sexta-feira, 30 de junho de 2023

Capas Legais: Grand Funk - Shinin' On [1974]

O Capas Legais de hoje traz a inovadora capa de Shinin’ On, oitavo disco da Grand Funk, a qual vem acompanhada de um óculos 3D inserido dentro da própria arte do LP, que apresenta várias images a serem visualizadas neste formato. O vídeo também resgata outras capas contendo óculos 3D inseridos. Confira, curta, compartilhe e não deixe de se inscrever em nosso canal.



quarta-feira, 7 de junho de 2023

Tralhas do Porão: Cilibrinas do Éden

E há um mês, perdíamos Rita Lee. A Rainha do Rock nacional partiu para o paraíso da música, unindo-se a tantos outros gigantes que também deixaram de criar obras por aqui, sendo mais recentemente Tina Turner e Gal Costa por exemplo, mas com um legado atemporal para gerações e gerações de admiradores de música no Brasil (e por que não no mundo) inteiro. 

A carreira de Rita e repleta de altos, muitos altos, baixos, e também muitos baixos. Ao sair dos Mutantes, em 1973, talvez ali tenha diso seu ponto de inflexão mínimo em toda sua carreira. Sem rumo, Rita uniu-se a Lucia (Lucinha) Turnbull, uma amiga que já havia participado de alguns vocais de apoio em duas canções de  Hoje é O Primeiro Dia do Resto das Suas Vidas, o segundo disco solo de Rit: “Vamos Tratar da Saúde” e “De Novo Aqui Meu Bom José”.

Lucia, nascida em 22 de abril de 1953 na cidade de São Paulo, foi muito cedo para Londres. No ano de 1969, estudou na escola International House. Lá, ela teve aulas com o professor canadense Ken Wilson, o qual possuia um trio junto com a esposa e com outro colega de escola, o sul-africano Mike Klein. Aos fins de semana, o trio fazia shows folk, e Lucia entrou com a banda, com apenas 16 anos. A banda se chamava The Solid British Hat Band, que acabou tendo diversas outras formações após o retorno ao Brasil. Um dos músicos que passou pela Solid British foi Ritchie.

Lucia (a direita) com a The Solid British Hat Band

O rato Either/Or, com participação
 (não-creditada) de Rita e Lucinha
No Brasil, e fã de Beatles, Lucia começou a andar com o pessoal dos Mutantes. Em 1972, voltou à Inglaterra junto de Rita e Liminha, encontrando novamente seu amigo Mike. Assim, participam do projeto Everyone Involved, registrando o raríssimo Either/Or, disco independente que era apenas para ser presenteado aos fãs, jamais comercializado. 

Voltando novamente ao Brasil e logo após a saída da Rita, uniram-se, criando então as Cilibrinas do Éden. O nome, um tanto quanto psicodélico, foi ideia de Rita, que imaginou uma mistura suave, delicada e acústica com vocais femininos, violões, viola caipira, flauta, sinos e, por que nao, cantos de pássaros. "Afinal, se Alice cooper faz tudo aquilo no palco, estraçalha bonecas e mata frangos, é por que sua música é falha. A originalidade hoje, está na simplicidade", disse Rita justificando sua nova faceta musical.

A dupla conseguiu um contrato com a Phillips, que já havia produzido os álbuns anteriores de nossa camaleoa, e foi colocada como uma das principais atrações da gravadora em um evento gigantesco, a Phono 73. Mais precisamente no dia 10 de Maio de 1973. Era a abertura do evento, que serviu para inaugurar oficialmente o Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Porém, o que era para ser uma nova virada na carreira de Rita, naufragou. A dupla foi colocada para abrir o antigo grupo de Rita, Os Mutantes, que na época contavam com o maior arsenal sonoro do Brasil, tanto que seu show era batizado de 2600 Watts de Rock. A dupla subiu (ou foi empurrada para o palco, dado o nervosismo de Lúcia) vestindo roupas já ultrapassadas para 1973. Rita usava uma cartola alta, enfeitada por uma pluma preta. Já Lúcia entrou com duas enormes asas de anjo e roupas coloridas. O repertório foi totalmente baseado em novas composições de Rita, fugindo do que já havia sido gravado com sua antiga banda. Resultado: fiasco total e o fim do projeto logo na sequência.

A dupla conseguiu um contrato com a Phillips, que já havia produzido os álbuns anteriores de nossa camaleoa, e foi colocada como uma das principais atrações da gravadora em um evento gigantesco, a Phono 73. Mais precisamente no dia 10 de Maio de 1973. Era a abertura do evento, que serviu para inaugurar oficialmente o Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Porém, o que era para ser uma nova virada na carreira de Rita, naufragou. A dupla foi colocada para abrir o antigo grupo de Rita, Os Mutantes, que na época contavam com o maior arsenal sonoro do Brasil, tanto que seu show era batizado de 2000 Watts de Rock. A dupla subiu (ou foi empurrada para o palco, dado o nervosismo de Lúcia) vestindo roupas já ultrapassadas para 1973. Rita usava uma cartola alta, enfeitada por uma pluma preta. Já Lúcia entrou com duas enormes asas de anjo e roupas coloridas. O repertório foi totalmente baseado em novas composições de Rita, fugindo do que já havia sido gravado com sua antiga banda. Resultado: fiasco total e o fim do projeto logo na sequência. Porém, a dupla seguiu adiante, primeiro com o Baseado Nelas (trazendo junto a irmá de Lucia, Lilly Turnbull), e unindo-se ao pessoal da Lisergia.

Essa era uma banda formada em 1971 pelo guitarrista Luis Sérgio Carlini, o baixista Lee Marcucci e o baterista Emilson Colantonio com o nome Coqueiro Verde. Em 72, mudam para Lisergia, influenciados pelo uso de muitos alucinógenos, quando foram descobertos por Rita, que os convidou para acompanharem a dupla com Lúcia. Com sua empresária Mônica Lisboa, Rita montou o show Tutti Frutti, que acabou batizando a banda como Tutti Frutti, show que ficou em cartaz no Teatro Ruth Escobar, São Paulo, de 15 de agosto até 16 de setembro de 1973, para o lançamento da nova carreira da cantora. 

Em dezembro, a Tutti Frutti entrou no estúdio Eldorado para gravar seu primeiro LP. Inicialmente planejado para ser lançado sob o nome Tutti Frutti, o disco, produzido pelo então baixista dos Mutantes Liminha, acabou sendo arquivado, ganhando as mentes dos ouvintes apenas nos anos 2000, em um bootleg chamado erroneamente Cilibrinas do Éden , que saiu em vários países (principalmente na Europa).

Este disco começa com "Cilibrinas do Éden". uma faixa pretensamente experimental, com barulhos diversos, notas de violão totalmente aleatórias e vocalizações muito malucas. Com "Festival Divino" a coisa começa mesmo, com Rita tocando uma linda canção, acompanhada apenas de violão, mas com momentos bastante experimentais em escalas de blues. Chegamos a ótima "Bad Trip (Ainda Bem)", onde os vocais da dupla misturam-se aos dedilhados de violão e as boas passagens elétricas, mas com destaque mais que especial para o trecho instrumental onde violões, guitarra e baixo surgem tocando uma melodia fantástica, e mostrando como Rita era uma ótima instrumentista. Destaque também para mais um belo solo de guitarra, e pela impactante presença do moog. A primeira estrofe da letra desta canção acabou aparecendo em “Shangri-Lá” (do álbum Rita Lee de 1980).

As inspirações progressivas de "Vamos Voltar Ao Princípio Porque Lá É O Fim" parecem saídas do Yes de Tales From Topographic Oceans, assim como "Paixão da Minha Existência Atribulada", mais uma boa faixa onde os violões surpreendem no dedilhado, e com o baixão e o moog também marcando presença. O lado A encerra com "Gente Fina É Outra Coisa", faixa que lembra bastante o que Rita apresentaria posteriormente junto à Tutti Frutti, e que em 1977, teve sua letra totalmente reformulada, batizada agora de "Locomotivas", e que foi tema da novela de mesmo nome.

O Lado B abre com o rock cru de "Nessas Alturas dos Acontecimentos", faixa pesada onde a s guitarras estão tomando conta, altíssimas, e claro, com altas doses de experimentação, seguida do rockzão de "E Você Ainda Dúvida", que ficou conhecida pela apresentação da Tutti Frutti no Festival Hollywood Rock de 1975, e que aqui ganha ainda uma citação a "Tutti Frutti", de Little Richard. A versão de "Minha Fama de Mau". de Erasmo e Roberto Carlos, que Rita veio a gravar com o próprio Erasmo no ótimo Erasmo Carlos Convida ... (1980), também está presente, bastante roqueira, com citação a "A Hard Days Night" (The Beatles)", seguida pelo original de "Mamãe Natureza", que recebeu poucas mudanças para a versão final, que aparece em Atrás Do Porto Tem Uma Cidade (1974), o primeiro disco oficial da Tutti Frutti. Vale ressaltar que "Minha Fama de Mau" e "E Você Ainda Dúvida" possuem aplausos no final, provalvemente inseridos para parecer que foram gravadas ao vivo.

Vale lembrar, por curiosidade, que "Nessas Alturas Dos Acontecimentos" e "Paixão Da Minha Existência Atribulada" já haviam aparecido na coletânea Os Grandes Sucessos de Ritta Lee (1981), sendo que ambas NUNCA foram um sucesso". Outra curiosidade é que encerrando o álbum chamado Cilibrinas do Éden estão duas canções de Rita com os Mutantes, "Hoje É O Primeiro Dia do Resto da Minha Vida", que é um pouco diferente da versão apresentada no disco-homônimo, e "Mande Um Abraço Pra Velha", retirada do compacto do 7° Festival Internacional da Canção, e uma das Maravilhas Prog que o grupo já fez. 

O que ficou para a história é que este acabou se tornando um novo caminho para Rita. Mais lapidado e maduro, o projeto deu origem a uma das maiores bandas do rock nacional, a Tutti Frutti, que levou o nome de Rita para patamares jamais vistos anteriormente, e lançando no mínimo três discos emblemáticos (Fruto Proibido - 1975; Entradas & Bandeiras - 1976; Babilônia - 1978). Em 1978, Rita começou seu relacionamento com Roberto de Carvalho, e uma nova fase, de ainda maior sucesso do que com Tutti Frutti e Mutantes, se seguiu. A união Rita & Roberto acabou levando a saída de Carlini, que levou consigo o nome Tutti Frutti. Carlini montou um novo grupo, junto com o ex-Casa das Maquinas Simbas (vocais),  Renato Figueiredo (baixo) e Juba Gurgel (bateria), lançando em 1980 Você Sabe Qual O Melhor Remédio, de relativo sucesso. Ainda seguiu uma carreira de músico de estúdio, tendo ao todo mais de 400 registros junto de diversos artistas. 

Rita Lee, Lucinha Turbunll (acima); Lee Marcucci, Luis Carlini e Emilson Colantonio. A Tutti Frutti em 1974

Já Lucinha seguiu com a Tutti Fruti até 1975. Saindo do grupo, fez o Rock Horror Show ao lado de Paulo Villaça e Zé Rodrix em 1975. Depois de alguns shows com a banda Bandolim, ao lado de Péricles Cavalcanti  (violão) e Rodolfo Stroetter (contrabaixo), acabou virando vocal de apoio em trabalhos de artistas como a própria Rita (Babilônia), Guilherme Arantes (Corações Paulistas), Caetano Veloso (Cinema Transcedental), Gilberto Gil (Refavela e Refestança), entre outros entre outros. Em 1979, tentou uma carreira solo, lançando o single "Música no Ar / Oi Nóis Aqui Trá Veis" com participação, entre outros, de Liminha (baixo) e Perinho Santana (arranjo, vocais) na faixa do Lado A, e nada mais nada menos que Gilberto Gil (vocais), Lincoln Olivetti (piano), Robertinho do Recife (guitarras) entre outros grandes nomes da música nacional nos anos 70 na faixa do Lado B. No ano seguinte, saiu seu único disco solo, Aroma, de relativo sucesso, e seguiu sua vida, sendo que a partir dos anos 80, nunca mais falou com Rita. Aroma que certamente, junto com Você Sabe Qual O Melhor Remédio e Either/Or, está para ser retirado dentre as Tralhas do Porão em algum lugar do mundo.


sexta-feira, 19 de maio de 2023

Pete Townshend - A Autobiografia [2012]



Lançado em 2012, A Autobiografia de Pete Townshend é uma das grandes obras referentes ao músico do The Who, um dos mais brilhantes e geniais de seu tempo, e que está completando 78 anos nesse 19 de maio. Temos uma aula de como contar sua vida sem remorsos ou escondendo algo. Ao longo de três atos, compostos no total de 32 capítulos, Pete nos conta sobre diversas curiosidades, novidades, e não foge das polêmicas, e principalmente, mostra sem ressentimentos qual a sua postura e posição sobre o The Who, afirmando que ele era a alma criativa da banda, mas quem mandava mesmo era Roger Daltrey.

No primeiro ato, chamado Música de Guerra, Pete conta as memórias de sua infância, como aprendeu a tocar, a formação do The Detours, mundo para The Who, até chegar na explosão de Tommy (1969), reconhecidamente o álbum mais importante dos ingleses. Do ponto de vista pessoal, ele narra sobre o difícil relacionamento entre seus pais (o pai músico, a mãe uma bêbada inverterada), os complicados dias ao lado da avó materna, uma pessoa com problemas diversos, as primeiras experiências com música, inicialmente tocando gaita, até chegar a guitarra e montar sua primeira banda aos 12 anos, conhecendo John Entwistle pouco tempo depois. Pete revela que detestava Elvis, mas amava Pink Floyd, conta com detalhes sua entrada no The Detours, ganhando a vaga por saber tocar "Man of Mistery" do The Shadows, e claro, suas primeiras relações sexuais também são narradas, já entrando para a Escola de arte, um momento importante na formação de Pete. O The Who vem em 1964, e na dificuldade de encontrar um baterista (até Mitch Mitchell fez teste para a banda), eis que surge Keith Moon. A admiração de Pete pelo estilo de tocar de Entwistle aparece ao mesmo tempo que surgem as primeiras composições emblemáticas da banda, no caso "I Can't Explain", "My Generation", "Substitute" e "I'm a Boy". É o Who fazendo sucesso na Europa, apresentando-se pela Escandinávia, e chegando aos Estados Unidos. 

Vem então a apresentação do Monterey de 1967, com o famoso duelo entre ele e Hendrix, com ele confessando que sempre se achou abaixo de Hendrix, o famoso incidente no Holliday Inn, onde Keith Moon jogou uma limousine na piscina do hotel durante o seu aniversário de 21 anos, o momento em que se torna um seguidor de Meher Baba, e claro, muitos detalhes da criação de Tommy, chegando então ao show de Woodstock, que Pete acha não ser tão sido tão bom quanto se fala, e as gravações que levaram a Live at Leeds, com Pete lamentando ter pedido a queima de diversas gravações feitas naquela turnê simplesmente por não ter gostado das mesmas, algo que no livro ele reconhece como sendo uma atitude infantil e egoísta.

Este ato 1 do livro é muito interessante, e o mais longo dos atos, com 160 páginas. Ele nos mostra como a formação pessoal de uma criança e um adolescente acaba refletindo e muito na sua vida. Pete não era uma criança das mais felizes e em uma família estável, e sofreu alguns problemas com outros meninos de sua idade, principalmente na escola, mas nada disso se comparara a dramática vida do pequeno Pete ao ir morar com a avó Denny aos seis anos, principalmente por sofrer assédio moral e sexual, o que impactou no seu tardio relacionamento com meninas, e que é o único momento em que Pete trata com bastante cuidado, sem se aprofundar em detalhes. Outro fato que me chamou muita atenção é como o pessoal do Who, Stones, Kinks, Hendrix e Yardbirds eram próximos e amigos, e como a relação com os Beatles era bastante distante.

O ato 2, intitulado "Um Homem Muito Desesperado", cobre o período dos anos 70 e 80. Ele traz o artista envolvido em drogas, bebidas, casos amorosos, problemas em casa e muito afim de largar o The Who, além das criações de obras atemporais como Who's Next e Quadrophenia (ele passou um dia na beira do mar gravando os sons que estão no álbum), bem como o fracasso de Lifehouse (projeto que acabou abortado pela banda). Dos shows, Pete traz detalhes de sua prisão nos Estados Unidos, por ter agredido um policial durante um show no Fillmore East, compartilha as dificuldades que Keith Moon passou a ter em tocar nas apresentações, e também nos estúdios, como ficou surdo do ouvido esquerdo durante uma apresentação em Nova Iorque em 1976, e narra com emoção a apresentação de Tommy no Berkeley Community de 1969. A ajuda para Clapton livrar-se das drogas também é narrada sem deixar nada escondido, assim como os complexos momentos junto a um doente Ronnie Lane, com quem gravou o álbum Rough Mix (1976). 

Pessoalmente, Pete conta sua longa batalha contra o álcool, e mostra um grande arrependimento por demorar muito tempo a parar com a bebida, e como isso influenciou muito no seu relacionamento com a esposa e filhas e conta que para ele a perda de Moon não foi tão impactante, mas isso abalou Daltrey de uma forma que o Who não conseguiria mais seguir, mesmo com Kenney Jones na bateria. As brigas só aumentaram, levando então a Pete desistir de seguir com a banda, já em 1982. Por fim, Pete encontra-se como editor da Faber, um papel que foi muito importante inclusive para a conclusão da obra aqui apresentada. É um ato bem mais pessoal, que revela ao fã como fama e sucesso não são conquistados sem muitas coisas que são perdidas. 

No terceiro e último ato, Tocando Para os Deuses, ele já abre narrando um acidente de bicicleta que quase o impediu de tocar guitarra, já nos anos 90, e começa a investir bastante em sua carreira solo, principalmente na obra Iron Man e no projeto Psychoderelict, discos solo que são comparados a grandes discos do The Who. A separação da esposa Karen, e seu novo casamento com a musicista Rachel Fuller estão apresentados, deixando como curiosidade que Karen não está citada no final do texto. O momento tenso de "quase" prisão por pornografia infantil também é contado mostrando uma riqueza de detalhes, e sem se deixar intimidar por algo tão difícil e polêmico como este assunto. A perda de Entwistle choca a Pete, e também certamente é mais um momento de grande emoção para o leitor, e por fim, o retorno com o The Who ao lado de Daltrey só mostra o quanto essa dupla é fundamental para a história da música.

O livro ainda traz como apêndice uma carta enviada por uma fã para Pete em 1967, e que ele nunca havia aberto, Coda, Agradecimentos, Posfácio, Fotos e Índice Remissivo. Apesar das 488 páginas, o livro é de uma fácil leitura, com capítulos curtos, e bastante envolvente. Pete parece um vovô sentado na poltrona contando sua história para os netos e amiguinhos, e o leitor certamente sente-se muito confortável ao passar pelo livro. Claro, isso também é méritos de um artista que também é escritor em sua carreira, e que despede-se dizendo "não quero romantizar a mim mesmo ou minha vida, quero fazer exatamente o contrário ... Espero que vocês tenham gostado deste livro". Sim Pete, gostei muito. Recomendadíssimo, e mais, obrigatória a leitura desta Autobiografia para todos os fãs do The Who ou de música em geral. 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Unboxing: Frank Zappa - Halloween '81 (2020)

 


Fazando o Unboxing do lindo material Halloween '81, lançado pela família Zappa em 2020. Nela, além de 6 CDs cobrindo os shows realizados pelo bigodudo durante o Halloween de 1981, algumas surpresas como uma másca com o rosto do músico, e também uma capa de vampiro. Confira!!



terça-feira, 9 de maio de 2023

Rita Lee (31/12/1947 - 08/05/2023)


"Rita Lee foi passear

75 anos, descansar talvez

Em um dia azul, e infeliz

Suas mãos estão frias, nossas vidas mais vazias

Tanto amor foi dado

Que fez e faz muita gente feliz

Nos fez sonhar".

Mas é difícil que Rita venha a descansar no paraíso. Ao encontrar Elis Regina, certamente irá abrir um grande sorriso chamando a Doce Pimenta para fazer coreografias desajeitadas, e gargalhar muito, diando aquela gostosa gengiva saliente da gauchinha. Com Gal, sentará num banquinho, puxará uma viola e cantará uma modinha comentando sobre as travessuras e delícias de estar no ato Roberto de Carvalho. Com Rogério Duprat, irá abrir um vinho para relembrar dos tempos de Tropicalimos, de luta contra a ditadura, e por que não, de se vestir de noiva grávida em um festival. E quando encontrar quem manda na porra toda, certamente irá dizer: "É cara, sempre soube que você não era uma careta de barbas brancas". É, Rita não vai descansar no paraíso, pelo contrário, irá fazer lá o que fez aqui, agitar e, com certeza, provocar uma revolução.

Desnecessário aqui fazer uma retrospectiva sobre a carreira de Rita Lee Jones. Mutantes, Cilibrinas do Éden, Tutti Frutti, a parceria com Roberto de Carvalho, a turnê Em Bossa Em Roll (primeira show acústico antes mesmo do acústico MTV existir), todo o pioneirismo em vários pontos, a luta contra o alcoolismo e depois, o câncer. Isso faz parte de uma Rita que o Brasil (e por que não o mundo) admira e venerará eternamente. Mas Rita foi mais. Foi uma revolucionária, anos à frente do seu tempo, que colocou o feminismo em voga sem jamais ter sido taxada de "feminazi". Falou sobre sexo como nenhuma mulher tinha feito antes, trazendo aquela "sacanagenzinha sem ser putaria" como ela mesma dizia, que provocou a ditadura militar e fez muitas mulheres poderem se libertar da opressão machista de aceitar apenas ser um objeto de seu marido, mas ter o direito de sentir prazer.

Ela cantou incrivelmente a la Janis Joplin como poucas mulheres ousaram cantar. Trouxe ao Brasil o uso do theremim, instrumento tão exótico quanto exótica eram suas transformações camaleônicas. Criou baladas românticas que marcaram época, embalaram (e embalam) romances e separações todos os dias. Mostrou ao mundo que uma mulher é artista com o mesmo talento que um homem, "sem ter culhões", como dizia, e encarando isso com uma soberania inatingivel. Não à toa, virou musa e referência para o surgimento de nomes como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Marina Lima, e tantas outras artistas mulheres que saíram das prisões que o rock exclusivamente masculino acabava fincando como uma pedra incapaz de ser mexida.

Rita não foi uma pessoa perfeita, teve vários problemas pessoais e com outros artistas, principalmente na sua relaçaõ com os ex-Mutantes Arnaldo e Sergio, ou com o ex-Tutti Frutti Luis Carlini, com a grande desafata, a ex-empresária Mônica Lisboa, travou batalhas enormes contras as drogas, legais e ilegais, mas isso não é nada perto da grandiosidade e revolucionaridade que Rita fez para a música nacional. Foi uma das primeiras a defender a natureza, a fazer obras dedicadas exclusivamte para crianças, fazia trabalhos sociais fantásticos sem querer midia. Embalou gerações com inúmeros sucessos que participaram de divers novelas globais (inclusive foi atriz em algumas delas), fazendo um país inteiro cantar e se unir em torno dessas canções. 

E fez parcerias com muita gente, mas muita gente mesmo. Falaríamos horas aqui sobre como ela gravou com as citadas Elis e Gal, com Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Titãs, Raimundos, Lulu Santos, e tantos outros. Reverenciada por Caetano Veloso na incrível "Sampa", venerada por Ney Matogrosso na mais perfeita interpretação de "Balada do Louco", aclamada por Cássa Eller na versão fenomenal de "Luz del Fuego", Rita teve a incrível capacidade de inclusive ser convidada para dividir os vocais com nada mais nada menos que João Gilberto, um dos artistas mas ímpares e incapazes de dividir seu espaço com alguém, em um especial que o cantor fez para a Rede Globo em 1984. Além disso, as letras de Rita são atemporais, e estimulam cada vez mais jovens mulheres a serem independentes e além do caretismo de ser apenas uma "mulherzinha dona de casa que embalava filhos e espera o marido vir do trabalho com a janta pronta", como declarou certa vez.

Tive a honra de assistir a Rita em Porto Alegre no ano de 2005, em um show com Zélia Duncan e Wanderléa. Rita já tinha se tornado minha ídola haviam uns dez anos, quando na casa de um amigo do meu irmão, Micael Machado, encontrei uma fita com o dizer Mutantes. Aquela fita tinha as músicas da famosa banda da Rita Lee, a qual conhecia desde a decada de 80 (afinal,  quem nunca ouviu "Bwana Bwana" ou "Livre Outra Vez" naquela época?). Peguei a fita, levei para a casa, e ao escutar "Meu refrigerador Não Funciona", para mim a melhor interpretação vocal da carreira de Rita, começou uma paixão ardente pela banda (e crushiana por Rita), a qual desenvolveu-se ao longo dos anos. Não é à toa que a sigla MUT está em meu e-mail pessoal. 

Lembro daquele show no pequeno Salão de Atos da PUC como se fosse hoje. Quando fui comprar o ingresso, o assento que havia restado era justamente atrás da mesa de som. No dia do show, perguntei a uma assistente se não poderia sentar mais a frente, e sim, haviam espaços reservados para as pessoas que não conseguiam ver o espetáculo na 13 fila (eu estava na 28). Eu ia ver a Rita mais de perto. Na terceira música, fui para a frente do palco, de onde assisti quase todo o resto do show sentado no chão, mas com a Rita na minha frente.

Eis que o show acaba, e, como todo grande show, há um bis. Rita começou a tocar "Bwana Bwana", enquanto o público avançou em direção ao palco. Neste instante, Rita passou e cumprimentou-me, apertando a mão. Porém, ao fazer isso, puxei ela e disse que admirava-a muito, no que ela me retribuiu com um beijo no rosto. Após o término de "Bwana", Rita pergunta: "O que vocês querem ouvir?". Eu e um amigo que havia conhecido no dia que comprei o ingresso gritamos: "Barata Tonta".

E não é que a eterna Mutante vem em nossa direção, se agachou em nossa frente e deu o microfone para ambos cantarem!!! Pois é, eu  estava ali, cantando alucinadamente "o que que há, é só o amor" e todo o resto da canação, junto com o amigo, com a Rita e com Roberto de Carvalho tentando relembrar os acordes. Foi incrível. Rita entregou a camisa do Sport Club Internacional, que usava naquele momento, ao amigo que nunca mais vi, mas que lembro sair em êxtase como se fosse um troféu aquela camisa, e me puxou para perto do palco, agradecendo pelo momento e me dando um selinho como os que deu em Hebe Camargo. Caraca, me arrepio de lembrar que ela deu o selinho e na sequência, o Roberto de Carvalho apareceu, dizendo "você realmente é fã da Rita" me entregando a palheta dele em mãos.

Santa Rita de Sampa não deixará saudades, por que ela deixou um legado de canções, momentos, entrevistas e histórias marcantes. O dia é triste por que o corpo de Rita finalmente descansou depois de uma doença terrível, que ela corajosamente (como sempre foi em sua vida) lutou e não se abdicou de contar ao mundo o que sofreu, sem ser piegas ou querendo compaixão, mas para mostrar à todos que é necessário lutar pelo que se quer. Hoje, Ovelha Negra, é um dia mais que perfeito para não fazer nada, só para deitar, rolar e ouvir você.



terça-feira, 25 de abril de 2023

Capas Legais: Pink Floyd - Ummagumma [1969]

 


O episódio de Capas Legais de hoje resgata a famosa capa de Ummagumma, quarto álbum do Pink Floyd, e que apresenta aos fãs o Efeito Droste, ou seja, uma imagem que se repete de forma infinita. O álbum duplo conta um álbum de estúdio, apresentando apenas canções individuais de cada membro da banda, e o outro álbum é ao vivo, que se tornou o único registro oficial ao vivo do Pink Floyd com Roger Waters. Confira, curta, compartilhe e aproveite também para inscrever-se em nosso canal.



segunda-feira, 3 de abril de 2023

King Crimson - Live in Newcastle December 8, 1972 [2019]


Uma das raras oortunidades de ouvirmos a Mark V em ação e em um show com Robert Fripp (guitarra, mellotron), Bill Bruford (bateria, percussão), Jamie Muir (percussão e efeitos), David Cross (violino, flauta e mellotron) e John Wetton (baixo, vocais), número de série Club48 (ou seja, o quadragésimo oitavo volume da série de lançamentos The King Crimson Collectors' Club, com shows e mixagens alternativas que Robert Fripp vem resgatando ao longo dos últimos anos.

Descoberta por Chris Kettle, um membro da banda que esteve na Discipline Global Mobile (DGM, a empresa de Robert Fripp responsável pelos lançamentos do King Crimson) no ano de 2017, essa apresentação, apesar de ser em mono, é um registro com audição muito boa de um período fértil e especial na história dos britânicos.

Jamie Muir, Bill Bruford, Robert Fripp, David Cross e John Wetton

O show começa com "Lark's Tongues In Aspic Part One", em sua totalidade, numa versão muito fiel a que foi registrada no mês seguinte nos estúdios, e que culminou com o lançamento do álbum Lark's Tongues in Aspic. Nessa versão, o grande destaque vai para a endiabrada participaçãon de Muir, fazendo suas estripulias e cacofonias sonoras que marcaram a Mark V do Crimson. Outro fato interessante é a pequena mudança no solo de Fripp, mas só crackudos dos ingleses irão perceber essas mudanças. Já na virada do solo de Fripp para a entrada do baixo, aí sim, temos um trecho adicional inexistente na versão de estúdio, que mostra todas as qualidades improvisionais de Fripp. Passamos pelo anúncio de Fripp, "My, my what a ice crowd of people they have in Newcastle. The piece was entitled Lark's Tongues in Aspic Part I. Lark's Tongues in Aspic Part II finishes the evening's music. But now, we will proceed to attack culture yet again with a song entitled Daily Games and this, in turn, is preceded by a small demonstration of melloton tuning" e vamos então a "Book of Saturday".

Bill Bruford (acima) e Robert Fripp (abaixo)

Nessa época, essa linda canção ainda era chamada "Daily Games", com apenas algumas mudanças na letra, e a participação de uma tímida percussão, segue bastante fiel a versão de estúdio. Entramos então no primeiro improviso do CD, intitulado "Improv I", uma magnífica palheta sonora de quinze minutos que começa suave, com baixo e guitarra solando acompanhados pela leveza percussiva. A jam vai crescendo a partir da entrada do violino, e vamos conhecendo cada vez mais a gama de instrumentos e aparatos que Muir utilizava para criar música. O solo de Wetton tem participação direta de Bruford para comandar o ritmo, e então, o improviso vai ganhando tons mais sinistros, chegando ao solo de Fripp, carregado de sustain e muita percussão ao fundo. Cross passa a solar, empregando wah-wah no violino, e de-lhe efeitos percussivos por Muir, enquanto Bruford e Wetton tentam manter alguma sanidade. O clímax é alcançado com Fripp, Muir e Cross travando uma batalha onde um quer engolir o outro, com muita velocidade nas notas e batidas, enquanto Bruford e Wetton certamente estão em um mundo à parte do que o trio está tocando. Aja concentração para entender o que acontece no palco.

John Wetton

O encerramento do improviso leva para a linda "Exiles", uma das mais belas canções da carreira do King Crimson, e aqui, também muito fiel a versão de estúdio, trazendo o vioolino e o mellotron de Cross, a delicadeza vocal de Wetton e toda emotiva interpretação feita pelo grupo. "Easy Money" aqui é ampliada em relação ao estúdio por um longo improviso, onde Fripp é o centro das atenções junto com as maluquices percussivas de Muir e a base endiabrada da cozinha Bruford /Wetton, enquanto Cross viaja em únicos dois acordes ao mellotron. 

Na sequência, começa o segundo improviso da noite, dezessete minutos de muita insanidade e experimentação, iniciando com Muir e Bruford abusando das percussões e o que está por perto. e que se alonga com as presenças assustadoras e arrepiantes dos mellotrons, e com um duelo enlouquecedor entre violino e mellotron, enquanto a pancadaria come ao fundo. Entre gritos e muita experimentação, temos é delírio total, e muuuuuuuuito longe de podermos imaginar que o que está saindo das caixas de som é algo próximo a King Crimson. Obviamente, essa exploração percussiva só pode levar para "The Talking Drum", que mantém bastante o padrão de Lark's Tongues in Aspic, com o crescendo percussivo e do volume enquanto Cross delira ao violino e Fripp abusa de sua guitarra. A versão aqui é um pouco mais curta que a que se tornou mundialmente conhecida, mas é de uma pancadaria considerável. 

David Cross (acima) e Jamie Muir (abaixo)

Essa pancadaria explode em "Lark's Tongues in Aspic part Two", um dos grandes clássicos dos ingleses, e que infelizmente está em apenas três minutos de duração, já que foi cortada abruptamente. mas os suficientes para comprovar por que muitos defendem a tese de que o King Crimson foi também um dos precurssores do Heavy Metal. 

Ainda temos um belo texto de Sid Smith, que esteve lá na noite que este registro foi feito. O mais interessante de tudo, como diz o próprio Smith no texto, é que ainda haviam três meses para que Lark's Tongues in Aspic fosse lançado, e eles nem haviam entrado em estúdio para gravar o mesmo. Ou seja, todos os que ouviram e viram o King Crimson naquele dia 8 de dezembro de 1972 ouviram algo totalmente inédito, inovador e por que não, atemporal, já que passaram-se quase 50 anos para que os fãs pudessem ouvir o que foi registrado naquela noite, sendo a audição mesmo por alguém que nasceu 10 anos depois disso, totalmente inédita aos meus ouvidos ainda hoje.

Contra-capa do CD aqui apresentado

Track list

1. Larks' Tongues In Aspic Part One

2. RF Announcement

3. Book Of Saturday (Daily Games)

4. Improv I

5. Exiles

6. Easy Money

7. Improv II

8. The Talking Drum

9. Larks' Tongues In Aspic Part Two

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