domingo, 9 de maio de 2021

Cinco Múscas Para Conhecer: As Homenagens De Bono Para A Mãe



Amanhã, Paul "Bono" Hewson completa 61 anos. Vocalista do U2, o irlandês também é o responsável pela maioria das letras que os caras gravaram, as quais vão desde temas religiosos e cunhos sociais, até relacionamentos familiares. Bono escreveu muitas músicas em homenagem a sua mãe, Iris, a qual faleceu em 10 de setembro de 1974, quando ele tinha apenas 14 anos, vítima de um aneurisma cerebral que ocorreu durante o velório do avô de Bono, Alec Rankin.

A tragédia familiar ocorreu após a festa de cinquenta anos de casamento dos avós de Bono, e mudou totalmente sua vida, abandonando os estudos e dedicando-se apenas a duas grandes paixões: música e garotas. Foi o pontapé inicial para ele começar sua carreira como artista, infelizmente, de forma tão dura, e por isso, ele faz questão de vez por outra homenagear sua mãe em canções. Então, como uma homenagem ao aniversariante Bono, e também à todas mães nesse dia das mães, apresento aqui cinco canções que Bono fez para Iris.

"I Will Follow" - Boy [1980]

Primeira canção do primeiro álbum da banda, e primeiro vídeo clipe promocional dos meninos, "I Will Follow" é uma canção que narra sobre o amor incondicional das mães pelos filhos, que seguirá cuidando dos mesmos onde quer que eles estejam. Uma letra simples, mas que sobre uma base de um riff de apenas três notas, criado pelo próprio Bono em um momento, segundo ele, de raiva, a faixa é empolgante e energética. O refrão grudento é perfeito para levantar plateias, e certamente, é um dos grandes clássicos da banda, tanto que é a única a aparecer em todas as turnês do U2. Foi o segundo single de Boy, tendo no lado B "Boy-Girl" (nas versões britânicas, australiana e neo-zelandesas, imagem do texto), "Out of Control" (versões americana e canadense) e "Gloria" (versão holandesa)

"Tomorrow" - October [1981]

Essa triste canção lançada no segundo disco da banda, October, apresenta a dor de Bono quando do funeral de sua mãe. A letra reflete sobre o fato de não termos mais nosso ente querido no dia seguinte, e ainda, para um adolescente como Bono, a saudade até de momentos onde a repreensão da mãe surgia. A música surge com o triste som das Uilleann Pipes (gaitas de foile irlandesas) de Vincent Kilduff, deixando apenas acordes de sintetizadores para Bono soltar sua comovente voz. A cada "Won't you come back tomorrow" (Você não voltará amanhã) cantado por Bono, sentimos uma pontada de dor no coração. Quando ele canta "I want you, I really want you", é impossível não segurar as lágrimas, enquanto a gaita de foile perambula pela voz de Bono, até a entrada magnífica da banda. Um grande momento de inspiração e despedida de Bono, e uma das grandes músicas do U2 nesse período inicial.

“Lemon” - Zooropa [1993]

Particularmente uma das melhores canções do U2, "Lemon" foi inspirada em um vídeo em Super-8 que Bono viu de sua mãe. Para ele, era muito estranho encontrar um vídeo de sua mãe em uma idade mais nova do que ele, e como a tecnologia dos vídeos podem preservar as memórias das pessoas. No vídeo, Iris está como dama de honra, em vestido verde-limão, que acabou batizando a canção. "Lemon" flerta com a disco music, e Bono usa e abusa de falsetes para cantá-la. O ritmo sensual da canção em nada sugere as doloridas lembranças que "irão fazer chorar", mas sim te colocar para dançar pela casa sem nenhuma vergonha. Baita música, uma das melhores da banda em minha opinião, presente em Zooropa e lançada como single em diversos formatos.

Bono e Íris

“Mofo” - Pop [1997]

Uma canção que nasceu sobre uma linha de blues, "Mofo" é o emprego do melhor do techno junto ao rock dos irlandeses, e traz claramente as dores que Bono sentiu pela perda da mãe quando jovem. Frases como "Conforte-me mãe", "Eu ainda sou seu filho", "Você partiu e me fez alguém" deixam explícito o quanto o vocalista tem dificuldades em entender e aceitar a morte de Iris. A letra é muito franca, mostrando um homem adulto que sente a falta do zelo materno. O ritmo dançante, os vocais sussurrados, as viajantes linhas de sintetizadores de The Edge e uma produção mais que perfeita de Flood fazem destas umas melhores canções de Pop, tanto que ela se tornou responsável por abrir os shows daquela turnê. "Mofo" também saiu em single, recebendo diversos remixes e se tornando figurinha carimbada em muitas festas de música eletrônica pelo mundo, apesar da dolorida letra. 


“Iris (Hold Me Close)” - Songs of Innocence [2014]

Esta bela canção narra novamente sobre a dor que Bono sente pela ausência da mãe, e como essa perda acabou moldando sua trajetória como home. Iris é a "estrela que se foi há muito tempo" e que ele "irá encontrar novamente". É uma linda dedicação de amor e saudades de sua mãe, levada por um clima que lembra muito canções da fase The Joshua Tree ou Unforgettable Fire, através do baixo marcante de Adam Clayton e das linhas exuberantes da guitarra de The Edge. Saiu apenas em Songs of Innocence, sendo que foi apresentada durante a turnê de promoção do mesmo, inclusive com a mãe de Bono aparecendo nos telões em um vídeo caseiro. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Glenn Hughes - The Official Bootleg Box Set Volume Two: 1993-2013 [2019]



Dando sequência aos lançamentos de box recentes de Glenn Hughes, que resgatam apresentações do músico em carreira solo, hoje apresento o segundo volume, com shows entre 1993 e 2013. Diferente do primeiro volume, este conta com seis CDs. É uma mídia a menos, e não é só musicalmente que perdemos, mas também do ponto de vista visual, já que o primeiro volume traz um livreto com informações do que está no CD, e aqui, apenas um encarte-pôster com propagandas para os relançamentos de oito álbuns de Hughes em carreira solo, no formato duplo, e informações básicas das canções de cada um dos CDs, sem se aprofundar no que está em cada mídia. 

Apesar disso, o Box é tão bom quanto seu antecessor, e também começa com um disco não inédito, no caso a compilação Incense And Peaches: From The Archives Volume 1, que foi lançada originalmente em 2000, e que resgata obras nunca lançadas da carreira de Hughes, registradas entre 1995 e 1998. O álbum foi o primeiro a ser lançado pelo selo próprio de Hughes, o Pink Cloud Records, em uma tiragem muito limitada, e agora, chega em uma tiragem maior para os fãs de The Voice of Rock. Na mídia, temos canções ao lado de Ritchie Kotzen ("Against The Grain", "Down The Wire" e "Stoned", que apareceu em uma versão diferente no álbum Wave Of Emotion, de 1996), Roy Z ("Let's Get Together"), JJ Marsh ("Inside & Above") e canções que ficaram de fora de Feel (1995), bem como a versão demo de "Push", que foi lançada em 1995. São onze canções (e uma breve vinheta, que é uma gravação caseira na qual honestamente não consegui entender o sentido, chamada "Hey Ken, Are You Home?"), em uma obra bem diferente, onde o casamento das técnicas vocais de Hughes com a ginga da guitarra de Kotzen soa muito bem. O álbum não apresenta nada de hard rock ou de Hughes ao Sabbath (como poderia imaginar um fã ao ver a imagem de Hughes e Tony Iommi na capa), sendo mais voltado ao pop e ao lado mais dançante da carreira de Hughes, que honestamente, não é muito atrativo no geral (há coisas assustadoras, como "Jolayne", "What Is Your Role?" e You Are My Dream! que são inexplicáveis para um disco de Hughes. O Volume 1 indica que haverão outros tipos de lançamento similar, mas até o momento, e passados 21 anos do lançamento original, até agora nada. Para piorar, não há nenhuma informação de músicos acompanhantes, mas pesquisando encontrei a participação de Gary Ferguson  bateria), George Nastos (guitarra) e Hans Zermüehlen (teclados) em "Jackie Got The Call Today", e só. Achei um pouco de descaso com o fã.

No segundo CD, somos levados para Börlange, Suécia, no dia 17 de junho de 1993, com a apresentação no Blitz Nightclub daquela cidade. Neste show, Hughes está acompanhado de Eric Anders Bojstedt (guitarra), Thomas Larsson (guitarra), Ian Haugland (bateria), Mic Michaeli (teclados) e John Léven (baixo). É o time que ficou conhecido como Hughes-Europe, por ter nomes ligados ao grupo Sueco (os três últimos), e que excursionou pela Escandinávia entre 93 e 94. No repertório, uma mescla de canções do Deep Purple ("Burn", "Gettin' Tighter", a surpresa "Smoke On The Water", "This Time Around" e "You Keep On Moving"), Trapeze ("You Are The Music"), do projeto Hughes/Thrall ("Coast To Coast", "I Got Your Number" e "Muscle And Blood"), todas em versões muito próximas aos originais do ponto de vista instrumental, mas sempre com uma novidade e surpresa na parte de interpretação por Hughes. Temos também canções do então recém lançado álbum solo de Hughes, Blues  (L.A. Blues Authority Volume II), de 1992, as quais são "A Right To Live", "So Much Love To Give" e "The Boy Can Sing The Blues".  Além disso, temos também uma linda revisão para "The House Of The Rising Sun", aquela que ficou famosa com o Animals, aqui em uma linha que lembra bastante os traços de guitarra de Jimi Hendrix, e uma breve interpretação de "Georgia On My Mind", de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell, e que ficou famosa na voz de Ray Charles, e que claro, Hughes esbanja suas influências de soul music e falsettos agudíssimos, acompanhado pelo piano de Michaeli. Sensacional. A qualidade de gravação é típica de um bootleg, bastante abafada, com o baixo e teclados quase inaudíveis, mas vale a pena por conta da  rara oportunidade de ouvirmos as canções de Blues ao vivo, por que basicamente após essa tour elas foram eliminadas dos track lists de apresentações de Hughes, e como Hughes está mandando ver, com a voz afiadíssima. 

O terceiro CD nos mantém na Escandinávia, com o Show de Göteborg, Suécia, no Zoo Club, em 10 de setembro de 1993. O time que acompanha Hughes é praticamente o mesmo do CD 2, com exceção da bateria, agora com Hempo Hildén empunhando as baquetas. No track list, apresentações de canções que fariam parte de From Now On, o qual foi lançado em 1994, as quais são "Liar" e  “Lay My Body Down”, que pega uma plateia bastante receptiva para as novas canções. "House of the Rising Sun" está novmente no track list, mais próximo a versão do Animals, e claro, Deep Purple ("Gettin' Tighter", "This Time Around" e "You Keep On Moving") e Hughes/Thrall ("Coast To Coast"e "I Got Your Number"), além da revisão de "Georgia On My Mind" na mesma linha do show de Börlange. Novamente a qualidade de gravação é muito precária, com teclado e baixo inaudíveis, mas os vocais de Hughes estão perfeitos, assim como guitarra e bateria. Ficaram de fora do CD três canções que pertenceram ao track list apresentado ("Burn", "Muscle and Blood" e "Smoke on the Water"), e assim, para fechar o CD, temos como bônus cinco canções de uma apresentação no The Cathouse, em Glasgow, Escócia, no dia 08 de novembro de 1995, na turnê de Feel, com "Muscle and Blood", "This Time Around" (com a plateia cantando em uníssono, de forma emocionante) e "You Are The Music" das bandas que Hughes passou, e "Big Time" e "Talkin' to The Messiah", pertencentes ao álbum que estava sendo promovido na época. Não há informação dos músicos que acompanham Hughes aqui, mas através do site oficial de Hughes (http://www.glennhughes.com/), encontrei o time com Glenn Hughes nos vocais, George Nastos (guitarra), Dave Patton (guitarra), Ruben Voltiera (teclados), Paul Kirkham (baixo) e Glenn Deitsch (bateria), e a qualidade de gravação é ainda pior que o show de Estocolmo, muito abafada, valendo apenas pela raridade de se ouvir Hughes ao vivo com essa formação.  Estas cincos canções apareceram como bônus no bootleg A Dino in Gino, cujas canções "oficiais" são exatamente as que estão no quarto e quinto CDs desse box. 

Trata-se de uma apresentação que divulgou o álbum Addiction em Estocolmo, no dia 10 de novembro de 1996. A banda é formada por Hughes (baixo, vocais), Lars (Lasse) Pollack (teclados), Sampo Axelsson (baixo), J. J. Marsh (guitarras) e Morgan Ågren (bateria). Os dois CDs trazem o show completo, com uma boa qualidade de gravação, e que parece nos colocar próximo ao palco do Gino Club, novamente mesclando a carreira solo, agora com cinco discos na época, e clássicos das bandas em que passou. Assim, ouvimos quatro canções de Addiction, a saber a faixa-título, "Cover Me", os encantadores oito minutos de "I Don't Want To Live That Way Again" e a belíssima "Talk About It", bem como a paulada "Push!", de Feel. Dos clássicos, temos Hughes/Thrall (o espetáculo vocal de "Coast To Coast", e "First Step Of Love") , versões estendidas do Deep Purple ("Gettin' Tighter", com os improvisos utilizados na época da turnê de Come Taste the Band, os dez minutos de muitas vocalizações e falsetes de "You Keep On Moving", o solo de bateria em "You Fool No One" e "Burn", com um imperdoável erro de J. J. Marsh, kkkkkk) e as surpresas do Trapeze, "Way Back To The Bone", "Touch My Life" (que abrem o show) e o swing de "Your Love Is Alright", mostrando que o funky está no genoma de Hughes. Como bônus desse show, são adicionadas duas gravações caseiras, as quais são uma fenomenal interpretação para "Goodbye to Romance", de Ozzy Osbourne, acompanhado por violão, baixo e bateria, e um improviso sobre escalas de blues, com Hughes soltando sua voz rasgada na canção batizada simplesmente de "12-Bar-Blues", ambos gravados em 1992.

Por fim, o sexto e último CD viaja para Roma, em 2013, no dia 30 de maio, com a apresentação no Crossroads Live Club, e um repertório focado basicamente nos clássicos do Deep Purple, com nada mais nada menos que sete das onze canções sendo dos britânicos ("Burn", "Gettin' Tigher", "Might Just Take Your Life",  "Mistreated", "Sail Away", "Sotrmbringer" e "You Keep On Moving"). Temos ainda dois espetáculos de versões do Trapeze ("Black Cloud" e "Sinful"), surpreendentes, "Soul Mover" da carreira solo e uma swingante revisão para "Superstition", de Stevie Wonder. Infelizmente o CD não informa quem acompanhou Hughes nesse show, nem o site oficial de The Voice of Rock, mas pelo que consegui encontrar de informações, ele esteve acompanhado da Matt Filippini Band. Não tenho como afirmar. A qualidade de grvação novamente cai bastante, mas nada impossível e ouvir. Fica só a sensação que se tivéssemos um Jimmy Page por trás desses lançamentos, ou mesmo um Steve Wilson, certamente o processo de restauração desses shows ia ser bem melhor.


Mas fica o registro para a posteridade de mais meia dúzia de CDs, que eterniza para sempre registros de um dos principais artistas da história da música. O Box musicalmente perde em relação ao primeiro volume, mas mesmo assim, é um achado por contar com as raras canções ao vivo de Blues, bem como as preciosidades apresentadas ao longo dos seis CDs. E claro, ouvir Hughes cantando, tocando, e sempre acompanhado por ótimas bandas, é sempre muito bem vindo a qualquer hora. Mês que vem apresento a terceira (e última por enquanto) caixa da série!

Track list

CD 1 Incense And Peaches: From The Archives Volume 1

1. Down The Wire

2. Against The Grain

3. Jackie Got The Call Today

4. Jolayne

5. Let's Get Together

6. Stoned

7. What Is Your Role?

8. You Are My Dream!

9. Doublelife

10. Push! (La Demo)

11. Inside & Above

12. Hey Ken, Are You Home?

CD 2 Blitz Nightclub In Börlange, Sweden (17/06/1993)

1. Burn

2. Muscle And Blood

3. A Right To Live

4. So Much Love To Give

5. You Are The Music

6. The House Of The Rising Sun

7. Coast To Coast

8. This Time Around

9. Gettin' Tighter

10. You Keep On Moving

11. Smoke On The Water

12. Georgia On My Mind

13. The Boy Can Sing The Blues

14. I Got Your Number

CD 3 Zoo Club, Göteborg, Sweden (10/09/1993)

1. The Liar

2. The House Of Rising Sun

3. Lay My Body Down

4. Coast To Coast

5. This Time Around

6. Gettin' Tighter

7. You Keep On Moving

8. I Got Your Number

9. Georgia On My Mind

10. Big Time

11. You Are The Music

12. Muscle And Blood

13. This Time Around

14. Talkin' To The Messiah

CD 4 Gino, Stockholm, Sweden (10/11/1996 - part 1)

1. Way Back To The Bone

2. Touch My Life

3. Cover Me

4. Push!

5. Talk About It

6. First Step Of Love

7. Coast To Coast

8. Your Love Is Alright

9. Gettin' Tighter

10. I Don't Want To Live That Way Again

CD 5 Gino, Stockholm, Sweden /10/11/1996 - part 2)

1. You Keep On Moving

2. Addiction

3. You Fool No One

4. Burn

5 Goodbye To Romance (1992)

6. 12-Bar-Blues (1992)

CD 6 Live In Rome (30/05/2013)

1. Stormbringer

2. Might Just Take Your Life

3. Sail Away

4. Black Cloud

5. Mistreated

6. Superstition

7. Sinful

8. Gettin' Tighter

9. You Keep On Moving

10. Soul Mover

11. Burn

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Rush - Hemispheres (40th Anniversary) [2018]



Seguindo a série de lançamentos em comemoração aos 40 anos de seus discos, já apresentado aqui por exemplo com 2112, o Rush soltou em 2018 a edição comemorativa de Hemispheres. A versão aqui apresentada é a Deluxe Edition, com dois CDs, deixando a edição box Super Deluxe, com dois LPs, dois CDs, e mais um Bluray, apenas para o sonho de conquista de um colecionador (mas citarei o diferencial do box ao final).

Contextualizando Hemispheres, é o álbum divisor de águas na carreira do trio canadense Alex Lifeson (guitarras, violões, teclados), Geddy Lee (baixo, vocais, teclados) e Neil Peart (bateria, percussão). Sexto disco dos caras, Hemispheres encerra uma trilogia de álbuns com canções longas (os outros são 2112 e A Farewell To Kings), apresentando apenas quatro composições, e encerra também a história de Cygnus X1, que havia sido apresentada sua primeira parte em A Farewell To Kings

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee em 1978

O lado A é dedicado totalmente para "Cygnus X1: Book Two - Hemispheres", uma Maravilha Prog criada por Neil Peart para contar a história da luta entre a razão e a paixão baseada na mitologia grega. Uma peça fantástica, e que ficamos sabendo nessa edição, através do livreto que o acompanha, quão difícil foi para Peart conseguir criar a letra e fazer a conclusão dessa obra. Outra faixa dificílima de concluir foi "La Villa Strangiato", mais uma Maravilha Prog, totalmente instrumental, e que virou um clássico dos canadenses. 

O encarte nos revela que a canção foi registrada ao vivo em estúdio, porém em diversas tomadas, com indicações até de mais de quarenta gravações da canção, o que Lifeson acaba desmentindo, apesar de não lembrar quantas foi, e confirmando que sim, a faixa foi gravada ao vivo, e inclusive utilizando a mesma fita de gravações anteriores (o que faz parecer que ajam mais de uma guitarra durante os solos). Encerrando o álbum, a pérola "The Trees", mais uma letra emblemática de Neil Peart falando sobre a luta de classes, através de uma analogia com as árvores, e "Circumstances", canção que foi incluída no álbum apenas para cumprir com o tempo de duração exigido pela gravadora Mercury, e que foi a mais rápida de ser composta, utilizando de frases em francês que conquistaram o coração dos fãs canadenses.

A versão aqui resenhada

Como se vê, o álbum é impactante não só para a carreira do Rush, mas para o rock progressivo, ainda mais pelo ano de seu lançamento (1978), mas o que essa Deluxe Edition apresenta de diferente? Além do belo encarte com 24 páginas, trazendo a história do álbum através de um belo texto de Rob Bowman, que entrevistou o trio em diferentes épocas, e diversas fotos inéditas, a Deluxe Edition conta com um CD bônus trazendo a última apresentação da turnê de Hemispheres, no dia 4 de junho de 1979, durante o PinkPop Festival da Holanda. É a gravação feita através de uma transmissão de rádio, que infelizmente acabou perdendo parte da apresentação de "2112", mas para manter o set list original, a edição incluiu "2112" retirada de um show no Arizona de 20 de novembro de 1978, e assim, ficamos com uma "apresentação completa" de um show marcante. 

Afinal, o trio estava em plena forma, adicionando instrumentos e tocando com muita qualidade técnica. Os vocais de Lee estão afiadíssimos, como podemos ouvir em "A Passage to Bangkok" e "Something For Nothing". Lifeson dá uma aula de tocar guitarra com uma virtuose que parece simples, mas vai repetir. Ouvir seus solos em "Xanadu" e "The Trees" é para se perguntar como alguém consegue tocar tão precisamente algo complexo, e sem soar presunçoso. Peart estava destruindo sua bateria. Nessa turnê ele apresenta o solo de bateria em uma sequência que ficou marcada por muito tempo em sua carreira, e que muitos fãs do Rush sabem até cantarolar cada batida. 

A versão Super Deluxe

Os grandes momentos do segundo CD certamente vão para "La Villa Strangiato", com uma perfeição arrepiante e impossível de ser reproduzida por meros humanos em cima de um palco, e claro, a impecável versão de quase vinte minutos de "2112", que retirou muito pouco da versão original, sendo certamente uma das versões ao vivo mais completas que o trio gravou. Concluem o track lista da apresentação "Closer to the Heart", na famosa versão já com teclados, "The Sphere", encerramento de "Cygnus X1 Book Two", e a animada "In the Mood", faixa do primeiro disco da banda e presente em praticamente todas as apresentações.

Apesar desse show do Pinkpop ter rolado no mercado e na internet através de bootlegs, é muito legal ter uma versão definitiva e original do mesmo, e principalmente, com uma qualidade de gravação muito clara e gostosa de se ouvir. A Super Deluxe Edition contém as mesmas faixas apresentadas acima, porém no Bluray há as versões em vídeos promocionais de "Circumstances", "The Trees" e "La Villa Strangiato", além de "La Villa Strangiato" ao vivo no Pinkpop Festival, onde se pode conferir toda a parafernália de palco do Rush, mas principalmente, o talento descomunal que esse trio exalava pelos poros. 

Contra-capa do CD

Track list

CD 1 - Hemispheres

1. Cygnus X-1 Book II: Hemispheres

2. Circumstances

3. The Trees

4. La Villa Strangiato

CD 2 - Live At Pinkpop Festival: June 4, 1979

1. A Passage To Bangkok

2. Xanadu

3. The Trees

4. The Sphere (A Kind Of Dream)

5. Closer To The Heart

6. La Villa Strangiato

7. In The Mood

8. Drum Solo

9. Something For Nothing

10. "2112" (Live In Arizona: November 20, 1978)

terça-feira, 30 de março de 2021

Capas Legais: Jethro Tull - Thick as a Brick [1972]


O Capas Legais de hoje apresenta a incrível arte de Thick as a Brick, lançado pelo Jethro Tull em 1972, e que transforma-se em um jornal com notícias, obituário, material infantil e esportivo, classificados, entre outros componentes presentes em um jornal. A capa, inclusive, é em papel jornal. Confira!




sábado, 20 de março de 2021

Glenn Hughes - The Official Bootleg Box Set Volume One: 1994-2010 [2018]


Glenn Hughes se consolidou mundialmente como baixista e vocal de apoio do Deep Purple, além de ser fundamental no Trapeze, ter trabalhado com o Black Sabbath, ser o cara a duelar com Joe Bonamassa no Black Country Communion, e dado diversas canjas em diversos projetos ao longo de mais de 50 anos de carreira (Whitesnake, Phenomena, Fused, California Breed e por aí vai). Porém, nem só de bandas vive The Voice of Rock. Sua carreira solo também possui muito material de altíssima qualidade, seja com o primeiro e clássico Play Me Out (1977), ou a partir de sua limpeza das drogas e do álcool com o ótimo Blues (L. A. Blues Authority Volume II) (1992).

Com tanta coisa para contar, nada melhor do que uma série de Boxespara os fãs se deleitarem com o cara onde melhor, no palco. Esse é o caso de The Official Bootleg Box Set, que já conta com três volumes no mercado, lançados desde 2018. Hoje apresento o primeiro deles, Volume One: 1994-2010, caixa de 7 CDs abrangendo algumas apresentações de Hughes pelo mundo entre 1994 e 2010. A caixa acompanha os CDs em envelopes individuais (o que desagrada aqueles que preferem as tradicionais jewel case, ou slim case) e um pequeno livreto contado sobre cada uma das apresentações, as quais narro agora.


O CD 1 traz o conhecido Burning Japan Live, registrado no Club Citta de Kawasaki, Japão, entre os dias 24 e 25 de maio de 1994. Ou seja, não é bem um bootleg. Esses shows foram praticamente os que colocarem Hughes novamente nos trilhos, após uma séria luta contra a dependência das drogas. Promovendo o álbum From Now On (1994), Hughes está bem acompanhado por Ian Haugland (bateria), John Léven (baixo), Eric Bojfeldt (guitarra), Thomas Larsson (guitarras) e Mic Michaeli (teclados). O repertório abrange canções da carreira do Purple ("Burn", "This Time Around", "Owed To 'G'", "You Keep On Moving", "Lady Double Dealer" e "Stormbringer"), com material do projeto Hughes / Thrall, ao lado de Pat Thrall ("Coast To Coast", "I Got Your Number" e "Muscle And Blood"), e do citado From Now On ("FromNow On", "Into The Void", "Lay My Body Down" e "The Liar"), além da inédita "Still In Love With You". Não há nada do Trapeze ou do Sabbath aqui, mas para quem quer ouvir um pouco da carreira solo de Hughes no palco, é uma pedida e tanta, já que além das músicas serem ótimas, a qualidade de som é fantástica.


O CD 2 traz um repertório similar ao do CD 1. Afinal, foi registrado na mesma turnê, só que agora no Alexandra Rock Theater, em Copenhagen, Dinamarca, no dia 25 de outubro de 1994. A única diferença entre os CD é que o segundo vem com duas músicas a menos, "From Now On" e "Stormbringer". A formação é a mesma, e a qualidade da gravação é fantástica, impecável como o CD 1, creio que tirada da mesa de som.


O CD 3 traz a mistura de dois shows. Primeiro, uma apresentação de Hughes ao lado da Rata Blanca na Argentina, em 13 de dezembro de 2003, tocando em Gran Rex Theatre de Buenos Aires e mandando ver em quatro petardos do Deep Purple: "Stormbringer", "Mistreated", "Burn" e "You Keep On Moving". Hughes aqui está empunhando o baixo, e os caras da Rata Blanca seguem fielmente as versões originais e/ou ao vivo do Purple, passando cada nota de guitarra, teclado, baixo e bateria com uma competência monstra. Com uma banda tão sólida, Hughes passeia tranquilo para soltar a voz e encantar os ouvidos dos fãs. Qualidade de gravação regular, mas ainda sim, bem bom de se ouvir. A segunda parte do CD emprega 9 canções em um formato acústico, com Hughes ao violão e acompanhado do tecladista Lachlan Doley e do guitarrista J. J. Marsh, durante um show em Sydney, Austrália, em 17 de junho de 2006. O melhor fica quando um quarteto de cordas surge para acompanhar Hughes em interpretações emocionantes para "Nights In White Satin" e "A Winter Shade of Pale". Impressionante ouvir essas duas faixas. Os presentes nesse show devem ter ido a loucura.


A loucura também irão os fãs brasileiros com o quarto e quinto CDs. Afinal, é a apresentação na íntegra de Hughes realizada no Circo Voador em 28 de outubro de 2007. Promovendo o álbum Soul Mover, Hughes veio ao Brasil acompanhado de JJ Marsh (guitarras), Anders Olinder (teclados) e Matt Goom (bateria). O repertório foca bastante em Deep Purple, com 6 das 11 faixas sendo da banda ("Stormbringer", "Might Just Take Your Life", "Mistreated", "Gettin' Tighter", "You Keep On Moving" e "Burn"). Destaques nesses CDs para os 18 minutos de "Gettin' Tighter", com um belo solo de teclado e de bateria, os 13 minutos de e os 20 minutos de "Mistreated", onde Hughes dá um espetáculo vocal a parte. Os improvisos comem solto nessas e também em versões inspiradas para "Steppin' On" e "You Keep On Moving", fazendo o ouvinte voltar aos tempos de Made in Europe ou Live in London.


Falando em "Steppin' On", a canção do álbum Music for the Divine, está com "You Got Soul", também do mesmo álbum, "Land Of The Livin'", "Don't Let Me Bleed" e "Soul Mover" (todas de Soul Mover), fechando então o set list dessa brilhante apresentação no célebre local de shows carioca. A qualidade de gravação é baixa, como se extraída de um áudio da plateia, mas fica a emoção, principalmente para quem estava lá no dia (acredito eu, já que infelizmente não estive no Circo Voador, mas seria sensacional ter o álbum original dos shows do Opinião em Porto Alegre, mesmo com baixa qualidade) de relembrar esses momentos memoráveis de forma oficial.


Os dois últimos CDs são de um show na Bélgica, mais precisamente no Spirit Of 66, em Verviers, no dia 16 de outubro de 2010. A banda é formada por Hughes no baixo e vocais, Anders Olinder (teclados), Søren Andersen (guitarras) e Pontus Engbord (bateria). De cara, chama a atenção o fantástico solo de teclado em "Keepin' Time", faixa do inesquecível You Are The Music ... We're Just The Band, lançado pelo Trapeze em 1972. Além disso, o repertório é o mais diversificado, focando em apenas duas faixas do Purple, a até então rara "Sail Away" e a mega clássica "Burn", passando por "Medusa", "Keepin' Time" e "Touch My Life" (Trapeze), "Muscle And Blood" (Hughes/Thrall) e bastante material da carreira solo. Hughes faz um belo apanhado de sua discografia, com as faixas títulos "Addiction" (do disco de 1996) e "Soul Mover" (já citada acima), sendo que do último estão também "Orion" e "Don't Let Me Bleed" (não à toa considero esse o melhor disco solo dele), e mais" Can't Stop The Flood" (Building the Machine, 1999), "You Kill Me" (The Way It Is), "Steppin' On" (Music for the Divine, 2006) e "Crave" (First Underground Nuclear Kitchen, 2008).

Um belíssimo box com grande material para ser curtido em casa durante essa pandemia. Mês que vem apresento o segundo volume.

Track list

CD1 Burning Japan Live, Club Citta, Kawasaki, Japan May 24 & 25, 1994
1 Burn
2 The Liar
3 Muscle And Blood
4 Lay My Body Down
5 From Now On
6 Into The Void
7 Still In Love With You
8 Coast To Coast
9 This Time Around
10 Owed To 'G'
11 Gettin' Tighter
12 You Keep On Moving
13 Lady Double Dealer
14 I Got Your Number
15 Stormbringer

CD 2 Alexandra Rock Teater, Copenhagen, Denmark October 25 1994
1 Burn
2 The Liar
3 Muscle And Blood
4 Lay My Body Down
5 Into The Void
6 Still In Love With You / Your Love Is Like A Fire
7 Coast To Coast
8 This Time Around
9 Owed To 'G'
10 Gettin' Tighter
11 You Keep On Moving
12 Lady Double Dealer
13 I Got Your Number

CD 3 Argentina 2003 / Australia 2006
1. Stormbringer
2. Mistreated
3. You Keep On Moving
4. Burn
5. Coast To Coast
6. I Found A Woman
7. This Time Around
8. Nights In White Satin
9. Soul Mover
10. A Whiter Shade Of Pale
11. Mistreated
12. You Keep On Moving

CD 4 Circo Voador, Rio De Janeiro, Brazil 28-10-2007 (Pt.1)
1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Land Of The Livin'
4. Mistreated
5. You Got Soul
6. Don't Let Me Bleed

CD 5 Circo Voador, Rio De Janeiro, Brazil 28-10-2007 (Pt.2)
1. Gettin' Tighter
2. Steppin' On
3. You Keep On Moving
4. Soul Mover
5. Burn

CD 6 Spirit Of 66, Verviers, Belgium October 16, 2010 (Pt.1)
1. Muscle And Blood
2. Touch My Life
3. Orion
4. Sail Away
5. Medusa
6. You Kill Me
7. Can't Stop The Flood
8. Crave
9. Don't Let Me Bleed

CD 7 Spirit Of 66, Verviers, Belgium October 16, 2010 (Pt.2)
1. Keepin' Time
2. Steppin' On
3. Soul Mover
4. Addiction
5. Burn`

quarta-feira, 10 de março de 2021

Crossroads - A Vida e a Música de Eric Clapton [1995]



Michael Schumacher é um renomado piloto alemão de Fórmula 1, heptacampeão, e que infelizmente sofreu um gravíssimo acidente que acabou com sua carreira, sendo que ainda hoje sabemos pouco sobre o seu estado de saúde. Porém, é o nome também de um brilhante escritor norte americano, que em 1995, escreveu a Biografia Crossroads - A Vida e a Música de Eric Clapton, uma das melhores biografias que já li sobre o guitarrista inglês. Com 390 páginas (mais oito páginas exclusivas para fotos em preto e branco), Crossroads mergulha na vida de Clapton até o ano de 1995, sem deixar passar nenhum detalhe, mas ao mesmo tempo, sem ser maçante ou demasiadamente exagerado em termos de informações.

A edição que tenho não possui orelhas (é a edição de 1995 da Editora Record), o que já chama a atenção por fugir dos padrões normais dos lançamentos de livros. São 13 capítulos, mais prólogo e epílogo, saindo da família e infância conturbada de Clapton nos anos 40 até a morte do filho Conor em 1991, e de como Clapton teve que ressurgir das cinzas por diversas vezes ao longo de sua vida. Com o final do texto, fica a sensação de que você realmente é apresentado para toda a vida e a obra de de Clapton, já que Schumacher não deixa passar nada, e também, de como Clapton sempre foi um arroz de festa participando de shows e discos de diversos artistas.

Os Bluesbreakers - John Mayall, Hughie Flint, Eric Clapton e John McVie - numa opção de foto para a capa de seu clássico disco de 1965, The Bluesbreakkers with Eric Clapton.


Fazendo um apanhado geral do conteúdo de Crossroads, há vários pontos a se destacar sobre a vida e a música de Clapton. Quando pequeno, Clapton sofreu um trauma por saber que foi criado pelos avós, e que aquela que ele julgava ser sua irmã na verdade era sua mãe. Esse ponto da infância de Clapton é tratado de forma bastante delicada por Schumacher, mas sem perder-se em detalhes desnecessários ou fazer qualquer sensacionalismo barato. São os fatos por si só, apresentados ao leitor. O que tira a introversão de Clapton e o choque familiar é a música, mais precisamente o rock de Elvis Presley, o que o levou a comprar um violão quando tinha 13 anos, mas que não teve sucesso imediato para aprender o mesmo.

O contato com o blues, aos 17 anos, vem junto ao afastamento de Clapton da escola. Em 1962, a cena do blues estava ascendente em Londres, e Clapton passou a frequentar pubs para assistir e, por que não, aprender a tocar - ao mesmo tempo que se apresentava - por alguns trocados. Logo ele monta seu primeiro grupo, os Roosters, banda na qual Clapton aprendeu a tocar Howlin' Wolf, Robert Johnson, Freddie King e Muddy Waters, construindo assim uma reputação que o leva aos Yardbirds. Ali, ele passou a ser O cara da banda, empregando ao grupo solos de blues pouco comuns para jovens brancos ingleses, e claro, fazendo com que o nome de Eric começasse a se ampliar entre os frequentadores dos pubs londrinos. É aqui que o guitarrista realiza o sonho de tocar ao lado de um de seus ídolos, Sonny Boy Williamson, e quando ele se depara com deficiências próprias para tocar blues que só seriam saradas anos mais tarde. Além disso, o guitarrista abandona os Yardbirds logo após a gravação de Five Live, por conta do apelo comercial que o grupo rumava.

Com 20 anos, Clapton sai dos Birds para ingressar na trupê de John Mayall. Como um dos Bluesbreakers, é aqui que Clapton finalmente alcança o status de God pelos fãs. Ao lado de Mayall, Clapton teve um amigo com quem podia compartilhar igualmente sua paixão pelo blues, e também onde ele conhece os futuros colegas Jack Bruce (baixo, vocais) e Ginge Baker (bateria). A formação do Cream é narrada de forma até hilária, já que a rivalidade entre Baker e Bruce nunca foi negada por nenhum dos dois, só que a vontade de Baker tocar com Clapton era tão grande que ele aceitou o desejo do guitarrista de só formar a banda se tivesse Bruce como baixista. No Cream, a química e vitalidade do trio principalmente nos palcos era fantástica, mas pessoalmente, a guerra de egos e o excesso de shows era enorme, e infelizmente, o mundo viu o grupo em ação por apenas três anos, parindo álbuns seminais e atemporais, obras que são estudadas e referenciadas por músicos e jornalistas até hoje. Vale citar aqui a influência que Hendrix teve para Clapton nesse período, inclusive com o inglês adotando um visual mais hippie (com cabelo Black Power e tudo) por conta do Deus Negro da guitarra. Outro ponto importante é quando Schumacher cita o momento que Clapton decide abandonar o Cream: "Eu fiz uma experiência certa noite ... parei de tocar na metade de um número e os outros dois nem notaram ... então pensei, fodam-se!".

Clapton e sua guitarra, na fase psicodélica do Cream


Saindo do Cream, surge o convite para gravar "While My Guitar Gentle Weeps" com os Beatles, a amizade com George Harrison, e a formação de outra banda gigante, a Blind Faith. Ao lado de Steve Winwood, Rick Grech e o também ex-Cream Baker, temos aqui uma super banda, que fez um álbum sensacional mas que também sofreu muito na sua breve existência, principalmente pelo excesso de violência que ocorria nos shows da banda nos Estados Unidos, chegando ao ponto de em uma apresentação no Madison Square Garden, em Nova Iorque, os fãs serem implacavelmente espancados pela polícia, que ainda agrediu Baker, considerado um hippie desordeiro pela polícia, e não um membro da atração principal. A Blind Faith durou pouco mais de um ano, e Clapton novamente pulou da barca. Na entre-safra, temos outra parceria com um beatle, agora John Lennon, no álbum Live Peace in Toronto 1969 (1969), a participação de Clapton junto com o grupo Delaney and Bonnie and Friends (na gravação de On Tour with Eric Clapton, de 1970), o primeiro álbum solo de Clapton, Eric Clapton (1970), a conturbada participação do guitarrista em um projeto com Howlin' Wolf, culminando no essencial The London Howlin' Wolf Sessions (1971), e o nascimento da Derek and the Dominos.

O período no Dominos é um dos mais tristes na vida do guitarrista. Apaixonado pela esposa do melhor amigo, Pattie Harrison, vivendo um casamento frustrado, além de consumir drogas como quem respira, Clapton compôs uma das melhores letras de amor de todos os tempos, registradas no essencial Layla and Other Assorted Love Songs (1970), além de músicas marcantes como "Layla", que contaram com a mão e o talento essencial do guitarrista Duane Allman. Esse ponto do livro é interessante por que desmascara o mito de que George deixou a esposa para o amigo. Isso não ocorreu! Pattie também estava frustrada com seu relacionamento com George, que vivia cada vez mais voltado para a religião e o trabalho, praticamente abandonando o relacionamento entre eles. Clapton tentou de todas as formas conquistar Pattie, mas só foi conseguir se relacionar com ela depois que finalmente ela decidiu-se a separar-se de George. Porém, até chegar esse ponto, a vida de Clapton entrou em uma espiral declinante. Entre 1971 e 1974, Clapton teve que fazer uma reclusão forçada, gastando quase 1000 libras por semana em heroína, e levando sua esposa, Alice Orsmby-Gore, para o fundo do poço junto com ele. Musicalmente, há a participação em All Things Must Pass (disco solo de Harrison, 1970) e no Concerto for Bangladesh (1971), além de um novo amigo surgir na vida do guitarrista, o colega Pete Townshend (The Who), que veio várias vezes a ajudar Eric nos anos seguintes.

Eric e Pattie, num dos tão prezados carros esportes de Clapton


Com a ajuda de George, Clapton apresenta-se no Rainbow Theatre, gerando o álbum Rainbow Concert (1973), e assim, começa uma nova fase na carreira do guitarrista, após um longo e intenso tratamento neuroelétrico que fez ele abandonar o consumo de heroína e outras drogas. Montando uma super banda, grava um de seus discos mais bem sucedidos em carreira solo, 461 Ocean Boulevard (1974). Muito disso também está ao fato de que finalmente agora Clapton estava com o amor de sua vida, Pattie Boyd, que agora já estava separa de George. Nesse trecho do livro ficamos sabendo que o casal tinha pretensão de passar uns dias no Brasil, onde Clapton estava afim de gravar sons como samba, mas com a nova amante, ficou poucos dias, fugindo do país por conta de uma epidemia de meningite no Rio de Janeiro. Também nesse período, é relatado o acidente que quase tirou a vida de Clapton, quando o musico resolveu dar uma volta com sua Ferrari Boxer cinza-prata e acabou preso nas ferragens da mesma após atingir uma carreta. Salvo da morte por milagre, Clapton acabou temporariamente surdo de um dos ouvidos pelos cacos de vidro que penetraram nele, e só foram retirados duas semanas após o acidente. Em termos musicais, sem muito se preocupar em gravar, e curtindo o amor, lança o fraco There's One in Every Crowd (1975), e dos shows dessa tour sai o ótimo ao vivo E. C. Was Here (1975). Outro bom disco que surge após muito trabalho, e mais uma "super banda" na carreira de Clapton, é No Reason To Cry (1976), que uniu o inglês aos canadenses da The Band adicionados de Ron Wood (timaço). Porém, uma apresentação em Birmingham quase colocou fim a fama de Clapton. Totalmente embriagado, ele acabou ofendendo elogiando Enoch Powell, um político conhecido por não gostar de minorias imigrantes e relações raciais, justamente quando Birmingham passava por grande tensão racial. Ali, seguida de uma série de gafes alcóolicas,  foi o estopim para a relação Clapton + álcool começar a ter seu fim, seguida por Slowhand (1977), que eternizou mais dois clássicos na carreira de Clapton, "Cocaine" e "Wonderful Tonight".

Depois de excursionar com Muddy Waters, registra o que Schumacher chama de nadir (ponto mais baixo que uma estrela atinge no céu visível) das gravações de Clapton nos anos setenta, passar pela primeira vez pela Europa Oriental (com muitos problemas) e países da Ásia, o que culminou no álbum Just One Night (1979), humilhar Jack Bruce em uma festa de família, e uma série de brigas com Pattie Boyd - inclusive com um relacionamento extra conjugal com a modelo Jenny McLean, Clapton grava seu primeito registro nos anos 80, Another Ticket (1981), e definitivamente afundou-se no álcool. O britânico acaba internando-se na Hazelden Foundation, nos Estados Unidos, uma clínica de reabilitação para alcóolicos, um período extremamente importante para mostrar o que é a vida real para o guitarrista. A partir de então, passa a frequentar o AA, e a livrar-se gradualmente de sua dependência de álcool. Com novo ânimo, registra Money and Cigarettes (1983), que o trouxe novamente para o blues, no mesmo ano que uniu-se a Jeff Beck e Jimmy Page para participar do concerto ARMS, Movimento de Pesquisa da Esclerose Múltipla, em benefício do amigo e guitarrista Ronnie Lane (Faces), e que ficou eternizado por colocar em um mesmo palco os três grandes guitarristas da Inglaterra que o Yarbirds produziu.

Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck - todos ex-discípulos de guitarra dos Yardbirds - reuniram seus prodigiosos talentos numa série de concertos para levantar fundos para pesquisa sobre esclerose múltipla


Com um novo parceiro, Phil Collins, nasce Behind the Sun (1985) um álbum bastante diferente na discografia do britânico, em um rompimento radical com seu passado, principalmente pela entrega aos sintetizadores. O álbum surge pouco depois de Clapton gravar e excursionar com Roger Waters, durante a turnê do ótimo The Pros and Cons of Hitchhiking (1984), primeiro disco solo de Waters pós-Pink Floyd. A experiência de Clapton com Waters não foi das melhores, apesar de desafiadoras, segundo o próprio, principalmente por considerar o show pretensioso e desanimado. Uma série de aparições em shows e eventos também marca esse período, principalmente o Live Aid (1985), com o guitarrista arrasando e conquistando o mundo ao som de uima versão arrebatadora para "White Room". 85 também é o ano do nascimento de Ruth Clapton, filha do guitarrista com Yvonne Kelly, mais um dos vários casos extra conjugais que ele teve. Porém, quando a modelo italiana Lory Del Santo também ficou grávida de Clapton (1986), Pattie pediu as contas. Solteiro, papai e com a parceria ainda de Collins, Clapton registra August (1986), disco bastante criticado pela imprensa.

A partir de 1987, Clapton começa uma nova tradição, com os shows no Royal Abert Hall. (foram seis de primeira, até atingir 24 apresentações em sequência em 1991, registrada no álbum 24 Nights, lançado naquele ano). Mais uma série de participações diversas, em discos de Jack Bruce, Rolling Stones, George Harrison, trilhas sonoras, entre outros, o lançamento do incrível box Crossroads (1988) e da gravação de Journeyman (1989), Clapton fez a primeira apresentação de um artista internacional em Moçambique, vêm as duas tragédias que marcaram Clapton nos anos 90, as mortes de Stevie Ray Vaughan e do filho Conor. A morte de Vaughan, minutos após os dois se apresentarem no dia 26 de agosto de 1990 em Alpine Valley, EUA, transformou a turnê de promoção de Journeyman uma catarse emocional, obscurecendo um ano radiante para Clapton, quando recebeu o prêmio Living Legend nos Elvis Awards e foi considerado Top Rock Album Artis na Billboard Music Awards, além de uma exaustiva turnê que o levou ´para Austrália, Extremo Oriente e, pela primeira vez com shows, aqui no Brasil. Já o acidente que vitimou o pequeno Conor serviu para Clapton perceber como a vida pode acabar de repente, sem aviso, e decidir viver em bênção a cada dia que acordava, e utilizando o talento que tinha em toda plenitude.

Tendo consolidado sua reputação como um dos maiores guitarristas da época, Clapton era frequentemente chamado para se apresentar em shows como convidado especial. Nesta foto, ele conversa com B. B. King durante um dos shows de King no Café Au Go Go de Nova York.


O livro encerra-se então com a inversão dos papeis, agora Clapton trazendo Harrison aos palcos, com treze apresentações no Japão que rendera, Live in Japan (1992), o estrondoso sucesso de Unplugged (1992), recebendo seis Grammys, a inserção do Cream no Rock 'n' Roll Hall of Fame (1993), quando o trio voltou a se apresentar juntos depois de muito tempo, e, através do Epílogo, situa o leitor sobre a atual (na época) condição de Clapton, promovendo o excelente From the Cradle (1994) e voltando definitivamente para o blues, algo que os anos posteriores mostraram que não seria bem assim.

Complementa o texto Crédito das Fontes, Discografia Selecionada entre 1964 - 1994,  com compactos e LPs de Clapton lançados oficialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, bem como uma ampla seleção de compilações oficias, discos piratas e participações do guitarrista como convidado ou músico de estúdio, com as faixas que ele aparece, além da ficha técnica dos discos envolvidos. Mas acima de tudo, Essa belíssima obra, como tentei resumir acima, narra TUDO o que Clapton fez e deixou de fazer sem deixar nada de lado, mas também sem ser maçante ao ponto de aprofundar-se em detalhes por vezes desnecessários. É uma leitura obrigatória para quem quer conhecer a carreira de um dos maiores nomes da música em todos os tempos, um acervo fundamental para quem é fã de Clapton, e uma fonte riquíssima de conteúdo para quem quer pesquisar ou se aprofundar na, como diz o título, vida e música de Eric Clapton.


quinta-feira, 4 de março de 2021

Unboxing: Glenn Hughes - The Official Bootleg Box Set Volume Two: 1993-2013 [2019]


Apresento hoje o Unboxing do segundo volume da série The Official Bootleg Box Set, lançado por Glenn Hughes. Dessa vez, com shows que aconteceram entre 1993 e 2013, nas cidades de Börlange, Göteborg, Glasgow, Estocolmo e Roma, além de algumas raridades em estúdio. Confira!



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