quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consultoria Recomenda: Discos em que o vocalista também é o baixista



 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Marcello Zappellini

Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcelo Freire

Quando chegou a minha vez de propor um tema, pensei um pouco e decidi homenagear o instrumento musical que normalmente mais me chama atenção no rock e seus múltiplos subgêneros: o baixo. Mas, simplesmente falar de baixistas não seria muito interessante, então pensei na ideia de trazer recomendações de discos em que o baixista seja o vocalista principal. Uma regra foi aplicada: não poderia haver outro vocalista principal na banda, o que levou a deixar de lado Beatles e Kiss, por exemplo. Embora não tenha ficado explícito, também não caberia indicação de baixista/vocalista em carreira solo. O resultado foi uma lista bem variada, como se pode ver. (Marcello Zappellini)


The Police - Regatta de Blanc [1979]

Por Marcello Zappellini

O segundo disco do The Police não é muito lembrado na carreira da banda, pois não teve a novidade do primeiro nem o impacto de Sinchronicity, mas sempre esteve entre meus favoritos da banda. Diferentemente do primeiro LP, Sting não domina as composições (embora as duas músicas mais conhecidas sejam dele, “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon”), pois duas são creditadas aos três, uma a Sting e Stewart Copeland e três foram escritas por Copeland. O riff intrincado de Andy Summers em “Message in a Bottle” abre (muito bem) o disco, seguido pela faixa-título quase instrumental, e por “It’s Alright for You”, que não faria feio no primeiro disco; nessa, o baixo é creditado a Stewart Copeland. “Bring on the Night” traz um baixo mais trabalhado e, como tanto Andy e Stewart estão meio discretos na música, Sting se torna o destaque. “Deathwish” é uma canção injustamente pouco lembrada, em que o nosso baixista/vocalista de novo carrega a melodia. Já “Walking on the Moon” é um primor de simplicidade - ninguém precisa ser Chris Squire ou John Entwistle para fazer o baixo ser o instrumento que mais chama sua atenção. “On Any Other Day” é bem diferente e tem um estilo meio 50s/60s que o Police nunca mais explorou; “The Bed’s Too Big Without You” retoma o reggae com outro riff marcante de baixo, e "Contact” é bem new wave, e traz um interessante baixo em staccato, mas não escapa de ser a mais fraca do disco. Copeland é o responsável por “Does Everyone Stare”, em que toca piano. A enérgica “No Time This Time” encerra o disco, com outra bela linha de baixo em uma música que também podia estar no disco anterior. Nos vocais, Sting desempenha melhor aqui do que no primeiro LP, embora ele ainda fosse melhorar com o tempo; a impressão que tenho é que, para se dissociar do movimento punk, o grupo investiu em uma sonoridade mais sofisticada, o que passa pela voz do baixista. E o reggae é um estilo que favorece o baixo, que confere a necessária pulsação à música, tornando Regatta de Blanc um álbum digno desta lista.

Anderson: Um dos clássicos do The Police, sem sombra de dúvidas. Message in a Bottle e Walking on the Moon não me deixam mentir, mas poderia destacar "Deathwish" ou "The Bed's Too Big Without You" que em minha concepção representam muito a sonoridade da banda naquele momento. Acredito que algumas faixas poderiam ter sido deixadas de lado, mas como o material não é tão extenso é aceitável que permaneçam. Por fim, acho que a sonoridade apresentada pelo The Police aqui representa bem um dos caminhos que o rock estava desbravando no final dos anos 1970, o que torna o material ainda mais relevante.

André: Demorei um tempão, mas o som do The Police me fisgou depois dos 30 anos. É curioso como eles tentam fazer aqui uma espécie de reggae-punk-pop-rock. Como a guitarra de Andy Summers tem pouquissimo overdrive, o baixo de Sting acaba tomando conta da maioria das canções e, como vocalista, o Picada sempre se destacou. Para este tema, um ótimo disco e bem representativo como era de se esperar.

Davi: O The Police foi um grupo pop de primeiríssima linha, que contava com três grandes músicos e uma sonoridade bem definida e bem refinada misturando elementos de vertentes distintas como o punk e o reggae. Sua trajetória foi curta, mas deixou uma discografia impecável repleta de grandes hits e verdadeiras pérolas escondidas. Nesse segundo CD, os hits ficam por conta das inesquecíveis “Message In a Bottle” e “Walking On The Moon”, enquanto meus lados B favoritos ficam por conta de “It´s Alright For You” e “Bring On The Night”. Discão!

Mairon: Nunca fui muito com a cara do The Police, e sempre me perguntava o por que disso. Ouvi os discos da banda há muitos anos atrás, e desisti. Me culpava por um certo lado, pois alguns amigos que conheço consideram a banda revolucionária. Então, fui de coração aberto, quase 20 anos depois, para ouvir esse segundo disco deles, e pqp, logo de cara, em "Message in the Bottle", me dei conta de quão insuportável (e vexatório) é o Sting, que como baixista acho limitadíssimo, tentar cantar como o Bob Marley, e quão é terrível essa ideia de três britânicos quadradões tentarem fazer reggae de branco. O Clash ao menos foi honesto e fez letras que representavam um pouco o que é o reggae, mas isso aqui?? Que coisa tinhosa, que coisa detestável, que coisa triste saber que Andy Summers e Stewart Copeland, estes sim muito talentosos, fizeram parte de algo tão chato. Me surpreende um pouco de saber que o Rush gostou disso aqui, e se inspirou neles para fazerem "The Spirit of Radio", por que olha, musicalmente é vomitativo o que esses caras fizeram. Não tenho mais palavras para mostrar meu ranço com o The Police, mas se alguém quiser vir defender esses otários, que vá ouvir a imundíce chatíssima dos "io io ios" e "ie ie ies" da faixa-título ou de "Walking on the Moon". Me perdoa Marcelo (certeza que foi tu quem recomendou), mas que baita bost@. Preciso ouvir Zappa para limpar meus ouvidos.

Marcelo:


Robin Trower - Robin Trower Live [1976]

Por Marcelo Freire

 

Anderson: Definitivamente não gosto de álbuns ao vivo e esse me lembrou o motivo. Uma coisa é ir no show e viver aqueles momentos com todo o contexto emocionante que contam histórias únicas e pessoais. Agora, os álbuns ao vivo não expressam tudo isso, entendo sua importância em vários sentidos, como para registrar os distintos momentos pelos quais uma banda passa, bem como disponibilizar um material para um público que, possivelmente, nunca teria como ver in loco. Dito isso, o material apresenta todos os excessos que em um show caem bem, mas que se tornam maçantes em uma audição cuidadosa em casa. A banda, por sua vez, está impecável, reza a lenda que não sabiam que o material se tornaria um disco. Musicalmente, Trower mostra os motivos de ser considerado um dos grandes. Particularmente, as baladas me pegaram: Daydream e I Can't Wait Much Longer são muito boas e a execução é muito boa. Enfim, um ótimo material para quem curte Live.

André: Ótimo disco ao vivo de Trower, um destaque na guitarra blues rock. Em conjunto com o vocalista e baixista James Dewar, que também canta e toca pacas, temos um lindíssimo disco do melhor do que o blues rock setentista pode oferecer. Curioso como o comparam ao Hendrix. Mas a bem da verdade, realmente é o sujeito que eu mais vejo ter chegado próximo em termos de guitarra neste estilo.

Davi: Clássico álbum do grande guitarrista Robin Trower. Lembro que um tempo atrás, indiquei o Bridge of Sighs, em uma outra edição do Consultoria Recomenda. Bacana ver mais um disco dele por aqui. Não tem muito o que falar de novidade. Robin é um guitarrista brilhante, James Dewar é um vocalista de mão cheia (embora o trabalho vocal dele aqui tenha sido refeito em estúdio), e o set é fantástico. Claro... Como o LP da época era simples (atualmente existe uma edição de luxo mais completa), faltavam alguns sons como a fantástica “Day of The Eagle”, mas não tem como criticar um disco que traz sons como “Little Bit of Sympathy”, “Lady Love” e “Rock Me Baby”. Audição obrigatória!

Mairon: Robin Trower, James Dewar e Bill Lordan formaram um dos grandes power trios da história. Assim como Taste e a Stevie Ray Vaughan Band, a Robin Trower Trio era escorada na genialidade de seus guitarristas (para quem não sabe, o Taste era liderado por Rory Gallagher). Robin Trower sempre foi um filhotão de Jimi Hendrix, e suas qualidades são inquestionáveis, mas como o Recomenda se trata de baixista e vocalista, me concentro então a analisar o trabalho de Dewar. Seus vocais britânicos são nítidos e brilhantes, me lembrando muito os de Bobby Martin (que acompanhou Zappa nos anos 80) em faixas como a dançante "Too Rolling Stoned", o rockaço "Lady Love" e a doloridíssima "Daydream", uma das mais lindas canções da carreira de Trower, assim como a bela " I Can't Wait Much Longer", na qual Trower demole na guitarra. Além disso, o groove do seu baixo é a sólida base para "Little Bit Of Sympathy", "Rock Me Baby" e principalmente "Alethea", faixa pegadíssima, com um ótimo solo de Lordan, que remete diretamente ao Jimi Hendrix Experience e ao Cream. Apesar de achar que a mixagem do baixo está baixa ao longo de todo o álbum, é um disco que acerta em cheio no coração de quem ama rock, e principalmente, um bom e vigoroso power trio..

Marcello: O quarto disco-solo do ex-guitarrista do Procol Harum é um absurdo de bom, e faz parte dessa lista por causa da presença do gigantesco James Dewar, ex-Stone The Crows e não somente um baixista excelente, como um vocalista dono de uma voz simplesmente fenomenal, cheia de soul. Falei mais desse álbum na matéria sobre o rock ao vivo  em 1976, e para não me repetir, vou me concentrar no desempenho de Dewar. O músico já brilha na introdução de “Too Rolling Stoned”, antes de Trower entrar com sua guitarra com wah-wah, e quando Dewar começa a cantar você percebe que está diante de algo especial. “Daydream”, mais suave e romântica, permite a nosso herói explorar sua bela voz, ao passo que “Rock Me Baby” prova que ele podia cantar blues muito bem. “Lady Love”, que encerra o antigo lado 1, não permite muito destaque a Dewar, mas na sequência tem-se a monumental “I Can’t Wait Much Longer”, em que Robin estraçalha na guitarra – mas James consegue nos fazer esquecer dele em alguns momentos. “Alethea” se assemelha um pouco em termos de desempenho vocal a “Too Rolling Stoned”, e o disco se encerra com “Little Bit of Sympathy”, em que Trower arrasa novamente e Bill Lordan tem direito a um curto solo de bateria. Preciso chamar atenção para o timbre pesado de James no baixo, que soa em alguns momentos como se ele usasse distorção, mas, até onde sei, isso não ocorre. Robin trabalharia com bons baixistas (Jack Bruce, por exemplo), mas James Dewar (infelizmente falecido ainda jovem) foi seu parceiro ideal, e Live! está aí para provar.


Som Nosso de Cada Dia - Som Nosso [1977]

Por Mairon Machado

Minha recomendação é mais uma forma de homenagear um dos maiores baixistas/vocalistas do Brasil, além de ser um cara muito simpático e querido, que tive a honra de entrevistar pouco antes de seu falecimento. Pedrão Baldanza tocou com praticamente todos os grandes nomes que o nosso país revelou, e foi na Som Nosso de Cada Dia que teve sua criatividade progressiva revelada, através do excelente Sneges (1974). Depois de uma reformulação no line-up da banda, em 1977 veio o segundo álbum da banda, com uma sonoridade totalmente moderna e diferente de seu trabalho antecessor.  famoso Lado Sábado é para realmente se divertir com uma noitada de fim de semana. Nele, os vocais rasgados e trêmulos de Pedrão de sobressaem em faixas como , "Levante a Cabeça", "Pra Swingar" e seu baixo swingado aparece em faixas como "François", além de comandar o riffzão no groove de "Estação da Luz", "Pra Segurar", praticamente arrebentando as cordas, e "Vida de Artista". Já o lado Domingo é para aquele dia que você apenas relaxar com um som bastante progressivo, na linha Snegs, com os vocais característicos de Pedrão comandando "Bem No fim", e uma baita linha de baixo, e a tocante "Neblina", carregada nos viajantes teclados e nas delirantes vocalizações de Pedrão, além do baixão de "Água Limpa" e "Rara Confluência", pauladas prog com muito moog e guitarra. Destaque total neste lado para "Montanhas", com um show a parte do baixo de Pedrão (e da bateria de Pedrinho), e certamente a faixa mais Snegs de um disco incompreendido, sendo fundamental e necessário de ser apresentado para as novas gerações.

Anderson: Não conhecia a banda, mas sua audição gerou momentos agradáveis. Sendo bem direto, há uma distinção interessante entre músicas mais animadas que podem ser inseridas no contexto da disco music e do funk, músicas que soam muito acessíveis, e por outro lado algo voltado para o rock progressivo. As músicas Bem no Fim e Montanhas representam bem esse segundo momento do álbum. Em minha opinião essa segunda parte é muito mais interessante do que o início, apesar de o disco como um todo ser muito agradável. Vale a pena ouvir na íntegra.

André: Gosto muito deste disco e Pedrão é o cara! Seu baixo pulsa com vida em praticamente todo o disco. Prog, funk, soul e jazz se misturam aqui facilmente, com a banda conseguindo a façanha de fazer essa salada sonora soar muito boa. Para um disco dos anos 70 com essa qualidade de som, tem que se tirar todos os chapéus possíveis.

Davi: Em Som Nosso, o grupo do saudoso Pedro Baldanza atacava em 2 frentes. O lado A trazia uma sonoridade com uma pegada funk/soul e um pezinho na MPB. OS arranjos são bem resolvidos e os músicos são excelentes. Quem curte aquela sonoridade setentista do Tim Maia deve curtir, principalmente a faixa “Levante a Cabeça”. Contudo, me identifico mais com a segunda metade do LP, onde os músicos apostam em uma sonoridade jazz/rock com forte influência do rock progressivo. Nessa segunda metade, o grande destaque vai para a bela faixa “Montanhas”. Foi um disco legal de reescutar, mas ainda prefiro o Snegs.

Marcelo:

Marcello: O representante do rock brasileiro na lista é um grupo de quem só conhecia um disco (que ouvi em fita, aliás!) e nem imaginava que tinha um baixista/vocalista (Pedrão). O disco tinha dois lados bem distintos: o lado A (“Sábado”) começa com “Para Swingar”, que faz jus ao nome com seu balanço funk, os metais e a voz canalhinha de Pedrão. “Levante a Cabeça” já dá mais destaque para o baixo numa música que dura pouco e deixa gostinho de “quero mais”, e “François” tem forte influência de disco music. “Para Segurar” põe os teclados em relevo e outro ótimo arranjo de metais. “Estação da Luz” e “Vida de Artista” foram compostas por Tony Osanah, figura conhecida no cenário da época, a segunda com um ritmo intrincado que destaca novamente os teclados e traz na letra a linha mortal: “para subir na vida é melhor ser ascensorista”. O lado B (“Domingo”) remete ao clássico álbum de estreia do grupo, Snegs (1974), com menor influência de black music. “Bem no Fim” tem outra linha de baixo fantástica e ótimos teclados, e “Montanhas” começa com aquele som “viajante” de meados da década de 70, trazendo uma bateria sensacional de Pedrinho Batera numa música meio jazz-rock, e quando você pensa que a música será toda instrumental, os vocais entram para concluir. “Neblina” não me chamou muito a atenção, mas “Água Limpa” traz um interlúdio instrumental com um piano sensacional. O álbum se encerra com “Rara Confluência”, com uma introdução de sintetizador que lembrou os bons tempos de Rick Wakeman e outra bateria fantástica. Apesar da habilidade impressionante dos músicos envolvidos, confesso que preferi o lado A. Som Nosso é um daqueles discos que se tivessem sido gravados nos EUA ou Inglaterra, poderia ter feito sucesso, especialmente se investisse no som do lado A. Infelizmente, nem aqui vendeu bem, e a banda acabou pouco depois.


Reverend Bizarre - II: Crush the Insects [2005]

Por André Kaminski

Embora o doom metal mais tradicional seja a base (nas quatro últimas faixas), fica claro que a banda se inspira no Sabbath setentista (nas três primeiras). Diferente das temáticas obscuras e melancólicas, o baixista e vocalista Albert Witchfinder volta e meia usa o humor em suas letras na criação de canções que não parecem se levar a sério. Por pouco não indiquei Goddess of Doom, mas pena que era apenas um single homenageando a deusa do terror Vandinha Addams, ou Christina Ricci, que até aceitou ser a capa do disco! É um doom metal divertido (isso existe?) e diferenciado, de uma banda que durou pouco mas que muitos a tem como seu "achado de estimação da qual não contarei a ninguém".

Anderson: Outra banda que não conhecia e que me surpreendeu bastante. O disco é uma loucura, começa mais cru e seco, soa como um stoner rock mais simples e clássico. Colocaria as três primeiras nessa lista, destaque para Doom Over the World, a mais interessante. Eis que a partir da quarta música, um épico de 13 minutos, a sonoridade muda vertiginosamente para um Doom Metal daqueles bem cadenciados. Até o final teremos músicas longas e arrastadas que criam uma atmosfera completamente melancólica. Em minha perspectiva, a última música Fucking Wizard é o maior destaque dessa “fase 2” do material, faz menção ao Black Sabbath, mas ao seu jeito. Acredito que o nome da banda justifica bem o material. Com certeza não é para qualquer um, ainda não sei me surpreendi positiva ou negativamente.

Davi: Segundo álbum da banda de doom metal da Finlândia. Confesso que não conhecia o grupo e que fiquei impressionado em ver como esse álbum é cultuado entre os críticos de metal. Sério... Não consegui enxergar toda essa qualidade que os caras mencionaram. Achei as composições chatas, a audição extremamente cansativa, o som da bateria extremamente sem graça e o trabalho vocal fraquíssimo. Definitivamente, não é pra mim.

Mairon: Nunca tinha ouvido falar desta banda, então, quando olhei a capa do álbum, pensei que viria algo de contexto histórico. O som é um doom metal sem muita energia, e onde o vocal e o baixo de Albert Witchfinder se destacam realmente. Apesar de ser um disco muito longo (1 hora e 13 minutos), e não ser o estilo de música que aprecio hoje em dia, reconheço qualidades no disco, principalmente em "The Devil Rides On" e claro, o épico "Slave of Satan", com uma longa introdução de baixo e que fiz questão de ouvir as duas versões (a versão single, completa, possui 21 minutos!) . Me lembrou algo do Misfits, sei lá, mas mais arrastado, em especial "By This Axe I Rule!" e "Fucking Wizard", cujos trechos velozes são sensacionais, mas o longo trecho arrastado em cada uma delas é bem cansativo. Se essas canções fossem uns 30% mais curtas, seria um ótimo disco. De qualquer forma, irei ouvir os outros dois álbuns do trio finlandês para ver se é assim mesmo. Recomendação interessante.

Marcelo:

Marcello: Quando recebi a lista, minha reação foi “quem???”. Quando vi a capa, minha reação foi “oh, não!”, e fui ouvir o disco sem muita expectativa. Quatro das oito músicas ultrapassam os 10 minutos de duração, e o baixista Albert Witchfinder se mostra um vocalista de bons recursos, além de mostrar segurança nas 4 cordas. “Doom over the World” me lembrou bastante do Black Sabbath: teria sido interessante ouvi-la com Tony Iommi e Tony Martin! Mas dispenso o papo furado no final, que não contribuiu em nada com a música. “The Devil Rides Out” mantém o clima sombrio e um solo curiosamente melodioso. Na sequência, a menor música do disco (só 5’22”!): “Cromwell” fala do Lord Protector, mas, como não fui atrás da letra, não sei o que ele veio fazer aqui no meio do disco – diferentemente das duas primeiras, as influências sabbathianas passam longe dessa música. Foi uma quebra interessante no meio do disco, para falar a verdade. O baixo introduz “Slave of Satan” - da faixa mais curta à mais longa – e os vocais de Witchifinder, embora ocupem pouco espaço na música, são o principal destaque. A música, em si, é um pouco monótona e não caiu no meu gosto. “Council of Ten” mantém o ritmo arrastado da anterior, e de novo o vocal me chamou a atenção, mas a mudança de ritmo n terço final ficou bem legal. “By This Axe I Rule” mantém o clima soturno e o mesmo ritmo das duas anteriores – parece que o baterista se cansou, hehehe. O baixo ganha algumas distorções, tornando-o o instrumento mais proeminente, e puxa uma acelerada na música que mais uma vez me lembrou o Sabbath. “Eternal Forest” não muda muito em relação às músicas anteriores – mesmo problema de “Fucking Wizard”, essa uma “Black Sabbath” (a música, não a banda) sem os mesmos atrativos. No fim das contas, algumas músicas sofreram por ter uma duração muito longa e se tornaram bastante monótonas e repetitivas, mas II: Crush the Insects funcionou bem nas músicas mais curtas – as longas mereciam algumas tesouradas ou pelo menos introduzir outros instrumentos nos arranjos. Foi bom para conhecer, mas não acho que voltarei ao Reverend Bizarre.


Sacred Reich - The American Way [1990]

Por Anderson Godinho

Esse álbum, na discografia da banda, significa uma mudança para um som mais pesado e menos veloz em relação aos anteriores. Phil Rind comanda as mudanças com algumas passagens mais grooveadas, mas é Greg Hall quem se destaca mais com seus arranjos para a bateria (inclusive em 1991, Hall deixa a banda). As letras também são destaque no sentido de apresentarem um tom mais politizado. Alguns clássicos da banda como Love...Hate e a faixa título The American Way até os dias atuais são lembradas nos shows. Algumas elucubrações e invencionices também são lembradas, mas não necessariamente por serem boas, 31 Flavors é um pavor. De modo geral é um bom disco de Thrash Metal, longe de se destacar em meio à multidão, mas tem bons momentos e é um material lembrado na discografia da clássica banda do Arizona.

André: Já ouvi alguns discos dessa banda, incluive este The American Way. Tem aquela mistura de thrash e groove tal como o contemporâneo Pantera, mas sem a qualidade dos riffs de Dimebag Darrel. É um disco bom, na parte de baixo e vocais, o responsável Phil Rind consegue um desempenho satisfatório embora ele não seja nem um grande baixista e nem um grande cantor. A música que mais gostei foi "Crimes Agains the Humanity", incluisive com a intro fazendo uso em destaque do baixo com os vocais.

Davi: The American Way é o segundo álbum do Sacred Reich. O disco aposta em um thrash metal bem cadenciado, bem trabalhado, com um ‘q’ de groove metal. Gosto bastante tanto de thrash, gosto de groove metal, mas não gostei do disco. O trabalho de guitarra de Wiley Arnett é o muito bom, mas o trabalho vocal de Phil Rind é muito fraco. Sua interpretação não me convence e as linhas vocais não me empolgam. No fim do disco há uma faixa chamada “31 Flavors”, onde a banda soa muito como o Red Hot Chili Peppers na época do Freaky Styley. Algo que destoa totalmente do restante do álbum e, mais uma vez, não convence. A melhor música do disco é “Who´s to Blame”, ainda assim longe do que considero uma grande canção.

Mairon: O Sacred Reich é daquelas bandas que mereciam mais reconhecimento dentro do thrash, e que legal ver os estadunidenses aqui. Este segundo disco é uma mudança sonora radical no som dos caras, lembrando um pouco o Anthrax, graças ao genial líder, baixista, vocalista e faz tudo Phil Rind. Com letras bastante críticas, o álbum é muito coeso, e em termos da performance de Rind, o cara tem uma voz interessante, a qual destaca-se principalmente na pesada "Who's to Blame". Mas admito que curto mais ele como baixista. Afinal, ele cria excelentes riffs, vide "I don't Know" e  "The Way It Is", duelando com as guitarras de Wiley Arnett e Jason Rainey . Gosto bastante da pancada "The American Way", e das longas "Crimes Against Humanity", com o baixo estourando as caixas de som, e "State of Emergency", pesadíssima, e com o baixo também marcando presença. Fechando o disco, como não curtir a audácia de "31 Flavors"?. Um funkzão recheado de slaps no baixo, com Rind emulando Mike Patton, e um ótimo naipe de metais que provoca o ouvinte a "sair da caixinha" e ouvir algo totalmente inovador dentro do Thrash, e com uma letra sensacional. Disco clássico que me surpreendeu de ver por aqui, e me fez abrir um sorriso de orelha a orelha. Parabéns ao consultor que o indicou!

Marcelo:

Marcello: Uma banda que ouvi algumas vezes nos anos 90 e estava completamente esquecida para mim. E outra que também não sabia que tinha um baixista (Phil Rind) como vocalista principal. Este segundo LP da banda começa com “Love/Hate”, que te dá uma paulada na cabeça; a faixa-título é um pouco mais cadenciada e lembra um pouco o ritmo que o Metallica seguiu nos anos 90 (gostei bastante do riff de guitarra de Jason Rainey). “The Way It Is” pareceria à primeira vista ser uma música meio conformista, mas repetir “this is reality” ao longo dela mostra que a cabeça de Phil Rind está em outro lugar. “Crimes Against Humanity” traz um bom solo de Wiley Arnett, que infelizmente dura pouco tempo, mas, sobretudo, um desempenho fantástico do baterista Greg Hall. “State of Emergency” mantém o clima da anterior, e gosto bastante do baixo palhetado de Rind nessa música. Daí até o final são três músicas mais curtas (pouco mais de 10 minutos), com a introdução suave de “Who’s to Blame” quebrando o peso do disco – mas não deixe a impressão inicial te enganar, porque depois a música acelera, diminuindo o ritmo novamente para o solo de Wiley. “I Don’t Know”, pelo contrário, não dá moleza para o ouvinte, sendo quase punk. A grande curiosidade é “31 Flavors”, com um ritmo funk que se amplifica com os metais e vocais que parecem rap. Parece um cruzamento do Sacred Reich com o Red Hot Chili Peppers, mas ficou muito legal. Não conheço muito da carreira do Sacred Reich, mas The American Way é um bom disco, ainda que meio curtinho, e vou procurar mais coisas deles para ouvir.


Winger - Pull [1993]

Por Davi Pascale

Esse é e sempre foi o meu álbum favorito do Winger. Não é o mais famoso deles (alcunha que fica com In The Heart of The Young), mas foi o disco que me tornou fã dos rapazes. Os músicos envolvidos são todos de primeiro calibre e Kip Winger é um cantor de mão cheia (algo que já fica claro na música de abertura “Blind Revolution Mad”). O disco é muito bem feito e mescla hard rocks um pouco mais pesados do que o grupo costumava fazer (caso de canções como “Junkyard Dog” e “In My veins”), com baladas de extremo bom gosto (como “Who´s The One”, “Spell I´m Under” e “The Lucky One”), além da divertidíssima “Down Incognito”. A banda entregava aqui um trabalho maduro, com interpretações de primeira, mas o lançamento acabou ofuscado pela mudança de mercado que ocorria na época. Disco altamente recomendado para os fãs de hard rock.

Anderson: Mesmo tendo dado uma “estudada” na carreira do Winger para o Bangers Open Air desse ano, não tinha ouvido esse material na íntegra. É muito bom! Fazia um bom tempo que não ouvia um Hard Rock tão bem feito. Devia ter dado mais atenção ao show de Kip Winger e Cia no festival. Elementos de Skid Row são evidentes, aquele peso característico, mas sem perder a melodia em nenhum momento. Dedilhados, solos, backvocals muito bem pensados chamam a atenção, também. É impressionante como, mesmo tendo perdido o tecladista, tornando-se um trio, a banda soa mais cheia e pesada do que materiais anteriores. Geralmente gosto de apontar ao menos três músicas que me chamaram mais atenção, porém aqui fico com o conjunto da obra, 47 minutos muito bem utilizados. Dessa lista, o que mais gostei de conhecer.

André: Há anos não ouvia este álbum. Embora eu ainda prefira o anterior, este trabalho me soou também muito bom e bem consistente para um hard rock farofa. Já era uma época de vacas magras para o estilo (1993, que excetuando o Guns e mais umas poucas, não havia mais espaço para o gênero), todavia o disco soa pesado e bacana. Porém, para o tema, o disco soou fraco em termos de baixo, com Kip Winger apenas cozinhando sem nenhum solo ou toque diferenciado, exceto em algumas pequenas partes acústicas.

Mairon: Fazia muito tempo que não ouvia o Winger, e foi legal voltar neste terceiro disco dos caras. Acho que é um dos mais pesados da carreira deles, mesmo com as mesclas de momentos acústicos com elementos mais pesados, e muito pelo baixão do Kip Winger, que aliás é um dos grandes vocalistas de sua geração. Reb Beach é um monstro nas seis cordas (não à toa Coverdale o levou para o Whitesnake anos depois), mas concentrando-se na performance de Kip, o cara está soltando a garganta como manda o bom figurino do Heavy Metal da época, e eu destaco aqui seus vocais em "Blind Revolution Mad" e "No Man's Land'. Já no baixo, o trabalho de faixas como "Junkyard Dog (Tears On Stone)" e "Like A Ritual" chamam a atenção pelo peso. E claro, Winger sem baladinha nao é Winger, e ela aparece através da lindinha "The Lucky One", que deve fazer muito casalzinho ainda se ronronear romanticamente, e nao tão empolgante assim "Who's The One", que eu acho a mais fraquinha de Pull. No mais, destaque total para "Spell I'm Under", musicaço com ótimos arranjos vocais, e uma audição de uma banda que sempre é legal redescobrir, apesar de não fazer parte do meu ambiente musical.

Marcelo:

Marcello: O grupo que leva o nome de Kip Winger era outro que estava esquecido do meu lado, e pensava ter ouvido o disco nos anos 90; no final das contas, acho que só tinha escutado os dois primeiros álbuns deles, pois não reconheci nenhuma música ao colocar Pull pela primeira vez. A banda estava reduzida a um trio, trazendo Reb Beach nas guitarras e Rod Morgenstern na bateria, e no álbum explora um som mais hard e menos glam do que nos discos anteriores. “Blind Revolution Mad” abre (bem) o álbum com uma música bem trabalhada e com boa variação de ritmos. Uma harmônica (inesperada) inicia “Down Incognito” com seu refrão feito para ser berrado ao vivo; uma das melhores músicas do disco, em minha opinião. “Spell I’m Under” é mais leve e mais baladeira, com belo desempenho vocal do chefe da banda; não compromete, mas também não chega a se destacar, apesar do belo solo de Beach. “In My Veins” reintroduz o peso no disco, e apresenta outro bom solo do guitarrista. “Junkyard Dog” remete à abertura, por ter trechos mais suaves, com violões no arranjo. “The Lucky One” é outra das melhores, para mim, uma quase balada muito bem trabalhada, mais uma vez com arranjo incluindo violões, ao passo que “In for the Kill” traz um órgão proeminente na introdução que, infelizmente acaba ficando muito baixo em boa parte da música. “No Man’s Land” não me chamou a atenção em nenhuma das audições, soando como a banda em piloto automático, enquanto “Like a Ritual” (com outro bom desempenho vocal de Kip e um solo de bateria para encerramento) e “Who’s the One” (mais uma música lentinha levada no violão) encerram o disco em nível elevado. Pull é um bom disco, que me agradou mais do que os dois primeiros, mas não me converte em fã do Winger.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Wapassou

Quando se fala no rock progressivo europeu, é claro que o Reino Unido é a principal fonte de matéria-prima do gênero. Com os cinco gigantes (Pink Floyd, Yes, King Crimson, Emerson Lake & Palmer e Genesis), e mais os igualmente grandiosos Van Der Graaf Generator, Renaissance, Curved Air, Gentle Giant entre outros, a ilha da Rainha (agora Rei) é com certeza o maior celeiro de bandas que imortalizaram o estilo. 

Porém, atravessando o canal da mancha, a França também disponha de bons nomes do rock progressivo, principalmente nos anos 70 e 80. É o caso de Ange, Art Zoyd, Catharsis, Malicorne e também, o Wapassou. O grupo de Estrasburgo surgiu em 1972, com uma sonoridade bastante influenciada pela psicodelia londrina, e não pelo progressivo. Porém, logo na sequência, o Wapassou criou algumas das melhores obras progressivas da França, tornando-se um dos maiores nomes do rock daquele país ao longo dos anos 70, fazendo uma mistura única e exclusiva de guitarras, violinos, teclados, vozes femininas e muitos elementos clássicos fundidos, em uma banda que não contava nem com baixista e tão pouco com um baterista. Como afirma o texto da contra-capa do primeiro disco da banda, o Wapassou não é um grupo de músicos, é o refúgio da música.

Wapassou ao vivo: Brua, Nickerl e Lichti

Venho aqui então contar a história desta bandaça, praticamente desconhecida por terras brasilis. O grupo era formado pelo trio Freddy Brua (teclados, piano, sintetizadores), Karin Nickerl (guitarras, vocais) e Jacques Lichti (violino), além de contarem com a colaboração do engenheiro de som Fernand Landmann nos equipamentos acústicos. 

O álbum de estreia

Lançado em 1973 pelo pequeno selo Prodisc Strasbourg, somente na França, Wapassou é um disco bastante exploratório dos teclados de Brua. Logo de cara, já somos surpreendidos pelas camadas de teclas e efeitos na belezura de "Mélopée", uma linda faixa instrumental, com um belíssimo arranjo de cordas, além da participação da flautista Geneviève Moerlen. Outra participação vem em "Musillusion" (Wapassou)", desta vez com o clarinete de  Jean-Jacques Bacquet, em uma faixa onde os vocais sobrepostos de Karin se destacam junto do violino. Bacquet e Moerlen estão juntos em "Châtiment", que também traz o percussionista  Jean-Michel Biger, em uma canção mais acessível dentro dos padrões musicais comuns na indústria musical, e cujos vocais sussurrados de Karin são arrepiantes, além das gigantescas camadas de teclados, do lindo tema de violino e claro, o belo solo de Moerlen.

São nas duas faixas longas do disco que podemos ver mais a fundo o que é o som do Wapassou. "Rien" é uma hipnotizante canção carregada de variações entre o órgão, piano, piano elétrico e sintetizadores, com o delicado vocal de Karin tomando conta da primeira parte da canção, e o longo e viajante solo de violino faz na segunda metade, fazendo estripulias. Já "Trip", contando com a participação de Biger e do baixo de Jean-Pierre Schaal, é uma maluquice sensacional onde os teclados e a percussão são contagiantes em toda a primeira parte, e na segunda parte, é a vez da guitarra de Karin brilhar sobre as camadas de teclados. A faixa conta ainda com a tímida participação, ao final, de Christian Laurent (Sitar) e de Benoît Moerlen (tumba), dando um ar oriental para uma grandiosa faixa. 

Compacto de "FemmesFleurs",
com "Borgia" no lado B

Wapassou foi relançado na França e no Japão em 1987, tendo recebido edições em CD na França e Coréia do Sul (1997) e no Japão (2009), assim como um lançamento em CD e LP nos Estados Unidos (2015). Após os lançamento discreto do 1º álbum,  o trio gravou e lançou o raríssimo single "Femmes-Fleurs" / "Borgia", sendo ambas as faixas instrumentais, com a primeira  dedicada para os teclados criarem uma atmosfera delirante que libera a guitarra de Nickerl para solar tímida mas envolventemente, e a segunda uma ótima faixa, na linha dos instrumentais do Deep Purple, mas com solos alternados de violino e teclados. Em ambas as faixas há a participação de um baterista, o qual não é creditado no single.

Começam 1975 com uma série de shows locais. A abertura dos shows na região Leste era feita pelo poeta-recitador alsaciano Guy Friedrichs, também empresário do grupo na região Leste, acompanhado pela banda. Em 7 de março de 1975, ele abriu o show na igreja do Christ-Ressuscité em Estrasburgo, onde o Wapassou inovou, com um verdadeiro espetáculo, tendo projeções de imagens que não havia sido visto antes na França. Destaque para o mosaico da rosácea da Catedral de Estrasburgo, cuja imagem era multiplicada ao infinito por um prisma, e projetada por toda a sala onde o trio se apresentava, obra de Gisele Landmann. 

Na mesma época, o grupo apresentou em primeira mão sua nova e ambiciosa composição "La Messe en Ré Mineur". O sonho de Freddy Brua de tocar uma obra com quase uma hora de duração, em uma igreja, se concretizava. Elaborada e trabalhada durante o verão de 1974, essa composição se estrutura em 4 movimentos (descoberta, missa em ré, nona, grande final). O grupo havia se tornado puramente instrumental.

Brua e Nickerl em estúdio

A música do Wapassou era então comparada ao krautrock alemão. Mas se por um lado ela se aproxima na forma, com sua proposta intelectual, sua repetitividade e a difusão de atmosferas, no conteúdo ela se afasta completamente por causa da ausência de facilidades nos temas, pela diversidade e beleza deles, pela evolução constante, pela escrita estruturada da música e pelo apelo ao sonho, à evasão, pelos sentimentos de plenitude, mas também de angústia e tensão que ela gera. O Wapassou desenvolve uma música original, impressionista, sugestiva, fascinante por sua beleza melódica. 

Em 14 de março, o grupo repetiu o feito na igreja de Wiesberg em Forbach, na Mosela. O repertório da banda começava então com "Musillusion", extraída do primeiro álbum, seguido pela íntegra da "Messe En Ré Mineur". O Wapassou oferecia assim uma hora e meia de espetáculo, sem encenação, apenas o show de luzes conferindo um acompanhamento e um perfeito complemento visual à apresentação. Na verdade, as projeções de imagens, cores, movimentos e vibrações sobre uma tela e sobre os próprios músicos, contribuíam para a magia e para o impacto da música. Os músicos, as imagens e as cores se fundiam em uma simbiose total.

O mestre Jaques Lichti

A formação inusitada, em trio (órgão, violino usado tanto na base rítmica quanto como solista, guitarra elétrica com função de base ou de guitarra solo, guitarra acústica e baixo), sem bateria, sem baixo, desnorteia no início, mas depois demonstra sua eficácia e convence o público pela riqueza, pela coesão e pela perfeição. Em março de 75, o grupo, que até então só tinha recebido críticas em jornais regionais, graças aos seus shows, chamou a atenção dos jornalistas franceses. A revista Best dedicou-lhe um artigo elogioso de uma página, onde o jornalista destacou essa mistura de classicismo, referências a Bach e Wagner, mas também a Riley, e o caráter romântico, místico, onírico, impressionista e sinfônico de sua música original.

Durante o verão de 1975, o Wapassou fez uma turnê pelo Sudeste da França, região do seu empresário Dominique Kihm, que, embora morasse a mais de 1000 km do grupo, se ocupava com eficiência de conseguir shows, turnês e apresentações na TV para o trio. Durante essa turnê de verão, conhecem Paul Putti, um jornalista da Rock'n'Stock e criador do selo independente Pôle, dedicado à música francesa e que tinha sua própria rede paralela de distribuição. Philippe Constantin, ex-jornalista da Rock'n'Roll, que trabalhava então para a Pathé-Marconi, também conheceu o Wapassou e se mostrou interessado pela música deles. O grupo gravou às suas próprias custas uma fita em um estúdio em Estrasburgo, na esperança de ser contratado por essa gravadora.

A talentosíssima Karin Nickerl

A Pôle propôs produzir o próximo disco, e em setembro, começam as gravações do novo álbum. Porém,  após 3 dias, problemas técnicos e financeiros levaram ao encerramento definitivo do projeto com a Pôle. Em outubro de 1975, Freddy Brua foi preso por insubmissão militar e o grupo pensou em se dissolver. No entanto, após 3 meses, Freddy, depois de ter ficado internado várias semanas em um hospital militar, foi considerado com problemas mentais e liberado de seus afazeres no exército. O grupo retomou aos poucos o caminho dos shows, mas nem tudo era festa, já que no mesmo período, descobrem que as fitas gravadas no estúdio de Estrasburgo haviam sido deterioradas, e portanto não puderam ser apresentadas à Pathé.

No entanto, mesmo com a perspectiva de ser contratado pela Pathé desaparecendo, Freddy Brua, que em 1972, aos 15 anos, havia organizado um festival em Estrasburgo com o Ange, e que havia sido apresentado no palco por Jean-Claude Pognant, do selo Arcane, fez amizade com Pognant. Eles se encontraram várias vezes em Belfort, e no fim de 1975, apresentou a Pognant uma fita do Wapassou contendo trechos da "Messe en Ré". Após ouvir, Pognant se mostrou interessado pela música deles, que, com o sucesso na França de bandas como Tangerine Dream e Popol Vuh, podia conquistar o público. Assim, desejando incluir em seu casting um grupo desse estilo de música agradável e onírica ao mesmo tempo, resolve contratá-los para o seu selo. Em dezembro de 75, o grupo se apresentou em Luxemburgo e em Frankfurt.

Wapassou e colaboradores: Michel Lacour (luzes), Jaques Lichti (violino),
Karin Nickerl (violões), Fernand Landmann (som),
Freddy Brua (teclados) e Dominique Kihm (empresário)

Em janeiro de 1976, Pognant contratou oficialmente o Wapassou para o seu selo. Em 6 de fevereiro de 1976, fazem novo concerto em outra igreja de Estrasburgo. "A Missa" havia evoluído: o grupo abandonou as longas performances individuais, condensou sua obra e reforçou assim a potência, o impacto e a grandiloquência de sua composição. Em março de 1976, as dificuldades financeiras diminuíram, a perspectiva de separação desapareceu e o grupo adquiriu um novo sistema de sonorização totalmente estereofônico, dando à sua apresentação ao vivo a qualidade sonora de um disco.

Projetada especialmente para os instrumentos, a mesa de mixagem, nas mãos de Fernand Landmann dava ao som do grupo potência, energia e amplitude, dando a sensação de que o Wapassou era composto por mais do que 3 músicos. Brua, com seu simples órgão de 3 teclados e um tecladinho minúsculo, colocado como um mini-guia de canto sobre a mesa do seu órgão, surpreendia pela multiplicidade e originalidade dos timbres produzidos, como o cravo e o órgão de igreja. Entre 10 e 20 de julho, fazem a gravação do segundo álbum, sob a direção do técnico de som Bernard Belan, e com uma mesa de 16 pistas. A mixagem foi realizada por Fernand Landmann e Frédéric Fizelson, técnicos de som do Wapassou. Já a capa foi concebida por Michael Lancour, responsável pelo show de luzes. 

O início de uma trilogia essencial

Messe En Ré Mineur chegou às lojas em novembro de 1976. Este disco é daqueles para se parar o que se está fazendo e apenas admirar a obra exalando dos sulcos do vinil. O trio aqui cria uma canção única, com um ar étereo e singular de quase 40 minutos (39'57"), somente com teclados, violão/guitarra e violino, além dos doces e belos vocais da convidada e soprano Eurydice, de apenas 17 anos, e que entrou para o grupo em abril de 1976. As mudanças nos andamentos musicais, ora com o órgão sendo destaque, ora com o violino mandando ver, ora com o violão sendo o centro das atenções, ora com os agudos arrepiantes de Eurydice, é o que faz ser a chave-mestra do som do Wapassou. 

Destaca-se o uso de efeitos no violino, com um belo solo exclusivo do instrumento ocupando um bom trecho do lado B do vinil, os intrincados arranjos das escalas na guitarra e no violão, os diversos instrumentos de teclas (órgão hammond, farfisa, mellotron, piano, sintetizadores, ...), a incansável alternância de ritmos, enfim, uma vasta imensidão de sonoridades para ser admirada e explorada por ouvidos apaixonados pelo rock progressivo, em um dos melhores discos do grupo, que certamente irá agradar fãs de Mike Oldfield. 

O lindo logo da Crypto

Lançado somente na França no formato LP, depois teve relançamentos em CD na França (1994) e Japão (1995 e 2009). Com "La Messe En Ré Mineur", o Wapassou desenvolve uma música atmosférica, ora angustiante, torturada, atormentada, ora pacífica e serena. A enormidade do som do órgão esmaga pela sua potência, acentuando o clima às vezes pesado e sombrio da composição, sublinhado pelos lamentos do violino. O órgão desenvolve uma trama rítmica hipnótica, repetitiva, encantadora, que ele quebra às vezes para introduzir uma sequência, um novo movimento até o final, momento grandioso do espetáculo, representando o apocalipse da felicidade.

Pognant, nesse meio tempo, havia rebatizado seu selo, pois o nome não havia sido registrado e um selo inglês com o mesmo nome o obrigou a mudar de nome. Ele optou por Crypto, palavra encontrada no dicionário, que significa "o sentido das palavras ocultas" e tem o mesmo número de letras que Arcane. Ele manteve seu logo gráfico com a guitarra e as pinças de escorpião, e trocou de distribuidora. Assim, o álbum foi distribuído pela RCA e recebeu uma recepção entusiasmada da imprensa e do público, que considerou esse disco como o primeiro álbum deles - Wapassou, o verdadeiro primeiro, sem distribuição oficial e já esgotado, era desconhecido dos críticos de rock. 

O gênio Freddy Brua

Freddy Brua explica que "La Messe en Ré Mineur" não passa de uma sequência de temas que foram elaborados tanto em tempos de angústia quanto em tempos de felicidade. Para ele, a sonoridade do título agradou ao grupo, mas a composição não guarda nenhum valor ou referência religiosa. "La Messe" é dominada pelo órgão, que expressa a dor, à qual se somam os lamentos da voz de Eurydice: esta obra representa a expressão da vida cheia de forças opostas: angústias e loucas felicidades ao mesmo tempo. A missa simboliza um equilíbrio de sentimentos e de estados de alma, a luta entre o bem e o mal. Para o disco, o Wapassou apresentou uma versão propositalmente mais leve, mais curta, colorida e mais aprimorada.

O público aclamou o álbum, que atingiu em poucos meses 1000 cópias vendidas, uma façanha para um grupo tão pequeno. Jean-Claude Pognant não esperava vendas como essas para um o disco, que continuou a ser vendido permanentemente até alcançar 6000 cópias em 1981. Com esse álbum, o Wapassou impôs sua música original, onírica e bela, sensível e angustiante ao mesmo tempo, de um sinfonismo precioso e envolvente, com grande riqueza harmônica e melódica, grandiosa até mesmo em suas passagens atormentadas. Um disco que iria impor esse trio como um dos grupos franceses mais promissores e mais inovadores da segunda metade dos anos 70.

Lichti, Brua, Landmann e Nickerl

Voltando no tempo, em março de 1976, o Wapassou fez uma turnê pelo Sudoeste da França, e em abril pela região parisiense. O grupo incluiu como prelúdio de "La Messe En Ré Mineur" uma nova composição, "Salammbô", inspirada no livro de Gustave Flaubert. Ao longo de 75, Freddy Brua escreveu essa peça que representa a continuação da "Missa", que celebrava a vida, enquanto "Salammbô" descreve os horrores da guerra e da morte. Já com Eurydice, sua voz clara e frágil, de grande pureza, modulava os sons e alcançava notas muito agudas, reforçando o clima solene e enfeitiçante da música do Wapassou. Em maio e junho fazem uma turnê pela Costa Azul, com shows e La Seyne, Marseille, Draguignan, Toulon, Hyères (abrindo para o Potemkine), Perpignan, Marignane, e St-Tropez (abrindo para o Caravan). 

O grupo trabalhou bastante, compondo e gravando a música de um filme ecológico sobre a sobrevivência da Camargue, destinado a escolas de ensino médio, e também o jingle do festival de Sarralbe, na Moselle, onde apresentam-se nos dias 26 e 27 de junho, e do qual participou Scorpions, Atoll e Carpe Diem. 

A dupla Nickerl e Lichti

Em julho de 1976, antes de gravarem o segundo álbum, participam do festival Le Rock d'lei, organizados pela Crypto, que incluiu outros grupos do selo: Guidon, Edmond & Clafoutis, Mona Lisa, Carpe Diem, Little Bob Story e Ange. Estava previsto que a Crypto gravasse e lançasse um álbum duplo ao vivo como lembrança dessa turnê, mas embora os shows tenham sido gravados — com exceção dos do Wapassou — por razões financeiras e técnicas o resultado não foi considerado satisfatório para um lançamento em disco. A sonorização dos shows estava a cargo de uma agência inglesa que ajustava o som para a apresentação do Ange e negligenciava completamente os outros grupos. Essa turnê, no entanto, terminou para o Wapassou no dia 9 de julho. O show previsto para St. Tropez foi proibido pela prefeitura de última hora e Dominique Kihm conseguiu em cima da hora transferi-lo para sua vila em Six-Fours Plage. A turnê da Crypto não obteve o sucesso esperado: o Magma substituiu o Ange em 2 shows. O público ainda não estava pronto para sair de casa para um festival só com grupos franceses.

Logo após o fim das sessões de gravação, o Wapassou retomou sua maratona de shows, mas Eurydice encerrou ali sua colaboração, sentindo-se nova demais para levar a vida de musicista profissional com todas as dificuldades que isso envolve. O Wapassou voltou à formação em trio e, no dia 28 de julho, tocou em Nice, e depois continuou em turnê por toda a França no outono. O show deles incluía agora "Salammbô" e "La Messe En Ré" e durava quase duas horas, mas atraindo um público muito pequeno.

O excepcional Salammbô

Com muitos problemas financeiros, "Salammbô" só foi ganhar vida em setembro de 1977. Este é o disco que me apresentou ao som do Wapassou, e é um álbum muito soturno. Baseado na obra de Gustave Flaubert, lançado originalmente em 1862, e que trata sobre a queda de Cartago, na Tunísia, segundo o próprio Flaubert, lhe causou "angústia que me sacudia como um oceano de imundície". O texto no encarte mostra que a história é pesada, com "forças obscuras que se apoderam do homem, levando-o a infligir sofrimento, sofrer, amar e morrer, a amar e matar. Confrontos de forças, carnificina, ossuário e apodrecimento". A faixa de 37 minutos traz logo de cara o piano, as vocalizações de Monique Fizelson e as falas nazistas mostram que o tema da morte irá permear o que sairá das caixas de som. Musicalmente, a peça é concentrada inicialmente nos teclados de Brua, com pouca ou mínima participação do violino e do violão, principalmente em comparação a Messe en Ré Mineur

Em uma segunda etapa, o órgão e o violino são os instrumentos que criam as atmosferas dramáticas e sombrias da suíte, onde sintetizadores e efeitos também brilham. A terceira etapa finalmente traz o violão, com camadas de teclados, órgão e uma leveza singular. O trecho onde a guitarra e o violino são os instrumentos principais é dramático, encantador, e de arrancar lágrimas até de seu animal de estimação. A canção vai se desenvolvendo criando uma trilha sonora perfeita para o livro, acompanhando os movimentos do romance em sua marcha incessante rumo à destruição de Cartago, com cada instrumento ganhando seu espaço, sempre acompanhado por longas e sinistras camadas de teclados, culminando com o fulminante solo de teclado sobre um ritmo espetacular do violão e do violino - imagino uma percussão aqui, ficaria mais que perfeito. A faixa encerra-se com barulhos que parecem de um coração de um feto, dando a ideia de que a vida será continuada, apesar da destruição, ou, como consta no encarte (em latim, francês, japonês e em inglês): "isto faz claro que a força não resolve nada, que isto não é um fim, mas somente um meio execrável". 

A linda arte da capa, obra de Gustave Dore, dá um caráter ainda mais especial para um disco impactante, que prefiro a definição de Claude Roynette, na contra-capa do álbum: "Uma contemplação mórbida da morte para impressionar a burguesia? Um sonho de paz, por que não?".

Lichti, Gisele Landmann (luz), Brua, Nickerl e Fernand Landmann (som)

O lançamento de Salammbô foi seguido por uma turnê promocional de 8 dias pelo sudeste francês, que começou no dia 24 de janeiro de 1978 em Avignon, e terminou em Béziers no dia 31 de janeiro. O Wapassou interpretava "Salammbô", mas também trechos do 3º ato do seu tríptico, intitulado "Ludwig II", composto durante o ano de 77. Freddy Brua tinha escolhido essa figura histórica, um rei louco e protetor das artes, para ilustrar o 3º tema e a 3ª pintura filosófico-musical da sua trilogia. Para Brua, "esta obra representa uma homenagem à arte em geral e uma visão da eternidade através da arte. Como representar a eternidade de maneira mais bela do que pela arte? Mesmo após o fim do mundo, o que restará do homem é a sua arte. As civilizações hoje desaparecidas subsistem essencialmente pela sua arte". Para Brua, o maior protetor da arte se revelava ser Ludwig II..

Sobre esse personagem enigmático e controverso, Freddy Brua declara: "Para mim, Ludwig não era louco. Ele era um visionário e um profeta. Ele foi a origem de toda a nova cultura contemporânea. Era também um grande romântico. Eu afirmo que Ludwig II era um grande rei pacífico porque sempre preferiu a arte à guerra. Para nós, Ludwig se identifica com os heróis da Idade Média. Sua maior realização é a sua morte, e os heróis não morrem de velhice. Sua morte permanecerá para a eternidade como um mistério. É por isso que, em vez de lhe dedicar um hino fúnebre, escrevemos um hino cheio de vida". Agora, durante as apresentações, contando com a colaboração novamente de Gisele Landmann, o show de luzes exibe, além de slides de imagens de catedrais, gravuras de Gustave Doré e imagens do castelo de Neuschwanstein, o castelo de Ludwig II.

Gisele, Freddy, Karin, Jacques e Fernand

Em maio de 1978, o Wapassou participou de um novo festival organizado pela Crypto, desta vez em Paris. Intitulado Espace Rock, o festival aconteceu no Espace Cardin e Jean-Claude Pognant apresentou toda a sua equipe, agora bem diversificada. Na sexta-feira, dia 26, o Wapassou encerrou a semana com Michel Moulinié na abertura. Apesar dessa escolha estratégica pela capital, o festival foi um meio-fracasso, devido à quase ausência de cartazes anunciando o evento. O grupo continuou sua jornada, cruzando a França de ponta a ponta, graças aos shows conseguidos por Dominique Kihm.

Voltam para Estrasburgo, e no estúdio Omega de Francis Adam, durante um período de 10 dias em novembro de 1978, fazem a gravação do quarto álbum. O próprio Francis Adam fez a captação de som. Freddy Brua se mostrou muito satisfeito com o trabalho de estúdio, considerando a gravação sem aproximações e sem defeitos. No álbum, Véronique, irmã de Karin, participa nos vocais, assim como Marc Dolisi, irmão de um amigo jornalista da FR3 Alsace, que tocou sintetizador em "L'adieu Au Roi". 

O encerramento da trilogia essencial do Wapassou

Com a presença de Gisele Landmann e Fernand Landmann na contra-capa, Ludwig (Un Roi Pour L'Eternite)  encerra a trilogia em alto nível. Lançado em julho de 1979, aqui Brua, Nickerl e Lichti criam uma peça de 34 minutos que consegue extrair exatamente o que o álbum propõe, a eternidade. A primeira parte da canção é destacada pela presença dos diversos teclados de Brua (órgão, sinclavier, piano elétrico, sintetizadores), com uma sutil participação do violino e do violão na base, inicialmente de forma leve, quase como uma valsa, e depois mais pesado, onde a guitarra também sola entre as inúmeras camadas de teclados. A mudança com a entrada do violino e dos sintetizadores dá um ânimo diferente para a canção, ainda mais pesada, com um riff marcante, e Brua usando e abusando dos teclados (moog, cravo, sintetizadores, hammond ...). 

A sequência da suíte, ao longo do lado B, dá mais espaço para a guitarra - com um interessante uso do wah-wah - e o violino, com um ritmo que lembra as grandes danças das cortes francesas, mas ao mesmo tempo, novamente chama a atenção a abundância de teclados que brotam na suíte. Tem-se ainda uma revisão de "Lac de Starnberg - 1886" (Richard Wagner), com somente o violino fazendo o tema da canção sob barulhos de água, e a curtinha "L'adieu Au Roi", tendo os belos vocais de Véronique Nickerl e os sintetizadores de Marc Dolisi. Aqui vale lembrar a parte histórica da relação - homossexual? - entre o rei Louis e Richard Wagner, sendo que o rei foi o responsável por salvar a vida financeira de Wagner, levando-o a morar justamente no lago de Starnberg, local onde o próprio rei veio a falecer afogado anos depois. 

Fernand e Gisele (abaixo), presentes na contra-capa de Ludwig
Brua, Karin e Lichti (acima)

O disco apresenta uma música cheia de beleza serena e grandiosa, com pureza cristalina, com contrastes bem-sucedidos entre os timbres — órgão, cravo — e uma perfeita sintonia musical entre os instrumentos, cada um contribuindo para construir esta obra. No final do lado A, uma voz canta em alemão que Ludwig é o rei do mundo, mas não um deus. No lado B, a música conta a morte de Ludwig e explode em beleza. Um esplêndido solo de violino em "Le Lac de Starnberg" — que empresta três compassos do 'Parsifal' de Wagner — se eleva e a noite cai sobre o lago quando o rei morre. Uma criança caminha e ouvem-se os respingos da água. A criança anuncia ao mundo a morte de Luís II da Baviera, mas o fim e a despedida do rei não são tristes. A eternidade começa com a voz, e depois cada instrument. Freddy declara sobre Ludwig que este é o disco onde "o grupo colocou mais amor e paixão". O disco é apresentado como uma obra-prima do novo romantismo ou da música clássica do ano 2000, e a versão em CD, lançada somente em 1994, ainda traz "Hymne Au Nouveau Romantisme"

Freddy Brua, na época do lançamento de Ludwig, informou que o grupo iria se dedicar agora a uma nova obra cujo tema, a intolerância, seria ilustrado por Torquemada, monge espanhol da inquisição, que enviou mais de 10000 pessoas para a fogueira. Através dessa obra, Brua pretendia combater "todas as formas estúpidas de estupidez, da religião. Além disso, ele anunciou a realização de um álbum solo intitulado F Comme Fidélit.

No dia 2 de dezembro, o Wapassou se apresentou como atração principal na Taverne de l'Olympia, no subsolo desse famoso local. Em 1979, o grupo continuou em turnê, apesar do declínio do rock progressivo e do surgimento da new wave e do rock simplista francês no estilo do Telephone. Em maio de 79, o Wapassou apresentou seu álbum no programa noturno de Gonzague St-Bris na Europe 1, dedicado a ouvir os ouvintes carentes de confissões. Se definindo ele mesmo como um novo romântico e apreciando a música deles, ele pediu ao grupo que compusesse uma vinheta para seu programa. O grupo gravou a citada "Hymne Au Nouveau Romantisme" no estúdio de Francis Adam e a propôs a Gonzague. Ele se entusiasmou com a faixa, mas exigiu que fosse creditado como seu autor. Freddy Brua recusou e a faixa ficou inédita até a chegada em CD, e é uma faixa de excelente qualidade, trazendo a participação de uma bateria, indicando o novo som que a banda iria fazer na sequência.

O grupo enfrentava muitas dificuldades para viver de sua música, apesar dos numerosos shows por toda a França. As despesas com deslocamento, o público escasso, o cachê pequeno, o reembolso dos equipamentos e instrumentos comprados, pesavam no orçamento e afetavam seu moral. Eles queriam se fortalecer, incluindo em definitivo um baterista e um flautista, mas a situação não permitia. Mesmo que o grupo obtivesse um certo sucesso, sua música continuava restrita a um público mais entendido. Por isso, em julho de 1979, decidiu modernizar e renovar o som da banda ao acrescentar um baterista, dando à sua música uma base rítmica mais convencional e mais energética. Freddy Brua explicou essa mudança pelo fato de que não conseguia convencer os amantes de música clássica a ouvir a música deles por causa dos preconceitos ligados à apresentação física, com seus cabelos longos e suas calças jeans. Da mesma forma, tinha sido impossível conciliar e atrair os dois públicos, muito sectários.

Ele recrutou o baterista Guy Heller e, decidiu batizar essa nova formação de Wapassou 2. O grupo retomou suas turnês apresentando sua música, agora batizada de neo-romântica ou de rock-pop sinfônico, interpretando novas faixas como "Torquemada" e "Hymne au Nouveau Romantisme". O espetáculo visual ainda se baseava na combinação e fusão de jogos de luzes e cores e na exibição de naves imensas de catedrais, de rostos medievais, de imagens de demônios de vitrais, e também de fotos do castelo de Ludwig II.

Em janeiro de 1980, Guy Heller deixou o grupo e entrou para o Tangerine. Ele foi substituído por um baterista apelidado de Tchouk, mas este, muito envolvido com drogas, foi preso e o Wapassou o substituiu pelo sarrebourguense Francis Gentel. Em março de 80, quando o grupo comemorava seus sete anos de existência, Freddy Brua abandona os projetos grandiosos, as suítes intermináveis, muito longas e complexas demais para tocar no rádio, e oferece ao público uma música mais rítmica, mais fácil e composta por faixas curtas e comerciais. Surgem faixas mais dançantes, até mesmo disco, buscando emplacar um hit. 

Do projeto planejado, dedicado a Torquemada, esse monge da Inquisição, que deveria ser o personagem e o conceito do novo álbum, restou apenas uma faixa dedicada a ele. O grupo procurou uma cantora, e após um breve período com Christine Maillard, Joëlle Kopf foi a escolhida. Com 20 anos, recrutada por um anúncio dizendo que um grupo pop procurava com urgência uma cantora para a gravação de um disco, ela entrou para o Wapassou em junho de 1980. Ela aprendeu a colocar sua voz rouca e velada, às vezes cristalina, e ensaiou intensamente as novas músicas do grupo, que traziam letras em francês e inglês. Ela teve pouco tempo para se adaptar e assimilar o novo repertório, pois o Wapassou já havia reservado para julho o estúdio alemão Möhrensound, perto de Nuremberg. O álbum foi auto-produzido, e a gravação foi feita em 24 pistas. Marc Dolisi fez os arranjos dos temas. Claude Laurent foi o autor dos textos em inglês, enquanto Freddy ficou responsável pelos em francês. O pianista e tecladista Marc Dolisi participou como convidado, assim como Charly Kolb no trompete em uma faixa.

Genuine, uma nova sonoridade para o Wapassou

Gravado nos estúdios Möhrensound, em Möhrendorf, Alemanha, Genuine acabou sendo distribuído somente na França, e o sonho de conquistar novos mercados acabou naufragando. O som é totalmente diferente do que foi ouvido nos discos anteriores. A única faixa instrumental é a épica "Torquemada", com seus mais de 11 minutos, com certeza a melhor canção do álbum, com os teclados brilhando, além de um belo destaque para a guitarra de Karin aqui, que comanda o ritmo de um solo bastante rock. Mas nas variações da canção, o seu andamento arrastado é o que sobressai, permitindo que violino e teclados solem com uma lindeza tipicamente Wapassou, o que ganhou muito com a presença do baixo e da bateria. As vocalizações sutis de Christine, duelando com o violino, são arrepiantes, e a presença dos fantasmagóricos sintetizadores e moog de Brua mostram que o Wapassou ainda tinha muito para criar no progressivo, ainda mais com a presença da bateria. Uma música fantástica! 

Porém, ao longo de Genuine, o que temos é uma banda muito diferente do que se podia imaginar. Logo de cara, "L'Etranges" apresenta os vocais de Christine e a bateria de Francis, com um som que lembra uma espécie de Blondie francês, bastante voltado para a New Age, onde o violino é um dos poucos momentos que lembram o velho Wapassou. As experimentações eletrônicas, numa mistura de New Wave com Synth Pop e disco music, seguem na faixa-título e "Phenyx Ode", essa em especial com um bom ritmo percussivo e uma maior presença dos teclados e do violino, mas confesso que os vocais exagerados de Christine, parecendo uma mistura de Nina Hagen com Cindy Lauper, só que francesa, não me agradam. Por outro lado, há bonitas canções através de "Late Revenge" e "Quien Sabe", essa com a presença do trompete de Charly Kolb, nas quais os vocais franceses de Christine trazem um bom e gostoso charme na audição. Por fim, "Concertino", uma bonita canção onde Christine faz vocalizações acompanhando os solos de teclados e violino, chamando a atenção a participação de Karin no baixo, algo que também ocorrer nas demais canções. No geral, é impressionante como o grupo mudou totalmente sua sonoridade, e virou algo realmente estranho para quem conhecia os discos anteriores, com exceção de "Torquemada", uma das grandes faixas da banda sem sombra de dúvidas. 

Single de "L'etranger"

O segundo single do Wapassou sai daqui, "L'Etranger" / "Phenyx Ode". Christine Maillard deixou o grupo e foi substituída por Bettina. Em fevereiro de 1981, Freddy Brua foi ao Midem para tentar vender Genuine, mas lá, dedicado unicamente às músicas da moda e comerciais, Freddy não encontrou nenhuma gravadora interessada em comprar seu disco para o exterior. Ele voltou para Estrasburgo, desiludido, enojado com o show business e com a atitude da mídia, indiferente à sua música, considerada pouco comercial. Ele declarou que "preferia morrer em beleza com sua música a ceder as chantagens de personagens que se acham influentes". Anunciou então que o próximo álbum se chamaria Pax (Paz), como aquela que faz viver "meu coração e meu espírito hoje". 

O grupo seguiu em turnê pela França e alguns países da Europa, anunciando o fim em 1983. Freddy Brua montou um estúdio em Estrasburgo em 1983 com o nome de RBO (Rock Belles Oreilles). Nickerl ficou a cargo da produção. Mas, depois de anos de silêncio, o Wapassou se "reformou" em torno do núcleo inicial, com Dominique Metz na bateria e dois convidados nos vocais. Essa nova formação gravou no estúdio de Brua um disco sob o nome de Wapassou 2001. Assim como Genuine, tratava-se de mais uma tentativa de se impor junto ao grande público.

O canto dos cisnes do Wapassou

Orchestra 2001 - Le Lac D'argent tem na formação Lichti, Brua e Karin, agora efetivada somente ao baixo, e mais Dominique Metz (bateria), Rémy Weiss (guitarras) e a dupla vocal Patrick Alès e Silvia B, a qual faz lindas vocalizações durante a bonita "Ode Au Matin" e também na belíssima "Introduction Pour Un Reve", aqui dando um belo show vocal, lembrando muito Annie Haslam em seus agudos. A única canção com letras tem Silvia nos vocais, e é a leve "Lac D'argent", que novamente, lembra um pouco Renaissance do fim dos anos 70, início dos 80, sendo forte candidata a melhor do disco, ainda mais com o solo de guitarra muito legal na segunda metade da canção, que é a única também a ultrapassar seis minutos. No mais, as canções apresentam vocalizações bem encaixadas harmonicamente com o instrumental, e no geral, são curtas, mal chegando a cinco minutos de duração.

O álbum representa bem a sonoridade dos anos 80, como mostram "Kingston Opera", a mais fraquinha do disco, e a boa "Jericho", onde os sintetizadores modernosos e o baixão de Karin são as principais atrações. Na mesma linha, estão "Printemps De Paix" e "Orchestra 2001", ambas com sintetizadores em voga, tendo andamentos mais suaves, um interessante arranjo vocal na primeira, na qual conferimos melhor quem é Patrick Alès, e bons solos de guitarra na segunda. Destaque também para a bela "Ballade Pour Gwendoline", uma linda canção com o brilho do violino elétrico. Um álbum bem melhor que Genuine, e que encerra com dignidade a carreira do Wapassou.

sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

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