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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

The Yardbirds - The Very Best Of The Yardbirds [1991]



Coletâneas sempre são difíceis, para mim, de poder dar uma descrição. Afinal,  a gravadora que resolve investir a mídia para ganhar alguns vinténs em cima de determinado artista geralmente gosta de trazer os grandes sucessos, ou, se o lançamento é focado para um determinado país, com faixas que fizeram sucesso somente lá. Dificilmente irá adentrar em canções mais desconhecidas ou raridades, principalmente se for um Best of ou Greatest Hits. Imagine então um The Very Best Of???

Bom, esse não é o caso no The Very Best Of The Yardbirds (Featuring Eric Clapton, Jeff Beck & Jimmy Page), lançado pelo selo Music Club em 1991 somente na Inglaterra. Como o complemento do nome já diz, o álbum possui a intenção de apresentar aos fãs um apanhado da passagem de três dos maiores guitarristas da história pela banda mais importante da história, só que não é bem assim. O breve encarte, de apenas duas páginas, já traz a rasgação de seda para Clapton e Beck, e trata com certo desprezo a passagem de Page pela banda, criticando fortemente o disco Little Games (1967) e dando uma espécie de "graças a Deus" pelo álbum não se fazer presente no lançamento.

Keith Relf, Eric Clapton, Jim McCarty, Chris Dreja e Paul Samwell-Smith. Yardbirds em 1965

O foco são os discos com Clapton (a saber Five Live Yardbirds e For Your Love) e Beck (Having A Rave Up With The Yardbirds e Yardbirds, também conhecido como Over, Under, Sideways, Down  ou Roger the Engineer), e como são poucos álbuns, a coletânea se torna então um belo aperitivo para se mergulhar em uma obra tão importante e relevante.

A fase Clapton é a mais bem representada. Aqui estão "A Certain Girl", "Boom Boom", "For Your Love", "Good Morning Little School Girl", "Heart Full Of Soul" e "I Wish You Would". É a fase "adolescente" dos britânicos, voltados para o rhythm 'n' blues, e que fez o Deus da Guitarra Clapton pedir o boné devido ao sucesso de "Good Morning Little School Girl". Ao ouvir essas faixas, o mais legal de tudo, além da jovialidade do quinteto formado por Clapton, Keith Relf (vocais, harmônica), Cris Dreja (guitarra base), Paul Samwell-Smith (baixo) e Jim McCarty (bateria), é que aqueles solos inspirados de Clapton nas épocas de Cream, Derek and the Dominoes, Blind Faith, ..., já começavam a ser moldados lá no distante 1965. As letras juvenis de "A Certain Girl", "Boom Boom", a citada "Good Morning Little School Girl" e "I Wish You Would" causam uma risada gostosa, e musicalmente, é bom ouvir um rock simples e bem tocado de vez em quando. Destaque maior para "Heart Full Of Soul", com um riff certeiro e um solo simples mas que levanta defunto.

Paul Samwell-Smith, Chris Dreja, Jeff Beck, Keith Relf e Jim McCarty. Yardbirds em 1966


Já com Beck, começam as explorações musicais que marcaram a segunda fase do grupo, através de canções próprias e praticamente um afastamento do rhythm 'n' blues, que está presente apenas no pop "I'm Not Talking". Dessa fase temosos cantos gregorianos de "Still I'm Sad", composta por McCarty e Samwell (dando um aperitivo do que viria a ser o Renaissance três anos depois) e os mega sucessos "You're A Better Man Than I" e "Shapes Of Things", essa última regravada posteriormente pelo próprio Beck no seu álbum de estreia em carreira solo, Truth (1968), com uma magistral interpretação vocal de Rod Stewart. Além disso, faz mais um riff e solo marcante em "Evil Hearted You", e cria sua primeira obra-prima, o boogie "Jeff's Blues". Fechando a fase Beck, "New York City Blues" (intitulada apenas "New York City"), a canção mais obscura do lançamento, já que saiu apenas como lado B do compacto de "Shapes of Things", e a revisitação ao blues de "I'm A Man".

Temos então um pequeno atrativo, que é essa raridade de "New York City Blues", mas ainda há mais. A reta final do CD conta com sete faixas registradas ao vivo. O encarte menciona que elas fazem parte originalmente de Five Live Yardbirds, mas não é a realidade. As faixas são: "Pretty Girl", "Respectable", "Smokestack Lighting", "Too Much Monkey Business", "Let It Rock", "You Can't Judge A Book By Its Cover" e "Who Do You Love". Dessas, as quatro primeiras somente fazem parte de Five Live Yardbirds. As demais só foram aparecer de forma oficial no raro London 1963 - The First Recordings! (1981) e no relançamento desse álbum em 2003. Ou seja, ao levar essa coletânea para casa, além de ter um belo apanhado do melhor dos Yardbirds, irá também levar algumas raridades relativas a banda, principalmente relacionadas a essa apresentação no Craw Daddy, em 1963, que acabou culminando em canções de Five Live e também de Sonny Boy Williamson & The Yardbirds (1965).

Jim McCarty, Chris Dreja, Keith Relf e Jimmy Page. Yardbirds em 1967

Encerrando o track list, uma única canção com Page, batizada de "Stroll On", na qual é possível perceber também que o gigantes que conquistou ao mundo com o Led Zeppelin já estava bem vitaminado e pronto para fazer sucesso junto aos The Yardbirds. The Very Best Of The Yardbirds é passível de ser interpretada como um belo caça-níqueis, mas vou além. Para quem não conhece a obra da (repito) banda mais importante de todos os tempos, é um disco quase que essencial.

Parte traseira do encarte

Track list


1 For Your Love
2 Heart Full Of Soul
3 Good Morning Little School Girl
4 Still I'm Sad
5 Evil Hearted You
6 A Certain Girl
7 Jeff's Blues
8 I Wish You Would
9 New York City
10 I'm Not Talking
11 You're A Better Man Than I
12 Shapes Of Things
13 I'm A Man
14 Boom Boom
15 Smokestack Lighting (Live)
16 Let It Rock (Live)
17 You Can't Judge A Book By Its Cover (Live)
18 Who Do You Love (Live)
19 Too Much Monkey Business (Live)
20 Respectable (Live)
21 Pretty Girl (Live)
22 Stroll On

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Cinco Discos Para Conhecer Keith Relf


Um injustiçado. Assim podemos definir Keith Relf. Afinal, ele foi um dos fundadores de duas das maiores bandas do rock mundial, e foi responsável pela criação de um gigante dos anos 70, o Led Zeppelin. Do blues ao progressivo, passando pelo hard setentista, psicodelia, soul e tantos outros estilos, Keith teve uma carreira escondida por detrás de seus famosos ex-companheiros de Yardbirds (Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page), mas deixou, em sua breve carreira musical, discos fantásticos e merecedores de audições intermináveis. Esses são apenas cinco de diversos discos para conhecer um genial músico

Yardbirds - For Your Love [1965]

O primeiro disco de estúdio do Yardbirds é uma coletânea de singles lançados apenas nos Estados Unidos e outros lançados na Europa. Na época, o grupo estava sofrendo uma transição nas guitarras, com Jeff Beck substituindo Eric Clapton, mas o blues-pop do grupo já estava sacramentado. A maioria das canções são versões dançantes para clássicos de outros artistas, como "For Your Love", "I'm Not Talking", "I Ain't Got You" e "A Certain Girl", nas quais Keith além de cantar muito, solta o fôlego em passagens da harmônica que marcaram época. Keith ainda cômpos a obra-prima "I ain't Done Wrong", além de ajudar nas experimentações de "Sweet Music". O maior sucesso do LP ficou por conta da bonitinha "Good Morning Little Scholgirl", famosa por ser o primeiro hit da carreira de Clapton. O Yardbirds ainda se formava como banda, mas apesar de jovens, o potencial criativo e bluseiro dos cinco meninos é essencial em qualquer sala de boa música.

Keith Relf (vocals, harmônica), Eric Clapton (guitarras), Chris Dreja (guitarras), Paul Samwll-Smith (baixo, vocais), Jim McCarty (bateria), Jeff Beck (guitarra em 2, 6 e 11).

Participações especiais


Brian Auger (harpsichord em 1)
Denny Pierce (bongos em 1)
Ron Prentice (baixo acústico em 1)
Giorgio Gomelsky (backing vocals em 8)
John Paul Jones (backing vocals em 9)
Manfred Mann (teclados em 9)
Mike Hugg (vibes em 9)
Tom McGuinness (guitarra em 9)
Mike Vickers (guitarra em 9)


1. For Your Love
2. I'm Not Talking
3. Putty in Your Hands
4. I Ain't Got You
5. Got to Hurry
6. I ain't done Wrong
7. I Wish You Would
8. A Certain Girl
9. Sweet Music
10. Good Morning Little Schoolgirl
11. My Girl Sloopy

Yardbirds - Little Games [1967]

Alguns podem pensar: "Mas como Roger: The Engineer não está nessa lista?". Acabo excluindo essa discaço por que ele é muito mais importante para a carreira de Jeff Beck, e não de Keith Relf. Mas em Little Games, Relf mostra toda sua genialidade. O Yardbirds muda de estilo, assume o psicodelismo e lança talvez (polêmica) o melhor disco de 1967. Com a entrada de Jimmy Page nas guitarras, a lisergia rola solta, e as experimentações ampliam-se como formigas em um formigueiro. O agito da faixa-título é um aparte, pois o que predomina é a psicodelia alucinógena, como em "Smile On Me" e "Glimpses". O bluesão "Drinking Muddy Water" é desconcertante pela pegada de todos os membros. Muitos conhecem "White Summer", a faixa solo de Page que ele apresentava nos shows do Led Zeppelin, mas Little Games não é exclusivo de Page. Com apenas dois covers ("Little Games" e "No Excess Baggage"), o maior destaque fica para uma canção exclusiva de Relf, a linda "Only the Black Rose", indicando os rumos progressivos que ele iria tomar dois anos depois.

Keith Relf (vocals, harmônica, percussão), Jimmy Page (guitarras), Chris Dreja (baixo), Jim McCarty (bateria, backing vocals)

Participações Especiais

Nicky Hopkins (teclados)
Clem Cattini (bateria)
John Paul Jones (baixo e violoncelo em 1)

1. Little Games
2. Smile On Me
3. White Summer
4. Tinker, Tailor, Soldier, Sailor
5. Glimpses
6. Drinking Muddy Water
7. No Excess Baggage
8. Stealing Stealing
9. Only the Black Rose
10. Little Soldier Boy

Renaissance - Renaissance [1969]

Fugindo do pop beat, e também da psicodelia apresentada no Yardbirds, Relf funda o Renaissance. Misturando música erudita com rock, agregou na banda sua irmã, Jane Relf, o ex-colega Jim McCarthy e os ótimos Louis Cennamo e John Hawken, e criou um novo estilo dentro do rock progressivo, parindo umas das melhores criações no estilo. E Relf também muda seu estilo de cantar, como em "Innocence", na qual piano, baixo e bateria fazem uma base densa e envolvente. Além disso, o vocalista demonstra talento na guitarra, fazendo interessantes passagens em "Island" e na própria "Innocence". "Wanderer" possui uma belíssima sessão instrumental, e é a principal canção de Jane no álbum. A espetacular "Kings & Queens", com piano e baixo fazendo a base para os vocais de Relf, é a melhor amostra do som que o Renaissance consagrou com Annie Haslam nos vocais, com uma cadência singela e emocionante. E os delírios de "Bullet", com Relf sugando a harmônica como nos velhos tempos de Yardbirds, complementam um álbum importantíssimo para o rock progressivo. 


Keith Relf (vocals, guitarra, harmônica), Jim McCarty (bateria, vocals), John Hawken (piano, harpsichord), Louis Cennamo (baixo), Jane Relf (vocals, percussão)

1. Kings and Queens
2. Innocence
3. Island
4. Wanderer
5. Bullet"

Medicine Head - Dark Side of the Moon [1972]

Brigas internas, mudanças na formação, a Renaissance seguiu seus rumos, e Relf tocou seu barco. Depois de uma tentativa frustrada de seguir carreira solo, e de mergulhar como produtor de discos (destacando o álbum Magical Love, do grupo Saturnalia, o primeiro a ser lançado com um picture disc em 3D), Relf foi convidado para fazer as linhas de baixo do Medicinhe Head, do qual já havia produzido alguns singles, e completando o trio ao lado do guitarrista John Fiddler e da bateria  competente de John Davies. O disco abre com a pegada "Back to the Wall", mas divide-se em algumas baladas hard ("In Your Eyes", "You and Me" e "On This Road"), canções flower-power ("Sittin' in the Sun" e "Only To do What is True") e o hard de "You Can Make it Here". A melhor faixa é a pesada "Kum On", com Fiddler pisoteando o wah-wah como manda o figurino tradicional do hard rock. Um disco que, se não é fundamental, apresenta uma faceta diferente do loiro vocalista (agora baixista) britânico.

John Fiddler (vocals, guitarra, piano), Keith Relf (baixo, guitarras), John Davies (bateria). 
1. Back To The Wall
2. In Your Eyes
3. Sittin' In The Sun
4. On This Road
5. You And Me 
6. Kum On
7. Only To Do What Is True
8. You Can Make It Here

Armageddon - Armageddon [1975]

O último lançamento com a voz de Relf é simplesmente o melhor de sua carreira. Armageddon faz parte de uma trilogia rara e essencial dentro do hard 70 (ao lado de Captain Beyond e Warhorse, dos grupos de mesmo nome). Este único registro do grupo é um petardo direto, de um dos melhores álbuns da história. Nele, os ingredientes característicos do estilo são apresentados. Melodia e harmonização ("Silver Tightrope"), agito de balançar a cabeça ("Paths and Planes and Future Gains") e peso ("Last Stand Before"). Ouvir os quinze minutos de "Basking in the White of the Midnight Sun" é ter a certeza de uma viagem enlouquecedora entre acordes rasgados e riffs pegajosos. O auge do álbum é "Buzzard", com a guitarra de Martin Pugh fervilhando notas e Relf mandando tudo para o espaço, cantando furiosamente e soltando sua raiva contra tudo e contra todos. Uma fantástica despedida para os fãs, já que Relf faleceu meses depois, no dia 14 de maio de 1976, eletrocutado por sua guitarra enquanto fazia sessões de ensaio para o seu primeiro álbum solo! Uma grande perda para a música, mas com um legado rico e original em sua Discografia.

Keith Relf (vocals, guitarra, harmônica, percussão), Martin Pugh (guitarras), Louis Cennamo (baixo, vocals), Bobby Caldwell (bateria)

1. Buzzard
2. Silver Tightrope
3. Paths and Planes and Future Gains
4. Last Stand Before
5. Basking in the White of the Midnight Sun


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Podcast Collector's Room #29


O podcast desta semana apresentará a você grandes nomes do metal interpretando clássicos do rock, bloco de discos injustiçados, bloco de obscuridades e uma homenagem especial no artista da semana, levando você para uma viagem no maravilhoso mundo dos discos.

Para ouvir, clique aqui

Ouça no volume máximo!

Track list Podcast Collectors Room # 29



Yngwie Malmsteen / Tim "Ripper" Owens - Mr. Crowley
Álbum: Bat Head Soup - A Tribute to Ozzy (2000)

Slash / Roger Daltrey - No More Mr. Nice Guy
Álbum: Guitar Gods - The Classic Rock Anthems (2006)

Montserrat Caballet / Bruce Dickinson - Bohemian Rhapsody
Álbum: Friends For Life (1997)

Queen - Cool Cat
Álbum: Hot Space (1982)

Grand Funk Railroad - Genevieve
Álbum: Born To Die (1976)

Trapeze - Suicide
Álbum: Trapeze (1969)

Kiss - Under The Rose
Álbum: Music from The Elder (1981)

Iron Maiden - God of Darkness
Álbum: Maiden Voyage (1969)

Possessed - Love That You Gave
Álbum: Exploration (1971)

Nirvana - You Are Just the One
Álbum: The Story of Simon Simopath (1967)

Skid Row - New Faces, Old Places
Álbum: Live and On Song (2006)

Armaggedon - Buzzard
Álbum: Armageddon (1975)

Renaissance - Islands
Álbum: Renaissance (1969)

Yardbirds - Only the Black Rose
Álbum: Little Games (1967)

segunda-feira, 15 de março de 2010

A primeira geração da Renaissance



Em uma das primeiras matérias que fiz aqui para o blog, narrei um pouco sobre a história de uma das grandes bandas do hard setentista, a Armageddon, que tinha como líder e mentor o vocalista e gaitista Keith Relf. Agora, irei contar sobre o segunda grande grupo que Keith formou em sua carreira, uma das mais diferentes e belas bandas de todos os tempos, a Renaissance.

Voltamos então a 1968. Após a longa turnê de divulgação do espetacular álbum Little Games (um dos melhores discos de todos os tempos), que trazia como novidade Jimmy Page capitaneando as guitarras do Yardbirds, o grupo resolveu se dissolver, principalmente pelos excessos e longos períodos na estrada (em cinco anos a banda havia feito mais de 2.000 shows!), bem como diferenças musicais que surgiam entre Page (influenciado pela psicodelia) e Relf (influenciado pela folk music). Page assumiu a batuta com o nome de New Yardbirds, mudando a alcunha do grupo depoos para Led Zeppelin, e o resto todo mundo sabe.

Chris Dreja (baixo) foi trabalhar com fotografia, e coube a Keith Relf (vocal, gaita) e Jim McCarty (bateria, voz) seguirem seus caminhos. Keith e McCarty montaram o duo Together, com Keith tocando guitarra e violão, mas que não durou mais do que dois singles. A ideia do Together era misturar folk music com blues, mas em um duo isso não fechava bem. Foi então que decidiram expandir os horizontes, e, assim, ampliar a banda.

Em janeiro de 1969 Keith e McCarty passaram a buscar pessoas que estivessem interessadas em criar um grupo diferente do que estava sendo divulgado na época, sem as guitarras pesadas de bandas como o Led Zeppelin, The Who ou Jimi Hendrix Experience, e tampouco a psicodelia de São Francisco. O que eles queriam era mostrar que outras vertentes da música também deveriam fazer parte do ambiente musical das pessoas, como a música clássica e a folk music.

Keith chamou sua irmã, Jane Relf, para fazer as vozes junto com ele, no estilo Simon & Garfunkel, e também o excelente baixista Louis Cennamo para fazer as linhas folk. Cennamo tinha uma clara influência de música clássica, e isso agradou Keith. Através de Cennamo, a banda marca ensaios com John Hawken (piano, harpsichord), que havia tocado no The Nashville Teens. A forte influência clássica que Hawken possuía, aliada com a de Cennamo, fecharam com o que Keith e McCarty queriam, ou seja, algo realmente inovador.

Então, o Together mudou de nome e, em comum acordo, adotaram a alcunha de Renaissance, uma clara alusão ao período renascentista, mostrando no nome o que aquele grupo apresentaria para o público.

Em maio de 1969 o Renaissance fez seu primeiro show. Os fãs de Yardbirds se surpreenderam com o que viram e ouviram. Keith, usando uma vasta cabeleira e também uma longa barba, não era mais o garoto loiro que gritava em frente aos microfones, enquanto que McCarty assumia uma postura bem mais técnica. A sonoridade mostrada era algo incomum, quase sem guitarras e com muitas passagens clássicas e calmas, totalmente diferente da pauleira sonora que fluía na Inglaterra do final dos anos 60.

A sequência de shows rapidamente levou a Renaissance a ser divulgada pelo boca-a-boca como uma das bandas mais interessantes de se assistir. Assinam um contrato com a Island Records na Inglaterra e com a Elektra nos EUA, e com a produção do também ex-Yardbirds Paul Samwell-Smith lançam o primeiro e fantástico álbum, Renaissance, em meados de 1969. Em suas notas, a ideia principal da banda: letras e música compostas por Keith e McCarty, adoradas por partes clássicas compostas por Hawken e Cennamo.



O disco abre com a espetacular "Kings & Queens", com piano e baixo executando o complicado tema clássico e mostrando o que a banda vinha fazer, entrando em um clima oriental com percussão, piano e guitarra. McCarty faz a batida da canção, acompanhado pelo baixo e guitarra, enquanto o piano sola. O clima oriental apresenta as tradicionais linhas vocais de Keith, e o refrão é bem interessante, com um ritmo diferente da canção.

A segunda parte da letra apresenta vocalizações feitas por Jane e McCarty, levando a um tema feito apenas por Cennamo, duelando com o piano e tendo ao fundo vocalizações de Jane. O clima muda novamente, ganhando peso e uma sensação de apreensão, onde Hawken começa uma bela sessão instrumental, sempre seguido por baixo e bateria, retornando ao início da canção, com o refrão e um tímido solo de guitarra. No encerramento, o destaque vai para as belas vocalizações de Jane sob camadas de piano, baixo e percussão.

O lado A segue com "Innocence", onde a marcação no cymbal é seguida por notas de baixo e harpsichord. O piano, acompanhado por uma levada bem típica do final dos anos 60, é a base para os vocais de Keith, com intervenções de Jane. Hawken é o grande destaque, fazendo um belo solo no piano e que mostra a ideia da Renaissance: piano, baixo e bateria executando o mesmo tema, e a guitarra sendo apenas mais um instrumento. O lindo tema clássico de Hawken, acompanhado apenas pelo baixo, é o diferencial em relação à música que se fazia na época. Temos novamente o tema inicial, uma rápida participação de Keith na guitarra e o encerramento do lado A de forma calma e serena.

"Island" abre o lado B com o piano introduzindo a canção. Keith faz acordes na guitarra, seguido por bateria e baixo. Finalmente conhecemos Jane como cantora. Apesar de não ter um agudo muito longo e potente, sua voz encanta, e ganha força no refrão, onde Keith canta junto. A partir de então, a canção se desenvolve em um encatador clima rural, com os irmãos cantando em volta do piano enquanto McCarty e Louis cozinham a base para a bela letra de Keith ser interpretada, com direito a uma empolgante sessão clássica de Hawken, Cennamo e McCarty

A linda "Wanderer", composta por Hawken e McCarty, traz uma bela sessão instrumental com um fantástico tema construído por Hawken e Cennamo. McCarty apenas acompanha com batidas simples, mas o que empolga são os duelos de piano/baixo e piano/harpsichord, como que saídos de um castelo medieval. Os vocais de Jane surgem acompanhados pelo harpsichord, cymbal e baixo. A canção segue como um tradicional boureé, repetindo a letra enquanto Hawken e Cennamo travam mais uma linda batalha com temas clássicos.

O disco encerra com a viajante "Bullet". Percussão e acordes graves de piano lembram uma marcha de exército. Baixo e piano começam a duelar, com Hawken puxando o tema principal, seguido por baixo, guitarra e bateria. Um ritmo suingado aparece, com todos fazendo vocalizações para Keith soltar a voz. A gaita de boca de Relf surge, relembrando os tempos de Yardbirds e encaixando perfeitamente na suingueira criada por Hawken, Cennamo e McCarty.


A segunda parte é mais viajante, com um clima assustador construído pelo trio acima, delirando em um quase free jazz. Cennamo impressiona solando sozinho e utilizando da técnica de vibrato de oitavas. Depois de destruir o baixo, a psicodelia entra de vez, com vocalizações e efeitos que parecem ter influenciado o Pink Floyd para as viajantes sessões de "Echoes" (do álbum Meddle). Aqui, essas sessões são mais arrepiantes e sombrias (ouça este trecho com a luz apagada em um dia ventoso e entenda o que quero dizer), com um vento surgindo entre os acordes de piano e baixo como que varrendo tudo o que vê pela frente, encerrando a canção do nada, e ficando aquele pensamento de "acabou?".

Do álbum foi extraído o single editado de "Island" (sem o tema clássico de encerramento), tendo como lado B a inédita "The Sea". O valor da bolachinha é elevadíssimo nos dias de hoje. Além disso, o álbum foi lançado com capas diferentes nos EUA e no resto do mundo. Enquanto a versão mundial traz uma bela ilustração de Gennison chamada The Downfall of Icarus, a versão americana tem apenas uma foto do grupo.

Em 1998 a gravadora inglesa Mooncrest Records relançou esse disco com o nome de Innocence, trazendo seis faixas bônus, incluindo as citadas acima, bem como "Shining Where the Sun Has Been", uma demo da fase do Together gravada em 1968: "Prayer For Light" e "Walking Away", duas faixas gravadas pós-primeira geração por Keith e McCarty para a trilha não realizada do filme Schizom, de 1971; e a despedida de Keith para os humanos, "All the Fallen Angels", gravada por ele sozinho em sua casa no ano de 1976 dias antes de falecer em um trágico choque elétrico enquanto tocava guitarra.

Após o lançamento, o grupo partiu para uma turnê de divulgação do álbum na Europa. Porém, McCarty decidiu deixar o grupo, alegando cansaço e medo de viajar de avião, preferindo então se ausentar da música. Ele foi substituído por Terry Slade, e assim a banda tocou nos festivais Amougies (Bélgica) e Operation 666 e Le Bourget (França), passando também por Itália, Alemanha, Inglaterra e Escócia.

Em fevereiro de 1970 partem para uma tour nos EUA, onde, devido à ligação de Keith com o Yardbirds, acabaram se apresentando ao lado de bandas como o The Kinks, o que não combinava em nada com o som do Renaissance, e assim a tour americana não foi bem sucedida. Isso afetou os ânimos do grupo, que começou então a ter problemas internos durante as gravações do segundo álbum. Keith decidiu simplesmente parar de tocar, enquanto Cennamo juntou-se ao pessoal do Colosseum, onde não ficou por muito tempo, gravando apenas o álbum Daughter of Time (1970). Resultado: Hawken ficou sozinho junto com Jane, com a responsabilidade de terminar o segundo álbum e manter os contratos com a Island.

Para isso então acabou juntando forças com ex-companheiros do The Nashville Teens - a saber: Michael Dunford (violões, guitarras) e Terry Crowe (vocais) -, bem como Neil Korner (baixo), que havia tocado no The New Vaudeville Band. Essa formação é a responsável por terminar o segundo álbum e fazer alguns shows de divulgação. Sem conseguir completar o disco, os antigos membros, com a exceção de Hawken, reuniram-se para gravar apenas uma música e, finalmente, o álbum Illusion foi lançado em 1971, mas somente na Alemanha, onde a fama do Renaissance era muito grande.

O disco é uma mescla de sobras de estúdio do primeiro trabalho com gravações feitas pela banda após a saída de McCarty, começando com a balada "Love Goes On", onde violão e vocalizações cantando o nome da canção são repetidos com um leve acompanhamento do trio bateria, piano e baixo. A canção muda o ritmo, ganhando pegada quando Jane começa a cantar. O tema inicial é retomado, encerrando a primeira faixa.



A líndissima "Golden Thread" vem a seguir, com piano e baixo exectuando o mesmo tema, para Hawken solar seguido pela guitarra limpa de Keith e o baixo de Cennamo. Hawken e Cennamo voltam a duelar, e então a marcação de bateria surge, trazendo vocalizações de Jane para acompanhar as notas de piano, baixo e guitarra. O ritmo muda, com vocalizações de Keith e Jane em um belo tema de Hawken. Keith canta acompanhado pelas suaves vocalizações de Jane. Os temas clássicos, seguidos de vocalizações, encerram essa linda canção de maneira triste e saudosa.



"Love is All" é uma das músicas mais importantes da carreira da banda, pois é nela que conhecemos pela primeira vez as letras da escritora Betty Thatcher, a qual foi muito importante para consolidar a segunda geração do Renaissance. Thatcher era amiga de Jane, e suas poesias agradaram em cheio Keith e McCarty, que concordaram com a participação dela em algumas canções. Em "Love is All" o piano clássico introduz a canção, seguido por Cennamo e McCarty, que acompanham os vocais de Keith. O refrão é simples, apenas repetindo o título da faixa. Keith canta a segunda parte da letra e mais uma vez temos o refrão. O encerramento ocorre com o refrão e uma participação quase escondida da guitarra de Keith.



Essas três canções foram registradas com a primeira formação da banda, e o Lado A encerra com uma gravação feita pela terceira formação (já sem Keith e Cennamo e contando com o pessoal do The Nashville Teens) chamada "MrPine", outra importantíssima canção por ser a primeira composição de Dunford para o grupo. Harpsichord, baixo e percussão nos levam novamente ao período renascentista. Os vocais de Crowe e Jane aparecem ora juntos, ora separados, para entrar na segunda parte, onde o órgão é o principal instrumento, executando o maravilhoso tema que seria repetido posteriormente em "Running Hard", do álbum Turn of the Cards. Dunford muda o ritmo da canção, com uma base dançante recheada de percussão, onde Hawken sola ao órgão enquanto Jane e Crowe dividem os vocais, alternando com frases cantadas apenas por Crowe. Dunford faz um pequeno solo de guitarra, e o clima renascentista da introdução retorna, com o harpsichord, baixo, percussão e as vozes de Jane e Crowe encerrando o lado A.



O lado B abre com a magistral "Face of Yesterday", onde piano e baixo resgatam os temas do primeiro álbum, com outro bonito arranjo clássico. Os vocais de Jane são acompanhados apenas pelo piano, baixo e notas de guitarra, em uma das mais belas canções da carreira do grupo, gravada aqui pela formação original.




O disco encerra com "Past Orbits of Dust", outra composição de McCarty e Thatcher e que contou ainda com a colaboração de Keith. Essa faixa é a que foi gravada pelos membros originais sem Hawken, que foi substituído pelo pianista Don Shin. A introdução de baixo e bateria traz o piano elétrico e as vozes de Jane e Keith. A sequência é interessantíssima, com crescendos que lembram o que o King Crimson faria posteriormente em Three of a Perfect Pair. Após essa primeira parte, uma sessão jazzística é apresentada para ser a base dos vocais de Jane, com solos de Shin e Keith. Percussões tocadas por Jane surgem para acompanhar o delírio do piano e do baixo, ganhando espaço para um rápido solo ao lado de McCarty e retornando ao tema inicial. O tema jazzístico surge novamente, com Shin mandando ver em um embalado solo. A canção, e o álbum, encerram-se com Cennamo solando envolto de intervenções suaves de Shin em uma das mais viajantes canções do grupo.

Assim como o primeiro disco, Illusion teve duas capas diferentes, uma trazendo um menino caminhando sobre uma faixa de estrada no meio do universo (que é a mais conhecida) e outra com o ancião parado sobre um planeta (que é a contra-capa da primeira versão) e que foi lançada somente na Inglaterra. Ambas as ilustrações foram feitas por Paul Whitehead, famoso pelas capas de álbuns como Nursery Crimes, Seeling England by the Pounds e Foxtrot (Genesis), além de outras bandas da Charisma Records, como Van der Graaf Generator (Pawn Hearts, H to He, Who Am the Only One) e Le Orme (Smogmagica).

Após o lançamento na Alemanha - sendo que o disco só foi lançado na Inglaterra em 1976 devido a problemas contratuais entre os integrantes, que será explicado melhor na próxima edição -, os dois últimos remanescentes da formação original abandonam o grupo no outono de 1970. Jane foi substituída pela cantora Marie-Louise "Binky" Cullom, enquanto Hawken foi parar no Spooky Tooth, sendo substituído por outro virtuose no piano, John Tout.

Essa formação fez alguns shows mas também não durou muito tempo. Keith e McCarty permaneceram ligados ao Renaissance durante algum tempo, não como músicos, mas como managers da banda, com Keith trabalhando como produtor e McCarty como letrista. A partir de então, tentando manter o nome do Renaissance na ativa, bem como a ideia inicial, partem em busca de uma nova formação, ouvindo diversas pessoas, ao mesmo tempo que começam a se deliciar com as composições de Dunford e as poesias de Thatcher.

Durante o ano de 1971, com a ajuda de Keith, McCarty e de Miles Copeland, reorganizam a banda, contando agora com Dunford, Tout, Crowe, Korner e uma nova vocalista, a espetacular Annie Haslam. A partir de então, ainda naquele ano, vários outros membros passaram pelo baixo, como John Wetton, Frank Farre, Danny McCulloch e, finalmente, Jon Camp. Crowe foi despedido e finalmente o Renaissance chegava a sua segunda geração, tendo Dunford se concentrando nas composições (ao lado de Thatcher) e o guitarrista Mick Parsons assumindo o posto das seis cordas, além de Terence Sullivan na bateria.




Essa formação durou alguns meses, pois Parsons acabou falecendo em um trágico acidente de carro. Mesmo assim ele deixou seu registro no maravilhoso primeiro álbum da segunda geração, Prologue, lançado em 1972 (confiram a faixa "Rajah Khan"). O grupo seguiu como quarteto e fez então sua fama lançando álbuns essenciais como Ashes Are Burning (1973), Turn of the Cards (1974), Scheherazade and Other Stories (1975) e Novella (1977), virando um trio (sem Sullivan) e encerrando as atividades em 1983.

Enquanto isso, dos membros originais, Cennamo saiu do Colosseum e montou o Steamhammer, com quem lançou o álbum Speech em 1972. Posteriormente, reencontrou Keith no Armageddon, lançando um dos melhos álbuns da década de setenta. McCarty seguiu trabalhando com o Renaissance durante alguns anos, ao mesmo tempo que formou o grupo Shoot, em 1973.

Já Jane e Hawken saíram de cena por algum tempo, até que em 1977 reaparecem na mídia com uma nova banda, como veremos na próxima edição.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Keith Relf e o Armageddon

 
Um dos maiores gênios da música britânica e que é pouco reconhecido entre os ditos "conhecedores de música" é o vocalista Keith Relf. Keith nasceu no ano de 1943, e aos 19 anos se uniu a Eric Clapton (guitarra), Jim McCarty (guitarra), Chris Dreja (baixo) e Paul Samwell Smith (bateria) para formar aquela que seria a maior banda da década de 60, os Yardbirds (digo maior por que os Yardbirds foram o único grupo que conheço a revelar três grandes guitarristas do nível de Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page). Os Yardbirds fizeram muito sucesso, principalmente após a entrada de Beck, mas a banda acabou em 1968, sendo que Jimmy Page seguiu como New Yardbirds e o resto da história até minha vó conhece.

Após sair dos Yarbirds, Relf decidiu que a vida louca que estava levando em seu antigo grupo não era exatamente o que ele queria seguir dali em diante (os Yardbirds acabaram, entre outros fatores, pelo abuso de álcool dos integrantes e também por consumir muito mais do que ganhavam, sendo que a banda passou a "viajar" muito nas músicas, fugindo do estilo inicial, que era basicamente aquele rhythm and blues tradicional). Nesse ponto, levou junto Jim McCarthy, que era o último baterista dos Yardbirds, formando o duo Together, que não durou muito tempo. 
Steamhammer

Com sua irmã, Jane Relf (vocais), mais McCarthy, Louis Cennamo (baixo) e John Hawken (piano), Relf assumiu seu lado guitarrista e formou a Renaissance (mesma banda que posteriormente viria a se tornar mundialmente conhecida com a vocalista Annie Haslam nos vocais). No Renaissance a idéia de Relf era simples: unir a música clássica com alguns elementos de rock (ou seja, progressivo na veia), permitindo, dessa forma, fazer com que Relf abrisse seu leque de experimentações sem ser comparado ao rock cru dos anos 60, afinal a evolução faz parte da vida de todo músico. O Renaissance de Relf durou até o segundo disco. Brigas internas fizeram com que apenas um integrante (o violonista Michael Dunfrod, que acabou entrando no segundo álbum da banda) seguisse com o nome Renaissance, e o resto da história minha vó não conhece, mas conto em alguns meses. 

Os demais integrantes (menos Keith) formariam a Illusion anos depois, e Keith ficou na berlinda. Desiludido com a música, isolou-se do mundo, mas em 1974 uma luz surgiu no fim do túnel. A última cartada podia ser dada. Anos antes (1972), Keith havia participado como convidado da banda de blues rock Steamhammer, onde tocava seu ex-colega de Renaissance Louis Cennamo. Na Steamhammer estava o guitarrista Martin Pugh e, ainda em 1972, a banda terminou devido a morte de seu baterista, Michael Bradley. Com isso, Pugh e Cennamo estavam na berlinda juntos, e decidiram mudar-se para Los Angeles, exatamente a cidade onde Relf vivia. 

Em 74, os três decidiram voltar a tocar juntos, e convidaram nada mais nada menos que o ex-baterista da Captain Beyond, Bobby Caldwell, para fechar aquele que foi considerado "o super-grupo" dos anos 70, o Armageddon. A proposta era simples: muito hard rock e muito peso nas canções. Keith podia soltar seu lado "progressivo" utilizando sua gaita de boca, e o resto da banda mandaria ver em longos solos e improvisações.
A banda começou a ensaiar e em seguida lançou um dos melhores discos de hard rock de todos os tempos, o auto-intitulado Armageddon. O álbum abre com a paulada "Buzzard". A guitarra de Pugh entra com tudo nos ouvidos, acompanhado pela cozinha de Cennamo e Caldwell. Relf entra com os vocais totalmente diferente de suas bandas anteriores, esganiçando o que pode sua garganta enquanto a pauleira rola solta. Com muitos solos e variações, a música passa rápida, mesmo durando quase nove minutos, terminando com um solo de gaita irônico de Keith, como que dizendo "esqueçam o que eu fiz, isso não é mais o que eu farei, ouçam o que tenho para dar agora". Uma ótima composição que serve muito para empolgar aquele que nunca ouviu o grupo.

A segunda faixa é a bela "Silver Tightrope", uma das mais lindas músicas que já ouvi. A guitarra dedilhada de Pugh da espaço para Keith cantar de forma totalmente livre, como se estivesse viajando por um paraíso de fadas, duendes, dragões e outros artefatos medievais. Uma linda canção que termina com os quatro integrantes entoando, como um coral de igreja, a frase "ooooooooooohhhhh, silver tightrope", enquanto Pugh estraçalha a guitarra o que pode em mais um solo memorável. Quando você menos percebe, os 18 minutos do lado A passaram e você já está delirando e curtido no vinho que Relf e os demais preparam para você.

Vêm o lado B com a rápida "Paths and Planes and Future Gains". O baixão de Cennamo lembra muito Mel Schacher em seus bons tempos. Uma boa dose de hard rock para levantar a gurizada novamente. "Last Stand Before" vêm com seus 8 minutos de um rock and roll simples, bem anos 60, mas com um peso incomum para que soe dessa forma. A bateria de Caldwell está mais precisa do que nunca nessa faixa, bem como as vocalizações dos integrantes, o que mostra que a banda estava bem afiada. 

Finalmente, a épica "Basking in the White of the Midnight Sun" encerra o lado B. Com seus quase 15 minutos, a faixa é dividida em 4 partes: "Warning Comin' On", "Basking in the White of the Midnight Sun", "Brother Ego" e "Basking in the White of the Midnight Sun (Reprise)". A primeira parte é uma paulada, com uma levada bem rápida e com Keith novamente cantando como nunca. A segunda já é mais cadenciada, lembrando bastante as demais bandas de hard rock da mesma época, como Bang, May Blitz e Moxy. Já a terceira é a mais "viajandona", onde Caldwell mostra por que ele era um dos maiores bateristas de hard rock que já haviam pisado na terra. Finalmente, temos uma reprise da segunda parte, que encerra o álbum de forma nostálgica. Eu, na primeira vez que ouvi esse disco, não aguentei e, quando terminou o lado B, coloquei a agulha no lado A novamente para ouvir a bolacha. Simplesmente o álbum inteiro é uma paulada, mesmo com uma linda balada de oito minutos.



O interessante é que a Armageddon não era só festa, pelo contrário. Apesar de a banda mostrar-se super entrosada no LP, por trás das cortinas a pauleira também rolava solta, mas entre os integrantes, afinal um se achava com direitos (e poderes) maiores que os outros, o que fez com que o grupo fizesse apenas dois shows durante toda a sua curta carreira. Mesmo assim, o álbum "Armageddon" foi aclamado por fãs e críticos, obtendo muito sucesso, principalmente na Europa.


Com a decepção gerada pelo fracasso pessoal no Armageddon e também com vários problemas de saúde devido ao abuso de drogas, Keith acabou afastando-se de vez da música, passando a compor apenas para outros músicos. Exatamente quando estava em casa escrevendo uma canção para ele mesmo gravar, Keith levou um choque de sua guitarra que acabou levando sua vida. Infelizmente uma carreira brilhante se acabava para um gênio quando este tinha apenas 33 anos (!).


Cennamo seguiu carreira como baixista, fundando a Illusion ao lado de seus ex-companheiros de Renaissance. Caldwell voltou para a Captain Beyond, mas essa acabou não atingindo o mesmo sucesso de seus dois primeiros álbuns. Pugh afastou-se da música por algum tempo, limitando-se somente a participações esporádicas em álbuns de cantores como Daniel Jones e Geoff Thorpe.
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