sábado, 27 de abril de 2024

Consultoria Recomenda: Invasão Britânica



Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Davi Pascale

Com Anderson Godinho, Daniel Benedetti, Fernando Bueno*, Líbia Brígido, Mairon Machado e Marcello Zappellini

Uma bela seleção de discos clássicos sessentistas aparece neste Recomenda, focado nas bandas do movimento conhecido como "Invasão Britânica", liderado principalmente pelos Beatles, Rolling Stones e The Who. Mas tirando esses gigantes, a Invasão Britânica da América teve muito mais bandas, tanto grandes como pequenas, que fizeram algum sucesso ou lançaram seus discos por lá. O que achou de nossa seleção? Comente lá embaixo!


Herman's Hermits - Both Sides of Herman´s Hermits [1966]

Por Davi Pascale

A British Invasion também ficou marcada com a presença de grupos mais pops. Dentre esses, sempre gostei muito do trabalho realizado pelo The Hollies, pelo Gerry & The Pacemakers e pelo Herman´s Hermits. Pensei muito em qual álbum indicar porque, assim como acontecia com os The Beatles, a discografia norte-americana (e também, a brasileira) eram, muitas vezes, álbuns criados para aquele país misturando algumas músicas do disco em questão com as músicas lançadas nos compactos. Queria indicar um álbum como foi concebido e comecei a revirar o tracklist (muitos desses discos tenho a versão norte-americana na minha coleção) e notei que nesse LP continha “Bus Stop”, uma faixa que tocou bastante aqui no Brasil. Além dessa, também gosto muito de “Listen People”, “The Story of My Life”, “When Where You When I Needed You” e “Dial My Number”. Disco bem bacana e que difere um pouquinho dos álbuns indicados aqui, que são espetaculares, mas são mais focados no blues ou na psicodelia.

Anderson: Nesse álbum as melodias cativantes, alegres e a simplicidade das músicas apresentam um cenário mais atrelado ao pop rock, algo mais palatável não tão agressivo com distorções ou vocais mais elaborados. Elementos distintos de outras bandas já comentadas e que justamente por isso posicionam o Herman’s Hermits em um espectro um pouco diferente das demais citadas ao meu ver. Dentre as mais interessantes citaria a boa Bus Stop que na verdade é um cover da banda The Hollies e a animada Dial My Number. No geral foi o material que menos me empolguei em reouvir, mas deve-se destacar que participaram do movimento da Invasão Britânica com alguma relevância.

André: Não faz muito tempo que eu conheci este álbum. Eles pegam por um lado mais pop do que rock em seus discos, mas o fazem com uma qualidade exemplar, caso deste disco.

Daniel: Não conhecia. É aquela sonoridade bem Beat, mas, aos meus ouvidos, soou excessivamente adocicada. Não é pra mim.

Líbia: Esse grupo também não era do meu conhecimento. Eles tem uma variedade de estilos bem variados, explorando muitos estilos em evidência na época de lançamento. Tem muita qualidade em suas músicas. A que mais se destacou para mim foi a “Where Were You When I Needed You”, quando ouvi senti algo familiar nos primeiros acordes, e lembrei imediatamente da “Crystal Light” do UFO, lançada anos depois. Deixando de lado essa observação, achei todo o conjunto musical muito bom, os vocais aqui estão mais entregues ao coração assim como todo o restante da banda, a dinâmica da música é muito boa. Se eles seguissem essa linha em todo o restante do álbum seria mais incrível.

Mairon: Eita. Não lembro a última vez que ouvi este disco. Deve ter sido lá no final de 2007, início de 2008, por aí. Era uma época onde os blogspots da vida estavam bombando, assim como vários grupos do Orkut traziam links para baixar discos diversos, e eu me divertia conhecendo muita coisa boa de diversos estilos. Quando coloquei aqui para tocar, lembrei na hora do choque que tomei ao ouvir o baixão e o peso de "Little Boy Sad", com o arranjo vocal interessantíssimo, mas depois o disco não segue assim. Ao longo de pouco menos de meia hora, o que se sobressai são arranjos vocais espetaculares, e um instrumental bem fraquinho, como atestam "Bus Stop", "Dial My Number" e "Where Were You When I Needed You?". É legal ouvir Herman (Peter Noone) cantando em francês tosquinho de "Je Suis Anglais (L'autre Jour)", mas a sua voz acaba se tornando as vezes irritante. O solo de guitarra de "For Love" é no mínimo constrangedor. Melhor faixa para o rockaço de "My Reservation's Been Confirmed". Obrigado ao consultor que recomendou esse disco (ouvi a versão britânica por sinal) por me fazer dar algumas risadas lembrando de um passado não muito distante.

Marcello: A banda de Peter Noone nunca me chamou a atenção, para ser honesto, mas o cantor tem meu respeito, afinal ele foi o primeiro a colocar nas paradas “Oh! You Pretty Things”, de David Bowie. Além do ótimo Noone nos vocais (à época com 19 anos, mas já um intérprete maduro e com boa variação de voz), o grupo incluía Derek Leckenby e Keith Hopwood nas guitarras, Karl Green no baixo e Barry Whitwam na bateria, que lidera uma versão da banda até hoje. O forte da banda eram os arranjos vocais, mas as guitarras não comprometem, destacando-se nas várias músicas. Este é o segundo LP inglês (e o quarto americano) da banda e traz doze músicas, na maioria covers, e teve como grande sucesso “Leaning on a Lamp Post” (o que não dá de entender, porque a música é bem enjoadinha). O álbum começa com as guitarras surpreendentemente pesadas de “Little Boy Sad”, um dos seus destaques, junto com “My Reservation’s Been Confirmed”, “For Love”, a curiosa “Je Suis Anglais” – que deveria ter feito sucesso na França, com Noone arriscando-se no francês, e a bela baladinha “Listen People”. Por outro lado, a versão de “Bus Stop” (de Graham Gouldman), é mais fraca do que a do The Hollies (e confirma que Bobby Elliott era um dos melhores bateristas da cena britânica nessa época) e “All the Things I Do For You” soa como um pastiche de Bob Dylan imitando os Beatles tentando fazer uma música dylanesca. As demais músicas não se destacam, mas também não comprometem. No todo, o disco é bom, mas sofre do mesmo problema que a esmagadora maioria das bandas da época: as coletâneas são melhores. E apesar de suas qualidades, o Herman’s Hermits não figura alto na lista das bandas inglesas dos anos 60.


The Kinks - Kinks [1964]

Por Anderson Godinho

Acredito que o The Kinks represente muito bem essa fase de virada cultural que ocorria no Reino Unido dos anos 1960: uma banda de irmãos e amigos já envolvidos na cena musical, que buscavam seu lugar ao sol através de uma sonoridade que passa por Folk, Blues, R&B e moldava a cara do tal Rock ‘n’ Roll. O debut autointitulado da banda traz um material muito eclético e interessante, são poucos mais de 30 minutos que apresentam uma síntese da banda e abriria um leque de possibilidades para seu futuro à época. Praticamente todas a músicas são muito boas no que apresentam. Desde as animadas misturas folk/blues como So Mystifying e I’m a Lover Not a Fighter, passando por aquele toque de rockabilly de I Took my Babe Home. Dentre as autorais, uma vez que o algum é composto por covers, Stop Your Sobbing atende a demanda por baladas românticas. Agora, se o Kinks alçou voos altos na carreira com certeza a pérola You Really Got Me foi a principal responsável! A música, ainda hoje aclamada, alcançou ótimos números logo após o lançamento do material e apresentou algo realmente empolgante e, porquê não dizer, a frente se sua época. Fato é que após esse belo debut, a banda lançaria mais de 20 álbuns até pelo menos os anos 1990.

André: Gosto bastante do Kinks e de sua atitude mais despojada ao compor e gravar suas músicas. É um álbum da invasão britânica, todavia, sem o mesmo brilho dos gigantes Beatles, Stones e Who. A banda melhoraria muito a partir do terceiro disco para frente. Daqui me agrada as versões deles para "Long Tall Shorty" e "Bald Headed Woman". Suas poucas composições próprias me passam despercebido e os outros covers são bem inconsistentes. Disco no melhor dos dias, mediano.

Daniel: A banda dos irmãos Davies em seu primeiro trabalho já mostrava a que veio. Em um misto de composições originais e várias versões, o álbum é muito divertido. Só “You Really Got Me” já valeria a audição, mas o disco é bem mais que isso. O “alto-astral” do álbum nem vislumbra a animosidade que Ray e Dave desenvolveriam ao longo do tempo. Bela indicação.

Davi: É realmente impressionante constatarmos quantos músicos dessa geração foram influenciados pelo saudoso Chuck Berry. Em seu álbum de estreia, os Kinks traziam duas regravações desse que é considerado o pai dos riffs. O hit “Too Much Monkey Business” aparece em uma versão bem mediana e bem inferior à registrada pelo rei do rock Elvis Presley. Já “Beautiful Delilah”, responsável por abrir o LP, ficou fenomenal e é um dos grandes destaques do disco. Assim como os Stones e os Pretty Things, eles misturam releituras com números originais e o mais bacana é que os grandes destaques ficam por conta das autorais “So Mystifying”, “Stop Your Sobbing” (que anos mais tarde voltaria às paradas com uma versão fenomenal dos Pretenders) e “You Really Got Me” (que anos mais tarde voltaria a causar barulho com a incrível regravação do Van Halen). Um bom disco dessa grande banda.

Líbia: Neste registro, os Kinks ainda estão buscando sua identidade sonora. É evidente a presença de diversas influências de artistas de Rhythm and Blues que os inspiraram. No entanto, se há uma faixa que se destaca é a "You Really Got Me". Essa música, de muitas maneiras, é a raiz do surgimento do punk rock. Além disso, Dave Davies é um dos pioneiros do efeito Fuzz na guitarra, pois é conhecido por ter cortado os cones dos alto-falantes de seu amplificador para obter um som distorcido, o que acabou criando esse efeito, e influenciou muitos músicos depois dele.

Mairon: Fabulosa estreia dos caras, trazendo fortes inspirações no blues e no rock 'n' roll americano. Logo de cara, "Beautiful Delilah" surge como que saída de algum álbum perdido de Elvis Presley. Acho a banda muito similar ao que os Stones faziam na mesma época, vide os vocais despojados de "Got Love If You Want It",  "Long Tall Shortly" e "I'm A Lover Not A Fighter", ou as vocalizações de "I'm Been Driving on Bald Mountain" e "So Mystifying". Ou mesmo quando enveredam para baladinhas, como "Just Can't Go to Sleep" e "Stop Your Sobbing", e rockzinhos animados, tais como "I Took My Baby Home" e o cover para "Too Much Monkey Business" (Chuck Berry), parece que falta algo que seus colegas tinham (técnica talvez?). Acabei pegando a versão britânica para ouvir, e nela, o lado B é bem melhor. Gosto da harmônica em "Cadillac", falando de carros como muitos à época, a pegada de "Revenge", bela pauladinha instrumental, e também a cômica "Bald Headed Woman". O lado A por outro lado traz uma obra prima do calibre de "You Really Got Me", imortalizada pela voz de David Lee Roth e a guitarra de Eddie Van Halen, e que é disparada a melhor canção do disco, totalmente diferente das demais, com ótimos vocais e um belo solo de guitarra (para a época muito "audacioso"). As críticas não diminuem a qualidade de Kinks. Somente os coloca um nível abaixo dos gigantes Stones, Beatles e claro, Yardbirds. A banda se tornaria bem maior na segunda metade dos anos 60 e início dos 70, mas isso é para outro Recomenda talvez.

Marcello: The Kinks seria a banda mais britânica de todas as que compõem a chamada “British Invasion”, mas isso ainda não estava nítido nesta época. Os irmãos Ray e Dave Davies, mais Peter Quaife (baixo) e Mick Avory (bateria – antecedeu Charlie Watts numa das primeiras versões do que se tornaria os Rolling Stones), gravaram 14 músicas nessa estreia britânica, sendo seis covers de músicas americanas, duas do produtor Shel Talmy (que também trabalhou com o The Who) e o resto era de Ray Davies. E são do vocalista e guitarrista rítmico as músicas mais conhecidas do álbum, “You Really Got Me” e “Stop Your Sobbing”. O álbum abre com “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, com os Kinks soando quase como uma banda punk! Curiosamente, a primeira música é cantada por Dave Davies e não por Ray. As primeiras músicas de Ray no álbum, “So Mistifying” e “Just Can’r Go To Sleep”, são bem mais interessantes, ainda um pouco imaturas, mas não se pode esquecer que eram composições de um garoto de 19-20 anos. E o resto do lado A segue com rocks sessentistas bem simpáticos (“I’m a Lover Not a Fighter” é uma cópia de “You Can’t Catch Me”, de Chuck Berry, e traz Dave no vocal principal e Ray no seu único solo de guitarra em todo o álbum), até chegar na monumental “You Really Got Me” e sua guitarra distorcida, grande sucesso do disco. A curta “Revenge” traz Ray na harmônica, e os vocais são apenas para fazer efeito. Outra de Berry, “Too Much Monkey Business”, é mais tradicional e mais próxima do original. “Bald Headed Woman” e “I’ve Been Driving on Bald Mountain” são composições de Shel Talmy, e têm pouco destaque, deixando apenas a pergunta de por que tanta preocupação com carecas. A linda “Stop Your Sobbing” vem em seguida, mostrando que os Kinks só tinham a ganhar se investissem nas músicas de Ray. O álbum original termina com “Got Love If You Want It”, clássico do blues que trocentas bandas gravaram.  A edição DeLuxe traz quase meia hora a mais de música, incluindo outro clássico de Ray Davies, “All Day and All of the Night”. Considerado no todo, “The Kinks” não figura muito alto numa lista de melhores álbuns da banda, mas é um disco honesto, enérgico e que já deixava entrever o talento de Ray Davies para composição. Coisas melhores viriam, mas é aqui que tudo começou.


 

The Animals - The Animals [1964] (British Album)

Por Marcello Zappellini

O primeiro LP britânico não traz “The House of the Rising Sun”, que catapultou a banda ao estrelato, diferentemente do americano. Mas escolhi essa versão porque ela capta melhor a energia primitiva do The Animals, a banda que tirou seu nome da reação do público aos seus shows caóticos (o grupo se chamava The Alan Price Set). A formação é a clássica com Eric Burdon nos vocais, Alan Price nos teclados, Chas Chandler no baixo, Hilton Valentine na guitarra e John Steel na bateria, e o repertório é praticamente todo formado por covers de artistas americanos de blues e rhythm’n’blues. A primeira coisa que você ouve ao colocar o disco para tocar é o órgão de Price, grande destaque instrumental da banda, abrindo “The Story of Bo Diddley”, letra de Burdon sobre a famosa “Bo Diddley Beat” – com direito a uma citação de “A Hard Day’s Night”. Na sequência, o que se tem são clássicos de John Lee Hooker (“Dimples”, “I’m Mad Again” e “Boom Boom”), Fats Domino (“I’ve Been Around”, “I’m in Love Again”), Chuck Berry (“Memphis Tennessee” e “Around and Around”), Ray Charles (“The Right Time”), bem como outras composições extraídas da mina de ouro da música americana (“She Said Yeah”, “Bury my Body” e “The Girl Can’t Help It”). As comparações com os Stones, que mineravam o mesmo catálogo, são inevitáveis: “She Said Yeah” e “Around and Around” se saem melhor com o quinteto londrino de Jagger e Richards, mas “Memphis Tennessee” ficou melhor com a turma de Newcastle capitaneada por Burdon e Price, especialmente porque a voz de Eric se casou melhor com a música do que ade Mick Jagger. Os destaques, para mim, ficam com “Dimples” e “The Girl Can’t Help It” (ambas com direito a belos solos do eternamente subestimado Valentine), “I’m Mad Again” (Burdon na sua melhor forma), o órgão de igreja de Price em “The Right Time”, perfeita para a voz de Burdon, e “Boom Boom” – o velho John Lee deve ter curtido essa versão. “The Animals” não traz a música que tornou a banda um sucesso, mas é mais próximo do que eles faziam no palco do que “The House of the Rising Sun”.

Anderson: Assim como era praxe na época, muitas alusões ao blues e ao folk derivados dos EUA, bem como, versões e homenagens. Nesse álbum o The Animals apresenta alguns dos elementos que o caracterizam como banda, como: o contrabaixo e os teclados. Agora, não é possível pensar em The Animals e não ouvir a poderosa voz de Eric Burdon! A abertura do disco é Story Of Bo Diddley e apresenta uma narrativa que contextualiza todo esse cenário de reinvenção e expansão do rock britânico a partir da breve história de Bo Diddley. Logo na sequência um dos destaques do disco, a poderosa Bury my Body que apresenta um som pesado com Eric Burdon destruindo! Dentre algumas coisas mais calmas ou românticas, destaco, o bom blues I’m Mad Again muito intensa que apresenta uma crescente bem interessante. Por fim, a agitada e animada She Said Yeah. Dentre todas essas bandas do período o The Animals é uma que não pode faltar. Uma bela pedida.

André: Tirando a primeira faixa, mais covers. Porém, diferente dos Kinks, os Animais aqui fazem versões muito boas ou até mesmo melhores que as originais dando praticamente uma geral naquilo que seria o início do rock 'n' roll da década anterior. Acho "Bury my Body" e "I'm Mad Again" belíssimos hinos de uma época em que ninguém sequer consegue copiar mesmo com toda a tecnologia de hoje.

Daniel: Fazia muito tempo que eu não ouvia este disco, mas me recordo de que, quando o fiz, não havia me marcado muito. Talvez o fato de que o ouvi logo após a audição do álbum dos Kinks tenha prejudicado minha experiência, mas a realidade é que não me comoveu (novamente). Ah, eu curto a ótima versão para “I'm in Love Again”.

Davi: O álbum de estreia do The Animals, assim como os primeiros álbuns do The Rolling Stones, era focado em releituras do blues. A única exceção aqui é a faixa “The Story of Bo Diddley”, onde os músicos tentaram reproduzir, inclusive, a batida que o cultuado guitarrista utilizava em suas canções. Essa música acho meio sem sal, mas o disco é excelente e tem várias versões que são memoráveis. “She Said Yeah”, “Dimples” e “Bury My Body” se destacam ao lado da inconfundível voz de Eric Burdon. Muitos críticos o consideram uma das grandes vozes do rock e diziam que ele fazia parte do time de "cantores brancos que tinham voz de cantores negros", assim como acontecia com Joe Cocker. Concordo com ambas as afirmações.

Líbia: Um álbum de R&B/Rock muito sólido. A cada faixa, descobrimos novas camadas, destacando a maestria dos membros em capturar a essência desse gênero musical. Faixas como 'Boom Boom' e 'She Said Yeah' foram posteriormente regravadas por muitas outras bandas, mas suas versões sempre se destacam como uma das melhores. O mesmo pode ser dito de 'The House of the Rising Sun', que está na versão americana deste álbum. As músicas de blues se destacam. Em 'I'm Mad Again', Burdon mostra do que é capaz vocalmente.

Mairon: Os Animals durante muito tempo frequentaram audições regulares em meu Media Player. Baseada no blues e R & B americano, a estreia britânica é muito boa, e inova começando com uma faixa de 6 minutos homenageando Bo Diddley na genial "Story of Bo Diddley", contando a história de um dos nomes mais importantes do blues, um dos pais do rock, sobre uma de suas bases mais conhecidas. Letra fantástica! As revisões fogem um pouco dos cantores tradicionais, indo de Fats Domino ("I've Been Around" e "I'm In Love Again") até John Lee Hooker ("Boom Boom", "Dimples" e "I'm Mad Again") e Chuck Berry ("Around and Around" e "Memphis Tenesse"), ou seja, os caras estavam ligados na cena americana dos anos 40 e 50, levando esses artistas para uma nova geração de jovens britânicos com um ar que segue as linhas originais, onde a voz de Eric Burdon se destaca. Porém, o grande diferencial dos caras, além da genialidade de Burdon, era o órgão de Alan Price. Aquele som que nos acostumamos a ouvir no The Doors de 1967 já estava em voga com ele em 64, se sobressaindo em "Boom Boom", "Bury My Body" e "The Right Ime". Na citada "I'm Mad Again", certeza que antes da voz de Burdon entrar você irá pensar "Olha o Doors fazendo mais um blues aí". Pois é meus caros, a origem vem da velha ilha, e que baita solo de órgão!  Um disco de 40 minutos, que para 64 era uma eternidade, onde não há o que tirar nem por. Espetacular!


The Pretty Things - Get the Picture [1965]

Por Líbia Brígido

Um dos grupos muitas vezes esquecidos das primeiras bandas da Invasão Britânica é o The Pretty Things. A ideia principal por trás do álbum era fazer um filme que mostrasse a banda um pouco como os Beatles haviam feito, a fim de oferecer uma boa promoção para a banda. Infelizmente, devido provavelmente à falta de tempo e financiamento, o filme só foi lançado em 1966 e não atendeu às expectativas comerciais. O som não é tão claro, mas isso não é um grande problema para mim. A faixa de abertura "You Don't Believe Me" é uma das minhas favoritas, uma música que não ficaria fora de lugar em discos de meados dos anos 60 dos Beatles ou Stones. As melhores músicas estão no final das faixas bônus. "Come See Me" e "L.S.D." são excelentes.

Anderson: Essa banda eu particularmente não conhecia, assim como muitas outras possíveis pérolas da chamada Invasão Britânica. Trata-se de um rock ‘n’ roll bem clássico que se mantém presente por toda a sonoridade do álbum. Por exemplo, o simples, mas, bem interessante solo de Get the Picture, bem como as distorções e melodias presentes em outras músicas como You'll Never Do It Babe ou Can't Stand the Pain, essa que, por sua vez, soa mais introspectiva do que as demais. Poderia ser uma música do Animals ou mesmo quem sabe estar em um álbum do Blue Oÿster Cult. É um disco interessante, com um rock and roll mais consolidado que outros dessa geração, mesmo dentre os que ouvimos nessa lista, mas não é o que mais me agradou. Muitas músicas simplistas demais, fracas, muitas baladas e um vocalista (Phil May) um tanto sem sal. Porém, fica a oportunidade de conhecer e quem sabe ir mais a fundo em tal banda.

André: Sou mais chegado à sua fase mais psicodélica de uns anos depois, mas nesse período ainda garageiro eles ofereciam ótimas composições que não deviam em nada à sua melhor fase. "You Don't Believe Me" que abre o disco e "Gonna Find Me a Substitute" que fecha o lado B são grandes rocks da época e a banda cresceria ainda muito mais nos álbuns seguintes.

Daniel: Este eu nunca havia ouvido. Parabéns a quem o indicou, curti muito. Os solos de Dick Taylor são bem legais e a sonoridade que funde o Blues e o Rock, de maneira até meio “inocente” (na falta de um termo melhor) são cativantes. “We'll Play House” é uma música muito legal!

Davi: Esse álbum foi minha porta de entrada no universo do Pretty Things. Lembro que peguei o CD para ouvir por conta de “You Don´t Believe Me”, música que haviam composto em parceria com o grande Jimmy Page (sim, o próprio). Essa banda sempre foi muito comparada aos Stones e a comparação faz sentido. Eles percorriam o mesmo território explorando uma sonoridade que era, basicamente, um blues mais eletrizado, digamos assim. As linhas vocais de Philip May, por vezes, remetem ao Mick Jagger. Um grande exemplo seria a regravação do blues de Jimmy Witherspoon, “I Had a Dream”. Um grande diferencial é que eles arriscavam mais com composições próprias e, dentre essas, a minha favorita atualmente é “Cry to Me”. Bom disco.

Mairon: Segundo álbum do grupo, mantém a linha de canções simples que o rock vindo da ilha tinha. A diferença do Pretty Things para outros grupos da British Invasion se dá no vocal dramático de Phil May, vide faixas como a faixa-título, os gritos de "I Want Your Love" e "You'll Never Do It, Baby" ou "You don't Believe In Me", o que dificilmente encontraremos em Beatles ou Stones por exemplo. A harmonia bluesy, também bastante presente nas demais bandas, aqui surge de uma forma um tanto quanto experimental, como atestam "Cry To Me" e "Can't Stand the Pain", além da versão empolgante de "I Had a Dream". E claro, baladinhas para alegrar as meninas também levantam o braço marcando presença, através de "Rainin' In My Heart". Gosto da forma como a guitarra é usada em "Buzz The Jerk" e "We'll Play House", com boas distorções, e do uso do violão na agitada "London Town" . Tudo simples, sem muita técnica ou virtuose, mas redondinho. Melhor faixa ao meu ver é a versão de " "Gonna Find Me a Substitute", original de Ike Turner, e que resume muito bem essa fase inicial dos caras, com todas as características que citei acima. Único ponto negativo é que em 30 minutinhos a coisa acaba, deixando um gostinho de "faltou mais" para saborearmos um belo disco, mas que é um aperitivo entre tantas guloseimas aqui recomendadas. O tempo iria mudar (e muito) a carreira da banda, e S. F. Sorrow, de 1967, fez grande diferença aqui.

Marcello: Banda formada por Dick Taylor após deixar os Rolling Stones, e pelo vocalista Phil May, cujo nome saiu de uma música de Bo Diddley, não da (inexistente) beleza dos meninos. O grupo se completava com o guitarrista Brian Pendleton, John Stax no baixo e um monte de bateristas envolvidos na gravação (Viv Prince, Bobby Graham e Twink Alder). “You Don’t Believe Me” foi coescrita por Jimmy Page, que a produziu (e nos anos 70 assinou a banda com a Swan Song Records). “Buzz the Jerk” e “Get the Picture” são ótimos rocks de garagem, com guitarras na medida e bateria pesada, somados ao vocal canalha de Phil May. A bluesy “Rainin’ in my Heart” soa muito como Stones tocando blues no começo de carreira e, embora seja altamente genérica, é uma música bem gostosa de ouvir por causa do charme tosco dos Pretty Things. “You’ll Never Do it Baby” traz um bom trabalho de guitarras, indicando que Dick Taylor era melhor do que poderia pensar à primeira vista. Mas “I Had a Dream” é muito parecida com “The Night Time (Is the Right Time”) de Ray Charles, e soa meio deslocada – até porque na sequência “I Want Your Love” é bem interessante (e o solo lembra um pouco o de “The Last Time”, dos Stones – mas não sei quem copiou quem nessa história! Falando em Stones, “Cry to Me”, de Solomon Burke, foi regravada também por eles, numa versão que eu acho bem melhor, com Keith Richards se destacando nas guitarras. Mas, verdade seja dita, essa também ficou bacana. O disco se encerra com “Gonna Find me a Substitute”, outro rock bem interessante, com May e Taylor se destacando. Fazia bastante tempo que não ouvia The Pretty Things dos anos 60 (tenho apenas o “Silk Torpedo” em minha coleção). Este álbum me motivou a buscar mais coisas deles dessa época.


The Yardbirds - Having a Rave Up With The Yardbirds [1965]

Por Mairon Machado

Se é para falar de discos para conquistar o mercado americano, nada mais apropriado que Having a Rave Up With The Yardbirds. Voltado única e exclusivamente para os US, este álbum apresenta o talento de Jeff Beck ao mundo. E o cara chega mandando ver com sua guitarra carregada de efeitos e muito mais técnica que Eric Clapton. Além disso, Os Yardbirds eram diferentes de todas as demais bandas não só por revelar Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page, mas também por ter em suas composições muito mais do que inspirações bluesísticas, que até surgem na revisão de "I'm a Man", com Keith Relf mandando ver na harmônica, mas com Beck se sobressaindo no solo carregado de efeitos, ou na pancada "Train Kept A-Rollin". E é aqui o toque que faz a diferença no som dos Yardbirds. Os caras exalavam rebeldia e talento para compôr, colocando no bolso os demais fazendo músicas atemporais com muita inventividade e improvisos que ninguém tinha coragem de fazer nesta época, o que para mim a torna simplesmente a maior banda da British Invasion. Essas composições diferenciadas são observadas na beleza psicodélica de "You A Better Man Than I". Colocar Sitar na introdução e no riff de "Heart Full of Soul" não basta para lhe provar isso, então choque-se com os cantos gregorianos de "Still I'm Sad". Não tem como não soltar um "puta que pariu" quando se ouve a primeira, a segunda, a milésima vez de "Still I'm Sad". Quem fez algo tão triste no rock antes de 1965? Que música encantadora! E como é bom ouvir o solo de "Evil Hearted You", e as vocalizações sutis por trás da voz chorosa de Relf. O lado B é um compilado de quatro faixas da estreia Five Live Yarbirds ("Smokestack Lightning", "Respectable", "I'm A Man" e "Here 'Tis") que ainda não haviam saído nos EUA, agora com Clapton na guitarra, e bem mais blues do que o ardente lado A, mas não menos incrível. Discaço!

Anderson: Bom, escola básica do Rock and Roll: Yardbirds. Você precisa conhecer e ponto. Esse álbum em específico conta com Jeff Beck substituindo Eric Clapton, ou seja, trata-se de algo grande. Dentre as músicas da banda, uma vez que os covers eram muito comuns nas gravações da época, logo na primeira faixa uma pedrada daquelas: Mr. You're a Better Man Than I traz um rock and blues muito poderoso que dita a regra do que viria na sequência. Heart Full of Soul é outro som maravilhoso, com algumas experimentações e ritmo marcante com uma pegada um tanto folk, sensacional. Na animada The Train Kept A-Rollin mais um clássico Rock ‘N’ Roll traz uma capacidade de envolver o ouvinte que irá perceber o que aconteceu quando a música acabar, muito bom! Poderia comentar sobre os ótimos blues, solos, gaitas, melodias... mas deixo a surpresa para quem for conferir! Vale a pena!

André: Aqui não tem erro tendo dois grandiosos guitarristas como Jeff Beck e Eric Clapton cada um em um lado do disco (Beck em estúdio, Clapton no ao vivo). Todo guitarrista deveria pegar esse disco e ouvir umas 10 vezes seguidas para ver se inculca em sua mente um pouco da verdadeira arte de se tocar guitarra. Não dá de destacar uma faixa aqui, o disco todo é excelente.

Daniel: Yardbirds é, de longe, minha banda preferida nesta lista. Sempre admirei a capacidade do grupo em pegar canções de terceiros e as transformar em uma espécie de nova música, imprimindo a personalidade do conjunto em suas versões. Também, uma banda que tinha Jeff Beck, Eric Clapton e Jimmy Page não foi qualquer uma.

Davi: Em seu segundo registro, os músicos passavam por um período de transição. Saía o fenomenal Eric Clapton, para a chegada do igualmente fenomenal Jeff Beck. E isso está contado no disco. Como assim? O lado A traz 6 registros, em estúdio, ao lado de Beck. Já o lado B são 4 músicas ao vivo com a guitarra de Clapton. A mudança de estilos também é sentida. O lado A traz uma pegada mais rock psicodélico tendo como destaques as inesquecíveis “You´re a Better Man Than I”, “Heart Full of Soul” e “I´m a Man”. O lado B, por outro lado, tem uma pegada mais blues, mais R&B, tendo como destaque “Smokestack Lightning”. Quando for ouvir, além das guitarras, reparem no trabalho vocal e no trabalho de harmônica de Keith Relf. Muito se fala, compreensivelmente, dos guitarristas que passaram pelo grupo, mas ele também era um diferencial na banda.

Líbia: É incrível como esse grupo jovem soava sofisticado e como eles eram originais. Em 1965, a maioria dos grupos não podia deixar de ser influenciada pelos Beatles, mas os Yardbirds tinham uma abordagem única. Uma das minhas favoritas desse registro é a "Evil Hearted You" que segue com uma melodia memorável e um maravilhoso trabalho de guitarra de Beck. Outra surpreendente é a “Still I’m Sad” que combina backing vocals no estilo canto gregoriano, um arranjo musical parecido com Ennio Morricone e uma ótima performance vocal principal.

Marcello: Um LP americano, pois na época a banda não tinha cacife para bancar um 12 polegadas (alguém aí chegou a ver essa denominação?) na Inglaterra – até porque o único LP britânico até então, “Five Live Yardbirds”, tinha fracassado comercialmente. Formado por músicas antigas, gravadas com Eric Clapton, e novidades com Jeff Beck, “Having a Rave Up...” é um daqueles discos para você fechar os olhos e viajar no som. O lado A é praticamente irrepreensível, sendo difícil destacar alguma música: “Evil Hearted You” traz guitarras extremamente pesadas para sua época, “Still I’m Sad” traz o canto gregoriano como influência (com direito a Giorgio Gomelski, produtor e empresário da banda, no basso profundo), a bela “You’re a Better Man Than I” (de Mike Hugg, do Manfred Mann – uma banda que pensei que ia aparecer nessa lista), que nunca entendi como é que foi parar no lado B do compacto “Shapes of Things”, e a versão com Beck reproduzindo a cítara na sua Telecaster de “Heart Full of Soul” (a melhor, para mim – a versão com a cítara não ficou tão boa), o balanço de “Train Kept A’Rollin’”... Ou seja, à parte a questionável inclusão da versão de estúdio de “I’m a Man” (que, aliás, é gravada com Clapton na guitarra-solo), só há clássicos dos Yardbirds no lado A. No lado B, quatro músicas extraídas de “Five Live...”, que não foi lançado nos EUA naquela época: “I’m a Man” reaparece na sua versão (muito superior) ao vivo, “Respectable” do Isley Brothers (com a banda engatando a quinta marcha), “Here ‘Tis”, de Bo Diddley (como as bandas inglesas gostavam dele no começo dos anos 60!), e mr. Eric “Slowhand” Clapton no seu habitat natural em “Smokestack Lightning”. Ao vivo, a banda se mostra segura, ainda que a voz de Keith Relf não seja a melhor para o repertório apresentado; é curioso ver que a maioria das músicas do lado B não mostre o talento de Clapton - será que é porque tinha saído da banda? No mais, os bons Jim McCarthy na bateria, Paul Samwell-Smith no baixo e o subestimado Chris Dreja na guitarra rítmica (também, quem vai prestar atenção nele numa banda que teve Clapton, Beck e depois Jimmy Page?) seguram bem a peteca. Mas o lado A deste LP é melhor e é preferível ouvir “Five Live Yardbirds” na íntegra para ver o que os Most Blueswailing eram capazes de fazer.


The Dave Clark Five - Have a Wild Weekend [1965]

Por Fernando Bueno

*Infelizmente, Fernando Bueno não conseguiu nos mandar os comentários a tempo desta publicação. (André)

Anderson: A autointitulada faixa título já inicia os trabalhos com uma baita energia! Rock ‘N’ Roll, mas com aquela pegada de rockabilly, aquela animação na melodia. Diria que nesse mesmo sentido se enquadram I Can’t Stand It, On the Move e mesmo Doo Dah. Porém é a segunda música do álbum, Catch Us If You Can, que posiciona o álbum como algo grandioso. O que os caras conseguiram com a melodia dessa música é memorável. O álbum em si foi composto no intuito de ser trilha sonora do filme de mesmo título e isso por um lado pode ter limitado a criatividade da banda ou mesmo ter aberto possibilidades, fato é que o disco é totalmente alinhado a dinâmica cinematográfica. Entretanto, ao comparar esse material com o Kinks, o Yardbirds ou o Animals a seta do Dave Clark Five aponta para trás e não para frente, não se ouvem inovações do que viria a ser incorporado lá no Hard Rock ou lá no universo psicodélico, ao menos não enxergo assim, remetem mais ao passado consolidado do estilo que se delineava. Todavia, não se engane, é um ótimo álbum, muito bom mesmo, top 20 da Billboard, mas datado.

André: Dentre todos, o disco que eu esperava menos mas que me surpreendeu positivamente. Uns rocks blueseiros misturados ao surf que me animaram muito aqui no que a audição foi passando. Depois fui ver que esse disco é uma trilha sonora de um filme. Fiquei até com vontade de assistir o dito cujo filme só para ter uma desculpa de ouvi-los de novo.

Daniel: Conhecia apenas de nome e nunca havia parado para ouvir um álbum inteiro. Não é que foi uma audição ruim, mas não me causou maiores emoções. Não é algo que eu vá procurar novamente.

Davi: Muito bacana essa lembrança. Eu, provavelmente, teria escolhido o álbum Glad All Over, mas não há como negar que esse disco é bem divertido de ouvir. Misturando canções cantadas com (poucas) instrumentais, Having a Wild Weekend é a trilha de um filme de mesmo nome. As músicas continuam com a pegada que tornou o grupo famoso e traz, ao menos um grande hit: “Catch Us If You Can”. Outros grandes destaques ficam com os rockões “New Kind of Love” e a faixa título, que conta com uma irresistível pegada anos 50, além das baladas “I Said Was Sorry” e “Don´t Be Taken In”. Essa última conta com uma vocalização bem beatle, banda que, na época, eles disputavam. E, certamente, deram muita dor de cabeça, afinal os hits não foram poucos.

Líbia: Eu não conhecia esse álbum, mas ao pesquisar sobre ele, vi que se trata da trilha sonora de um longa-metragem que também aborda questões sociais. Alguém aqui já assistiu ao filme? Quanto às músicas, considero esta trilha sonora ideal para diversos momentos do dia. A primeira que me chamou a atenção foi “Don’t Be Taken In”; sua melodia é envolvente e cativante. Destaque para a instrumental “When I’m Alone”. Tem uma variedade de músicas animadas e baladas melódicas, o lançamento oferece uma experiência auditiva diversificada.

Mairon: Fabuloso quinteto de rock 'n' roll direto na linha Little Richard e Elvis, ou seja, inspiradaço nos gigantes americanos dos anos 50. A faixa título já abre o disco arregaçando. Então, desfilamos por ótimas faixas dançantes com destaque para a presença marcante do saxofone. Ou baladinhas bonitas como "Don't Be Taken In",  "I Said I Was Sorry", "New Kind of Love", onde o piano é o centro das atenções junto de um belo arranjo vocal. Curto bastante as instrumentais "Dum-Dee-Dee-Dum", que parece saída de um filme de faroeste, e principalmente "No Stopping", com o sax mandando ver, belo solo de órgão, e que nos remete a filmes do 007 na linha da guitarra. Além disso, é surpreendente o arranjo de cordas e a leveza da gaita e vocais em "When I'm Alone", com certeza a faixa mais impressionante do álbum, junto de outra instrumental, a suave "Sweet Memories", também com cordas, mas aqui levada por um belo tema de guitarra e harmônica. Acho que o disco soa bem destoado de tempo para 1965, mas que é um baita disco, a isso é.

Marcello: Dave Clark era um baterista mediano, mas tinha um ótimo ouvido para um som pop e seu quinteto era formado por músicos de alto calibre. Este álbum é o sexto da discografia americana da banda e é trilha sonora de um filme de mesmo nome, de John Boorman. O quinteto era formado por Clark na bateria, Mike Smith nos teclados e vocal principal, Lenny Davidson na guitarra, Rick Huxley no baixo e Denis Payton no sax; os backing vocals são divididos pela banda, e quase todos (Huxley é a exceção) compuseram para o disco, produzido pelo nosso herói Dave Clark. O álbum alterna músicas com jeitão de lançamento de compacto com instrumentais próprias para uma trilha sonora – mas algumas são bons rocks, e outras baladinhas para cenas românticas. Após o começo com a roqueira e animada faixa-título, a beatlemaníaca “New Kind of Love” tem aquele sabor do pop sessentista, enquanto que “Dum-Dee-Dee-Dum” é uma quase instrumental, pontuada pelos gritos dos músicos, que soa como country dos anos 50. “I Said I Was Sorry” não teria feito feio no LP “With The Beatles”, por exemplo, e aí reside um probleminha do DC5: enquanto a banda de Liverpool na mesma época lançava “Yesterday”, “Ticket to Ride” e “You’ve Got to Hide Your Love Away”, eles emulavam o som da Beatlemania. Por outro lado, outra instrumental, “No Stopping”, é bem avançada para a época e ficaria interessante na trilha sonora de um filme do 007. Gosto muito de “Don’t Be Taken In” e “Catch Us If You Can”, ótimos exemplos do talento do grupo para compor e gravar músicas que grudavam no ouvido, mas a bela melodia de “When I’m Alone” foi prejudicada pelo arranjo cafona (como teria sido dito em 65...). Dave Clark Five fez um sucesso enorme nos anos 60, mas hoje é quase esquecido. É uma pena, pois o rock’n’roll da banda pode soar inocente, mas era muito bem feito e tinha arranjos bem criativos, com teclados e saxofone proeminentes.


The Tremeloes - The Tremeloes: Chip, Dave, Alan, Rick [1967]

Por André Kaminski

Sendo curto e direto: peguei este disco desta banda porque os considero extremamente underrated. Nunca entendi o porquê de não serem tão conhecidos quanto os seus contemporâneos. Talvez porque os caras são um pouco mais velhos do que "os jovens revolucionários britânicos"? Sei lá. Só peço que ouça.

Anderson: O nome do álbum já indica algo importante, mudanças! A banda deixa de ser uma ‘banda de apoio’ para assumir o protagonismo de suas ações como grupo musical. A sonoridade é bem clássica do período tendendo para um pop rock um pouco mais elaborado, forçando a barra é possível encontrar alguns elementos de psicodelia ou algo progressivo. Particularmente os Tremeloes não me atraem muito, são talentosos, apresentam algumas experimentações por vezes, como em Happy Song ou em Sing Sorta Swingle, mas não são músicas que me cativam. Com certeza é uma banda historicamente importante para o cenário da época, há pessoas que afirmam que a banda e este álbum são subestimados, mas não é uma opinião que compartilho, realmente não me impressionam muito. Vale a pena conferir, mas sem grandes expectativas.

Daniel: Dos que eu não conhecia, achei este o melhor álbum. Minha impressão é de que há mais misturas de sonoridades diferentes ao Pop, com algumas canções com toques psicodélicos. Belas harmonias vocais, algumas músicas com a guitarra mais presente. Vou ouvir novamente.

Davi: A primeira vez que ouvi algo dos Tremeloes foi através de uma coletânea do Brian Poole & The Tremeloes. Lembro que estava curioso para ouvir a versão deles para “Twist and Shout”, que conhecia pelos Beatles e considerava a versão do fab four insuperável (sendo honesto, ainda considero). Depois, ouvi a versão deles para “The Silence Is Golden” (hit do grupo 4 Seasons) e aí, sim fiquei impressionado. A versão era perfeita e as vocalizações encantadoras. Pois bem, esse é o álbum que contém o megahit. O disco é variado e traz bastante influência da cena psicodélica (o que pode ser notado já na faixa de abertura, a contagiante “Happy Song”). Os caras eram feras e o disco entrega outros momentos memoráveis como “I´m With You All The Way” e “Running Out”. Agora... A versão deles para “Too Many Fih In The Sea” é bem abaixo da versão das Marvelettes, hein?

Líbia: Esse foi o único que infelizmente não tive como ouvir, não encontrei por aqui. Nesse eu “tonguei” totalmente. Até encontrei no Youtube mas não tem a divisão das faixas. Como não conheço achei melhor “deixar quieto” no momento e ouvir com mais calma depois.

Mairon: Das bandas aqui recomendadas, os Tremeloes são os únicos que não conheço mais a fundo. Acho que este é o primeiro disco da banda que ouço na íntegra, e gostei do que ouvi, principalmente por encontrar diversas referências ao longo da audição. As variações de "Happy Song", com o piano elétrico em evidência e boas harmonias vocais, já me conquistaram de cara. O mesmo ocorreu com a introdução e a melodia da lindinha "Norman Stanley James St. Clare", influência clara para os álbuns iniciais da Aphrodite's Child de Vangelis e Demis Roussos. Até o estilo vocal me lembrou o que Roussos fez depois. Ao mesmo tempo, foi legal ver o gingado de "Cool Jerk", "Running Out" e "Too Many Fish In The Sea" (bota distorção na guitarra aí!), que me lembrou o que a Mark I do Deep purple faria anos depois. No geral, o que mais me chamou a atenção foram os arranjos vocais, se destacando em "Come On Home", "I'm With You All The Way", "Negotiations In Soho Square" e "Sunshine Games", e a psicodelia de faixas como a doida "Sing Sorta Swingle" ou "Suddenly Winter", algo quejá surgia com força na Londres de 67. E quando ouvi "Silence Is Golden" meu coração bateu mais forte, já que me remeteu a infância ouvindo horas a fio Jive Bunny & The Master Mixers!! Bem bom de conhecer este trabalho.

Marcello: De todos os álbuns escolhidos, este era o único que nunca tinha ouvido antes. Conhecia a banda de nome e nunca tinha ido atrás, por conta da sua primeira fase como Brian Poole & The Tremeloes – a banda que a Decca preferiu contratar em vez dos Beatles. A banda é formada aqui por Chip Hawkes (baixo e vocais), Dave Munden (bateria, vocais), Alan Blakley (guitarra, teclados, vocais) e Rick Westwood (guitarra e vocais). O álbum começa com “Happy Song”, digna desse nome, bem flower power, bem 1967. “Running Out” já me soa bem mais interessante, com mais energia e um trabalho mais interessante de guitarras. “Negotiation in Soho Square” está mais próxima da primeira música, mas não me agradou muito. “Suddenly Winter” e “Sunshine Games” são boas, mas com guitarras muito magrinhas, que precisavam de um pouco mais de peso. “Silence is Golden”, um dos destaques do LP, é muito bonita em sua harmonia vocal; é uma cover da banda americana The Four Seasons, e como não conhecia a versão original (nunca dei muita importância para a banda do Frankie Valli), fui atrás dela – e gostei mais da cover do Tremeloes. “Norman Stanley James St. Clare” soou um pouco como Procol Harum do primeiro LP, só faltou o Hammond. “Cool Jerk” é um clássico, e ficou legalzinho, mas a versão original do The Capitols, neste caso, é melhor. “I’m With You All the Way” não chamou a atenção e “Sing Sorta Swingle” até é boa, mas tem uma fuga vocal no meio, entremeada por risadas, que estragou tudo... Bom que “Too Many Fish in the Sea” é bem boa, com um órgão muito legal. O álbum conclui com “Come on Home”, uma baladinha interessante. No geral, este álbum batizado com o nome dos quatro músicos foi uma surpresa agradável, mas não vai me fazer sair correndo atrás do resto da discografia da banda. Agradeço a quem o recomendou por me chamar a atenção para ele!


The Zombies - Odessey and Oracle [1968]

Por Daniel Benedetti

Escolhi Odessey and Oracle, pois foi um dos álbuns mais ousados da década de 1960, misturando melodias alucinantes e sons exuberantes do Mellotron comandado por Rod Argent. A forma como as harmonias vocais são construídas são outro ponto alto. Também destaco a seção rítmica formada por Chris White e Hugh Grundy, os quais fornecem um certo peso às canções. Músicas como "Care of Cell 44", "Changes", "Butcher's Tale (Western Front 1914)" e "Time of the Season" falam por si mesmas. Apesar de sua qualidade, a falta de sucesso e demanda por shows fez deste o “último” disco do Zombies até reuniões futuras.

Anderson: Não poderia faltar algo voltado para o psicodélico. Deste modo a lacuna está preenchida com louvor. Esse material é resultado dos últimos suspiros da banda que gravou apenas dois álbuns antes de retornar nos anos 1990. Tecnicamente colocaria esse álbum em outro patamar nessa lista junto com o do Yardbirds. As harmonias são fantásticas, algo de jazz aqui e ali, psicodelia de ponta a ponta, algo de Rock ‘N’ Roll, porém já alçando os anos 1970. Algumas das músicas são clássicas como Hung Up on a Dream, Time of the Season e Butcher's Tale (Your Final Piece). Vou optar por não entrar em detalhes, acredito que os companheiros da resenha vão se desdobrar na obra! Recomendadíssimo.

André: Inacreditável pensar que a banda tinha acabado pela falta de sucesso e renda antes mesmo de lançarem este petardo. E não dá de aceitar que, novamente, o disco vendeu uma mixaria. O que estavam pensando a hippaiada da época? Aqui tem tudo o que eles gostam. O mundo é um lugar injusto. E os zumbis foram vítimas disso.

Davi: É curioso notar que várias revistas colocam esse álbum como um dos melhores de todos os tempos. Digo curioso porque, na época, muitos torceram o nariz para o disco. Inclusive, seu lançamento foi recusado, inicialmente, nos Estados Unidos onde só chegou às lojas 2 anos depois, quando o grupo não mais existia. Aquela velha história... A banda não deixou os chefões contentes com os números atingidos e isso levou à separação. O disco, de fato, é maravilhoso e mistura psicodelia e harmonia na dose certa. Um exemplo do que estou falando é a belíssima “Brief Candles”. Outra que eu gosto muito é a faixa de abertura “Care of Cell 44”. Como se não bastasse, ainda temos o o classicão “Time of the Season", uma gravação que considero simplesmente perfeita. Bela lembrança!

Líbia: Este é um álbum que, numa loja de discos, conquistaria pela capa, especialmente se você fosse um fã do visual psicodélico. Ele possui uma grandiosidade nas composições; na minha opinião, é muito original, por isso surpreende. Das minhas favoritas, "Beechwood Park" tem uma vibe psicodélica, mas também é muito emocional. "Brief Candles" tem harmonias semelhantes às dos Beatles? Provavelmente possui muita influência, mas tem uma essência única. "Hung Up On A Dream" é muito emocionante. Enfim, adorei este álbum; foi o que mais gostei de ouvir desta lista, álbum nota 10. Fiquei até triste com a história da banda em relação a indústria musical.  Deixo aqui o meu "Muito Obrigada" pela recomendação.

Mairon: Podem me chamar de maluco, mas considero este álbum uma cópia paraguaia de Pet Sounds. Basta ouvir as vocalizações em “Care of Cell 44″ e “A Rose for Emily” que essa sensação aparece de cara. Acho que é um disco bem trabalhado, principalmente na parte vocal e no piano de Rod Argent, e é óbvio que o mellotron dá uma cara diferente. As alternâncias entre acústico e elétrico de "Maybe After He's Gone", com ótimas vocalizações, são um dos pontos altos do álbum, assim como as "flautas" e todo o arranjo de "Changes", bem como manda o estilo psicodelia londrina de 68. Não é um disco ruim, mas não entendo todo o auê que fazem com ele, e também penso que a British Invasion aqui, em especial, já havia acabado. Fechando o comentário, ressalto que a clássica “Time of the Season” é certamente a melhor faixa do disco, e ela por si só já vale o LP, principalmente pelo solo de piano elétrico, o melhor momento da carreira do Zombies.

Marcello: Uma obra-prima tardia de uma banda que estava se desfazendo. Rod Argent e Chris White criaram um repertório de belas canções para marcar o fim dos Zombies, cansados de muito batalhar e pouco obter em troca. Gravado entre junho e setembro de 1967 e lançado em abril de 1968, “Odessey and Oracle” inclui doze composições originais, das quais cinco foram escritas pelo tecladista Rod Argent e sete pelo baixista Chris White; as gravações foram complicadas e, para todos os efeitos, a banda estava nas últimas. O quinteto se completa com Hugh Grundy na bateria, Paul Atkinson na guitarra e Colin Blunstone nos vocais. Do início com “Care of Cell 44” ao encerramento com “Time of the Season”, “Odessey...” oferece apenas pérolas do pop psicodélico do final dos anos 60. Além dessas músicas, gosto muito de “A Rose for Emily”, “Beechwood Park”, “Hung Up on a Dream”, “I Want Her, She Wants Me” e “Friends of Mine”, mas o disco todo se mantém em alto nível o tempo todo, o que o faz ser um daqueles álbuns especiais que você ouve sem pular nenhuma faixa. Mas, quando foi lançado, “Odessey...” seguiu o caminho para o anonimato, sem chamar a atenção do público; em 1969, “Time of the Season” começou a tocar nas rádios americanas e virou um hit, o que fez com que houvesse uma demanda por shows e turnês – mas os Zombies já tinham acabado após um último concerto em dezembro de 67 (o que levou ao surgimento de vários “fake Zombies” pelos EUA!). Quando a banda se reuniu nos anos 90, “Odessey...” foi finalmente executado ao vivo por quem era de direito, e de lá em diante várias turnês capitaneadas por Blunstone e Argent levaram o álbum adiante. Este é daqueles discos que não podem faltar na coleção de quem gosta de rock, ponto final.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Cinco Discos Para Conhecer: Manito

Antonio Rosa Sanches nasceu no dia 3 de abril de 1943 em Vigo, Ponte Vedra (Galícia), Espanha. Manito faleceu em 9 de setembro de 2011, em casa, na capital paulista, vítima de um câncer na laringe, contra o qual lutava desde 2006. O corpo está enterrado no Cemitério Horto Florestal, na Zona Norte de São Paulo.

Desde pequeno, revelou inclinação para a música, tocando diversos instrumentos. Vindo ao Brasil, em  1962 formou o The Clevers, onde era saxofonista, ao lado de Netinho (bateria), Mingo (guitarra-base), Risonho (guitarra-solo) e Nenê (baixo). Na sequência, a banda mudou o nome para Os Incríveis, começando então uma carreira fantástica e emblemática em terras brasilis. Com participação em diversos álbuns, é difícil selecionar apenas cinco obras que representem a categoria e o talento de um multi-instrumentista. Mas, dentre tantas opções, tentei selecionar aqui aqueles que julgo constiuirem ser suas obras mais relevantes. 

Os Incríveis - Para os Jovens que Amam os Beatles, Rolling Stones e... Os Incríveis [1967]

Os Incríveis possuem uma obra fantástica, concretada sobre versões para canções de artistas internacionais. Nesse álbum, terceiro da banda, podemos conferir toda a diversidade de estilos e instrumentos de Manito em estado bruto. Ele é o centro das atenções no saxofone nas instrumentais "Minha Oração (My Prayer)", "Não Resta Nem Ilusão" (bonito arranjo vocal nesta), "O Homem do Braço de Ouro (Delilah Jones)" e "You Know What I Want", todas ótimos rocks anos 50/60, e é o cerne ao órgão farfisa durante a balada rock "Nosso Trato (Se Giá D'Un Altro)", além de bases para diversas outras canções, como a bonita "Perdi Você" e a clássica "O Milionário (The Milionaire)", ambas instrumentais e principais canções da carreira do guitarrista Risonho. Mas a escolha de Para os Jovens que Amam os Beatles, Rolling Stones e... Os Incríveis estar aqui é "Czardas". O trabalho virtuoso de Manito no órgão nessa linda canção de Vittorio Monti é extremamente complexo, valendo cada segundo de audição, seja pela introdução singela, com longas notas, seja pela peça central, onde os dedos de Manito sobem e descem o órgão com uma agilidade e velocidades únicas. Linda faixa, e uma obra atemporal!

Mingo (voz e guitarra), Risonho (guitarra), Manito (teclados, vocal e saxofone), Netinho (bateria), Nenê (baixo)

1. Minha Oração  

2. Vai, Meu Bem  

3. Nosso Trato

4. Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones

5. O Homem do Braço de Ouro

6. O Milionário

7. Molambo

8. You Know What I Want

9. Czardas

10. Perdi Você

11. Nosso Abraço aos Beatles e Rolling Stones

12. Não Resta Nem Ilusão

Manito - O Incrível Manito [1970]

Estreia solo do músico (que curiosamente só lançou dois discos em carreira solo), aqui ele faz adaptações com muito groove para um repertório bastante versátil. É um grande disco de soul music e rock'n'roll, que se circulasse entre o pessoal dos Panteras Negras, com certeza teria fácil aceitação. Assim, admire "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), com o baixão delirante e muito groove, destacando o vozeirão rouco de Dom (da dupla Dom & Ravel), cantando em inglês (que swing), único single da bolacha, e também os rockaços com as vozes do grupo Som Beat, Carlinhos e Haroldo, em  "Shake, Rattle & Roll" e "Judge Baby, I'm Back" (Carlinhos) e "The Funky Judge" (Haroldo). Mas é no instrumental que o bicho pega, vide a excepcional versão de "Kool and the Gang", ou o espetáculo sonoro de "The Gangs Back Again" e "Sock It to 'Em J. B.", ambas com Manito mandando ver no solo de saxofone. Queria muito descobrir quem é o baixista neste disco, infelizmente não consta nos créditos da contra-capa. O cara toca demais, e não creio que seja Manito. O piano e o órgão são os instrumentos centrais de "Tuck's Theme" e "Samuray", e claro, Manito está tocando muito em todas elas. Destoam somente a Santaniana "Bailamos Boogaloo", que não é uma faixa ruim, mas é bem abaixo das demais, e a baladaça "Raindrops Keep Fallin' On My Head", com Manito brilhando ao saxofone e uma bela orquestração a cargo de Chiquinho de Moraes. Um disco que deveria ser mais conhecido e citado entre as grandes obras da música nacional.

1. Na Baixa Do Sapateiro

2. Shake, Rattle & Roll

3. Kool And The Gang

4. The Funky Judge

5. Bailamos Boogaloo

6. Sock It To 'Em J.B.

7. Samuray

8. Judge Baby, I'm Back

9. Tuck's Theme

10. Raindrops Keep Fallin' On My Head

11. The Gangs Back Again

12. You've Made Me So Very Happy

Som Nosso De Cada Dia - Snegs [1974]

Antes de gravar esse álbum, Manito fez brevemente parte dos Mutantes de Sérgio Dias, substituindo nada mais nada menos que Arnaldo Baptista. Os dias como mutante foram poucos, e logo ele retomou uma parceria com Pedrão Baldanza e Pedrinho Batera, gravando talvez o disco mais versátil da sua carreira, e também o mais cultuado dentre os aqui apresentados. Snegs é uma aula de rock progressivo a ser descoberta pelo mundo. Em especial, nosso homenageado está endiabrado nos mais diversos instrumentos, vide o ápice com os solos de moog, sintetizadores e violino da Maravilha Prog "Sinal da Paranóia", sendo que o solo de violino é para abrir um sorriso de ponta a ponta na face de Jean Luc-Ponty. Ao longo dos 45 minutos do álbum, Manito desfila sua arte principalmente nos teclados, mas também chama a atenção o casamento vocal perfeito com o de Pedrão em faixas como as delicadas "Snegs de Biufrais" e "Direccion de Aquarius". Destaco ainda o experimentalismo de sintetizadores, moog e hammond na complexa seção instrumental de "Massavilha", onde Manito é um espetáculo a parte, a participação essencial do moog e do hammond em "Bicho do Mato", e principalmente "O Som Nosso De Cada Dia", com uma fantástica introdução levada pelos ágeis dedos de Manito, assim como um belo solo de saxofone e bases viajantes de hammond, o que acontece também na introdução e nas bases emotivas ao hammond para "A Outra Face", com mais um grande solo de hammond e também de saxofone. Um dos melhores discos do rock nacional, e para mim, a obra prima de Manito. 

Manito (saxofone, teclados, violino), Pedrão (viola, baixo e vocal), Pedrinho (bateria e vocal) e Marcinha (coro)

1. Sinal da Paranóia

2. Bicho do Mato

3. O Som Nosso de Cada Dia

4. Snegs de Biufrais

5. Massavilha

6. Direccion de Aquarius

7. A Outra Face

Zé Ramalho - Força Verde [1982]

Depois de sair do Som Nosso de Cada Dia, Manito fez registros junto com Rita Lee e a Tutti Frutti (Fruto Proibido e Babilônia) e se afastou da música durante um tempo, até ser redescoberto por Zé Ramalho em 1982, neste discaço. Apesar de não participar de todas as músicas, Manito faz o trabalho crucial de Midas naquelas onde ela toca. Assim, o cara vem com seus dois principais instrumentos, saxofone e órgão, em apenas três faixas, o suficiente para colocar este álbum aqui. Com o saxofone barítono, faz importantes inserções e um emocionante solo na polêmica faixa-título (veja por que aqui), da qual destaco também o belíssimo arranjo de cordas, assim como as bonitas passagens do alto-saxofone durante "Visões de Zé Limeira Sobre O Final Do Século XX". Porém, o ápice vai para o incrível solo de hammond de "Eternas Ondas", relembrando a virtuosidade de "Czardas" acompanhando um magistral arranjo vocal (que inclui, entre outras, a voz brilhante de Jane Duboc), e que faz desta canção facilmente um Top 3 de toda a obra de Manito. Com o bardo paraibano, ainda gravou Orquídea Negra (1982) e Por Aquelas Que Foram Bem Amadas Ou Pra Não Dizer Que Não Falei De Rock (1984), mas sem ter o status que atingiu em Força Verde, um dos melhores discos do paraibano (se não o melhor). 

Zé Ramalho  (violão, voz, arranjos); Luiz Paulo Simas (Órgão em 3, 8, piano em 1, 2, 4, 5, 6, 9); Chico Julien (baixo); Rui Motta (bateria); Herman Tôrres (viola de 12 cordas em 1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9), Manassés (viola de 12 cordas em 1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9)

Coral Do Joab (Backing Vocals em 2 e 7)
Cordas em 1, 5, 7, 9: 

   Cello – Alceu de Almeida Reis; Jaques Morelenbaum; Marcio Mallard 

    Viola – Arlindo Penteado; Frederick Stephany; Hindemburgo Pereira; Nelson Macedo Baptista

    Violinos – Aizik Geller; Alfredo Vidal; André Charles Guetta; Carlos Eduardo Hack; Paschoal Perrota; Giancarlo Pareschi; Jorge Faini; José Alves; José Dias de Lana; João Daltro; Virgílio Arraes;  Walter Hack

Marinês (vocal principal em 5)

Claudinha Telles; Jane Duboc; Miram Perachi (Coral em 1, 4, 6)

Sivuca (Sanfona em 3, 5, 8, 9)

Ubiratan Silva (Congas em 5, 6)

Waldemar Falcão (Flauta em 3, 4, 5, 6, 8)

Ubiratan Silva (Ganzá em 2, 3, 7);  

Zé Gomes (Pandeiro em 3 e 6, Ganzá em 1)

Cícero (Percussão em 3, Zambumba em 5 e 6)

Aurélio (Saxofone em 3, 6)

Zé Nogueira (Saxofone em 3, 6)

Zé Leal (triângulo em 3, 5, 6, 9)

Moisés (trombone em 3, 6)

Bidinho (trompete em 3)

Marcio Montarroyos (trompete em 3)

Rafael Baptista (violão de 7 cordas em 10)

Geraldo Azevedo (violão em 10)

Braz Limongi (Oboé em 7)

Celso Porta (flauta em 9)

Franklin (flauta em 9)

Paulo Guimarães (flauta em 9) 

Ricardo Pontes (flauta em 9)

Bruno (Fagote em 10)

1. Força Verde

2. Eternas Ondas

3. O Monte Olímpia

4. Visões De Zé Limeira Sobre O Final Do Século XX

5. Banquete De Signos

6. Pepitas De Fogo

7. Beira-Mar - Capítulo II

8. Os Segredos De Sumé

9. Amálgama

10. Cristais Do Tempo

Camisa de Vênus - Duplo Sentido [1987]

O disco de (então) despedida do Camisa de Vênus conta com a mão de Manito em diversas faixas. Em especial, ele surge em um estilo totalmente diferente do que acostumamos antes no punkzaço "Após Calipso", onde usa saxofone, fazendo um solo quase free jazz, flauta, com dois solos bem virtuosos, e violino, com um breve e violento solo final, mostrando que um cara que tem talento consegue colocar instrumentos de sopro e cordas até no punk. Ao mesmo tempo, Manito usa o saxofone no solo de encerramento do rock "Chamam Isso Rock And Roll", no solo da introdução e central do bluezão "Me Dê Uma Chance", importantes passagens no clássico "Muita Estrela, Pouca Constelação", com a eterna participação de Raul Seixas, que acabou alavancando bastante o álbum, no solo/dueto com a guitarra do Post-Punk "O Suicídio Parte II", outro estilo bem "estranho" ao que conhecemos na carreira de Manito, e órgão hammond em "A Canção Do Martelo (Hammer Song)", faixa de Alex Harvey e sua Sensational Alex Harvey Band, ícone da Glam Rock, e que aqui ganha tons dramáticos. Enra justamente pelos estilos inusitados aos quais Manito está incubido de tocar, e o faz com maestria. 

Marcelo Nova (vocais), Gustavo Mullen (guitarras), Karl Hummel (guitarras), Aldo Machado (bateria), Robério Santana (baixo)

Vera Natureza, Maria Aparecida de Souza (Cidinha), Rita Kfouri e Nadir: vocais de apoio

Manito: Saxofone, Hammond, flauta e violino

Sérgio Kaffa (piano)

Chiquinho Brandão (serrote)

Luiz Carlos Batera (percussão)

Mica Griecco (harmônica)

1. Lobo Espiatório

2. O País Do Futuro

3. Ana Beatriz Jackson

4. Vôo 985

5. Após Calipso

6. Me Dê Uma Chance

7. Deusa Da Minha Cama

8. Chamam Isso Rock And Roll

9. Muita Estrela, Pouca Constelação

10. O Último Tango

11. O Suicídio Parte II

12. Chuva Inflamável

13. Enigma

14. Farinha Do Desprezo

15. A Canção Do Martelo

16. Aluga-se

17. Canalha

* Bônus Track: Como um bônus, fica também esse inacreditável duelo percussivo de Manito e Netinho, gravado para um especial da TV Cultura de 1972.




quinta-feira, 28 de março de 2024

A Breve e Importante História da James Gang [Parte II]

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Dale Peters, Jim Fox, Roy Kenner e Tommy Bolin

A saída de Domenic Troiano não afetou a personalidade do quarteto, que foi buscar na ensolarada Miami o novo dono das seis cordas, o exímio e novato Tommy Bolin, indicado pelo formador Joe Walsh. Com apenas 21 anos, o músico vinha de uma passagem soberana no obscuro grupo Zephyr, e assumiu a guitarra da James Gang com tanta personalidade que muitos fãs até desconfiam que houve uma carreira pré-Bolin com a banda.

Foram apenas dois álbuns, o suficiente para chamar a atenção do mundo, principalmente do Deep Purple, que o levou para substituir nada mais nada menos que Ritchie Blackmore, e que trarei agora, encerrando a segunda parte com os últimos lançamentos oficiais dessa gloriosa banda do hard setentista.


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Bang [1973]

A estreia de Bolin é um disco acima do comum, e na minha opinião, o melhor disco da carreira do James Gang. Tendo na formação além de Bolin o vocalista Roy Kenner, o baixista Dale Peters e o baterista Jim Fox, é o gurizão das roupas coloridas que toma conta, chegando com tudo ao anotar oito das noves composições de um LP sensacional. Quem conhece a curta carreira do guitarrista americano, ou apenas o álbum Come Taste the Band (gravado por ele junto ao Deep Purple em 1975), irá descobrir que as linhas de guitarra e os efeitos que tanto marcaram suas performances já se faziam presentes por aqui, seja na viajante introdução de "Standing in the Rain", utilizando diversos efeitos na guitarra, ou no espetacular solo de "From Another Time", onde ele desossa os dedos em uma faixa percussiva que deve ter agradado e muito ao chicano Carlos Santana. Bolin traz para a banda o uso do moog sintetizado, que abrilhanta o petardo setentista "Ride the Wind". Dois fatores a mais para a entrada de Bolin é que a James Gang ganhou mais um incrível vocalista, pois poucos tinham a capacidade de colocar tanto açúcar na voz quanto Bolin, que derrete calcinhas na lindíssima "Alexis", por incrível que pareça, ainda mais malemolência, como no sensual embalo da versátil "Must Be Love", com Bolin estraçalhando com o slide na introdução e fazendo um solo de tirar o fôlego. Quem procura algo da James Gang dos discos anteriores, encontrará no embalo acústico de "Got No Time For Trouble", na verdade uma canção muito mais Zephyr do que James Gang. Aqui comprovamos que Bolin levou suas características para o grande grupo inglês, com uma personalidade exclusiva de um dos poucos gênios da guitarra que apareceram na década de 70, e que acabou indo curtir outras bandas muito cedo. Exemplo maior dessa influência James Ganguiana no som do Purple está no riff de "The Devil is Singing Our Song", pois duvido que você não imagine os vocais de David Coverdale ou Glenn Hughes. A única composição sem a mão de Bolin, "Rather Be Alone With You (Song for Dale)" é uma maravilhosa criação  vocal de Kenner, sem a participação de nenhum instrumento, apenas vozes e palmas mandando ver em um soul sensacional. O melhor ficou para o final, onde segurar as lágrimas com o lindíssimo arranjo de cordas de Jimmie Haskell na linda "Mystery" é missão impossível, ainda mais com os dedilhado do violão de Bolin fazendo cada molécula de seu corpo vibrar. Música linda, que encerra um álbum raro na história da música, pois afinal, desconheço outro onde um novato chegou com tanta personalidade em um grupo veterano e simplesmente assumiu a posição de maior destaque. Nota 11 em 10, e um dos melhores discos da história fácil fácil.


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Miami [1974]

A influência e importância de Bolin para a James Gang foi tamanha que sua cidade Natal foi responsável por batizar o sétimo álbum do grupo, o qual revela ainda mais a capacidade de um agora cobiçado Bolin, já que suas performances em Bang e no incrível Spectrum, lançado por Billy Cobham no outono americano de 1973, chamaram a atenção de todo o mundo. O disco possui de tudo um pouco, sendo bem mais versátil que Bang. Apreciadores de Deep Purple coloquem a agulha direto em "Do It", e se apavorem com o que o guri faz na guitarra, despejando peso, velocidade e rifferama como poucos, ou então, chame a sua garota para mais uma vez derreter sua calcinha na bela "Spanish Lover", uma das canções marcantes da carreira do guitarrista colorido. Outra baladaça, "Sleepwalker", destaca a arrepiante interpretação de Kenner e o magistral slide guitar de Bolin, numa das peças mais bonitas do grupo, enquanto "Cruisin' Down the Highway" mistura elementos southern com pesadas passagens de slide, presentes também em "Summer Breezes", na qual eu diversas vezes penso ser uma faixa do Trapeze de Glenn Hughes que está saindo das caixas de som. Como sempre, temos espaço para canções mais swingadas, com "Wildfire" sendo a principal pepita a brilhar com essa característica, e se você quer curtir uma viagem, delire com as escalas jazzísticas de "Praylude", pequena peça instrumental que é acompanhada pela pesadíssima e maluquete "Red Skies", outra na qual Kenner mostra todos os seus dotes vocais. Para encerrar, temos a participação de Albhy Galuten com o sintetizador em "Head Above the Water", canção suave que encerra outro belo disco, taco-a-taco com Bang candidato a melhor da banda. A capa é a versão negra de Rides Again, o que acabou marcando entre os fãs o apelido de "Disco Preto".

Bolin acabou desiludindo-se com os problemas de drogas e álcool de seus companheiros - quem diria -, e foi gravar com Alphonse Mouzon, passeando pelas gélidas terras do Canadá na maravilhosa estreia do Moxy, fazendo Teaser, seu essencial álbum de estreia de 1975, e parando no Deep Purple para gravar o já citado Come Taste the Band. O James Gang deu uma pequena pausa, e em 1975, retornava com uma nova formação, tendo Fox, Peters, Bubba Keith (vocais e guitarras) e Richard Shack (guitarras).

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Richard Shack, Bubba Keith, Jim Fox e Dale Peters
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Newborn [1975]

Para muitos esse é o disco mais fraco do James Gang. Não consigo concordar com essa opinião, mas concordo que a sonoridade da banda mudou bastante com a saída de Bolin, fugindo inclusive do que foi produzido na era Walsh ou no período Troiano. O interessante é que assim como aconteceu com Bolin, dessa vez o estreante Bubba anotou dez das onze canções do LP, sendo sete em parceria com o também novato Richard Shack, o que me faz pensar onde foi parar a criatividade de Peters e Fox. Independente disso, a voz de Bubba é agradável de ouvir, principalmente na linda "All I Have", balada acústica onde o vocalista destaca-se com sobras, e na emocionante "Come With Me", apresentando George Ricci no violoncelo e Donny Brooks na harmônica. Acredito que a cisma dos fãs com esse álbum é por que a guitarra de Shack não brilha como a de Bolin ou Walsh. O guitarrista é tímido e por poucas vezes consegue se destacar, como na pesada "Earthshaker", grande canção que é fácil a melhor do disco, na pegada "Shoulda' Seen Your Face", sonzeira para balançar o pescoço sem dó, e na hardeira "Watch It", onde o quarteto soa como o grande grupo que os fãs esperam. Gosto bastante do rockzão "Red Satin Lover", onde o grupo rememora os arranjos vocais que se destacavam no início da carreira, mas não me agrada o ritmo country de "Cold Wind", com a participação da steel guitar de Al Perkins e do piano de Tom Dowd. Falando em country, o pianista e organista David Briggs deu uma cara southern na leve "Gonna Get By" e em "Merry-Go-Round", canção que abre o LP com o órgão sendo o destaque. Fox também usa o órgão como um dos instrumentos centrais de "Driftin' Dreamer", tendo o baixo de Fox estourando as caixas de som, assim como na pesada recriação do clássico "Heartbreaker Hotel", imortalizada na voz de Elvis Presley. A formação não durou muito tempo, com Bubba e Shack dando lugar a Bobby Webb (guitarras e vocais) e Phil Giallombardo (teclados, vocais e piano).

Bob Webb, Phil Giallombardo, Jim Fox e Dale Peters 
Bob Webb, Phil Giallombardo, Jim Fox e Dale Peters
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Jesse Come Home [1976]

A despedida da James Gang não é um grande álbum, infelizmente. O retorno de Giallombardo (que havia feito parte do grupo no início da carreira da banda) gerou um LP pouco inspirado e carregado de sacarose, trazendo baladas em excesso, como "Love Hurts", carregada na orquestração, ou a derretida "Peasant Song", onde o piano de Giallombardo nos faz lembrar Guilherme Arantes em sua fase Global, mas pelo menos o bonito arranjo orquestral a salva. Webb lidera os vocais em "Another Year", linda faixa comandada pelo bonito dedilhado de violão, e na qual a voz do tecladista casa muito bem com a suavidade que sai das caixas de som, e "Stealin' the Show", mais uma balada, só que essa bem viajante, com um brilhante hammond e muitos efeitos na guitarra. Outros bons momentos surgem na pegada rocker de "Hollywood Dream", a ótima instrumental "Pick Up the Pizzas", com seu riffzão pesadíssimo e a percussão de Nelson Flaco Pedron em destaque, o delírio hippie de "Feelin' Alright", última composição de Peters e Fox com a banda, os embalos funky de "I Need Love", e na trabalhada "When I Was a Sailor", mais uma balada trazendo cordas, metais, vocalizações e muitas variações de andamento.

Dale Peters, Joe Walsh, Jim Fox 
Dale Peters, Joe Walsh, Jim Fox na reunião de 2006

O James Gang reuniu-se várias vezes após seu término oficial em 1977, mas infelizmente, nunca mais registrou algo novo. Porém, sua curta discografia mostra que grandes bandas não necessitam de muitos álbuns para fazer história. Espero que os fãs da banda tenham gostado das descrições aqui apresentadas, e para quem não conhecia, que as matérias os tenham feito buscar os álbuns de um grandioso e praticamente desconhecido grupo, principalmente os clássicos da era Walsh e Bolin.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Cinco Discos Para Conhecer: Engodos Sob Alcunha Tim Maia


No dia 8 de março de 1998, enquanto gravava um show para a televisão no Teatro Municipal de Niterói, Sebastião Rodrigues Maia, ou simplesmente Tim Maia, acabou passando mal logo no início da apresentação. O síndico saiu carregado do palco, e foi diretamente internado no Hospital Universitário Antônio Pedro, com crise hipertensiva e edema pulmonar. Tim já vinha sofrendo com problemas de saúde, que não impediram ele de no ano anterior, lançar nada mais nada menos do que cinco álbuns pelo seu selo Vitória Régia: Amigo do Rei (com o grupo Os Cariocas), What A Wonderful World, Oldies But Goodies, Pro Meu Grande Amor, Só Você – Para Ouvir E Dançar e Sorriso de Criança

Uma semana depois, sofrendo de uma grave infecção, acabou falecendo aos 55 anos por falência múltipla de órgãos, deixando o Brasil inteiro em comoção e com uma saudades tão grande quanto seu enorme talento. Muitos discos póstumos surgiram no mercado, e hoje, apresento cinco deles, os quais foram lançados como sendo compostos de faixas inéditas de Tim, mas que para um fã do artista, soam como um engodo gigante, que serve apenas para gerar uns níqueis a mais às custas de ter a alcunha Tim Maia. Mas, se alguém gostar dos discos abaixo e achar que não está sendo enganado, parabéns! 

Seus últimos registros foram feitos nos Estúdios Vitória Régia, ainda em 1997, com um projeto audacioso no qual Tim foi convidado a gravar os hinos dos quatro grandes clubes de futebol do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco). A ideia surgiu após o músico eternizar sua rouca voz para o hino do América do Rio de Janeiro no CD Os Hinos dos Grandes Clubes Brasileiros Cantados Por Feras Do Rock E Da MPB, lançado junto da Revista Placar n° 1114 de 1996, apresentando o Ameriquinha, um clube tradicional carioca, mas não um dos grandes do Brasil, para uma geração inteira de seguidores de Tim e amantes do futebol. Naquele CD, ainda há nomes diversos como Ultraje a Rigor (São Paulo), Herbert Vianna e Falcão do Rappa (Flamengo), Kleiton e Kledir (Internacional), Paulo Miklos (Santos), Luis Melodia, Fernanda Abreu e Celso Blues Boy (Vasco) entre outros. 

A última imagem de Tim em vida

Tim havia começado o projeto, registrando sua voz para os hinos de Flamengo, Fluminense e Vasco, quando veio a falecer (ficando o do Botafogo sem a oportunidade de ter a aveludada voz do Síndico), e eis que então, através do produtor Claudio Mazza, o projeto seguiu adiante. Trazendo então a propaganda de "O Último Registro de Tim Maia", no início dos anos 2000 saíram  três CDs, cada um para um dos grandes times que Tim havia gravado os hinos, e que são verdadeiro caça-níqueis em cima do nome Tim Maia. E os três estão fortemente inseridos aqui, nesta indicação que serve para conhecer não no sentido de "ouça", mas sim de saber do que que se trata. Pela ordem de lançamentos, vamos a eles

Dance Com O Hino do Seu Clube: Hino Flamengo [2000]

Este foi o primeiro lançamento da Mazza Music, sob número 828817 001, e claro, o nome de Mazza fica evidente como o cérebro deste engodo. O álbum começa com o vozeirão de Tim cantando a estrofe central do Hino do Flamengo, e então, com 50 segundos, surgem sintetizadores e eletrônicos, assim como diversos outros instrumentos, enquanto a voz de Tim falando algumas de suas frases clássicas (libera, libera, que beleza, quem não dança segura a criança, simbora, vitória régia etc) são intercaladas. Tim canta o hino sobre uma base eletrônica, e este é o único momento interessante do CD, com o "ai Jesuis" de Tim sendo bem engraçado de ouvir. A faixa dura 3 minutos e 48 segundos, e então o CD passa a rodar mais 7 faixas eletrônicas gritantemente irritantes. É difícil dizer o que é pior, se "Pancadão da Raça" (apresentada em uma versão normal e versão remix, que praticamente forma uma única faixa de 9 minutos entediantes), começando com o grito da torcida do Flamengo seguida por insuportáveis 8 minutos de batidas dance e ritmos eletrônicos, misturando alguns gritos da torcida, e que em nada tem a ver com Tim Maia, ou as três desinteressantes versões de "Dance Fla" (normal, extend e instrumental), que nada mais são do que o instrumental do hino do Flamengo repetidos a exaustão, acrescentando vocalizações, gritos de torcida e muitos eletrônicos. Ainda se tem o hino do Flamengo de forma instrumental para Karaokê, assim como repete a mesma faixa inicial após o tal Pancadão (duas faixas iguais no mesmo CD?!) e o engodo encerra com um registro da torcida do Flamengo de pouco mais de 45 segundos, e é isso. A farsa é tamanha que em 2001, com o título do Bi-Campeonato Carioca conquistado pelo time da Gávea, Mazza resolveu relançar essa "coisa" (Mazza Music 82881 7002) com mais alguns gritos de torcida e uma provocação ao Vasco, com a urubuzada gritando "Vice De Novo". Cansativo!

Igor Araújo (baixo em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Roberto Lly (baixo, teclados e bateria em 3,4); Kesso Fernandes (bateria em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Márcio Mazza (bateria em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Claudio Mazza (bateria, baixo e teclados em 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, vocais em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Rogério Lopes (guitarra, vocais de apoio em 1, 2, 5, 6, 7, 8);  João Bosco Nóbrega (teclados e vocais de apoio em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Leg Rinsgted (percussão e vocais de apoio em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Evaldo Robson (saxofone e vocais em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Elias Corrêa (trombone e vocais de apoio em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Marcos Belchior (trompete em 1, 2, 5, 6, 7, 8); Cidália Castro (vocais de apoio em 1, 2, 5, 6, 7, 8)

1. Hino Do Flamengo

2.Dance Fla

3. Pancadão Da Raça

4. Pancadão Da Raça [Remix]

5. Hino Do Flamengo

6. Dance Fla [Extend]

7. Hino Do Flamengo [Karaokê]

8. Dance Fla [Instrumental]

9. Grito Da Torcida [Bonus Track]

Dance Com O Hino do Seu Clube: Hino Vasco [2001]

Este álbum foi lançado sob número (82881 7003). Assim como do arqui-rival Flamengo, o CD do Vasco tem como único atrativo a voz de Tim cantando o hino do Gigante da Colina, e só. Mazza novamente traz eletrônicos à exaustão, tanto na música principal quanto em "Techno Vasco" (versão normal e remix), novamente em algo que parece uma única faixa, que é um techno com inserção de gritos da torcida do Vasco, ao menos agora só (!) com cinco minutos e 30 segundos, faz a versão Karaokê para o hino do Vasco, e piora o que já veio do disco do Flamengo com "Vasco Dance", com o ritmo dance do hino e inserção de gritos da torcida, e "Vasco Rave" (ambas versões normal e remix), em versões intermináveis de batidão, eletrônicos e gritos de torcida, e um "Vasco da Gama" dito por Tim Maia vez que outra. Como novidade, acrescenta gritos da torcida (as mesmas que aparecem em "Vasco Rave", "Techno Vasco" e "Dance Vasco") também como faixas individuais, com pouco mais de 20 segundos ("O 'Maraca' É Nosso, Lê Lê Lê O Vasco, Grito Do Vaco e Torcida Vasco), que servem para aumentar o tempo de duração de um engodo que tão pouco acrescenta alguma coisa para o CD ou para a discografia de Tim. Ao menos aqui ele não teve a indecência de repetir o hino do Vasco da Gama, como fez com o hino do Flamengo, e a coisa felizmente se acaba com menos de 30 minutos. Mesmo assim, fuja!

Igor Araújo (baixo em 1, 2, 10, 11); Roberto Lly (baixo, teclados e bateria em 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 12, programação de bateria em 1, 2, 10 e 11); Claudio Mazza (bateria, e baixo em 3,4, 5, 6, 7, 8, 9, 12, teclados em  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, vocais de apoio em 1, 2, 10 e 11); Rogério Lopes (guitarra e vocais de apoio em 1, 2, 10, 11);  João Bosco Nóbrega (teclados e vocais de apoio em 1, 2, 10, 11); Leg Rinsgted (percussão em 1, 2, 10, 11); Evaldo Robson (saxofone em 1, 2, 10, 11); Marlon Sette (trombone em 1, 2, 10, 11); Marcos Belchior (trompete em 1, 2, 10, 11); Cidália Castro (vocais de apoio em 1, 2, 10, 11)

1. Hino Do Vasco Da Gama

2. Vasco Dance

3. Techno Vasco

4. Techno Vasco [Remix]

5. O "Maraca" É Nosso

6. Lê Lê Lê O Vasco

7. Vasco Rave

8. Vasco Rave [Remix]

9. Grito Do Vasco

10. Hino Do Vasco [Karaokê]

11. Vasco Dance [Remix]

12. Torcida Vasco


Dance Com O Hino do Seu Clube: Hino Fluminense [2001]

Quarto lançamento da Mazza Music (82881 7004), mantém o padrão dos seus antecessores, com a voz de Tim sendo o atrativo para um dos hinos mais belos do futebol nacional, em homenagem ao tricolor carioca, o qual possui ainda mais elementos eletrônicos do que os antecessores, com sintetizadores por vezes remetendo a "Descobridor dos Sete Mares". Daí vem "Dance Flu" (versões normal e remix), que até tem um interessante solo de teclado, "Festa Flu" (versões normal e remix, com insuportáveis 6 minutos e meio de muito bate-estaca, somadas as duas) e a tediosa "Techno Flu" (tambem nas versões normal e Remix, com pouco mais de 6 minutos, e bota chato), nada criativo. Além disso, adições de gritos da torcida do Fluminense em trechos pequenos ("Grito do Flu", "A Torcida do Fluzão", "Nense" e "Eh! Oh! Tricolor"), e a famigerada versão Karaokê do hino, totalizando pouco mais de 30 minutos. No âmbito geral, seria bem mais honesto Mazza ter lançado em um único CD os três hinos, com a mixagem que quisesse, mas três CDs individuais, onde a voz de Tim é usada e usurpada de forma tão deliberante, é uma piada sem tamanho.

Igor Araújo (baixo em 1, 2, 10, 11); Roberto Lly (baixo, teclados e bateria em 3,4, 5, 6, 7, 8, 9, 12, programação de bateria em 1, 2, 10, 11); Claudio Mazza (bateria, baixo em 3,4, 5, 6, 7, 8, 9, 12, teclados em 1, 2, 3,4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12, vocais de apoio em 1, 2, 10 e 11); Rogério Lopes (guitarra e vocais de apoio em 1, 2, 10, 11); João Bosco Nóbrega (teclados e vocais de apoio em 1, 2, 10, 11); Leg Rinsgted (percussão em 1, 2, 10, 11); Evaldo Robson (saxofone e vocais de apoio em 1, 2, 10, 11); Marlon Sette (trombone em 1, 2, 10, 11); Marcos Belchior (trompete em 1, 2, 10, 11); Cidália Castro (vocais de apoio em 1, 2, 10, 11), Micheline Linhares (vocais de apoio em 1, 2, 10, 11)

1. Hino Do Fluminense

2. Dance Flu

3. Grito Do Flu

4. Festa Flu

5. Festa Flu [Remix]

6. A Torcida Do Fluzão

7. Techno Flu

8. Techon Flu Remix [Remix]

9. Eh! Oh! Tricolor

10. Hino Do Fluminense [Karaokê]

11. Dance Flu [Remix]

12. Nense


A Festa do Tim Maia [2002]

Esse engodo não tem a mão de Claudio Mazza, mas sim  DJ Memê. Sei lá de onde o cara tirou a ideia de fazer uma adaptação de clássicos de Tim para versões "dançantes" (techno, pode se dizer), e assim, acabar destruindo com uma obra atemporal. A abertura com "Intro Festa" apresenta um pessoal chegando para uma festa, e então, começa o bate-estaca interminável, interlacado por gritos como se fosse realmente uma festa. Pouca coisa se aproveita aqui, e as remixagens são em maioria demasiadamente longas. DJ Memê readaptou a voz de Tim Maia, e algumas falas, para fazer atrocidades em "Do Leme Ao Pontal", "Não Quero Dinheiro", "Vale Tudo", "Você" e principalmente, as tinhosas "Gostava Tanto de Você", "Sossego" e "Você E Eu, Eu E Você". Músicas originalmente animadas ficam até que bem remixadas aqui, vide "A Festa Do Santo Reis", "Acenda O Farol" e "Azul Da Cor do Mar", talvez a melhor remixagem do trabalho, mas nada que supere o original. Em comparação aos outros quatro desta lista, este é o melhorzinho, mas mesmo assim, digno de se passar longe!

1. Intro Festa

2. Vale Tudo (In My House Memê Mix)

3. Acenda O Farol (Memes's Philly Flavor Mix)

4. Você E Eu, Eu E Você (Juntinhos) (M&M Electro-La Rmx)

5. Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) (Memê 2002 Mix)

6. Sossego (The Underground Solution Mix)

7. Você (The Blacksuit Mix)

8. Azul Da Cor Do Mar (Memê Meets Corello Mix)

9. Gostava Tanto De Você (Memê's Liquid Kitchen Experience)

10. Do Leme Ao Pontal (Memê's Febre Mix)

11. A Festa De Santo Reis (Maresias Club Mix)

12. Só Mais Uma (Vinheta)

13. Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) (Ibiza Sunset Mix)


Forró Do Brasil [2003]

Essa é daquelas coisas que os desconhecedores da carreira de Tim acabam caindo como um rato na ratoeira. Amplamente divulgado como "O Último Disco de Inéditas de Tim Maia", na verdade é um engodo promovido por Cláudio Mazza (ele novamente), junto de um time com mais de 20 músicos, englobando uma espécie de "coletânea" de cinco discos lançados por Tim no fim de sua carreira, entre 1994 e 1998, porém apenas com a voz de Tim, e uma mixagem em ritmo de forró. Assim, o ouvinte em pouco ais de 45 minutos passa por sofríveis versões para "O Nordeste É Lindo" e "O Que Vem Da Bahia" (de Voltou Clarear), com a última sendo a única a ser possível de se chamar de boa, por conta da sua bela introdução; "Estória De Cantador", "Nanã", "Pra Fazer Você Feliz", "Tudo Era Lindo" (de Pro Meu Grande Amor, com "Pra Fazer Você Feliz" sendo uma adaptação para "Pra Fazer Você Sorrir", que ficou lamentavelmente lamentável), "O Pescador", "Sorriso De Criança" e "Sozinho" (Sorriso de Criança), "Ter Você É Ter Razâo" (Amigo do Rei) e "Cross My Heart" e "Vixe" (Só Você, Pra Ouvir E Dançar). Dentro da proposta do forró, com muito esforço soam agradáveis ao ouvido "O Nordeste É Lindo", "Ter Você É Ter Razão" ou "Tudo Era lindo", que até dá de se ouvir imaginando uma Elba Ramalho ou um Alceu Valença cantando por exemplo, e que com a voz rouca e grave de Tim ficaram somente ok. Por outro lado, é constrangedor ouvir "Cross My Heart", misturando country com reggae e forró (horrível!!), lamentável a desfaçatez de "Sozinho", clássico de Peninha imortalizado somente com vo e violão por Caetano Veloso, e detestável o que fizeram com as canções-manifesto "O Pescador", "Sorriso De Criança" e "Vixe", que em nada combinam com o ritmo alegre proposto por Mazza. No contexto geral, é um disco totalmente esquecível, e não digno de fazer parte da discografia do Síndico, que como o próprio Cláudio Mazza afima nos liner notes do CD, possui uma obra atemporal!

1. Pra Fazer Você Feliz

2. O Nordeste É Lindo

3. Sorriso De Criança

4. Ter Você É Ter Razâo

5. Estória De Cantador

6. Nanâ

7. Vixe

8. Cross My Heart

9. Tudo Era Lindo

10. Sozinho

11. O Pescador

12. O Que Vem Da Bahia

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Luau MTV 2002



Ah o verão. Quanta coisa boa podemos fazer nessa época do ano, principalmente nas praias. E uma das grandes situações que os jovens adolescentes do início deste século (dos quais me incluo) viveram relacionados com música e praia foi o Luau MTV, programa de televisão exibido anualmente na programação de verão da MTV Brasil entre 1996 e 2013. Durante o verão, a emissora convidava artistas e bandas para tocar na praia, ao som acústico com violão e percussão. O programa foi apresentado por diversas VJs da casa, entre elas, Carla Lamarca, Cuca Lazzarotto, Fernanda Lima, Sabrina Parlatore e Sarah Oliveira. Diversos artistas passaram por lá, com alguns chegando inclusive a lançar DVDs e CDs com as apresentações.

Aproveitando do sucesso do programa, a Abril Music lançou em 2002, como parte integrante da revista MTV - edição 12, um CD compilando 12 faixas de 6 artistas diferentes que estiveram desfilando suas canções e versões: Los Hermanos; Kiko Zambianchi; Cássia Eller; Rita Lee; Ivete Sangalo e Titãs. A compilaçãozinha é tão legal que resolvi trazer a mesma aqui, ao mesmo tempo também de que se tornou uma relíquia, já que contém os últimos momentos de Cássia Eller, e também de Nando Reis junto aos Titãs. 

Marcelo Camelo com o Los Hermanos no Luau MTV

O Los Hermanos abre a compilação com uma linda versão acústica para "Anna Julia", o mega-clássico do álbum de estreia da banda, que os catapultou ao mundo, e que aqui ganha uma cara muito bela através do arranjo de violões feito por Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo. A verão é mais curta, sem o solo e o trecho "Sei que você já não quer o meu amor ...", mas o que não diminui em nada a qualidade da faixa. Seguimos com os cariocas e uma versão muito fiel à original de "Retrato Pra Iaiá", do clássico Bloco Do Eu Sozinho, e que aqui apresentava o novo Los Hermanos para os fãs, e tirar o Los Hermanos do posto de hardcore carnavalesco para o altar dos adolescentes indies do início dos anos 2000. Vale lembrar que a edição deste Luau saiu em DVD, assim como o do próximo artista. 

Kiko Zambianchi vem a seguir, fazendo uma agitada versão para "Ando Jururu" (Rita Lee), apenas com violões e percussão, seguida pelo sucesso "Primeiros Erros", imortalizado pelo Capital Inicial, e aqui também apenas com violões e percussão, além de uma bela interpretação de Kiko. 

Cássia Eller e a apresentadora Sarah Oliveira, em um dos últimos registros em vida da cantora

Chegamos então em Cássia Eller, para qual o CD é dedicado. Nunca fui muito fã da cantora, apesar de ter ouvido bastane (na época) o Acústico MTV dela. Porém, as canções aqui apresentadas mostram como Cássia foi uma das maiores cantoras brasileiras de sua época. O sucesso "Malandragem" embala a praia como um grande luau noturno, sob o sol escaldante da Costa do Sauipe, na Bahia, levado por uma sinuosa participação do acordeão, enquanto "Relicário", com a participação do autor, Nando Reis, é simplesmente emocionante, não só pela linda interpretação vocal da dupla, mas ainda mais por lembrar que esse show foi gravado no dia 19 de dezembro de 2001, exatamente 10 dias antes do precoce falecimento de Cássia.

Rita Lee vem fornecer a verdadeira representatividade gótica no verão. No programa original, estava estava com um óculos vermelho que lembra muito Ozzy Osbourne, além de blusa verde de manga comprida (com estampa do Che Guevara), como apresentado na capa do CD, e jeans rasgado. Puro suco de excentricidade. Essa combinação, junto à banda enxuta da cantora, apresenta versões simples e fieis as originais de "Ovelha Negra" e "Jardins da Babilônia", com destaque mais para o embalo da segunda.

Ivete Sangalo está na sequência. Veveta está em casa, e canta versões revisadas para "Tá Tudo Bem" e "A Lua Q T Dei", com destaque para a presença de uma flauta na primeira e a tocante interpretação da segunda. Não sou fã da cantora, mas para o contexto de festa e animação, é inegável que a presença de Ivete é fundamental. 

Paulo Miklos com o Titãs no Luau de 2002

O CD encerra-se com os paulistas do Titãs, banda recorrente no Luau MTV (ganhando também um DVD individual), já que tocou no programa em 1999, na crista da onda do lançamento do sucesso Acústico MTV, programa no qual a apresentadora Sabrina Parlatore acabou confirmando que foi a maior plateia do programa, sendo que muita gente ficou de fora do especial em uma fila gigantesca. Em 2001 a banda esteve novamente por lá, sendo um dos últimos registros do saudoso guitarrista Marcelo Fromer, morto em 2001, e voltou em 2002, de onde saíram as duas canções desta compilação.

Elas são "O Mundo é Bão Sebastião" e "Homem Primata".  As versões casaram muito bem para o estilo acústico, algo que a banda estava fazendo com primazia na época, mas a plateia "mais solta" que o ambiente do Acústico, apoiando nos vocais, torna as canções ainda mais agradáveis. Lembrando que este show ficou marcado por ser um dos últimos com Nando Reis.

Enfim, algo simples mas muito bom, e saudoso também dos bons tempos onde os verões não eram tão infernais, lá nos idos anos 2002. 

Contra-capa do CD

Track list

1. Los Hermanos – Anna Júlia

2. Los Hermanos – Retrato Pra Iaiá

3. Kiko Zambianchi – Ando Jururu

4. Kiko Zambianchi – Primeiros Erros

5. Cássia Eller – Malandragem

6. Cássia Eller – Relicário

7. Rita Lee – Ovelha Negra

8. Rita Lee – Jardins Da Babilônia

9. Ivete Sangalo – Tá Tudo Bem

10. Ivete Sangalo – A Lua Q Eu T Dei

11. Titãs – O Mundo é Bão Sebastião

12. Titãs – Homem Primata

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