segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Rick Wakeman: Journey to the Centre of the Earth e Arthur on Ice Tours



A turnê de Tales From Topographic Oceans corria a solta, e o choque de egos entre os membros da banda aflorava. Na verdade, o Yes nunca foi a megalomania que todos falavam, já que Chris Squire e Alan White sempre foram modestos em relação a suas habilidades. Os que se achavam realmente os maiorais eram Steve Howe, Jon Anderson e Rick Wakeman (com o passar dos anos, Anderson caiu na real, mas vendo os vídeos de Howe e Wakeman nos dias de hoje constata-se cada vez mais que, para falar com eles, você precisa de uma autorização de São Pedro).

Como Tales havia sido concebido pelas cabeças de Anderson e Howe, Wakeman se sentia muito afastado (para não dizer p... da cara) com toda a mídia cozinhando o arroz da linha de frente do Yes, e, assim, dava declarações polêmicas sobre o álbum, dizendo que não curtia o som e que aquilo tudo não passava de uma viagem sem inspiração da banda, que levaria ao fim do grupo.

Na verdade, Wakeman não estava nada contente em não ser mais o centro das atenções, lembrando que, ao entrar no Yes, ele foi um dos principais responsáveis pela mudança sonora que a banda sofreu, incluindo vários instrumentos, como o moog e o mellotron, que o tecladista anterior, Tony Kaye, não tocava. Obviamente, a mídia creditava grande parte da evolução do Yes pela entrada de Wakeman, que como bom megalomaníaco adorava ver seu ego massageado. Com o lançamento de
The Six Wives of Henry VIII (1973), Wakeman ganhou glórias e mais glórias da mídia britânica, mas isto não ocorria mais na época de Tales From Topographic Oceans, e o tecladista estava decidido a mostrar ao mundo que ele, Rick Wakeman, era maior do que o Yes.



Assim, enquanto Anderson e Howe se preocupavam em encaixar cada peça das suítes de Tales, Wakeman resolveu investir em sua carreira solo, construindo um ambicioso projeto, que era uma peça teatral em homenagem a uma das obras de Julio Verne. Em menos de um mês, Wakeman apresentava para a gravadora A&M inglesa o seu novo trabalho: Journey to the Centre of the Earth. Os rascunhos indicavam um disco duplo, com apenas uma música (se Anderson e Howe fizeram uma música de 80 minutos juntos, porque Wakeman não poderia fazer isso sozinho?), narrando todo o livro do autor francês.

Além disso, o recheio da obra estava escondido sob um coral, orquestrações e um livro recheado de ilustrações e as letras do projeto. Obviamente, a gravadora britânica vetou a ideia, pois o custo era altíssimo. Mesmo com algumas bandas já tendo contratado orquestras para gravações (Moody Blues, Pink Floyd, Deep Purple), a A&M não estava disposta a bancar seu dinheiro para investir em um projeto que, da forma que estava, tinha tudo para dar errado.

A solução encontrada por Wakeman foi viajar até os Estados Unidos, e lá convencer os produtores americanos da A&M a realizarem a obra. No final, tanto a A&M americana quanto inglesa resolveram apoiar o projeto, desde que ele fosse encurtado para um disco simples, sem o tal álbum de ilustrações, e que fosse gravado ao vivo, o que diminuiria bastante em termos de horas em estúdio, ainda mais se o ingresso fosse cobrado.



Assim, no dia 18 de janeiro de 1974 (em uma pausa da turnê de Tales From Topographic Oceans), o show foi realizado e gravado no Royal Festival Hall de Londres, contando com a participação da Orquestra Sinfônica de Londres e o Coral de Câmara Inglês (os quais foram regidos por David Measham), uma banda formada por Gary Pickford-Hopkins e Ashley Holt (vocais), Mike Egan (guitarras), Roger Newell (baixo) e Barney James (bateria), além de um narrador, David Hemmings. Os arranjos ficaram a cargo de Danny Beckerman e Wil Malone, com o próprio Wakeman dando seus pitacos.

O show foi de extremo sucesso, tanto de crítica quanto de público. Quem participou recebeu um livro que, além do programa, contava as principais partes do que iria ocorrer, histórias sobre os membros da banda e, ainda, que o projeto estava sendo gravado e pronto para ser lançado em abril daquele ano. Na oportunidade foram executadas as seguintes músicas: "Sinfonia No 1 in D Minor - Opus 13, de Rachmaninov"; "Catherine Parr"; "Improviso 1"; "Catherine Howard"; "Anne Boleyn"; "Improviso 2" e a peça central, "Journey to the Centre of the Earth".

Mas após o evento o Yes voltava à tona com a parte americana da turnê de Tales From Topograhic Oceans. Com a agenda já cheia (e Tales subindo sem parar nas vendas), Wakeman e a A&M engavetaram o projeto por um tempo. Na verdade, Wakeman voltou a surtar, exigindo que o álbum fosse lançado de forma quadrifônica e requerendo novamente a presença do livro de ilustrações, e a A&M britânica não estava nada satisfeita com tudo aquilo. Além disso, o tecladista estava bastante empolgado com a receptividade do público para os efeitos que vinham sendo apresentado na turnê do Yes, e demonstrava um claro interesse em excursionar com o projeto de Journey em uma forma bem diferente dos demais projetos que a gravadora já havia feito.

Com o término da turnê de Tales From Topographic Oceans (e com os bolsos recheados de dinheiro), Wakeman pediu as contas do Yes e decidiu voltar suas atenções para o projeto de Journey to the Centre of the Earth. Ao saber da negativa da A&M britânica, novamente Wakeman recorreu aos EUA. Como o nome de Wakeman havia subido bastante por lá, os americanos resolveram bancar a loucura do tecladista e, assim, investiram no lançamento do álbum e também na turnê de promoção do mesmo.



Em maio de 1974 chegava às lojas o álbum Journey to the Centre of the Earth, com a gravação realizada em janeiro daquele ano. O disco vinha em duas versões, uma com o formato de gravação normal e outra com gravação quadrifônica (surround sound) com o sistema CD-4, sendo o primeiro da gravadora a ser feito desta forma. A versão quadrifônica é raríssima, mas para quem tem fica clara a diferença, mesmo quando o LP é ouvido em um sistema de dois canais.

Não se detendo em detalhes, a obra contida nos sulcos de Journey é uma mistura dos planos iniciais de Wakeman, e, para quem conhece o livro, nota-se a ausência de algumas partes, enquanto outras estão fora de ordem (principalmente em termos das letras). Dividido em quatro partes ("The Journey", "Recollection", "The Battle" e "The Forest"), o álbum trazia grandes sequências instrumentais (com Wakeman sendo o principal protagonista, logicamente) intercaladas por diversas narrações e partes cantadas, ora pelo coral, ora pelos vocalistas. Particularmente, acho o disco musicalmente fraco perto de The Six Wives of Henry VIII e The Myths and Legends of King Arthur and The Knights of the Round Table (gravado em outubro de 74 e lançado em maio de 1975), mas gostos são gostos, e não há de se negar que ouvir "The Forest" é sempre uma boa experiência. Além disso, o livro contém belas ilustrações, e assim como o livro de King Arthur, é uma das peças obrigatórias nas coleções de rock progressivo.

O disco foi um sucesso, e até hoje já vendeu mais de 14 milhões de cópias em todo o mundo, sendo que alcançou em pouco mais de uma semana o topo de vendas nos charts ingleses. Com o sucesso do álbum, Wakeman partiu para a segunda parte de seu projeto, que era a ambiciosa turnê de promoção do mesmo.

Com o dinheiro da A&M americana, Wakeman investiu em trazer os temas não para o palco, mas para a plateia. Assim, a Journey Tour começou pela América do Norte, passando por Europa, Japão e Austrália.



O set list variava bastante, até por que durante a turnê Wako construía The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table e também começava a elaborar o que viria a ser a trilha de Lisztomania. No início a tour contava com canções de The Six Wives of Henry VIII - "Catherine Parr", "Catherine Howard" e "Anne Boleyn" -, para só então serem apresentadas as quatro peças de Journey to the Centre of the Earth.

E era justamente nessa parte que o bicho pegava. Wakeman contratava um narrador da língua local de cada país para tornar mais fácil a "degustação da obra". Além disso, a ideia inicial era ser acompanhado sempre pela mesma orquestra, mas os altos custos de se hospedar e levar em viagem mais de 300 pessoas acabaram fazendo com que em cada país uma orquestra e um coral fossem contratados, aumentando um pouco as despesas. Fora isso, um material carregando "surpresas" para o público era levado em todos os shows, e tratado com especial atenção por todos os participantes do evento.

A apresentação de Journey to the Centre of the Earth começava com uma pequena narração, explicando onde o fato da história havia ocorrido em 1863 (Vulcão Sneffels, na Islândia), seguido dos acordes da orquestra e a letra na íntegra de "The Journey", tendo como pano de fundo uma gigantesca pintura do vulcão. As narrações seguem, com o narrador sempre em uma posição de destaque, bem na frente do palco, inclusive quase em frente a Wakeman, sentando em uma luxuosa cadeira da coleção de Wako e levando para a segunda parte, "Recollection".

Já em "The Battle" um gigantesco lagarto inflável (que mais parecia um dinossauro) aparecia no canto esquerdo do palco, seguindo a linha da história de Verne. Era a grande surpresa do espetáculo. O lagarto ficava balançando durante toda a canção, enquanto do lado direito algo parecido como a cauda do lagarto (nunca consegui definir bem o que é aquilo), também inflável, surgia sobre a cabeça dos membros da orquestra.

Olhando hoje, é engraçado ver aquele estranho boneco balançando sobre a orquestra, mas na época era uma das maiores novidades que uma plateia já havia visto.

Finalmente, o narrador apresentava a última narração, para começar "The Forest", enquanto o lagarto era recolhido para sua toca.



Journey to the Centre of the Earth era apresentado na íntegra, sem nenhuma interrupção, e o final apoteótico de "The Forest" levantava a plateia com a perfeita dinâmica dos teclados de Wakeman e os instrumentos da orquestra.

Nos EUA, o show encerrava com a apresentação de Journey to the Centre of the Earth, porém no Japão e na Austrália o show prosseguia, com apresentações de "Guinevere", "Merlin" e "Sir Galahad / The Last Battle", todas de King Arthur, e ainda um solo clássico do violonista Jeffrey Crampton, mas sem nenhuma ordem de preferência ou até mesmo de apresentação das mesmas (em vários locais, algumas canções de King Arthur eram tocadas antes da apresentação de Journey).

Na América do Norte, os shows passaram por Canadá (Toronto, Montreal e Ottawa), além dos Estados Unidos (New Haven, New York, Philadelphia, Cleveland, Pittsburgh, Baltimore, Memphis, Detroit, Chicago, St Louis, Kansas, Dallas, Denver, Houston, San Francisco e Hollywood), acompanhadso pela National Philarmonic Orchestra e o Choir of America, e tendo como banda de apoio Garry Hopkins (violões e vocais), Ashley Rolt (vocais), John Hodgson (percussão), Roger Newell (baixo), Jeffrey Crampton (guitarras) e Barney James (bateria) .

Na Austrália a formação foi a mesma, contando com a Melbourne Philarmonic Orchestra e a Melbourne Chamber Choir, e na turnê japonesa Barney James foi substituído por Barry Flather, com o coral sendo feito pela Chambre Symphoniette

Os custos foram altíssimos. Em todas as cidades Wakeman contava com sua aparelhagem completa, a qual consisitia de 1 double mellotron, 2 single mellotrons, 4 moogs, 1 piano RMI, 1 piano clavinet Hohner, 1 piano Fender Rhodes 88, 2 pianos Steinway, 2 pickups Helpinstill, 1 mixador de 18 canais, 3 gabinetes de monitores JBL e 1 órgão Hammond C3.

Além disso, os programas oficias dados para a plateia também trouxeram prejuízos. Nos EUA e Canadá, o livreto contava com 16 páginas, enquanto que para um festival no Crystal Palace em 27 de julho de 1974, que contou ainda com a participação do Procol Harum como uma das bandas de abertura, o programa continha mais de 20 páginas. Já no Japão, onde Wako queria arrecadar seus maiores lucros, o livro atingiu 30 páginas, contando os principais fatos da carreira de Wakeman e escrito em japonês por um local especialmente contratado para fazer as traduções. Para a Austrália, o livro ficou em 24 páginas .



Ao término da turnê, Wakeman arrecadou fundos com a gravadora para a luxuosa tour de The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table. Nela, novamente a mesma banda, uma orquestra e um coral estariam presentes, e além dos bonecos apresentados na turnê de Journey to the Centre of the Earth, havia um balé no gelo onde patinadores, carregando uma gigantesca serpente, entravam em cena durante a apresentação de Journey to the Centre of the Earth, além de encenar em outras canções. 
Os shows da turnê de King Arthur foram de extremo sucesso, porém, os prejuízos alcançados foram maiores que os da turnê de Journey, devido ao fato do enorme número de pessoas (bailarinos, coreógrafos, músicos, roadies, ...) que viajavam com o projeto para todos os cantos do mundo, e também para se criar a pista de gelo que ficava ao redor do palco. Por isso, após algumas apresentações, a A&M já estava começando a falir, pois o dinheiro ganho com as vendas dos dois álbuns estava indo embora para cobrir as despesas de Arthur on Ice, e o término da turnê de divulgação de King Arthur foi feito com outro nome (Arthur Tour) e sem todo o aparato de gelo dos shows iniciais.

Com os bolsos furados, a A&M encerrou os financiamentos megalomaníacos de Wakeman, que no meio da turnê sofreu um infarto pouco antes de entrar no palco, aos 25 anos. O infarto não trouxe consequências físicas para Wako, mas, musicalmente, o tecladista passou a investir mais em vendas de discos e abandonou as mega-turnês para sempre (apenas quando voltou para o Yes, em 1977, que Wakeman participaria de grandes shows novamente).



Um detalhe interessante é que o Brasil teve a oportunidade de ver a apresentação de Journey to The Centre of the Earth no final de 1975. Enquanto estava na turnê de King Arthur, o tecladista foi convidado pela Rede Globo para participar de uma série de shows do Projeto Aquarius, o qual tinha como principal meta difundir a música clássica pelo país. Com todo o financiamento feito pela própria emissora, Wakeman topou e trouxe sua banda junto, deixando a escolha da orquestra nas mãos dos produtores do evento.

O resultado foi totalmente satisfatório, com Wakeman tocando em Porto Alegre (Gigantinho), São Paulo (Ginásio da Portuguesa) e Rio de Janeiro (Maracanãzinho), tendo todos os ingressos esgotados. Durante a apresentação do álbum, a narração ficou a cargo de Paulo Autran (São Paulo e Porto Alegre) e Murilo Neri (Rio de Janeiro), e Wakeman mostrou o gigantesco lagarto e a já famosa serpente, mesmo que não sendo no gelo, mas através de patins normais, que circundava a plateia.



Os registros da turnê são poucos, mas de ótima qualidade. O LP contendo o álbum na íntegra é facilmente encontrado em sua segunda versão (não quadrifônica), e existe um registro em vídeo de uma apresentação na Austrália, já durante a turnê de King Arthur, que apresenta o disco na íntegra e com o lagarto e a serpente também em cena, além de outras canções dos álbuns The Six Wives of Henry VIII e King Arthur. É muito interessante ver essa apresentação, principalmente pela emocionante narração de Journey to the Centre of the Earth e também por todo o trabalho de Wakeman em tocar seus teclados nas mais possíveis - e impossíveis - combinações de braços.

Ainda pela turnê de King Arthur, temos o vídeo Live at the Empire Pool King Arthur on Ice (que ficou anos apenas com imagem de TV, e foi lançado oficialmente em uma coletânea de 6 DVDs de Wakeman somente com material inédito em 2007), que mostra belos detalhes do show realizado no Wembley Arena, e que ficou mundialmente conhecido como Arthur on Ice, onde o álbum era tocado na íntegra. No vídeo, é possível assistir o baixo de três braços de Newell e vislumbrar a linda Patricia Pauley patinando ao som de "Guinevere", além de belas dançarinas de cabaret com as pernas desnudas ao som de um dos improvisos de Wakeman, Lancelot e seu cavalo branco lutando contra o cavaleiro negro em "Sir Lancelot and the Black Knight" e guerreiros lutando com espadas em "The Last Battle", tudo sobre o piso de gelo que circundava o palco.



Em CD, temos o registro dessa turnê na série do King Biscuit Flower Hour, com uma bela gravação de um show realizado em São Francisco em 1975.

Os espetáculos de Arthur on Ice foram eleitos pela rede americana VH1 (uma concorrente da MTV) como um dos 100 shows mais chocantes da história do rock, com a posição 79, e com certeza foram mais grandiosos do que a turnê de Journey to the Centre of the Earth, mas se não fosse a primeira, Wako jamais teria conseguido elaborar a segunda. Portanto, ambas tem a mesma importância na história do rock progressivo.

Dos bootlegs, é altamente recomendado o CD Journey to the Crystal Palace, que traz a apresentação completa do show realizado no dia 27 de julho, e também o Brazilian Symphony Orchestra - Rio de Janeiro - Maracanazinho 12/75, com a apresentação completa do show de Wakeman no Rio de Janeiro, com as narrações em português, uma improvisação em cima de obras de Villa-Lobos feita por Crampton durante "Catherine Howard", uma versão de Wakeman para "Jingle Bells" e a participação forte do público cantando os temas de Journey to the Centre of the Earth e Myths and Legends of King Arthur.



Wakeman acabaria por mostrar ao mundo a obra completa de Journey to the Centre of the Earth com o lançamento de Return to the Centre of the Earth em 1999, onde as partes que foram retiradas na versão original acabaram surgindo em um álbum com mais de 60 minutos de duração.

As turnês de Journey to the Centre of the Earth e The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table foram os últimos petardos megalomaníacos de Wakeman, mas não do progressivo. Ainda haviam coelhos a serem tirados da cartola por outras bandas, como veremos na próxima semana.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Yes: Tales from Topographic Oceans Tour


Com o Jethro Tull inovando ao apresentar na íntegra e ao vivo um álbum de apenas uma música, Ian Anderson começou a confabular sobre um álbum duplo de apenas uma música, narrando sobre a vida após a morte, e com um espetáculo de show ainda mais desafiador. Por diversos problemas, o projeto acabou sendo abortado, com algumas partes entrando então em A Passion Play (1973) e grande parte da obra sendo lançada no álbum Nightcap, somente em 1993.

Mas ainda em 1973 outro expoente britânico do progressivo atingia números inalcançáveis (até então) para uma banda do gênero. O Yes alcançou o topo de maior banda do mundo naquele ano com o lançamento do ultra-mega-criticado
Tales From Topographic Oceans, uma verdadeira obra "ame ou odeie", e que abalou as estruturas de toda a geração progressiva na época.

O Yes vinha de uma grande turnê de divulgação do álbum
Close to the Edge, que acabou com o lançamento do triplo ao vivo Yessongs e com a saída do baterista Bill Bruford durante a tour, sendo substituído pelo baterista da Plastic Ono Band, Alan White.

Conta a lenda que Jon Anderson (vocalista do Yes) havia se encantado com
Thick as a Brick, e começou a planejar algo nos mesmos moldes. O Yes já vinha se consolidando por produzir longas faixas, como "Heart of Sunrise" (de Fragile) e a própria "Close to the Edge", mas a ideia de narrar uma longa história foi sendo arquitetada na mente de Anderson.

Durante os shows da turnê de
Close to the Edge no Japão, Anderson foi apresentado ao livro Autobiografia de um Iogue, do mestre hindu Paramahansa Yogananda, através do percussionista Jamie Muir (King Crimson), e simplesmente delirou com os ensinamentos ali contidos (outro grande livro oriental, essencial para uma boa leitura, é Bhagavad Gita, que inspirou nosso Raulzito em sua clássica canção). Aficcionado pela leitura, Anderson começou a fazer a cabeça de seus companheiros de banda, e por mais incrível que pareça quem mais curtiu o livro foi seu grande arquiinimigo, o guitarrista Steve Howe. Assim, ambos passaram a estudar os ensinamentos e a criar a história do próximo trabalho da banda, mesmo contra a vontade dos outros integrantes - a saber: Chris Squire no baixo, Rick Wakeman nos teclados e o já citado White na bateria).

O melhor LP do Yes


Em poucas semanas as letras e melodias estavam prontas, e com o término da turnê de Close to the Edge as gravações começaram no estúdio Morgan, em Londres. A ideia básica de Tales From Topographic Oceans era narrar a história da criação do mundo. Para isso, o grupo se concentrou em quatro suítes que tratavam de temas específicos, as quais formam a faixa "Tales From Topographic Oceans", e que por sua vez ocupavam cada um dos lados do vinil duplo, sendo o lado A composto por "The Revealing Science of God" (falando sobre a verdade sobre Deus), o lado B com "The Remembering" (e o conhecimento), o lado C com "The Ancient" (e a cultura) e o lado D com "Ritual" (com a liberdade), formando então uma única peça com mais de 80 minutos de duração.
Steve Howe


Cada lado teve participação especial de um integrante. O lado A deixava claro todo o trabalho de Anderson, enquanto no B quem se sobressaía era Wakeman. Howe demolia o lado C com guitarras e violões, enquanto que em "Ritual" White e Squire eram os responsáveis pelo cataclisma de encerramento da peça. Mas, claro, toda a banda participava ao mesmo tempo em todas as suítes. Além disso, a capa (elaborada por Roger Dean) é considerada uma das mais bonitas que o autor já fez.

Não vou entrar em mais detalhes sobre o álbum para atiçar o ouvido do leitor, mas como últimas informações a respeito do mesmo, o LP até hoje é o que teve o maior número de vendas quando de seu lançamento, sendo o que mais vendeu do Yes em todos os tempos. A revista
Time elegeu Tales From Topographic Oceans o melhor disco de 1973, enquanto a revista brasileira Showbizz colocou o disco entre os 20 piores de todos os tempos. Novamente fica claro que a discussão sobre o álbum é enorme. Antes que me pergunte, Tales From Topographic Oceans é para mim o melhor disco de todos os tempos, em todos os níveis e em todos os gêneros, e, claro, estou ciente que levarei (e levo) muitas pedradas por isso. E como muitos fãs - que elegeram o álbum como o melhor da banda em toda a sua carreira -, reconheço no álbum as melhores passagens instrumentais e os melhores trabalhos individuais de toda a trajetória do Yes - com exceção de Bruford, que fez misérias em Close to the Edge.






Fotos do palco da turnê



Nas palavras de Anderson: "Tales é uma viagem espiritual sintetizada assim: surge a luz da aurora em nosso coração, a luz de Deus. Relembramos nossa essência espiritual no oceano do tempo, somos eternos. Aprendemos com os sábios antigos a arte espiritual da união com a terra e a reverência ao sol, a arte da expansão da consciência. Voltamos ao presente cheios de esperança e amor para lutarmos pelos nossos sonhos e seguirmos em frente, pois NÓS SOMOS DA LUZ!"
Tales from Topographic Oceans - palco

Voltando então para a origem do álbum, Anderson e Howe começaram a planejar as letras e melodias, além de discutir como promover o disco. Sendo ele composto por uma única música de oitenta minutos, o que fazer para que a plateia não se cansasse com tanto tempo de apresentação? Bom, a primeira solução foi dividir a canção em quatro suítes (como falei acima), e, claro, colocar outras músicas no show. Mas, desde o início baseado nas apresentações do Jethro Tull, as quatro suítes deveriam ser tocadas na sequência - e mais ainda, na íntegra.

Os ensaios para a turnê foram bastante complicados, e Anderson começou a delirar ainda mais em cima do tema, criando, com a ajuda de Roger Dean, efeitos de luz que atiçavam a visão da plateia para os viajantes temas da bolacha, além de monstros gigantes infláveis ou em fibra de vidro que eram responsáveis por "guiar" a banda até a entrada do palco - a famosa baleia Skull -, a qual era um conjunto de tubulações de órgãos totalmente retorcidas, formando o esqueleto de uma baleia, e diversos cogumelos que eram espalhados na frente do palco. Também haviam outras peças especiais que surgiam durante determinadas partes do show, como os bustos de Bach e Beethoven que circundavam os teclados de Rick Wakeman.

Tales from Topographic Oceans - palco

Então, em 01 de novembro de 1973 a primeira aparição de
Tales From Topographic Oceans surgiu na rádio BBC, e no dia 16 daquele mês começava a Tales From Topographic Oceans Tour, em Bournemouth, Inglaterra. Após uma sequência de shows, que tinham sempre críticas altamente positivas ou extremamente negativas, o álbum foi lançado no dia 14 de dezembro na Inglaterra e no dia 09 de janeiro de 1974 nos Estados Unidos.

O que mais chamava a atenção da turnê era que o Yes realmente estava inovando, não somente por tocar um álbum duplo na íntegra, mas por tocar dois diferentes álbuns na íntegra! O show começava com o encerramento da clássica peça "Firebird", de Igor Stravinsky, com um gigantesco pano branco tapando o palco. Enquanto "Firebird" era executada pelas torres de som o pano se abria, mostrando uma gigantesca cabeça de cobra sobre a bateria de White, com a banda acompanhando os acordes da peça e emendando em "Siberian Khatru", do álbum
Close to the Edge. Na sequência, as outras duas faixas do LP eram tocadas - "And You and I" e "Close to the Edge" -, e assim todo o álbum Close to the Edge era apresentado ao público em pouco mais de 45 minutos.


Cris Squire e Rick Wakeman

Terminada a apresentação de
Close to the Edge, era a vez de Anderson começar a narrar o que estava para acontecer. Primeiramente, ele comentava que iriam apresentar uma faixa do novo álbum, chamada "Tales From Topographic Oceans", e que isso começaria com a suíte "The Revealing Science of God". O que se vê (e ouve) a seguir é a interpretação primorosa e vigorosa dos mais de oitenta minutos do álbum, sendo que ao término de cada uma das suítes Anderson explicava um pouco sobre o que vinha a seguir e qual ensinamento ou assunto estava sendo tratado.

A dificuldade na interpretação de
Tales From Topographic Oceans tornava o show ainda mais interessante de se ver, pois Squire e Howe acabavam se transformando em verdadeiros malabaristas, empunhando por mais de duas vezes dois baixos (no caso de Squire) e duas guitarras ao mesmo tempo. Anderson também era outro multi-instrumentista, com um canto especial para ele, onde estavam à disposição flauta, harpa e diversos instrumentos percussivos. Wakeman, sempre trajando sua tradicional capa de brilhantes, vinha cercado de moogs, mellotron e piano, enquanto White desaparecia sob a cabeça da cobra, que soltava fumaça e labaredas de fogo.

O clímax e tensão eram intensos durante toda a apresentação de
Tales From Topographic Oceans. Como se sabe, o Yes se tornou mundialmente reconhecido por executar nota por nota de suas canções, e isso se deve principalmente a essa turnê, pois imaginem fazer isso com uma única música durante 80 minutos, sem partitura e sem metrônomos, só com a canção na cabeça.

Tales from Topographic Oceans - palco

Durante a apresentação a cabeça da cobra abria-se, revelando por vezes asas de borboletas ou então outras formas, como cogumelos e flores. Nos cantos do palco, vez por outra surgiam bonecos e animais empanados, e o que chamava a atenção era o show de luzes e fumaça, que tinha como o auge "Ritual", onde os quatro integrantes (com exceção de Rick Wakeman) empunham tambores para executar a parte central da peça, enquanto Wakeman delirava nos teclados. Ali, um verdadeiro ritual se fazia no palco, e quem via isto ficava com a sensação de que tudo o que havia aprendido sobre shows era enganação, pois o espetáculo visual provocado pelo Yes era fora do comum.

Após a apresentação de
Tales From Topographic Oceans o Yes deixava o palco por alguns minutos, retornando para o bis com "Roundabout" e, dependendo da energia do público, "Starship Trooper", encerrando então o espetáculo de quase três horas de duração. Vale ressaltar que alguns shows contavam com "Heart of Sunrise" ou "Yours is No Disgrace" ao invés de "Starship Trooper", mas "Starship" acabou sendo apresentada na maioria das vezes.


Camisetas da turnê

No total a turnê teve 25 shows na Inglaterra, 43 na América do Norte (onde camisetas personalizadas para cada cidade foram fabricadas) e mais dez shows pela Europa, passando por Alemanha, Holanda, Suíça e França, encerrando em 23 de abril de 1974 em Roma.

Mesmo com todas as críticas negativas vindas da imprensa, todos as apresentações tiveram seus ingressos esgotados, sendo que em algumas cidades o Yes teve que fazer mais de um show (as vezes no mesmo dia, como ocorreu na Filadélfia).


Capa de Tales


Em termos de raridades, começamos pelo próprio álbum Tales From Topographic Oceans, que teve uma versão lançada unicamente para ser tocada nas rádios inglesas - creditada como "radio vinyl". Como as faixas eram longas, a ideia foi dividí-las em temas de quatro ou cinco segmentos, com intervalos entre 4 e 5 minutos, o que possibilitava a execução das mesmas, e isso era criteriosamente creditado tanto na capa quando no próprio rótulo e sulco do vinil. Essa versão é raríssima, e aqueles que a tem não se desfazem nem por uma noite com Angelina Jolie. Outra rara versão do LP traz o triângulo em alto-relevo na capa.

Bootleg
 
Para quem quer curtir a turnê em si, os melhores bootlegs são Tales From the Edge, gravado em Ludnigshateen (Alemanha) no dia 14 de abril de 1974, e Ocean Tales, gravado em Detroit (EUA) em 28 de fevereiro de 1974. Vários bootlegs desta turnê existem, mas estes são os que apresentam a melhor qualidade de áudio, além de contar com o show na íntegra.

Diferentes partes de
Tales From Topographic Oceans foram lançadas oficialmente pela banda, como "Ritual" em Yesshows (1980) e "The Revealing Science of God" em Keys to Ascension (1996), mas nada original da turnê foi lançado até o presente momento.

Em termos visuais, existe um raríssimo video em 8mm da tour, que mostra grande parte de um show filmado em local desconhecido. Particularmente nunca vi este show, mas pesquisando na internet vi vários comentários a respeito do mesmo.

"Ritual" foi registrada oficialmente na turnê seguinte, do álbum
Relayer, já contando com Patrick Moraz nos teclados, no famoso vídeo Live at Q. P. R.. Ali, pode ser conferido um pouco dos monstros e luzes que apareciam na turnê original. "Ritual" também aparece em Symphonic Live (2002), e "The Revealing Science of God" foi registrada também no DVD de Keys to Ascension (1996).

O Yes consolidava-se como a principal banda do progressivo britânico, passando à frente de baluartes como Pink Floyd, principalmente por
Tales From Topographic Oceans alcançar o posto número 1 de vendas na Inglaterra (Dark Side of the Moon, de 1973, vendeu muito desde seu lançamento, mas a posição mais alta que alcançou foi a segunda nos charts de álbuns britânicos) e sexto nos EUA.

Como a época era de álbuns conceituais e turnês auto-explicativas, mais bandas passaram a trabalhar e desenvolver seus shows. Rick Wakeman, que vinha sendo bastante elogiado pelo seu primeiro álbum solo,
The Six Wives of Henry VIII, largou fora do Yes e foi montar um dos mais ambiciosos projetos da história da música, como veremos na próxima sequência das grandes turnês do rock progressivo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Jethro Tull - Thick as a Brick Tour




A história da música é contada através de grandes turnês, grandes shows e grandes álbuns. É inegável, por exemplo, que a união destes três fatores tornam os mesmos ainda mais atraentes, tendo em vista a mais recente tour do AC/DC, contando com um excelente álbum (Black Ice), shows extremamente grandes em estádios de futebol lotados, passando por inúmeras cidades ao redor do mundo, o que chamou a atenção até de um desconhecido da banda.

Porém, na década de 70 as grandes turnês não eram tão simples de serem vistas, bem como os grandes shows ocorriam praticamente em festivais, como
Isle of Wight, Altamont e, claro, Woodstock. As bandas denominadas progressivas acabaram sendo as primeiras a inovar em termos de show, como a palavra quer dizer, mostrando telões gigantes (Pink Floyd), monstros enormes (Yes, Rick Wakeman e o próprio Floyd) e a utilização de uma moderna aparelhagem de luz (Genesis e novamente o Pink Floyd).

Um dos ícones do progressivo fazia menos estardalhaço visual que seus companheiros, mas também representou uma inovação para a história dos shows. Esse ícone foi o Jethro Tull. A obra citada é
Thick as a Brick, de 1972, uma das mais geniais peças escritas em toda a história da música.

Durante a turnê do álbum, entre 1972 e 1973, o Jethro Tull mostrou ao mundo que não era necessário um cenário enorme ou inúmeras luzes e lasers coloridos para atrair a atenção do público, mas sim investir no álbum que estavam lançando, decifrando para a plateia o que estava escondido nos sulcos daquela obra.

Muito do que está dentro do LP demorou tempos para ser concebido, ainda mais vindo da cabeça inventiva de Ian Anderson, o cantor, flautista, violão, saxofone, líder e mentor do Jethro Tull. Tanto que quando do lançamento da obra muitos acharam que a história sobre o poema do garoto Gerald Bostock era real.

Sem entrar nos detalhes do disco, farei uma breve descrição do mesmo para aqueles que nunca tiveram contato com essa obra prima.
Thick as a Brick é composto somente por uma faixa, a própria "Thick as a Brick", que narra um poema escrito por um garoto de oito anos, o tal Gerald Bostock. Mesmo sendo um menino, Bostock começa a se deparar com diversos fatos que o levam a pensar sobre como é envelhecer, passando das brincadeiras de infância - como pinturas e liga-pontos -, a adolescência - girando em torno da escola, namoro e prática de esportes -, a fase adulta - com casamento, questões de trabalho e viagens - até chegar à velhice e, finalmente, à morte.

Tudo isso está escrito dentro do poema, que foi vencedor de um prêmio numa cidadezinha fictícia chamada St Cleeve. Porém, a capa do jornal da cidade, datada do dia 07 de janeiro de 1972, trazia a manchete de que haveria uma fraude na composição do poema, sendo que a princípio quem teria escrito o mesmo seria uma amiga de Gerald. A controvérsia acaba sendo desvendada, com o próprio Gerald assumindo que a tal amiga ajudou ele no poema, mas aí fica uma nuvem no ar se a tal moça não teria sido quem fez Gerald pensar sobre o assunto, tendo assediado o coitado do menino. Basta pensar no próprio título ("espesso como um tijolo") para se fazer essa ligação com o órgão sexual do garoto.

Enfim, a viagem não para por aí, e se torna ainda mais profunda quando se pega a capa original do LP, a qual vinha em formato de um jornal de verdade (inclusive em papel jornal), contando com 12 páginas onde vemos tudo o que aparece em um jornal tradicional, desde a sessão de esportes e classificados até a sessão de óbitos e nascimentos, passando inclusive pelo próprio poema.

A leitura de todo o jornal (sim, todo o jornal) acaba revelando fatos que passam despercebido no poema. Basicamente, cada página contém exatamente um ponto que não está direto na música, tratando exatamente dessa evolução criança-adulto, mostrando praticamente todos os fatos que nos cercam desde o nascimento até a nossa morte, e que assombraram a cabeça do garoto. Um dos fatos mais hilários é uma resenha sobre o próprio LP, apresentando Ian Anderson como o autor do review e com uma crítica um tanto quanto "especial" para a bolacha.

Enfim, quem tiver a oportunidade pegue a versão original (e que demorou muito para ter algo parecido no formato CD) e delicie-se com esta maravilhosa história.



Mas voltando ao início, Ian Anderson queria trazer ao palco o que as pessoas não compreendiam no álbum. Claro, o LP alcançou a primeira posição dos charts da Billboard nos EUA, mas mesmo assim Anderson sentia que não havia passado a mensagem que queria. Então, auxiliado por seus seguidores da época (Martin Barre - guitarras, Barriemore Barlow - bateria, John Evan - piano e Jeffrey Hammond-Hammond - baixo), resolveu construir a turnê de divulgação do LP.

A inovação começava a partir do set list. Seguindo o que o The Who havia feito anos antes com a turnê de Tommy, Anderson decidiu tocar o álbum inteiro, na íntegra, sem se preocupar com as demais composições que já faziam parte do cotidiano dos fãs do Jethro Tull. Essa ideia acabou amadurecendo, e aos poucos ficou claro que algumas partes eram impossíveis de serem reproduzidas ao vivo. Então Anderson resolveu modificar seus planos, e aceitou incluir outras canções, além de amadurecer a ideia de trazer a capa do álbum para o palco.

Desta forma, surgia a engraçadíssima turnê Thick as a Brick Tour, que passou por países da Europa, Austrália, Canadá e Estados Unidos.


O show começava com diversos coelhos-roadies (no jornal havia também uma história sobre pegadas deixadas em uma floresta, supostamente de um coelho gigante que havia fugido de um laboratório) no palco, andando feito loucos e fazendo gestos para a plateia, ao mesmo tempo em que verificam aparelhos como microfones, afinação da bateria e conexões dos intrumentos. Aos poucos os coelhos começam a sair do palco, restando apenas cinco deles. Finalmente, um deles retira a máscara e a roupa de coelho, revelando o guitarrista Martin Barre, e consequentemente, os demais coelhos revelam o resto da banda.

Assim, Ian Anderson assume o microfone e anuncia para o público que irão tocar uma música do novo álbum, chamada "Thick as a Brick", começando então o riff com seu violão e sendo acompanhado pela banda. A canção prossegue até a primeira parte rápida, quando de repente, um telefone começa a tocar. No canto direito do palco, uma cadeira está disposta, com o telefone sobre a mesma. Anderson atende ao telefone, escuta o mesmo durante alguns segundos e anuncia para a plateia que aquela é uma ligação urgente para Mike Nelson, sendo Mike Nelson um personagem da série de TV americana Sea Hunts, interpretado por Lloyd Bridges.

Essa mensagem era dita para as audiências americanas e australianas, onde dois coelhos usando aparelhos de respiração (imitando o personagem Mike Nelson) surgem no palco, atendem o telefone e saem do palco novamente. Na Inglaterra a mensagem era diferente, pedindo para o senhor que havia deixado um cavalo puro-sangue estacionado na frente do teatro retirar o mesmo do local, já que o cavalo estava sujando a entrada (que é exatamente uma das partes do jornal).

E assim era o show, com muitas intervenções hilárias e grandes sessões instrumentais. O som voltava à tona, com Martin Barre solando e o violão de Anderson trazendo a primeira grande sequência instrumental, com o solo de flauta. A letra é retomada, mantendo a mesma linha da versão original, com o belíssimo solo de Barre, duelando com Anderson e Barlow. Novamente temos a letra, com a sessão de teclados de Evan, que leva a um longo solo de órgão, como os feitos quando Evan entrou na banda, na turnê de Benefit (por exemplo em "By Kind Permission Of", do álbum Living in the Past).


Enquanto o solo de Evan ocorre, uma barraca de crianças é montada no palco, com Barrie e Barlow desaparecendo sob ela. Após alguns minutos, ambos aparecem semi nus, com cara de que fizeram "algo" dentro da barraca, ao mesmo tempo que um gigantesco coelho branco aparece no palco. Barrie e Barlow juntam-se novamente à banda e temos uma longa sessão instrumental, voltando então para a letra da canção.

O som continua, com Anderson solando tal qual o LP, posteriormente acompanhado somente por Jeffrey e Barre e, finalmente, sozinho, onde o improviso é livre, e dependendo da inspiração durava mais de 15 minutos. A base de "Thick As A Brick" voltava, trazendo então o encerramento do lado A, com um breve discurso de Jeffrey, contando como aquela parte da canção será executada: "Ian está fazendo uma sequência rítmica constituída por alternância nos compassos em C menor sustenido 4 e F Major. Este calmo e muito agradável interlúdio precede a entrada de um órgão tocado por John, que em seguida une-se com a guitarra para fornecer uma rica textura de contraritmos percussivos. O poema do jovem Gerald Bostock será novamente cantado pelo Sr Anderson, e depois de dez compassos o guitarrista, o baterista e eu mesmo nos juntamos e aspiramos por uma ansiosa partipação que antecipa a orgásmica sensação que teremos a seguir".

E é isso que temos, ou mais resumidamente, o encerramento do lado A é o que se ouve nessa etapa do show, contando inclusive com barulhos de vento sendo ouvidos através de um toca-fitas colocado no palco.

Todos os integrantes saem do palco ao final da primeira parte da apresentação, menos Evan e Jeffrey, que irão dar sequência a uma engraçadíssima parte do show. Uma voz feminina anuncia: "Agora, vamos assistir ao noticiário das seis, lidos esta noite por Andrew Pardon". Segue-se então a leitura do noticiário, com Jeffrey sendo Pardon. A gozação rola solta, com histórias sobre a fuga de coelhos de laboratório, esportes (narrando sobre a Terceira Guerra Mundial, entre Vietnã, Israel e Egito), noticiário policial e previsão do tempo, todas as notícias sendo lidas como um jornal de rádio e de forma incrivelmente engraçada, com belas interpretações de Jeffrey e Evan. Além disso, homens fantasiados de coelhos e macacos sempre apareciam quando chamados, dando mais humor para a cena.


Dependendo da empolgação do grupo, a versão da canção durava entre 75 e 90 minutos, contando com todas as intervenções do jornal, que eram sempre lidas e apresentadas na mesma sequência (a menos quando citado, nos shows ingleses). Ainda havia espaço para mais uma sequência de piadas sobre a garota vesga, começando a faixa seguinte, "Cross Eyed Mary".


Após "Cross Eyed Mary" uma fita começava a rodar a conversa entre mãe e filha, com a mãe perguntando sobre uma música que a banda costumava tocar, e a filha respondendo que era do LP Stand Up. A mãe lembra de "To Cry You a Song", mas a filha afirma que não, que era "Jeffrey Goes to Leicester Square", e ambas começam a cantar um tema de uma outra canção, com o grupo seguindo as mesmas notas das duas e partindo para o riff da terceira música do show, "A New Day Yesterday", recheada de solos de flauta e órgão, mostrando cada vez mais a importância de Evan.

Após "A New Day Yesterday" mãe e filha voltam, dizendo que estavam enganadas, e que não era aquela canção. O show continua com "Aqualung" e um pequeno intervalo.

Na volta, Anderson conta mais algumas piadas, detonando "Wind Up", com Martin executando o seu solo de quase dez minutos, e "Locomotive Breath", com direito a "Hard-Headed English General", com Evan fazendo um furioso solo de órgão, saltando sobre o palco como um orangotango, e encerrando com os versos finais de "Wind Up".

A banda se despede do público, mas o show não acaba. Passos são ouvidos através das caixas de som ao mesmo tempo em que uma conversa dos músicos indo para os camarins aparece. Barlow pergunta para os outros integrantes se eles acharam que tocaram bem aquela noite, e Anderson responde que a plateia estava bastante ligada no show, quando grita: "Oh céus, está trancado!".

Uma discussão em busca da chave começa, e então é a vez de mais comentários sobre a plateia, como "viram aquela loira gostosa na frente do palco?", enquanto Barlow se tranca no banheiro, sem papel higiênico. Seguindo as discussões, Ian acha que o show não foi legal, e que deveriam voltar ao palco para começar tudo de novo, mas depois se dá conta de que todos já devem ter ido embora, e então finalmente entra no camarim, cantando "They'll be halfway home to bed if they've got any sense".


Para quem se interessou, existem dois bons vídeos na internet que mostram parte da apresentação, como os coelhos, o telefone tocando e algumas piadas. Em termos de bootlegs, o que traz o melhor registro é Welcome to Münsterland, gravado em 08 de março de 1973 na cidade de Münster (Alemanha). Outras boas pedidas são Flute Topia, gravado em 04 de junho de 1972 em Toronto (Canadá), e o raríssimo Bologna, gravado em 19 de março de 1973 na cidade italiana. Todos trazem o show na íntegra, sendo os dois últimos contando com pequenos cortes que não afetam diretamente na compreensão do espetáculo.

A turnê foi um grande sucesso, tanto de público como de crítica. Sensibilizado com a boa repercussão, Ian Anderson decidiu por inovar, e assim criou outra grande obra conceitual, a clássica A Passion Play, em 1973. Inspirando-se na turnê de Thick as a Brick, a banda tocava praticamente todo o álbum na íntegra, além de uma generosa versão de "Thick as a Brick" com quase 20 minutos. Porém, em termos de ambição, a turnê de Thick as a Brick foi muito melhor, sendo um dos pontos altos na carreira do Jethro Tull, inspirando outras bandas de rock progressivo a fazerem o mesmo, como veremos na próxima edição do Baú do Mairon.
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