terça-feira, 11 de junho de 2019

Ouve Isso Aqui: O nome é o mesmo, mas a sonoridade, quanta diferença




Por André Kaminski

Tema escolhido por Mairon Machado

Com Davi Pascale e Ronaldo Rodrigues

Segunda edição do Ouve Isso Aqui, hoje, Mairon resolveu tirar uma com os nomes de algumas bandas famosas que já foram usadas por outras mais antigas (e não por vezes, com mais qualidade dos que as mais atuais, a exemplo de uma certa banda de moleques cabeludos dos anos 90). A sonoridade, ah, muita diferença mesmo. Conhece mais algumas bandas antigas cujos nomes foram surrupiados (intencionalmente ou não) por outras mais novatas que se tornaram mais famosas que as originais? Recomende nos comentários.


Skid Row – 34 Hours [1971]

Mairon: Lembro até hoje da primeira vez que ouvi esse disco. Sabia que não era o Skid Row do Sebastian Bach, mas não imaginava que por trás desse nome havia um hard rock tão visceral. Gary Moore, o famoso guitarrista irlandês, está assessorado por Brush Shiels (vocais, baixo) e Noel Bridgeman (bateria), e esse power trio detona quase que o tempo inteiro.Os mais de nove minutos da faixa de abertura, “Night of the Warm Witch”, são um tour de force para qualquer aficcionado do estilo já ficar apaixonado pela banda na primeira audição. O vocal potente de Shiels, a guitarra ácida e virtuosa de Moore e o incansável ritmo de Bridgeman sobressaem imediatamente. O hardão também se sobressai em “Go, I’m Never Gonna Let You, Pt. 1”, uma paulada onde as linhas de guitarra e baixo comandam, e nas quatro partes de “Love Story”. É interessante ver as inspirações hippies dos irlandeses, principalmente em “Mar”, a qual parece saída de algum álbum de Cat Stevens, porém, com a contribuição essencial de um fantástico solo de Moore. Ainda temos o rockaço “First Thing in the Morning”, que em dois minutos coloca a casa para baixo, na melhor linha de outros power trios como Cream ou Mountain, e a brincadeira country de “Lonesome Still”, único deslize de um disco fantástico, muito melhor do que toda a obra da banda mais famosa.

André: Como a ideia do Mairon foi fazer graça com os nomes das bandas famosas das quais existiam homônimos mais antigos, vou cair na brincadeira. Pois é, parece que a turma de Sebastian Bach andou tomando uns ácidos a mais quando fez este disco. Um belíssimo disco da primeira banda do Gary Moore, cuja guitarra já transparece toda a qualidade que ele sempre demonstrou em toda a carreira. Além disso, Moore parece também bem a vontade em usar diferentes pedais para tantos efeitos (tem fuzz, wah-wah e mais alguns). Aliás, o baixo de Brush Shiels também está em alto volume, dando uma encorpada no som muito bem vinda. Não tem o que reclamar aqui, é rockão setentista clássico para quem gosta de Thin Lizzy, Budgie e Bad Company. Não conhecia, amei e recomendo.

Davi: Segundo e último álbum desse primeiro Skid Row. Na época, a banda não foi um enorme sucesso comercial, mas hoje esses álbuns tornaram-se cultuados por conta da presença ilustríssima de Gary Moore. E realmente, ele era o grande destaque do álbum com riffs e solos fortes. A cozinha de Noel Bridgeman e Brush Shiels também era bem eficiente. Brush construía linhas de baixo inteligentes e seguras, enquanto Noel demonstrava paixão e enorme feeling na bateria. O som do grupo era basicamente um hard rock com pegadas de blues, country (mais perceptível na balada “Lonesome Still”) e um pouco de prog. O ponto baixo, para mim, fica pela interpretação vocal de Brush. O cara não era ruim, mas era um cantor comum para os padrões da época. Se tivessem investido em um cantor foda, acredito que teriam ido mais longe. Trabalho interessante, mas ainda prefiro o Skid Row do Sebastian Bach. Faixa de destaque: “Go, I´m Never Gonna Let You”.

Ronaldo: A fórmula de blues pesado embebido em psicodelia era aplicada pela maioria das bandas de rock entre 1970-1971. Mesmo analisando uma certa “saturação” de lançamentos com essa pegada no período, é possível perceber os grupos que se destacavam nesta abordagem. Com o baixo pouco ortodoxo de Brush Shiels e a bateria insana Noel Bridgeman, um jovem e ainda desconhecido Gary Moore tentava ampliar as fronteiras do blues-rock reinante da época, sob a égide do Skid Row. O disco tem uma certa urgência e um certo desleixo, que trazem ao mesmo tempo uma singularidade e também algum incômodo, fazendo o ouvinte se perguntar se o que boas canções, como “Mar” e “The Love Story”, poderiam se tornar caso tivessem sido mais apuradas nos arranjos e na qualidade da gravação. “Night of the Warm Witch” e “Go, I’m Never Gonna Let You” são rocks pulsantes e com ótimas ideias, e que não devem ser preteridos por ninguém.


Nirvana – The Existence of Chance Is Everything and Nothing While the Greatest Achievement Is the Living of Life, and so Say ALL OF US [1968]

Mairon: Uma das grandes bandas do British Pop psicodélico da década de 60, o Nirvana se apoiava em uma estrutura sonora similar ao Wall of Sound de Phil Spector, mas do outro lado do Atlântico. Poderia ter escolhido o belíssimo disco de estreia, The Story of Simon Simopath, mas é com esse seu segundo álbum que o Nirvana chega na maturidade. Afinal, ele possui uma musicalidade tão grande quanto seu nome. É impossível não se impressionar com a qualidade dos arranjos de “Rainbow Chaser”, uma das primeiras canções da história a trazer o phasing em uma gravação, a sutileza da flauta e do violoncelo na instrumental “The Show Must Go On”, a mistura de cordas e dedilhado de violão em “Trapeze” ou o hipnotizante canto vocal de “You Can Try It”. E isso é o que mais me chama a atenção. Quase todas as canções possuem arranjos orquestrais primorosos, mas também os vocais são super bem encaixados. “Frankie the Great”, “The Touchables (All of Us)” e “St. John’s Wood Affair” são ótimos exemplos disso. A delicadeza musical de “Tiny Goddess” e “Melanie Blue” sempre me emocionam. E claro, há aqueles elementos mais “britânicos”, tais como “Girl in the Park”, e outros menos atrativos, como “Miami Masquerade” e “Everybody Loves the Clown” (parece uma “The Laughing Gnome” mas sem grife). Uma banda que eu comparo ao Nirvana é o Aphrodite’s Child, já que os teclados de Alex Spyropoulos lembram muito os de Vangelis na fase inicial dos gregos, mas nunca consegui encontrar algo que realmente afirmasse influências advindas da Inglaterra para Vangelis e Roussos. É uma injustiça que o grupo seja conhecido apenas por ter processado Kurt Cobain e cia., já que seu som é de altíssima qualidade.

André: O que aconteceu com Kurt Cobain aqui? Acho que ele andou escutando pop barroco demais. Bom disco do Nirvana, pega aquele estilo de pop aparentemente influenciado pelos Beatles do Sargento Pimenta elevado a enésima potência. As vezes o disco dá uma exagerada e soa meio cafona (aquela meio infantil “Everybody Loves the Clown”), mas canções como a animadinha “Trapeze” e a divertida “Girl in the Park” jogam o disco para cima. Apesar de ter certeza que alguns instrumentos como o naipe de metais e o violoncelo são reais, eu tive a impressão que algumas orquestrações eram na base do mellotron, não?

Davi: Esse foi o que mais gostei da lista. É, certamente, o trabalho mais pop entre os indicados, mas os arranjos são muito bem construídos, é muito bem tocado e muito bem cantado. Os garotos faziam uma sonoridade bem típica desse fim de anos 60. Tratava-se de um pop/rock meio psicodélico com bastante orquestração, vozes com efeitos, uns fraseados bem influenciados pela fase psicodélica dos Beatles (ouça “Trapeze” com atenção e você entenderá o que quis dizer). O lado A é mais forte do que o lado B, mas mesmo assim, trata-se de um bom LP. Minhas faixas preferidas ficam por conta de “Rainbow Chaser”, “The Touchables”, “Trapeze” e “Girl In The Park”. Altamente recomendado para fãs de The Zombies, Love e Electric Light Orchestra.

Ronaldo: Se considerado o que está escrito na capa, talvez este disco seja um dos recordistas em tamanho do nome de um álbum. Trata-se de um pop barroco tal qual a cartilha da época – boas melodias, refrões, arranjos repletos de elementos orquestrais e algumas tímidas pinceladas psicodélicas na produção. Com claras influências dos Beatles, algumas canções são realmente bastante agradáveis, mas outras passam batido. O disco é bastante datado e se você não for flechado por alguma melodia em específico, dificilmente se fixará atentamente ao disco. Trabalho coerente, mas um tanto maçante e previsível.


Iron Maiden – Maiden Voyage [1998]

Mairon: Toda vez que alguém me pergunta: “Você é fã de Iron Maiden”, eu sempre respondo “sim”. Automaticamente, a pergunta seguinte é “qual a melhor música para você? ‘Fear of the Dark’? ‘The Number of the Beast’? ‘Powerslave’? E eu respondo: “Cara, com certeza é ‘Liar’. A cara do fã bitolado tentando encontrar a canção no meio do vasto repertório do grupo do titio Harris é hilária, e então explico que o Iron Maiden de verdade, que eu sou fãzão, é o quarteto inglês sessentista que lançou algumas canções que tornaram-se, no final dos anos 90, essa cultuada coletânea. “Liar”, a faixa em questão, é um petardo de doze minutos, que lembra muito o UFO da fase pré-Schenker, com solos de guitarra e baixo, bateria alucinada, vocalizações e muita lisergia, em um Space Rock para viajar pelo cosmos sem gasolina (parafraseando Nei Lisboa). Mas não é só isso. O baixo galopante de Barry Skeels, virtude presente em quase todo Maiden Voyage, é a força do boogie “C. C. Rider”, com uma harmônica sensacional. O mesmo baixo une-se e as grandes vocalizações de “Falling”, com um riff de guitarra inspirado em música clássica, mostrando quão avançados eram esses garotos para sua época. As baladaças “Plague” e “Ritual” parecem saídas de algum trabalho perdido do Animals, mas muito bem trabalhadas e viajantes, com efeitos malucos e baita solos de guitarra (e dê-lhe baixo cavalgante). As faixas mais curtas, “Ned Kelly” e “God of Darkness”, demonstram ainda mais a virtude dos ácidos solos de Trevor Thoms. E falando em baladas, “Ballad of Martha Kent” poderia muito bem embalar bailinhos e jovens casais junto a baladas de Stones e Beatles, não fosse a doideira propiciada pelo quarteto na sua segunda metade. Que LOUCURA! Maiden Voyage é hard rock dos mais pesados e densos que você já ouviu, junto a um trabalho instrumental que beira o progressivo e também pequenas doses de psicodelia. Ou seja, bom pra caralho!!

André: É uma banda que seria boa caso se empenhassem mais em suas próprias composições no caso de lançarem um disco (do qual nunca fizeram). Com as canções que tinham, não conseguiriam competir contra Moby Grape, Jefferson Airplane e Iron Butterfly por um espaço nas gravadoras. “Falling” talvez seja a única que faça frente às grandes bandas. “Liar” e um longo solo de baixo parece uma coincidência daquelas quando se trata de donzelas de ferro. As outras precisam dar uma boa retrabalhada para soarem boas. O vocalista, apesar de soar diferente, não me incomoda. Creio que um bom produtor poderia dar uma azeitada no grupo e nas composições. Nada marcante mas foi bacana conhecer.

Davi: Interessante notarmos quantas e quantas bandas reutilizaram nome de grupos do passado e, em muitos casos, não vale aquela velha máxima de que o original é sempre melhor. Esse é um caso clássico. Sim, são estilos e épocas diferentes, sem dúvidas, mas o Iron Maiden de Steve Harris foi um divisor de águas no heavy metal, criaram um estilo próprio. Esse Iron Maiden do final dos anos 60 era uma banda mediana para os padrões da época. Os caras apostavam em um rock psicodélico que até era redondinho, mas nada além disso. O guitarrista Trev Thoms era o melhor músico do grupo. Curiosamente, embora essas músicas tenham sido lançadas em compactos (esse CD é meio que uma coletânea dos compactos), as músicas em sua maioria eram longas. Em se tratando de composição, “Falling” é minha preferida. “God of Darkness” conta com um riff bacana, mas deixa explicita a limitação vocal. Uma pena… Foi bacana ouvir pela curiosidade, mas não foi uma banda que me cativou.

Ronaldo: É de se lamentar que esta banda não tenha gravado nada oficialmente. O álbum indicado é uma compilação de material de arquivo. Instrumental caprichado e uma banda que desenvolvia um rock “pesado” ainda envolto nas raias psicodélicas, mas com determinação e ideias consistentes. Talvez não soe pesado na audição por mera precariedade dos instrumentos, amplificadores e/ou da gravação, já que em termos de construção musical o material do Iron Maiden se assemelha aos momentos mais distorcidos do Jethro Tull pré-Aqualung. Impressiona a relação entre bateria, baixo e guitarra, fazendo muito com poucos elementos. Os vocais também são interessantes e as melodias vocais são bastante apreciáveis. Por não ser um material oficial a qualidade de gravação fica a desejar a medida que o disco avança, mas analisando pelo aspecto musical, as composições tendem a agradar o filão de fãs que se interessam por bandas pós-psicodélicas.


Possessed – Exploration [2006]

Mairon: Discaço representante da geração hard setentista, de uma banda enigmática, tão obscura quanto sua história, repleta de curiosidades (ligadas principalmente ao Judas Priest e ao Led Zeppelin) e tragédias. O trio apoia-se em uma linha vocal grudenta, belos riffs de guitarra e uma cozinha fantástica, conforme atestam “All Night Long”, uma faixa classicamente hard, “Climb the Wooden Hills”, com um brilhante solo de slide, “Darkness, Darkness”, destacando o poderoso refrão, “I See The Light” e seus momentos de pura intrincação, além da faixa-título, com o baixo esbofeteando a cara do ouvinte sem piedade. Mas também temos espaço para uma aula de violão acústico nos moldes de Jimmy Page em “Exploration Pt. II”, o swing de “The Love That You Gave” e “Reminiscing”, e pancadaria comendo solta em “Thunder & Lightning”, com uma boa sequência de solos. As melhores faixas para mim são “Dream”, maluquíssima, repleta de variações e com um arranjo vocal arrepiante, além de um solo de guitarra para sair pulando pela casa, a baladaça acústica “Love ‘em or Leave ‘em” e “Disheartened & Disillusioned”, na qual os solos de guitarra são a grande atração. Em uma comparação bem sutil, podemos dizer que é uma mistura de Grand Funk Railroad com Led Zeppelin, mas tendo um certo peso de Black Sabbath. Uma ácida combinação de peso, lisergia e rock’n’roll, em nada próxima ao death dos xarás americanos. Alguns irão reclamar da voz aguda de Mike Vernon, mas isso é o de menos perto da qualidade musical de uma grande banda, que infelizmente, não chegou a ver seu álbum nas lojas, como conto nesse texto aqui.

André: Gostei bastante desse trabalho, é como se misturasse o peso do Zeppelin e do Sabbath e chamassem Barry Gibb, dos Bee Gees, para fazer os vocais (praticamente todo o disco em falsete). E claro, com uma pitadona de ácido na sonoridade. Daqui, destaco o peso de “Darkness Darkness” e os ótimos solos de guitarra de “Climb the Wooden Hills”. De fato, reconheço que não é um disco para todos principalmente em relação aos vocais, mas eu particularmente curti o jeitão descompromissado deles.

Davi: Esse foi um álbum que ficou engavetado por mais de 30 anos. Embora tenha sido gravado na década de 70, somente viu a luz do dia em 2006. Impressionante que tenha sido lançado, tendo em vista que essa é uma banda que nunca aconteceu. O som deles era bem pesado para a época. Faziam um hard rock, com um ‘q’ de prog e psicodelia. O trabalho de guitarra é bacana, parte rítmica é eficiente. A parte instrumental é, de fato, o grande destaque. Sim, acho que eles pecam no vocal. Com uma audição mais atenta é perceptível alguns deslizes, mas o grande problema não é nem esse. O problema é que o cara insiste em cantar meio que no falsete o tempo todo, acho que o sonho dele era ser uma espécie de Geddy Lee, só que a voz dele não era tão forte quanto. Tem horas que ele soa como um gato no cio. Infelizmente, o trabalho vocal torna a audição cansativa. Essa é mais uma banda que se tivesse contratado um cantor (quem canta aqui é o guitarrista), poderiam ter ido mais longe. Interessante, mas cansa um pouquinho. Faixas de destaque: “Darkness, Darkness” e “Reminiscing”. Recomendado aos fãs de Budgie e Humble Pie.

Ronaldo: Material de arquivo de uma obscura banda inglesa ativa durante os pesados anos iniciais da década de 70. Seguindo a cartilha do nascente hard/heavy rock da época, o disco e a banda tem lá seus bons momentos – há bons riffs e algumas levadas sacolejantes, tão típicas do rock pesado da época, que não negava um swingue. Porém, as músicas soam apressadas e as ideias ensanduichadas em músicas curtas. Soa como uma banda que precisava de um bom produtor para aparar as arestas, mas que decidiu fazer as coisas ao estilo “do it yourself”. Os vocais se concentram muito nos agudos, com excessos de vocais dobrados; também há a impressão de que a banda quis ousar um bocado e tocar coisas mais complexas musicalmente do que era capaz de executar com segurança, já que é nítido algumas momentos de imprecisão entre a bateria e as guitarras. Fico imaginando o que algumas dessas músicas poderiam se tornar caso músicos do naipe de Cozy Powell, Roger Glover ou Mick Box estivessem envolvidos. A banda tinha criatividade, mas faltou pista e torre de controle para o avião decolar.


Hanson – Now Hear This [1973]

Mairon: Lembro até hoje de quando um amigo meu chegou e me falou: “Cara, tu já ouviu Hanson?”. Ri, gargalhei, e debochei com a pergunta, e então esse meu amigo falou: “Senta aí e ouve, duvido tu continuares rindo”. Para minha sorte, ele nunca tinha ouvido “Mmmbop”, e falava especificamente de uma talentosa banda inglesa que fez um dos grandes sons da década de 70 em seus dois únicos álbuns. Now Hear This é a estreia do quarteto comandado pelo genial guitarrista e vocalista Junior Hanson, e que estreia. “Love Knows Everything” é uma canção bem diferente no repertório, até por que é a única que conta com uma formação diferente das demais, sendo uma faixa dançante e com a guitarra de Hanson comandando o baile. No mais, é uma sonzeira raiz. Se quiser entender o que é Now Hear This, pule direto para os magníficos dez minutos instrumentais de “Smokin’ To The Big “M”, daquelas faixas que não tem explicação, onde a inspiração brota em cada segundo do sulco do vinil, e só o que resta é curtir. Ou então, deixe rolar desde o início, e duvido que você se segure com os embalos de “Traveling Like A Gypsy”, sonzeira para deixar a Family Stone com um sorriso nas orelhas. Uma obra que possui um baixo tão gingado quanto o de Clive Chaman em “Gospel Truth” com certeza necessita de uma atenção especial. Adoro muito a sensualidade do órgão de Jean Roussel e da guitarra em “Catch That Beat”, “Rain” e “Take You Into My Home”, essas últimas com solos sensacionais de guitarra. Até Chris Wood (flauta) da o ar da graça em “Mister Music Maker”, baladaça para se agarrar na companheira no próximo dia 12, e curtir junto a um bom vinho. O som possui forte influência funk, com elementos de hard, algo mais pop aqui e acolá, umas pitadas de psicodelia, e é agradável do início ao fim, com diversas partes dignas de nota dez. Lembra muito Trapeze pós-Glenn Hughes. Mais uma daquelas obscuridades que começaram a surgir ao mundo graças aos MP3s da vida. Como curiosidade final, Neil Murray participou como baixista da banda no álbum seguinte, tão bom quanto esse!!!

André: Outro disco muito bom desta lista. Fazem um som mais funkeado e muito, mas muito legal. A flauta em “Mister Music Maker” me soa como se o Jethro Tull fosse dar um passeio nas comunidades afro-americanas da década de 60. Junior Marvin é um guitarrista muito conceituado lá no Reino Unido (embora seja jamaicano, fez praticamente toda a sua carreira lá). Mairon me lembrou que eu preciso tirar um tempo para me aprofundar na sonoridade de bandas como Funkadelic, Parliament e Sly & The Family Stone.

Davi: “Hmmm-bop-dia-badiu-ba-ieeee-iee”. Brincadeira! Esse é um outro Hanson. Liderado pelo guitarrista jamaicano Donald Hanson Marvin Kerr Richards Jr, ou simplesmente Junior Marvin, o rapaz até hoje é lembrado pelo trabalho que realizou ao lado de Bob Marley nos The Wailers, mas seu currículo vai mais além. Ele era um daqueles guitarristas que todo mundo estava de olho na época. Já ouvi dizer que quando se juntou ao Wailers, ele teve que optar entre ir tocar com Bob Marley ou ir para a banda de Stevie Wonder. É mole? Não preciso dizer que o trabalho de guitarra aqui é bom, né? Bastante influência de Hendrix, um ‘q’ de Santana. Os garotos faziam um som bem interessante aqui mesclando a sonoridade blues-rock com a pegada do funk, basicamente. Há bastante daquele sentimento de ‘jam’, portanto, os músicos de plantão irão se deliciar com essa audição, especialmente na faixa que fecha o álbum, “Smokin´ To Big M”. Minhas preferidas, contudo, ficam por conta de “Traveling Like a Gipsy”, “Catch That Beat” e “Gospel Truth”. Álbum muito bacana.

Ronaldo: Banda inglesa, que orbitava em torno do guitarrista e vocalista Junior Marvin’s Hanson, e que executava uma música 100% norte-americana. O som é absolutamente baseado na ala mais sofisticada do funk/soul produzido nos EUA, com muito destaque para a parte instrumental. Há qualidade musical e grooves lancinantes em todas as faixas de Now Hear This, o primeiro álbum da banda. O baixista Neil Murray (famoso posteriormente por ter tocado com Black Sabbath, Whitesnake, Colosseum II, dentre outros), fez parte da segunda formação da banda. “Gospel Truth” é um dos principais destaques, com sua batida contagiante e excelentes passagens de teclados e guitarras.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Livro: Bob Dylan - No Direction Home (A Vida E A Música De Bob Dylan) [2010]



Há algum tempo, escrevi sobre o belíssimo DVD duplo No Direction Home, que trata sobre a carreira do músico americano Bob Dylan no período entre seu nascimento em 1941, e o final da década de 60. Esse DVD tem como parente próximo o igualmente belíssimo livro No Direction Home (A Vida E A Música de Bob Dylan). Lançado primeiramente em 1986 pelo escritor Robert Shelton, em 2010 o livro recebeu uma nova edição revisada, que irei tratar hoje sobre ela.

Shelton foi o responsável, digamos assim, por apresentar Dylan ao mundo. Escrevendo para o New York Times, com o título Bob Dylan: Um Cantor de Folk com Estilo Distinto (29 de setembro de 1961), o jornalista foi o primeiro a traçar um perfil positivo para o jovem Dylan, exatamente um ano após o mesmo ter chegado em Nova Iorque. Desde então, acompanhou fielmente a carreira de Dylan, e teve autorização para publicar o livro ainda na década de 60. Porém, No Direction Home demorou quase 20 anos para ficar pronto, e quando estava, Shelton recebeu uma dura missão: ou ele cortava 180 mil palavras da edição apresentada a editora, ou reduzia 35 mil dólares de seu orçamento.


O texto de Robert Shelton, que praticamente apresentou Bob Dylan ao mundo

Isso foi em outubro de 1983, e Shelton preferiu reduzir 35 mil dólares de direitos autorais. Com 210 mil cópias vendidas de imediato, em setembro de 1986 foi lançada a primeira edição, de grandioso sucesso. A edição de 2010 foi atualizada por Elizabeth Thomson e Patrick Humphries. Nela, foram adicionados novos textos, assim como um Prelúdio e uma atualização da Discografia, Bibliografia e Cronologia da carreira de Dylan até 2010.

A edição de 2010 apresenta então o Prelúdio, totalmente inédito, uma Introdução de 10 páginas, Notas da primeira edição, Discografia Selecionada, incluindo participações especiais em discos de alguns autores, mais de 60 fotos distribuídas ao longo de 48 páginas, além da Bibliografia Selecionada e da Cronologia de Dylan a partir de 1979 (ano que Shelton encerrou a escrita de No Direction Home) a 2010 (ano da edição), bem como treze capítulos. A nova edição totaliza 736 páginas.

A introdução deixa clara que na edição de 2010 há uma melhor organização cronológica, adicionando cerca de 20 mil palavras e anedotas advindas dos manuscritos originais de Shelton de 1977. Além disso, são feitas adições aos capítulos Um, Quatro e Dez, além da celebrada entrevista do voo entre Lincoln e Denver, na qual Dylan afirma que era viciado em heroína, estar na íntegra. Por outro lado, em relação ao original, as partes das gravações piratas e Os Novos Dylans foram removidas.


Peter, Paul and Mary, Joan Baez, Bob Dylan, the Freedom Singers, Pete Seeger e Theodore Bikel, cantando “We Shall Overcome” no Newport Folk Festival de 1963.

Os capítulos são divididos por nomes relacionados à frases que aparecem em canções de Dylan, e assim temos:

I - Não Levante A Voz Aqui
II - O Extremo Errado Do Mississippi
III - Talking Greenwich Village Blues
IV - Positivamente 161 West Fourth Street
V - Não Sou Um Fantoche Laureado
VI - Rola, Gutenberg
VII - Diversas Temporadas No Inferno
VIII - O Orfeu Elétrico
IX - No Coliseu
X - Um Pé Na Estrada
XI - Escutando O Silêncio
XII - Correndo Livre
XIII - Trovão, Furacão E Chuva Forte


Robert Shelton e Bob Dylan

Depois do prelúdio e da introdução, Não Levante A Voz Aqui traz ao leitor a vida do pequeno Bob na pacata cidade de Hibbing, Minnesota. A dura vida no interior, bem como o relacionamento com a primeira namorada, Echo Helstom Shivers, são os únicos momentos de atração inicial. É a partir de O Extremo Errado Do Mississippi que o Dylan que conhecemos passa a sair das páginas de No Direction Home. Percebe-se a inteligência e, por que não, arrogância do adolescente Dylan quando ele rouba cerca de 20 discos do amigo John Pancake, colega de faculdade em Dinky Town, apenas por que considerava que o amigo não era um apreciador de música como ele. Esse capítulo traz também informações sobre raras gravações de Dylan em 61, além de algo que chama a atenção durante todo o livro, que é um resumo biográfico da vida / obra de algum artista ou pessoa citada no texto. Nesse capítulo em especial, surgem breves resumos da vida de Woody Guthrie e Chuck Berry, dois nomes fundamentais e influentes na carreira de Dylan.

Talking Greenwich Village Blues traça a vida de Dylan pegando carona para chegar em Nova Iorque, e seus desaforos com imprensa e pessoas em geral. Destaca também uma importante amizade com o músico Dave Van Ronk, um dos responsáveis por incentivar Dylan a gravar, e o encontro com Guthrie, que deixou Dylan muito emocionado, já que seu ídolo estava vivendo os últimos dias de vida. Por fim, surge o contrato de 5 anos com a Columbia e uma opinião faixa a faixa de Shelton sobre Bob Dylan (1961). Positivamente 161 West Fourth Street relata a parceria calorosa de Dylan com o empresário Albert Groosman. Temos também um faixa a faixa de Freewhellin' (1963) e destaque para o boletim de protesto mimeografado, que divulgou muitas canções de Dylan no início de sua carreira, bem como o raro álbum Broadside Ballads Vol. 1, com faixas de Dylan e diversos outros artistas.


Imagens do livro

Não Sou Um Fantoche Laureado passa a comentar sobre o período do auge da carreira de Dylan no Folk Rock. Aqui aparecem comentários sobre a participação do músico no Newport Folk Festival de 1963, a profunda amizade com Joan Baez, algumas entrevistas, sempre com humor mordaz, e um discurso fracassado no Tom Paine Award de 1963, apresentado na íntegra, e que deixou muita gente indignada com o comportamento agressivo e arrogante do músico, principalmente quando ele alegou ter empatia por alguns sentimentos de Lee Harvey Oswald, isso dias depois do assassinato de John Kennedy.

Rola, Gutenberg traz um faixa a faixa de The Times They Are A-Changing (1964), uma profunda análise das 11 Outlined Epitaphs (textos que aparecem na contra-capa do mesmo disco), um faixa a faixa de Another Side of Bob Dylan (1964) e detalhes sobre a escrita do livro Tarantula, lançado por Dylan somente em 1971. Diversas Temporadas No Inferno tenta mostrar um outro lado de Dylan, ligado as causas sociais e com alguma roda de amigos. Aqui são relatados a participação do artista junto ao comitê de emergência pelas liberdades civis, um longo passeio atravessando os EUA com amigos, a ida para Londres (documentada no já citado DVD No Direction Home) bem como a polêmica apresentação no Newport Folk Festival de 1965, onde realizou seu primeiro shows com uma banda elétrica.


Mais algumas imagens do livro, destacando a capa de Tarantula

Essa fase elétrica tem mais detalhes (e desgastes) em O Orfeu Elétrico. Dylan passa a ser considerado o pai do folk rock, e recebe muitas vaias dos fãs mais antigos, por onde passa. O ápice das vaias ocorre no show de 10 de maio, no Albert Hall, onde é chamado de Judas por um dos fãs (conforme registrado no belíssimo CD da Bootleg Series - Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert, que apesar do nome errado, registra o show suparcitado. Entrevistas problemáticas para o New York Post e KQTP TV, a complicada turnê inglesa, a filmagem de Don't Look Back e um faixa a faixa de Bringing It All Back Home (1965) e Highway 61 Revisited (1965) também estão presentes nesse que é um dos melhores capítulos do livro para quem gosta de saber podres de seu ídolo.

No Coliseu destaca o grupo canadense The Band, como eles influenciaram na sonoridade de Dylan na segunda metade dos anos 60, inclusive acompanhando o mesmo em shows e gravações de discos, e faz um faixa a faixa detalhado de Blonde On Blonde (1966), considerado por Shelton um dos melhores discos de Dylan. No capítulo Um Pé Na Estrada está a entrevista completa dada por Dylan à Shelton no vôo entre Lincoln e Denver (1965), bem como detalhes da primeira visita de Dylan à Austrália, e uma turnê europeia ainda sob muitas vaias.


Com a companheira Suze Rotolo, em meados dos anos 60

O acidente de moto que Dylan sofreu em 29 de julho de 1966 aparece em Escutando O Silêncio. Aqui, Shelton descreve com detalhes a cidade de Woodstock, e como foi a recuperação de Dylan pós-acidente. É interessante que ele não se envolve em melodramas ou heroísmos para contar o que aconteceu, passando pelo acidente como se aquilo fosse uma situação corriqueira. Shelton se prende na musicalidade e na recuperação de Dylan, gravado com a The Band o ótimo The Basement Tapes e fazendo uma inesquecível participação de retorno aos palcos no Isle of Wight Festival de 1969. Ainda há um faixa a faixa de John Wesley Harding (1967) e uma pequena parte dedicada a parceria de Dylan com Johnny Cash, outro que tem uma breve biografia apresentada ao leitor. Também há breves comentários sobre Nashville Skyline (1969).

Na reta final do livro, Shelton começa a apressar o passo. Correndo Livre abrange a primeira metade da década de 70, e cinco álbuns: Self Portait (1970, esculachado pelo autor como um dos piores discos de Dylan), breves comentários sobre New Morning (1970), Dylan (1973) e Planet Waves (1974) e um faixa a faixa de Blood on the Tracks (1975), ressaltando que esse último não é um disco em homenagem à Joan Baez como muitos atestam. Também há a brilhante participação de Dylan no Concerto para Bangladesh, que levantou e muito os fundos adquiridos em auxílio ao país, e como Dylan desenvolveu seu lado de ator no filme Pat Garret and Billy the Kid, interpretando o personagem Alias. Ainda há espaço para um breve comentário sobre a grande turnê americana de 1974, e assim, chegamos ao último capítulo de No Direction Home.


Com Joan Baez, na Rolling Thunder Revue

Trovão, Furacão E Chuva Forte resume a segunda metade da década de 70, narrando com precisão diversos momentos da gigantesca turnê Rolling Thunder Revue, que iniciou no final de 1975 e atravessou o EUA ao longo de 1976, totalizando 57 shows e tendo nomes como  Joan Baez, Jack Elliott, Roger McGuinn, Mick Ronson, entre outros, um pouco sobre a história do boxeador Rubin "Hurricane" Cartes, e de como Dylan ficou bastante indignado ao ponto de compor uma canção para o mesmo, e comentários sobre Desire (1976). Ou seja, se em dez capítulos Shelton traça a vida de Dylan durante a década de 60, dois capítulos para uma década tão importante quanto a dos anos 70 acaba sendo pouco, e essa é uma falha importante no livro, já que muitos dos detalhes expressos na década de 60 poderiam ter sido tirados, e fatos como as gravações ao vivo da década de 70, ou até mesmo a conversão cristã de Dylan já no final da década de 70, início dos anos 80, poderia aparecer.

O Poslúdio até tenta fazer isso, principalmente quando comenta sobre a gravação de Live at Budokan, originalmente pensando somente para o Japão, mas que devido ao grande número de lançamentos piratas, acabou sendo lançado no ocidente, tudo em 1978, e breves comentários sobre Street Legal (1978), o último álbum analisado por Shelton na época do lançamento do livro. A fase cristã ficou totalmente de fora, sem se quer um comentário sobre o mesmo, o que considero uma pena, pois é um fato muito relevante na carreira do americano.


Contra-capa

Claro, essa resenha é apenas um resumo de um livro com muitas histórias. Há os relacionamentos de Dylan, passagens interessantes de gravações dos álbuns, diversos e diversos trechos de entrevistas, enfim, muito material. Caso decida adquiri-lo, tenha certeza que você terá em mão um livro grandioso tanto em tamanho quanto em informações, mas essencialmente, um livro crucial e fundamental para quem quiser conhecer detalhadamente a carreira de um dos maiores gênios da arte do século passado.


domingo, 26 de maio de 2019

FOCUS - Parte I

Jan Akkerman, Pierre van der Linden, Thijs van Leer e Bert Ruiter


O grupo holandês Focus é com certeza o maior grupo de rock progressivo que a Holanda forneceu ao mundo, tanto por conta da música como por conta da técnica e qualidade individual de seus músicos. Uma carreira cheia de altos e baixos, com mais de dez discos que começaremos a abranger a partir de hoje, com o período áureo dos holandeses, nos anos 70, comandados pela dupla Thijs van Leer (órgão, piano, flauta, mellotron), Jan Akkerman (guitarra, violão), até a saída do último em 1976. Posteriormente, em uma segunda parte, traremos a partir do momento quando Akkerman retorna ao grupo nos anos 80, saindo para uma carreira solo de relativo sucesso, deixando o legado para Van Leer governar sozinho.


Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden


A estreia dos holandeses é um aperitivo humilde perto da importância que o grupo teria no ano seguinte para o rock progressivo. Conhecido também como In and Out of Focus (nome dado ao lançamento internacional do álbum),  Focus Plays Focus chegou às lojas em 1970. No LP, a formação além de Van Leer e Akkerman, Martin Dresden (baixo, vocais) e Hans Cleuver (bateria), e apresenta jóias instrumentais como "Focus (instrumental version)", com solos simples e encantadores da guitarra, e "Anonymous", que seria a gênese de uma Maravilha Prog lançada dois anos depois através dos solos individuais de cada músico. 

A estreia de 1970


Cleuver apresenta sua voz na jazzística "Happy Nightmare (Mescaline)", "Focus (vocal version)", seguindo as mesmas linha de "Focus (instrumental version)", e nas sessentistas "Sugar Island", "Black Beauty" e "Why Dream", ambas cheirando a mofo psicodélico londrino, com leves aromas do flower-power californiano. A guitarra de Akkerman é o principal destaque em todo LP, mas é inquestionável a fundamental participação da flauta e do órgão de Van Leer, criando o marcante som do grupo. 

Na Alemanha, o álbum trouxe "House of the King" como faixa adicional, uma canção que marcou os fãs por ser muito similar ao que o Jethro Tull fazia na mesma época, sendo fácil encontrar pessoas que confundem as bandas quando ouvem essa canção. Os Estados Unidos, lançaram o álbum no mesmo formato que a versão alemã, porém com as canções em ordem alterada. Existem diferentes capas desse álbum espalhadas pelo mundo, algumas você pode conferir aqui. A capa que estampa esse artigo é a da versão original holandesa. "House of the King" acabou sendo o primeiro sucesso internacional do Focus, apesar de ter saído apenas como compacto em seu país.

Pierre Van der Linden, Cyrill Havermans, Thijs Van Leer e Jan Akkerman

Como o grupo não emplacou no primeiro álbum, Akkerman decidiu abandonar o navio, e montou uma nova banda, acompanhado de Pierre Van der Linden (bateria) e Cyrill Havermans (baixo, vocais). Porém, Dresden e Cleuver também resolveram abandonar Van Leer, que se juntou aos amigos de Akkerman, nascendo a segunda formação do Focus.Com esta nova formação, o Focus muda totalmente sua forma musical, apostando no rock progressivo instrumental e deixando a voz apenas para servir como um instrumento a fazer vocalizações complementares nas linhas melódicas criadas pelo órgão e guitarra. 

Assim nasce Focus II (1971). A única canção com letra é a experimental "Moving Waves", tendo Van Leer na posição de vocalista e pianista, os únicos instrumentos da canção. Foi com Focus II que o Focus alcançou seu status internacional, principalmente por conta de "Hocus Pocus", uma peça fantástica, na qual Van Leer exibe pela vez primeira toda a graça de suas vocalizações em yodel, algo que marcou a carreira do grupo a partir de então, e que chegou na nona posição nos Estados Unidos. 


A capa original de Focus II (acima) e a mundialmente conhecida Moving Waves (abaixo)

A sequência de solos vocais divididas com os solos de guitarra ainda hoje agita muitas festas mundo afora. Mas Focus II não sobrevive apenas disso, já que também tem um lindo momento solo de Akkerman, batizado de "Le Clochard", no qual ele abrilhanta o ouvinte com uma peça ao violão clássico, acompanhado por longos acordes de órgão, e a beleza de "Janis", destacando Van Leer na flauta. Os holandeses não viraram sinônimo de progressivo por acaso, e o lado prog aparece na sequência de "Focus", chamada "Focus II", uma leve balada progressiva com aproximações fortes no jazz, destacando os crescendos de órgão e guitarra, provando mais uma vez todas as qualidades do injustiçado Akkerman, já que raramente ele aparece nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos.

O ápice do LP é a Maravilhosa suíte "Eruption", que através de seus vinte e três minutos, e quatorze partes, faz uma adaptação da ópera Euridice de forma brilhante. Akkerman continua o centro das atenções, com a capacidade de sair de uma erupção sonora de solos rasgados para a suavidade de um lago tranquilo, através do uso do botão de volume e leves bends. Vale lembrar que Focus II é a versão original holandesa, e Moving Waves é a versão internacional.

Cyril saiu do grupo em 1971, após o encerramento da primeira turnê europeia do grupo, sendo substituído por Bert Ruiter, dando origem então a terceira e mais famosa formação dos holandeses, a qual gravou seu álbum mais ambicioso no ano seguinte, e que para muitos, esse é o melhor álbum dos holandeses, e qualidades não faltam para garantir essa primeira posição. 


O ambicioso Focus III

Com Focus III (1972), A entrada de Ruiter trouxe a possibilidade das expansões vocais do yodel, e também motivou Van Leer a se soltar mais. Um exemplo é a abertura, com "Round Goes the Gossip", quando na primeira parte da canção ele apenas entoa o nome da mesma, e na segunda apresenta seu lado soprano cantando em latim. Essa mesma faixa mostra que o jazz misturado ao progressivo está cada vez mais presente nas composições do grupo. "Carnival Fugue" é uma peça clássica comandada pelo piano, com tímida participação dos demais membros do grupo, transformando-se em um jazz fusion em sua segunda parte. A música clássica tambem dá o ar da graça na "Elspeth of Notthingham", com acordes de violão inspirados na música celta, e com a participação da flauta em alguns trechos. 

A arrepiante união do violão clássico e da flauta aparece também em "Love Remembered", capaz de arrancar lágrimas de qualquer ser vivo nesse planeta. Focus III trouxe o terceiro grande sucesso dos holandeses, "Sylvia", canção originalmente composta para fazer parte de um programa de televisão, mas que acabou sendo bastante popular principalmente em sua Terra Natal, com um riff poderoso e uma melodia grudenta da guitarra, e que alcançou a quarta posição nas paradas britânicas. A dupla "Focus III" e "Answers? Questions! Questions? Answers!" mostra Akkerman e Van Leer duelando em solos inesquecíveis, acompanhados pela formidável cozinha Ruiter/Van der Linden. 

Várias versões de Focus III mundo afora (Brasil, Uruguai, Estados Unidos e Alemanha)

Falando em dupla, o álbum foi lançado originalmente no formato duplo, isso graças a inclusão da Maravilhosa "Anonymous Two", uma incrível jam de mais de vinte e seis minutos que ocupa todo o lado C e boa parte do lado D do vinil, e onde o quarteto apresenta-se com solos individuais, tendo como base o riff de "Anonymous", lançada no primeiro álbum. Do primeiro álbum também foi resgatada "House of the King", que finalmente era lançada em um álbum oficial do grupo na Holanda. Existem diferentes capas de Focus III mundo a fora, e as duas apresentadas aqui são a versão original holandesa (primeira) e a versão internacional lançada na América do Norte (segunda).

A bela versão nipônica de at The Rainbow


A segunda turnê europeia aconteceu a partir do segundo semestre de 1972, e foi registrada no essencial at the Rainbow (1973), trazendo um show do grupo gravado no Rainbow Theatre em Londres, e que foi lançada também em VHS, sendo esse vídeo o responsável pela difusão do Focus em países da América do Sul e Ásia.

O escocês Collin Allen (ex-Stone the Crows) substituiu Van der Linden, e essa nova formação continuou inspirada, lançando em 1974 Hamburger Concerto, que julgo ser o melhor LP do grupo.

O melhor álbum da banda na opinião do autor



O álbum apresenta o hardão de "Harem Scarem", a beleza indescritível de "La Cathedrale de Strasbourg", com Van Leer sobressaindo-se ao piano e nos vocais, as experimentações psicodélicas-clássicas de "Birth", apresentando Van Leer no cravo, e fazendo belezuras junto de Akkerman quando pula para o órgão e a flauta, e a música clássica da vinheta "Delitiae Musicae", um magnífico momento somente com alaúde e flauta. 

Porém, nada supera o que o quarteto registrou no lado B desse vinil, que é a suíte-título. Com trechos inspirados em "Variations on a Theme by Haydn", de Joseph Hayden, a suíte é dividida em seis partes. Difícil dizer qual o principal momento dessa Maravilha, já que desde a introdução, com as linhas de baixo de Ruiter, o andamento suave dos primeiros minutos, o riff marcante, os solos vocais de Van Leer, o órgão e a flauta alimentando o cérebro com notas divinas, a pegada na guitarra de Akkerman durante a segunda metade da canção, a epopeia emocionante do encerramento, e Collin Allen fazendo ninguém sentir saudades de Van der Linden, são alguns dos pontos que me tornaram fã dos holandeses. Mais um daqueles momentos mágicos na música. 



Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter

O relançamento em CD trouxe uma faixa bônus, "Early Birth", que é a versão original de "Birth", sem a introdução com o cravo, e na sequência, mais uma mudança na formação, com o americano David Kemper substituindo Allen, leva a Mother Focus, lançado em 1975.

Allen participa em apenas uma faixa, "I Need a Bathroom", uma balada funk que tornou-se a única canção do grupo a ser cantada por Ruiter. O álbum parece contaminado pela onda disco, com muitos sintetizadores, a utilização constante do vocoder (instrumento que imita a voz humana) e canções curtas que fogem bastante dos padrões esperados para o Focus, lembrando grupos como Sly & The Family Stone ou Funkadelic, mas não deixa de ter seus momentos bons, como a peça clássica "Father Bach", somente com órgão e guitarra, o suingue da faixa-título, a sutileza de "Focus IV", sem contar com as linhas de suas antecessoras, mas ainda assim muito bela, e "No Hangs Up", com certeza a faixa mais Focus de Mother Focus

O fraco Mother Focus

A dupla "Soft Vanilla" e "Hard Vanilla" parecem trilha sonora de filme brasileiro dos anos 70, diferenciando apenas pelo instrumento utilizado para o solo principal (flauta sintetizada no primeiro e vocoder no segundo), mas "Bennie Helder" é uma das amostras positivas de como misturar elementos clássicos com o funk e a disco-music, enquanto Akkerman convence que ainda existe genialidade na dupla "Someone's Crying ... What?" / "All Together ... Oh That!". Já "My Sweetheart" e "Tropical Bird" acabam sendo manchas negras na carreira do grupo, que começava a rumar para seu fim.

Akkerman pediu as contas pouco depois, sendo substituído pelo belga Philip Catherine, dando origem a uma nova fase para o Focus. O guitarrista mergulhou em uma carreira solo de destaque, e mesmo com um substituto a altura, as coisas não estavam nada bem. O jeito foi arriscar na loteria, e assim, o grupo manteve-se na ativa, unindo-se ao cantor pop americano P. J. Proby e lançando seu sétimo disco de estúdio, o primeiro sem Akkerman, no ano de 1978. Antes, por esforços do produtor Mike Vernon, mais um álbum com Akkerman chegou na praça, no ano de 1976.


O disco de sobras Ship Of Memories

Ship of Memories é uma coletânea de canções que acabaram ficando de fora dos lançamentos oficiais. Vernon não mediu esforços para manter a chama do Focus acesa durante o período de instabilidade, e resgatou obscuridades não lançadas oficialmente. O lado A foi gravado em duas semanas do ano de 1973, e nele ouvimos uma sequência interessante de canções programadas para compor o quarto álbum dos holandeses. 

"P's March" alterna-se entre solos de flauta e guitarra, e "Focus V" traz as fontes jazzísticas e o andamento que criaram a base musical do Focus. O melhor fica para "Can't Believe My Eyes" e "Out of Vesuvius", ambas experimentações virtuosísticas de Akkerman, inseridas em um andamento sombrio e tenso (a primeira) e em uma levada dançante (a segunda). 

Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine

O lado B é mais diversificado, trazendo "Spoke the Lord Creator", gravada em 1970, e que foi a primeira tentativa de recriar "Variations on a Theme by Haydn", "Ship of Memories", um breve solo de bateria e órgão de igreja feito por Van der Linden, "Red Sky at Night", tendo um belo solo de Akkerman, e "Glider", versão original de "Mother Focus" e que particularmente considero melhor que a versão registrada no álbum homônimo, principalmente pela exploração dos yodels. 

Nessa canção, Akkerman toca Sitar elétrico, o que também deu um efeito diferente, e conta com Van der Linden na bateria. "Crackers" é da época de Mother Focus, enaltecendo o lado funk-fusion que predominou no último álbum lançado com Akkerman nas guitarras, sendo uma canção de menor qualidade perto das demais. A contra-capa do álbum apresenta um interessante texto de Mike Vernon contando sua experiência com o grupo e os caminhos que levaram ao lançamento de Ship of Memories, o que é um bom complemento para quem quer se aprofundar na história da banda.



O álbum com o cantor pop PJ Proby






Trazendo na formação Thijs Van Leer (flauta, teclados, vocais), Bert Ruiter (baixo, vocais), Philip Catherine (guitarras), Steve Smith substituindo David Kemer na bateria e a adição do excelente Eef Albers às guitarras, além da voz principal de Proby, Focus Con Proby é lançado em 1978. Os holandeses surpreenderam com um álbum muito diferente do que havia sido apresentado nos discos anteriores, principalmente no fraco Mother Focus (1975). É difícil classificar esse álbum, pois existem momentos preciosos e outros que em nada poderiam estar presentes na Discografia de um gigante como o Focus. 

A voz de Proby é um estranho no ninho para quem estava acostumado com as vocalizações em yodel de Van Leer, mas por outro lado, as guitarras de Albers e Catherine deram uma nova cara para a banda, que no geral, inspira-se no som do final dos anos 70, praticando um som próximo ao de grupos como Weather Report e Eleventh House, e aqui cito a velocidade jazzística de "Sneezing Bull", com Van Leer exibindo-se na flauta (coloque para um amigo e duvido que ele não diga que é Jethro Tull o que está rodando), a exuberância zappiana de "Maximum", com solos de Catherine e Van Leer, a linda "Orion", com Ruiter e Albers fazendo o solo principal juntamente, na alucinante "Night Flight", com Albers gastando seus dedos em um solo impressionante, e outros mais voltados para canções dançantes ( "Tokyo Rose", "How Long" e "Wingless") e baladas mela-cuecas ("Eddy" e "Brother") que em nada acrescentam ao fã dos primeiros álbuns. 

Pela parte instrumental, temos um excelente trabalho, e se você retirar as duas últimas canções com vocais citadas nesse texto, Focus con Proby é um ótimo disco. O problema é que aturar "Eddy" e "Brother" é um constrangimento e tanto para quem já pulou com "Hocus Pocus". O grupo fez uma curta turnê, mas em seguida, Van Leer anunciou o encerramento das atividades do Focus, seguindo para uma carreira solo de relativo sucesso. Porém, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.


sábado, 4 de maio de 2019

The Allman Brothers Band - Play All Night: Live At The Beacon Theatre 1992 [2014]




O grupo americano The Allman Brothers ficou marcado na história da música pelo essencial álbum At Fillmore East, gravado ao vivo na casa mais famosa de Nova Iorque dos anos 60, e que se tornou referência para todas as outras bandas que gravaram discos ao vivo a partir de 1971, no ano em que o álbum foi lançado.

Ao longo de uma década e meia (entre 1969 e 1982), a banda teve altos e baixos, levando ao seu fim prematuro ainda em 1982, por conta de diversos desgastes pessoais, principalmente a perda de Duane Allman, um dos maiores gênios da guitarra em todos os tempos. Porém, em 1989, uma turnê para comemorar os 20 anos da banda foi realizada, e dela, surgiu a motivação para o retorno em definitivo, com a gravação dos discos Seven Turns (1989) e Shades of Two Worlds (1991), além de uma imensa turnê, registrada nos dois volumes dos discos An Evening With The Allman Brothers Band (1992 e 1995 respectivamente).

Butch Trucks e Greg Allman (acima); Dickey Betts, Warren Haynes e Al Woody (centro); banda e Marc Quinones (abaixo)

Esses álbuns estavam inicialmente planejados para contarem apenas com registros de shows que a banda fez em Macon, entre os dias 28 e 31 de dezembro de 1991. Porém, os membros do grupo, que na época a formação era  Gregg Allman (órgão, piano, violões e vocais), Dickey Betts (guitarras, violões, vocais), Warren Haynes (guitarras, violões, vocais de apoio), Allen Woody (baixo, violão, vocais de apoio), Butch Trucks (bateria, vocais de apoio), Jaimoe (bateria, vocais de apoio), Marc Quinones (congas, percussão) e Thom Doucette (harmônica), decidiram que haviam faixas do show de Macon não completamente perfeitas para serem lançadas, e assim, decidiram fazer mais alguns registros na turnê, dentre eles, as 10 datas de apresentação no Beacon Theatre de Nova Iorque.

Vale lembrar que em 1989, o grupo tocou 4 noites seguidas no Beacon, e em 1992, foram 10 datas no teatro, o que acabou virando uma tradição nos próximos dezenove anos, quando a banda tocou de 8 a 19 shows por cada primavera, com exceção de 2010, ano em que o teatro não pôde receber os americanos devido a uma série de apresentações do Cirque de Soleil agendadas para a mesma data. Algumas apresentações desse período acabaram sendo registradas no CD Peakin' at the Beacon (2000) e no DVD Live At The Beacon Theatre (2003).

Das 10 datas de 1992, somente os dias 10 e 11 de março de 1992 foram gravados para o lançamento de An Evenin With, e em 2014, foi lançado uma mescla unindo os dois shows em um CD duplo de tirar o chapéu. Tudo começa nos lembrando de cara Fillmore East, já que temos a dobradinha "Statesboro Blues" e "You Don't Love Me" embalando nosso corpo. A primeira é um clássico indiscutível na carreira dos americanos, com um show de Haynes ao slide. A segunda, apesar de mais curta do que a versão eternizada no Fillmore (aqui apenas com 6 minutos), traz o sensacional fôlego de Thom Doucette na harmônica, fazendo a alegria geral dos moradores da caverna sessentista.
Parte do encarte em formato de pôster, com a história da banda

Um dos grandes atrativos de Play All Night é o registro in the act de canções recém-lançadas na época, sendo o caso para "End Of The Line" e "Nobody Knows" (ambas de Shades of Two Worlds),  e "Low Down Dirty Mean" (Seven Turns). "End of the Line" traz a destacada participação percussiva de Quinones,  enquanto "Nobody Knows" parece ser uma pérola bônus track dos álbuns iniciais da banda, com uma pegada fantástica, repleta de improvisos, ao longo de seus mais de treze minutos. Que sonzeira! Já "Low Down Dirty Mean" é um blues sem vergonha, para curtir o swing após o massacre de "Nobody Knows".

Entrinchada entre essas, temos uma versão absolutamente arrepiante para "Blue Sky", clássico que na voz de Dickey Betts ganha muito poder, e com um belíssimo trabalho de guitarras. O CD 1 encerra com o momento acústico do espetáculo,  dedicado para "Seven Turns", mais uma emocionante interpretação de Betts, a paulada vocal "Midnight Rider" e "Come On In My Kitchen", a última, uma sensacional homenagem para Robert Johnson, com Warren Haynes brilhando no slide.

Encarte do CD, com momentos do show

O melhor fica reservado ao disco 2, no qual as inspirações de cada músico são levadas ao limite em longas jams sessions, a começar para a reinterpretação animalesca de "Hoochie Coochie Man", com mais de dez minutos de duração, dos quais quatro são uma sensacional introdução solo de Haynes ao slide. Outra que supera os dez minutos é a essencial instrumental "Jessica", com certeza uma das principais canções da carreira da banda, com sua melodia marcante e muita improvisação.

A novata "Get On With Your Life" (de Shades of Two Worlds) cai como uma luva na sequência da segunda mídia. Um blues arrepiante, onde a guitarra de Haynes casa com perfeição na voz rouca e aveludada de Greg, em uma das melhores faixas do grupo em anos. "Revival" levanta a galera com o seu famoso refrão que levou a banda para um grupo mais popular de fãs ao redor do mundo.

A versão em vinil

Os mais de 20 minutos de "In Memory Of Elizabeth Reed" são o êxtase orgásmico do CD. Um espetáculo de solos de guitarra, conduzidos primorosamente pela cozinha afiada das baterias e do baixo, e que irá colocá-lo diretamente no Fillmore lá em 1970. Ouvir o esplêndido solo de bateria / percussão, com mais de 8 minutos de duração, é uma aula de como tirar o máximo de seu instrumento sem deixar soar presunçoso. As fantásticas revisões para "Dreams" (Haynes destruindo no slide) e "Whipping Post" (o baixão de Woody estremecendo o quarto), cada uma com mais de 10 minutos, encerram de forma brilhante essa apresentação magistral dos americanos.

Lançado somente lá fora (Europa, Japão, Austrália e Estados Unidos), o CD ainda apresenta um belo encarte em formato de pôster, que conta um pouco da história da banda nesse período. Tendo uma versão limitada de 4000 cópias em vinil (com apenas 10 das 16 faixas do CD) chamada Selections from Play All Night: Live at the Beacon Theatre 1992Play All Night: Live At The Beacon Theatre 1992 é super fundamental para entender por que, em pouco mais de duas horas, a música é um dos principais instrumentos de entretenimento do ser humano, e de como a criatividade de alguns artistas é incomparavelmente além deste mundo!

Contra-capa

Track list

CD 1
Statesboro Blues
You Don't Love Me
End Of The Line
Blue Sky
Nobody Knows
Low Down Dirty Mean
Seven Turns
Midnight Rider
Come On In My Kitchen

CD 2
Guitar Intro / Hoochie Coochie Man
Jessica
Get On With Your Life
In Memory Of Elizabeth Reed
Revival
Dreams
Whipping Post
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