quinta-feira, 14 de junho de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Mal Waldron - The Call [1971]




Ultimamente, discutindo entre amigos, levantou-se uma polêmica questão sobre o que é rock. Até agora ninguém soube me responder. A dúvida, pelo menos para mim, continua. Refletindo sobre o assunto, me detive naquele que é o meu estilo favorito dentro do rock, o rock progressivo. O que define se uma banda é de rock progressivo ou não.

Então, voltei na minha coleção de discos e fui ouvir algo que está lá classificado como jazz: o belo disco The Call (Mal Waldron). Nascido na cidade de Nova Iorque, Mal foi um dos mais esquecidos músicos de sua geração. Talvez por ter tido como rivais nomes como Chick Corea e Herbie Hancock, só para citar dois gigantes do jazz da década de 60/70.

Durante os anos 50, Mal ajudou a desenvolver o estilo que posteriormente ficou conhecido como hard bop, inspirado principalmente pelo mestre Thelonius Monk. Álbuns como Mal/2 (1957), trazendo a épica "One by One" (tendo um novato John Coltrane no saxofone), a fase trio, de onde sairam Mal/4 (1958) e Impressions (1959) ou o maravilhoso The Dealers (1964), ao lado de feras como John Coltrane, Jackie McLean (saxofone) e Art Taylor (bateria).

Mal no início de carreira, acompanhando Billie Holiday
Apesar de discos fantásticos, Mal Waldron chamava mais a atenção pela sua simplicidade e parceria musical, servindo como suporte para músicos de grande porte como Billie Holiday, Kenny Burrell e o próprio Coltrane.

No final da década de 60, o pianista, influenciado pela revolução de Miles Davis, resolveu aprender as inovações eletrônicas que começavam a aparecer. Flertou com o moog, o piano elétrico e sintetizadores ao mesmo tempo que iniciou-se no free jazz. Essa loucura toda pode ser comprovada no excepcional Free at Last (1969).

Waldron, semelhanças com Thelonius Monk
tanto físicas como no estilo de tocar
Foi com esse álbum que Mal partiu para uma turnê pelo Japão ao lado do baixista Yasuo Arakawa e do baterista Takeshi Inomata, durante aquele que é considerado o Anno Mirabilus de Waldron, 1970. Nesse ano, o pianista lançou cinco discos fantásticos. Começando com o registro dessa turnê, o essencial Tokyo Bound, forte candidato a melhor disco de sua carreira. Em seguida veio o complicado, mas muito bonito, Tokyo Reverie. Aqui o músico dá uma aula de técnica e melodia utilizando o piano e nada mais! 

Esses dois álbuns fizeram com que seu nome ficasse muito forte no Japão. Foi nesse país que o pianista veio a lançar o quarto disco de seu Anno Mirabilis, Spanish Bitch, antes de fixar residência na Alemanha (onde assinou um contrato com a recém criada gravadora JAPO Records, uma das mais importantes gravadoras de jazz na Alemanha).

Peregrinando com concorridos shows pela Europa, Waldron gravou o último disco do Anno Mirabilis (The Opening) durante uma apresentação em Paris. Este álbum foi lançado pelo selo francês Futura, mesmo selo pelo qual havia lançado meses antes o ótimo Blood and Guts, e fechava o Anno Mirabilis com um saldo extremamente positivo pela Europa e Japão. Isso não era tudo. O músico preparava, para a estreia na JAPO Records, uma maravilhosa surpresa.

Waldron durante um momento de inspiração

Estudando o órgão, o moog e os efeitos de sintetizadores, Waldron chegou a conclusão que poderia criar algo que se diferenciava do que ele vinha fazendo até então. E assim começou a compôr canções voltadas para o ainda novato estilo do fusion. Com a parceria de Jimmy Jackson (órgão), Eberhard Weber (baixo) e Fred Braceful (bateria), a estreia da JAPO Records como gravadora chegou às lojas em abril de 1971 sob o nome de The Call.

Este primeiro disco lançado pela JAPO foge totalmente das linhas jazzísticas que o pianista havia consagrado anteriormente. O órgão e o baixo elétrico mudam a sonoridade e o estilo de tocar de Mal. O músico aprofunda-se no piano elétrico criando um novo ritmo, uma nova parceria de instrumentos, que pode ser classificado como fusion, free jazz, jazz rock ou, para ouvidos extremamente atentos, simplesmente como rock progressivo.

Para chegar nessa conclusão basta ouvirmos a maravilhosa faixa-título. Uma grandiosa suíte de quase 20 minutos de muita técnica, inspiração e harmonias fantásticas. "The Call" surge nos sulcos do vinil através do órgão que entoa as notas que irão acompanhar o tema principal da canção, acompanhado por batidas no chimbal. A introdução levemente ganha volume e Mal surge com o piano elétrico, entoando a bonita melodia do tema central, trazendo junto o baixo, as notas do órgão e as viradas de bateria.

Intrincadas passagens de baixo e piano elétrico formam a ponte para o início dos solos individuais, começando com o dono do disco. Waldron aparece repetindo notas enquanto Jackson delira com variações no órgão, duelando com o baixo de Weber, ao mesmo tempo que Braceful tenta ganhar o espaço de todos os instrumentos. 

O solo de Waldron é uma enlouquecedora sequência de notas, complicado e praticamente impossível de ser reproduzido. A medida que ele empolga-se, o órgão e o baixo aumentam o volume, assim como a bateria, sendo que um segundo piano elétrico (também tocado por Waldron) larga acordes arrepiantes, únicos a manter a serenidade na loucura musical empregada pelo quarteto.

Jimmy Jackson
O ritmo diminui dando espaço para Jackson começar seu solo. Enquanto piano,  baixo e bateria agora entram em harmonia, o órgão de Jackson ferve como um caldeirão, em longas notas e belíssimas escalas, lembrando por horas as maluquices feitas por Ray Mazarek no The Doors e as belas e furiosas inserções de Keith Emerson na época do The Nice.

Jackson inventa escalas, sobrepondo notas estranhas e repetindo um tema criado quase que por acaso dentro de seu solo. Tema este que modifica o andamento das notas do órgão conforme ele aparece: primeiro de forma lenta, posteriormente, de forma muito agitada, com o grave do baixo estourando as caixas de som.

Eberhard Weber
Com o baixo estourando tudo, começa o solo de Weber. O cara simplesmente detona! Com o piano elétrico fazendo a marcação do tempo e a bateria acompanhando os quatro acordes feitos pelo piano elétrico, o baixista solta os dedos com uma velocidade comedida, porém encantadora em seu contrabaixo acústico. Seus dedos deslizam pelo baixo sem trastes criando sonoridades fantásticas onde, misturadas com o acompanhamento de bateria e piano elétrico, deixam o mesmo praticamente sozinho, apenas com uma tímida marcação do órgão.

A partir desse momento, Weber realmente viaja! Notas estranhas e pesadas, tocadas com agressividade, vão trazendo aos poucos a bateria e o piano elétrico. Tentar decifrar o que o baixista faz é tarefa para estudiosos do instrumento. Afinal, mistura harmônicos, bends, trêmolos e várias outras técnicas tudo em menos de um minuto. Muito ágil e preciso! 

Então, ele realmente fica sozinho deslizando os dedos pelo braço de seu instrumento. Depois de um solo nervoso a bateria de Braceful aparece swingada, como em um funk Motowniano, para executar o solo final da canção. Outro grande instrumentista, manda ver nos tons e pratos com rufadas, viradas e batidas. Os pratos soam como gôngos (instrumento japonês), tamanha força empregada! 

Fred Braceful
Em uma segunda etapa é a caixa quem sofre com a violência dos braços de Braceful em batidas que parecem rufos. O cidadão simplesmente extrapola o limite de sua criatividade detonando a caixa ao mesmo tempo que soca o bumbo com os pés e empregando viradas complicadíssimas nas demais peças de seu instrumento.

O encerramento do solo retorna para as notas do órgão trazendo o tema inicial, novamente executado pelo órgão, concluindo os dezenove minutos dessa genial e democrática canção como que se tivessem passados apenas cinco.

O lado B de The Call apresenta "Thoughts", outra que poderia estar presente como Maravilha do Mundo Prog, mas a faixa-título tem um porém a mais para estar aqui.

Steig Aus, o disco em que o Embryo recriou "The Call"

Dois anos depois de lançar The Call, Waldron re-encontrou o amigo Christian Burchard. Excelente baterista, e grande xilofonista, Burchard foi um dos principais nomes do krautrock alemão. Os dois já haviam trabalhado juntos na década de 60 através de shows regados de improvisos que acabaram se tornando o álbum For Eva (gravado em 1967 mas lançado apenas em 1999). O trabalho foi lançado sob o nome do projeto que Burchard criou, o fantástico grupo Embryo.

Em 1973, Burchard convidou Mal para participar novamente do Embryo, tendo como principal oferta o desejo quase platônico por gravar "The Call". Seus desejos foram atendidos no maravilhoso Steig Aus (1973). Nele, a versão de nossa maravilha prog virou uma saborosa canção levada pela pegada precisa de Burchard comprovando ainda mais o fato dela, apesar de ser composta por um jazzista, nada mais ser do que uma maravilhosa suíte prog. Ainda com o Embryo, Waldron gravou o fantástico Rocksession (1973) - contando também com a participação de Jimmy Jackson - e Turn Peace (1989). 

Com o passar dos anos, o pianista passou a se dedicar para trilhas sonoras, acompanhar outros artistas e investir em sua carreira solo. Com mais de cem discos lançados, somente na carreira solo, faleceu no dia 02 de dezembro de 2002. Vítima de câncer, o músico deixa um legado que, se é desconhecido entre a maioria dos apreciadores do jazz em nosso país, é reverenciado por músicos iniciantes tanto no estilo quanto na arte de tocar piano.

Uma lenda do jazz que aventurou-se pelo progressivo
Resumindo o conjunto da obra aqui apresentada, pela dúvida em o que seria rock progressivo, definições são criações humanas. Afinal... Se uma banda de krautrock faz uma versão progressiva para uma canção criada por um músico de jazz, que por**@ de estilo será esse?

O que vale na música é o bom gosto e a certeza de saborear um delírio musical do quilate de "The Call". Aqueles que julgarem Mal Waldron como um músico apenas de jazz, que joguem as pedras. Concordo que quase toda a discografia do norte-americano é voltada para o estilo. Em The Call, entretanto, o progressivo tomou conta. E maravilhosamente!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os 40 anos de 666






Publicado originalmente no Blog Consultoria do Rock

Um dos discos mais ousados da história da música está completando 40 anos nesse mês de junho. Trata-se da obra-prima 666 (The Apocalypse of John, 13/18), lançado pelo grupo grego Aphrodite's Child.

Aos desconhecedores desse grandioso álbum, fica o alerta da necessidade mais que urgente de ouvir a história registrada nesse álbum duplo, o qual demorou vários meses para ser lançado, envolto em torno de polêmicas e brigas entre os integrantes do grupo.

Formado por dois grandes nomes do rock grego, o vocalista e baixista Demis Roussos e o tecladista Vangelis, além do baterista Lucas Sideras, o Aphrodite's Child já fazia algum sucesso no final da década de 60, através de canções que lembravam bastante a fase psicodélica do grupo australiano Bee Gees, e entrou o ano de 1970 com dois discos na carreira: End of the World (1968) e It's Five O'Clock (1969), destacando canções como "Rain and Tears", "Let Me Love, Let Me Live" e "It's Five O'Clock", além do compacto "Spring, Summer, Winter and Fall" (1970), que inclusive chegou a ser lançado aqui no Brasil.


A formação clássica do Aphrodite's Child: Sideras, Roussos e Vangelis

O sucesso desses dois álbuns foi tamanho na europa (principalmente França e Itália) que o grupo partiu para uma longa turnê pelo continente, porém sem ter Vangelis nos teclados, que preferiu ficar os estúdios para cômpor trilhas sonoras para filmes. Passado a turnê, o grupo reuniu-se e começou a cômpor e gravar o terceiro álbum, o qual era uma adaptação ao "Livro das Revelações da Bíblia", baseado no Apocalipse de São João, do Novo Testamento. 



Para isso, recrutaram para a guitarra o sargento Koulouris. Argyris Kouloris foi o primeiro e único guitarrista do Aphrodite's Child logo no início da banda, mas abandonou o grupo para seguir carreira militar. Em 1970, ele decidiu dar um tempo ao exército, onde já estava na posição de sargento, e aceitou o convite dos velhos amigos Vangelis e Roussos para gravar o novo álbum da banda. Com uma fome de um leão que não vê carne há semanas, Kouloris foi o responsável por, junto com as iedias malucas de Vangelis, mudar o som do Aphrodite's Child para algo totalmente progressivo.

Assim, o quarteto dedicou-se para a construção daquela que seria a principal obra da banda, totalmente criada por Vangelis e com letras do cineasta grego Costas Ferris.

Roussos, Vangelis, Sideras e Koulouris



Costas escreveu um livro conceitual para o álbum, 666 (The Apocalypse of John, 13/18), e a ideia era simples: um grande circo com acrobatas, dançarinos, elefantes, tigres e cavalos mostrando um espetáculo refente ao fim do mundo. Enquanto o show ocorre com diversos efeitos de luz e som, algo estranho começa a acontecer fora do circo, que é a revelação da destruição do planeta Terra. O público acredita que o que acontece fora do picadeiro faz parte do show, mas o narrador começa a alertar a plateia que aquilo é real. Então, uma imensa e densa batalha entre o bem e o mal passa a ser travada, até que um deles vença!!

Mas, o ano de 1971 começou com o clima entre os integrantes se tornando cada vez mais pesado, já que as composições e o intelecto de Vangelis exigiam muito dos demais, além do fato de que Roussos estava se tornando incomodado com o brotamento de inspiração do tecladista. Durante três meses, as gravações ocorreram entre diversas brigas, sem nenhuma fala sendo trocada entre Vangelis e Roussos, o que culminou com o fim do grupo após o término de gravação do disco, que ocorreu em meados de março daquele ano. O interessante é que, segundo relatos, quando o grupo começava a gravar juntos era como se fossem os velhos amigos de sempre, rindo, trocando olhares e sentindo a harmonia entre eles, mas bastava acabar a música para as caras fechadas surgirem novamente.

Roussos partiu para uma bem sucedida carreira solo, começando com o single de "We Shall Dance" (ao lado de Sideras) e com o lançamento de seu primeiro álbum solo, On the Greek Side of My Mind ainda em 1971. Sideras também partiu para carreira solo, lançando em fevereiro de 1972 o disco One Day, enquanto Vangelis permaneceu na gravadora do Aphrodite's Child, a Mercury, onde viria a gravar em 1973 a trilha de L'apocalypse des Animaux, além de se esconder sob o pseudônimo de Alfa e lançar, ao lado da namorada Vilma Ladopoulou (Beta), o single "Alfa Beta".

Aphrodite's Child em ação

Porém, Vangelis queria que o material gravado entre 1970 e 1971 fosse lançado de alguma forma. A autorização de Sideras e Roussos foi imediata, mas Vangelis barrava na própria Mercury, que rejeitou o álbum desde o início, a começar pelo título do disco, 666. Os chefões da Mercury achavam o nome muito sugestivo, e além disso o álbum continha algumas músicas pesadas para a época. No final, depois do lançamento dos trabalhos solos de Sideras e Roussos, a Mercury concordou em lançar parte do material, o que desagradou, e muito, a Vangelis.

Em junho de 1972, através da Vertigo, na época uma subsidiária da Mercury (que não queria se expor com aquele trabalho), chegou às lojas o hoje cultuado álbum duplo conceitual 666 (The Apocalypse of John, 13/18), trazendo na capa a primeira das polêmicas em torno do mesmo. Originalmente, Vangelis queria que a capa fosse a mesma elaborada para o livro de Costas, onde o número "666" era escrito como que feito por gotas de sangue sobre um fundo totalmente negro, sem nada mais. Infelizmente essa capa foi arquivada, e o que temos é apenas o "666" gravado em letras brancas sobre um fundo negro e com um envoltório vermelho em volta. Uma capa próxima a original foi lançada na primeira versão inglesa, porém com o 666 em branco, e que foi substituído em seguida pela versão que hoje conhecemos. Essa versão inglesa é raríssima.



A capa original de 666, com pequenas alterações para poder ser lançada



Nas notas, algumas linhas diziam que o disco havia sido concebido sob a influência de sahlep, o que para os produtores da Mercury era uma evidência clara do uso de drogas nos estúdios ou, então, da realização de um ritual satânico entre os membros da banda (na verdade, sahlep é uma espécie de chá turco feita com raiz de orquídea).


Deixaremos as polêmicas de lado por enquanto, e vamos partir para o maravilhoso mundo registrado em 666, sem dúvida alguma uma das melhores obras criadas no século XX. Vale lembrar que temos nele a participação especial de vários convidados, entre eles John Frost (voz), Harris Halkitis (baixo, percussão, conga, bateria, sax alto, sax tenor e caixa), Irene Papas (voz), Michel Ripoche (trombone, saxofone, sax tenor) e Vannis Tsarouchis (voz), além de textos gregos feitos por Yannis Tsarouchis.




O lado A de 666

Totalmente diferente dos álbuns anteriores, principalmente pela inclusão de Koulouris, o disco abre com os polêmicos vocais de "The System", "we got the system, to fuck the system", mostrando que ali está uma obra carregada de ironia e sarcasmo, seguida por "Babylon", onde Koulouris traz o riff principal acompanhado por gritos de plateia, seguido por bateria (a qual foi tocada por Vangelis), baixo e os vocais de Roussos em um ritmo muito confuso. Metais são adicionados, executando notas curtas. A estrofe é repetida, encerrando essa primeira canção com um curto solo de Koulouris.

A deliciosa "Loud, Loud, Loud" vem com os vocais ingênuos de uma criança acompanhados pelo piano de Vangelis e as vocalizações com o nome da canção, para então surgir "The Four Horsemen". Essa canção parece ter sido gravada nos dias de hoje, principalmente pela levada de bateria. A faixa começa com barulhos de talheres batendo em copos e os vocais agonizantes de Roussos sendo acompanhados por acordes de teclados. O clima é de viagem total em uma das letras mais diretas e fáceis da banda. Após as duas primeiras frases, citando o primeiro e o segundo cavaleiro do apocalipse, bem como suas posses, surge o refrão, narrando a cor dos cavalos e com um acompanhamento simples de baixo, teclado e bateria (bem atual). Mais duas frases são cantadas (agora citando o terceiro e o quarto cavaleiro e suas posses), e voltamos para o refrão, para nesse embalo simples Koulouris detonar um maravilhoso solo de guitarra sobre os "pá-pá-pá-pá-pá-rá-rá" cantados por todos. 

A instrumental "The Lamb" apresenta instrumentos gregos, com destaque para o solo de guitarra grega feita por Koulouris e o acompanhamento de sax e vocalizações. A sequência é alucinante. Camadas e camadas de teclados, guitarra, bateria e baixo são adicionadas para formar o colchão jazzístico onde Vangelis deita seus dedos para solar livremente no moog. Fantástico é pouco, e aqui o volume máximo tem que estar nas caixas de som. O lado A encerra-se com "The Seventh Seal", e a guitarra grega fazendo um tema acompanhado por xilofone e algumas intervenções de flauta, com Frost narrando a chegada do apocalipse.


Parte interna de 666

O lado B começa com a viajante "Aegian Sea", uma prévia do que Vangelis faria no futuro em suas trilhas sonoras. Teclados viajandões são executados sobre acordes de guitarra e baixo, com leves batidas nos pratos. Vozes tornam o ambiente ainda mais delirante, e é fácil fechar os olhos e enxergar um local totalmente destruído neste momento. A bateria entra, com baixo, sax e sax tenor executando o mesmo tema. Mais vozes e o tema de sax surgem, para finalmente Koulouris solar lindamente acompanhando o vocal distorcido de Frost narrando o apocalipse ("the sun was black, the moon was red, the stars were falling, the earth has trembling"). Arrepiante e ao mesmo tempo belo!

"Seven Bowls" é mais uma viagem, onde em meio a barulhos de percussão e teclados, vozes narram a localização das sete "bacias" do apocalipse (terra, mar, rios, sol, besta, estrelas, ar) e o que acontece com os locais, abrindo espaço para as viagens instrumentais de "The Wakening Beast", com muita percussão e sons estranhos.

Cânticos são ouvidos em "Lament", outra faixa arrepiante, desejando alas (amargura) para a raça humana e o rei dos reis, e que é mais uma demonstração do talento de Vangelis em criar trilhas. Os metais retornam na instrumental "The Marching Beast", onde novamente podem ser ouvidos instrumentos gregos, bem como flautas e piano, que é responsável pelo solo principal.

Temos então duas faixas intercaladas por anúncios dos nomes das canções: "The Battle of the Locusts", um rockzão com um grande solo de Koulouris, mostrando toda a sua técnica, e "Do It", com o solo de guitarra em um ritmo muito mais rápido, puro hard, e com ótimo acompanhamento de Roussos no baixo e de Sideras na bateria.

"Tribulation" é uma pequena vinheta construída pelos metais, levando a "The Beast", que de forma hilária pergunta: "Quem pode encontrar a besta?". Um rock original, cantado por Frost, com acompanhamento de piano, baixo e bateria, além de ótimas intervenções de Koulouris, com a faixa perguntando "telionoume edho pera etsi?", ou seja, "vamos para o clímax?". O lado B encerra com a vinheta de "Ofis", trazendo uma das frases da peça teatral grega Karagiozis, Alexander the Great and the Cursed Serpent.


A versão final, lançada pela Vertigo, com o famoso rótulo da gravadora


O apresentador do circo então nos mostra as "Seven Trumpets", seguida pela paulada de "Altamont", onde os metais são os destaque sobre o clima denso construído pelos teclados e pela levada baixo/bateria. Roussos faz algumas vocalizações, com um belíssimo solo de Ripoche, e canta a letra da canção sobre a intrincada levada, começando a preparar o ouvinte para a alucinante sequência do disco, que irá começar com a instrumental de "The Wedding of the Lamb", novamente com muita percussão e metais.

"The Capture of the Beast" é o momento de preparação para o clímax desejado no final do lado B, onde Roussos adverte que o que ouvimos antes fora "o casamento do cordeiro, e que agora irá ocorrer o casamento da besta", isto sobre camadas de percussão e teclados, que ficam sendo empregadas durante toda a canção.



O clímax ocorre na Maravilha Prog "∞", onde Irene Papas apenas fala as frases ""I was, I am, I am to come", uma inversão para "who was, is, is to come" contida na Revelação e atribuída a Deus, de forma aleatória (e que podem facilmente serem interpretadas como "I was, I'm and I want your cum")  enquanto entra em vários estágios de histeria, no embalo de um ritmo sexual criado por um redemoinho de percussões, tocadas por Vangelis. Neste ponto, o demônio começa a utilizar esta frase dentro de seu ego e assim tenta renascer ou então criar outro ego, fazendo amor com ele mesmo até atingir o orgasmo!

Irene Papas, a voz de "∞"
A audição desta faixa é obrigatória para todos aqueles que se dizem conhecedores de música, não por ela ser uma canção excelente ou maravilhosa, mas sim pela genialidade e a ousadia do grupo em gravar algo como isso, que realmente impressiona (principalmente pelos gritos histéricos e a variação de vozes de Irene) e que em sua versão original contava com 39 minutos da mais pura orgia sendo realizada nos estúdios, o que foi rapidamente atorado pela Mercury, que chamou aquilo de blasfêmia, sendo lançados apenas cinco minutos desse espetáculo sexual, ainda contra a vontade da gravadora, mas com a justificativa de que era uma peça fundamental para compreensão da obra.

Inicialmente, quem iria cantar essa canção era algum inglês, pois Costas gostaria de ouvir a histeria do narrador através de um sotaque britânico, mas quando Irene surgiu foi dada a ideia para ela, que topou e fez todas as vozes de puro improviso, o que torna essa faixa ainda mais atraente. Outro detalhe interessante é que na Espanha essa faixa foi riscada no álbum quando do seu lançamento (algo como feito com as canções da Blitz aqui no Brasil nos anos oitenta), e a venda de 666 foi proibida por lá durante muitos anos somente por causa de "". Dica: mostre essa música para sua mãe e diga que quem está tocando percussão é o mesmo cidadão que fez a música que estava na abertura de sua formatura e duvido que ela acredite, se é que ela vai chegar até o primeiro minuto da canção.

O lado C encerra com "Hic et Nunc", outro belo rock, com o piano sendo destaque ao lado da guitarra e das vozes. Bom som para fechar esta etapa do apocalipse.
Vangelis, Roussos e Sideras




O lado D é talvez o mais difícil de ser assimilado, contando com apenas duas canções, a longa "All the Seats Were Occupied", onde praticamente um resumo de todo o álbum é feito, começando com uma viajante sessão de guitarra e moog apenas, crescendo com a adição da bateria e do baixo (lembrando muito "The End" dos Doors) e passando por vários temas do disco, inclusive com algumas frases de "∞", alternando momentos com a guitarra solando de forma alucinada e outros incrivelmente soturnos e demoníacos, onde o baixo predomina, encerrando com uma frase retirada de um disco de ensinamento de inglês da BBC que diz apenas "all the seats were occupied", e levando ao final do LP com "Break", onde, com o acompanhamento do piano, Roussos se despede dos amigos enquanto Vangelis canta de forma jazzística "stoobeedooobedoo", com direito a um pequeno solo de guitarra e finalmente a despedida final, dizendo apenas "fly, high and then you make it" e "do it".


Single de "Break"

Um single de 666 foi lançado em novembro de 1972, "Break / Babylon", e que acabou pegando pó nas prateleiras, assim como o álbum, que não vendeu muito principalmente por causa da censura em torno do mesmo. Porém, nos dias atuais 666 é considerado como um dos principais discos do rock progressivo e o melhor da carreira da Aphrodite's Child. Em uma pesquisa feita pelo conceituado site All Music Guide666 recebeu quatro estrelas e meia em uma cotação de cinco, com a justificativa de que ouvir o álbum na íntegra era demasiadamente complicado. Já a IGN Entertainment classificou 666 como o terceiro melhor disco progressivo de todos os tempos, ficando atrás apenas de In the Court of Crimson King do King Crimson em segundo lugar e The Lamb Lies Down on Broadway do Genesis.


Roussos, Sideras e Vangelis


Segundo Roussos e Vangelis, a Mercury podou e muito a versão original do álbum, que era para ser lançado em formato quádruplo. Os outros dois discos (incluindo a versão completa de "∞") estão perdidos em algum lugar deste planeta, esperando por uma alma para lançá-los para nós, meros mortais.



Roussos seguiu em uma carreira solo voltada para o pop, tocando em diversos países e lançando um CD chamado Live in Brazil no ano de 2006, enquanto Vangelis virou o monstro sagrado dos teclados que conhecemos hoje, com participações em várias trilhas sonoras de filmes, além de formar dupla no início dos anos oitenta com Jon Anderson (vocalista do Yes), com quem também obteve relativo sucesso. Vez ou outra Vangelis e Roussos se encontraram nos estúdios, como nas gravações de "Blade Runner" (1983) e "Chariots of Fire" (1981), mas o Aphrodite's Child nunca mais retornou à ativa.



Koulouris adotou apenas o nome Silver, vindo a participar do álbum Souvenirs de Roussos, lançado em 1975, além de fazer parte por um bom tempo da banda de Vangelis, enquanto Sideras lançou seu segundo álbum solo, Pax Spray (1973), participando do álbum My Only Fascination (1974) de Roussos, além de fazer parte das bandas Ypsilon (ao lado de Lakis Vlavianos e Dimitris Katakouzinos), com quem lançou o disco Metro Music Man (1977) e vários compactos, e também do Eros (com Lakis Vlavianos, Charis Chalkitis e Dimitri Tambossis), com quem lançou apenas o compacto "Rain Train / I Can See It", em 1971. Trabalhou em vários discos de outros cantores, como L'Alba (Riccardo Cocciante - 1975), Love's Fool e Dead Line (Sigma Fay - 1979 e 1981) e em 2008 lançou o CD Stay With Me.

O Aphrodite's Child entrou para a história da música grega como a principal banda daquele país, e marcou época nos anais do rock progressivo em suas duas distintas fases, a primeira marcada por baladas e simplicidade e a segunda por 666. Cavuque nos sebos atrás dessas preciosidades, e descubra que nem só a Inglaterra fazia rock progressivo de qualidade nos anos setenta, e principalmente, saboreie os 40 anos de um dos principais discos do rock progressivo. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os 40 anos de The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars




Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock

06 de junho. Essa data é sem dúvidas uma data muito importante para a história mundial. Para os desavisados, no dia 06 de junho de 1944, começava o início do fim da Segunda Guerra Mundial. O chamado Dia D entrava para os livros das escolas como o dia em que as forças aliadas, lideradas pelo general (e futuro presidente) americano Dwight D. Eisenhower, desembarcaram na Normandia (França) a partir da 00:15 horas da manhã, começando uma terrível mas corajosa ação que levaria à derrota dos nazistas quase um ano depois, em uma das  mais sangrentas guerras que nosso planeta já viu.

28 anos depois, em um mesmo 06 de junho, um novo Eisenhower surgia, mas desta vez não nos Estados Unidos, e sim na Inglaterra. Tão pouco esse novo general veio para acabar uma guerra. Ele veio para acabar com aquilo que ele próprio havia acabado de criar, junto com outros aliados, que era um estilo musical inovador, rebelde e precursor, chamado Glam Rock. O nome desse general: David Robert Jones, conhecido mundialmente como David Bowie.


Maquiagem e figura andrógina, símbolos do Glam Rock


A tarefa do general não era tão difícil quanto a de Eisenhower. Pelo contrário, Bowie havia ganhado a ascensão quase que da noite para o dia. Sete meses antes do Dia D para o Glam Rock, Bowie havia surgido nas paradas britânicas com o single de "Life on Mars?", e não parou de tocar nas rádios daquele país com "Oh! Pretty Things". Os dois sucessos pertencentes ao álbum Hunky Dory (1971), que atingiu a surpreendente terceira posição nos álbuns mais vendidos do país no início do ano seguinte.

Apoiado por uma banda fora de série, que contava com Mick Ronson (guitarra), Rick Wakeman (teclados), Trevor Bolder (baixo) e Mick Woodmansey (bateria), Bowie finalmente conseguia aquilo que havia batalhado desde seu início de carreira, quando ainda chamava-se David Jones, nos idos de 1964, quando saiu do grupo Konrads (aonde era um simples saxofonista) para virar um dos líderes do King Bees, até atirar-se desesperadamente em uma carreira solo repleta de fracassos.


Bowie, um jovem em busca do sucesso, em 1970
O sucesso de Hunky Dory contagiou Bowie. Ele que havia peregrinado pelo pop beat (David Bowie, 1967), pelo country dylanesco (David Bowie, ou Space Oddity, 1969, de onde a faixa-título fez algum sucesso, mas seu disco naufragou em vendas), e pelo hard setentista (The Man Who Sold The World, 1970), encontrou o que procurava, mas não ficou satisfeito. Faltava algo para nosso general.

Ainda em 1971, o Comandante Marc Bolan lançou Electric Warrior, através do T. Rex. Para muitos, esse é o primeiro e principal disco do estilo que ficou conhecido como Glam Rock. Clássicos dos clássicos, principalmente pela faixa "Get It On", esse era o disco que estava na primeira posição no Reino Unido, e para Bowie, o desafio era substituir o amigo Bolan no primeiro lugar das paradas.


Roupas coladas no corpo e extravagância também marcaram o Glam Rock

Para fazer isso, algo radical precisava surgir, e assim, nasce a história de Ziggy Stardust. Em um projeto minuncioso, trabalhado segundo a segundo, nota por nota, frase por frase, no dia 06 de junho de 1972, ele invadiu o mundo e virou o mesmo de ponta cabeça. Bowie travestiu-se em um personagem irreverente, inédito e inesquecível, e claro, aproveitou-se do sucesso de Marc Bolan para também ele adotar o Glam Rock, tornando Ziggy o principal símbolo desse estilo.

A ideia começou a ser elaborada desde o dia 07 de setembro de 1971, dia em que Bowie ouviu pela primeira vez Electric Warrior (três semanas antes do álbum do T. Rex chegar às lojas), e entre os dias 12 e 18 de janeiro de 1972, começou a ser gravado, na companhia dos mesmos membros que gravaram Hunky Dory (com exceção de Wakeman, que ingressou no Yes para se tornar um monstro nos teclados).


Ziggy Stardust & The Spiders from Mars:
Trevor Bolder, David Bowie, Mick Woodmansey e Mick Ronson


O trio Woodmansey, Bolder e Ronson virou a banda de apoio do travestido Bowie, agora batizado de Ziggy Stardust. O nome dessa banda, The Spiders from Mars, e para concluir este projeto, uma história de ficção científica que nenhuma banda do rock progressivo havia imaginado. 

A partir do dia 06 de junho de 1972, não existia mais o homem David Bowie, nem os homens Woodmansey, Bolder e Ronson. A partir daquela data, o mundo passou a conhecer Ziggy Stardust e as Aranhas de Marte. Nas ruas, entrevistas, shows, Ziggy era o ser andrógino que trazia uma mensagem para os humanos. Um Homem das Estrelas (apesar de Ziggy não ser o alienígena como muitos pensam), bissexual, que tocava guitarra com a mão esquerda e consumia drogas como água, e era assim, com exceção da mão esquerda, que Bowie agia no seu dia-a-dia.

Porém, o detalhe principal de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars está em seu título, que obviamente, revela sua história. Quem, que não fosse David Bowie, iria criar um personagem para destruí-lo em tão pouco tempo? 38 minutos e 37 segundos é o tempo de vida de Ziggy na Terra, mas o suficiente para consagrar (e destruir) sua carreira. E por que acabar com algo? Simples, para também acabar com a carreira de Marc Bolan (ninguém podia ser maior que Bowie), e assim, acabar com o Glam Rock.


Ziggy Stardust em ação


Com exceção do cover de "It Ain't Easy" (cover de Ron Davies), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars apresenta dez canções criadas por Bowie, e que se unem para construir um dos melhores álbuns que a década de 70 já ouviu. E até que "It Ain't Easy" encaixa-se perfeitamente nessa história simples (talvez um pouco complicada nas primeiras audições), com músicas grudentas - que são capítulos do tema principal - riffs eternos e clássicos empolgantes que marcaram o ano de 1972 como os três milhões de soldados que invadiram a França em 1944.

Apresento uma interpretação bem pessoal, que muitos podem discordar, mas que debatendo entre diversos fãs do disco, é a mais próxima talvez daquilo que Bowie queria nos passar. A principal ópera-rock do Glam Rock começa com "Five Years", uma triste canção que prevê a destruição da Terra em cinco anos, e que desenvolve-se triste, melancólica, levada pela marcação repetitiva da bateria, violões e piano. A profunda agonia do fim do mundo é retratada pela fantástica interpretação vocal de Bowie, com gritos desesperados, desafinados, doloridos, e o maravilhoso arranjo de cordas complementa a dramaticidade, abrindo espaço para criar-se uma justificativa ao nascimento de Ziggy.

"Soul Love" narra a influência do amor no dia-a-dia das pessoas, que não sabem que o mundo irá acabar, e principalmente, como este amor irá influenciar na vida de Ziggy, nascido para amar a alma dos seres da Terra. Uma canção mais animada do que sua antecessora, na qual podemos ouvir um pouco da guitarra de Ronson, e claro, destacar os dotes de Bowie no saxofone, com um bonito solo.

Em "Moonage Daydream", a figura forte e conquistadora de Ziggy Stardust é revelada, influenciada pelo amor, e com o destino de salvar o mundo de seu fim nos próximos cinco anos. Um invasor do espaço prestes a salvar a Terra através de uma mensagem, que irá ser revelada em breve. Pesadíssima, é uma das melhores canções da carreira de Bowie. Poucas vezes ele conseguiu mesclar violões e guitarras com tamanha perfeição, e de novo, as cordas estão presentes de forma emocionante. O solo de Ronson é de chorar

"Starman" é o momento em que o messias Ziggy estoura nas rádios e TVs do mundo,  com uma mensagem de paz, defendo a liberdade das crianças se divertirem e querendo salvar nossas mentes, enviada por um Homem das Estrelas (Ziggy Stardust não é o Homem das Estrelas como muitos pensam, mas um mensageiro do mesmo, e portanto, Ziggy não é um alienígena). Clássico dos clássicos, é um pop sessentista, com efeitos de sintetizadores e com as cordas aparecendo forte, que remete-nos diretamente para as primeiras composições de Bowie, uma analogia entre o sucesso que Ziggy está tendo com o sucesso que Bowie pensava poder ter tido no passado. A partir de "Starman", Ziggy vira o ídolo de uma geração, capaz de mover montanhas e seguido por onde andasse.

Então, vem a cover de "It Ain't Easy" para encerrar o lado A. Bem analisada,  ela encaixa-se no conceito do álbum. Afinal, Ziggy se tornou um sucesso, está no céu, com uma mulher fantástica, mas não está sabendo lidar com essa situação. A voz aguda de Bowie soa debochada, e a participação mais que especial de Dana Gillespie torna essa faixa muito atraente, bem como as variações com momentos lentos e momentos pesados. 

Contra-capa do aniversariante do dia

O lado B abre com "Lady Stardust", o momento em que Ziggy, entendiado com a rotina de ser um salvador idolatrado por todos, achando-se o ser dos seres, resolve experimentar outros campos, assumindo uma postura bissexual, usando maquiagem e deixando seus cabelos negros crescerem. Para mim, esta alegre balada é a melhor canção do álbum, com o piano sendo a principal atração.

Bissexual, famoso em todos os cantos, eis que Ziggy então vira realmente uma estrela em "Star". O mensageiro do Homem das Estrelas agora é tratado como um Deus, capaz de mudar o mundo e transformar gerações apenas sendo uma estrela do rock.  O piano repetitivo e uma bateria um tanto quanto desritmada, assim como vocalizações enjoativas, fazem passar por ela sem muita atenção.

Ziggy se intimida, está cansado dos palcos e da badalação, além dos(as) fãs que só querem dormir com ele, mas sua banda de apoio, as Aranhas de Marte, o incentivam a continuar durante "Hang on to Yourself". Rock 'n' Roll pesado, mistura elementos de T. Rex, Eddie Cochran e Elvis Presley, e é a única faixa de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars que poderíamos encontrar em Electric Warrior (em comparação aos estilos de ambos).

De nada adiantou, Ziggy já estava decidido a não seguir mais. Nasce a lenda, apresentada em "Ziggy Stardust", outra que pode ser considerada a melhor faixa do disco. Riff grudento, embalo suave do violão, guitarras dobradas, é uma canção perfeita. O trabalho dos Spiders from Mars (principalmente Ronson) é sensacional. O refrão, pesado e quebrador de pescoços, ainda hoje levanta muito defunto e assusta os headbangers detratores de Bowie.

"Suffragette City" traz o retorno das origens de Ziggy, de volta para sua cidade (Suffragette) e perdido em um planeta Terra que não é mais o seu lar. Outro rock inspirado na década de 50, saído das linhagens de Jerry Lee Lewis e Little Richard, com um refrão mais do que grudento e com um solo curto e sujo de Ronson.

Então, Ziggy abandona o rock em "Rock 'n' Roll Suicide". Cansado, velho demais para o rock, jovem demais para tomar tal decisão (alguém lembra do clássico do Jethro Tull aqui?), Ziggy encontra um apoio que não está interessado no seu sucesso, no traseiro fantástico que Deus lhe deu, ou na sua forma bissexual andrógina, e morre diante de seus fãs, em pleno palco. Após isso, morto como artista, passa a viver em reclusão, sem gerar mais notícias, apenas sendo a maior lenda que o mundo, prestes a acabar, já viu. 


Um resumo do álbum, "Rock 'n' Roll Suicide" surge lentamente com o violão folk de Ziggy, revisitando seu passado recente. Ele não mais luta por salvar o mundo. Pouco a pouco, ela cresce, invade o corpo do ouvinte, e os berros de Ziggy gritando "You're not alone", arrepiam a espinha. Saxofone, guitarra, baixo, dedilhado de violões e a bateria marcante formam o majestoso andamento, que junto das cordas e dos metais, encerram The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders com uma imponência poucas vezes vistas em um disco de rock, mas que o próprio Bowie já havia utilizado na linda "Cygnet Comittee" (Space Oddity), porém sem tanta maturidade.


Alguns aspectos sobre o disco precisam ser resgatados. Duas faixas do álbum foram gravadas ainda em 1971, as quais são "Moonage Daydream" e "Hang on to Yourself". Elas saíram em um mesmo compacto de um grupo batizado Arnold Corns, do qual faziam parte Bowie, Ronson, Bolder e Woodmansey, além de Freddie Burretti (voz) e Mark Carr Pritchard (guitarra). As versões originais possuem pequenas diferenças em relação as que entraram no aniversariante do dia.


Ziggy Stardust, em uma de suas primeiras apresentações no Top of the Pops


"Starman" foi a última canção a entrar no disco. Bowie disse que lembrava muito seu passado, e não gostou da versão final da mesma. Bowie inclusive insinuou que a letra não encaixava direito com o que estava sendo proposto. Porém, a insistência de Dennis Katz (um funcionário da RCA, a gravadora de Bowie na época), que achou a música muito boa e viu na mesma um single de sucesso, colocou "Starman" na quarta faixa do lado A, e fez da mesma um grande sucesso, com seu compacto ficando na décima posição entre os mais vendidos no Reino Unido. A canção estourou em uma apresentação no Top of the Pops, uma das primeiras de Bowie travestido como Ziggy, sendo essa considerada um marco para a mudança na vida do inglês.


"Suffragette City" é outra que não era para ter entrado no álbum, pois originalmente, foi composta por Bowie para o grupo Mott the Hople, que preferiu gravar "All the Young Dudes". "Lady Stardust" foi concebida como uma homenagem para Marc Bolan, tanto que seu nome original era "He Was Alright (A Song for Marc)". Já "Rock 'n' Roll Suicide" foi a penúltima a entrar, tudo por que Bowie não estava certo se colocar uma faixa como essa iria pegar bem para sua imagem. Afinal, o produto que ele estava criando iria ser exterminado no mesmo disco. Arriscando sua carreira, a canção entrou como última faixa, e virou o segundo single do disco, alcançando a vigésima segunda posição.


Esses encontros e desencontros se encaixaram com excelência em uma obra-prima do rock. Ziggy Stardust suicidou-se em pleno palco, no dia 03 de julho de 1973, o dia em que o Glam Rock acabou. A partir de então, nascia Alladin Sane, um novo personagem, resquício do Glam Rock, mas sem o mesmo sucesso, e depois, viriam Diamond Dog, The Thin White Duck, Pierrot the Clown e diversos outros personagens que fizeram a imprensa apelidar Bowie de Camaleão do Rock. 


Ziggy e os Spiders na conferência de imprensa do lançamento de
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars


Anos depois do lançamento de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, Bowie revelou que tudo não passou de uma grande jogada de marketing. Ele detestava o Glam Rock (apesar de ser muito amigo de Bolan e de Lou Reed), não sentia-se bem como Ziggy, o comportamento com drogas era desumano e tão pouco ele era bissexual. Na época, ele ficou tão obcecado pelo projeto que realmente ele se sentia um Messias, principalmente durante a primeira parte da turnê de promoção do disco pelos Estados Unidos, no qual os fãs agarravam Bowie e tratavam ele como Deus. Bowie, em 1972, dizia: "Não me chame de Bowie, me chame de Ziggy, eu sou Ziggy".


Nessa mesma entrevista em que criticou seu comportamento, Bowie fez a reveladora frase de que: "As pessoas interpretaram Ziggy de forma errada. Ele nunca veio do espaço, ele era humano, como eu. O que veio do espaço foi a mensagem de um Homem das Estrelas, mas esse homem não era Ziggy" (David Bowie, em 1976).


Para se ter noção da importância de Ziggy Stardust para a música, grupos que não eram do Glam Rock acabaram tendo que se "fantasiar" como tal para angariar fãs. O caso mais emblemático é o Led Zeppelin. Apesar de vender discos como água, a imagem do grupo havia caído na imprensa. Para tentar recuperá-la, o empresário Peter Grant ousou, e ordenou que no palco, os integrantes passassem a usar roupas extravagantes e fazer performances próximas ao que Bowie havia feito.


Jimmy Page: a Roupa de Dragão foi influenciada por Ziggy Stardust
Nascia assim a Roupa de Dragão usada por Jimmy Page durante a turnê de Houses of the Holy (1973), os vários penduricalhos na roupa de John Paul Jones, a faixa na cabeça de John Bonham e Robert Plant mostrando o peito, com uma calça jeans puxada até o limite de seu saco escrotal, revelando detalhes de seu pênis, e principalmente, parecendo um ser andrógino, com insinuações bissexuais que chamaram a atenção tanto de mulheres quanto (de muitos) homens. O filme The Song Remains the Same (1977) apresenta essa imagem Glam do Led Zeppelin, imagem esta que durou apenas dois anos, tempo para a efervescência do estilo acabar.

O aniversariante do dia não alcançou o objetivo principal de Bowie. A quinta posição foi o máximo que o disco conseguiu chegar (septuagésima quinta nos Estados Unidos). Porém, suas canções repercutem ainda hoje, e mais informações você pode encontrar nesse site dedicado exclusivamente ao disco.


E se há cinco dias, nosso colaborador Marco Gaspari fez uma linda homenagem para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (o principal disco do Beatles, que completou 45 anos no dia 01 de junho), encerro essa matéria com uma frase dita no jornal Creative Loafing, em 1990:


Ziggy Stardust, elegante, famoso e com muito glamour

"The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é para a década de 70 aquilo que Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi para a década de 60. Não o melhor disco de David Bowie, mas o mais importante e revolucionário. O mundo ainda vai ouvir falar e muito sobre ele.

Track list

1. Five Years
2. Soul Love
3. Moonage Daydream
4. Starman
5. It Ain't Easy
6. Lady Stardust
7. Star
8. Hang on to Yourself
9. Ziggy Stardust
10. Suffragette City
11. Rock 'n' Roll Suicide
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