Duvido que quem assistiu a apresentação de Gal naquele show, ou mesmo ouve o álbum, consegue imaginar que menos de dois meses depois ela estaria morta, vítima de um infarto fulminante, provavelmente causado por um câncer de cabeça e pescoço, no dia 9 de novembro de 2022. No palco do Memorial da América Latina, Gal está ao lado do trio formado por Limma (teclados), Fabio Sá (baixo) e Vitor Cabral (bateria), além de Tim Bernardes e Rubel como convidados em algumas canções. O trio serve como uma base quase jazzística para Gal passear na sua carreira, recriando clássicos e fazendo uma agradável sessão nostalgia para o fã mais saudoso.
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| Gal ao vivo no Coala |
Gal abre o show com "Fé Cega, Faca Amolada", com um bom apoio vocal, e destacando o piano elétrico de Limma. É visível que a voz da baiana já não é mais a mesma de anos anteriores, mas ao mesmo tempo, sentir sua energia através dos gritos dados fora do microfone, nos causa uma sensação de total simpatia e vontade de curtir junto, ainda mais com o riffzão de piano e e baixo acompanhado pela forte presença da bateria de Vitor Cabral, que migram para o lindo blues de "Hotel das Estrelas", uma das melhores canções da carreira da Galcha (apelido que Gil deu para Gal), e que somente com baixo, piano e bateria, coloca-nos em uma casa inebriada de fumaça e cheiro de álcool, para chapar mesmo. Belíssima versão, novamente com um ótimo arranjo vocal no apoio, onde Gal apoia-se para uma entrega com todas as forças, e fazer jus à um clássico de sua discografia, registrada no excelente Legal (1970), e de versão definitiva em Fa-Tal (1972).
Gal segue revisitando o passado com outro clássico, "Divino Maravilhoso", canção que praticamente lançou a artista ao Brasil no ano de 1968, totalmente reinventada pelo baixo sacolejante de Fábio Sá, e que vem abaixo com a galera cantando o famoso refrão "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". Uma lástima que a voz de Gal já não está com tamanha potência, e percebe-se sua força para cantar, mas mesmo assim, saber que esta foi a última vez que Gal cantou esta canção, arranca lágrimas.
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| Contra-capa interna do vinil |
Depois de dois mega-sucessos do início da carreira, Gal salta para o bolero "Dom de Iludir", obra-prima de Caetano, na qual ele contrapõe Noel Rosa e Vadico, ao criarem o samba "Pra que Mentir", em - mais uma - das geniais letras de Caetano, e que aqui serve para acalmar os ânimos, e nos lembrar da Gal quase crooner do início dos anos 2000. Chegando na sua fase mais recente, Gal traz a ótima "Quando Você Olha Pra Ela", de Mallu Magalhães, registrada no excelente Estratosférica (2015), e que reflete os dramas de uma mulher que percebe que seu companheiro está de olho em alguém mais nova, num bom sambinha onde Gal diverte-se cantando, e o piano elétrico de Limma é a principal atração nessa faixa que encerra o lado A do vinil.
Seguindo pelo lado B, e mantendo os anos recentes, vem "Palavras no Corpo", do polêmico A Pele do Futuro (2018). Essa linda balada, com climão anos 60, é um dos grandes destaques do último álbum oficial de inéditas de Gal (sendo que Nenhuma Dor, de 2021, traz várias recriações com diversos parceiros), e volta ao passado com a linda "Nada Mais (Lately)", uma arrepiante versão desta obra de Stevie Wonder, que Gal registrou no emblemático Profana (1984). Gal então novamente homenageia Milton Nascimento, em uma animada versão para "Paula E Bebeto", e de seu disco em homenagem à Tom Jobim, faz uma fiel versão para a bossa-nova de "Desafinado", onde o piano elétrico de Limma brilha. Fechando o lado B, Chico Buarque e sua "A História de Lilly Braun", jazz/bluesy raro na obra do carioca, originalmente gravada por Maria Gadú em 2009, e com toda sua vibe hollywoodiana, ganhou muito com o piano de Limma e com um charme grandioso na voz de Gal, inclusive com seus pedidos em inglês para a plateia bater palmas e agitar durante o solo do piano. Musicão!
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| Vinis coloridos |
O vinil dois retorna aos anos 80 através de "Açaí", sucesso de Djavan que Gal registrou em Fantasia (1981), e que surpreendentemente tem o refrão cantado em uníssono pela plateia, e ficou muito boa com o arranjo para piano, baixo e bateria. Seguimos nos anos 80, e com a plateia cantando em altos brados, "Lua De Mel", faixa de Lulu Santos lançada em Lua De Mel Como O Diabo Gosta (1987), um dos discos mais achincalhados da carreira dela, e que particularmente, é daqueles que considero que só eu gosto (um dia escreverei sobre ele aqui). Os anos 80 se encerram com "Sorte", mega-sucesso de Bem Bom (1985), na qual Gal simplesmente deixa a plateia levar no gogó um bom trecho da mesma. Esse resgate oitentista mostra como Gal teve músicas de sucesso, independente da época e da geração, e ouvir a plateia cantando essas duas canções, é arrepiante. Os arranjos para baixo, bateria e piano, dão um ar jazzístico que mudaram bastante a cara dessas faixas, que conseguem fazer com que Gal cante sem se esforçar.
O lado C encerra-se com mais duas obras essenciais de Caetano, "Como 2 e 2" e "Tigresa". A primeira traz Gal acompanhada de Rubel na voz e violão, e retoma os anos 60 através do órgão elétrico de Limma, e o dueto vocal Gal/Rubel ficou muito legal no palco. Como não cantar "meu amor, tudo certo como 2 e 2 são 5"?? Já a segunda, além de Rubel, temos também a guitarra lisérgica e a voz de Tim Bernardes, e com os seus "gatinhos fofinhos", surge uma linda revisão para uma das melhores canções de toda a carreira de Gal, com um show de Tim na guitarra e na interpretação vocal. Ouvir a plateia cantando ao fundo, o riffzão do álbum Caras e Bocas (1977) sendo retomado em 2022, e lembrar que semanas depois Gal não estaria mais entre nós, cara, quem é fã sabe do que estou falando da emoção que isto passa.
Tim segue no palco, e no início do lado D, traz o riff e manda ver nos vocais de "Negro Amor", essa fantástica (e - repetidamente - genial!) revisão de Caetano para "It's All Over Now, Baby Blue" de Bob Dylan. A voz de Tim aqui pqp, incrível. Quando Gal começa a cantar até surge um certo estranhamento, por que os falsetes que Tim dá ao longo da canção, rasgando a voz, são fantásticos. E mais um excelente arranjo instrumental aqui. Seguimos com Tim no palco na linda versão de "Vapor Barato", bluesy, charmosa e o órgão e guitarra fazendo as bases para Gal e Tim soltarem suas vozes. Além disso, um solo de órgão e guitarra que são energia pura, demais! E Gal fazendo suas vocalizações então, sem palavras!
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| Tim Bernardes, Gal e Rubel no palco do Coala |
Rubel volta ao palco, e novamente com Tim, entoam "Baby", voltando então ao fim dos 60 em pleno tropicalismo, em uma versão samba/bossa nova para colocar as emoções nos eixos. Novamente, a voz e a interpretação de Tim são pontos altíssimos para o disco. Uma lástima O Terno ter acabado e a carreira solo dele não ser tão brilhante quanto a da sua ex-banda. Tinham tudo para ir longe! Fechando o disco, Gal resgata "Um Dia De Domingo", parceria original dela com Tim Maia (outro Tim) e lembrando que a canção foi um grande sucesso na América Latina e em Portugal, mas que a imprensa "bateu muito" nela por que a faixa foi escrita por Michael Sullivan e Paulo Massadas, os quais a imprensa perseguia bastante. A plateia solta a voz nessa linda balada fazendo a parte original de Tim, e claro, sem a presença do síndico, perde bastante. E depois que Gal interpretou a voz de Tim no excelente Recanto Ao Vivo (2013), não tem como não lembrar que há versões melhores. Mas é muito bom ter ela no track list.
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| Ecobag |
Fechando o disco, chegamos no polêmico momento do show, no qual Gal faz uma fala política como raramente se viu ela fazer, dizendo que dali alguns dias (mais precisamente 15 dias depois), haveria eleições. "Vamos votar direitinho, vamos votar com sabedoria e com inteligência. Vamos votar sem ódio e vamos votar com amor", enquanto fazia com a mão esquerda a letra L, que normalmente é um gesto usado por apoiadores de Lula. Assim, vem a paulada "Brasil", um de seus maiores sucessos, colocando o Coala para dançar e cantar juntos. Propositalmente (?), a Biscoito Fino deixou os gritos da plateia ao final do show, com "olê, olê, olá, Lula, Lula" (vai ter conservador que não irá comprar o disco por causa disso, certeza).
| Gal em seus últimos momentos no palco, fazendo o L |
Em véspera de eleições, e 4 anos depois, é interessante que o mundo político no Brasil mudou pouco ou quase nada. Lula continua na ativa, e vai para tentar mais um mandato, mas terá a oposição de um dos piores senados já eleitos (se não o pior) na história do Brasil. Já Bolsonaro cometeu uma série de crimes, dentre eles tentativa de gole, e está preso em regime domicilia. Mas deixou seu filho Flávio no lugar, um homem que vive da política há anos sem apresentar projetos que beneficiem a sociedade, e com uma série de investigações nas costas que vão desde rachadinha, recebimento de propina do Vorcaro, até beneficiar criminosos e milicianos. Os dois estão no segundo turno, amanhã, e infelizmente, só resta torcer para que o menos pior ganhe. Por outro lado, Gal deixou saudades, deixou uma infinita lista de canções atemporais, e deixou no palco do Coala uma mensagem que na época acabou dando certo. Gal tinha razão, votem com amor. Obrigado Biscoito Fino.
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| Contra-capa do vinil |
Track list
1. Fé Cega, Faca Amolada
2. Hotel das Estrelas
3. Divino Maravilhoso
4. Dom de Iludir
5. Quando Você Olha Pra Ela
6. Palavras no Corpo
7. Nada Mais (Lately)
8. Paula e Bebeto
9. Desafinado
10. A História de Lily Braun
11. Açaí
12. Lua de Mel
13. Sorte
14. Como 2 e 2 (com Rubel)
15. Tigresa (com Rubel e Tim Bernardes)
16. Negro Amor (com Tim Bernardes)
17. Vapor Barato (com Rubel e Tim Bernardes)
18. Baby (com Rubel e Tim Bernardes)
Bis:
19. Um Dia de Domingo
20. Brasil







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