quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Ouve Isso Aqui: Guitarristas Subestimados




 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Ronaldo Rodrigues

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale, Fernando Bueno e Mairon Machado

Impressiona a quantia de bons guitarristas que o rock legou (e continua legando) para a humanidade. O objetivo dessa seção é pegar um apanhado de guitarristas que não alcançaram grande fama e sucesso em seus trabalhos e, apenas por isso, não figuram na lista dos melhores guitarristas de todos os tempos. É bom cifrar que essas listas são, em sua maioria, listas dos melhores guitarristas famosos. Aqui nós buscamos ir um pouco além e trazer uma seleção de guitarristas de alto calibre de diferentes épocas e vertentes do rock. Além disso, a busca visa ofertar bons guitarristas inseridos em bons discos. (Ronaldo Rodrigues)

Joe Beck - Nature Boy [1968]

Ronaldo: Joe Beck poderia, com tranquilidade, ser contado entre os guitarristas que ajudaram na evolução exponencial do instrumento na segunda metade dos anos 60. Jimi Hendrix virou a grande alegoria dessa evolução, mas ele não estava só nessa. E Joe Beck era um dos que corria por fora - seu trabalho solo, de 1968, é uma prova da técnica inovadora e criatividade do garoto. Além do repertório cativante, Beck gravava várias camadas de guitarra, usando diferentes efeitos e abusando do estéreo. O cara era bom na guitarra limpa ou na distorcida, usando com maestria o efeito wah-wah (ainda uma novidade na época), bem como no violão. É um disco que vai além de ser um disco de guitarrista - Nature Boy é um excelente álbum de rock, em fusão com outros estilos, com todo o sabor variado do fim dos anos 60.

André: Tá aí um cara que gosta bastante do wah wah. Um disco com pegada, energia, apesar da capa aparentar algo mais folk e relaxado, o álbum traz muito de rock, jazz e fusion. O disco é muito variado e com faixas para todos os gostos. Sua voz também é bastante agradável. Não conhecia este guitarrista e fiquei bem interessado em seus outros trabalhos.

Daniel: Eu nunca havia escutado este álbum ou mesmo ouvido falar em Joe Beck. Gostei deste álbum, tem aquela aura do fim dos anos 1960s e pré-70s. A psicodelia tem uma presença marcante na obra, com a guitarra liderando o trabalho, mas permitindo que os demais instrumentos brilhem. Álbum bem legal.

Davi: Confesso que não conhecia o trabalho desse cara. Dei uma lida sobre ele e vi que ele tocou com grandes músicos do jazz e, por conta disso, achei que essa seria a dinâmica do álbum, mas não é bem assim. Sim, há referências claras de jazz na construção das músicas, mas há também uma enorme dose de psicodelia nos arranjos e até uma influência do blues. E são justamente os momentos mais “roqueiros” que me chamaram a atenção. As faixas “Let Me Go”, “No More Blues” e “Ain´t No Use In Talkin´” são minhas favoritas. Achei o disco bom, muito bem tocado, várias faixas interessantes. Os pontos baixos ficam por conta do trabalho vocal (não compromete, mas não emociona) e a fotografia da capa, que em nada parece álbum de um guitarrista. Parece mais um trabalho solo do cantor do Rinaldo & Liriel, do que qualquer outra coisa. De todo modo, vale uma checada.

Fernando: Em um tema sobre guitarristas o que me chamou atenção logo de cara na primeira música foi o baixo. Também estranhei um pouco e até achei que estava ouvindo o disco errado, pois eu fui ouvir o disco com a informação de que Joe Beck era um guitarrista de jazz mas o que encontrei foi um rock psicodélico, cheio de whah whah, muito característico do ano do lançamento do disco. Também pensei comigo como alguém que se compromete a tocar jazz pudesse ser um guitarrista subestimado, já que esse é um estilo que você precisa ser considerado no mínimo bom para começar a tocar. O que fica claro logo na segunda faixa, “Spoon’s Caress”, com seus dedilhados bem intricados. Aí eu fico na dúvida se muitas vezes os considerados subestimados são só desconhecidos mesmo. Nessa caso eu estaria na segunda opção, já que desconhecia completamente Joe Beck. Belo disco! Vai ficar na minha lista de audições por mais tempo.

Mairon: A estreia de Joe Beck é um daqueles álbuns clássicos obscuros do final dos anos 60, graças ao estilo único do guitarrista tocar, seja pisoteando o wah-wah com elegância como na faixa-título, "Goodbye L. A." e "Maybe", ou dedilhando o violão no melhor estilo folk em "Please Believe Me" (lindíssima, ainda mais com o solo de piano) e "Spoon's Caress" . Aprecio muito as harmonias vocais que Beck emprega ao longo do disco, e também da utilização de um excelente naipe de metais em "Ain't No Use In Talking" e "Let Me Go". Apesar de ser um guitarrista de mão cheia, é no piano de "Come Back: Visions Without You" que o artista cria sua melhor obra nesse álbum, acompanhado pelo trompete demoníaco de Randy Brecke. Faixa delirante, assim como a sensacional "No More Blues", com uma introdução magnífica com orquestra que desencadeia em um blues animado onde Beck pisoteia seu wah-wah com gosto. Mais uma bela indicação do Ronaldo por aqui!

Elliott Randall - Randall's Island [1970]


Ronaldo: Randall era um guitarrista de estúdio que resolveu se arriscar com um projeto próprio. Se o sucesso não veio, do ponto de vista artístico, o primeiro disco que gravou com seu nome foi um primor em termos musicais. A técnica e as qualidades guitarrísticas estão em primeiro plano, mas uma banda afiada o acompanha em temas instrumentais e com vocais. O estilo parte do blues-rock, mas incorpora naipes de metais e percussões, se aproximando de Chicago e Blood, Sweat and Tears. O timbre de Randall é ardido e muito característico, repleto de personalidade; Randall joga o tempo todo para o time, ainda que ele seja o líder inconteste do trabalho. Suas qualidades como músico de estúdio o renderam participações em grupos como o Steely Dan. Um dos solos de guitarra da faixa "Reelin in the Years" é de sua lavra e Jimmy Page o contava com um de seus solos favoritos em todos os tempos.

André: Um blues rock do estilo que gosto: pegado, com energia e ao mesmo tempo que consegue soar algo fino e com classe. Você sente tanto aquela coisa mais selvagem do rock ao mesmo tempo que o baixo e a bateria colocam aquele requinte do blues e do jazz. O disco é curtinho, passou rápido e deixou ótima impressão.

Daniel: Este eu também nunca havia ouvido. Disco muito interessante, baseado em uma sonoridade que eu curto muito (Blues Rock), por vezes com doses muito bem colocadas de peso e de intensidade. Os solos esbanjam feeling e o trabalho da guitarra é cativante. Minha preferida foi " Mumblin' To Myself".

Davi: Elliott Randall é um músico que não é muito conhecido entre o grande público, mas é um nome manjado entre os músicos. Esse cara já chegou a tocar com grandes nomes como Steely Dan, Carly Simon, Peter Frampton... Chegou até a participar dos álbuns solo que o Gene Simmons e o Peter Criss lançaram em 1978. Randall´s Island é um disco muito bacana e traz um repertório bem variado. “Take Out The Dog, Bark The Cat” e “Mumblin´to Myself” embarcam no blues. “Jolly Green Giant and the Statue of Liberty” cai de cabeça na psicodelia. “Soulflower” conta com uma jam que possui os 2 pés no jazz, enquanto “Life In Botanical Gardens” é uma balada pop repleta de violões e vocais bem trabalhados que poderia, muito bem, ter tocado nas FM´s da época. Disco bem legalzinho e bem construído.

Fernando: Um início com uma mistura de vários estilos em uma faixa instrumental que me deixou com a impressão de este ser um disco totalmente sem vocais. Mas logo na segunda faixa isso se mostra errado em uma bela canção com vocais bem suaves, flautas e tudo o mais, representando bem o nome da faixa “Life Is a Botanical Garden (Oh, Yes)”. Já a próxima faixa é mais aquilo que eu esperava em um disco de blues rock. No geral um ótimo disco que eu também desconhecia totalmente.

Mairon: Um dos músicos de estúdio mais requisitados de sua geração, tocando com nomes tão diversos quanto os caras do Kiss e Steely Dan até Joan Baez e Chuck Berry, faz aqui sua estreia solo. Acompanhado de uma bandaça, cujo destaque maior é o saxofonista Paul Fleisher, Elliott manda ver em um álbum envolvente, com canções chapantes típicas do final dos anos 60, vide o embalo de "Brother People", a pancada instrumental "Sour Flower" ou a complexa e pesada "Bustin’ My Brains", com um grande solo de baixo carregado de distorção. Quando envereda pelo blues, o cara se sobressai com faixas swingadas e muito bem elaboradas para o estilo, vide "Mumblin' To Myself", onde o embalo da guitarra junto a participação do hammond dão um toque especial para a canção, e "Take Out The Dog & Bark The Cat", para ouvir balançando a perna com um copo de uísque na mão. E que maravilha o arranho acústico de "Life In Botanical Gardens (Oh, Yes)", onde os vocais suaves de Elliott brilham junto de um acompanhamento incrível, assim como o hammond de "All I Am’s", linda demais. Desnecessária apenas "Jolly Green Giant and the Statue of Liberty", que nada acrescenta para este bom disco. Como os anos 70 pariram discos fantásticos, e este é mais um.

.Philip Catherine - September Man [1975]

Ronaldo: Na praia do jazz-rock, haveria incontáveis nomes a se incluir nessa relação de discos. Mas o guitarrista belga Philip Catherine merece destaque, pois além da técnica apurada, detém uma assinatura muito original em seus solos e composições. No estilo fusion muitos guitarristas "velocistas" apareceram, mas Catherine sabia também muito bem tocar lento e soar celestialmente melódico, como se pode atestar pela bela faixa de abertura do álbum em questão. O álbum é bastante variado, indo desde abordagens mais tradicionais, a terrenos mais experimentais e de forma livre, nos quais a guitarra de Catherine sempre cria o clima perfeito. Catherine foi um substituto à altura de Jan Akkerman no Focus e até hoje lança ótimos discos de jazz, merecendo maior chance de reconhecimento entre os apreciadores de boa música.

André: Esse eu achei o mais fraco da lista. Sem muitos abusos e ousadias (em termos de prog), há um trabalho sólido em que se misturam guitarras, piano e a cozinha de baixo e bateria. Tenta pegar uma vibe progressiva mas com transições nem sempre suaves. Alguns solos legais, outros nem tanto. O baixo bem prog não me agradou. Um álbum mediano. A que gostei mais foi "When It Is - The Beginning" que lembra aqueles folks mais tradicionalistas que gosto bastante.

Daniel: Achei este o melhor álbum da lista. Primeiro, porque sou um apaixonado por Jazz, segundo, pois o álbum é realmente muito bom. "T.R.C." é uma canção espetacular e o que Catherine faz na guitarra nesta faixa é inacreditável. Também merece destaque o trompetista Palle Mikkelborg. Jazz Fusion de muito boa qualidade.

Davi: Esse cara eu já conhecia alguma coisa. Não sou um estudioso de sua obra, mas já tinha escutado alguns discos dele. Esse September Man, se não me engano, foi o disco que meio que colocou ele no mapa. De todo modo, apesar da importância do álbum em sua trajetória e da alta qualidade técnica de todos os envolvidos, o disco não me cativou. Considero esse trabalho um pouco cansativo, não tem nenhuma faixa que realmente me cative, me emocione. Em relação ao trabalho de guitarra, realmente é fantástico e muito bem elaborado, onde destaco a canção “When It Is – The Middle”. Não é um disco que faz minha cabeça, mas foi legal ter sua presença por aqui. É um nome que não esperava dar as caras aqui no Consultoria.

Fernando: Aqui entra novamente aquela dúvida: subestimado seria porque não dão valor ao nível musical da pessoa, ou pelo desconhecimento do público. Novamente não podemos dizer que o cara é um excelente músico, mas quantos músicos talentosos não foram reconhecidos não? O resultado depende de tanta coisa que é difícil dizer um só motivo, mas o fato de tocar um estilo que não é um dos preferidos das massa também não ajuda, não é?

Mairon: Phillip Catherine é um gênio subestimado. Uma carreira solo brilhante, a parceria incrível com Larry Coryell, uma passagem no mínimo interessante com o Focus, substituindo o também genial Jan Akkermann, e uma técnica incrível que passa do jazz ao rock com uma naturalidade monstra. Dito isto, vamos a September Man. Logo de cara, Catherine já apresenta seus dedilhados tradicionais e viajantes na linda "Nairam" , que se repetem na intricada "T.P.C."., com um solo veloz e muito representante da carreira do guitarrista, e na tímida mas eficiente "Monday 13". A banda que acompanha Catherine também é excepcional, o que não poderia ser diferente advindo de alguém tão perfeccionista quanto o belga.  Que maravilha é ouvir algo como a suíte "When It Is", e suas três distintas partes, com muitas inspirações em Miles Davis, e com a segunda parte, "The Middle", fazendo brilhar o piano elétrico de Jasper Van't Hoff, na melhor linha Chick Corea. E é exatamente quando Catherine envereda pelo jazz que a coisa fica demais, vide os hipnotizantes dez minutos de "Nineteen Seventy Fourths". Discaço!!

Pat Travers Band - Go for What You Know? (live) [1979]

Ronaldo: O canadense Pat Travers era um autêntico guitar-hero, daquele tipo que fazia sua guitarra falar alto e cativar grandes plateias com rocks empolgantes e performance incendiária. Ouvi-lo ao vivo, com sua banda de apoio que contava com Tommy Aldrige na bateria, e o segundo guitarrista Pat Thrall, é certeza de ouvir ótimos riffs, timbres marcantes e solos de guitarra faiscantes. O som de Pat as vezes até se conecta com o de seus conterrâneos do Mahogany Rush, com bases funkeadas e inspirações Hendrixianas. Travers, todavia, tinha um variado conjunto de ideias e referências, que lhe faziam soar apenas como ele próprio.

André: Esse eu conheço e adoro! Hard rock daqueles pesadões nervosos com uma energia gigante, animação e bateção de cabeça! Não tinha ouvido esse ao vivo e curti muito. "Heat the Street", que solo mais ao final da música! Ronaldo me provou agora mesmo que este foi o guitarrista mais subestimado da lista e um dos mais subestimados do rock. Não é possível que esse cara não tenha feito sucesso mundial.

Daniel: Eu nunca fui fã de álbuns ‘ao vivo’ e não será este que vai me fazer mudar de ideia. Apesar disto, eu gostei das canções, as quais contam com um viés feroz e boas doses de agressividade. Os riffs e solos de guitarra são muito bons e este é o tipo de sonoridade que eu costumo gostar bastante. Minhas favoritas são “Gettin’ Betta” e “Stevie”.

Davi: Esse é, certamente, o álbum que mais me empolgou nessa seleção. É um que vou tentar arrumar uma cópia para mim, inclusive. Também não tinha como dar errado, né? Pat Travers é um baita músico e o time que está por trás dele é sensacional. Temos aqui, nada mais, nada menos do que Pat Thrall (muito lembrado, no Brasil, pelo álbum que gravou ao lado do Glenn Hughes, no início dos anos 80) e o monstro Tommy Aldridge (dispensa apresentações). Pat Travers arregaça na guitarra e a banda tinha uma energia fora do comum. No repertório, vale destacar a explosiva “Hooked on Music”, a swingada “Go All Night”, o inspirado cover de “Boom Boom (Out Go The Lights)”, além da empolgante “Makes No Difference”, que conta com um solo de guitarra inspiradíssimo. Para ouvir no último volume!

Fernando: Curioso entrar discos ao vivo nesses tipos de matérias que a gente faz. Quase nunca ninguém indica esse tipo de material. Aqui, no quarto disco dessa séria de indicações do Ronaldo Rodrigues eu já estava me sentindo mal por não conhecer nenhum deles. Porém mais um daqueles que vão deixar ainda mais longa a lista de coisas que eu tenho (ênfase no verbo ter) que ouvir. A faixa de abertura mesmo é uma paulada! Lembrei até da expressão “rock pauleira” que ouvia de meus tios quando era criança (e eu tava ouvindo Titãs ou algo do tipo). Gostei também, exceto de “Boom Boom” que achei chatinha.

Mairon: Hardzão comandado pelas guitarras dos Pats (Travers e Thrall), que soa quase como um Lynyrd Skynyrd mais pesado, com o excepcional arroz de festa Tommy Aldrige na bateria e Mars Cowling no baixo. É um álbum bem regular, mas que não me impacta como os demais aqui indicados. Dá de dançar tranquilo com "Gettin' Betta", e curtir a baladaça "Stevie", com seu lindo solo de guitarras gêmeas. Mas aí que está. Ao ouvir esse solo, ou sons como o boogie de "Boom Boom (Out Go The Lights)", ou até mesmo a boa abertura de "Hooked On You", e a pegada "Makes No Difference", fica aquela sensação de que já ouvi algo similar (e melhor) anteriormente. E o vocal de Pat Travers, convenhamos, é bem fraquinho. É um bom disco, é sim, mas falta alguma coisa para me conquistar a ponto de adquirir ou ouvir mais frequentemente.

Earthless - Rhythms from a Cosmic Sky [2007]

Ronaldo: Quando apresentamos um disco todo instrumental, com apenas uma única música de cada lado (ou duas faixas em CD/digital) como uma longa jam, podemos ver uma horda de narizes torcidos. Mas quando nesse disco se encontra um guitarrista talentoso, como o norte-americano Isaiah Mitchell, há muitos que podem se converter. O disco começa com uma sessão de efeitos sonoros vindos de outra galáxia, para que uma avalanche de riffs espertos e pesados invada os alto-falantes. Mitchell segura muito a onda com solos inventivos, nada tediosos, e bases nervosas. A cozinha oferecida por Mario Rubalcaba (bateria) e Mike Eginton (baixo) também ajuda bastante. O disco é pura potência, com muita variedade. É guitarra em alta octanagem para estourar os ouvidos!

André: Gostei desse stoner rock. Apesar de ter uma receita típica para deixar todos de cabelo em pé (músicas muito longas e solos infinitos), achei um ótimo disco desse lado do rock que anda ganhando cada vez mais adeptos. A segunda canção, "Sonic Prayer" é a melhor. Achei que seria um álbum demorado, mas até que desceu bem. Já tinha ouvido alguma coisinha do Earthless antes, mas nada que me chamasse a atenção. Independente disso, o Ronaldo escolheu um disco mais "atual" bem bacana para fazer parte dessa lista.

Daniel: Este eu achei bem chatinho. O disco é composto de 2 faixas de mais de 20 minutos cada uma, cada qual mais interminável que a outra, fica a sua escolha quem seria a pior. Não é que seja terrível, não é o caso, mas foi uma sonoridade que definitivamente não me pegou.

Davi: Achei esse álbum interessante. Não é espetacular, mas foi curioso ouvir. O disco, na verdade, são 2 faixas. Cada uma durando um pouco mais de 20 minutos. “Godspeed”, a primeira delas, começa com uma introdução de aproximadamente 3 minutos com os músicos fazendo uma bagunça sonora. No início, não estava botando muita fé. Suspeitava que seria mais um daqueles discos artísticos sem pé, nem cabeça. Graças a Deus, estava equivocado. A faixa instrumental conta com uma pegada stoner, com os músicos tocando com garra e Isaiah Mitchell debulhando na guitarra. O riff remete à Sabbath, mas o solo apresenta claras influências de Hendrix. Influência que fica ainda mais escancarada na jam instrumental “Sonic Prayer”, onde o músico, mais uma vez, é o grande destaque. Algumas versões desse disco trazem o bônus “Cherry Red”, um cover do Groundhogs. A versão é bem bacana, bem enérgica e conta com um trabalho vocal correto. (Infelizmente, não consegui a informação de quem gravou a voz). Para quem curte rock instrumental, pode ser uma boa pedida.

Fernando: Nem havia percebido que tinha um disco “recente” aqui na lista. Apesar que a sonoridade e até a capa até confunde com algo dos anos 70. Essa introdução longa eu não curti, mas entendo que faz parte do tipo de som. No geral é calcado nos anos 70, mas adota aquela linguagem mais stoner que também nunca me fez tanto a cabeça. Estou no meio da audição e estou preocupado em não gostar do disco mais recente e ser taxado de ser daqueles que “só gostam de velharias”. Lá pelos 6 minutos da primeira faixa tem uma passagem mais rápida, quase heavy metal, que é bem legal. O disco só tem 3 músicas sendo duas seguidas com 20 minutos. Quero só ver fã de Iron Maiden reclamando disso aqui nos comentários, hein! Entendo o motivo dele estar aqui, o guitarrista pira em vários momentos, mas no geral o disco não me pegou.

Mairon: Não conhecia essa banda, e fui pego de surpresa com um trio que manda ver em um instrumental stoner/hard de ótima qualidade. Os caras tem uma grande pegada, e principalmente, ótima criatividade. São duas longas faixas que parecem ser uma longa série de improvisos em cima de bases pré-determinadas, o que em nada desqualifica o resultado final. Solos rasgados de guitarra feitos pelo competentíssimo Isaiah Mitchell competem com uma cozinha que manda ver sem piedade, e é uma audição muito boa, para curtir viajando com sua air guitar. Ambas as faixas são excelentes, mas curti mais o vigor da primeira, "Godspeed", em relação as viajantes e improvisantes passagens de "Sonic Prayer", que é uma canção mais "chapante" em relação a sua irmã. De bônus, uma versão poderosa para "Cherry Red", do The Groundhogs. Belo disco, e surpreendente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Capas Legais - Crush With Eyeliner [1995]


Hoje, o Capas Legais traz a irreverente capa do single de 7″ de “Crush With Eyeliner”, canção originalmente lançada pelo R. E. M. no álbum Monster, de 1994, e cujo lançamento aqui apresentado é no formato de um calendário. Confira!



sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Brian May - Back To The Light [1992]



De outra feita, eu já apresentei nessa coluna de Discos Que Parece Que Só Eu Gosto o EP Starfleet, que Brian May lançou junto com o Van Halen. Porém, este não é o único lançamento dele que eu acredito estar nesta lista. Back to the Light também entra nesta barca.

Que Brian May sempre soube se cercar de bons músicos e ser uma espécie de Gene Simmons inglês, conseguindo lucrar um bom dinheiro com o seu passado no Queen, poucos podem duvidar. Particularmente, tenho uma certa antipatia com o guitarrista, principalmente por que não vejo com bons olhos sua vontade de seguir com o nome Queen mesmo sem Freddie Mercury e John Deacon. Porém, há muito tempo atrás, o guitarrista decidiu enveredar por uma carreira solo, e uniou forças com metade do Black Sabbath (na época) para parir seu primeiro LP. Os ex-Sabbath são nada mais nada menos que Cozy Powell (bateria), Neil Murray (baixo) e Don Airey (teclados), e que na época, haviam acabado de sair da turma do bigodudo Tony Iommi, por conta do retorno da formação com Ronnie James Dio, Geezer Butler e Vinny Appice.

Eddie Kramer, Neil Murray, Brian May e Cozy Powell

De 1988 a 1992, May compôs uma série de canções, que ganhou o mundo em julho de 1992 através de Back to the Light. No encarte, May já afirma que o homem que finalizou o álbum em 1992 é muito diferente do que o iniciou cinco anos antes, e que o fã irá ouvir é uma coleção de canções feitas ao longo do tempo, sem ter muito do que o fez sucesso com o Queen, mas sim traços de um músico pequeno e inseguro (no caso, ele mesmo). Com a participação especial de Geoff Dugmore (bateria), Gary Tibbs (baixo), Mike Moran (piano, teclados), temos aqui talvez o melhor disco solo de um Queen, batendo de frente em obras como Mr. Bad Guy (Freddie Mercury, 1985) ou Fun in Space (Roger Taylor, 1981).

O álbum começa com May entoando uma canção de ninar em "The Dark", trazendo parte da letra de "We Will Rock You" e apresentando acordes de sua Red Special que até uma formiga chapada reconhece. A vinheta, com pedaços registrados em 1980, surge pomposamente, com cordas, piano, harpa, preparando o terreno para o desenrolar do disco, então vem a faixa-título, concebida originalmente nos ensaios para The Miracle, com teclados e a voz de May, em um clima que lembra bastante faixas do álbum Made in Heaven, e com o refrão trazendo as marcantes vocalizações que consagraram o Queen, além de um solo característico de May.

Brian May

"Love Token" é um hard furioso, com Powell e Murray mandando ver na cozinha, bem diferente do que poderíamos esperar de algo vindo do Queen. O ritmo lembra algumas bandas do hard americano oitentista, mas com todo o charme e elegância britânica advindas dos vocais e da guitarra de May, encerrando com o blues do piano e da guitarra, e levando para a melhor faixa do disco, "Ressurection", um épico composto entre May, Powell e Jamie Page (não o do Led, mas do grupo australiano Black Alice), com uma pegada absurda por Powell, espancando a bateria, e de cara, com um magistral solo de May. Os vocais de May estão super agradáveis com a hardeira, e a guitarra é o centro das atenções junto com os teclados de Airey e a pancadaria de Powell. A faixa emerge por vocalizações sombrias, mas o ritmo incansável de Powell perdura ao longo de cinco minutos de tirar o fôlego. A sequência de solos de May é arrebatadora, e tudo encerra-se perfeitamente, em uma das melhores canções de toda a carreira de May.

Depois de toda a pancadaria, vem a clássica balada "Too Much Love Will Kill You", com May ao piano elétrico e teclados, cantando uma canção que se tornou conhecida no mundo inteiro, provavelmente a mais conhecida do álbum, já que ele havia apresentado a mesma no Freddie Mercury Tribute Concert meses antes. O único diferencial é que aqui May faz um solo de violão, além de entoar alguns acordes de guitarra e da presença sutil de cordas. Fechando o lado A, "Driven By You", uma faixa que retorna ao estilo Queen anos 80, e que poderia tranquilamente estar em qualquer álbum pós-Hot Space, contando com bons solos por May.

O guitarrista e sua Red Special

Teclados trazem "Nothin' But Blue", baladaça com a participação de John Deacon no baixo, mas bem diferente de qualquer balada Queen, mais próxima a um blues lento. "I'm Scared" é um rockzão com todas as características de May,  mas com a pegada de Murray e Powell levando a canção para um clima muito bom. O refrão dá vontade de cantar junto. Falando em blues, "Lost Horizon" é um bluesaço para curtir em uma noite com @ amad@, um insinuante andamento da guitarra solando sobre os teclados, que transforma-se repentinamente para um solo encantador, com os teclados de Moran ao fundo, e um ritmo gostoso. Bela faixa!

"Let Your Heart Rule Your Head" é um folk que lembra muito "'39", inclusive na melodia vocal, com a participação de backing vocals femininos a cargo de Suzie O'List e Gill O'Donovan, as quais também fazem os vocais da faixa-título, ao lado de Miriam Stockley e Maggie Ryder. A guitarra marca um pouco mais de presença em relação a faixa de A Night at the Opera, mas nada além. "Just One Life" é outra balada, com May acompanhado por apenas um violão e orquestrações, em uma faixa dedicada a Philip Sayer, encerrando com "Rollin' Over", um cover para essa ótima faixa do Small Faces, com participação de Chris Thompson nos vocais, e com muita guitarra estourando as caixas de som, fechando em alto estilo um belo disco a ser descoberto por fãs de Queen e de rock em geral. 

A banda de Brian May em 1993: Cozy Powell, Jamie Moses, Shelley Preston, Brian May, Cathy Porter, Neil Murray e Spike Edney

May ainda lançou outros trabalhos em carreira solo, e também ao lado da atriz e vocalista Kerry Ellis. Porém, a participação de Murray, Powell e Airey em Back to the Light dá um poder tão grande para o mesmo que creio que este seja o seu melhor álbum lançado fora do Queen, e mesmo assim, parece que só eu gosto dele. 

Contra-capa

Track list

1. The Dark
2. Back To The Light
3. Love Token
4. Resurrection
5. Too Much Love Will Kill You
6. Driven By You
7. Nothin' But Blue
8. I'm Scared 
9. Last Horizon
10. Let Your Heart Rule Your Head
11. Just One Life
12. Rollin' Over

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Capas Legais: Jefferson Airplane - Bark [1971]



O programa de hoje do Capas Legais resgata o primeiro lançamento da gravadora Grunt, Bark. O sexto disco do Jefferson Airplane foi lançado com uma excêntrica capa no formato de bolsa de supermercado. Confira, compartilhe e aproveite para inscrever-se em nosso canal!



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Consultoria Recomenda: Não Ouça Isso Aqui




Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Mairon Machado

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale e Fernando Bueno

Bem interessante esta escolha de tema do Mairon: discos ruins de bandas que você curte. Temos aí alguns trabalhos que nossos consultores não gostam e que o restante comentou. Como sempre, umas opiniões aí polêmicas e difíceis de engolir. Você também gosta desses discos? Ou concordam que sejam também uma porcaria? Deixem suas opiniões nos comentários!

Focus – Focus [1985]

Por Mairon Machado

Tenho muitos discos frustrantes em minha coleção, mas com certeza, a maior decepção veio desse Focus. Afinal, é a união novamente dos grandes nomes que consagraram a banda holandesa nos anos 70, porém nos anos 80, quase 10 anos após a sua separação. Jan Akkerman e Thijs Van Leer ostentam alaúde e flauta na contra-capa, e só podemos esperar lindos arranjos e melodias advindos das caixas de som, criadas por esses gênios do progressivo. Mas o que ouvimos é uma vexatória tentativa de soar moderno, e que naufraga em tediosas explorações eletrônicas e sintetizadores de timbres tinhosos, vide “Indian Summer” (tenebrosa), e “Le Tango” (que ganharia uma versão mais digna anos depois). O pior fica para os mais de dez entediantes e insuportáveis minutos de “Beethoven’s Revenge“, um dos piores abortos musicais da história. Pouco se escapa aqui, como “King Kong”, onde a capa faz justiça com a participação de flauta e violão, mas não de forma tão empolgante como imaginávamos, algumas passagens de “Who’s Calling“, quando a guitarra e flauta dão o ar da graça na tinhosa “Olé Judy”, e alguns parcos momentos de “Russian Roulette”. Estava pegando poeira na prateleira há algum tempo, e voltou para rodar para essa edição, apenas para ficar mais alguns anos servindo apenas como complemento da coleção do Focus. Vergonha alheia.


André: Não chega a ser uma bomba, mas sim um peido de véio. Um disco inofensivo, sem graça, um prog eletrônico pouco inspirado e que tenta pegar carona na onda oitentista sintetizada. Até tem umas coisinhas legais de flauta em “King Kong”, mas nada de marcante. Sei lá, parece que queriam misturar world music com folk, com prog, com eletrônico, com mais um monte de coisa e saiu uma salada bem sem nada de destaque.

Daniel: Eu tenho este álbum, pois ele veio em uma caixa do Focus com outros 12 discos. Vou confessar que nunca havia prestado muita atenção nele e neste exato momento entendi o porquê. Na realidade, esta não é a banda que gravou o clássico “Hocus Pocus”. Isto aqui é um programa de uma rádio FM, que é transmitido às 3 horas da tarde, direcionado a quem está em uma sala, esperando uma consulta médica ou como trilha sonora de repartição pública. Não necessariamente terrível, mas a chamada “música de elevador”.

Davi: Esse disco deve ter sido um belo balde de água fria para quem comprou na época. Afinal, esse álbum marcava o primeiro trabalho de inéditas da dupla Jan Akkerman e Thijs Van Leer, em uma década. E, para piorar, usaram o nome do Focus na capa do disco. Até acho que seria aceitável se saísse com o nome de The Unfinished Demos, porque é exatamente essa a sensação que fica de várias faixas. Akkerman e Van Leer apresentam aqui um álbum instrumental e adequado ao som da época. Ou seja, um disco repleto de sintetizadores, bateria eletrônica e uma sonoridade mais clean. Não tenho tanto problema com isso, mas achei o repertório bem fraco. O disco é bem sem graça e você se esquece de tudo que ouviu poucos minutos após terminar a audição. “King Kong”, “Le Tango” e “Ole Judy” são as melhores, mas mesmo assim estão longe do que considero uma grande faixa. Achei o disco irregular.

Fernando: Confesso que nunca tinha ouvido esse disco. Gosto e tenho muitos discos do Focus mas nunca tive a necessidade de ouvir toda a discografia. Muitas bandas progs se perderam nos anos 80 por tentar modernizar seu som ou simplesmente ir na onda do que estava em alta na época, mas o Focus foi para outro nível. Os timbres são ruins, as ideias são ruins e tudo isso me parece que foi resultado de uma reunião que feita também em um momento ruim.

Megadeth – Risk [1999]

Por Daniel Benedetti


Este disco é uma das maiores decepções musicais que tive. Tudo bem, os dois álbuns da discografia do Megadeth que o antecedem já não são do nível que a banda atingiu em Rust in Peace, mas tinham os seus momentos. Este aqui, nem isso. Há um riff aqui e outro acolá, mas, no grosso, o que fica são canções amenas, sem nenhum ‘punch’, sem nenhuma pegada, com vocais vexaminosos de Dave Mustaine. Há canções constrangedoras como “The Doctor Is Calling”, “I’ll Be There” e “Ecstasy”, todas são um “pop metal” sem nenhuma graça, sem vibração ou mesmo sentido. Mas nada supera “Crush ‘Em”, a pior música da carreira do Megadeth. Enfim, este álbum é uma catástrofe.

André: Dos discos daqui, é o único que irei contrariar e dizer que gosto do álbum. Por mais que tenha sido um fracasso comercial e grande parte do pessoal tenha malhado o disco na época, digo que o álbum até envelheceu bem. Tem uma pegada hard rock moderna com alguns momentos de metalcore. Mas as composições e o estilo do disco me agradam. Eu por exemplo adoro “Crush’ Em”. Outra que também curto é “Seven” que contam com riffs legais e uma pegada do hard oitentista que gosto, mesmo que seja estranho a primeira ouvida com as vozes de Mustaine. Enfim, não acho ruim, sei que destoa do restante da discografia da banda, mas esse é um daqueles casos que de “Discos que Parece que Só Eu Gosto”.

Davi: Sabe quando a banda sai da sua zona de conforto, mas seus fãs são conservadores demais para entenderem o álbum e começam a torcer o nariz para o artista? Bem, esse é exatamente o caso de Risk. O Megadeth é um dos gigantes do thrash metal, que nasceu quando seu líder foi expulso de outro gigante do thrash metal. Bem… Os caras lançam um álbum, o que todo mundo espera? Thrash metal! O que está presente no disco? Heavy metal com influência de rock alternativo e rock industrial. Pronto! A treta se tornou real. Esse é aquele trabalho típico que, se tivesse sido lançado com o nome de Dave Mustaine Project, não teria sido massacrado. Ok, “Crush ‘Em” é bem fraquinha, mas o disco, como um todo, é bem interessante. “Breadline” tem um pé no pop, mas é uma boa canção. “Prince of Darkness”, “The Doctor Is Calling” e “Ecstasy” também são faixas acima da média. Claro, o disco não é perfeito, tem uns fillers aqui e ali, mas está longe de ser essa bomba atômica que pintam. Deixe o mimimi de lado e dê uma nova chance.

Fernando: Nunca desgostei totalmente desse álbum do Megadeth. Analisando todas as circunstâncias de quando ele foi lançado é muito compreensível o seu resultado. Os anos 90 fora cruéis para algumas bandas e quem tentou algo diferente nem sempre deu certo. Vem à cabeça um exemplo parecido, o Kreator, que como o Megadeth errou a mão, mas fez discos que tem seus momentos interessantes. Entretanto a velha comparação com o Metallica também deve ter interferido muito, pois sabemos que mesmo dizendo que não, os rumos de sua ex-banda sempre influenciava no que Dave estava fazendo.

Mairon: Pessoal sempre caiu de pau nesse disco, e confesso que nunca entendi por que. Gosto bastante de “Insomnia” e da pesada “The Doctor Is Calling”. Ok, o disco tem experimentações como os eletrônicos de “Prince of Darkness”, momentos psciodélicos da ótima “Wanderlust”, flerte com disco music(?) em “Crush ‘Em”, uma das melhores músicas que Mustaine fez em sua carreira, e até uma pisadinha no Metallica de Load e Re-Load em “Seven” (que solos de guitarras massa). Mas para aí, essas músicas são muito legais, e melhores até que os discos da “banda rival” da turma de Mustaine. Admito que “Breadline” e “I’ll Be There” são fraquinhas, que a primeira parte de “Time” é desnecessária, mas no mais, acho que a coisa funciona muito bem. Fala sério, como não cantar “Ecstasy” em plenos pulmões, e ainda por cima com aqueles violões?? É um disco bastante diferente na discografia do Megadeth, mas acho ele muito bom, e longe de ser o pior da banda, já que mesmo nos anos 2000 vieram coisas bem mais fracas ou com pouca inspiração.


Queensrÿche – Q2K [1999]

Por André Kaminski


Eu sempre achei que essa banda tinha um potencial enorme para lotar estádios e ser uma banda gigante. Mas depois de Empire [1990], a banda só flopou em seus lançamentos posteriores com um ou outro disquinho bom ou meia boca. Este é um dos piores. Um rockzinho alternativo chato, monótono, com um instrumental previsível e de pouco capricho. Não sei como os caras aguentaram essas baboseiras do Tate por mais de 20 anos desde a obra prima que foi o Empire. Depois que eles separaram, tanto Tate quanto o restante da banda até que entraram nos eixos e lançaram trabalhos melhores. Mas aí já era tarde demais para serem aquela banda gigante que eu achei que poderiam ser. Se quiserem pegar o melhor da banda, escutem os 4 primeiros, daí ouça o Mindcrime II (que eu até achei bom) e aí voltem ao autointitulado de 2013 para frente que você terá boas coisas. Quanto ao restante, fuja. Desse aqui principalmente.

Daniel: Que disco chato! Vou soar repetitivo, mas este é outro trabalho sem nenhuma pegada, sem nenhum punch. Eu gosto do grupo, especialmente de seus álbuns iniciais, mas este aqui foi uma tortura de ouvir até o fim. “Liquid Sky” é um símbolo da chatice do álbum, bem como a insuportável “Burning Man”. Para não dizer que nada se salva, “Breakdown” é legalzinha, mas é só. Nada de músicas mais trabalhadas e zero de inspiração.

Davi: A fase do Queensryche que vai do EP ao Empire é devotada entre os fãs de heavy metal. A partir de Promised Land, seus álbuns começam a dividir cada vez mais os seguidores. E esse aqui teve um fator extra para isso. O guitarrista Chris De Garmo, figura extremamente importante nessa primeira fase, havia largado o barco. Para o seu lugar veio (o bom) Kelly Gray. Discos como Operation Mindcrime e Empire ficaram na memória dos fãs por apresentar um repertório cativante e complexo. Em Q2K, os arranjos estavam mais simples e a sonoridade aqui estava mais próxima do Hear In The Now Frontier do que fase clássica. Trata-se de um álbum variado, extremamente bem tocado e bem cantado, porém eles não haviam se livrado da influência do rock alternativo, que tanto vinha incomodando parcela de seus fãs. Contudo, se você ouvir o disco, sem comparar com o que foi feito no passado, simplesmente der o play e tentar entender o contexto do álbum, você provavelmente irá se divertir bastante. Eu, particularmente, gosto muito de faixas como “How Could I?”, “Breakdown” e “The Right Side of My Mind”. Não é um clássico, mas é um bom disco.

Fernando: Achar disco ruim na discografia do Queensryche não é coisa difícil, principalmente depois de Promise Land. Talvez esse nem seja seu pior disco. Tem outros que poderiam estar aqui como Dedicated to Chaos, Tribe, American Soldier… Ou seja, a banda perdeu por no mínimo 20 anos de carreira.

Mairon: O Queensrÿche é uma banda que realmente não consigo gostar, mas o EP de estreia, que foi recomendado em um Consultoria Recomenda há alguns anos, eu curti bastante. Não sabia o que esperar deste disco, e até que me surpreendi positivamente. A banda não está voltada aquelas inspirações progressivas do final dos 80, início dos 90, e soa como um hard noventista com pitadas de grunge. A coisa funcionou bem. Gostei de faixas como “Breakdown”, “Falling Down”, “How Could I?” e “Sacred Ground”. Impressionante como a voz do Geoff Tate me lembrou o Michael Kiske de Chameleon (que achei que pintaria nessa lista). “One Life” é uma ótima música, dá vontade de cantar junto, e com um lindo solo carregado no wah-wah (Alice in Chains deve ter ficado faceiro aqui), bem como “The Right Side of My Mind”, a única a flertar com progressivo, mas de forma muito sutil. Até a baladinha “When the Rain Comes…” é legalzinha, melhor que a clássica “Silent Lucidity”. A segunda metade do álbum cai bastante, principalmente em faixas como “Beside You”, “Burning Man”, “Liquid Sky” e “Wot Kinda Man”, essa última um Soundgarden pioradinho. No geral, gostei do disco, mas entendo que para um fã de Queensrÿche, realmente não combina.

Gov’t Mule – Mighty High [2007]

Por Davi Pascale


Quando pedi para o Mairon que me explicasse o tema, ele me disse que teria que recomendar um disco de uma banda que fosse fã, mas que não gostasse tanto do disco em específico, que considerasse uma bola fora. Não demorou muito e vários títulos começaram a pipocar na minha cabeça. Pensei no Zooropa (U2), no Los Hermanos 4, no Eye II Eye do Scorpions, mas acabei optando por esse do Gov´t Mule por considerá-lo menos manjado. Me tornei fã do Gov’t Mule ainda nos anos 90, por recomendação do pessoal da Aqualung, quando ainda era moleque. De cara, adorei o som blues rock praticado pelo trio. As músicas eram fantásticas, os músicos impressionantes, e vim acompanhando a cada lançamento desde então. Comprei esse disco na época de lançamento e, pela primeira vez, fiquei decepcionado. Claro, a parte de execução continua brilhante, mas achei o repertório bem chato. Aqui, eles saem do senso comum e caem no universo do reggae/dub. Até gosto de algumas coisas do gênero, mas sei lá, acho esse trabalho bem cansativo. A música que abre o álbum “I´m a Ram” considero excelente, “The Shape I´m In” acho bacana e a versão de “Play With Fire” (Rolling Stones) ficou interessante, o resto do disco não me agrada. Nem mesmo a versão do clássico “Hard to Handle” (Otis Redding) me cativou. Claro, não vou dizer que é um lixo, a banda sempre teve qualidade de sobra, mas definitivamente é um trabalho que não me encanta. Vamos ver o que nossos colegas têm a dizer.

André: Não conheço muito da banda, mas sei que eles fazem um southern rock competente. Então me surpreendi quando comecei a tocá-lo e começou a sair um “reggae rock” aqui das minhas caixas de som. Não sou fã de reggae, mas ouço sem fazer cara feia. Porém, achei o disco meio chatinho. Não é um horror, mas é aquela coisa meio inofensiva, como uns momentos xaropentos que me remeteriam a uma espécie de “reggae alternativo” como em “Horseflies”. “Unblow your Horn” tem um trompete que soa, como dizemos aqui no Sul, “paia”. Bem esquecível e totalmente deslocado na discografia dos caras.

Daniel: Eu confesso que nunca dei bola para essa banda e não conheço seu trabalho anterior, portanto, não sou capaz de comparar este disco com a obra prévia do grupo. Dito isto, também confesso que “Reggae Rock” não é algo que costume me agradar, ainda mais quando me parece um pastiche. Este é o pior disco da lista – e com sobras. “Rebel with a Cause”, a segunda faixa, quase me fez desistir da audição, mas segui em frente. Mal sabia que a versão para “Play with Fire” seria uma tortura infindável, que “Unthrow That Spear” é ruim de doer ou que “Reblow Your Mind” gira sem sair do mesmo lugar. Para não dizer que odiei tudo, “So Ram, So Strong” tem uma malemolência legalzinha. Concluindo: se isto é o tal Gov’t Mule, nunca mais!

Fernando: Eu não consigo nem dizer se esse disco do Gov´t Mule é ruim ou não, pois desconheço a banda quase que completamente. Porém sei que os fãs de Southern rock tem a banda em alta conta, então só de encontrar sinais de reggae e dub já me fazem ir com a maré e não recomendar esse disco.

Mairon: Confesso que não sou um grande conhecedor da obra do Gov’t Mule, mas o pouco que havia ouvido, havia gostado (principalmente os discos dos anos 90). Esse álbum em especial nunca tinha ouvido, e me foi uma baita surpresa. Jamais imaginaria o grupo gravando reggae e versões dub para suas canções, e por mais que eu goste de reggae, a combinação com o estilo southern original do grupo não combinou. É difícil ouvir as jams “Reblow Your Mind” e “Outta Shape”, ou entao “Rebel With a Cause” e “The Shape I’m In”, sem sentir uma sonolência pesada. A coisa piora em “Horseflies”, “Plasticine Era”, “Unblow Your Horn”, na desnecessária revisão para “Play With Fire”, ou então “Unthrow That Spear”, faixas perfeitas para se soltar aquele “put@ que p@riu, olha o que me obrigam a ouvir …”. Se a banda ficasse só no que foi consagrado mundialmente, seria ótimo, como o solo de “I’m a Ram”, ou se o disco fosse todo com os vocais animados de Toots Hibbert em “Hard to Handle”, ou até mesmo a malemolência de “So Ram, So Strong”, daí até passaria por média. Mas não é, infelizmente. Como diz a canção “Hard to Dubya”, é duro de ouvir isto … Ótima indicação para esse Recomenda. Fuja sem medo!

Van der Graaf Generator – Alt [2012]

Por Fernando Bueno

Eu já até escrevi sobre esse disco aqui para o site. Lembro que foi uma decepção tão grande quando recebi esse disco e coloquei para tocar que me senti na obrigação de avisar outros fãs da banda para que não cometesse o mesmo erro que eu. Afinal o meu objetivo aqui no site é passar as boas impressões que eu tenho de música para os leitores e escrever sobre algo que eu não gostei nunca foi a intenção. Ou seja, o desgosto foi tão grande que causou essa ocasião única para mim. O texto original ficou perdido pelo nosso problema com o antigo servidor. E talvez nem possa ser considerada uma perda.

André: Daquele tipo de coisa que eu simplesmente abomino: arte pós-moderna. Pintam um quadro de branco e chamam de “O Nada”, “O Vazio”. Dão um pincel para um macaco fazer sujeira e chamam a bagunça de “Arte Símia”. Basicamente o mesmo tipo de comparação pode ser dito sobre este disco: um monte de baboseiras instrumentais coladas que alguns chamam de “música”. Ruim. Muito ruim. E além de ruim, é chato.

Daniel: Esqueça-se da banda que gravou álbuns como Pawn Hearts e Godbluff. Se o leitor for ouvir este Alt esperando aquele som, vai ser pura decepção. Este disco é totalmente experimental, quase uma “bricolagem” de sons e efeitos sonoros, com passagens instrumentais. É um disco que eu chamaria de ‘desafiador’, pois exige do ouvinte uma boa dose de ‘boa vontade’, não apenas para compreender a proposta, mas, principalmente, embarcar nesta viagem experimental. Eu curti e “Dronus” é uma faixa incrível!

Davi: Tudo bem, a banda é boa, fez história, mas isso aqui é uma verdadeira tortura. Trata-se de um álbum extremamente experimental, que apresenta os músicos fazendo jams e colocando efeitos fora de hora. Nenhuma música mais melódica e nenhum momento que faça seus olhos brilharem, que te deixe intrigado. É aquele álbum típico que deixaria Yoko Ono feliz, mas que deixa meus ouvidos tristes, muito tristes. Nenhuma música se destaca. Achei o álbum horripilante do início ao fim. Foi o pior da lista, fácil, fácil.

Mairon: Esse álbum do Van der Graaf Generator é um tanto quanto controverso entre os fãs da banda, mas não o considero o pior. Totalmente instrumental e bastante improvisicional, a união do trio Peter Hammill, Hugh Banton e Guy Evans cria um clima bastante interessante ao meu ver, como uma espécie de trilha sonora, de onde destacam-se experimentações como “Colossus”, “Dronus” e “Splendid”, ou os espetáculos a parte de Guy em “Elsewhere”, uma das melhores faixas do álbum. Quando há criação exclusiva por parte de Banton, a coisa flui ainda melhor, vide a linda “Repeat After Me” e a espetacular “Midnite or So”. Ok, o disco possui alguns delírios e viagens desnecessárias, mas nada que seja tão ridículo ou ruim assim. Se Time Vaults estivesse por aqui, até entenderia, mas Alt eu discordo fortemente

domingo, 12 de setembro de 2021

Saxon - Inspirations [2021]




 O que leva um grupo de veteranos do Heavy Metal a gravar um disco de covers de bandas que foram inspirações em sua carreira? Bom, uma pandemia mundial é uma boa justificativa para isso, e foi o que os britânicos do Saxon construíram durante o ano de 2020, culminando com Inspirations, vigésimo terceiro álbum da banda, lançado no dia 19 de março deste ano. O grupo está com Biff Byford (vocais), Paul Quinn (guitarras), Doug Scarratt (guitarras), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria)

Temos aqui homenagens bastante diversificadas, como os dois grandes nomes do British rock nos anos 60, sendo que o disco abre com uma pesada versão para “Paint it Black” dos The Rolling Stones, que mantém as harmonias do original, mas claro, com as guitarras fazendo as vezes do Sitar, ganhou bastante peso, assim como o rockaço de “Paperback Writer”, mais uma versão para uma canção dos The Beatles a entrar no hall de “melhor que a original”, principalmente pela presença das guitarras.

Nigel Glockler, Doug Scarratt, Biff Byford, Nigel Glocker e Paul Quinn

O genial Jimi Hendrix é homenageado com “Stone Free”, bem mais para cima do que a versão de Hendrix, mas diria que num patamar abaixo do que a original, fugindo um pouco do clima que o Deus Negro da guitarra criou, assim como o gigante Motörhead recebe uma paulada versão para “Bomber”, que é um dos grandes momentos de Inspirations. Outro grande trio a ser homenageado pelo Saxon é o Thin Lizzy, com uma fantástica “The Rocker”, que assim como “Stone Free”, ficou bem mais up do que a original, mas aqui, pontos positivos ao Saxon.

A Santíssima Trindade do hard britânico também está no CD, com “Immigrant Song”, versão muito fiel a do Led Zeppelin, até com os agudos bem feitos pela voz experiente de Bifford. “Evil Woman”, original do The Crows, mas mundialmente conhecida pela versão do Black Sabbath, também está bastante fiel ao que a turma de Iommi fez, com o baixão de Nibbs em destaque. E o Deep Purple surge com “Speed King”, outra muito fiel ao original, que peca pela ausência do hammond durante o solo, mas que foi relativamente compensado pelas guitarras, os quais aqui sim criaram solos totalmente novos, que fogem do que foi registrado pelo Purple em In Rock (1970).

Versão em vinil branco

Como surpresas, temos AC/DC e sua “Problem Child”, bastante fiel ao que foi gravado por Angus Young e cia, a linda versão de “See My Friends” dos The Kinks, que é talvez a que mais foge dos padrões originais, apenas com as linhas vocais bastante similares, e o surpreendente Toto de “Hold the Line”, que, acredito eu, possa ter sido a inspiração para os britânicos gravarem álbuns como Innocence Is My Excuse e principalmente, Destiny, até por que eles gravaram neste disco a versão de "Ride Like the Wind" (Cristopher Cross), e ouvindo a boa versão do Saxon para esse clássico, é possível perceber elementos destes discos por aqui, principalmente no refrão. 

Curti bastante também a capa do disco, na qual traz as caricaturas dos onze grupos homenageados junto a caricatura do Saxon, sendo divertido ficar buscando cada uma das bandas. Senti falta apenas de alguma canção do progressivo, pois uma banda que fez algo tão sensacional para "In the Court of the Crimson King" (Killing Ground, de 2001) certamente tem referências para serem "inspiradas" em um disco. Em pouco mais de 36 minutos, o álbum passa de forma divertida e muito bem apreciada para esses tempos difíceis em que o álbum foi criado, mas que certamente, deve ter dado um grande alívio para o quinteto em ter tocado canções tão emblemáticas para a história da música, e como o título do álbum sugere, inspiraram na formação de um dos grandes grupos do heavy metal britânico. 

Contra-capa em vinil

Track list

1. Paint It Black
2. Immigrant Song
3. Paperback Writer
4. Evil Woman
5. Stone Free
6. Bomber
7. Speed King
8. The Rocker
9. Hold The Line
10. Problem Child
11. See My Friends
Imagem que inspirou a capa de Inspirations

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Rush - A Farewell To Kings (40th Anniversary) [2017]



Ontem, completou-se 44 anos de A Farewell To Kings, quinto disco de estúdio dos canadenses do Rush. O álbum por si só é considerado o primeiro da fase mais progressiva da banda, que seguiu ainda com Hemispheres (1978), Permanent Waves (1980) e Moving Pictures (1981). Afinal, depois de namorarem por dois anos com o progressivo, o trio canadense, aqui formado por Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-mooh, badd pedal synthesizer, vocais), Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) resolveu assumir a relação (basta ver a quantidade de instrumentos que o trio está tocando), e o casamento ocorreu em 1977, gerando quatro filhos geniais citados acima.

Em A Farewell to Kings, o trabalho dos canadenses é praticamente perfeito. Aliás, o que Lifeson faz em todo o álbum é de tirar o chapéu, e deixar aquela dúvida de por que ele nunca está entre os dez mais nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos. Mesmo as canções mais simples, no caso a clássica "Closer to the Heart" e a lindinha "Madrigal", o homem está impressionando. Nas demais músicas, ouvimos a pura perfeição, seja nos extasiantes cinco minutos da faixa-título, destacando o violão clássico de Lifeson e seu solo de guitarra fora do comum, no hard simples de “Cinderella Man” ou nas maravilhas prog “Xanadu”, trazendo uma das mais apreensivas e perfeitas introduções criadas pelo trio, e “Cygnus X-1″, diamante bruto que foi lapidado um ano depois, tornando-o fácil um dos melhores da carreira dos caras. 

Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart em 1977

Então, seguindo a série de lançamentos em comemoração aos 40 anos de seus discos, já apresentado aqui com 2112 e Hemispheres, volto no tempo para comentar a versão de A Farewell To Kings, que foi lançada em 2017. A versão aqui apresentada é a Deluxe Edition, com três CDs, deixando a edição box Super Deluxe, com quatro LPs, três CDs, e mais um Bluray, apenas para o sonho de conquista de um colecionador (mas citarei o diferencial do box ao final). Já comentei sobre o álbum nos parágrafos acima, e o que posso acrescentar aqui é que as faixas estão com a mixagem feita para o relançamento, em CD de 2015, chamada de Abbey Road Mixes, então, vamos aos extras.

Nos CDs bônus, o lançamento resgata o show dos canadenses no dia 20 de fevereiro de 1978, no Hammersmith Odeon de Londres. Parte deste show saiu como CD bônus no ao vivo Different Stages (1998), com onze canções deste show lançados naquela época. Agora, o show vem completo, trazendo além das onze de Different Stages (a saber "Bastille Day", "By-Tor And The Snow Dog", "Xanadu", "A Farewell To Kings", "Something For Nothing", "Cygnus X-1", "Anthem", "Working Man", "Fly By Night", "In The Mood" e "Cinderella Man"), estão somadas quatro canções: "Lakeside Park", "Closer to the Heart", "2112" e "Drum Solo", totalizando 35 minutos a mais. O CD 3 também traz alguns extras, que comento na sequência.

O trio e toda sua parafernália ao vivo

Pegando a apresentação no Hammersmith, após a abertura com "Nights Winters Years", de Justin Hayward e John Lodge, entre muitas explosões, o Rush entra detonando com "Bastille Day", apropriadamente utilizada para abrir a turnê de um álbum chamado A Farewell To Kings. Essa paulada de Caress of Steel é tocada sem tirar uma nota em relação ao original, e logo, o trio acalma os ânimos com a suave "Lakeside Park", de 2112, onde já podemos perceber o uso do bass pedal synthesizer por parte de Lee e Lifeson, com pequenas intervenções entre as pontes da canção. Voltamos para a pancadaria com "By-Tor & The Snowdog", de Fly By Night, e um show à parte de Peart, e encurtada pela metade, abrino os trabalhos para "Xanadu". Essa é uma das grandes atrações do show no Hammesrmith Odeon, já que podemos conferir cinco das seis canções de A Farewell to Kings sendo apresentadas ao vivo, e claro, os doze minutos de "Xanadu", com o trio utilizando praticamente todos os instrumentos possíveis em uma única canção (os famosos double-necks de Lee e Lifeson e a incrível parafernália de instrumentos percussivos de Peart, além do já citado bass pedal synthesizer) é sempre um momento especial. A versão de "Xanadu" é bem próxima ao original e ao que ouvimos em Exit ... Stage Left, mas não por menos encantadora, mostrando que o Rush não era uma banda muito adepta à improvisos, sempre primando pela excelência de suas apresentações. Que grande som!

A versão aqui tratada

Seguimos pela linda "A Farewell To Kings", com Lifeson no violão clássico e mais uma série de empregos de novos instrumentos, seja o mini-moog de Lee ou os diversos apetrechos percussivos de Peart, em outro grande som deste álbum, passamos por "Something For Nothing" (2112), com Peart empregando os sinos tubulares, e encerramos o primeiro CD com "Cygnus X-1", simplesmente perfeita, em toda sua integridade e grandeza, ao longo dos seus 11 minutos dos quais é difícil dizer qual dos músicos está na melhor performance. Uma das canções mais fantásticas da carreira do Rush, simples, e ao mesmo tempo extremamente complexa, e que permitiu posteriormente a sequência para "Cygnus X-1: Book Two - Hemispheres". 

O segundo CD traz as outras duas canções de A Farewell to Kings, mas começa com a paulada "Anthem", de Fly By Night, para mim a melhor faixa para abrir um show do Rush, mas que aqui vem abrindo o segundo CD. Passa por "Closer to the Heart", muito fiel ao original, e tem seu auge com os vinte minutos de "2112", a emblemática faixa que mudou a vida dos canadenses, como tratado aqui, e que nesse show do Hammersmith Odeon, ganhou mais uma interpretação visceral. Os agudos de Lee são impressionantes, o vigor de Peart é de perder o fôlego com quatro minutos, e toda a técnica de Lifeson nos seus solos e riffs são para colocar o guitarrista em um pedestal muito acima de alguns nomes consagrados do instrumento. Acho bem legal também que Lifeson resgata o tema de Contatos Imediatos de Terceiro Grau no momento em que o personagem central da suíte descobre a guitarra. Outra coisa interessante é a interpretação vocal de Lee no momento da conversa do personagem com os sacerdotes do Templo de Syrinx, mudando a forma de falar, e inclusive adicionando drama na voz da personagem quanto os sacerdotes menosprezam-o pela primeira vez. Rush inovando aqui!

O trio de ouro do rock canadense

A sequência final, com o Bis, é aquela conhecida, com "Working Man", "In The Mood" e o solo de bateria, porém acrescentando "Fly By Night" no meio delas. O solo de Peart já é bem próximo ao que depois ficou consagrado em "YYZ" de Exit ... Stage Left, porém adicionando diversos instrumentos. Para surpresa geral, no segundo Bis, a banda apresenta a última canção de A Farewell To Kings, "Cinderella Man", uma rara oportunidade de ouvir essa bela faixa ao vivo, já que depois disso ela participou pouca vez dos set lists dos canadenses. Ficou apenas "Madrigal" de fora, o que convenhamos, é bem pouco perto da grandiosidade do álbum. Fechando o segundo CD, temos uma série de cinco canções bônus. 

A primeira é uma (na minha mais honesta e sem paixão visão) desnecessária versão de "Xanadu" feita pelo Dream Theater. Não entendo a lógica de gravar um cover tocando todas as notas igual ao original, apenas com a bateria soando diferente primeiro por que é Mike Mangini quem está tentando ocupar o posto de Neil Peart e segundo por que as peles sintéticas de hoje em nada se comparam ao som das peles dos anos 70. Os caras parecem adolescentes que estão aprendendo a tocar, que tentam imitar igualzinho os seus ídolos, e quando conseguem vão mostrar faceiros para as tias o resultado. Está tudo certinho, tudo bonitinho, mas é muito mecânico para o meu gosto. Para piorar, James LaBrie nunca foi um bom cantor, e ver ele destruindo na interpretação desse clássico é mais vergonhoso do que ver eleitor do Bolsonaro defendendo o mito com a famosa frase "E o PT?". Ridículo, muito ridículo esse cover aqui. Depois vem "Closer to the Heart" na versão do Big Wreck. Confesso que não conhecia a banda, mas aqui não se preocuparam em fazer algo idêntico ao original, o que ficou interessante, como uma espécie de hard pop que lembra Extreme nos anos 90, bem divertido. O solo foi totalmente renovado, e acho que é o mínimo que poderíamos esperar de algo assim. Não fiquei fã da banda, mas curti a revisão que eles apresentaram.

O box Super Deluxe de A Farewell To Kings

Os canadenses do The Trews (belo nome) revisitaram "Cinderella Man", que apesar de pecar como o Dream Theater, reproduzindo fielmente as notas originais, os vocais aqui encaixaram muito bem, e é agradável ouvir a canção com essa nova perspectiva vocal. O último cover vem de Alain Johannes, músico famoso por sua passagem no Queens of the Stone Age que fez uma viajante revisão para "Madrigal", recheada de sintetizadores. Para fechar os bônus, "Cygnus X-2 Eh", faixa que serviu para fazer os sons incidentais que abrem "Cygnus X-1". 

Acompanha ainda um livreto de 44 páginas, das quais 20 são dedicadas a contar a história de A Farewell to Kings, bem como esmiuçar cada canção do álbum de uma forma tão detalhada em minutagem, e conceitos técnicos, que até fiquei com vergonha dos meus textos dos tempos de Maravilhas do Mundo Prog. Para se ter uma ideia, a faixa-título recebeu quatro páginas de avaliação, enquanto "Xanadu" são cinco páginas de detalhes feitos por Rob Bowman. Também no livreto há as letras do álbum, algumas imagens do trio e uma bela arte de recriação tanto da capa (que apresenta uma interessante charada com três "hobbies" pertencentes cada um a um membro da banda) e com uma bonita arte que acompanha as letras, ambas feitas por Hugh Syme, que criou a capa original. 

O box Super Deluxe contém as mesmas canções deste box, porém, no Blu-Ray, além do áudio das canções originais de A Farewell  to Kings, temos também os vídeos promocionais para "A Farewell To Kings", "Xanadu" e "Closer To The Heart", tornando-se realmente um fetiche para os colecionadores completistas. Daqui uns meses trarei o que está na versão de 40 anos de Permanent Waves, lançada ano passado, e aguardo o que virá para Moving Pictures.

Contra-capa da versão tratada aqui

Track list

Album - 2015 Abbey Road Remaster

1. A Farewell To Kings

2. Xanadu

3. Closer To The Heart

4. Cinderella Man

5. Madrigal

6. Cygnus X-1

CD 2 Live At Hammersmith Odeon - February 20, 1978

1. Bastille Day ( Features A Performance Of Justin Hayward & John Lodge " Nights Winters Years " )

2. Lakeside Park

3. By-Tor & The Snowdog

4. Xanadu

5. A Farewell To Kings

6. Something For Nothing

7. Cygnus X-1

CD 3

1. Anthem

2. Closer To The Heart

3. 2112

4. Working Man

5. Fly By Night

6. In The Mood

7. Drum Solo

8. Cinderella Man

9. Dream Theater - Xanadu

10. Big Wreck - Closer To The Heart

11. The Trews - Cinderella Man

12. Alain Johannes - Madrigal

13. Cygnus X-2 EH


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