Kaminski, Daniel Benedetti, Davi Pascale, Marcelo Freire e Marcello Zapelini

E coube a mim a tarefa de encerrar as indicações de 1975. Tarefa extremamente difícil, pois realmente, 1975 é um ano ímpar (com o perdão do trocadilho) na história da música. De imediato, com a sugestão que louvo ao Marcelo por ter dado, pensei em trazer seis discos nacionais. Afinal, 1975 fez o Brazil parir inúmeros álbuns excelentes, que ficaram de fora das listas, e que merecem uma audição afundo de meus colegas.

Mas preferi manter o respeito aos digníssimos consultores, e seguir o padrão 5 internacionais e 1 nacional. Mas não qualquer nacional, talvez o melhor disco nacional da década de 70 (junto de Falso Brilhante, de 1976), e que a imagem destacada já entrega qual é. Muito obrigado à todos os que leram, comentaram e participaram desta série, e que em 2026, possamos seguir, agora com indicações de 66, 76, 86, o que será que virá? Boas festas e um excelente 2026 para vocês!


Alphonse Mouzon - Mind Transplant

Mairon: 1975 é o ano mirabilis de Tommy Bolin. O cara participou de quatro discos incríveis em menos de 12 meses, e para mim, é complicado dizer qual o que mais gosto (a saber, além deste tem também Moxy, do grupo de mesmo nome, o conhecidíssimo Come Taste the Band e o citado em outra edição do Ouve Isso Aqui 1975, Teaser). Cheguei ao Alphonse Mouzon por um acaso, através desta perseguição à tudo o que Bolin gravou, e cara, meus butiás caíram do bolso ao ouvir "Mind Transplant", a faixa que abre o disco, e que além de mostrar o talento fenomenal de Mouzon na bateria - um dos melhores que já ouvi, aliás - também mostra uma banda fodida, páreo duro com o gigante Billy Cobham e seu Spectrum. A conexão entre estes discos, além de ambos serem de bateristas, a guitarra de Bolin. E o guri brilha. Olha a rifferama de "Carbon Dioxide", junto do baixão de Henry Davis, em uma faixa que também conta com um excelente solo do guri, que dá seu espetáculo a parte em "Nitroglyceryn", porrada e violência sonora descomunais, e na espetacular e viajanta "Golden Rainbows", forte candidata a melhor do álbum. Ao mesmo tempo, o outro guitarrista, Lee Ritenour não fica atrás na pancada "Ascorbic Acid", com uma introdução impressionante por Mouzon, e uma velocidade que não há explicação. Faixas mais cadenciadas, como "Happiness Is Loving You", "Snow Bound" ou a Sly Stoniana "Some of the Things People Do", destacam também uma ótima participação dos teclados, e principalmente, faz com que o artista central, Mouzon, deixe os seus colegas também brilharem. Resumindo, Mouzon destrói praticamente o tempo inteiro, tocando muito, a banda é foda pra caralho e Bolin estava muito à frente de seu tempo, o que já disse muitas vezes. Cada vez que ouço seus discos, fico ainda mais impactado com o que ele gravou em tão pouco tempo.

André: Um belo disco de um artista que apenas tinha ouvido falar e nunca ouvi nada. Mouzon é um ótimo baterista de jazz-fusion e com a adição do excelentíssimo Tommy Bolin nas guitarras fez deste Mind Transplant uma surpresa mais do que agradável para mim. Veloz, mas também sabendo ser funky e grooveado, adorei faixas como "Carbon Dioxide" e "Nitroglycerin". Mairon deu um belíssimo tiro aqui.

Daniel: Que Alphonse Mouzon é um dos grandes bateristas do Jazz Fusion não há dúvidas, e sua presença no álbum de estreia do Weather Report é uma prova da afirmação. Em Mind Transplants, Mouzon continua monstruoso na bateria, mas a “cena é roubada” pelo incrível guitarrista Tommy Bolin, com solos de arrepiar! Este disco é mais uma evidência do talento de Bolin, e de suas muitas facetas musicais. Portanto, fãs do guitarrista precisam ouvi-lo.

Davi: E aí? Billy Cobham ou Alphonse Mouzon? Spectrum ou Mind Transplant? Se você é um amante de música instrumental, um apreciador de fusion ou um baterista (profissional ou não), diria que ambos são audições obrigatórias. Mouzon dá, simplesmente, uma aula de técnica e feeling em faixas como "Nitroglycerin" e "Mind Transplant". Como se não bastante o ótimo trabalho de bateria do músico, ele ainda reuniu um time estelar para acompanhá-lo contando com a presença dos guitarristas Lee Ritenour e Tommy Bolin. Quem acha que os músicos atuam apenas fazendo acompanhamento, engana-se. As guitarras tomam à frente em diversos momentos em faixas como "Carbon Dioxide" e "Ascorbic Acid", mas a cereja do bolo ficam mesmo com as canções "Snow Bound", "Happiness Is Loving You", que são extremamente melódicas, além da única faixa cantada: a funky "Some of The Things People Do".

Marcelo: Eis que, ironicamente, a nossa lista dessa empreitada de falarmos sobre grandes discos de 1975 termina com o nosso big boss Mairon! E como não podia deixar de ser, a lista dele é a mais, digamos, peculiar e desafiadora de todas... A começar por Alphonse Mouzon e seu Mind Transplant: há algo de singular nesse álbum, pois ele é, ao mesmo tempo, a síntese e a implosão do jazz fusion setentista. Em 1975, o gênero já havia atingido uma maturidade técnica impressionante — bastava ouvir Weather Report, Mahavishnu Orchestra ou Return to Forever, todos inclinados a uma mistura demencial de virtuosismo, eletricidade e ambição. Mas Alphonse Mouzon, vindo da escola de McCoy Tyner e do próprio RTF, tinha outra abordagem: menos misticismo, mais rua; menos transcendência cósmica, mais músculo. Mind Transplant é seu disco mais ousado justamente porque não se limita ao fusion tradicional. É um álbum que se coloca no cruzamento entre jazz, funk pesado, rock instrumental e até um flerte com o que, anos depois, chamaríamos de groove metal. Mouzon é constantemente (e até insistentemente, eu diria) comparado a Billy Cobham, mas também pudera: ambos são virtuosos e rápidos; ambos têm a fusão em seu dna musical e participaram de bandas icônicas (Mouzon na Weather Report e na Eleventh House, e Cobham na Mahavishnu); e sem falar que ambos empregaram o talento de Tommy Bolin, seja no Spectrum de Cobham, seja neste álbum que ora vos resenho (e que foi apelidado de Spectrum 2). E é nesse ponto que quero centrar forças: muito dessa singularidade vem da presença de Bolin. O guitarrista — que naquele mesmo 1975 gravaria com o Deep Purple o incrível Come Taste the Band e seguiria para sua curta, mas brilhante carreira solo — surge aqui completamente à solta! Suas linhas de guitarra são elétricas, às vezes cortantes, às vezes espaciais, sempre com uma liberdade que poucas bandas de rock lhe permitiam. Jeff Beck, ao lançar Blow by Blow naquele mesmo ano (E QUE ANO, MEU DEUS, FOI ESSE 1975!), buscava elevá-lo ao patamar de “guitarrista-jazzista”; Mouzon, por sua vez, apenas pediu: toque como você quiser. Ou seja, esse Mouzon sabia das coisas... O resultado, portanto, é um álbum que alterna força bruta e elegância rítmica. Mouzon lidera tudo com uma bateria pulsante, de acentos secos, sincopações rápidas e explosões de técnica. Mas ele também toca teclados e arranjos, construindo camadas que dão unidade ao disco inteiro. Mind Transplant soa vivo porque é visceral: uma jam intelectualizada, mas espontânea. Um disco que une mundos e que, até hoje, permanece como cultuado por músicos, mas subestimado pelo grande público. Boa sacada do Mairon. Meus destaques: “Mind Transplant”, “Snow Bound”, “Golden Rainbows”. A gema escondida: “Carbon Dioxide”.

Marcello: O baterista de jazz fusion era um dos mestres desse instrumento, não resta dúvida. Em oito músicas relativamente curtas (a mais longa é “Golden Rainbows”, e mesmo ela não chega aos 7 minutos), Mouzon destaca sua bateria (e seu vocal) junto de um bom time de músicos, que inclui os guitarristas Lee Ritenour (sim, eu sei que ele lançou uns discos bem ruins nos anos 80, mas o cara toca muito) e Tommy Bolin (que faz um solo bem no seu estilo em “Golden Rainbows”) nas guitarras. As músicas transitam do rock ao funk dentro do quadro de referência do jazz, e é difícil destacar alguma, pois, se você gosta do estilo, vai encontrar muita coisa para se divertir, e se não gosta, provavelmente não vai mudar de ideia; mas chamo a atenção para “Ascorbic Acid”, a já citada “Golden Rainbows”, a explosiva (desculpem, não resisti) “Nytroglicerin” (outro momento de brilho de Bolin), a faixa-título e a bela “Happiness is Loving You”. Claro que a bateria de Mouzon é o carro-chefe, mas as guitarras e o baixo recebem (merecido) destaque nos arranjos. Este foi um disco que conheci muito tempo atrás por causa da participação de Bolin, e fazia bastante tempo que não ouvia; foi um prazer reencontrá-lo na lista do Mairon. O único defeito do disco é ser muito curtinho (pouco mais de 33 minutos)...


Esperanto - Last Tango

Mairon: Gravado no famoso Chateau de Herouville , este álbum encerra a curta discografia de três álbuns do grupo belga/vários países Esperanto. Comandados por Raymond Vincent (violinos), este octeto fez estripulias pela Europa na primeira metade dos anos 70. Seu canto do cisne é uma obra-prima, misturando elementos do rock progressivo com a nascente disco music, além da cultura do leste europeu e do folk americano. Essa mistura de elementos sonoros era a grande proposta dos caras - daí o nome - e eu sempre fico impactado ao ouvir seus discos, mas em especial Last Tango. Canções como "Obsession", "Painted Lady" e "Still Life", criam arranjos pesados para o trio de cordas, que somados ao delicado trabalho de piano e teclados de Bruno Libert, a pesada cozinha dos irmãos italianos Tony (bateria) e Gino (baixo) Malisan, além da dupla vocal de Kim Moore e Roger Meakin, contrastando os vocais feminino e masculino, fazem uma atmosfera única na música mundial. Basta ouvir a mini-suíte "The Rape" que você experimentará doses cavalares dessas variações musicais do octeto, onde todos os instrumentos brilham equanimemente. A chave de ouro é a Maravilhosa versão para "Eleanor Rigby", onde o Esperanto decoloniza (palavra da moda) as influências britânicas e cria o que podemos dizer ser o prog-esperanto. Ouçam sentados, por que é de cair para trás. E conto mais sobre essa bandaça aqui.

André: Já havia ouvido este disco há alguns anos e outra ótima lembrança do Mairon aqui. É mais um daqueles casos de rock sem guitarras mas que a gente nem percebe que é só o teclado e os violinos que carregam as melodias. É um disco curiosamente bem enérgico, que se tivesse guitarra, provavelmente seria classificado como metal progressivo sinfônico. Mas estes belgas fizeram um trabalho bem interessante e criativo, que vale a pena dar uma chance.

Daniel: Nunca tinha ouvido este disco, conhecia a banda só de nome. É um trabalho interessante, um prog rock com muitas alternâncias de dinâmicas dentro da mesma canção, muita influência clássica, sendo que os violinos brilham principalmente em “The Rape”. Para fãs de rock sem guitarra, é um prato cheio.

Davi: Essa é uma banda que já havia ouvido falar, mas nunca tinha parado para escutar. A proposta deles é bem bacana. Eles fazem um rock progressivo sem se utilizar de clichês. Por exemplo, muitos vão dizer que violino nesse tipo de som não é exatamente uma novidade. E, realmente, bandas como o Kansas (que também aparece nessa lista) já utilizavam o instrumento. A diferença é que o Kansas usa o instrumento complementando o arranjo, no caso do Esperanto eles são a tônica do arranjo. Não há guitarras por aqui. É justamente o violino quem acaba trazendo o peso das canções. Os vocais - interpretados por Roger Meakin e Kim Moore - são bem resolvidos e muito bem executados. E além da performance dos músicos ser muito boa, as canções também são excelentes. A única que não curti foi "Obsession", as demais são muito bacanas onde colocaria como destaque "Still Life", "Painted Lady", além da bela versão de "Eleanor Rigby". Ótima recomendação!! Vou tentar conseguir um exemplar para a minha coleção...

Marcelo: O Esperanto Rock Orchestra sempre foi um caso peculiar no progressivo: uma banda multinacional, com orientação orquestral, mas que jamais caiu no excesso barroco do rock sinfônico mais comum. Em The Last Tango, o grupo alcança aquilo que parecia buscar desde o início: um equilíbrio entre exuberância instrumental e uma musicalidade que nunca deixa de ser acessível, por vezes até pop, sem perder densidade. 1975 foi um ano em que o progressivo começava a mostrar sinais de desgaste comercial, mas não criativo (basta lembrar que o sublime Relayer do Yes é de 1975). Nesse contexto, o Esperanto surge com uma estética singular: cordas em destaque, arranjos que lembram música de cinema, vocais que vão do teatral ao delicado e uma forte base rítmica que impede que tudo soe etéreo demais. O disco funciona como uma pequena ópera moderna, mas sem a megalomania pretensiosa de outros projetos da época. A faixa-título é o ápice da ousadia: um tango distorcido, dançante e dramático, que mergulha o ouvinte num clima argentino repaginado para o rock setentista. Em contrapartida, outras faixas exploram texturas mais sinfônicas, lembrando por vezes Renaissance, Klaatu e até algumas passagens de ELO, embora sempre com um toque mais progressivo que radiofônico. Os detalhes orquestrais, seus vocais múltiplos, seus interlúdios camerísticos, tudo no disco parece calculado e, ao mesmo tempo, orgânico. Um disco que envelheceu bem e que merece ser revisitado com carinho, nem que seja para tomar um susto com a interessantíssima cover de “Eleanor Rigby” dos Beatles, que abre o álbum. Meus destaques: “The Last Tango”, “Painted Lady”, “Obsession”. A gema escondida: “Lonely Road”.

Marcello: Essa banda eu nunca tinha ouvido falar. E procurando informações sobre eles, encontrei apenas um nome conhecido, o do violinista Godfrey Salmon, que trabalhou com o Emerson, Lake & Palmer em meados da década de 70. O disco abre o disco com uma versão de “Eleanor Rigby” que começa tão diferente do original que você se pergunta se não há um engano. Mas quando Roger Meakin e Kim Moore começam a cantar, a gente reconhece a letra; no final das contas, uma versão excelente! “Still Life” é hard rock com violinos; outra música com longa introdução instrumental, com bom piano de Bruno Libert. Já “Painted Lady” é um pouco mais pop e tem menos presença das cordas, mas não é menos interessante, ao passo que “Obsession” é mais suave e traz belo trabalho vocal de Kim Moore – uma ótima cantora, por sinal. “The Rape” é o épico do disco, com mais de 12 minutos bastante variados e os violinos formando um arranjo impressionante. Os vocais de Roger Meakin são fantásticos nessa música, a melhor do disco. A faixa-título encerra o disco e traz, como o título sugere, influências do tango argentino, mas, independentemente disso, foi a que menos gostei, mas não prejudicou o disco. Antes de concluir, um detalhe relevante: o baixista Gino Malisan é excelente e se destaca praticamente em todas as músicas. Last Tango foi uma surpresa bem agradável, um disco que provavelmente nunca ouviria se não tivesse surgido nessa lista; vou atrás dos outros dois álbuns do grupo.


Kansas - Song For America

Mairon: Quando comecei a montar minha lista, percebi que haviam alguns artistas que tinham dois discos de 1975. O Kansas era um deles, e fiquei em dúvidas se este ou Masque iriam agradar mais meus queridos colegas, bem como iriam gerar comentários mais positivos. Escolhi Song For America por preferência pessoal (mesmo adorando Masque), só que acho que aqui, o Kansas consegue fazer um trabalho coeso de misturar o prog com o hard, que é o que marca a banda em seus cinco (sim, cinco) primeiros discos. A longa introdução da faixa-título já é uma Maravilha Prog para ninguém botar defeito. O prog avança com naturalidade e qualidade nas fantásticas "Lamplight Symphony", estupenda, emocionante, gigante, linda, tudo de bom, e nos mais de doze minutos de "Incomudro - Hymn to the Atman", que ao vivo podia ir a 20 fácil, dependendo da inspiração do solo de bateria, com uma construção arrepiante, e com destaque, conforme citado, para o longo solo de bateria já bem incomum em 1975, e com uma letra que mostra os caminhos religiosos que Kerry Livgren seguiria anos depois. Estas faixas destacam a exuberância e o talento de Livgren (guitarras, teclados), Steve Walsh (vocais, teclados), Robby Steinhardt (violino, vocais) e principalmente, os injustiçados Dave Hope (baixo), Phil Ehart (bateria) e Rich Williams (guitarras), exímios músicos pouco - ou quase nada - citados nas listas de melhores instrumentistas, mas que deveriam ser mais reconhecidos por seus trabalhos incríveis. Ao mesmo tempo, as hardeiras de "Down the Road" e "The Devil Game" revelam o lado pesado do sexteto, com ótimos teclados e muita guitarra estourando as caixas de som. E o blues de "Lonely Street" é uma ovelha negra que não pode jamais passar despercebida, com uma das melhores interpretações vocais de Walsh. Veio Leftoverture, o Kansas encontrou sua fórmula perfeita e se torna gigante com Point of Know Return, mas neste seu início, cara, que bandaça! Por fim, não tem a ver com o disco, mas sempre que vou escrever sobre o Kansas, lembro de um tal e famoso V. B., que simplesmente traduziu o livreto que vem no Box da banda lançado em 1994, como se o texto fosse dele, na cara dura, sem nem citar o boxezinho, e na parte onde o box termina, simplesmente o tal texto - que eu tenho guardado aqui - se enrola e acaba. Bota palhaçada. Mas não, se você ouvir Song For America, você não se sentirá um palhaço! Discaço!

André: Sempre tive a sensação que o Kansas só se uniu ao prog da época mais para seguir a onda do que fazer o que eles realmente queriam que era o hard rock/AOR dos anos seguintes. Mas ainda assim, fazem essa mistura de prog/hard com maestria e Song for America é outro disco bastante agradável. Não está lá entre os meus  favoritos deles, mas músicas como "Lamplight Symphony" e "Lonely Street" me apetecem.

Daniel: Disco muito bom do Kansas, em que a banda está lapidando sua sonoridade. "Incomudro - Hymn to the Atman" é muito boa, mas a faixa-título é simplesmente um espetáculo. “Lonely Street” e “The Devil Game” possuem uma pegada Hard Rock, sem perder a complexidade natural do Kansas. Enfim, uma lembrança muito boa.

Davi: Para mim, o melhor álbum dessa lista. Em Song For America, o Kansas ainda não tinha aquela pegada de rock de arena que passou a permear seus trabalhos desde Leftoverture. A jogada aqui era a mesma de seu debut, ou seja, o blend de rock progressivo (presentes nas canções de Kerry Livgren) com hard rock (que ganhava força nas canções de Steve Walsh). Porém, os arranjos aqui estavam mais elaborados. Os violinos de Robby Steindhart sempre foram um diferencial do grupo, e aqui já se fazia presente. O álbum é bem consistente, mas se eu tivesse que escolher algum destaque ficaria com "Lonely Street", além da lindíssima faixa-título, que é a grande canção desse trabalho.

Marcelo: Sempre que ouço esse álbum penso que os caras do Kansas já sabiam de tudo... Ou quase tudo, pois a capa desse álbum é horrorosa. Seu álbum de estreia, Kansas, é lançado em março de 1974; Song for America, em fevereiro de 1975, mesmo ano em que lançam Masque (em setembro); em outubro de 1976, sai Leftoverture e em outubro de 1977, Point of Know Return! Em menos de 5 anos, os caras botam para quebrar (em 1978, sai o primeiro ao vivo deles), só que é no Song for America, e não no álbum de estreia, que o grupo rapidamente consolida sua identidade: um progressivo norte-americano que não tenta copiar o europeu, mas dialoga com ele enquanto incorpora country, hard rock e harmonias vocais folclóricas dos EUA em sua forma mais ambiciosa. Steve Walsh e Kerry Livgren já aparecem como forças criativas igualmente importantes: o primeiro mais direto, energético, teatral; o segundo mais místico, expansivo, reflexivo. A fusão dessas personalidades move o álbum inteiro. A faixa-título é um épico de quase dez minutos que mistura críticas ambientais, um lirismo quase pastoral e passagens instrumentais que lembram Gentle Giant e Yes, porém sempre com aquele violino característico de Robby Steinhardt que torna tudo identitário. “Lamplight Symphony” é a minha música favorita da banda (depois de “Dust in the Wind”, óbvio) e provavelmente uma das composições mais belas do Kansas: grandiosa, tocante, com uma melancolia que antecipa o tom mais espiritualizado das obras posteriores de Livgren (alô, Mairon, olha uma maravilha prog aí dando sopa!). Aí, depois, eles vêm dom “Lonely Street”, que oferece o contraponto: um rock mais áspero, com ecos de Zeppelin e do blues rock americano. Diferentemente do progressivo britânico, que em 1975 já flertava com estruturas mais difusas, o Kansas ainda investia em composições sólidas, com riffs marcantes, refrões memoráveis e arranjos complexos que nunca perdiam o fio narrativo. Song for America é, assim, o retrato de uma banda que sabia equilibrar virtuosismo e emoção, técnica e melodias fortes, algo que se tornaria sua marca nos anos seguintes. Meus destaques: “Song for America”, “Lamplight Symphony”, “Lonely Street”. A gema escondida: “Down the Road”.

Marcello: O segundo álbum do Kansas confirma a excelência de Kerry Livgren como instrumentista e compositor (três das seis músicas são exclusivamente de sua autoria e uma quarta tem sua coautoria), e traz uma banda ambiciosa, que tenta superar sua (boa) estreia. A faixa-título é um clássico atemporal, com boas variações no som, ótimo desempenho instrumental (particularmente do violinista Robby Steinhardt) e vocais perfeitos de Steve Walsh com Steinhardt no apoio. O outro épico do disco, “Incomudro - Hymn to the Atman”, não fica atrás, trazendo a banda em pleno voo para a estratosfera. Some a essas duas a ótima “Lamplight Symphony”, e o disco não precisava de mais nada, mas ainda há as ótimas “Down the Road” e “Lonely Street”, e o resultado é um dos melhores discos do grupo, ainda que longe de ser o mais bem-sucedido (isso aconteceria futuramente, com Point of Known Return); o som do grupo beirava o prog, com generosas doses de hard rock na guitarra do subestimado Richard Williams e na bateria pesada e bem elaborada de Phil Ehart. O Kansas se perderia depois por aí (por exemplo, nunca consegui gostar de Masque, o terceiro LP – ainda bem que eles se recuperaram com Leftoverture), mas em Song for America ele se mostra uma banda em pé de igualdade com os progressivos britânicos, e o LP só não é o melhor deles porque nada bate o fenomenal Two for the Show. Ótima recomendação do Mairon.


SBB - Nowy Horizont

Mairon: Tem bandas que surgem para nós e a gente acaba não lembrando como. É o caso do SBB. Eu creio que conheci a banda por conta de um antigo site russo de downloads, e baixei o primeiro disco deles (homônimo), gravado ao vivo, e que mostrava um grupo com forte influência do blues britânico (o nome da banda, SBB, vem de Silesian Blues Band ...) e, principalmente, do hard setentista, com o baixo carregado de distorção solando como instrumento central. Mas lembro claramente de quando ouvi Nowy Horizont, o segundo disco do trio (agora com SBB sendo Szukaj Burz i Buduj, ou seja, Busque, Rompa e Construa), e logo de cara, me deparei com algo mais progressivo, lembrando um Emerson Lake & Palmer com guitarras, e no qual o líder da banda, Josef Skrzek sai do baixo para assumir os teclados com uma perfeição digna dos melhores músicos de sua geração. Apenas na faixa título Skrzek demonstra todo seu talento solando com o baixo, usando distorções diversas e mandando ver. Mas falar de Skrzek é cair no molhado, o cara é sensacional e talvez o maior músico do rock polonês, e portanto, quero ressaltar a qualidade e o talento de seus dois companheiros, o guitarrista Antymos Apostolis e o baterista Jerzy Piotrowski. Cara, esses malucos tocavam muito. Na contra-capa do álbum, está lá; "a musica deste grupo é uma continuação de uma 'mutação' das propostas artísticas e experimentais do legendário intrumentista John 'Mahavishnu' McLaughlin", o que diz muito sobre o que esperar aqui. Para quem curte um prog mais "comum", o lado A é exuberante,  As duas primeiras faixas, emendadas, que alternam-se musicalmente em solos de teclados, piano, guitarra, e uma bateria avassaladora. A assustadora "Ballada O Pięciu Głodnych", com Skrzek declamando um poema em polonês, irá é uma viagem literalmente. Mas é no lado B, na suíte "Wolność Z Nami", que o bicho pega. O arsenal de teclados é colocado à prova, e as camadas sonoras e vocalizações viajantes embriagam e encantam facilmente na primeira metade da canção. A segunda metade? Bom, procure e ouça, as diria que é um delírio musical que abriria um grande sorriso na face de Stravinsky - que puta duelo de guitarra e teclados, vá tomar banho! Vinte minutos para qualquer amante do progressivo se deliciar! O SBB elevaria suas qualidades prog ao máximo em Ze Słowem Biegnę Do Ciebie (1977) e SBB (1978), mudaria sua sonoridade para conquistar o ocidente em 1978 (e não deu certo), voltou a fazer prog de alta qualidade nos anos 90, mas tudo isso só foi possível por conta deste álbum. Discaço!

André: Sei que o Mairon é fanzaço desta banda e dou razão a ele. E caras, o baterista Jerzy Piotrowski rouba a cena. Toca muito. É mais um disco progressivo da lista do nosso doutor, desta vez caindo mais para o lado do rock espacial misturado a uns jazz-rocks. Fazia também muito tempo que eu não pegava um disco do SBB para ouvir e agora lembrei o porquê de eu haver gostado bastante. Único problema mesmo é a produção ruim, mas esperar o quê de uma Polônia sofrendo horrores nas mãos dos soviéticos? Acho até ter sido um feito incrível terem conseguido gravar um disco neste estilo.

Daniel: Mais um álbum de viés progressivo e uma obra bastante interessante. O grupo faz um prog com evidente pegada “jazzística”, especialmente na canção que encerra o disco (e que tem perto de 20 minutos – e um nome impronunciável). Preciso ouvi-lo mais vezes para ter uma melhor absorção da proposta, mas, à primeira ouvida, recomendo.

Davi: Lembro que o Mairon já tinha comentado dessa banda com a gente, mas ainda não havia parado para ouvi-los. Dei uma pesquisada sobre os caras e descobri que se trata de uma banda polonesa, considerada uma espécie de supergroup. Nowy Horizont é o primeiro álbum de estúdio deles, mas confesso que não me empolgou. Os músicos são muito bons, onde vale um destaque para o tecladista Józef Skrzek, que consegue chamar a atenção em duas frentes: no trabalho de hammond/piano - que acaba sendo o creme do disco - e pelo trabalho de contrabaixo, que tem bastante evidência na mixagem. O LP conta com 5 músicas apenas. As 2 primeiras - "Na Pierwszy Ogień " e "Błysk" são bacaninhas, e contam com uma levada de baixo/bateria que me remeteu um pouco ao que o Deep Purple costumava fazer nas jams que faziam nos tempos de Ritchie Blackmore. Mas, a partir daí as músicas ficam chatas. "Nowy Horizont" e "Wolność Z Nami", as mais longas do álbum, contam com bastante experimentações, com Józef explorando uma sonoridade mais cósmica nos teclados. Não tenho nada contra a prática, mas as viagens deles aqui não me encantam. E, para piorar, achei a qualidade de gravação ruim, som abafado, sem brilho. Por ser um grupo formado por mestres do rock polonês e com uma influência tão grande, esperava mais.

Marcelo: Em que outro lugar eu seria apresentado a essa banda de progressivo polonês?! Somente em uma lista do Mairon mesmo... Nunca tinha ouvido falar nos sujeitos. No link do YouTube em que ouvi o álbum completo, o texto de apresentação diz que “de todas as bandas fantásticas que surgiram na Polônia (e há muitos ótimos exemplos), o SBB é o precursor da mistura eclética de jazz sinfônico e experimental.” Bem, realmente é um trabalho que condiz com a expressão “mistura eclética”, pois combina psicodelia tardia, jazz improvisado, rock experimental e uma melancolia muito específica, talvez coisa de polonês mesmo. Ele tem uma coisa entre o lirismo e a tensão, entre o contemplativo e o desarranjado. Não vou negar que Nowy Horizont é um álbum que se desdobra lentamente (ouvi-o duas vezes e decidido a não fazê-lo uma terceira vez): na primeira, achei chatíssimo, na segunda, esquisito, mas já gostando de um trecho aqui, outro ali. Suas longas composições funcionam como viagens internas, com temas que emergem, desaparecem, ressurgem transformados. Embora se conecte a nomes como Soft Machine, Pink Floyd fase Meddle e algumas vertentes do krautrock, não consegui curtir muito. Meu destaque: “Na pierwszy ogień”. E confesso que, pela primeira vez em todos os discos de todas as listas, não consegui desvendar uma gema escondida.

Marcello: A única banda polonesa que conhecia até ouvir este disco era o Riverside, e fui conhecer algo a respeito do SBB por causa da resenha que o próprio Mairon fez da box set que reúne os discos da banda. Mas só parei para ouvir quando a lista nos foi passada. O trio formado por Józef Skrzek (baixo, teclados, vocais), Apostolis Anthimos (guitarras, bateria, teclados, baixo) e Jerzy Piotrowski (bateria) apresenta aqui um trabalho predominantemente instrumental, com destaque para a bela “Nowy Horyzont” (com excelentes teclados) e para a longa “Wolność Z Nami”, com mais um belo trabalho de Skrzek no piano e alguns wordless vocals. “Ballada O Pięciu Głodnych” se diferencia das outras por trazer os vocais de Skrzek declamando a letra, mas a música não chegou a me cativar; no fim das contas, o trabalho instrumental é o mais interessante do SBB, ao menos neste disco, com os teclados viajantes de Skrzek, a guitarra insana de Anthimos e a bateria imprevisível de Piotrowski. O fato de o álbum ter sido gravado num país da Cortina de Ferro nos anos 70 não deixa de ser um aspecto a destacar, pois, afinal de contas, bem poucas bandas da região chegaram aos nossos ouvidos. O disco é muito bom e me motivou a buscar conhecer mais do trabalho da banda, mas não entraria numa lista de melhores do ano.


UFO - Force It

Mairon: Segundo disco da trup de Phil Mogg e Pete Way com o alemão Michael Schenker, agora não mais um guri, mas um ser capaz de assinar sete das nove músicas do disco, isto com apenas 20 anos. Force It é um disco sensacional, daqueles que sabemos não ser o melhor de uma banda, mas que dá gosto de ouvir. O que Schenker faz na criação de faixas menos comuns como "Love Lost Love" já é o suficiente para adorarmos o disco. O uso de passagens acústicas ("High Flyer") e das inspirações zeppelianas ("Dance Your Life Away") são algo que se destacam fácil em uma primeira audição. Mas são nas clássicas, e principalmente, que o UFO se torna o gigante que virou, pois nada, nada na segunda metade dos anos 70, teve tanta potência hard quanto essas faixas e o que o UFO fez até Strangers in the Night (ok, Obsession é bem experimental, mas mesmo assim, é um disco impecável). A presença do piano elétrico de Chick Churchill deu um gás a mais para o grupo, que criou soberanidades do porte de "Out In The Street". A hardeira pesada de "Shoot Shot", "Mother Mary" e "Let It Roll" são para sair pulando pela casa, "This Kids" e Minha favorita do disco (e top 3 do UFO), é daquelas que pouca gente valoriza, a espetacular "Too Much of Nothing", uma performance vocal sensacional de Phil Mogg, e na verdade, uma música indescritível que eu adoro sair gritando pela casa os "I used to cryyyyyyyyyyyyyy ...". E o que é aquele sustain que o Schenker cria nesta faixa?? Puta que pariu!  Vocais muito bem trabalhados, excelente casamento da guitarra com o baixo, e um pouco comentado Andy Parker socando seu kit são outros grandes destaques deste disco fenomenal - mais um trocadilho infâme, eu sei - que influenciou toda a NWOBHM anos depois (pergunta para o patrão Harris o que ele acha deste disco). Comento mais sobre ele aqui, e obrigado por terem me dado a oportunidade de indicar este que desta lista, julgo se o principal que deveria estar na lista de 1975 original.

André: Vixe, não tem nem o que falar muito. Qualquer coisa setentista que contenha Michael Schenker em seus créditos é trabalho da mais alta qualidade. Phenomenon do ano anterior já é excepcional, e este segue no mesmo nível.

Daniel: De longe, é o meu preferido da lista. É o UFO em seu auge, com a química entre Michael Schenker e Phil Mogg, os principais compositores desta fase, rendendo excelentes canções. Aliás, uma amostra do talento de Phil como cantor está em "High Flyer". “Let It Roll” e “Shoot Shoot” são provas do poder do hard rock do grupo. A pesada "Too Much of Nothing" disputa o posto de preferida do álbum com a suave "High Flyer", uma canção com o DNA melódico do UFO. Disco maravilhoso.

Davi: Um dos grandes clássicos da carreira do UFO. O lineup aqui - unindo as guitarras de Michael Schenker, o baixo de Pete Way e os vocais de Phil Mogg - certamente foi um dos melhores do grupo britânico. O disco já começou a causar por conta da polêmica capa que trazia um casal brincando de fazer neném em uma banheira. É claro que a gravadora iria forçar uma nova arte, o que de fato acabou acontecendo. Do lado musical, não tem muito o que falar. O grupo mesclava baladas do porte de "High Flyer" com hard rocks poderosos como "Love Lost Love" e "Too Much of Nothing". A influência de Led Zeppelin corre solta tanto nas linhas vocais de "Dance Your Life Away", quanto nos riffs de "This Kid´s". Contudo, os grandes destaques do LP estão logo no início com os clássicos absolutos "Let It Roll" e "Shoot Shoot", sem dúvidas, a minha faixa predileta desse vinil.

Marcelo: De modo inacreditável, esse álbum não apareceu nem na lista oficial de 1975, nem na lista do que ficou de fora e em nenhuma das que meus colegas e eu produzimos. Aqui, ele só perde para o do Caetano. Se Phenomenon (1974) marcou a chegada de Michael Schenker e deu ao UFO um novo rumo, foi Force It que consolidou a banda como uma força criativa real dentro do hard rock inglês. 1975 foi um ano de transição para o gênero — Led Zeppelin deixaria sua fase mais grandiosa, o Black Sabbath já dava sinais de turbulência e o Deep Purple mudaria novamente de formação. Nesse cenário, o UFO aparecia como um grupo que unia o clássico hard britânico com um senso melódico que antecipava o AOR do final da década. Parte dessa transformação se deve ao jovem Schenker, que toca aqui com uma combinação raríssima de agressividade e lirismo. Seus solos são marcantes, suas frases lembram tanto o blues elétrico europeu quanto a escola mais neoclássica que viria a influenciar guitarristas dos anos 80. Phil Mogg, por sua vez, está em plena forma: cantando com uma mistura de urgência e estilo, algo entre o roqueiro de pub e o crooner de arena. Force It é direto e eficiente. Não há sobras, não há excessos. É um disco construído com foco em riffs marcantes, grooves simples e refrões que grudam. Ao mesmo tempo, a banda experimenta com toques de progressivo e, principalmente em contrastes melódicos e pequenos arpejos atmosféricos. A produção de Leo Lyons (do Ten Years After) ajuda a manter tudo coeso e quente, com aquela sonoridade analógica que só 1975 podia oferecer. É o tipo de álbum que, mesmo sem ser revolucionário, representa com perfeição um momento histórico do hard rock, e que, anos depois, seria lembrado como uma das bases estéticas do metal melódico. Indispensável em qualquer boa coleção do gênero. Meus destaques: “Let It Roll” (já abre o disco com tudo), “Shoot Shoot”, “Mother Mary”. A gema escondida: “High Flyer” (perfeita para ouvir numa madrugada de sábado em um boteco).

Marcello: Quarto LP do UFO, segundo com o menino-prodígio Michael Schenker nas guitarras, Force It é produzido por Leo Lyons (ex-Ten Years After), que trouxe seu ex-colega de banda Chick Churchill para os teclados – e a banda deve ter gostado, porque o disco seguinte (No Heavy Petting) traria o argentino Danny Peyronel como tecladista fixo. O álbum está recheado de clássicos (“Let it Roll”, “Shoot Shoot”, “Out in the Streets”, “Mother Mary” e “This Kid’s”) que, verdade seja dita, receberiam versões definitivas no maravilhoso, estupendo, fenomenal, impressionante Strangers in the Night, mas que aqui brilham o suficiente para se tornarem os principais destaques – em especial “This Kid’s”, que tem uma linda coda instrumental composta por Schenker, e que desapareceu na versão ao vivo. A baladinha “Love Lost Love” é menos conhecida, mas é outra música excelente que merece ser lembrada, e “Too Much of Nothing” é uma das poucas músicas originais do UFO sem a coautoria de Phil Mogg (é assinada apenas pelo baixista Pete Way), revelando que a banda não era apenas a dupla Mogg/Schenker. Aliás, um dos motivos pelos quais prefiro as versões ao vivo do duplo de 1979 é justamente Mogg – por algum motivo que não sei explicar, acho que ele não rendeu tudo o que podia em Force It. Mas isso não tira o mérito deste álbum sensacional, que eu coloquei na minha lista e retirei porque apostei comigo mesmo que o Mairon iria incluir na sua lista (acho que os dois somos os maiores fãs do UFO aqui na Consultoria), e, como podem ver, ganhei. O prêmio? Ouvir novamente este grande álbum, outro gol de placa nessa lista.


Nacional: Caetano Veloso - Jóia

Mairon: Mais um artista que em 1975 lançou duas obras-primas. Jóia e seu irmão gêmeo Qualquer Coisa são discos muito opostos, diferentes de outros gêmeos como Use Your Illusion ou Human Touch / Lucky Town (só para citar dois). Adoro o segundo, mas Jóia é um disco que para mim, na discografia do Caetano do velho testamento, só perde para Transa por um nariz. O disco faz o acabamento final das explorações insanas que começara no conturbado - e para mim, perfeito - Araçá Azul, onde Caetano mostra o "seu Brasil" para o mundo, e não o Brasil da ditadura, usando de prato, faca, batidas no corpo, cantorias locais, para criar música. Caetano surge agora como um grande violonista nas belas "Canto do Povo de Um Lugar", fácil a canção mais linda do disco, com um certo ar de Pink Floyd na época Ummagumma, graças a importante participação do saudoso grupo Bendegó, "Minha Mulher", homenagem a esposa Dedé, em sua interpretação única para "Na Asa Do Vento" (de Luiz Vieira e João do Valle) e na divertida "Gravidade". Ao mesmo tempo, mantém sua veia tropicalista e experimental em doideiras de desconstrução esquizóide e surpreendentes (positivas para quem gosta, ou negativas para quem detesta) como as percussivas - e de inspirações no Xingú, o verdadeiro Brasil - "Asa", "Guá" e "Jóia", que eu acredito ser a origem instrumental do que a Uakti pensou como música um dia, mas com um espetacular jogo de palavras em suas letras, usufruindo plenamente das próprias expressões orais das palavras, as palmas e batidas no corpo, além dos murmúrios vocais da extravagante "Tudo Tudo Tudo",  a orquestra de flautas de "Pelos Olhos", ou o arranjo da Banda de Pífaros de Caruaru - méritos de Perna Fróes - em "Pipoca Moderna", com um show de sobreposição vocal. E cara, sério, eu amo essas doideiras, essas criações com instrumentos exóticos, a percussão corporal, a exploração de vozes e sons guturais, principalmente quando feita com uma qualidade incrível como a das canções de Jóia, que se encaixam perfeitamente com o violão delicado e a voz suave de Caetano.  Temos a presença do genial Antonio Adolfo no órgão de "Lua, Lua, Lua, Lua", e a versão de "Help" que o baiano faz aqui para mim, apenas com voz e violão, é a definitiva, podem me jogar as pedras (em tempo, aproveito para indicar a soturna versão que ele entrega para "Eleanor Rigby" em Qualquer Coisa. Arrepiante!), e tudo acaba em samba, ou seja, "Escapulário". Quer melhor coisa para representar o Brasil? A partir de então, Caetano começou cada vez mais a frequentar a grande mídia, foi chamado de traidor, chamou o Geraldo Mayrink de burro, começou o relançamento com a Paulinha Lavigne quando ela tinha 13 anos, e ele 40, atravessou os anos 80 virado em polêmicas, e se agigantou nos anos 90 com o lançamento de "Sozinho", tornando-se um ícone amado ou odiado no Brasil e no mundo. Melhor disco desta lista, o último disco verdadeiramente tropicalista do Brasil, e como falei no texto de introdução, um dos melhores discos do país na década de 70, mas por que não, de todos os tempos! Detalhe adicional, a linda capa pintada por Caetano, e censurada pela ditadura militar.

André: A MPB pode te apresentar artistas singulares e excelentes. Mas também tem aquele lado chato, meio soporífero, com letras chatas e sonoridade que me remete ao pessoal intelectualóide das universidades brasileiras. Pois é meus caros, este é o Caetano. O artista mais chato da MPB. Sem ofensas para ti, meu caro Mairon, tirando este disco sua lista foi brilhante, mas é nessas horas que me deu saudades quando você nos fazia ouvir Los Hermanos.

Daniel: Respeito a figura, que possui um secto fiel de seguidores, mas, definitivamente, não é para mim.

Davi: Em 1975, Caetano lançou dois álbuns: Qualquer Coisa e Jóia. A ideia inicial era fazer um álbum duplo. No entanto, achou muito difícil encontrar uma linha condutora, um conceito, entre tantas canções. Por isso, optou por fazer 2 álbuns simples. Um seguindo uma sonoridade mais tradicional, outro trazendo uma pegada mais experimental. Em Jóia, o cantor mescla a delicadeza de seus violões com uma forte experimentação, usando e abusando de repetições e desconstruções. O disco, ainda que não tão difícil quanto Araçá Azul, pode assustar ouvintes mais conservadores. No entanto, quem se aventurar à embarcar nessa viagem musical encontrará grandes canções como "Minha Mulher", "Lua, Lua, Lua, Lua", "Gravidade" e "Na Asa do Vento".  Vale lembrar que, na época, Caetano Veloso teve a capa do LP censurada. A arte original trazia um desenho de Caetano, sua esposa Dedé e seu filho Moreno Veloso nús, o que foi considerado pelos censores uma afronta aos bons costumes. Uma bobagem sem tamanho. A única afronta aqui foi a sofrível versão de "Help!", mas nada que tire o brilho desse que é, sem dúvida nenhuma, um grande clássico da Música Popular Brasileira.

Marcelo: Acho que esse é o maior golaço de todas as listas de ótimos discos lançados em 1975, ano em que Caetano Veloso lançava simultaneamente (em 20 de agosto) Qualquer Coisa e Jóia, dois discos complementares que sintetizam tensões centrais de sua obra no pós-exílio. E se você, roqueiro leitor, está achando que eu, como de praxe, estou dizendo isso porque trata-se de uma obra nacional, ledo engano: o golaço está na escolha do Mairon, já que ele teria a chance de eleger Qualquer Coisa, diamante já lapidado, mas opta por essa pepita valiosíssima de nosso cancioneiro... O Brasil ainda vivia sob o peso da ditadura militar, com a censura atuando de forma sistemática sobre a produção cultural, e esse contexto ajuda a compreender o caráter ambíguo e, ao mesmo tempo contido e libertário, do projeto. Se Qualquer Coisa dialoga com a tradição das canções mais diretas e do violão em primeiro plano, Jóia se impõe como o lado mais experimental, sensorial e ousado dessa parte do díptico que os dois álbuns formam. O caminho até Jóia passa inevitavelmente por Araçá Azul (1973), certamente o trabalho mais radical da carreira de Caetano. Depois desse misto de explosão criativa e grito entalado pós-exílio, Caetano passou dois anos no Rio de Janeiro, equilibrando a vertente experimental com arranjos mais tradicionais, típicos de seus primeiros trabalhos, e então o compositor buscou um novo equilíbrio entre experimentação e comunicação. A ideia inicial de um álbum duplo, inspirada em obras como o White Album, dos Beatles, e Songs in the Key of Life, de Stevie Wonder, foi abandonada por receio de dispersar a escuta. A divisão em dois discos permitiu maior coesão interna e, no caso de Jóia, uma identidade estética mais clara do que no caso de Qualquer coisa. Mesmo sem o radicalismo extremo de Araçá Azul, Jóia segue sendo um disco desafiador. Trata-se de uma obra construída pela justaposição de linguagens: arranjos de cordas, percussões não convencionais, vocalizações livres e referências diretas a matrizes indígenas do Xingu convivem com canções de estrutura relativamente simples. As participações de Gilberto Gil, do Quarteto em Cy e de Djalma Corrêa (responsável pela percussão em várias faixas do álbum e também pela mixagem de algumas delas, sendo um instrumentista de destaque no projeto) ampliam esse espectro sonoro, transformando o álbum em um verdadeiro laboratório musical. Entre as faixas, destacam-se “Minha Mulher”, sustentada pelos violões de Caetano e Gil; “Guá”, marcada pela percussão de inspiração indígena e atmosfera ritualística; “Canto do Povo de um Lugar”, uma das composições mais emblemáticas do disco, pela conexão com a natureza e o coletivo; “Pipoca Moderna”, em que a voz assume função rítmica; a releitura intimista de “Help”, reduzida ao violão; e “Escapulário”, samba baseado em poema de Oswald de Andrade, que reafirma o diálogo constante de Caetano com a tradição modernista em seu aspecto mais emblemático: a ruptura com o clássico, com o canônico. Além da música, Jóia também ficou marcado pela controvérsia em torno de sua capa original, uma pintura sobre fotografia de Caetano nu ao lado de Dedé Veloso e do filho Moreno, censurada à época. O veto gerou polêmica, afetou as vendas e expôs, mais uma vez, os limites impostos pela repressão à liberdade artística naquele momento histórico. Passados cinquenta anos, Jóia permanece como uma obra difícil de enquadrar em rótulos ou períodos específicos. No texto-manifesto que acompanha o disco, Caetano se posiciona “contra aqueles que falam em termos de década e esquecem o minuto e o milênio”, frase que ajuda a explicar a longevidade do álbum. Em meio aos grandes lançamentos de 1975 (basta ver esta série aqui da casa), Jóia segue como um trabalho singular: menos imediato, mais introspectivo, mas profundamente coerente com a ideia de música como experiência sensível, aberta e atemporal. E palmas para a escolha do Mairon, menos óbvia do que a de Qualquer coisa e em sintonia com as experimentações de SBB, Alphonse Mouzon e Esperanto. Meus destaques: “Minhas Mulher”, “Guá”, “Gravidade” e “Canto do Povo de um Lugar”. A gema escondida: “Help”, desconstruída até o seu mínimo acorde. A outra gema mais escondida ainda: “Pipoca Moderna”: aqui é coisa de gênio, de gênios! Em 1972, Gilberto Gil grava em seu Expresso 2222 essa música, que é uma melodia de Sebastião Biano, da Banda de Pífanos de Caruaru (que toca na gravação). Aí vem o Caetano Veloso 3 anos depois e escreve a letra para a melodia de Biano, uma verdadeira maravilha da poesia modernista oriunda de Oswald de Andrade e totalmente tributária do concretismo dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari. Ela, sozinha, já vale a inclusão do disco nesta lista.

Marcello: Caetano Veloso andava inspirado em 1975, pois além deste disco, ele lançou Qualquer Coisa simultaneamente. Ele parecia estar ouvindo muito os Beatles, pois neste regravou “Help”, e no outro, mais três músicas (até as capas aludem aos rapazes de Liverpool: Joia lembra Unfinished Music vol. 1: Two Virgins, de John e Yoko, e a outra foi baseada em Let it Be). O disco começa muito bem com a bela “Minha Mulher” (com Caetano e Gilberto Gil nos violões), tendo na sequência “Guá” (com os preciosos vocais do Quarteto em Cy), com Caetano brincando com a sonoridade das palavras e boa percussão de Djalma Corrêa; a versão para “Help” (gravada como balada, como Lennon queria originalmente) e “Na Asa do Vento”, ambas levadas por Caetano só na voz e violão, são, para mim, as melhores músicas. Os experimentos de “Lua, Lua, Lua, Lua” e “Gravidade” (apesar da letra repetitiva) também funcionam bem, e outras músicas legais são “Canto de Povo de Um Lugar” e “Pipoca Moderna”. Por outro lado, “Pelos Olhos”, “Asa” e “Tudo Tudo Tudo” não me atraíram. Tudo se acaba com “Escapulário”, poema de Oswald de Andrade cantado com acompanhamento de percussão e o vocal de As Gatas. Admito que fui ouvir o álbum com um pé atrás, pois não sou fã de Caetano e comentários que li não eram muito elogiosos, mas Jóia saiu-se melhor do que o que esperava na minha avaliação.

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