terça-feira, 3 de março de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Willy Verdaguer

Nascido em 21 de julho de 1945 na Argentina, Willy Verdaguer é com certeza um dos maiores nomes da música da América Latina em todos os tempos. Ele construiu sua carreira musical no Brasil, onde veio morar nos anos 1960 e se destacou como contrabaixista, compositor, arranjador, diretor musical e maestro, gravando seu nome na cena da música brasileira tocando ao lado de gigantes da MPB, do Pop e do Rock nacional. São inúmeros discos ao longo de uma carreira de 60 anos, e selecionar apenas cinco foi difícil, mas aí vão eles. 

 Beat Boys - Beat Boys [1968]

Famosos por acompanharem Caetano Veloso no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com "Alegria, Alegria", o Beat Boys foi um dos grandes nomes da psicodelia nacional no final dos anos 60. Comandados por Tony Osanah e Willy Verdager, o grupo foi pioneiro ao misturar rock e MPB em um festival de música popular, e logo ganhou espaço para lançar seu primeiro e único disco. O disco é rock 'n' roll puro misturado a muita psicodelia como atesta "Abrigo de Palavras em Caixas de Céu", curiosamente cantada em inglês, "Torta De Morangos", misturando espanhol e inglês, trazendo até citação de valsa, música clássica e tango, além da receita da torta dada em português, e a engraçada "Era Uma Menina", composta por Verdaguer, com um forte sotaque portenho e um interessante trecho orquestral. Verdaguer se destaca no arranjo para "Pauvre Cœur", de André Hossein e Gilles Thibaut aqui chamada "Pobre Coração", com o tocante tema de destaque do banjo, harmônica e orquestra, na monumental "Aria Para A Corda Sol", de Bach, na viajante "Abre, Sou Eu", onde órgão e guitarra chamam a atenção para esta faixa do italo-argentino Billy Bond, originalmente chamada "Abre, Soy Yo" (com quem Willy tinha sido parceiro no grupo Los Guantes Negros), e "Your Mother Should Know", dos Beatles, que virou a bonitinha "Coração Que Ninguém Mais Cantou", com um belo arranjo vocal, Temos ainda duas versões para faixas cantadas em inglês, "Wake Me, Shake Me" (de Al Kooper), alucinante e lembrando Animals da segunda metade dos 60, destacando a guitarra ácida de Osanah e o órgão de Toyo, além claro, da marcação fundamental do baixo de Verdaguer, e a linda versão de "A Time For Remembrance" (The Cowsills), com um belíssimo arranjo vocal, além da versão de "Green Tambourine" (Lemon Pipers), aqui batizada de "O Meu Tamborim". Psicodelia puramente latina para quem achava que os ácidos só contagiaram Estados Unidos e Reino Unido. 

Tony Osanah (guitarra e voz), Cacho Valdez (guitarra), Toyo (órgão), Willy Verdaguer (baixo) e Marcelo Frias (bateria)

1. A Felicidade

2. A Time For Remembrance

3. O Meu Tamborim

4. Era Uma Menina

5. Abre, Sou Eu

6. Abrigo De Palavras Em Caixas De Céu

7. Wake Me, Shake Me

8. Pobre Coração

9. Sempre Esperando

10. Canção Que Ninguém Mais Cantou

11. Aria Para 4ª Corda De Sol

12. Torta De Morangos


Caetano Veloso - Caetano Veloso [1968]

O disco de estreia de Caetano Veloso conta com os Beat Boys como banda de apoio em algumas faixas, e claro, Willy deixa sua marca lá. Se você admira o riff de guitarra e teclado no inicio da canção, e o andamento da clássica "Alegria, Alegria", saiba que o responsável por ambos é o argentino. Preste atenção e veja como é o baixo quem faz a sustentação para todos os demais instrumentos deste clássico da Tropicália. Não à toa, quem estuda música e arte no Brasil, reconhece que o arranjo dessa canção, de autoria de Willy, é um marco para a entrada da guitarra elétrica e do baixo elétrico na MPB, criando então o rock em nosso país. Mas há mais em Caetano Veloso e nas criações de Willy. Temos o sacolejante baixo na psicodélica "Anunciação", dando indícios do que Willy faria ano depois com o Secos & Molhados, e o agito de " Soy Loco Por Ti, América", onde o riff inicial é um dos mais marcantes da carreira de Willy, além de ele comandar o ritmo empolgante da festa que é esta animada canção. O Beat-Boys faz as bases ainda da balada-rock "No dia Que Eu Vim-me Embora", entoam a psicodelia tropicaliana em "Clara", e se divertem na sensacional "Ave-Maria", cantada em latim e tendo o baixo de Willy novamente como destaque, solando enquanto Caetano entoa sua "oração". Era a Tropicália começando a ferver, e semanas depois, explodir no Brasil com o sensacional Tropicália ou Panis Et Circensis, com os Mutantes ocupando o espaço dos Beat-Boys. Mas as bases já haviam sido lançadas aqui.

Caetano Veloso (Vocais, Violão)

Com: Cacho Valdez (guitarras em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Willy Verdaguer (baixo em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Tony Osanah (guitarras, violão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Marcelo Frias (bateria em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Toyo (órgão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Gal Costa (Vocais em 9)

Mutantes (banda de apoio em 12)

1. Tropicália

2. Clarice

3. No Dia Em Que Eu Vim-me Embora

4. Alegria, Alegria

5. Onde Andarás

6. Anunciação

7. Superbacana

8. Paisagem Útil

9. Clara

10. Soy Loco Por Tí, América

11. Ave Maria

12. Eles

Secos & Molhados - Secos & Molhados [1974]

Criador de riffs, Willy acabou apresentado à João Ricardo, e foi responsável por criar obras como a famosa introdução de "Sangue Latino", ou  o riffzão de "Amor", considerado o mais fundamental feito no Brasil, tornando Verdaguer uma referência no baixo, ambas presentes no álbum de estreia do Secos & Molhados. Mas ao meu ver, é no segundo disco da banda que ele consegue colocar realmente a mão na massa e fazer uma performance impressionante. Se não vejamos, o que é a estupidez de velocidade do riff de "Vôo", arrebentando as caixas de som com uma velocidade impressionante, mandando ver na palhetada como se fosse um riff de Heavy Metal. A mesma velocidade surge no riffzão de "Angústia", uma pancada que não entendo como ainda não foi feita uma versão completa com guitarras e um hammondzão, já que é puro hard setentista. Junto com o piano, é o monstro responsável para a base do vocal arrepiante de Ney Matogrosso no arrepiante blues "Delírio" (Cazuza certamente ouviu muito essa música para criar "O Tempo Não Pára"). Além disso, conduz "Flores Astrais" com maestria, em uma base que por si só é um lindo solo de baixo (acompanhe e se delicie com a linha do instrumento durante as vocalizações iniciais. as estrofes e o solo de flauta, além da marcação pulsante do refrão). Em "Hierofante", também o baixo é um instrumento de destaque, solando ao fundo ao invés de simplesmente fazer marcação do tempo, em escalas velozes que acompanha a furiosa guitarra de John (o trecho onde guitarra e baixo duelam é sensacional). Por mim, faz o simples, mas marcante, acompanhamento do pseudo-blues "Toada & Rock & Mambo & Tango & etc.", mostrando que também era um gigante quando tinha que fazer o básico. Um dos melhores trabalhos em toda a sua carreira. 

Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (vocais, violões, harmônica), Gerson Conrad (vocais)

John Flavin (violão solo em 1; guitarras em 2, 7, 8, 12 e 13), 

Jorge Omar (violão em 3, 5 e 10; viola em 10)

Emilio Carrera (piano em 2, 4, 7, 8, 9 e 12; órgão em 2 e 12; sanfona em 13)

Norival D'Angelo (bateria em 2, 6, 8, 12 e 13; timbales em 4, percussão em 7)

Sérgio Rosadas (flauta transversal em 2, 4 e 11)

Willie Verdaguer (violão baixo em 1, baixo em 2, 4, 6, 7, 8, 12 e 13), 

Triana Romero (castanholas em 1)

1. Tercer Mundo

2. Flores Astrais

3. Não: Não Digas nada

4. Medo Mulato

5. Oh! Mulher Infiel

6. Vôo

7. Angústia

8. O Hierofante

9. Caixinha de Música do João

10. O Doce e o Amargo

11. Preto Velho

12. Delírio

13. Toada & Rock & Mambo & Tanto & Etc. 


João Ricardo - João Ricardo [1975]

Ok, fica meio estranho colocar um disco do Secos & Molhados e este do João Ricardo aqui, mas é que a participação de Willy no álbum de estreia do eterno português é crucial. Se não, ouça suas linhas estonteantes de faixas como os rockaços "Rock E Role Comigo", "Se Sabe, Sabe" e "Salve-Se Quem Puder", na leve e hipnotizante "Janelas Verdes", onde seu baixo marca e sola conduzindo magnificamente esta linda canção. Sem sombra de dúvidas, seu trabalho na paulada "Viva E Deixe Viver" e no mini-épico prog "Sorte Cigana", esta forte candidata a melhor música de toda a carreira de João Ricardo (incluindo o Secos & Molhados), é um atestado final de por que o cara é um dos maiores baixistas da América Latina. E o que é o seu solo na introdução de "Balada Para Um Coiote"? E ainda resgatar o riff de "Amor" na mesma faixa, que coisa mais linda! Willy puxa o ritmo da caribenha "Os Metálicos Senhores Satânicos", e além disso, é responsável pelos arranjos de 10 das 11 canções do disco, com destaque para o de "Vira Safado" - com importante participação do baixo na marcação. Depois daqui, sua carreira perambulou por diversos outros gêneros, mas em termos de rock, João Ricardo para mim é a melhor performance de Willy ao baixo. 

João Ricardo (violão de 6 cordas, violão de 12 cordas, harmônica, percussão)

Roberto de Carvalho (guitarra, steel guitar), Emílio Carrera (órgão, piano, sintetizador, sanfona), Pestana (flauta, saxofone tenor, alto saxofone), Willy Verdaguer (baixo), Roberto De Barros (bateria)

1. Salve-Se Quem Puder

2. Vira Safado

3. Janelas Verdes

4. Sorte Cigana

5. Se Sabe, Sabe

6. Balada Para Um Coiote

7. Rock E Role Comigo

8. Fofoquinha 

9. Os Metálicos Senhores Satânicos

10. Doce Doçura

11. Viva E Deixe Viver

Verdaguer - Humauaca [1994]

A estreia de Willy em carreira solo acontece quase 30 anos depois de ele começar a sua carreira como músico, e é uma pedrada. Ao lado de um timaço musical, o músico cria aqui uma das melhores obras do progressivo nacional nos anos 90. Faixas como as complexas "Charara",  "Dança Dos Dedos" e "Jogo da Memória", atestam cada vez mais a genialidade de Verdaguer para criar riffs incríveis. As influências de nomes como King Crimson, Focus e Gentle Giant são nítidas aqui. Mas há bem mais do que os gigantes do prog europeu ao longo de Humauaca. Aprecie o ritmo dançante de "Nova Espanha", com ótima participação da flauta de Marcelo Mig e da guitarra de Marcelo Pizzarro, além de um solo magistral de Verdaguer, com o baixo carregado de efeitos, as lindas "Montanhas" e "Humauaca", as quais apresentam fortes inspirações latinas, tendo a faixa-título vocais que nos remetem ao Vox Dei de La Biblia, e o swing brazuca de "Galho de Arruda", trazendo Derico (aquele, do Sexteto do Jô) no saxofone, Derico este que dá um show à parte na já citada "Jogo da Memória". Quer curtir um blues portenho, vibre com seu uísque e rasgue seu portunhol cantando "Rara Vez". E fechando a audição, delicie-se com os mais de dez minutos de experimentações e variações em "Pulomelu", simplesmente sensacional. Daqueles discos quase desconhecidos, mas com uma qualidade imensurável!

Willy Verdaguer (baixo), Marcelo Pizzarro (guitarras), Tadeu Passareli (teclados), Marcelo Mig (flauta), Gilberto Faveri (bateria)

com

Eduardo Avena (percussão)

Derico Sciotti (saxofone)

Luiz De Boni (sintetizador em 4)

Billy Bond (vocais em 4 e 9)

1. Dança Dos Dedos

2. Nova Espanha

3. Charara

4. Humahuaca

5. Pulomelu

6. Galho De Arruda

7. Montanhas

8. Jogo Da Memória

9. Rara Vez

Bônus Track

Inspirado pelo meu amigo e colega Marcello Zapelini, e com uma discografia tão vasta, ficar apenas em cinco discos de Willy é muito pouco. Sendo assim, incluo aqui um bônus, para atiçar ainda mais a curiosidade do leitor.

Raíces de América - Fruto do Suor [1982]

Surgido no Brasil para um espetáculo musical, com produção e direção a cargo do produtor Enrique Bergen, como uma espécie de união contra a ditadura que assolava a América do Sul nos anos 70, o Raíces da América uniu músicos argentinos, chilenos e brasileiros, e dentre eles, Willy Verdaguer e o velho parceiro Tony Osanah. Seus dois primeiros álbuns traziam fortes críticas à opressão que o povo latino-americano sofria contra os militares, mas é em Fruto do Suor que o grupo se torna um dos queridinhos dos movimentos estudantis Brasil (e por que não, América Latina inteira) à fora. Baseado em um som carregado de temas políticos, folclóricos, cotidianos e musicais, que privilegia as raízes musicais dos países supracitados, o Raíces da América tem exatamente em Willy  um dos seus pilares centrais. Ele compôs a folclórica "Pajarito Gorríon", mas não é como compositor que ele brilha, mas sim, ao violão, e claro, no baixo. Sua veia de criar ótimos riffs está no violão-baixo de "Charanguito" (admire a linha que ele constrói aqui), na ótima "Canción Con Todos", com o baixo carregado de efeitos, ou na flamenca "Angelitos Negros", cujo baixo retumba junto das castanholas de forma espetacular. Mas são versões mais que fantásticas que se destacam ao longo de Fruto do Suor. O grupo revisita a linda "Pedro Nadie", obra do ítalo-argentino Piero, que havia ganho o V Festival Internacional da Canção de 1970, saudando o trabalhador do campo, mandam ver em uma épica versão para "O Violeiro" de Elomar, aqui batizada "El Guitarreiro", emocionam na fundamental "Canción Para La Unidad Latinoamericana" de Pablo Milanés, com um show a parte do baixo de Willy, e eternizam uma das mais belas versões para "O Que Será" (Chico Buarque), com Willy brilhando agora ao violão e também no órgão. A versão para "Soy Loco Por Ti América" (de Gil, Capinan e Torquato Neto) sacudiu bastante o povo brasileiro, e claro, o baixo de Willy marca presença no riff inicial e conduzindo essa dança com muita energia, assim como fôra em Caetano Veloso. O ápice do álbum é a faixa-título, obra-prima na carreira de Tony Osanah e Enrique Bergen, cuja linha de baixo de Willy conduz o forte texto da dupla, exaltando a força dos imigrantes que auxiliaram a construir a América do Sul, e que por diversas atrocidades e interesses, separaram em países povos irmãos, clamando por não serem chamados de estrangeiros, em um país construído por todos e que não tem dono, A canção foi segunda colocada no Festival MPB Shell de 1982, promovido pela Rede Globo, e tornou-se o hino dos imigrantes latinos que vivem no Brasil. Disco fundamental em qualquer Diretório Acadêmico das universidades de nosso continente, de um grupo que eternizou um momento triste que infelizmente, as vezes parece querer retornar para assombrar nossas vidas. 


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