sábado, 26 de setembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano Veloso As Guest (Part II)



A segunda "coletânea" apresentando Caetano como convidado, agora traz a presença do baiano em álbuns ou canções ao lado de mulheres. É curiosa a relação de Caetano com artistas femininas, pois até 1980, ele só havia participado de gravações ao lado ou de Gal Costa ou da irmã Maria Bethânia, com uma rara participação no álbum Os Meus Amigos São Um Barato, cantando Odara" junto da dona do álbum, Nara Leão, em 1977, o qual marcou o retorno de Nara aos lançamentos regulares depois de algum tempo. 

Porém, a partir de 1980, Caetano expandiu seus horizontes musicais ao lado de mulheres, gravando ora composições suas, ora regravações, ora canções inéditas. As 14 participações que listo abaixo, conforme citado na primeira parte, são todas canções que nunca haviam sido lançadas - até então - em álbuns oficiais de Caetano, mas destaco que além delas, você encontrará a voz do mano Caetano nos seguintes discos de artistas femininos (marcas com * estão presentes no CD de extras das caixas 40 Anos Caetanos, Vol. 3 e Vol. 4), lembrando que estes são os que tenho em coleção, e deve haver muito mais por aí:

Telma Costa* (Telma Costa), Xuxa (Xuxa e Seus Amigos), Margareth Menezes (Gente de Festa *, Para Gil e Caetano), Fiorella Manoia (Gente Comune), Vania Bastos (Cantando Caetano), Cesaria Evora (São Vicente de Longe), Negra Li* (Negra Livre), Belô Velloso (Belô Velloso), Elba Ramalho (São João Carioca), Maria Dolores Pradera (Caminemos), Mercedes Sosa (Cantora), Hebe Camargo (Hebe Camargo & Convidados), Roberta Spindel (Dentro do Meu Olhar), Maria Odette* (Maria Odette), Dona Ivone Lara (Casa de Samba 1), Gil (Casa de Samba 3)

O Lado A tem sete canções ao lado de cantoras brasileiras, enquanto o Lado B fica com cinco cantoras internacionais e duas brasileiras (uma delas com Caetano cantando em inglês). No próximo mês, trago a participação de Caetano em discos de bandas, assim como gravações ao lado de Bethânia e Gal. 

Lado A

1. "Nosso Estranho Amor": Marina - Olhos Felizes [1980]

Um dos maiores sucessos da carreira de Caetano, em termos de composição, "Nosso Estranho Amor" foi gravada pela primeira vez no segundo álbum de Marina (futura Lima). Este blues conduzido por piano e guitarra, no qual Caetano expõe seus problemas de relacionamento com a esposa na época, Dedé Gadelha, tem a participação do compositor cantando o imortal refrão "ah mainha, deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos". Enquanto Marina declama a letra blueseira e apaixonada, Caetano surge com vocalizações ao fundo, e soltando a voz no refrão. Emblemática, atemporal e com um timaço de banda de apoio (Helvius Vilela, do Tempo Trio, no baixo, Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia, na bateria, Paulo Rafael do Ave Sangria, nas guitarras, e Paulo Barros no baixo), um magistral solo de guitarra, música fundamental para abrir esta "coletânea".

2. "Mansidão": Jane Duboc - Jane Duboc [1982]

Quem ouve Depois do Fim, o incrível álbum que a Bacamarte lançou em 1983, e se encanta com a voz de Jane Duboc, se quer imagina que o disco foi gravado quando ela ainda não possuía uma carreira oficial. Ao longo dos anos 70, e início dos anos 80, Jane foi voz ativa nos backing vocals de artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Tavito e, Caetano Veloso, fazendo parte do grupo que registrou Outras Palavras. A amizade entre os dois levou Caetano a contribuir no segundo disco solo de Jane, contando que o primeiro "oficial" foi lançado carregando o sobrenome do então marido Gay Vaquer, sob a alcunha de Jane Vaquer, e ao lado de José Tobias, em 1977. Somente em 1980 ela lançou o primeiro disco com o nome Jane Duboc, no caso Languidez, criando assim "Mansidão", uma linda bossa nova que surge com o violão e a voz de Caetano, seguido pelo piano e a voz de Jane. Um belo contraste entre os instrumentos e as vozes, serpenteados por um belíssimo baixo acústico. A voz de Jane se sobressai na maior parte do tempo, mas o violão e a voz de Caetano se fazem presentes, ajudando a nos revelar a amplitude cultural de uma das maiores intérpretes de nosso país.

Com Joyce

3. "Samba da Benção": Joyce - Negro Demais No Coração [1988]

Joyce Silveira Moreno foi apadrinhada por Vinícius de Moraes, destacando-se como cantora, instrumentista e compositora, o que a levou a se tornar a Menina dos Olhos da Bossa Nova durante a década de 70. Nos anos 80, depois de uma série de discos de pouco sucesso, Joyce resolveu regravar composições do padrinho no álbum Negro Demais No Coração. E coube a Caetano emprestar sua voz para abrir o disco com a atemporal "Samba da Benção" (com a frase que batiza o álbum), de Vinícius e Baden Powell. Joyce esbanja graça na sua voz e no violão, e quando Caetano passa a cantar, é um complemento gigantesco para algo que se transforma em uma jam maravilhosa, inserindo músicas incidentais ("O Samba da Minha Terra", "O Que Que A Baiana Tem", "Requebra Que Eu Dou Um Doce", "Aquarela Do Brasil" e "El Manisero") que fazem uma fusão sensacional do samba carioca de Vinícius com a malemolência do gingado baiano de Dorival Caymmi, através das vozes carioca e baiana de uma dupla sensacional, e por que não, genial!

4. "Cantar": Silvia Patricia - Silvia Patricia [1991]

Mais uma baiana na vida de Caetano, Silvia Patricia (hoje, Sylvia Patricia) veio ao mundo em uma família musical (para se ter ideia, seu avô é primo do pai de Alceu Valença). Falaria horas sobre o talento e a formação de Silvia, que é uma artista reconhecida internacionalmente, mas no Brasil, quase não se fala dela. Em 1988 lançou seu primeiro disco, inspiradíssima em Marina Lima. Com seu segundo disco, lançado em 1991, Silvia mergulhou naquele clima de canções sem tantos teclados e mais dançantes, no que foi chamado pela imprensa de "Pop urbano", e chamou Caetano para cantar "Cantar". uma faixa bastante linda e suave, levada pelos violões de Waltel Blanco e Chico Braga, onde a voz de Silvia está bastante delicada. Mas com certeza é Caetano quem dá o upgrade definitivo à faixa, ao entrar com sua voz igualmente delicada, mas cheia de manha. Os violões com um ar sertanejo, e o belo arranjo de cordas, dão um ar campeiro para a faixa que a torna ainda mais atrativa, e não à toa, levou-a a fazer parte da trilha de Pantanal.

5. "Onde O Rio É Mais Baiano": Alcione - Brasil De Oliveira Da Silva Do Samba [1994]

A parceria do baiano Caetano com a maranhense Alcione é de longa data. Em 1994, Marrom gravou "Onde O Rio É Mais Baiano", uma ode de Caetano à escola Estação Primeira da Mangueira. E quem melhor que a mangueirense raiz para entoar um sambaço de tirar o chapéu. Anunciado com honras, Caetano dá um show cantando seu samba, e claro, o vozeirão de Alcione preenche as caixas de som. O refrão no ritmo do Olodum, com ambos cantando juntos, enaltecendo que "A Mangueira é onde o Rio é mais baiano", é o momento mais forte de uma grande canção. Caetano regravou-a em Livro (1997), disco bastante influenciado pelas percussões do Olodum, e fez mais uma nova parceria com Marrom no clássico A Paixão Tem Memória (2004), com "Pedra de Responsa"*. Mas para mim, é "Onde O Rio é Mais Baiano" a melhor faixa que ele gravou com a Rainha do Samba.

Com a "Marrom" Alcione

6. "Noite Chuvosa": Ângela Maria - Amigos [1996]

Se na edição anterior trouxe para a coletânea a colaboração de Caetano com a magnífica voz de Nelson Gonçalves, não podia deixar de fora sua fundamental contribuição com a Sapoti Ângela Maria. Uma das maiores vozes de sua geração, Ângela também quis surfar na onda de gravar com artistas da nova geração, e em Amigos, chamou Caetano para interpretar "Noite Chuvosa", de Britinho. A dolorida canção ganhou um ar dramático através do piano de Eduardo Souza Neto e do violão de João Lyra. Caetano e Ângela alternam-se nas estrofes, dividindo o espaço igualitariamente, e o arranjo de cordas engrandece o samba-canção do pelotense João Adelino Brito, com uma magistral interpretação de Ângela. Para poucos, mas esses poucos sabem o que quero dizer.  

7. "Jeito Faceiro": Virgínia Rodrigues - Nós [2001]

Em 1997, a cantora baiana (mais uma) Virgínia Rodrigues surgiu ao mundo através de uma descoberta de Caetano, durante as gravações do já citado Livro. O vocal lírico e grave de Virgínia chocou os puristas da axé music, mas encantou aqueles que apreciam música clássica com inovações, levando o The Times de Londres a chamá-la de "nova diva da música brasileira", enquanto a imprensa estadunidense batizou-a de "Cinderela Brasileira". O que ela entrega em Nós, homenageando os blocos afro de Salvador, são encantadoras faixas com orquestras e violões, além de belos arranjos que fazem a negritude baiana do candomblé e da umbanda ser totalmente recriada musicalmente. E ainda tem a honra de dividir os vocais com quem a descobriu em "Jeito Faceiro", uma canção que parece saída das entranhas do Uakti, com um belo arranjo percussivo, e a voz delicada e singela de Caetano sendo um contraponto aos graves e potentes cânticos de Virginia. O dolorido violino que acompanha o vocal dos dois equilibra as diferenças vocais, e é impossível não se arrepiar com algo tão inovador, e ao mesmo tempo reflexivo. Você não precisa gostar de axé music, mas o que foi feito por Caetano e Virgínia aqui, é de altíssimo padrão!

Com Elza Soares

Lado B

1. "Sophisticated Lady": Elza Soares - Somos Todos Iguais [1985]

Depois de um período conturbado em sua vida, quando se separou de Garrincha, e viu o "gênio das pernas tortas" falecer, afastada da música e sem dinheiro para sustentar a si e ao filho Garrinchinha, Elza procurou Caetano desesperada pedindo ajuda. O baiano a acolheu, e a levou para gravar "Língua", em Velô (1984). A canção virou um sucesso nacional, e no ano seguinte, a Som Livre lançava Somos Todos Iguais, com Elza voltando ao mercado da música após cinco anos. Em um repertório variado, o jazz revisitado de "Sophisticated Lady" (Duke Ellington) é um êxtase musical, ainda mais conduzido pelo violão e a voz aveludada de Caetano, que canta em inglês, enquanto a voz áspera e cheia de potência de Elza (particularmente, ao vivo um dos shows mais impressionantes que eu vi) preenche as caixas de som. Infelizmente desconheço os músicos que acompanham Elza, mas o solo de saxofone, e a base do piano, junto ao violão de Caetano e um espetacular baixo acústico, é para ficar girando o uísque embriagado pelo álcool e pela leveza de uma brilhante canção.

2. "Olhos Castanhos": Eugenia Melo e Castro - Amor É Cego e Vê [1991]

A portuguesa Eugenia Melo e Castro fez sucesso no Brasil nos anos 80, graças a sua parceria com Kleiton Ramil e a capacidade de descobrir talentos de Wagner Tiso, que produziu os primeiros discos da cantora no país. Através de Tiso, Eugenia conheceu Caetano, que logo no segundo disco da portuguesa, entregou "Meu E Assim", presente também no terceiro álbum dela. No quarto, grava a faixa-título "Coração Imprevisto", e finalmente, em 1991, a dupla faz uma linda adaptação para "Olhos Castanhos", de Alves Coelho Filho. Apesar dos teclados modernosos e do andamento quadradão, o sotaque português delicadíssimo de Eugenia funciona perfeitamente com a voz manhosa de Caetano, que alternam-se nas estrofes de forma que um complementa o outro. Faixa para curtir sem pretensão alguma, e apenas absorver um pouco dos sempre bem-vindos ares lusitanos.

com Fiorella Manoia

3. "Il Culo Del Mondo": Fiorella Mannoia - Gente Comune [1994]

Em 1994, Caetano foi a Itália para gravar com Fiorella Manoia uma ótima versão para "O Cú Do Mundo" (lançada originalmente no excelente Circuladô, de 1991), intitulada "Il Culo del Mondo". A versão musicalmente é muito fiel ao original de Caetano, levada por um baixo estonteante, o violão marcante e uma percussão jamie muriana para fã de King Crimson não botar defeito. Ouvir Fiorella soltando seu vozeirão nas agressivas palavras da letra de Caetano, em italiano, dá um charme ainda maior para uma música naturalmente agressiva, na qual Caetano colabora cantando também em italiano, e refazendo o refrão em português. Os dois se encontraram 12 anos depois para regravar uma versão em italiano de "13 de Maio", gravada originalmente por Caetano no álbum Noites do Norte (2001). Ok, eu havia dito que não ia colocar regravações de Caetano na lista, mas como resistir a uma ruivinha xingando muito em italiano? 

4. "Mistério de Afrodite": Teresa Salgueiro - Brizzi do Brasil [2002]

Este é um caso curioso, pois o álbum é uma daquelas belas amostras do talento de um compositor (no caso Aldo Brizzi) que se apoia em ombros de gigantes para transformar suas ideias em arte. Com a presença de nomes como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros, o compositor italiano chamou Caetano para duas canções, e uma delas esse delicado fado, ao lado da eterna voz do Madredeus Teresa Salgueiro. Caetano usa e abusa de vocalizações, fazendo intervenções cruciais, mas é Teresa o centro das atenções, dando uma aula - como sempre - de interpretação vocal. Com um instrumental apenas ao violão, baixo e uma tímida percussão, é no tocante sotaque português, que contracena divinamente com as participações cheias de dor de Caetano, entoando o nome de uma faixa belíssima, que ela tem que se fazer presente aqui. Pontual e para se embriagar acompanhado de um bom vinho português!

5. "Island of Wonder": Nelly Furtado - Folklore [2003]

A canadense Nelly Furtado fez sucesso em 2000 com o álbum Whoa, Nelly!. Com apenas 21 anos, a menina encantou o mundo com faixas como "I'm Like A Bird" e "Turn Off the Light", que levaram Nelly a vender mais de 7 milhões de discos ao redor do mundo, e seu som pop com elementos do trip hop. Em seu segundo álbum, a descendente de açorianos resolveu mudar totalmente a sonoridade. Batizado de Folklore, o disco imerge em sons voltados ao folk (como o nome diz), tendo como destaque a bela canção "Island of Wonder". Composta por Caetano, ela mistura algo do flamenco com pitadas do olodum, em um ritmo hipnotizante e tenso, que ganha um toque emotivo brilhante nas vozes de Nelly (cantando em inglês) e Caetano (cantando em português e inglês). O refrão desta canção é lindíssimo, e apesar dos scratches no meio da canção, as vozes de Nelly (arregaçadora) e Caetano carregam ela para status de grandiosa.

Com Lila Downs

6. "Burn it Blue": Lila Downs - Frida [2003]

Não necessariamente uma participação em um álbum de uma artista, mas sim (mais) uma parceria com uma cantora, "Burn it Blue" está presente na trilha sonora do filme Frida, na qual a mexicana Lila Downs é responsável pela voz de cinco faixas. Dentre elas, este espetáculo sonoro que encerra o álbum, e que foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original na 75ª edição do Academy Awards em 2003 - com apresentação da dupla Caetano e Lila em pleno palco do Oscar defendendo a canção, com orquestra e tudo - , do qual a trilha ganhou, mas a canção perdeu para "Lose Yourself", do Eminem, feita para o filme 8 Mile. Tendo tom dramático, ela é puxada pelo violão flamenco e uma das performances vocais mais lindas e incríveis de toda a carreira de Caetano, cantando em inglês. A presença de cordas dá ainda mais dramaticidade para a canção, que ganha contornos de ansiedade com a entrada da voz angustiada de Lila, contrapondo a voz de Caetano. O duelo vocal dos dois, ele em inglês, ela em espanhol, é de se ajoelhar diante das caixas de som, e quando ela canta sozinha, caralho, é de arrepiar. Que música incrível, praticamente obscura na discografia do baiano, e com certeza, uma das grandes obras já registradas em toda sua carreira, seja solo, seja ao lado de outro artista.

7. "Pé Do Meu Samba": Mart'nália - Ao Vivo [2004]

Fechando a coletânea, algo para irritar os leitores. Caetano sembre teve um pé no samba, e ao longo de sua carreira, compôs diversas canções no estilo. Uma de suas composições batizou o álbum de Mart'nália de 2003, que acabou sendo levado aos palcos e registrado em Ao Vivo (2004). Um lindo samba, onde o cavaquinho de Tavinho Menezes e a cuíca de Ovídio Brito fazem a base para uma interpretação magistral de Caetano. Seu dueto vocal com Mart'nália, ao longo do refrão, é fantástico, e claro, a voz cheia de marra e do sotaque carioca de Mart'nália dá um ar ainda mais agradável para esse sambaço. Os xiitas fãs de metal vão se ofender ao ver um samba por aqui, mas aos que têm mente aberta e apreciam boa música, independente do gênero, com certeza irão curtir essa faixa. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

25 Anos de Magnification


No dia 10 de setembro de 2001 (um dia antes do fatídico 11/09), o mundo do rock progressivo recebia aquele que se tornou o último álbum de estúdio do Yes com o vocalista Jon Anderson: Magnification. O 19° disco da banda - em termos de álbuns em estúdio - completa hoje, portanto, 25 anos, e é para mim um dos grandes discos dos já veteranos Anderson, Steve Howe (guitarra, vocais), Chris Squire (baixo, vocais) e Alan White (bateria, piano). Além disso, é o único em uma carreira de quase 60 anos, a ter apenas um quarteto na formação do grupo, graças ao ineditismo de gravar o disco ao lado da Orquestra Sinfônica de San Diego, com arranjos de Larry Groupé, que também conduziu a Orquestra. 

Yes durante a Masterworks Tour

Voltando no tempo, em 1999 o Yes lançava The Ladder. O álbum trouxe como novidade o tecladista russo Igor Khoroshev, que já havia excursionado com o grupo na turnê de Open Your Eyes (lançado em 1997, e que trouxe o grupo ao Brasil inclusive com um show inesquecível em Porto Alegre). A turnê de The Ladder, batizada Masterworks, durou três meses, passando por 31 cidades dos Estados Unidos. Nela, o Yes caprichou em resgatar suítes dos anos 70, incluindo no repertório "Close to the Edge", "The Gates of Dellirium" e "Ritual".

Porém, ela foi encerrada com polêmicas envolvendo o russo, o qual foi acusado de assédios sexual e moral com policiais femininas. Segundo elas, durante o show realizado em 22 de julho de 2000, na cidade de Hartford, ele se aproximou de uma delas, que fazia a segurança próximo à grade de proteção e tentou beijá-la à força. Como foi afastado, acabou por cravar os dentes no seu pescoço. Logo após o espetáculo avançou em outra policial, dizendo palavras de baixo calão e se afastando, não sem antes alisar as nádegas da mulher. Ele foi acusado de duas contravenções, sendo libertado com uma fiança de mil dólares. Khoroshev também possuía comportamento barulhento em hotéis, e assim, pouco depois do último show da turnê, realizado em Cincinatti no dia 04 de agosto de 2000, ele foi demitido. Sem um tecladista, Anderson, Howe, Squire e White começaram a pensar sobre o que fazer, e uma ideia que surgiu era a de tocar com uma orquestra no palco. Vamos às palavras de Howe na época de lançamento de Magnification: 

Igor e Jon em estúdio
Steve Howe durante a gravação
de Magnification

"Nos encontramos com um cara chamado Larry Groupé, que trabalha com a Orquestra Sinfônica de San Diego, e começamos a conversar com ele sobre esse projeto. Inicialmente ele estava muito empolgado em fazer as músicas antigas, para tocar todas as noites, e ele vai reger. Nós vamos sair em turnê, e ele vai reger uma orquestra diferente em cidades diferentes, tocando a partitura dele do Yes enquanto nós tocamos. Me pareceu que, já que estávamos procurando uma orquestra em parte para substituir um tecladista, um dia sugeri, por que não fazemos isso com o disco; em vez de ter um tecladista, por que não usamos instrumentos de verdade quando quisermos, se quisermos cordas, por que não ter cordas de verdade. Eu não levo todo o crédito por ter pensado na ideia de colocar a orquestra, ela meio que veio através de discussões, e eu meio que percebi que era uma opção; e quando eu apontei, os caras disseram, bem, é uma ideia muito boa." 

Anderson ficou surpreso que Squire e White concordaram, pois sentia que os dois sempre preferiam um som de rock mais pesado. Em janeiro de 2001, uma votação online foi publicada no site oficial do grupo perguntando se os fãs desejavam ver a próxima turnê com uma orquestra, e a resposta foi "SIM" (ou melhor, "YES"). Com a confirmação da turnê, em fevereiro a banda entra em estúdio para começar as gravações de Magnification, título escolhido pelo próprio Anderson. 

Larry Groupé e Chris Squire

O álbum abre com uma das melhores canções do disco, tendo o violão e a guitarra trazendo a orquestra para abrir a faixa-título. A marcante voz de Anderson surge, e "Magnification" vai ganhando força com as entradas das cordas, baixo e bateria, além de Anderson dividir os vocais com Squire. O refrão é pulsante, entoando o nome da canção, e a orquestra da um espetáculo a parte ao fundo. Além dela, Howe está impecável, e é impossível não cantar junto de Anderson o nome da canção, que abre o álbum lá em cima. 

"Spirit of Survival" traz um clima bastante sombrio para letras do Yes, levada peo violão de Howe e o baixo de Squire. Os vocais de Anderson são agressivos, e a participação da orquestra é igualmente agressiva. Além disso, o baixão Rickenbacker de Squire explode as caixas de som, em uma faixa muito diferente do que estamos acostumados a ouvir no Yes, e que acabou gerando uma série de teorias, pois no dia seguinte ao lançamento do álbum, ocorreu o famoso atentado das torres gêmeas. O álbum segue com "Don't Go", a canção mais comercial do disco, que se fez presente nos shows de divulgação do disco, e lembra algo na linha do que foi registrado na era Trevor Rabin. Confesso que acho ela a mais fraca do disco, e portanto, passo para a próxima. 

Steve Howe, Alan White, Jon Anderson e Chris Squire. Yes em 2000

"Give Love Each Day" surge com as orquestras em um clima de trilha sonora de filmes de ficção científica. A introdução orquestral é linda, nesta que é a terceira faixa mais longa do álbum, com quase 8 minutos. Após a presença de apenas orquestra por mais de dois minutos, entram guitarra, percussão e o baixo, o qual contracena com a voz de Anderson, em algo muito próximo à carreira solo de Anderson nos anos 70. Ótima faixa, com a orquestra dando um ganho sensacional para o instrumental criado pelo Yes. Impressionante como o vocal cristalino de Anderson brilha aqui, principalmente no belíssimo refrão. 

Squire faz os vocais principais da próxima canção, "Can You Imagine", a qual foi originalmente escrita para o supergrupo XYZ, que contava com Squire, White e Jimmy Page, e que chegou a gravar algumas canções demo em 1981. Aqui, com apenas três minutos de duração, ela ganha vida através do piano de White, cordas e o lap steel guitar de Howe, podendo tranquilamente ser uma faixa do aclamado Fish Out of Water. Chega então a vez de Howe brilhar ao violão na linda introdução de "We Agree". Quem que não curte as criações acústicas do velhinho, simples mas complexas de se tocar, e que se tornam arrepiantes com a presença de um oboé que conduz aos doces vocais de Anderson. Esta é uma canção que considero muito injustiçada, pois além de bela, e com a orquestra marcando presença, "We Agree" apresenta uma das melhores performances de Howe no violão dentro do Yes. Como é bom ouvir ele acompanhando os vocais de Anderson na virada central da canção, muito Yes, e muito, muito bom. 

Imagens no encarte de Magnification

Os vocais de Anderson e o violão de Howe dividem o espaço com flautas, harpa, violoncelo e violinos na bela "Soft as a Dove", outra linda faixa, que peca apenas por ser curta. Mas mesmo assim, com apenas 2 minutos, é de uma grandiosidade que somente gênios como Anderson e Howe conseguem criar, levando à longa "Dreamtime", uma faixa complexa, de 11 minutos, cuja introdução frenética ao violão, tendo um dramático violino solando, e a forte presença orquestral, nos coloca em uma espécie de ansiedade e curiosidade pelo que virá pela frente. 

A alternância de ritmos, instrumentos e a percussão que assola "Dreamtime" fazem dela uma mini-suíte que inicialmente causa um impacto estranho, do tipo "mas o que é isso que os caras fizeram?". Somente após várias audições que entendemos a complexidade magnifica dela, principalmente de como Howe e Squire alternam-se como o centro das atenções durante o trecho instrumental onde Howe sola ora ao violão, ora na guitarra, enquanto o Rickenbacker ressoa pelas caixas de som, e a orquestra, junto de White, comandam o ritmo numa espécie de locomotiva sem freios, cujo final é espetacular, um show orquestral sensacional, que encaminha para outra forte candidata a melhor do álbum. 

Ela é a mini-suíte "In The Presence Of", com suas quatro partes: "Deeper"; "Death of Ego"; "True Beginner" e "Turn Around And Remember". Com White ao piano, fazendo o riff inicial, entra então a voz de Anderson, embriagante, seguido do baixo de Squire, vocalizações e o mandolim de Howe. Orquestra, bateria e guitarra surgem na sequência, dando ritmo para "Deeper", a qual avança pelas caixas de som hipnotizando os ouvidos de uma forma singular, seja pelos vocais de Anderson, seja pelo arranjo orquestral, seja pela base vocal de Squire, seja pela guitarra de Howe.

Yes em show na Suécia, em 6 de novembro de 2001

A canção vai crescendo mais e mais, apresentando o primeiro solo de Howe, chegando então em "Death of Ego", agora com os violões mais presentes, além do lap steel guitar de Howe. Este trecho é tenso, e tem a orquestra em maior destaque na parte instrumental, além de Howe fazer seu segundo solo, abusando da lap steel. "True Beginner" então aparece com fortes vocalizações e marcações como só o Yes sabe fazer, e cara, que coisa magnífica é a harmonia vocal que os caras criam aqui. Finalmente, "Turn Around And Remember" encerra com baixo, lap steel e orquestra conduzindo a voz de Anderson falando "Turn around and remember that ...", alternando os fins de cada frase, e fechando com "Standing on sacred ground", para mais um belíssimo solo de Howe, naquilo que pode ser facilmente definido como uma Maravilha Prog. O álbum fecha com "Time is Time", pequena canção de apenas dois minutos, que serve como uma despedida digna de Anderson, lembrando a saudosa "We Have Heaven", de Fragile. 

A capa do álbum apresenta a arte criada por Bob Cesca, depois de quatro artes criadas pelo genial Roger Dean. Ela traz o logo criado por Dean criou em 1972, que não agradou a Howe, que afirmou que "é uma imagem sem brilho, sem graça e sombria que não fez nada além de decepcionar os fãs e a mim." 

O EP YesSymphonic, com canções que acabaram
saindo em lançamentos com extras

Entre 2001 e 2004, saíram relançamentos do álbum, trazendo como bônus um CD com faixas ao vivo inéditas, registradas nas turnês Masterworks (ainda com Khoroshev nos teclados) e na turnê promocional de Magnification (que falarei a seguir). Aos completistas, vamos para as edições, com as respectivas canções bônus gravadas ao vivo:

- Edição dupla com CD-Rom: "Deeper (In The Presence Of)"; "Gates Of Delirium" e "Magnification", além de entrevista com Jon Anderson, o clipe de "Don't Go" e o vídeo de "Gates Of Delirium" ao vivo;

- Edição dupla normal: "Ritual-Nous Sommes Du Soleil" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Close To The Edge" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround"; 

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Long Distance Runaround", "Don't Go" e "Magnification";

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium", "Starship Trooper", "And You & I" e "In The Presence Of";

Steve Howe e Tom Brislin,
em ensaio para a Symphonic Tour

- Edição dupla normal: "Close To The Edge", "Long Distance Runaround" e "Gates Of Delirium / Soon";

A turnê de promoção de Magnification foi - como quase toda turnê do Yes - audaciosa, com a banda tendo no palco a companhia de uma orquestra e o tecladista estadunidense Tom Brislin (futuro Camel, Renaissance, Kansas, entre outros). 

Ela foi batizada de Symphonic Tour, e o show em Amsterdam, no Heineken Music Hall, em 22 de novembro de 2001, acabou sendo registrado no CD, DVD e LP Symphonic Live, um dos grandes ao vivos da banda. Felizmente, no track list há três faixas ("Magnification", "Don't Go" e "In The Presence Of") do aniversariante de hoje, deixando para a posteridade o brilhantismo ao vio daquilo que o Yes criou há 25 anos em estúdio, em um de seus melhores trabalhos. Ouça sem medo!

Contra-capa de Magnification

Track list

1. Magnification

2. Spirit Of Survival

3. Don't Go

4. Give Love Each Day

5. Can You Imagine

6.We Agree

7. Soft As A Dove

8. Dreamtime

9. In The Presence Of

10. Time Is Time

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