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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano As Guest (Bands + Gal & Bethânia)



Encerro hoje as coletâneas relativas às participações de Caetano Veloso em álbuns de outros artistas. Depois do Volume I, com artistas masculinos, e o volume II, com artistas femininos, hoje é a vez de apresentar as contribuições do baiano em álbuns de bandas, da irmã Maria Bethânia e da super-parceira Gal Costa. 

As participações de Caetano em discos de bandas não foram muitas, e decidi não incluir nada d'Os Doces Bárbaros, já que é apenas um EP e o álbum ao vivo, ambos icônicos e fortemente representados em diversas coletâneas, e nem do Grupo Cê, já que são três álbuns de estúdio (e mais três ao vivo) fundamentais para os anos 2000, e que um dia irei tratar por aqui. Sendo assim, escolhi sete para o Lado A da coletânea, e deixei de fora "coisas" bem estranhas, advindas dos discos de: Meninos Do Pelô (Adota Eu - "Roda Pião); Bate Lata (Gente É Pra Brilhar, Não Pra Morrer De Fome - "Gente"); Jammil (Três - "Tempo de Estio"); Timbalada (Vamos Dar Uma Volta No Guetho (Ao Vivo) - "Margarida Perfumada" e "A Luz de Tieta") e Só Pra Contrariar (Acústico - "Final Feliz"). Então, para fechar a coletânea, selecionei três canções de Caetano em discos de Bethânia, e quatro canções em discos da Gal.

Com Bethânia, que gravou inúmeras canções do mano Caetano, ele gravou o álbum ao vivo de 1978 Maria Bethânia e Caetano Veloso, e além das citadas abaixo, tem a participação em "Alguém Me Avisou" (Talismã, 1980), "O Canto De Dona Sinhá (Toda Beleza Que Há)" (Maricotinha, 2001),  "Saudade Dela" (Encateria, 2009), "Maria Bethânia, A Menina Dos Olhos De Oyá" (Mangueira, A Menina Dos Meus Olhos, 2019), e ainda sua presença ao violão em "Ciclo" (Ciclo, 1983). Já com Gal, ele gravou Domingo, sua estreia em vinil, no ano de 1967, e Temporada de Verão (1974), álbum ao vivo que marca o retorno de Caetano e Gil (igualmente presente no álbum) ao Brasil após o exílio em Londres. 

A baiana também gravou inúmeras canções do conterrâneo. Além das citadas no texto, existem também as participações dele em "Flor do Cerrado" (Cantar, 1974), "Salvador Não Inerte / Ladeira Do Pelô" (Plural, 1990) e "A Luz De Tieta" (trilha de Tieta Do Agreste, 1996).

Vamos à seleção que escolhi, e se você sentiu falta de alguma, ou lembra de algo que não foi citado nos três textos, por favor, traga nos comentários.

Lado A

1. "Brigitte Bardot": Asdrubal Trouxe O Trombone – A Farra Da Terra [1983]

O famoso grupo de teatro Asdrubal Trouxe O Trombone revelou ao Brasil nomes como Luis Fernando Guimarães, Regina Casé, Patrycia Travassos, Evandro Mesquita, entre outros. Nos anos 80, a banda levou para os estúdios a anarquia, diversão e ironia que chocou (e conquistou) o Rio de Janeiro, tendo como produtor artístico Caetano. Seu único disco, o excelente A Farra da Terra, apresenta canções que lembram muito o que a Blitz havia feito um ano antes, e entre elas, Caetano faz Backing Vocals em "Baleia (Eu Quero Mamar"), "Blues da Passagem", "Iansão" e "Quem Parte Quem Fica", sendo a voz central, junto de Regina Casé, em "Brigitte Bardot". Com letra de Péricles Cavalcanti, é uma espécie de valsa à francesa, que enaltece a beleza da musa, capaz de inspirar poetas como o próprio Caetano e Bob Dylan, mas traz também a ironia ao dizer que "Agora pede liberdade para os animais", no qual é nítido que Caetano segura a risada. Puro sarcasmo, no melhor do humor nacional dos anos 80. Para fechar, ouçam "Heavy Metal", uma das melhores obras de Péricles Cavalcanti!

2. "Bem Brasil": Premeditando O Breque – O Melhor Dos Iguais [1985]

Uma das bandas mais sarcásticas do Brasil, o Premeditando O Breque estourou nas rádios brasileiras com o mega-sucesso "São Paulo, São Paulo", de 1983. Saídos da Vanguarda Paulista do final dos anos 70, misturando rock, MPB, e até música erudita, a banda era centrada no talento dos guitarristas Wandi Doratiotto (que acabou tornando-se famoso ao apresentar o programa Bem Brasil) e Mário Manga. Com letras de um humor ácido, muito à frente para o seu tempo, e que certamente inspirou os conterrâneos do Ultraje a Rigor, no terceiro álbum os paulistas chamaram Caetano para ser a voz principal da sensacional "Bem Brasil". Um sambaço que ironiza o fato que nosso país "não tem terremoto, não tem revolução, é um país abençoado onde todo mundo põe a mão". O disco inteiro é fantástico (o que é a interpretação de Cristina Correa em "Balão Trágico", o peso de "Carrão De Gás" ou a espetacular crítica aos playboys de "Trampo Jóia"?), e deveria aparecer mais nas audições dos roqueiros Brasil à fora. 

Com o pessoal do Premeditando O Breque

3. "Ilê De Luz": Ilê Aiyê – Canto Negro [1989]

A música negra da Bahia tem uma potência a ser descoberta pelos preconceituosos brancos do resto do país, e felizmente, Caetano nunca abandonou suas raízes baianas, principalmente na segunda metade dos anos 80 e durante os anos 90. Antes mesmo do sucesso do Olodum, ou da grandiosidade da Timbalada de Carlinhos Brown (revelado ao mundo por Caetano no seu álbum de 1987), o Ile Aiyê já fazia história pelas ruas do pelourinho baiano, na década de 70 (fundado em 1° de novembro de 1974, ou seja, 52 anos hoje, é o primeiro bloco afro do Brasil), se consolidando como uma das maiores expressões culturais do Carnaval de Salvador. Esse sonzaço carregado pela percussão forte do grupo, tem uma melodia linda, e uma letra impactante: "Me diz que sou ridículo / Nos teus olhos sou mau visto / Diz até tenho má índole / Mas no fundo, tu me achas bonito, lindo!" e segue: "Negro sempre é vilão / Até meu bem provar que não, que não É racismo meu? Não". Esse cântico/protesto é uma das melhores produções do estilo. Para ser ouvido sempre, mas principalmente, com a proximidade do 20 de novembro, ser apresentado nas escolas. 

4. "Sampa": Os Cariocas - Reconquistar [1992]

Grupos vocais foram sucessos nacionais nos anos 40 e 50 aqui no Brasil, influenciados por nomes vindos principalmente dos Estados Unidos. Os Cariocas surgiram em 1942, liderados por Ismael Neto, e em 1991, em comemoração aos 50 anos da banda, lançaram Reconquistar, álbum que trouxe a participação de grandes nomes da música brasileira, e entre eles, Caetano. O baiano reinterpreta "Sampa", mega-sucesso do contestado álbum Muito (Dentro de Uma Estrela Azulada) (1978), e que ganhou uma cara totalmente diferente para o lindo samba original. Aqui, ela virou algo puramente bossa-nova, que nas vozes d'Os Cariocas, ganha todo o charme de uma Ipanema ou Copacabana enaltecendo a maior cidade do país. Caetano surge entre orquestrações e piano, cantando frases de um dos mais belos poemas criados para São Paulo, e assim, vai alternando estrofes com os cantores d'Os Cariocas, encerrando com a bela sacada "E Os Cariocas podem te curtir numa boa", dando uma pequena modificada na letra, mas que caiu muito bem para o momento. Quem não curte o estilo deste grupo (e de outros como MPB4, Quarteto em Cy ou Boca Livre, só para citar alguns), passa longe, mas para quem tem ouvidos abertos, é uma recriação muito interessante.

5. "Kanela Y Menta": Ketama – Toma Ketama! [2000]

O grupo Ketama surgiu em Madrid, em meados dos anos 80, mesclando o flamenco com o pop. Em 2000, com uma carreira já bastante experiente, o grupo lançou Toma Ketama!, álbum que vendeu mais de 200 mil cópias somente na Espanha, e que traz a presença de Caetano em "Kanela Y Menta". A faixa é puramente flamenca, onde o violão de Juan Carmona e a base percussiva extremamente dançante são as atrações maiores, além de um refrão grudento. Para quem gravou um disco como Fina Estampa (1993), a participação de Caetano cantando em espanhol até que é interessante aqui, principalmente por se aventurar em um estilo que não se encontra em nenhum outro álbum dele. Certamente, não é uma das melhores canções que o baiano gravou, mas pelo ineditismo de entrar no mercado espanhol, e pelo violão flamenco sempre bem-vindo, vale a pena inserir "Kanela Y Menta" nesta coletânea.

6. "Menino Deus": A Cor Do Som - Acústico [2005]

No álbum/show que comemorou o retorno d'A Cor do Som aos palcos, após 10 anos, Caetano participa de um dos maiores sucessos dos meninos. "Menino Deus" é uma ode à cidade de Porto Alegre, registrada originalmente em Magia Tropical (1982), que mudou os rumos de um grupo virtuoso instrumentalmente para estourar nas rádios com algo mais popular. Caetano já solta a voz de cara, acompanhado pelo violão e o piano elétrico, e assim, único nos vocais, faz a mais bela versão que A Cor do Som nunca antes havia registrado para uma obra-prima, acompanhado pelo magistral mandolin de Armandinho, pelo belíssimo acordeão de Marcos Nimrichter e um arranjo fabuloso. Clássico!

7. "Hoje Sou Trovão": Fresno - A Sinfonia De Tudo Que Há [2016]

Em um disco ambicioso, onde os gaúchos da Fresno tentaram mostrar ao Brasil que eram capazes de fazer um álbum sério, e criaram um álbum conceitual sobre "enxergar o universo como uma grande canção", Caetano entrega sua voz para "Hoje Sou Trovão", uma faixa sombria, muito diferente de tudo o que Caetano já participou antes. Sua casa contrapoe os vocais de Lucas Silveira, com grande destaque para o refrão e o peso da guitarra e do baixo, além das percussões que estão em toda essa complexa faixa. Apesar do disco soar um tanto quanto melodramático, e os vocais de Lucas me darem uma certa repulsa, confesso que me surpreendi com o álbum, e "Hoje Sou Trovão" é uma forte candidata a melhor canção da banda. 

Com a mana Bethânia

Lado B

1. "Pássaro Proibido": Maria Bethânia - Pássaro Proibido [1976]

O ano de 1976 fez com que o quarteto baiano Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia levasse aos palcos os Doces Bárbaros, uma das maiores fusões de gênios que o Brasil já viu. Naquele ano, além do espetacular álbum ao vivo que registrou a turnê, Bethânia lançou Pássaro Proibido, cuja faixa-título foi composta em parceria com o irmão Caetano, e que por curiosidade, é o único músico desta faixa levada pelo seu violão e a voz com os manhosos tremelicos que são pura e unicamente Caetano. Um clássico, que honestamente, nunca entendi por que está aqui e não em Jóia ou Qualquer Coisa, os discos solos de Caetano de 1975. 

2. "Alguém Me Avisou": Maria Bethânia - Talismã [1980]

Bethânia é uma das poucas artistas que atravessou os anos 80 sem se entregar aos eletrônicos em algum momento, ou ao "som de elevador" que tocava direto nas AMs e FMs. Manteve seu foco na MPB, e em Talismã, teve a difícil tarefa de suceder os aclamados Álibi (1978) e Mel (1979), o quais venderam mais de 1 milhão de discos em menos de um ano. Com um timaço de banda (Tulio Mourão ao piano, Luizão Maia no baixo, Perinho Albuquerque na guitarra, Enéas Costa na bateria, entre outros), o álbum oscila entre baladas e canções mais suaves, mantendo a linha de seus antecessores. Mas com "Alguém Me Avisou", revisão da obra da imortal Dona Ivone Lara, vem o samba alegria que fez de Talismã mais um disco sucesso de vendas, atingindo a marca de 700 mil cópias em apenas seis meses. Uma das canções mais conhecidas da carreira de Bethânia, conta com um molejo sensacional, e sua divisão de vozes com Caetano, e ainda com Gil, é sensacional. Complementando esse mega-clássico, uma orquestração fabulosa. Uma pena que Caetano e Bethânia não incluiram "Alguém Me Avisou" no repertório da turnê que fizeram recentemente, mas aqui, é obrigatória a presença. No ano seguinte, o trio gravou Brasil, junto de João Gilberto. Mas isso é papo para outra postagem.

3. "Purificar O Subaé": Maria Bethânia - Alteza [1981]

Em um de seus melhores discos, Bethânia interpreta a genial letra de Caetano neste ótimo samba-ecológico em defesa do Rio Subaé, localizado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, cidade natal dos irmãos. Na excelente letra de Caetano, ele evoca os poderes de deuses e deusas das águas para "purificar o Subaé" (o simples fato de unir o nome da cidade ao rio já é genial) e mandar os malditos que contaminaram o Subaé (empresas que jogaram chumbo e outros metais pesados no local), com todas as águas que desaguam no rio (no caso, do Sergimirim) auxiliando para salvar "a gente morena ... os mariscos e os peixes" contra um "progresso vazio". Caetano, além da letra, colabora com os vocais (que também tem Gil e Nicinha, esta irmã de Bethânia e Caetano), e deixou para eternidade uma das melhores canções ecológicas que o Brasil criou. 

Com a mega-parceira Gal Costa

4. "Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)": Gal Costa - Gal Costa [1969]

Neste incrível disco de estreia da Gal, comandada pelos arranjos precisos do saudoso Rogério Duprat, Gal eternizou a versão de "Baby" que a fez conhecida nacionalmente, e que conta com a voz do autor Caetano. Sanduichada entre ela e outra obra-prima de Caetano, no caso "Divino Maravilhoso", vem este sambinha na linha Jorge Ben, sensacional, no qual Gal e Caetano dividem os vocais gostosamente, como só os dois sabiam fazer. A voz doce e manhosa de Gal é de se colocar a "Galcha" debaixo do braço e ficar agarrado eterno, e Caetano complementa tudo com uma suavidade única. Sensacional, como quase tudo que esses dois fizeram juntos. 

5. "No Tabuleiro Da Baiana": Gal Costa - Aquarela Do Brasil [1980]

No disco tributo de Gal ao sensacional Ary Barroso, ela chama o amigo Caetano para interpretar a versão definitiva de "No Tabuleiro Da Baiana". Nela, Caetano e Gal alternam-se nas frases, fazendo um sambaço, onde ambas as vozes destacam-se. Gal vivia uma fase espetacular nos agudos, e Caetano aqui não abusa das vibrações vocais, tornado a canção ainda mais agradável. Os dois divertem-se nitidamente através desse clássico de Ary, e não tem como não ficar contagiado pela alegria que sai das caixas de som. 

6. "Groupie": Gal Costa - Minha Voz [1982]

Álbum de enorme sucesso na carreira de Gal, graças ao mega-clássico "Pegando Fogo", Minha Voz apresenta ótimas canções - como a definitiva versão para "Borzeguim", de Tom Jobim -, e entre elas, esse jazz broadway extremamente pomposo, com presenças de Rita Lee, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, que encaixam-se perfeitamente na ideia da letra da canção, de alguém que virou fã destes artistas. Mas aqui eles não entram cantando, e sim trocando ideias em conversas bastante íntimas com Gal. Entre inserções de trechos musicais dos artistas citados, Caetano acaba revelando para ela que ia na casa de Gal para querer namorar Dedé, e fala para Gal "você quer ser minha namorada, hein Gal", e ambos soltam uma risada mais que gostosa, íntima, de dois amigos que "se amam", como afirmado na sequência. As revelações de Gal sobre ser fã dos demais é igualmente muito legal, e um registro de como uma artista gigante pode ter humildade de revelar sua paixão por outros artistas.

7. "Sorte": Gal Costa - Bem Bom [1985]

Bem Bom é um dos discos mais bem sucedidos da carreira de Gal, chegando a marca de 800 mil cópias vendidas no Brasil, e 100 mil cópias em Portugal. Muito disso e por conta de duas parcerias atemporais registradas neste disco. "Dia de Domingo" (com Tim Maia) e "Sorte", ao lado de Caetano. Essa baladaça repleta de sintetizadores, com presença de nomes como Pedrão Baldanza no baixo, Marcelo Costa na bateria e Tony Costa nas guitarras, traz a datação musical dos anos 80 de forma explícita, mas que fez muito sucesso entre a geração dos anos 80. As vozes de Gal e Caetano se alternam nas estrofes, a canção é simples, romântica, e fecha esta série de coletâneas com o saudosismo da voz de Gal em nossas mentes. 

sábado, 26 de setembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano Veloso As Guest (Part II)



A segunda "coletânea" apresentando Caetano como convidado, agora traz a presença do baiano em álbuns ou canções ao lado de mulheres. É curiosa a relação de Caetano com artistas femininas, pois até 1980, ele só havia participado de gravações ao lado ou de Gal Costa ou da irmã Maria Bethânia, com uma rara participação no álbum Os Meus Amigos São Um Barato, cantando Odara" junto da dona do álbum, Nara Leão, em 1977, o qual marcou o retorno de Nara aos lançamentos regulares depois de algum tempo. 

Porém, a partir de 1980, Caetano expandiu seus horizontes musicais ao lado de mulheres, gravando ora composições suas, ora regravações, ora canções inéditas. As 14 participações que listo abaixo, conforme citado na primeira parte, são todas canções que nunca haviam sido lançadas - até então - em álbuns oficiais de Caetano, mas destaco que além delas, você encontrará a voz do mano Caetano nos seguintes discos de artistas femininos (marcas com * estão presentes no CD de extras das caixas 40 Anos Caetanos, Vol. 3 e Vol. 4), lembrando que estes são os que tenho em coleção, e deve haver muito mais por aí:

Telma Costa* (Telma Costa), Xuxa (Xuxa e Seus Amigos), Margareth Menezes (Gente de Festa *, Para Gil e Caetano), Fiorella Manoia (Gente Comune), Vania Bastos (Cantando Caetano), Cesaria Evora (São Vicente de Longe), Negra Li* (Negra Livre), Belô Velloso (Belô Velloso), Elba Ramalho (São João Carioca), Maria Dolores Pradera (Caminemos), Mercedes Sosa (Cantora), Hebe Camargo (Hebe Camargo & Convidados), Roberta Spindel (Dentro do Meu Olhar), Maria Odette* (Maria Odette), Dona Ivone Lara (Casa de Samba 1), Gil (Casa de Samba 3)

O Lado A tem sete canções ao lado de cantoras brasileiras, enquanto o Lado B fica com cinco cantoras internacionais e duas brasileiras (uma delas com Caetano cantando em inglês). No próximo mês, trago a participação de Caetano em discos de bandas, assim como gravações ao lado de Bethânia e Gal. 

Lado A

1. "Nosso Estranho Amor": Marina - Olhos Felizes [1980]

Um dos maiores sucessos da carreira de Caetano, em termos de composição, "Nosso Estranho Amor" foi gravada pela primeira vez no segundo álbum de Marina (futura Lima). Este blues conduzido por piano e guitarra, no qual Caetano expõe seus problemas de relacionamento com a esposa na época, Dedé Gadelha, tem a participação do compositor cantando o imortal refrão "ah mainha, deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos". Enquanto Marina declama a letra blueseira e apaixonada, Caetano surge com vocalizações ao fundo, e soltando a voz no refrão. Emblemática, atemporal e com um timaço de banda de apoio (Helvius Vilela, do Tempo Trio, no baixo, Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia, na bateria, Paulo Rafael do Ave Sangria, nas guitarras, e Paulo Barros no baixo), um magistral solo de guitarra, música fundamental para abrir esta "coletânea".

2. "Mansidão": Jane Duboc - Jane Duboc [1982]

Quem ouve Depois do Fim, o incrível álbum que a Bacamarte lançou em 1983, e se encanta com a voz de Jane Duboc, se quer imagina que o disco foi gravado quando ela ainda não possuía uma carreira oficial. Ao longo dos anos 70, e início dos anos 80, Jane foi voz ativa nos backing vocals de artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Tavito e, Caetano Veloso, fazendo parte do grupo que registrou Outras Palavras. A amizade entre os dois levou Caetano a contribuir no segundo disco solo de Jane, contando que o primeiro "oficial" foi lançado carregando o sobrenome do então marido Gay Vaquer, sob a alcunha de Jane Vaquer, e ao lado de José Tobias, em 1977. Somente em 1980 ela lançou o primeiro disco com o nome Jane Duboc, no caso Languidez, criando assim "Mansidão", uma linda bossa nova que surge com o violão e a voz de Caetano, seguido pelo piano e a voz de Jane. Um belo contraste entre os instrumentos e as vozes, serpenteados por um belíssimo baixo acústico. A voz de Jane se sobressai na maior parte do tempo, mas o violão e a voz de Caetano se fazem presentes, ajudando a nos revelar a amplitude cultural de uma das maiores intérpretes de nosso país.

Com Joyce

3. "Samba da Benção": Joyce - Negro Demais No Coração [1988]

Joyce Silveira Moreno foi apadrinhada por Vinícius de Moraes, destacando-se como cantora, instrumentista e compositora, o que a levou a se tornar a Menina dos Olhos da Bossa Nova durante a década de 70. Nos anos 80, depois de uma série de discos de pouco sucesso, Joyce resolveu regravar composições do padrinho no álbum Negro Demais No Coração. E coube a Caetano emprestar sua voz para abrir o disco com a atemporal "Samba da Benção" (com a frase que batiza o álbum), de Vinícius e Baden Powell. Joyce esbanja graça na sua voz e no violão, e quando Caetano passa a cantar, é um complemento gigantesco para algo que se transforma em uma jam maravilhosa, inserindo músicas incidentais ("O Samba da Minha Terra", "O Que Que A Baiana Tem", "Requebra Que Eu Dou Um Doce", "Aquarela Do Brasil" e "El Manisero") que fazem uma fusão sensacional do samba carioca de Vinícius com a malemolência do gingado baiano de Dorival Caymmi, através das vozes carioca e baiana de uma dupla sensacional, e por que não, genial!

4. "Cantar": Silvia Patricia - Silvia Patricia [1991]

Mais uma baiana na vida de Caetano, Silvia Patricia (hoje, Sylvia Patricia) veio ao mundo em uma família musical (para se ter ideia, seu avô é primo do pai de Alceu Valença). Falaria horas sobre o talento e a formação de Silvia, que é uma artista reconhecida internacionalmente, mas no Brasil, quase não se fala dela. Em 1988 lançou seu primeiro disco, inspiradíssima em Marina Lima. Com seu segundo disco, lançado em 1991, Silvia mergulhou naquele clima de canções sem tantos teclados e mais dançantes, no que foi chamado pela imprensa de "Pop urbano", e chamou Caetano para cantar "Cantar". uma faixa bastante linda e suave, levada pelos violões de Waltel Blanco e Chico Braga, onde a voz de Silvia está bastante delicada. Mas com certeza é Caetano quem dá o upgrade definitivo à faixa, ao entrar com sua voz igualmente delicada, mas cheia de manha. Os violões com um ar sertanejo, e o belo arranjo de cordas, dão um ar campeiro para a faixa que a torna ainda mais atrativa, e não à toa, levou-a a fazer parte da trilha de Pantanal.

5. "Onde O Rio É Mais Baiano": Alcione - Brasil De Oliveira Da Silva Do Samba [1994]

A parceria do baiano Caetano com a maranhense Alcione é de longa data. Em 1994, Marrom gravou "Onde O Rio É Mais Baiano", uma ode de Caetano à escola Estação Primeira da Mangueira. E quem melhor que a mangueirense raiz para entoar um sambaço de tirar o chapéu. Anunciado com honras, Caetano dá um show cantando seu samba, e claro, o vozeirão de Alcione preenche as caixas de som. O refrão no ritmo do Olodum, com ambos cantando juntos, enaltecendo que "A Mangueira é onde o Rio é mais baiano", é o momento mais forte de uma grande canção. Caetano regravou-a em Livro (1997), disco bastante influenciado pelas percussões do Olodum, e fez mais uma nova parceria com Marrom no clássico A Paixão Tem Memória (2004), com "Pedra de Responsa"*. Mas para mim, é "Onde O Rio é Mais Baiano" a melhor faixa que ele gravou com a Rainha do Samba.

Com a "Marrom" Alcione

6. "Noite Chuvosa": Ângela Maria - Amigos [1996]

Se na edição anterior trouxe para a coletânea a colaboração de Caetano com a magnífica voz de Nelson Gonçalves, não podia deixar de fora sua fundamental contribuição com a Sapoti Ângela Maria. Uma das maiores vozes de sua geração, Ângela também quis surfar na onda de gravar com artistas da nova geração, e em Amigos, chamou Caetano para interpretar "Noite Chuvosa", de Britinho. A dolorida canção ganhou um ar dramático através do piano de Eduardo Souza Neto e do violão de João Lyra. Caetano e Ângela alternam-se nas estrofes, dividindo o espaço igualitariamente, e o arranjo de cordas engrandece o samba-canção do pelotense João Adelino Brito, com uma magistral interpretação de Ângela. Para poucos, mas esses poucos sabem o que quero dizer.  

7. "Jeito Faceiro": Virgínia Rodrigues - Nós [2001]

Em 1997, a cantora baiana (mais uma) Virgínia Rodrigues surgiu ao mundo através de uma descoberta de Caetano, durante as gravações do já citado Livro. O vocal lírico e grave de Virgínia chocou os puristas da axé music, mas encantou aqueles que apreciam música clássica com inovações, levando o The Times de Londres a chamá-la de "nova diva da música brasileira", enquanto a imprensa estadunidense batizou-a de "Cinderela Brasileira". O que ela entrega em Nós, homenageando os blocos afro de Salvador, são encantadoras faixas com orquestras e violões, além de belos arranjos que fazem a negritude baiana do candomblé e da umbanda ser totalmente recriada musicalmente. E ainda tem a honra de dividir os vocais com quem a descobriu em "Jeito Faceiro", uma canção que parece saída das entranhas do Uakti, com um belo arranjo percussivo, e a voz delicada e singela de Caetano sendo um contraponto aos graves e potentes cânticos de Virginia. O dolorido violino que acompanha o vocal dos dois equilibra as diferenças vocais, e é impossível não se arrepiar com algo tão inovador, e ao mesmo tempo reflexivo. Você não precisa gostar de axé music, mas o que foi feito por Caetano e Virgínia aqui, é de altíssimo padrão!

Com Elza Soares

Lado B

1. "Sophisticated Lady": Elza Soares - Somos Todos Iguais [1985]

Depois de um período conturbado em sua vida, quando se separou de Garrincha, e viu o "gênio das pernas tortas" falecer, afastada da música e sem dinheiro para sustentar a si e ao filho Garrinchinha, Elza procurou Caetano desesperada pedindo ajuda. O baiano a acolheu, e a levou para gravar "Língua", em Velô (1984). A canção virou um sucesso nacional, e no ano seguinte, a Som Livre lançava Somos Todos Iguais, com Elza voltando ao mercado da música após cinco anos. Em um repertório variado, o jazz revisitado de "Sophisticated Lady" (Duke Ellington) é um êxtase musical, ainda mais conduzido pelo violão e a voz aveludada de Caetano, que canta em inglês, enquanto a voz áspera e cheia de potência de Elza (particularmente, ao vivo um dos shows mais impressionantes que eu vi) preenche as caixas de som. Infelizmente desconheço os músicos que acompanham Elza, mas o solo de saxofone, e a base do piano, junto ao violão de Caetano e um espetacular baixo acústico, é para ficar girando o uísque embriagado pelo álcool e pela leveza de uma brilhante canção.

2. "Olhos Castanhos": Eugenia Melo e Castro - Amor É Cego e Vê [1991]

A portuguesa Eugenia Melo e Castro fez sucesso no Brasil nos anos 80, graças a sua parceria com Kleiton Ramil e a capacidade de descobrir talentos de Wagner Tiso, que produziu os primeiros discos da cantora no país. Através de Tiso, Eugenia conheceu Caetano, que logo no segundo disco da portuguesa, entregou "Meu E Assim", presente também no terceiro álbum dela. No quarto, grava a faixa-título "Coração Imprevisto", e finalmente, em 1991, a dupla faz uma linda adaptação para "Olhos Castanhos", de Alves Coelho Filho. Apesar dos teclados modernosos e do andamento quadradão, o sotaque português delicadíssimo de Eugenia funciona perfeitamente com a voz manhosa de Caetano, que alternam-se nas estrofes de forma que um complementa o outro. Faixa para curtir sem pretensão alguma, e apenas absorver um pouco dos sempre bem-vindos ares lusitanos.

com Fiorella Manoia

3. "Il Culo Del Mondo": Fiorella Mannoia - Gente Comune [1994]

Em 1994, Caetano foi a Itália para gravar com Fiorella Manoia uma ótima versão para "O Cú Do Mundo" (lançada originalmente no excelente Circuladô, de 1991), intitulada "Il Culo del Mondo". A versão musicalmente é muito fiel ao original de Caetano, levada por um baixo estonteante, o violão marcante e uma percussão jamie muriana para fã de King Crimson não botar defeito. Ouvir Fiorella soltando seu vozeirão nas agressivas palavras da letra de Caetano, em italiano, dá um charme ainda maior para uma música naturalmente agressiva, na qual Caetano colabora cantando também em italiano, e refazendo o refrão em português. Os dois se encontraram 12 anos depois para regravar uma versão em italiano de "13 de Maio", gravada originalmente por Caetano no álbum Noites do Norte (2001). Ok, eu havia dito que não ia colocar regravações de Caetano na lista, mas como resistir a uma ruivinha xingando muito em italiano? 

4. "Mistério de Afrodite": Teresa Salgueiro - Brizzi do Brasil [2002]

Este é um caso curioso, pois o álbum é uma daquelas belas amostras do talento de um compositor (no caso Aldo Brizzi) que se apoia em ombros de gigantes para transformar suas ideias em arte. Com a presença de nomes como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros, o compositor italiano chamou Caetano para duas canções, e uma delas esse delicado fado, ao lado da eterna voz do Madredeus Teresa Salgueiro. Caetano usa e abusa de vocalizações, fazendo intervenções cruciais, mas é Teresa o centro das atenções, dando uma aula - como sempre - de interpretação vocal. Com um instrumental apenas ao violão, baixo e uma tímida percussão, é no tocante sotaque português, que contracena divinamente com as participações cheias de dor de Caetano, entoando o nome de uma faixa belíssima, que ela tem que se fazer presente aqui. Pontual e para se embriagar acompanhado de um bom vinho português!

5. "Island of Wonder": Nelly Furtado - Folklore [2003]

A canadense Nelly Furtado fez sucesso em 2000 com o álbum Whoa, Nelly!. Com apenas 21 anos, a menina encantou o mundo com faixas como "I'm Like A Bird" e "Turn Off the Light", que levaram Nelly a vender mais de 7 milhões de discos ao redor do mundo, e seu som pop com elementos do trip hop. Em seu segundo álbum, a descendente de açorianos resolveu mudar totalmente a sonoridade. Batizado de Folklore, o disco imerge em sons voltados ao folk (como o nome diz), tendo como destaque a bela canção "Island of Wonder". Composta por Caetano, ela mistura algo do flamenco com pitadas do olodum, em um ritmo hipnotizante e tenso, que ganha um toque emotivo brilhante nas vozes de Nelly (cantando em inglês) e Caetano (cantando em português e inglês). O refrão desta canção é lindíssimo, e apesar dos scratches no meio da canção, as vozes de Nelly (arregaçadora) e Caetano carregam ela para status de grandiosa.

Com Lila Downs

6. "Burn it Blue": Lila Downs - Frida [2003]

Não necessariamente uma participação em um álbum de uma artista, mas sim (mais) uma parceria com uma cantora, "Burn it Blue" está presente na trilha sonora do filme Frida, na qual a mexicana Lila Downs é responsável pela voz de cinco faixas. Dentre elas, este espetáculo sonoro que encerra o álbum, e que foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original na 75ª edição do Academy Awards em 2003 - com apresentação da dupla Caetano e Lila em pleno palco do Oscar defendendo a canção, com orquestra e tudo - , do qual a trilha ganhou, mas a canção perdeu para "Lose Yourself", do Eminem, feita para o filme 8 Mile. Tendo tom dramático, ela é puxada pelo violão flamenco e uma das performances vocais mais lindas e incríveis de toda a carreira de Caetano, cantando em inglês. A presença de cordas dá ainda mais dramaticidade para a canção, que ganha contornos de ansiedade com a entrada da voz angustiada de Lila, contrapondo a voz de Caetano. O duelo vocal dos dois, ele em inglês, ela em espanhol, é de se ajoelhar diante das caixas de som, e quando ela canta sozinha, caralho, é de arrepiar. Que música incrível, praticamente obscura na discografia do baiano, e com certeza, uma das grandes obras já registradas em toda sua carreira, seja solo, seja ao lado de outro artista.

7. "Pé Do Meu Samba": Mart'nália - Ao Vivo [2004]

Fechando a coletânea, algo para irritar os leitores. Caetano sembre teve um pé no samba, e ao longo de sua carreira, compôs diversas canções no estilo. Uma de suas composições batizou o álbum de Mart'nália de 2003, que acabou sendo levado aos palcos e registrado em Ao Vivo (2004). Um lindo samba, onde o cavaquinho de Tavinho Menezes e a cuíca de Ovídio Brito fazem a base para uma interpretação magistral de Caetano. Seu dueto vocal com Mart'nália, ao longo do refrão, é fantástico, e claro, a voz cheia de marra e do sotaque carioca de Mart'nália dá um ar ainda mais agradável para esse sambaço. Os xiitas fãs de metal vão se ofender ao ver um samba por aqui, mas aos que têm mente aberta e apreciam boa música, independente do gênero, com certeza irão curtir essa faixa. 

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