quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sagrado Coração da Terra

Ivan Corrêa e Marco Antonio Botelho (acima),
Augusto Rennó, Marcus Viana e Zé Marcos (abaixo)


Praticamente desconhecido em nossas terras, o grupo mineiro Sagrado Coração da Terra conquistou uma legião de fãs internacionalmente, principalmente na Europa e no Japão, aonde seus álbuns foram todos relançados em CD antes mesmo disso acontecer em nosso país.

O Sagrado em 1979, ainda em formação:Alexandre Lopes, Edson Pla, Zé Artur, Cristiana Ramos e Marcus Viana
Formado em 1979 pelo multi-instrumentista Marcus Viana (violino, voz, mandolin, piano, teclados, violões), que pouco antes havia feito parte do hoje reconhecido Saecula Saeculorum, o Sagrado passou por diversas formações ao longo de sua carreira, e lançou apenas cinco álbuns de estúdio, os quais contam com uma sonoridade única, que talvez por isso, o distingua tanto de outras bandas contemporâneas ao seus álbuns, sendo classificado por muitos como o precursor da World Music e da New Age em nosso país, ao lado dos também mineiros do Uakti. 

Desde o início, o grupo teve como objetivo misturar elementos elétricos e acústicos em uma sonoridade nova, trazendo elementos barrocos e eruditos fundidos a elementos do rock progressivo britânico. Esse estilo acabou prejudicando o início da banda, que passou quatro anos ensaiando, tocando em pequenos locais e buscando uma gravadora, sofrendo diversas mudanças de formação nesse período, sendo uma das principais com Viana, , Alexandre Lopes (guitarra), Edson Pla (baixo), Cristiana Ramos (Piano) e Zé Artur (bateria).

Edson Pla, Cristiana Ramos, Zé Artur, Alexandre Lopes e Marcus Viana.

Em 1984, finalmente a jovem gravadora Arteciencia resolveu apostar nos mineiros, que contava na formação com Viana, Vanessa Falabella (voz), Marquinhos Gaughin (baixo), Nenen (bateria), Inês Brando (piano), Giácomo Lombardi (sintetizadores), Fernando Campos (guitarra), Sebastião Vianna (flauta), Andersen Vianna (flauta), Miriam Vianna (harpa), Gilberto Diniz (baixo sem trastes), Lincoln Cheib (pratos), Paulinho Santos (percussão) e Alexandre Lopes (violão). Em 1985, chegou às lojas Sagrado, o primeiro álbum do grupo.

A estreia do Sagrado, em 1985

Para quem esperava algo na linha do trabalho feito por Viana no grupo Saecula Saecuorum durante a década de 70 (e que só teve seu trabalho lançado nos anos 2000), o Sagrado aparece com letras positivas, para cima, falando de amor, natureza e esperança,  As experimentações com barulhos de natureza, que marcam a carreira da banda, estão presentes em "Lições da História", nas vocalizações indígenas de "Memória das Selvas" e na introdução da balada instrumental "A Glória das Manhãs", com Viana exibindo-se ao piano, enquanto "Asas", a faixa-título e "Arte do Sol" destacam a voz de Vanessa e possuem interessantes arranjos instrumentais, destacando a participação de Nenen na segunda. 

"Corpo Veleiro" e "A Luz É Terna" indicam o futuro de trilhas de novelas que Viana seguiria durante toda sua carreira. "Feliz (Abertura de Selvagem)" é uma curta vinheta instrumental no LP, que tem exatamente na instrumental "Deus Dançarino" seu melhor momento, com fortes inspirações em Genesis e Mahavishnu Orchestra. 

Alexandre Lopes, Esdra 'Neném'', Marcus Viana, Vanessa Falabella, Gilberto 'Giló'' e Inês Brando
Destaque para o encarte do vinil original, o qual possui uma imagem de um menino segurando um violino em preto e branco, e abrindo o mesmo ao meio, revelando o menino tocando o violino.

Sagrado acabou saindo em CD no Japão, em 1988, através do selo Crime, trazendo como bônus a faixa "Urban Ragas". Outros dois relançamentos em CD ocorreram no Japão: em 1996, pelo selo Nexus; em 2008, pelo selo Belle Antique. Ambas as versões idênticas ao lançamento de 1988.

Esse primeiro álbum teve alguma relevância na região do triângulo mineiro, possibilitando ao Sagrado Coração da Terra fazer shows pelo sudeste de nosso país. Nesses shows, novas composições começaram a surgir, permitindo que o grupo voltasse aos estúdios para registrar seu segundo álbum. Com uma nova formação, tendo Viana na companhia de Rennó na guitarra, e dos novatos Ivan Correia (baixo), Marco Antonio Botelho (bateria), José Marcos Teixeira (sintetizadores) e João Guimarães (bateria eletrônica), sendo que duas canções possuem a participação de Nenem na bateria, em 1987 é lançado Flecha.

A revelação para o sul do Brasil

Flecha se tornou um clássico no rock progressivo nacional, projetando o Sagrado Coração da Terra para o sul do Brasil. O álbum é dividido em dois lados: As Canções e As Sinfonias. No Lado As Canções estão canções curtas, que trazem as letras positivas e futuristas de Viana, porém com arranjos sonolentos perto das canções de Sagrado, e também aproveitando-se um pouco do clima oitentista com inserções de bateria eletrônica, principalmente na faixa-título, que foi inserida na trilha sonora da novela global Que Rei Sou Eu?, a primeira participação de Viana em novelas, com videoclipe sendo exibido no fantástico e tudo o mais. 

O nível novelístico continua nas fracas baladas "Manhã dos 33", "Seres Humanos" e "Carinhos Quentes", com raros instantes progressivos, e a vinheta "Paz" é o único momento decente deste lado, em um lindo trabalho instrumental de Viana apenas com violino e sintetizadores. 

Ivan Corrêa, Zé Marcos, Marcus Viana, Marco Antônio Botelho e Augusto Rennó.
Porém, o lado As Sinfonias acaba com a melosidade do lado oposto, com apenas três longas canções que marcaram época no rock progressivo nacional, começando com "Tocatta", e Viana esbanjando virtuosismo nos teclados, seguindo éla épica "Cosmos X Caos", talvez a principal suíte do rock progressivo no final da década de 80, digna de ser chamada de Maravilha Prog, lembrando muito as canções de Milton Nascimento durante a fase Clube da Esquina, porém com um arranjo musical complexo, além de uma letra fantástica e mudanças que encantam em seus quase onze minutos de duração, principalmente durante o longo trecho central apresentando o solo de violino, e encerrando com a linda instrumental "O Futuro da Terra", apresentando uma série de solos de flauta (por Anderson Viana) e de violino, em um clima muito leve e encantador. 

O grupo ao vivo nos anos 80

O trabalho de Flecha levou o Sagrado para a Ásia. Assim como Sagrado, Flecha foi lançado em CD naquele país em 1988, trazendo o mesmo conteúdo da versão vinílica brasileira. A novidade de Flecha é que ele também saiu em LP pelas terras nipônicas. Em 2008, o selo Belle Antique relançou Flecha em CD no Japão, com as mesmas faixas da versão original.

O grupo cresceu, e fez uma série de apresentações pelo país. Ao mesmo tempo, a participação de "Flecha" em Que Rei Sou Eu? levou Marcus para ser convidado a cômpor uma canção para a novela Kananga do Japão, da Rede Manchete. O resultado foi a faixa "Tango", mas o mais importante não foi isso, e sim a apresentação de Marcus para o diretor Jayme Monjardim.

As trilhas de Pantanal, revelando o Sagrado Coração da Terra para o Brasil

É Monjardim o responsável pelo convite para Marcus produzir a trilha do maior sucesso em termos de novelas lançadas pela Rede Manchete, Pantanal. Lançada em dois volumes, esta Trilha Sonora vendeu muito em 1990, e tem Marcus interpretando canções de forma solo ("Amor Selvagem", "Reino das Águas", "Espírito da Terra" e "Noite") e também com o Sagrado ("Pantanal", "A Glória das Manhãs" e "Paz"), as quais serviram de base para o lançamento do terceiro LP do Sagrado no ano seguinte, e colocaram o Sagrado Coração da Terra como uma banda reconhecida agora nacionalmente.

A formação de Farol da Liberdade tem Viana (violino, teclados), Renno (guitara, violões), Lincoln Cheib (bateria), a dupla Anderson e Sebastião Viana nas flautas, Ronaldo Pellicano (teclados), Ivan Correia (baixo) e Paula Santoro (voz). 

Farol da Liberdade, o disco do auge na carreira dos mineiros

Consolidados perante o mercado nacional, o grupo regrava algumas canções de Pantanal e ainda cria novas canções, gerando um belo trabalho, o primeiro lançado pelo selo Sonhos & Sons, de propriedade de Viana, e que relançou todos os álbuns anteriores do grupo, bem como os lançados a partir de então, além de uma série de grupos e artistas New Age.

Farol da Liberdade apresenta músicas excelentes, apesar das baladas novelísticas. A abertura com a hipnotizante "Dança das Fadas", com parte da letra cantada em latim, é um ápice do que o rock progressivo do grupo poderia gerar, em uma das melhores canções da carreira do grupo, e o clima progressivo segue com a bela instrumental "Solidariedade", levada pelo violão e violino, além de um belo acompanhamento de sintetizadores, baixo e bateria. 
Marco Antônio Botelho, Marcus Viana, Ronaldo Pellicano, Ivan Corrêa, Augusto Rennó.
A faixa-título é um representante típico do rock brasileiro nos anos 80, carregada de sintetizadores, enquanto "Raio e Trovão" é uma dançante faixa, tendo um clima mezzo celta, mezzo progressivo que me lembra muito Jethro Tull de meados dos anos 80, além de uma maravilhosa sessão instrumental com violão clássico e violino dando um show a parte. Sem dúvidas, a suíte que encerra o álbum, "The Central Sun of the Universe", é o clímax do álbum, com mais de onze minutos de duração, letra cantada em inglês, uma introdução a la "I Get Up, I Get Down" (Yes), uma longa sessão instrumental destacando piano e violino, além de marcações delirantes de guitarra, baixo e bateria, em mais uma candidata a Maravilha Prog. 

Temos ainda mais uma pequena vinheta, "Olívia", contando com sonorizações e grunhidos do bebê que dá nome à canção, e das faixas de Pantanal aqui aproveitadas, "Amor Selvagem" acaba sendo totalmente descartável, mas "Pantanal", tendo um incrível coral apoiando nas vocalizações, aumenta a quantidade de pontos nesse belo álbum, candidato a melhor da carreira do Sagrado, mas que perde de longe para o quarto e essencial disco do grupo.

Sem perder muito tempo, seguem com a série de shows e composição de novas canções, culminando rapidamente com a gravação do quarto álbum do grupo, o ótimo Grande Espírito


O melhor disco dos mineiros

Grande Espírito é o disco mais trabalhado e construído do Sagrado. As canções novelísticas quase não aparecem, e o resultado final é um trabalho perfeito. A formação do grupo permaneceu a mesma de Farol da Liberdade, e agora, eles tem a companhia de Bauxita nos vocais, dando uma nova cara para a banda, transformando o som em algo mais pesado e bastante experimental, principalmente com a participação mais que especial dos músicos da Uakti, realizando uma união esperada desde Flecha

Esse casamento gerou filhos incríveis, como podemos ouvir na sensacional "Kian" (cantada em tupi-guarani por um coro de vozes). A participação de Milton Nascimento na linda "Eldorado", acompanhado apenas pelo piano e sintetizadores, é o momento mais ameno de um grande disco, ao lado de "Libertas", a canção mais novelística de Grande Espírito, mas com uma letra poderosa que jamais tocaria em novela alguma. 

Lincoln Cheib, Marcus Viana, Ivan Corrêa e Ronaldo Pellicano

Nenem retorna ao grupo para tocar bateria em "Rapsódia Cigana", um espetáculo sonoro com várias sequências com violino, piano e guitarra duelando entre si, e uma viajante sessão com tablas e Sitar (Maravilha Prog sem sombra de dúvidas), e como o grupo crescia cada vez mais internacionalmente, foi inevitável a inclusão de canções com letras em inglês, a cargo da suave "Sweet Water", com a participação de Firmino Cavazza no violoncelo e os violões fazendo uma bela base, e da pesada "Human Beans". 

O ponto máximo novamente vai para uma suíte, aqui a própria faixa-título, com citações indígenas e outra letra manifesto, além de uma base instrumental viajante. A versão em CD conta ainda com a suíte "Pais dos Sonhos Verdes", seguindo a linha de "Grande Espírito" e com importante participação do grupo Uakti. 

A partir de então, o grupo entrou em um longo hiato de sete anos, com Marcus concentrando-se na composição de trilhas para filmes. Somente no início dos anos 2000 com o seu quinto e último álbum de estúdio até o presente momento, A Leste do Sol, A Oeste da Lua.

O retorno do grupo nos anos 2000

Lançado em 2000, esse é o álbum mais longo da carreira do Sagrado Coração da Terra, mantendo o nível das composições dos primeiros álbuns, trazendo regravações de canções de Marcus Viana para novelas e a participação de diversos músicos que passaram pela banda, e também de Andre Matos nos vocais de "Bem-Aventurados", com um show a parte do violão flamenco de Augusto Rennó durante a introdução, sendo essa uma rara oportunidade de ouvir Andre cantando em portugês. 

A formação principal é a mesma que gravou Grande Espírito e Farol da Liberdade, e eles recriam "Terra", de Caetano Veloso, dando uma cara totalmente nova para a canção. As letras sobre paz e culto a natureza surgem em "Canção dos Viajantes", "Lágrimas da Mãe do Mundo" e na própria faixa-título, enquanto o clima novelístico surge em "Clair de Lune", destacando as passagens de piano e violino, e "Serras Azuis", com muitas vocalizações femininas. 

Sagrado em 2001
"Oviniana" apresenta um belo arranjo com o violão acústico e o moog, enquanto "Firecircle" traz Viana cantando em inglês. Os momentos máximos vão para o maravilhoso arranjo de cordas e violões de "Madame Butterfly", que tem a participação dos instrumentos indianos Sitar e tabla, além de uma soprano fazendo arrepiantes vocalizações, "Anima Mundi", também com a presença dos intrumentos indianos e viajantes mudanças sonoras, a peça clássica "Allegro", um fantástico solo de piano feito por Viana, a sensacional "Planeta Minas", somente com violino, violões e xilofone durante a sua introdução, virando uma pesada canção ao seu final, "Amigos", bonita balada tendo o violino como destaque, a viajante "Maya", com seu clima todo New Age e repleta de instrumentos de percussão.


Versões em inglês no sexto álbum da banda
Em 2001, Sacred Heart of Earth trouxe revisões em inglês para canções do grupo, além de novos arranjos, e com o lançamento voltado apenas para o mercado internacional, esse álbum complementou o retorno em comemoração aos vinte anos do grupo. As faixas que o compõem foram selecionadas dentre os cinco álbuns anteriores, a menos de Flecha, que não teve nenhuma canção relembrada. 

Assim, estão no mesmo "Sagrado" (Sagrado), "The Central Sun of the Universe" (Farol da Liberdade), "Human Beans", "Gypsy Rapsody" e "Sweet Water" (Grande Espírito), e "East of the Sun, West of the Moon", "Travelling Show", "Firecircle" e "Maya" (A Leste do Sol, A Oeste da Lua), além de uma interpretação para "2001 - Also Sprach Padim Cisso" e " The Green God of the Woods", " The Gates of Heaven", "Carpe Diem" e "Urban Ragas".

Um álbum para completar a coleção, mas sem nenhuma novidade além das letras em inglês. Marcus passou a se dedicar para trilhas de novelas e séries, destacando participações nas novelas Terra Nostra (2000) e O Clone (2001), bem como a trilha do filme Olga (2004), desenvolvendo sua carreira solo e servindo como músico acompanhante em shows e álbuns de diversos artistas.
O retorno em 2012


As coletâneas Canções, com os principais clássicos da banda, e Instrumental, somente com as canções instrumentais do grupo chegaram às lojas em 2002, e mais um hiato ocorre. Em 2009, o DVD Cosmos X Caos - A História Parte 1, chegou às lojas, apresentando um show do grupo realizado em 1989, no Palácio das Artes e trechos de uma apresentação no Rio Art Rock Festival em 1996 no Metropolitan / RJ, além de um documentário descrevendo a trajetória do grupo nestes últimos anos.


Em 2012, através do produtor Claudio Fonzi, o grupo voltou a fazer shows, apresentando-se no Teatro Rival, mesmo local que também recebeu os mineiros em 2013, assim como Belo Horizonte, tendo na formação Vianna, Augusto Rennó (violão e guitarra), Adriano Campagnani (baixo), Eduardo Campos (tímpanos e percussão), Esdra Neném Ferreira (bateria), Danilo Abreu (teclados), uma fusão do antigo e do novo Sagrado com a Transfônica Orkestra, outro projeto musical de Viana, que percorre o país com apresentações eventuais, sendo as próximas ocorrendo em São Paulo nas datas de 21 e 22 de fevereiro, deixando os fãs no aguardo de um novo lançamento do grupo, sendo que para este ano está prometido o lançamento do volume 2 de Cosmos X Caos - A História.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sly & The Family Stone - Parte III


Hoje, encerro a história do grupo californiano Sly & The Family Stone. Já apresentei duas partes, desde o início em 1967 até o lançamento do álbum Life (1968), e do sucesso de Stand! (1969) ao fim precoce do grupo em 1975, por problemas internos.

Sly, assim como outros integrantes do grupo, partiu para uma carreira solo, e já em 1975, lançou High on You. Lançado pela Epic, ele marca um período no qual Sly toca praticamente todos os instrumentos do álbum, sendo o centro total das atenções. Em esse álbum, ele tem a companhia de dois membros da primeira geração da Família de Pedra, Cynthia Robinson no trompete e Jerry Martini no saxofone, além das Little Sisters e diversos convidados, que serão citados no decorrer do texto, mas que podemos destacar Dennis Marcellino no saxofone, Cousin Gale na guitarra, Bobby Lyles, Tricky Truman Governor nos teclados e Sid Page no violino, esses em quase todas as canções.

Ótima estreia solo de Sly Stone

O LP, mesmo não estando no nível de um Stand!, é ótimo de se ouvir, e começa com o baixão de Bobby Vega em "I Get High On You", e o sintetizador de Sly mostrando um ritmo mais cadenciado, acompanhado pelo órgão de Little Moses, dando um poder de fogo dos grandes clássicos da primeira geração, seguido pelo delicioso embalo de "Crossword Puzzle", no qual as linhas vocais se destacam. Essa faixa conta com Michael Samuels na bateria. O disco é um embalo tranquilo e saboroso até o fim, passando por preciosidades como "That's Lovin' You" (com Bill Lordan na bateria), "Who Do You Love?" e "Green Eyed Monster Girl" (também com Samuels na bateria), todas capazes de fazer pequenos sacolejos em seu corpo.

"Organize", escrita em parceria com Freddie Stone, mostra que dentro dos erros cometidos no final da carreira da Family Stone, ainda havia bom material elaborado, sendo que esta conta com Rusty Allen no baixo, e o único deslize fica por conta de "Le Lo Li", com Willie Wild Sparks na bateria e muito sem sal para a fantástica mistura de temperos que Sly era capaz de criar. 

Clássica contra-capa de High On You

Porém, é impossível não se emocionar com a balada "My World", uma das melhores composições da carreira de Sly, seguida pelo funk despretensioso de "So Good to Me", o qual poderia estar em qualquer um dos primeiros álbuns da Family Stone. O álbum encerra com a poderosa "Greed", fazendo de High on You um disco no mínimo sensacional e digno na Discografia de Sly Stone. O baterista nas demais faixas foi Jim Strassburg. O álbum também foi lançado em uma limitada versão quadrifônica.

O segundo single do álbum, "Le Lo Li" / "Who Do You Love", assim como o terceiro, "Crossword Puzzle" / "Greed", foram um grande fracasso. Mas o single "I Get High On You" / "That's Lovin' You" alcançou a terceira posição na parada Rhythm 'n' Blues americana, vendendo tanto que manteve a chama de Sly Stone acesa, dando oportunidade de um retorno do uso da Family Stone para o álbum seguinte. 

Acima: John Farey, Steve Schuster,Lady Bianca, Dwight Hogan, Sly Stone,
Virginia Ayers e Joe Baker.

Abaixo: Cynthia Robinson, John Colla, Vicki Blackwell e Anthony Warren.
Assim, com o desejo de provar que era capaz de fazer bons álbuns e seguir carreira, Sly Stone recebe apoio da gravadora Epic, e com o apoio de Cynthia Robinson e mais nove músicos (Joe Baker - guitarra e vocais; Dwight Hogan - baixo e vocais; John Colla - saxofone e vocais; Steve Schuster - saxofone, flauta; John Farey - teclados; Virginia Ayers - vocais; Anthony Warren bateria; Lady Bianca - vocais, clavinet; e Vicki Blackwell - violino), criando a Segunda Geração da Família de Pedra. 

A estreia da segunda geração da Família de Pedra

Alguns shows e rapidamente, esse time entra nos estúdios, registrando Heard Ya Missed Me, Well I'm Back, lançado em dezembro de 1976. A de se reclamar, assim como todos os álbuns da Segunda Geração, é a curta duração desse maravilhoso álbum. Alegre e muito bem gravado, amplia as linhas dançantes de High On You, apresentando novidades como a flauta em "Heard Ya Missed Me, Well I'm Back". 

Gosto muito do arranjo vocal desse álbum, principalmente das leves, mas harmoniosas, "Everything in You", "The Thing" e "Blessing In Disguise". Esses mesmos vocais, e o ritmo alucinante, são o ponto alto de "Sexy Situation", resgatando a época das canções positivas de Stand!. O baixão característico do grupo está presente em "What Was I Thinking In My Head" e "Let's Be Together". 

Sly Stone, a banda de um homem só

Bianca faz a voz principal na bela balada gospel "Nothing Less Than Happiness" e em "Mother is a Hippie", essa com um fantástico arranjo de metais e cordas. O álbum encerra com o vocoder ressurgindo das cinzas na ótima "Family Again", recheada de solos individuais, sendo um atestado de que a nova geração da Família de Pedra, além de ser maior, também era capaz de fazer grandes discos. 

O único single do LP, "Family Again" / "Nothing Less than Happiness", foi um fracasso comercial, o que impediu a Família de Pedra continuar suas atividades. Uma pena, já que o disco é sensacional.  Lynn Mabry e Dawn Silva saíram do grupo na sequência, formado o The Brides of Funkenstein em 1978. 

O levíssimo Back on the Right Track

Sly não desistia, e afastando-se das drogas, conseguiu um contrato com a Warner Bros. Um novo Sly Stone aparecia no cenário musical, assim como uma nova formação para a Família de Pedra. 

Coletânea de remixes
Enquanto isso,  a Epic lançou Ten Years Too Soon, uma coletânea de remixes do grupo em versão disco, trazendo versões para "Dance To The Music", "Sing A Simple Song", "I Get High On You", "Everyday People", "You Can Make It If You Try", "Stand!" e "This Is Love"

Pouco depois do lançamento dessa coletânea, chega às lojas Back on the Right Track, com a Família de Pedra agora tendo dezesseis membros, entre eles Sly, Cynthia e Pat Rizzo da Primeira Geração.

Estão lá ainda Freddie Stewart (flautas), Joe Baker (flautas), Lisa Banks (flautas), Rose Banks (flautas), Keni Burke (baixo), Alvin Taylor (bateria), Hamp Banks (guitarras), Joseph Baker (guitarras), Fred Smith (metais) Gary Herbig (metais), Steve Madaio (metais), Mark Davis (teclados) e Walter Downing (teclados).

Contra-capa de Back on the Right Track

O som é voltado para o lado leve das canções que a Segunda Geração elaborou em seu primeiro disco, sem arranjos fabulosos, mas privilegiando os vocais sensuais de Sly. Assim o é em "Remember Who You Are" e na gospel "Shine It On". Segure-se na cadeira durante o embalo de "Who's to say", energética em cada segundo, e o grudento refrão entoando o nome da canção após as vocalizações de Sly. 

O vocoder aparece timidamente em "It Takes All Kinds" e triunfante em "The Same Thing (Makes You Laugh, Makes You Cry)", fazendo o solo da canção, e o baixão inconfundível está presente nestas e, principalmente, em "If It's No Addin' Up ...". Aliás, o que é a linha de baixo da faixa-título? Indescritível! Como se não bastasse, Sly comanda a harmônica em "Sheer Energy", grandiosa canção com um grandioso arranjo vocal, encerrando um álbum ótimo, simples e direto, de uma Segunda Geração que é outra banda em comparação a Primeira Geração, e infelizmente, muito curto. 

Do álbum, saíram os singles "Remember Who You Are"/ "Sheer Energy", que ficou em trigésimo oitavo na parada rhythm 'n' blues da Billboard, e foi lançado em 1979, e "Who's to Say"/ "Same Thing", que não conquistou posição na Billboard, e saiu em 1980. 

Sly Stone, um novo homem em 1979

A Família de Pedra encerrou a segunda geração de forma deprimente, com Sly praticamente sendo expulso da Warner, e voltando as drogas. Graças ao amigo George Clinton e o Funkadelic, Sly sobreviveu durante algum tempo, excursionando com o Funkadelic entre 1980 e 1981, quando participou do álbum The Electric Spanking of War Babies, vigésimo quinto dos americanos. Esse álbum motivou a gravação de um novo álbum da Sly & The Family Stone, e George Clinton era o principal responsável pelo resgate do músico. Porém, Clinton brigou com os diretores da Warner, e acabou abandonando o projeto no meio do caminho.

O fim trágico acabou ocorrendo com Ain't But the One Way, um álbum gravado totalmente de forma inconsequente, e que foi concluído pelo produtor Stewart Levine após Stone partir para um refúgio de recuperação das drogas. O resultado foi um disco eletrônico e sem muita empolgação. A guitarra de Sly está sofrega, e as vocalizações soam maçantes até para o mais fanático admirador do grupo.

Melancólica despedia da Família de Pedra

As canções acabam soando praticamente iguais, em um ritmo leve e de poucos destaques, e aqui entram "One Way", "L. O. V. I. N. U.", "High, Y'All" e "Ha Ha, Hee Hee". Nem a cover para "You Really Got Me" consegue agradar. A vinheta "Sylvester" poderia ser uma bela canção, mas foi relegada a apenas quarenta e quatro segundos de duração. Os momentos de exceção positiva são "Hobo Ken", graças a levada do hammond, o reaparecimento da harmônica e o wah-wah vocalizante, e "We Can Do It", na qual os metais dão show.

O ritmo dançante de "Who in the Funk Do You Think You Are" é interessante, mas a guitarra e a bateria eletrônica não combinaram. Despedida triste de uma grande banda. Ain't But the One Way e Back on the Right Track foram posteriormente lançados juntos na coletânea Who in the Funk Do You Think You Are: The Warner Bros. Records, de 2001.

Sly chegou a participar do programa Late Night With David Letterman, ainda em 1982, mas depois, mergulhado nas drogas, sumiu do mapa, fazendo um longo tratamento durante o ano de 1984, graças a ajuda do amigo Bobby Womack. Do álbum foram lançados os singles "L.O.V.I.N.U." (em 12") e "Ha Ha, Hee Hee / High Y'all ‎ (7").

Na década de 80, Sly colaborou em alguns singles, que foram "Chasing The Rock", de Gene Page (1983), "Crazay", de Jesse Johnson (1986) e "Eek-Ah-Bo-Static Automatic" / "Love And Affection", ao lado de Martha Davis (1986). Em 1987, Sly foi preso por porte de cocaína e por tráfico da mesma, voltando a ativa somente em 1992, quando apareceu na coletânea Red Hot + Dance contribuindo com  "Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin) (Todds CD Mix)". Esse álbum foi lançado para arrecadar fundos na ajuda do tratamento da AIDS.


Sly Stone, em 2006

Depois, foi uma longa ausência. Mesmo em 1993, quando o grupo foi homenageado na Rock 'n' Roll Hall of Fame, Sly não esteve presente, até que em 2006, Sly Stone foi homenageado com um Grammy por serviços prestados a música. Foi a primeira e última reunião da Família de Pedra, que interpretou diversas canções naquela noite. 


Último álbum de Sly Stone até o momento

Em 2011, Sly lançou seu segundo álbum solo, I'm Back! Family & Friends pelo pequeno selo Cleopatra. Com a participação de diversos convidados especiais "I'm Back! Family & Friends se torna um álbum frustrante em vários quesitos, mas entre os principais, a recriação nada inspirada para clássicos da primeira geração da Família de Pedra e, pior ainda, remixes totalmente desnecessários para esses mesmos clássicos, como atestam as terríveis versões para "Family Affair (dubstep remixe)", "Thank You (Fallentime Be Mice Elf Agin) (Electro Club Mix)", "Dance to the Music (Club Mix)" e "Dance to the Music (Extended Mix)", sendo as três primeiras, bônus na versão em CD. 

Porém, temos alguns momentos saciáveis nas inéditas "Plain Jane", "Get Away" e "His Eyes is on the Sparrow". Johnny Winter da as caras na simples "Thank You (Fallentime Be Mice Elf Agin)", assim como temos uma sem sal "Hot Fun in the Summertime", com Bootsy Collins e Ann Wilson, sem dizer muito a que veio, em "Everyday People". Carmine Appice em "Stand!", Ray Manzarek em "Dance to the Music", e Jeff Beck em "I Want to Take Your Higher", são as poucas participações que tornam as versões atuais no mesmo nível da versão original. Pouco para alguém como Sly Stone, e facilmente esquecível.

Sly Stone, um gênio americano

Sly continua apresentado-se regularmente em bares e pequenos locais nos Estados Unidos, vivendo em uma van e sem local fixo. Um triste fim de carreira para um dos maiores nomes da música.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sly & The Family Stone - Parte II


Sly Stone, Cynthia Robinson, Freddie Stone, Rose Stone, Jerry Martini e Larry Graham
Encerramos a primeira parte da série sobre a carreira da Sly & The Family Stone com o grupo lançando seu terceiro álbum, Life!, que havia construído a base para o futuro promissor que aguardava os californianos. O álbum, lançado em 1968, não vendeu o esperado, mas mostrou que a mistura de rock, swing e psicodelia, podia dar certo.

O compacto de "Everyday People"
Ainda em 68, o grupo lançou o compacto "Everyday People" / "Sing a People Song", o qual tornou-se o primeiro compacto do grupo a alcançar a primeira posição na Billboard, com a canção principal sendo a primeira do grupo a conter algo que se tornaria uma marca da Família de Pedra, que são as letras de protesto e com conteúdo social.

O sucesso de "Everyday People" serviu para alavancar as vendas do quarto álbum do grupo, lançado em 03 de maio de 1969. Stand" é considerado por nove em cada dez fãs como o melhor álbum do grupo, opinião que não é totalmente exagerada, já que Stand! é perfeito do início ao fim.
É aqui que o grupo decola de vez. Influenciados por James Brown, a Família de Pedra vendeu mais de três milhões de cópias, tornando-se uma das mais reconhecidas no mundo do funk. Stand! possui uma pancada atrás da outra, sendo as canções bem maiores do que os três álbuns anteriores, e o som final muito mais trabalhado e inovador.

Stand!, um discaço do início ao fim
Há espaço para canções mais amenas, como "Everyday People", "Stand!", que possui um grande encerramento, e a simples "Somebody's Watching You", além do embalo de "You Can Make It If You Try".

Porém, é Sly quem está endiabrado, ora sugando a harmônica como se fosse uma vagina ("I Wanna Take Your Higher"), ora criando riffs intrincados na guitarra ("Sing a Simple Song"), ora utilizando o vocoder (espécie de sintetizador da voz humana, transformando-a em qualquer instrumento) como uma extensão de seu corpo, em faixas como a manifesto "Don't Call Me Nigger, Whitey" e a longa "Sex Machine", na qual, seja com o vocoder, seja pisoteando sem piedade o wah-wah, o gênio negro cria uma obra prima do funk americano, com seus quatorze minutos instrumentais de aprendizado musical para qualquer ser vivo que goste de música, seja o estilo que for. Ela também tem um alucinante solo de bateria, único a aparecer nos LPs da Sly & The Family Stone. 

O grupo no auge de sua carreira, em 1969

Sem sombra de dúvidas, um dos melhores discos em todos os tempos e em todos os estilos. O compacto de "Stand!", com "I Want to Take You Higher" no lado B, ficou entre as trinta mais na Billboard. Mais de quinhentas mil cópias foram vendidas em menos de um ano, e em 1986, ele atingiu a marca de um milhão de cópias somente nos Estados Unidos. 

Em 2007, o álbum foi relançado com mais cinco bônus: "Stand" (mono single version), "I Want to Take You Higher" (mono single version), "YoU Can Make It If You Try" (mono single version), "Soul Clappin' II" (previously unreleased) e "My Brain (Zig-Zag)" (previously unreleased material). 

Claro que o magnânimo sucesso de Stand! chamou a atenção de empresários e produtores, dentre eles os organizadores do Woodstock Music and Art Festival, que chamaram a banda para ser uma das atrações principais do evento, sendo a antepenúltima banda para fechar a noite de sábado, no dia 17 de agosto de 1969. Até hoje, esse é considerado um dos maiores shows do Festival, e consequentemente da carreira da Família de Pedra.

Na sequência, o single "Hot Fun in the Summertime" / "Fun" chegou às lojas, alcançando a segunda posição na Billboard em outubro de 1969. 

Os irmãos Stone em ação

1970 já foi um ano mais conturbado para o grupo. Os irmãos Stone começaram a discutir fortemente com o baixista Larry Graham, que não aceitava o novo direcionamento musical nem as imposições de Sly Stone. Para piorar, os Panteras Negras obrigaram Sly a demitir o baterista Gregg Errico e o saxofonista Jerry Martini (lembrando que Freddie Stone estava nas guitarras, Sly Stone nas guitarras, teclados e vocais, Cynthia Robinson no trompete e Rose Stone nos teclados e vocais), exigindo  a presença apenas de negros no grupo. O empresário David Kapralik também foi demitido pela mesma razão.

O grupo mudou-se para Los Angeles, mudança essa que só piorou o relacionamento dos membros, principalmente por conta do uso de drogas, principalmente cocaína. É nesse período que o famoso case de violino de Sly andava repleto de cocaína por todas as partes dos Estados Unidos. 

A baixa criatividade e os problemas internos refletiram-se na parte musical, com apenas um single sendo lançado, no caso "Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)" / "Everybody is a Star", lançado em dezembro de 1969, e que ficou entre os 100 mais da Billboard. 

As drogas tornaram-se o alimento de Sly. Sujo, preguiçoso e totalmente inconsequente, ele viu os produtores cancelaram mais de um terço dos shows programados para aquele ano, jogando tudo o que havia conquistado com Stand! fora.

Destaque para o trio vocal Little Sister

Apresentações erráticas no Strawberry Fields Festival (Toronto, Canadá) em agosto de 1970, e nos programas de televisão The Mike Douglas Show e The Dick Cavett show foram os momentos de maior destaque do grupo naquele ano, mas não o suficiente para manter as vendas.  A coletânea Greatest Hits foi lançada para manter a chama acesa, e foi uma boa saída da Epic, já que o álbum alcançou a segunda posição na Billboard, a melhor de um álbum do grupo até então. A Whole New Thing também foi relançado, e isso é o que tivemos de música para o Sly & The Family Stone naquele ano.

Sly envolveu-se com gangsters e traficantes, e começou a criar uma certa paranoia, principalmente achando que alguns colegas de banda (Larry principalmente) estavam armando um plano para matá-lo. A crise existencial de Sly foi tamanha que, em um contrato com a Atlantic Records, ele fundou seu próprio selo, o Stone Flower Productions, que lançou apenas quatro singles: um para o artista Joe Hicks, um para um grupo chamado 6IX e dois singles Top 10 para o trio Little Sister, no caso "You're the One" e "Somebody's Watching You", com o selo sendo fechado em 1971.

Nesse mesmo ano, Errico foi demitido, sendo substituído por diversos bateristas de estúdio, até Gerry Gibson firmar-se como novo baterista. A nova formação é responsável pelo lançamento do quinto disco da banda, There's a Riot Goin' On, que chegou às lojas em 20 de novembro de 1971.


There's a Riot Goin' On, um disco leve e cadenciado

Com canções mais leves e cadenciadas, o álbum difere bastante da explosão sonora de Stand", enaltecendo principalmente a falta de esperança e o medo que os americanos viviam no início da década de 70, como ouvimos nas bluesísticas "Just Like a Baby" e "Time", essa um bluesão de tirar o fôlego do vivente. Os vocais são divididos democraticamente entre Rose e Sly em poucas faixas, no caso, "(You Caught Me) Smilin'", "Luv n' Haight", e "Family Affair", outro grande clássico do grupo. Os metais aparecem com destaque em "Brave & Strong" e na embalada "Runnin' Away", e o wah-wah cadencia ainda mais a leveza de There's a Riot Goin' On nas simples "Poet" e "Spaced Cowboy" (essa, uma verdadeira piada ao fã mais xiita).

Os pontos fortes ficam para as duas canções homenageando a África, que são as longas "Africa Talks to You The Asphalt Jungle" e "Thank You for Talkin' To Me Africa", repletas de ginga e sensualidade, mas um tanto quanto amorosas demais. Foi o mais vendido nos Estados Unidos logo após o seu lançamento, mas não tem o mesmo calibre que Stand!. Vale ressaltar que há uma importante participação especial de Ike Turner nas guitarras, assim como Bobby Womack (guitarras), Billy Preston (teclados) e o trio vocal Little Sister. E quem souber explicar o que são os três segundos de silêncio da faixa-título, sinta-se a vontade.


Versão alternativa (acima) e a incrível capa interna de There's a Riot Goin' On (abaixo)

Esse foi o primeiro e único disco do grupo a atingir a primeira posição na parada geral da Billboard, vendendo mais de quinhentas mil cópias em apenas um mês, apenas nos Estados Unidos. O LP foi levado pelo sucesso do single "Family Affair", que também atingiu a primeira colocação na Billboard. Os outros dois singles do LP são "Runnin' Away" (décimo sétimo no Reino Unido, décimo quinto nos Estados Unidos) e "(You Caught Me) Smilin'", quadragésimo segundo na Billboard.

O relançamento de 2007 contou com os seguintes bônus: "Runnin' Away" (mono single version), "My Gorilla is My Butler" (instrumental), "Do You Know What?" (instrumental) e "That's Pretty Clean" (instrumental).

Três compactos saíram do álbum: "Family Affair" / "Luv 'N' Haight", primeiro colocado na Billboard, décimo quinto no Reino Unido; "Runnin' Away" / "Brave & Strong", vigésimo terceiro na Billboard, décimo sétimo no Reino Unido, e "(You Caught Me) Smilin'" / "Luv 'N' Haight", quadragésimo segundo na Billboard, sem posição no Reino Unido.

Outro fator de importância relacionado a There's a Riot Goin' On é a sua emblemática capa. Trazendo uma imitação para a bandeira norte-americana, ela apresenta as mesmas listras vermelhas e brancas da bandeira original, mas com o preto substituindo o azul e sóis ao invés de estrelas. Segundo Sly: "Eu queria uma bandeira que representasse as pessoas de todas as cores. O preto significa a ausência de cor, e o branco é a combinação de todas as cores. O vermelho representa a única coisa que todas as pessoas tem em comum, que é o sangue, e o Sol no lugar da estrela implica uma busca. Como buscamos por uma estrela, considerei o Sol por que ele sempre está lá, olhando para você, não precisa procurá-lo. Betsy Ross até que fez um bom trabalho, mas eu acho que ele podia ter ficado melhor".

O álbum chegou a ser relançado com uma outra capa, trazendo Sly em uma apresentação, mas a capa original ficou nos anais da história do rock como talvez a mais famosa da carreira do grupo.

Apesar de a crítica ter malhado bastante o álbum quando de seu lançamento, aguardando algo na linha de Stand!, hoje o mesmo é aclamado como dos melhores da Família de Pedra, lado-a-lado com Stand!. A revista Rolling Stone, em 2003, elegeu o álbum um dos cem melhores de todos os tempos, colocando-o na posição noventa e nove. 

Depois do lançamento de There's a Riot Goin' On, novos problemas apareceram. Martini exigiu o pagamento de dividendos, pedindo demissão logo em seguida. Pat Rizzo foi contratado como novo saxofonista, mas Martini acabou voltando atrás e, ao lado de Rizzo, manteve-se nos metais do grupo.

A tensão aumentou mesmo foi entre Graham e Sly, com os dois confrontando-se por diversas vezes, sendo que Graham inclusive chegou a contratar um assassino profissional para matar Sly. Capangas contratados por Sly (Bubba Banks e Eddie Chin) foram atrás de Graham, que acabou fugindo de um hotel aonde estava hospedado com sua esposa. Sem clima para continuar trabalhando com Sly, o baixista fundou a Graham Central Station, banda de relativo sucesso, que seguia a linha da Sly and the Family Stone, enquanto Womack ficou temporariamente no seu lugar na Família de Pedra, lugar este ocupado posteriormente pelo novato Rusty Allen.

Foi com o clima totalmente incerto que o agora octeto entrou nos estúdios, tendo um novo baterista, Andy Newmark, e registrando seu sexto álbum com Sly afundado na cocaína. 


Fresh, o início do fim

Sem ser tão lento quanto seu antecessor, Fresh não conseguiu manter o êxito dos álbuns lançados pelo grupo até então, mas está longe de ser um disco decepcionante. O trabalho de overdubs feito por Sly Stone foi exaustivo, mas deu um belo resultado. Duas faixas contam com Graham no baixo, "If it Were Left Up To Me" e a balada "Que Sera, Sera (Whatever Will Be, Will Be)", cover para o clássico de Ray Evans. 

Resistir a levada de "Skin I'm In" e a sensacional "I don't Know (Satisfaction)", uma das melhores canções do grupo, é tarefa ingrata, e a performance vocal de Sly é belíssima em "Frisky", a sensual "Keep on Dancin'", na pérola "If You Want Me to Stay", mais um grandioso sucesso do grupo, e também em "In Time", uma inovadora performance musical do ritmo criado pela Família de Pedra.

"Thankful N' Thoughtful" e "Babies Makin' Babies" possuem um belo arranjo vocal e dos metais, e o único resbalão é a sonolenta "Let Me Have It All". O que se sobressai é um disco muito coeso e representante do estilo funk, influenciando desde Miles Davis, que ouviu "In Time" repetidamente por mais de trinta minutos, até Red Hot Chili Peppers, que fez um cover para "If You Want Me to Stay", no álbum Freaky Styley (1985).

Sly Stone

O relançamento de 2007 contou com os seguintes bônus: "Let Me Have It All" (alternate mix), "Frisky" (alternate mix), "Skin I'm In" (alternate mix), "Keep On Dancin'" (alternate mix) e "Babies Makin' Babies" (alternate version).

De Fresh saíram os singles "If You Want Me to Stay" / "Thankful N' Thoughtful", décimo segundo na Billboard, e "Frisky" / "If It Were Left Up to Me", apenas septuagésimo novo nas paradas americanas.

O grupo continuou na ativa, com poucos shows e com Sly atravessando uma das fases mais complicadas de sua vida. Na tentativa de manter a chama acesa, gravam desesperadamente diversas composições (algumas, sobras de material até então nunca lançado), e em julho de 1974, sai o último disco da primeira geração da Família de Pedra, Small Talk.

A despedida da Família de Pedra

Trazendo na capa uma bonita imagem de Sly com sua esposa Kathleen Silva e seu filho Sylvester Jr, temos uma despedida não tão satisfatória para os fãs. Atolado em drogas, Sly não consegue construir canções contagiantes, e o álbum passa lentamente pelo toca-discos. 

A formação da banda já está bastante modificada, com Rusty Allen e Andy Newmark permanecendo no baixo e na bateria respectivamente, assim como Pat Rizzo no saxofone, mas agora, temos a entrada de Sid Page no violino, o que mudou bastante o som funk do grupo, tornando-o mais próximo do pop de cantoras como Yvonne Elliman, como atestam as baladas "Mother Beautiful", "Wishful Thinkin", "This is Love" e "Can't Strain My Brain". 

Por outro lado, Small Talk apresenta pontos positivos, como o arranjo instrumental de "Holdin' On", a deliciosa balada "Say Your Will", o rock pegado de "Livin' While I'm Livin'" e a levada vocal de "Time for Livin'". O violino está presente em todo o disco, e soa interessante em alguns pontos, principalmente em "Better Thee Than Me", na qual duela ferozmente com os metais. 

Andy Newmark, Cynthia Robinson, Sly Stone, Freddie Stone, Rose Stone, Jerry Martini e Rusty Allen


Quem bebeu da fonte desse álbum foi o grupo Beastie Boys, o qual regravou "Time for Livin'" no formato punk rock no disco Check Your Head (1992) e sampleou o riff de "Loose Booty" na canção "Shadrach", do disco Paul's Boutique (1989), sendo "Loose Booty", com todo o seu trabalho de vocalizações e os metais, o ponto alto de um disco mediano, sem inspiração, muito romântico e longe do esperado para um lançamento de Sly Stone. 

Do álbum saíram os singles "Time for Livin'" /  "Small Talk" (trigésimo segundo na Billboard) e "Loose Booty" /  "Can't Strain My Brain" (octagésimo quarto). O relançamento de 2007 trouxe as bônus "Crossword Puzzle" (early version), "Time For Livin'" (alternate take), "Loose Booty" (alternate take) e "Positive" (previously unreleased instrumental).

Vale ressaltar que todos esses álbuns apresentados nas partes I e II foram relançados na caixa The Collection (2007), com os bônus citados durante o decorrer do texto.


caixa The Collection, com todos os álbuns da primeira geração,e muitos bônus 
Depois disso, o grupo se diluiu. Em janeiro de 1975, o grupo até tentou reviver sua fama, alugando o Radio City Music Hall para uma temporada de shows. A busca por ingressos foi tão insignificante que no final, os músicos tiveram que tirar dinheiro dos próprios bolsos para pagar as despesas. Em fevereiro daquele ano, o grupo acabava oficialmente.

Rose Stone partiu para uma carreira solo, adotando o nome de Rose Banks e vivendo um bom momemnto com seu estilo Motown-style. Freddie Stone ingressou no Graham Central Statio, aonde permaneceu por pouco tempo. O trio Little Sister também deixou de existir. Já Andy Newmark tornou-se um bem sucedido baterista de estúdio, gravando com Roxy Music, B. B. King, Steve Winwood entre outros.

Sly Stone também entrou em carreira solo, como veremos em breve, aqui no Baú do Mairon, voltando em 1976 com uma surpreendente versão da Família de Pedra.


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