segunda-feira, 21 de maio de 2012

Robin Gibb [22/12/1949 - 20/05/2012]



Mais um grande nome da música nos deixou. Robin Gibb, uma das maiores vozes do rock, e que também era um excelente pianista, perdeu uma longa batalha contra o câncer de fígado, e deixou para trás um legado de dezenas de canções marcantes, que fazem parte da história da música na década de 60 e principalmente, na revolução que ocorreu com a arte no final da década de 70, a frente do Bee Gees.

Nascido na Inglaterra, Robin era o irmão do meio da família Gibb, sendo o irmão mais velho Barry e o caçula Andy. Além dos dois, Robin tinha o irmão gêmeo Maurice, e foi o trio Maurice, Barry e Robin que em 1959 fundaram o Bee Gees, já com a família estabelecida na Austrália.

Com pequenos hits, lançados através de cobiçadíssimos compactos, o Bee Gees pouco a pouco consolidou-se na cena musical australiana, destacando o belo e inovador arranjo vocal do trio. O grupo lançou dois álbuns basicamente voltados para o pop: The Bee Gees Sing and Play 14 Barry Gibb Songs (1965) e Spicks and Specks (1966), os quais foram lançados somente na Austrália.

Robin Gibb, na década de 60

No ano seguinte, Bee Gees' 1st mostrou o trio antenado com o mundo flower-power. Carregado de psicodelia, esse disco modificou a forma de compor dos irmãos Gibb, e ampliou ainda mais o já grandioso número de seguidores. Horizontal (1968), Idea (1968) e Odessa (1969) continuaram a saga psicodélica do Bee Gees, ao mesmo tempo que revelava um forte dom dos irmãos para criar baladas marcantes, como é o caso de "Massachusets", "To Love Somebody" e "I Started a Joke", três grandes clássicos que contém a voz de Robin como principal.

Robin, Barry e Maurice


Robin acabou brigando com os irmãos, afastando-se por um breve período, no qual o Bee Gees lançou o fraco Cucumber Castle (1970). Nesse ano, lançou seu primeiro álbum solo, o ótimo (mas incompreendido) Robin's Reign, destacando faixas primorosas como "Saved by the Bell", "Mother and Jack" e a sensacional "Most of My Life". Ainda em 1970, retorna para o Bee Gees, e lança 2 Years On, um disco que já dá pequenas amostras na mudança sonora do grupo.

A década de 70 avançou com mais alguns discos de relativo sucesso, até que em 1975 foi lançado Main Course. Tido para muitos como o principal disco da carreira do trio, esse álbum finalmente colocou os pés do Bee Gees na Disco Music. Canções como "Jive Talkin'", "Nights on Broadway" e "Fanny (Be Tender with My Love)" elevaram ainda mais o status já consolidado na Europa e Estados Unidos, onde alcançou a décima quarta posição. A partir de então, não param de crescer. Children of the World (1976) trouxe canções ainda mais dançantes, como "You Should Be Dancing", "Love So Right" e "Subway".

Os irmãos Gibb no auge da era Disco
É em 1977 que o Bee Gees inicia sua peregrinação pelas telonas, fazendo a trilha sonora para o filme Saturday Night Fever. O clássico de John Travolta (no Brasil, conhecido como Os Embalos de Sábado a Noite) apresentou aqueles que são os maiores sucessos dos irmãos Gibb. "Stayin' Alive", "Night Fever", "More Than a Woman" e "How Deep is Your Love", além de "Jive Talkin'" e "You Should be Dancing", fizeram dessa trilha o primeiro disco do Bee Gees a atingir a primeira posição simultaneamente no Reino Unido e nos Estados Unidos.

O sucesso de Saturday Night Fever colocou o Bee Gees no topo do mundo, e mudou a cara do rock. Agora, a Disco Music mandava e desmandava, ganhando o espaço do hard e do progressivo. Em 1978, são os atores principais (juntos do guitarrista Peter Frampton) da revisão cinematográfica Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, homenageando o disco homônimo do Beatles, lançado onze anos antes. 

Com Spirits Having Flown (1979), temos o último clássico da fase Disco do trio, a clássica "Tragedy",  e o segundo disco na sequência a atingir a primeira posição tanto na Europa quanto na América.

Robin Gibb na entrada dos anos 80

A década de 80 começou com o Bee Gees perdendo espaço para a música eletrônica. Living Eyes (1981) é um disco bem mais romântico do que o esperado na fase Disco, e que ficou marcado por ser o primeiro álbum da história a ser lançado no formato CD. Um ano antes, Barry havia trabalhado com Barbara Streisand no álbum Guilty, o que teria influenciado nas composições mais adocicadas de Living Eyes

Em 1983, a sequência de Saturday Night Fever, o filme Stayin' Alive, colocou o Bee Gees novamente no topo das paradas, destacando "The Woman in You". Ainda em 1983, Robin lança seu segundo disco solo, How Old Are You?, sexto lugar na Alemanha. No ano seguinte,  Secret Agent virou o terceiro disco solo do músico, sem fazer muito sucesso, assim como Walls Have Eyes, de 1985.

Em 1987, o Bee Gees volta com E. S. P., que vendeu mais de três milhões de cópias, carregadas pelo single "You Win Again", mas no ano seguinte, Andy, o mais novo dos irmãos Gibb, falece por problemas no coração, pouco depois de ter sido anunciado oficialmente que o Bee Gees iria se tornar um quarteto. O resultado foi que em 1989, One emocionou à todos com a canção "Wish You Were Here", e mais um disco de sucesso para o trio.

Irmãos Gibb na década de 90: Maurice, Barry e Robin
Na década de 90, foram lançados apenas três discos de estúdio, assim como o mega sucesso One Night Only, gravado ao vivo e lançado em 1998. O derradeiro álbum de estúdio chega às lojas em 2001, batizado de This is Where I Came In. Porém, no início de 2003, Maurice falece vítima de problemas intestinais. O Bee Gees declara oficialmente sua extinção, e a partir de então, Robin lança-se de vez em carreira solo.  O vocalista lançou dois álbuns: Magnet (2003), décimo lugar na Alemanha; My Favourite Christmas Carol (2006), que não chegou a fazer sucesso. Ao mesmo tempo que lançou esse material, começou uma extensa turnê mundial, 

Várias reuniões entre a dupla restante dos irmãos Gibb aconteceram na década passada, mas durante o ano de 2011, uma série de cancelamentos de shows acabou resultando no que se temia: Robin foi diagnosticado com câncer no fígado, começando um longo e doloroso tratamento. Mesmo assim, Robin continuou trabalhando, lançado no início de abril Titanic Requiem, uma linda homenagem ao lado da Royal Philharmonic Orchestra aos 100 anos da tragédia do Titanic. 

O último disco de Robin Gibb
No último dia 14 de abril, Robin contraiu uma grave pneumonia, que abalou ainda mais seu corpo. A lutra contra a morte começou a ser perdida, e finalmente, na manhã de ontem, Robin juntou-se aos seus irmãos, sendo mais uma grande perda nesse ano de 2012. A música perde não só uma voz marcante, mas também um dos mais talentosos compositores que o mundo já ouviu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cinco Discos Para Conhecer: John Wetton



Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock

Um dos grandes músicos do rock, o baixista John Wetton possui uma extensa discografia, seja em fase solo, seja em passagens importantes por grupos como Family, King Crimson, Uriah Heep, Wishbone Ash, Asia, Roxy Music, U. K., entre outros. Apenas um Cinco Discos Para Conhecer é pouco para abranger tantos lançamentos interessantes, mas irei trazer aqui aquilo que julgo ser o filé dos filés entre os álbuns com participação de Wetton no baixo e vocais.

Family - Fearless [1971]

O Family sempre foi um grupo obscuro dentre os seus companheiros britânicos, sendo inclusive difícil definir seu estilo. Alguns o classificam como progressivo, outros como rock somente, e uma vertente maior aplica o psicodelismo como principal fonte de inspiração. O fato é que em 1971, o Family estava no seu sexto disco, e o estilo ainda não era definido. A entrada do então jovem John Wetton trouxe para a banda um lado mais melódico, que acalmou os ânimos exaltados de discos como Family Entertainment (1969) e Anyway (1970). A voz de Roger Chapman soa mais rouca do que nunca, a inclusão de um naipe de metais eleva o trabalho instrumental, mas o maior destaque vai para as construções harmônicas do baixo de Wetton e da guitarra de Charlie Whitney. Ouvir clássicos como "Between Blue and Me", a primeira faixa do LP e que já apresenta um curto solo de baixo, o arranjo vocal de "Larf and Sing", mais uma com Wetton estraçalhando nas linhas de baixo, a sensacional "Spanish Tide", uma das melhores canções do Family, na qual os vocais de Wetton são apresentados com ênfase aos fãs e a jazzística instrumental "Crinkly Grin", e o experimentalismo de "Blind", contando com a participação de uma gaita de foile como instrumento principal, fazem pensar por que um grupo tão bom durou tão pouco (sete anos para ser preciso). O maior destaque fica para a delirante jam session "Take Your Partners", seis minutos e vinte e nove segundos de piradas experimentações jazzísticas entre guitarra, baixo, moog e metais, com a voz de Chapman rasgando essa faixa ao meio, e as linhas de baixo de Wetton sendo o carro mestre dos alucinantes solos de guitarra e moog. Wetton ainda gravou mais um álbum com o Family, Bandstand (1973), antes de partir para o projeto que finalmente o levou ao patamar das grandes estrelas do rock tal qual conhecemos hoje, assumindo a linha de frente do King Crimson.

1. Between Blue and Me
2. Sat'd'y Barfly
3. Larf and Sing
4. Spanish Tide
5. Save Some for Thee
6. Take Your Partners
7. Children
8. Crinkly Grin
9. Blind
10. Burning Bridges

Formação: Roger Chapman (vocais, guitarra, percussão); Charlie Whitney (guitarras, mandolin, percussão), John "Poli" Palmer (teclados, cordas, flauta, percussão, vocais), John Wetton (guitarra, baixo, vocais, teclados) e Rob Townsend (bateria, percussão)

King Crimson - Red [1974]

Para muitos, Red é uma exploração musical do rock progressivo que fundiu (e ainda funde) a mente de muito headbanger mundo afora, apesar de não ser um disco totalmente pesado. O trio Bill Bruford, Robert Fripp e John Wetton elaborou um disco seminal dentre os álbuns do King Crimson, saindo das experimentações percussivas dos dois álbuns anteriores (Lark's Tongues in Aspic, de 1973, e Starless and Bible Black, de 1974)  e tentando tocar rock 'n' roll com distorção e feeling. A ideia funciona em duas canções do lado A. O baixo de Wetton está mais imponente que nunca logo na pancada inicial da faixa-título, aonde o trio conseguiu construir algo próximo da perfeição, assim como "One More Red Nightmare", a qual traz a importante participação de Ian McDonald no saxofone. "Fallen Angel" é a exceção ao peso do lado A, e poderia ter saído de Lizard (1970), principalmente pelo belo arranjo de metais. Do outro lado do vinil, encontramos as tradicionais explorações progs que consolidaram a carreira do King Crimson, através de "Providence", gravada ao vivo na cidade de Providence, em 1974, com a participação de David Cross no violino, e com Wetton fugindo totalmente do tradicional, fazendo sua melhor performance no baixo dentre os discos gravados com a banda, em uma canção paranóica, esquisita e disparada a melhor da bolacha; e a linda "Starless", com a chorosa guitarra de Fripp sendo levada pelo mellotron em outra canção que pode ser considerada a melhor do LP, tendo uma magnífica sessão instrumental de encerramento. Independente de ser pesado ou prog, o fato é que em Red você vai ouvir Wetton tocando baixo como nunca.

1. Red
2. Fallen Angel
3. One More Red Nightmare
4. Providence
5. Starless

Formação: Robert Fripp (guitarra, mellotron); John Wetton (baixo, mellotron, vocal), Bill Bruford (bateria, percussão)

Participação especial: Mel Collins (saxofone em 2), Robin Miller (oboé em 2), Mark Charig (corneta em 2), Ian McDonald (saxofone em  3 e 5) e David Cross (violino em 4)

Uriah Heep - High and Mighty [1976]

O Uriah Heep ficou famoso no início da década de 70 por dois álbuns que traziam letras voltadas à magia, que são os clássicos Demons and Wizards e The Magician's Birthday (ambos de 1972). Depois disso, o grupo mudou a temática das letras, torcendo o nariz de muitos fãs, e principalmente, da imprensa especializada. Em 1975, a saída do baixista Gary Thain permitiu a entrada de John Wetton para o grupo, e assim, o disco Return to Fantasy voltou as fantasias, magias e visões de contos de fada que consagraram a banda novamente. Mas isso não durou muito tempo. No ano seguinte, High and Mighty colocou o Uriah Heep em um novo trilho, cada vez mais guiado pelo tecladista/guitarrista/faz-tudo Ken Hensley. Sobrou para Wetton o papel de encarar o chefão Hensley e apresentar suas próprias canções, mesmo contando com a "parceria obrigatória" do seu colega. Assim, nasceu um álbum promissor, e que até hoje tem sua qualidade discutida pelos fãs do grupo, mas de inegável importância para o futuro do Heep. As pérolas "Weep in Silence" e "Footprints in the Snow" mostram que Wetton além de grande baixista e vocalista, era um ótimo compositor, enquanto "Woman of the World" e "Midnight" destacam o poderoso baixo do músico,  sendo a sensacional "One Way or Another" aquela onde Wetton demonstra por que de ter sido escolhido para o posto de baixista, ao mesmo tempo que possuía, na época, melhor condição de segurar o posto vocal do que Lord David Byron. Wetton formou o U. K. no ano seguinte, Byron perdeu seu lugar em troca das drogas e o Heep continuou em frente, dessa vez somente com Hensley segurando o volante.

1. One Way or Another
2. Weep in Silence
3. Misty Eyes
4. Midnight
5. Can't Keep a Good Band Down
6. Woman of the World
7. Footprints in the Snow
8. Can't Stop Singing
9. Make a Little Love
10. Confession

Formação: David Byron (vocals); John Wetton (baixo, mellotron, piano, vocals); Lee Kerslake (bateria, percussão, vocals); Mick Box (guitarras); Ken Hensley (órgão, piano, moog, sinos tubulares, guitarra, vocals)

U. K. - U. K. [1978]


Fundado após um breve hiato da banda Bruford, o U. K. foi talvez o primeiro grupo a indicar o som que se tornaria conhecido nos anos 80 como AOR. No seu álbum de estreia, o talento individual de um quarteto muito virtuoso, formado por Bill Bruford, Eddie Jobson, Allan Holdsworth e John Wetton é colocado a prova, e conquista gerações de fãs até hoje. O som é uma mistura de rock progressivo, jazz rock, eletrônicos e muitas variações complicadíssimas, além de arranjos fabulosos que somente monstros como esse quarteto poderiam construir. Aos que consideram Wetton apenas um bom vocalista, ouçam as intrincadas linhas de baixo de canções como "In the Dead of Night", "Alaska" e "Nevermore", e para os apreciadores de sua voz, o deleite ocorre nas pérolas "Thirty Years" e "Time to Kill". O U. K. ainda lançou mais dois belos álbuns, sem Bruford e Holdsworth, mas trazendo Terry Bozzio na bateria. Porém, é a sua estreia um dos pilares essenciais na vasta discografia de Wetton.

1. In the Dead of Night
2. By the Light of Day
3. Presto Vivace and Reprise
4. Thirty Years
5. Alaska
6. Time to Kill
7. Nevermore
8. Mental Medication

Formação: Eddie Jobson (violino, teclados, eletrônicos); John Wetton (vocals, baixo); Allan Holdsworth (guitarras), Bill Bruford (bateria, percussão)

Wetton / Downes - Icon [2005]

Você deve estar se perguntando: "Ué, mas não vai ter nada do Asia?". Como disse na abertura, a discografia de John Wetton é tão vasta que facilmente irei deixar discos de fora, e como é para conhecer o músico, prefiro apresentar um disco que talvez seja desconhecido do grande público. Icon é o segundo da dupla Wetton / Downes, e se você é fã de Asia, prepare-se para ouvir uma sequência do que o Asia poderia ter feito nos anos 80, mas envolvendo muito mais o lado romântico da dupla, algo que raramente foi explorado antes, mesmo com as mais melosas canções do quarteto inglês. Em Icon, o trabalho dos teclados de Downes é complementado pela sutileza vocal de Wetton, bem como arranjos de cordas emocionantes e muitas aventuras sonoras guiadas pela guitarra de John Mitchell. Desde a abertura com "Overture: Paradox / Let Me Go", até o encerramento com a linda "In the End", tendo a participação especial de Annie Haslam nos vocais, sentimos a nostalgia oitentista brotando em cada sulco do CD. Vários são os destaques melosos e românticos, mas podemos nos concentrar em três momentos distintos: "I Stand Alone", oitentista pacas, revivendo os melhores momentos de álbuns como Asia e Alpha; a bonita balada "Far Away", um dos melhores momentos vocais de Wetton; e a já citada "In the End", a mais bonita canção do álbum, com uma bonita participação da flauta, e com os vocais de Wetton sendo adocicados pelo timbre inconfundível de Haslam. A dupla ainda lançou mais duas sequências para Icon, os bons Icon 2: Rubicon (2006) e Icon 3 (2009), que mantém o mesmo estilo do primeiro, além do grandioso ao vivo Icon Live: Never in a Million Years (2006). Perfeito para ouvir agarrado na cintura da patroa em uma fria noite de inverno.

1. Overture: Paradox / Let Me Go
2. God Walks with Us
3. I Stand Alone
4. Meet Me at Midnight
5. Hey Josephine
6. Far Away
7. Please Change Your Mind
8. Sleep Angel
9. Spread Your Wings
10. In the End

Formação: John Wetton (guitarra, violão, baixo, vocais); Geoff Downes (teclados, piano, sintetizadores); John Mitchell (guitarras); Steve Christey (bateria)

Participação especial: Annie Haslam (vocais em 10)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: La Máquina de Hacer Pájaros - Ah, Te Vi Entre Las Luces [1977]



No início da década de 70, o mundo deleitava-se com o rock progressivo. Da Patagônia à Islândia, diversos jovens passaram a tocar o estilo, influenciados por bandas como Yes, Genesis e Pink Floyd. A Argentina, roqueira por essência, também estava envolvida nessa sonoridade, e lá um jovem garoto chamado Charly Garcia (teclados, voz) começava a despontar como uma promessa na música portenha. Sua primeira participação em discos foi no ano de 1972, com apenas 21 anos, tocando teclados no raríssimo Cristo Rock, de Raúl Porchetto. 

Charly também formou uma das principais bandas argentinas de todos os tempos, a Sui Generis, ao lado do também importante Nito Mestre e contando com Carlos Piegari, Beto Rodriguez, Juan Belia e Alejandro Correa. O grupo fez enorme sucesso com o seu folk rock tradicional, lançando quatro aclamados álbuns entre 1972 e 1974 (Vida, de 1972; Confesiones de Invierno, de 1973; Pequenãs Anécdotas Sobre las Instituciones e Alto en la Torre, ambos de 1974), mas devido à censura imposta pela ditadura militar e também pela diferença sonora entre Charly e Nito, acabou sucumbindo em 1975, com o lançamento do maravilhoso álbum Adios Sui Generis, gravado ao vivo para um público de quase 30.000 pessoas.

O grande Charly Garcia no início da década de 70

Nito fundou a banda de folk rock Nito Mestre y los Desconocidos de Siempre (quem puder, ouça o primeiro álbum) enquanto Charly decidiu seguir com suas loucuras sonoras, formando um novo grupo, chamado La Máquina de Hacer Pájaros, em homenagem a uma tirinha de jornal local. Nesse novo projeto Charly levaria ao extremo o seu instrumento favorito, o teclado, já que a banda inovou, contando com dois tecladistas ao mesmo tempo.

No início, o La Máquina era um trio tipo Emerson, Lake & Palmer, formado por Charly e mais dois ex-integrantes da Crucis, Oscar Moro (bateria, que também tocou no Los Gatos Selvagens) e José Luis Fernández (baixo). Em seguida entraram Gustavo Bazterrica (guitarras, ex-Reino de Munt – banda de Porchetto) e Carlos Cutaia (teclados, ex-Pescado Rabioso), formando a espinha dorsal da música complexa e densa que Charly tanto sonhava.

Temos então cinco monstros do rock argentino unidos com a única intenção de tocar um som de ótima qualidade, com muitas viagens e longos temas instrumentais. Os primeiros shows começaram a acontecer no ano de 1976, para pouco mais de trezentas pessoas, lembrando que na época o progressivo já estava perdendo espaço para o punk e a disco music. Mesmo assim Charly conseguiu um contrato com a gravadora Microfón, e, no mesmo ano, lançou La Máquina de Hacer Pájaros.

Entre arranjos com forte influência jazzística ("Bubulina"), sequências do Sui Generis ("Como Mata El Viento Norte" e "Por Probar El Vino y El Agua Salada"), rocks dançantes ("Boletos, Pases y Abonos") ou que lembram Genesis ("No Puedo Verme Más" e "Rock and Roll"), o maior destaque vai para a mini-suíte que encerra La Máquina de Hacer Pájaros, a maravilhosa "Ah, Te Vi Entre Las Luces".

La Máquina de Hacer Pájaros: José Luis Fernández, Oscar Moro e Gustavo Bazterrica (acima);
Charly Garcia e Carlos Cutaia (abaixo)

Com pouco mais de 11 minutos, a canção surge com os teclados viajantes de Cutaia que trazem os vocais de Charly acompanhados pelo piano. A banda entra com uma marcação precisa, e Charly rasga sua voz, seguido por duelos de teclados e clavinete. A canção fica somente nos teclados e no piano, com os vocais sussurrados de Charly acompanhados pela guitarra utilizando o dispositivo do volume. As notas tristes de piano e do violão nos levam aos solos. 

Temos assim uma longa sessão instrumental, na qual primeiro o piano sola lentamente sobre camadas de teclados e o acompanhamento da guitarra com o pedal de volume. Guitarra e clavinete fazem o tema central, entre as diversas viradas de Moro, deixando os longos acordes de sintetizador acompanharem a escala de baixo, para começar um belo jazz-fusion, com solos de clavinete, órgão e guitarra, destacando as marcações sensacionais da bateria e do baixo. 

Os temas marcados entre clavinete e guitarra nos levam para uma sessão mais viajante de guitarra, pratos, baixo e teclados, a qual dá sequência à parte mais bonita da canção, com a guitarra e o clavinete agonizando em notas tristes. Dessa pequena sessão, surgem um bonito tema do piano, para vocalizações entoarem o nome da canção entre muitos teclados e intervenções do moog ao fundo, além de Moro detonando em viradas monstruosas. 

O pedal de volume volta a funcionar, abrindo espaço para o belo solo repleto de melodia feito por Gustavo, o qual mostra como os argentinos tinham talento para ser uma poderosa banda no cenário mundial, e levando ao solo de piano em um dramático tango, acompanhado pela cadência da cozinha e pelas variações de volume da guitarra, encerrando essa brilhante faixa de forma emocionante, com os longos acordes do sintetizador invadindo o ambiente junto com as batidas fortes de Moro, detonando os pratos.

La Máquina de Hacer Pájaros mostra todo o refinamento e a potência do grupo, bem como a ambição de fazer algo totalmente novo dentro do cenário rock portenho. Porém, fez pouco sucesso, já que o público argentino ainda preferia ver Charly nas canções acústicas do Sui Generis, o que não impediu o trabalho da banda de ser continuado.

Outro destaque, além das canções do LP, fica para sua capa, que ficou a cargo do autor da tira de jornal, Crist. Este elaborou uma pequena história onde o protagonista, García, apresentava a banda para um amigo, definindo-a como um "pássaro progressivo". Dentro da capa havia outra, toda preta, contando com a foto dos cinco integrantes em um colorido todo especial. Todas as músicas foram compostas por Charly, mesmo contra a vontade dele, que pretendia ser somente mais um integrante do grupo. 

O derradeiro disco dos argentinos


No ano seguinte foi lançado Películas, um disco diferente de seu antecessor, com canções mais trabalhadas, mas próximas ao jazz fusion do que o rock progressivo, destacando as instrumentais “Obertura 777” e “En Las Calles de Costa Rica”.

Charly fundou a Banda del Amor ao lado de Lebón, mas não durou muito, vindo para o Brasil em busca de novos ares, influenciado pelo pessoal do Clube da Esquina, e criando o projeto Serú Girán, contando com a participação de Moro, e que fez muito sucesso por aqui com as canções "Seminare" e "Eiti Leda", gravando quatro marcantes álbuns: Serú Girán (1978), La Grasa de las Capitales (1979), Bicicleta (1980) e Peperina (1981).

Cutaia formou o Ce. Ce. Cutaia, ao lado de sua esposa, Carola, com quem gravou o álbum Rota Tierra Rota em 1979. Lançou então três álbuns solo (Ciudad de Tonos Lejanos em 1983, Carlos Cutaia Orquestra em 1985 e Sensación Melancólica em 2005) e dedicou-se à produção de bandas. Em 2005 recebeu o prêmio Carlos Gardel pelo seu trabalho no álbum Para la Guerra del Tango, no qual misturou o tango com o jazz.

Gustavo intregou um quarteto ao lado de Oscar Moro, Alejandro Lerner (teclados) e Rinaldo Rafanelli (baixo), seguindo como músico na banda de Luis Alberto Spinetta. Entre 1980 e 1984 fez parte do Los Abuelos de la Nada, e paralelamente participava do grupo que acompanhava Charly. Em 1987 lançou seu único disco solo, Joven Blando, que contava com a participação de Charly e Moro. 

José Luis fez pequenas participações com a banda de Charly antes de ir morar nos Estados Unidos, onde trabalhou no seu álbum solo, Mira Hacia el Futuro, lançado em 1982. Participou de vários grupos na Europa e, em 2007, lançou o disco Piedra por Cristal. Por fim, Oscar Moro fundou a banda Riff, fez parte da Serú Girán, e em 1983 formou o Moro-Satragni ao lado de Beto Satragni, vindo a falecer em 2006.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Review Exclusivo: Los Hermanos (Porto Alegre, 13 de maio de 2012)




Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock

Um show do Los Hermanos não é um show qualquer, daqueles que tem uma banda no palco, um público que canta os grandes sucessos e aprecia as demais canções, até conversando vez ou outra com a pessoa ao lado, e que há um contato direto entre o vocalista com o público, falando palavras para a plateia como "É maravilhoso estar aqui, vocês são a melhor plateia do mundo, etc".

Sucesso o Los Hermanos só teve dois: "Anna Julia" e "Primavera" (ambas do primeiro disco, Los Hermanos, lançado em 1999). O comportamento de Marcelo Camelo (vocais, guitarra, baixo) e Rodrigo Amarante (vocais, guitarra, baixo) é tão distinto entre si que cada vez que um deles assume o microfone, parece que ouvimos outro show. Mas isso não faz a mínima diferença, pois é exatamente isso que caracteriza o som da banda, que vem arrebatando mais e mais fãs desde que o grupo acabou em 2007, sendo que os fãs que já havia sido conquistados no período entre 1998 e 2006, permanecem gastando suas cordas vocais como no início da década passada.



Tive a oportunidade de ver o Los Hermanos em 2003, quando o grupo havia mergulhado na obscuridade pós-sucesso "Anna Julia". O álbum Ventura, lançado naquele mesmo ano e tido pela maioria dos fãs como o melhor da carreira da banda, mesclava samba e composições regadas de melodias intrincadas, harmonias belíssimas e complexamente trabalhadas para acompanhar as letras pensativas de Camelo e Amarante.

Em 2005, vi o grupo no auge de sua fama obscura, durante a turnê do álbum 4. A insanidade dos fãs com esse disco na época era absurda. Depressivo, triste e melancólico, 4 é para colocar qualquer palhaço de circo no choro, e apresentado na íntegra na tal turnê, fazia os locais pelos quais o Los Hermanos passava virarem um rio de lágrimas, com plateias cantando até o último segundo todas as letras do álbum, sem se quer lembrar que aquela banda era a mesma de "Anna Julia", o grande hit que levou o Los Hermanos ao mundo, merecendo inclusive uma homenagem dos saudosos Jim Capaldi e Geroge Harrison, que regravaram a música em 2001.

Em 2006, o grupo voltou para Porto Alegre para mais uma série de apresentações, e depois, foi anunciado o fim da banda. Esporadicamente, shows ocorreram pelo país afora, enquanto Camelo, Amarante, Rodrigo Barba (bateria) e Bruno Medina (teclados) seguiram seus projetos individuais. Mas o tempo passou, e em novembro de 2011, foi anunciada a turnê comemorando os quinze anos da banda, com duas datas em Porto Alegre, cidade que sempre amou o grupo, mesmo nos momentos mais Anna Juliescos. E eu assisti os dois!!


O primeiro show foi estranho, com o público ainda frio (talvez pela saudade) e curtindo o que estava sendo apresentado, explodindo mais nos clássicos. O segundo show foi bem diferente. As sete mil pessoas que superlotaram o Pepsi on Stage cantaram quase todas as músicas do início ao fim, lembrando os momentos insanos da turnê de 4, nos quais era difícil ouvir a banda, e na maioria das vezes, o microfone era voltado para o público, que levava as canções no go-gó, sem errar nada.

Um show que começa com "O Vencedor", passa por "Retrato pra Iaiá", "Todo Carnaval Tem Seu Fim", "O Vento" e "Além do Que Se Vê" já deixaria qualquer ser fã de Los Hermanos sem voz. Porém, a maioria desses fãs são jovens, de uma geração paralela aos coloridos emos, menos estilizada, apesar das camisas xadrez, blaisers de lã e coletes para o frio contrastando com luvas e roupas da moda. Na década de 90, esses fãs seriam chamados de Mauricinhos e Patricinhas, e realmente, é esse tipo de fã que perambulou na primeira noite. 


Na segunda noite, o "povão" tomou conta. Claro, as camisas xadrez e as roupas da moda estavam lá, mas também os "velhos" fãs, que ouviam o primeiro disco e quebravam o quarto com aquele hardrock fantástico, engolido por duas faixas simples que em nada condiziam com o que estava gravado em Los Hermanos. Esse início colocou as estruturas do local para teste, já que foram insanos quinze minutos nos quais todos os presentes não pararam de pular e cantar.



A velha geração foi agraciada com versões matadoras para "Azedume" e "Descoberta". Ali, a roda punk fechou. Meninos e meninas balançavam e agitavam como se fosse o último show da sua vida, e o quarteto citado, com a parceria do indispensável naipe de metais formado pelo trio Bubu, Zacarias e Índio, além do baixista e guitarrista Gabriel Bubu, tocava com prazer, rindo e satisfazendo o ego tanto de fãs quanto deles mesmos.


Após "Descoberta", as lágrimas das gurias (e de muitos marmanjos) rolaram durante "Sentimental", e ficou comprovado, o Los Hermanos é uma banda muito diferente das outras, capaz de agitar no mais pesado hardcore e emocionar na mais bonita das baladas da década passada. Nela, Amarante prova que mesmo não sendo um exímio vocalista, supera essa condição cantando com as veias saltando na garganta, junto com os fãs.

O show também mostra as diferentes personalidades de Camelo e Barba. Enquanto o primeiro é um verdadeiro líder, estabelecendo quando as canções começam e terminam, e principalmente, sendo o foco das atenções no gigantesco telão ao fundo, o segundo é uma figuraça inigualável na música nacional. Sua tradicional dancinha do pato bêbado era uma alegria a parte, fora as caretas, as conversas indiretas com a plateia durante as canções, e os improvisos que sempre apareceram na fase áurea do grupo.




Amarante, apesar de não ser o holofote principal, chama muito a atenção. Suas canções são as mais animadas, como "Um Par", "Primeiro Andar" e "Último Romance", mas até mesmo as canções mais tristes, como a citada "Sentimental" e "Sétimo Andar", chamam a atenção pela entrega do músico carioca às suas interpretações e as músicas em si. 

Poucas palavras são trocadas entre banda e plateia, quase sempre um singelo "Obrigado", com exceção da apresentação dos membros, feita durante "Conversa de Botas Batidas", da mesma forma que no sábado. Aliás, a principal diferença entre os dois shows do que veio do palco (lembrando que no segundo dia o público agitou muito mais) foi a troca de "De Onde Vem a Calma" por uma canção da carreira solo de Camelo, a não muito interessante "Mais Tarde". Essa e a inédita "Um Milhão" diminuiram o ritmo, mas deu para perceber que a canção inédita ainda mantém a linha depressiva de 4, e fica o aguardo se vai rolar um disco novo com essa canção. 

"Cara Estranho" fez tudo tremer novamente, e a primeira parte do show encerrou-se com "Último Romance", deixando a expectativa se o bis do dia anterior ia ser repetido.

Depois de alguma demora, o quarteto voltou e mandou "O Velho e o Moço", e aí sim, veio a matadora sequência final. Durante o bis, Amarante, cantando "Quem Sabe",  jogou-se no meio da plateia em um dos mais estranhos stage diving que eu já vi. Praticamente pulando de cabeça no meio do público, era a preparação que já havia começado minutos antes, quando Camelo puxou o riff de "Tenha Dó", e o Pepsi on Stage veio abaixo com os fãs cantando o solo inicial desse clássico do primeiro disco enquanto Bubu simulava o mesmo no trompete.

Após "Tenha Dó", "Anna Julia" lavou a alma daqueles que, como eu, nunca tinham visto a banda tocá-la ao vivo, já que o sucesso da mesma a fez reclusa dos palcos. Clássico dos clássicos, foi entoada aos berros por garotos e garotas de todas as idades, e por várias vezes, Camelo afastou-se do microfone, deixando apenas a bateria e o baixo acompanharem as vozes desafinadas dos gaúchos, mas com um sentimento de êxtase que nunca vi igual em nenhum show de qualquer outra banda.







A celebração terminou com o stage diving de "Quem Sabe" e finalmente, "Pierrot", a marcha de carnaval mais pesada que alguém já compôs, e fomos para casa com um sorriso nos dentes, apesar do minuano velho de guerra (vento que sopra no sul do país) que trouxe o frio para o Rio Grande do Sul.

O Los Hermanos em duas noites super lotou o Pepsi on Stage. No total, os números divulgados sugerem mais de 14 mil pessoas somando as duas noites, sendo que o maior público dali até então foi Bob Dylan, com 6500 pessoas.


A sede não foi saciada, pois uma banda com quatro discos tão bons quanto o Los Hermanos ficaria no palco no mínimo quatro horas tocando, mas deu para ver que o grupo poderia ter seguido um crescendo infinito tanto no número de vendas de CDs quanto no número de fãs. Esses dois shows provaram que se o grupo tocasse em um lugar maior, esse lugar também estaria lotado. 

Dificilmente a banda continuará na ativa passados os shows em comemoração aos seus quinze anos, mas, se for para vê-los com a alegria e os sorrisos que estavam nessas apresentações em Porto Alegre, tocando canções que agrada a maioria dos seguidores da banda, que seja. Melhor um coelho na mão do que dois voando.







Set list


1. O Vencedor
2. Retrato Pra Iaiá
3. Todo Carnaval Tem Seu Fim
4. O Vento
5. Além do Que Se Vê
6. Primeiro Andar
7. Morena
8. Um Par
9. Sétimo Andar
10. Azedume
11. Descoberta
12. Sentimental
13. A Flor
14. Cara Estranho
15. Condicional
16. Deixa o Verão
17. Mais Tarde
18. A Outra
19. Um Milhão
20. Casa Pré-Fabricada
21. O Velho e o Moço
22. Conversa de Botas Batidas
23. Último Romance


Bis


24. O Velho e o Moço
25. Tenha Dó
26. Anna Julia
27. Quem Sabe
28. Pierrot

domingo, 13 de maio de 2012

Vanilla Fudge - Parte I



Um dos grandes nomes do rock americano no final da década de 60, início dos 70, capaz de duelar frente a frente com grupos como Led Zeppelin e Deep Purple, é também um dos menos conhecidos aqui no Brasil. O Vanilla Fudge, entre 1967 e 1973, lançou uma belíssima série de discos. Idas e vindas nas décadas posteriores fizeram com que a grande fama do grupo, alcançada principalmente por dois álbuns (Vanilla Fudge, de 1967, e Rock'n'Roll, de 1970), fazendo do quarteto formado por Mark Stein (teclados, vocais), Vince Martell (guitarras, vocais), Tim Bogert (baixo, vocais) e Carmine Appice (bateria, vocais) o principal expoente da fusão entre psicodelia e rock pesado, caísse vertiginosamente, tornando a banda uma referência do passado, apesar de bons discos lançados pós-década de 70.

A história do grupo começa em 1965, quando um grupo batizado de Rick Martin & The Showmen começou a fazer sucesso na região de Long Island (Nova Iorque). Faziam parte do Rick Martin & The Showmen Stein no órgão e Bogert, e o estilo do som era o rock básico influenciado por Beatles e Stones. Stein tocava piano desde os quatro anos de idade, e já havia passado por diversas bandas na adolescência, tocando principalmente guitarra e acordeão. Já Bogert teve pouca experiência musical, até entrar como membro acompanhante do Rick Martin & The Showmen, onde consolidou-se como um guitarrista muito fraco, virando posteriormente baixista.

Beatles era a principal influência, mas, no dia que Bogert e Stein assistiram a um show do The Rascals (um grupo local aonde o órgão era responsável por comandar as canções), a dupla decidiu que tocar canções da invasão britânica não era o que eles queriam, pelo menos não daquela forma.

Assim, os dois resolveram seguir carreira em um novo grupo, aonde poderiam explorar seus dotes musicais e também ampliar o conhecimento de outras vertentes sonoras. Para isso, chamaram o guitarrista Vince Martell e o ex-colega de Rick Martin & The Showmen, Joey Brennan, que completou o time na função de baterista. Martell havia feito seu nome na Flórida, sendo o guitarrista principal de um obscuro grupo chamado Ricky T & The Satans Three, o qual era famoso por tocar em clubes noturnos e bares especializados em camarões na região de Key West, em Miami.

O novo grupo foi fundado ainda no final de 1965, sob nome de batismo The Pigeons. O início foi difícil, com muitos ensaios na casa da família Bogert, fazendo um som próximo ao rhythm & blues, e poucos shows. As canções giravam em adaptações para clássicos de Righteous Brothers, Doc Pomus e Wilson Pickett, tendo também a influência que começava a vir da Califórnia. Porém, a única forma do quarteto ganhar dinheiro era acompanhar vocalistas femininas em boates, fazendo de dois a três shows por noite, seis noites por semana.

No início de 1966, o Pigeons era a banda mais solicitada na região leste dos Estados Unidos, desde Nova Iorque até a Flórida. Tocando em diversos bares e festivais, o quarteto construiu uma forte reputação, carregando com eles nomes hoje extremamente cobiçados entre colecionadores, como Vagrants (futuro Mountain), Good Rats, Hassles e Sparrow (futuro Steppenwolf).


Disco com material do pré-Vanilla Fudge
O sucesso levou o quarteto aos estúdios, e no verão de 1966, já estavam gravando suas primeiras oito faixas em um velho gravador de duas pistas, faixas essa que se tornaram o cobiçado LP While the Whole World Was Eating Vanilla Fudge (1971), sendo o grupo responsável pelo lançamento do mesmo batizado de Mark Stein & The Pigeons.

Um dia, durante uma apresentação do Vagrants (que contava com Leslie West nas guitarras), a explosão sonora e as longas improvisações novamente mudaram a mentalidade de Bogert e Stein. O Vagrants era consolidado por re-interpretar clássicos de outros grupos, de uma maneira bem diferente do que o próprio Pigeons fazia, adicionando peso e virtuosismo à simplicidade de nomes como Beatles, Stones, Duke Ellington e Bob Dylan. O som do Pigeons precisava mudar, principalmente por que o Vagrants estava com mais fãs (groupies) e fazia o chamado "som do futuro".

Ensaios, readaptações e muito estudo mudaram a vida do Pigeons, até que um dia, o Vagrants, programado para fechar a noite no Action House em Long Island, não pôde cumprir a data. Para o seu lugar, The Pigeons foi escalado. A oportunidade mais importante havia aparecido para o quarteto. Tocar diante de um grande público no lugar de uma grande banda, era tudo o que eles pediam. O show começou com uma pesada readaptação para uma canção que havia acabado de ser lançada por Bob Dylan, a hoje fenomenal "Like a Rolling Stone". Bastou para nascer uma nova potência musical.

A partir de então, Stein, Bogert, Martell e Brennan se especializaram em readaptar canções desconhecidas do público em geral, e tocar em pubs cada vez maiores. Porém, apesar de arrecadar mais e mais fãs, o Pigeons começou a gerar dor de cabeça para os empresários, já que o público que ia aos bares para beber e flertar, agora parava para acompanhar o som do grupo. Por isso, foram despedidos de vários locais, sendo ainda mais aclamados pelos fãs, que disputavam no tapa a oportunidade de ver o quarteto.

Entusiasmados, compuseram mais e mais recriações, destacando "You Keep Me Hangin' On" (Supremes). Mas os arranjos complexos acabaram fazendo com que Brennan abandona-se o projeto, indo parar no The Younger Brothers Band. Para o seu lugar, foi chamado um jovem baterista pelo qual Bogert havia ficado impressionado ao ver uma apresentação do mesmo em um clube de Nova Iorque. Seu nome: Carmine Appice.

Appice teve uma formação diferente de seus colegas de The Pigeons, voltada para o jazz. Durante a adolescência, Appice acompanhou diversas bandas do estilo, mas após ouvir Buddy Rich, desenvolveu uma técnica diferente dos demais bateristas jazzistícos, com uma pancada seca na caixa, que virou sua marca registrada.

O sorvete que deu origem ao nome
de uma das maiores bandas da história
O Pigeons continuou tocando em bares dos Estados Unidos, sendo empresariados por Phil Basile, um membro da família Lucchese (uma das cinco principais famílias da máfia italiana em Nova Iorque). Basile foi o responsável por agendar uma noite no Action House, onde o produtor George "Shadow" Morton foi convidado à assistir a banda. Morton havia trabalhado com o Shangri-las, sendo o responsável pela gravação da clássica "Remember", que atingiu a quinta posição nos Estados Unidos em 1964. A visita de Morton poderia ser o primeiro passo para o The Pigeons assinar um contrato com uma gravadora.

E foi isso que aconteceu. Quando Morton chegou no Action House e ouviu o The Pigeons interpretando sua versão para "You Keep Me Hangin' On", imediatamente o produtor gostou, e passou a prestar atenção naquela nova promessa do rock nacional americano. Após o show, ofereceu o contrato de gravação de uma demo com "Holland Dozier Holland", o que foi feito em apenas uma tomada. Com a demo nas mãos, Morton passou a distribuí-la em radios e gravadores, até que a Atlantic Records assinou o primeiro contrato do The Pigeons, tornando-os subsidiários do selo ATCO.

No dia 02 de junho de 1967, chegava às lojas a primeira bolachinha do grupo, trazendo "You Keep Me Hangin' On" no lado A e "Take Me for a Little While" no lado B, sendo o grupo rebatizado como Vanilla Fudge, nome adotado em abril do mesmo ano por sugestão da vocalista do grupo Unspoken Word, a qual era apaixonada por um sorvete recém lançado chamado Drumstick, cujo sabor preferido era o com recheio de baunilha.


A essencial estreia do Fudge

O compacto vendeu muito mais do que o esperado, e logo em seguida veio o convite para a gravação do primeiro álbum. Batizado apenas com o nome da banda, o álbum de estreia é uma verdadeira aula de lisergia, peso e sentimento, responsável pela formação de nomes como Ritchie Blackmore, Jon Lord, Ian Gillan, Mick Box, Ken Hensley, John Bonham, Brian May, entre outros. Constituído apenas de covers (com exceção de três vinhetas de 30 segundos), Vannila Fudge é daqueles discos indisénsáveis em qualquer coleção de rock que se preze.

Lançado em agosto de 1967, um mês após The Piper at the Gates of Dawn (Pink Floyd) e três meses após Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o disco começa com a voz de Stein introduzindo o LP, trazendo órgão, bateria e baixo. A estridente guitarra dedilha os acordes da versão fenomenal para “Ticket to Ride”, em um estilo psicodélico. O arranjo vocal é um dos principais destaques dessa versão para o clássico do Beatles, assim como a participação insana de baixo e órgão. Em nada temos o rock simples feito pelos Fab Four, e esse é apenas um pequeno aperitivo do talento que o Vanilla Fudge tinha em criar novas composições em cima de uma canção já conhecida.

O centro de “Ticket to Ride” é levado pelo órgão e pelo ritmo contagiante de baixo, bateria e guitarra, além dos vocais muito bem trabalhados pelo quarteto, voltando à repetição da letra e do refrão. Entramos no simples mas dançante solo de guitarra, com notas parecendo sair de algum disco de rock italiano, e assim, o Vanilla Fudge volta a parte central, encerrando a letra com os gritos alucinados de Stein, e a famosa frase “My baby don’t care” entoada com efeitos entre os gritos rasgados de Stein e a marcação poderosa nos pratos de Appice. 

Outra grande versão vem na sequência, agora para a balada “People Get Ready”, do grupo The Impressions, a qual começa com um bonito dedilhado da guitarra, trazendo baixo, órgão e bateria. O órgão faz um tímido tema, seguido pelo baixo, e pela guitarra, com Appice socando a bateria como pode. Após vários acordes marcados de guitarra, órgão, bateria e baixo, vocalizações surgem, deixando o órgão viajar pelo recinto. 

Mais vocalizações enaltecem o trabalho musical do Vanilla Fudge, agora cantando o nome da canção. Appice canta acompanhado apenas pelo órgão, com leves introduções de vocalizações, levando ao bonito tema do órgão. Appice volta a cantar, da mesma forma que a parte inicial da canção, acompanhado apenas pelo órgão, que faz seu segundo solo. A terceira estrofe traz a voz de Appice acompanhada pelas vocalizações nos dois primeiros versos, levando novamente a repetição do tema do órgão. 

É o órgão que muda a canção, com um longo acorde que apresenta a bateria, o baixo e a guitarra, entre vocalizações fantásticas, entre as quais Appice solta sua voz. A balada intimista agora ganha um charme encantador, que encerra com mais vocalizações e as fortes batidas da bateria. 

Órgão e guitarra introduzem “She’s Not There”, enquanto Bogert e Appice deliram em seus instrumentos. O órgão executa o tema principal, trazendo os vocais de Martell, em uma agitada canção com destaque para a participação de Appice, mandando ver nas viradas da bateria, além da ótima performance vocal no refrão desse grande clássico da carreira de Rod Argent. O solo de órgão é tipicamente psicodélico, começando de forma agitada e depois, resgatando a melodia vocal da canção. O órgão fica sozinho, com marcações de bateria acompanhado os vocais, que entoam a letra de forma chorada, voltando então para o refrão, com mais gritos rasgados de Stein, que dá show no órgão, deixando espaço para o curto solo de Martell, novamente sem nenhum virtuosismo, seguido por uma rápida sessão percussiva que retorna ao psicodelismo da introdução de “She’s Not There”, com a repetição do refrão feito por vocalizações chorosas e fortes que encerram outra boa canção. 

O órgão também introduz “Bang Bang”, acompanhado pelas marcações fortes de Appice. O longo tema inicial do órgão, com o pomposo acompanhamento da bateria, explode no tema oriental da guitarra de Martell, e após Appice brincar na bateria, fazendo efeitos percussivos, começa uma canção psicodélica, com os vocais baixos de Stein acompanhados por órgão e a marcação da bateria. 

Uma furiosa sessão instrumental entre guitarra e órgão dá espaço para os vocais de Martell e Stein cantarem a letra da canção em outro grandioso arranjo vocal, acompanhado apenas pelo dedilhado do violão. O nome da canção é entoado agonizantemente, e então, ambos cantam juntos, com temas marcados entre guitarra e órgão permeando as frases da dupla. O trecho final é de arrancar lágrimas, com o dedilhado do violão levando ao duelo final da guitarra e do órgão, para encerrar o lado A com uma frase dita por um dos membros do grupo, anunciado que "os próximos segundos serão sons de frequências altas" ("The following is a series of high-frequency tones..."), e é isso o que ouvimos por alguns segundos. 


Contra-capa de Vanilla Fudge, com os membros adotando um visual Beatle
Entramos no Lado B com o ritmo marcial de “llusions of My Childhood – Part One”, e depois de uma contagem, começar a mais famosa canção do Vanilla Fudge, que é a versão para “You Keep Me Hangin On”. Na introdução, a guitarra oriental de Martell é acompanhada pelo órgão e pelos delírios instrumentais de baixo e bateria. Stein arranca uivos do órgão em uma estonteante marcha feita por baixo e bateria, pemanecendo então sozinho por alguns segundos. 

A bateria quebra a monotonia, puxando o ritmo de “You Keep Me Hangin' On” como uma locomotiva. Appice solta o braço acompanhando as mudanças de acordes feitas por guitarra e órgão, trazendo os vocais de Stein, contando também com mais uma maravilhosa participação vocal entoando o nome da canção. O ritmo dançante e psicodélico em nada lembra a versão original, gravada pelo Supremes;

Stein repete a letra, e aqui, podemos perceber um pouco da influência que o Vanilla Fudge deixou para grupos como Deep Purple e Uriah Heep, já que o estilo de cantar do tecladista lembra muito o de Ian Gillan quando entrou no Purple, e o de Byron no Heep. Mais uma vez a letra é repetida, com um espetacular arranjo vocal, levando às notas marcadas entre baixo, bateria, órgão e guitarra, das quais o órgão fica sozinho, repetindo a melodia vocal, e essa pérola encerra-se com as marcações da bateria, baixo e guitarra acompanhado o órgão em uma sensacional pegada feita pelo Fudge. 

“Illusions of My Childhood – Part Two” é um rápido tema do órgão acompanhado pela bateria, que introduz a rock ballad “Take Me for a Little While”, outra cantada chorosamente por Martell, cujo destaque vai novamente para o arranjo vocal e para a participação percussiva de Appice, além do interessante cadenciamento elaborado pelo baixo de Bogert. “Illusions of My Childhood – Part Three” é mais uma vinheta do órgão, fazendo um tema comum entre vozes psicodélicas e um acompanhamento valseado, chegando na versão de oito minutos para “Eleanor Rigby”. 

Esta começa com o tema marcado entre guitarra, órgão e bateria, enquanto Bogert vai construindo suas escalas no baixo. Batidas na caixa aos poucos dão espaço para acordes do órgão. Appice atinge uma velocidade absurda nas batidas, enquanto os acordes mudam hipnotizantemente, e de uma barulheira infernal, brotar a bateria, órgão, baixo e guitarra. 

Vocalizações cantam o trecho central de mais um clássico do Beatles, para Martell cantar a letra da canção acompanhado apenas pelo órgão, baixo e bateria. O arranjo vocal se destaca novamente, fazendo intervenções nas frases de Stein, que canta o trecho do “All the lonely people ...”, e é impossível detectar algo de Liverpool nessa canção, tamanha a viagem de uma balada fantasmagórica. No refrão, a explosão vocal com o órgão e a bateria arrancam lágrimas, e ouvir Martell sussurando “People” congela a alma de qualquer ser vivo no planeta. 

Martell segue a letra da canção, com a parte do “All the lonely people ...” sendo cantada por vozes sobrepostas, entrando em um crescendo muito bonito, carregado pelo órgão, baixo e bateria, além das vozes sobrepostas, que se tornam mais um instrumento de um petardo musical, capaz de concluir Vanilla Fudge de forma soberana, e que foi apropriadamente inserido na última faixa do LP justamente por isto. Vocalizações a capela encerram “Eleanor Rigby”, encerrando o LP e deixando a expectativa se a psicodelia desse álbum iria continuar posteriormente.

Logo após o lançamento de Vanilla Fudge (que chegou rapidamente na sexta posição), o grupo partiu para uma turnê pelos Estados Unidos, começando no dia 02 de setembro em uma apresentação no Village Theater de Nova Iorque, abrindo para o Mitch Ryder. Depois, vão para São Francisco, abrindo para o Blue Cheer nas noites de 21 e 23 de setembro, em apresentações realizadas no Fillmore West.

O primeiro compacto com canções originais do Vanilla Fudge
Uma semana depois, viram a atração principal em três shows no Avalon Ballroom (San Francisco), nos quais o Charles Lloyd Quintet foi o responsável por fazer a abertura. Esses shows foram realizados entre 29 de setembro e 01 de outubro de 1967. No dia 03 de novembro, estreiam como headliners em Nova Iorque, tendo como banda de abertura o Yardbirds. Era o início de uma grande amizade entre Carmine Appice e Jimmy Page, que iria gerar frutos promissores no Led Zeppelin.

O ano de 1968 começou com o Vanilla Fudge de volta para San Francisco, com três shows no Fillmore West nos dias 04, 05 e 06 de junho, tendo como headliner o Steve Miller Band. Uma semana depois, aparecem na TV interpretando "You Keep Me Hangin' On" no programa de Ed Sullivan, no dia 12 de janeiro. No dia 18, lançam o primeiro single com canções próprias, dessa vez trazendo "Where is My Mind" no lado A e tendo "The Look of Love" no lado B.

Ao mesmo tempo, começam a gravar o segundo LP e preparam um vídeo promocional para divulgar o nome da banda na europa. Esse vídeo acabou gerando problemas entre o produtor Shadow Morton e os membros do Vanilla, que acabaram interferindo no mesmo. No final, nasceu o mais controverso, complexo e difícil disco do grupo. Nele, não existe nenhuma canção completa (com exceção da faixa de abertura e da faixa de encerramento).
Psicodélico e estranho, este é The Beat Goes On
O álbum começa com “Sketch” surge com os imponentes acordes do órgão, como em uma missa dentro de uma igreja. As camadas de órgão dão espaço para um bonito solo de piano no canal esquerdo. A estridente guitarra de Martell sola no canal direito, enquanto no canal esquerdo o piano dedilha notas velozes, que em nada tem a ver com o que a guitarra está fazendo. O dedilhado do piano aumenta sua velocidade, sempre no canal esquerdo, enquanto o tema de "The Beat Goes On" (original de Sonny & Cher) é feito nas teclas graves do órgão. 

A voz de um homem falando em um rádio, seguida pelo assustador “Phase One”, anuncia o nome da segunda e pirada faixa do LP, na qual um longo acorde de órgão e batidas percussivas duelando com o baixo acompanham as viajantes escalas orientais da guitarra. Um tema marcado entre baixo, bateria, órgão e guitarra levam para o rápido duelo entre órgão, baixo e guitarra, e então, o cravo surge em um estilo medieval, interpretando a segunda parte de "Phase One", intitulada "Eighteenth Century: Variations on a Theme by Mozart: "Divertimento No. 13 In F Major"


Depois da curta introdução do cravo, voltamos ao tema de “The Beat Goes On”. Vozes cantam acompanhadas por dedilhados de violão, começando a terceira parte de "Phase One", a qual é batizada "Nineteenth Century: Old Black Joe", e vozes a capella cantam um pequeno trecho de "Old Black Joe", de Stephen Foster. Temos um country rock inimaginável nos álbuns anteriores, aonde baixo e guitarra fazem as notas que acompanham os vocais e as batidas secas de Appice na percussão, sendo este um resgate para "Don't Fence in Me" (Cole Porter).

O tema principal é repetido, e assim, começa a quarta e última parte de "Phase One", chamada "Twentieth Century", primeiro com "12th Street Rag". Saímos da era medieval para mergulhar em um solo de piano cheio de efeitos tanto nas batidas da bateria quanto no próprio piano e o baixo, e mais uma vez, o tema central de “The Beat Goes On” aparece. Na sequência, o órgão resgata um clássico de Green Miller, “In the Mood”, voltando então ao tema principal de “The Beat Goes One”. 

“Hound Dog” (Elvis Presley) surge para deleite do ouvinte, chegando a era do rock anos 50, e mais uma vez, o tema principal de “The Beat Goes On” aparece, dando lugar para uma magistral sequência em homenagem ao Beatles, com um medley de “I Wanna Hold Your Hand”, “I’m Feel Fine”, “Day Tripper”, “She Loves You” e “Hello Goodbye”. 

A mesma voz grave anuncia “Phase Two”, e o tema de “The Beat Goes On” aparece transformado, mais agudo, seguido por um novo tema de órgão, guitarra e baixo. A marcação da bateria nos indica que agora o Vanilla Fudge está em ação, começando primeiro com uma paulada sensacional para o refrão de "The Beat Goes On", passando por temas marcados, e  resgatando duas peças clássicas, começando pelo triste dedilhado do órgão em “Moonlight Serenade” (Beethoven). O crescendo da canção é de chorar, com órgão, guitarra, baixo e bateria sendo os causadores das lágrimas que brotam pela alta dose de sentimento carregada nesses instrumentos nessa magistral canção. 

O piano nos apresenta “Fur Elise”, voltando então ao tema de “Moonlight Serenade”, uma dramaticidade enorme, alimentada pelas vocalizações magistrais que surgem ao fundo do piano. Muito lindo. O tema de “Fur Elise” surge mais veloz, primeiro no piano e depois no órgão, com bateria, baixo e guitarra fazendo as marcações, para então o cravo solar a canção em um ritmo valseado, encerrando esse trecho com escalas velozes de órgão, bateria, guitarra e baixo. 

A bossa-nova aparece como estilo principal, em um solo estranho feito por guitarra, baixo e órgão, para um longo acorde do órgão criar uma versão samba de "The Beat Goes On", na qual guitarra e órgão são os principais destaques, encerrando o lado A. 


Mark Stein, Carmine Appice, Tim Bogert e Vince Martell

O lado B abre com “Phase Three”, e novamente, a voz do homem por detrás do rádio nos apresenta o tema de “The Beat Goes On”, seguido por mais uma sonora radiofônica, repetindo frases enquanto o cravo repete o tema de “The Beat Goes On”. Essa faixa apresenta apenas vozes de personagens famosos, como Neville Chamberlain, Winston Churchill, Franklin Delano Roosevelt, Harry S. Truman, John F. Kennedy, entre outros, sempre com o tema de "The Beat Goes On" sendo entoado vez ou outra, ora por sinos tubulares, ora pelo violão, ora pelo órgão, ora por um dançante jazz.

A voz então anuncia “Phase Four”, voltando para a pseudo-bossa-nova, destacando a guitarra de Martell. Sinos tubulares e cítara repetem o tema principal, e entramos em um mundo oriental, chamado de "Merchant", no qual a cítara é acompanhada por batidas percussivas, quebradas pelas tristes notas do órgão. Bogert começa a declamar o lindo poema da canção, com um crescendo muito parecido ao de “A Saucerful of Secrets” (Pink Floyd), tendo ao fundo o dedilhado da guitarra, baixo, as mudanças de acordes do órgão e leves batidas marciais na caixa, que criam um bonito tema instrumental. O xilofone se mescla com a percussão e a cítara, enquanto o órgão faz suas mudanças de acordes. 

Mais vozes apresentam uma entrevista com Martell, enquanto uma valsa executada pelo grupo é feita ao fundo, voltando aos delírios orientais da cítara e da percussão, e agora a valsa ganha velocidade, com o bonito tema instrumental sendo executado pelo órgão, Mais uma vez, a cítara surge com a percussão. Uma voz sussurrada declama a letra de "The Beat Goes On" no melhor estilo Jim Morrison, enquanto o órgão repete o bonito tema de “Merchant”, e por alguns segundos, o silêncio predomina, voltando para uma maluca sessão com cítara, percussão e xilofone, que nos apresenta “The Beat Goes On”, na qual seu tema surge executado pelo órgão, enquanto baixo e bateria fazem a marcação junto da guitarra. Vocalizações cantam o nome do álbum na melodia do órgão, virando uma agitada faixa levada pelo embalo do baixo e do órgão, e com uma marcação pegada de bateria e guitarra, concluindo o LP com mais um trecho da entrevista com o Vanilla Fudge.


Novatos mas inovadores: Stein, Appice, Martell e Bogert, os avós do Heavy Metal


A versão em CD trouxe dois bônus: uma versão para "You Can't do That" (Beatles) e "Come By Day, Come By Night". Além disso, o single de "The Beat Goes On" auxiliou o LP a vender bem mais do que esperado para um disco de improvisos, chegando na décima sétima posição nas paradas americanas. 


Apesar disso, a imprensa caiu de pau, dizendo que era ultrajante fazer uma versão rock & roll para uma peça clássica de Beethoven. O grupo viu sua popularidade cair em Nova Iorque, mas pessoas como Frank Zappa encontraram a genialidade escondida nesse grande disco, e chamou o grupo para excursionar com ele.


No dia 30 de março de 1968, começou a turnê entre Frank Zappa e Vanilla Fudge, sendo o último o headliner. Zappa confessaria anos depois que este foi um dos momentos mais importantes de sua vida. Zappa e Fudge iriam excursionar novamente em 1969, e dessa segunda turnê, nasceu a famosa história contada na clássica "The Mud Shark" (do álbum Fillmore East June 71, de Frank Zappa).


No dia 02 de junho, "You Keep Me Hangin' On" foi relançado em compacto, trazendo "Come By Day, Come By Night" no lado B. A bolachinha vendeu tanto que Fudge e Morton trataram de fazer as pazes, e voltaram aos estúdios para gravar o terceiro álbum. No mesmo mês, chegou às lojas aquele que é considerado pela maioria dos fãs como o melhor disco do grupo.



Renaissance, colocando a casa em ordem

Renaissance é este álbum, e ele começa com uma batida seca no prato, seguida pelo tema do baixo, reproduzido pela guitarra e introduzindo “The Sky Cried – When I Was a Boy”. O órgão passa a fazer o tema junto com a guitarra, criando um clima soturno, que ganha corpo com as batidas furiosas da bateria, deixando o órgão sozinho, puxando os acordes que comandam a canção. Bateria, baixo e guitarra acompanham o órgão, repetindo o tema do órgão e trazendo os vocais de Stein em uma canção pesadíssima, capaz de colocar muito headbanger de joelhos. Stein canta o nome da primeira canção, trazendo barulhos de chuva e trovões. O peso pega, com órgão e guitarra duelando em uma barulheira infernal, sendo os guias da loucura de bateria e baixo. 

Mais barulhos de trovões e chuva nos levam para o solo de Martell, aonde a guitarra soa estridente, mas com uma técnica um pouco melhor do que o disco de estreia, e repentinamente, vozes assustadoras cortam a canção, para Martell então continuar seu esganiçante e barulhento solo, aonde as escalas de Bogert chamam a atenção. 

Um longo acorde de órgão e sinos tubulares nos brinda com “When I Was a Boy”, pesadíssima, com um show do órgão e do vocal de Stein. Com o coração na ponta da boca, ele rasga sua voz, e esse petardo inicial de Renaissance demonstra que o Vanilla Fudge havia evoluído e muito desde seu álbum de estreia, tendendo bastante para experimentações sinistras e muito pesadas. 

“Thoughts” surge com as vocalizações e marcações de bateria que o Uriah Heep tanto ousou fazer na década de 70, diminuindo o ritmo da paulada inicial, em uma canção mais suave, com Martell e Stein dividindo os vocais de mais uma bela canção, destacando novamente os arranjos do órgão e da participação cada vez mais essencial da guitarra. As vocalizações surgem novamente, levando para a segunda parte da canção, cantada primeiro por Stein e depois por Bogert, encerrando com uma encantadora mudança de acordes do órgão. 

Os acordes fantasmagóricos do moog de Stein anunciam “Paradise”, mais uma obra fantástica de Renaissance. Baixo e órgão fazem uma tímida marcação, com vocais imitando a melodia do baixo. Pouco a pouco, bateria e guitarra vão surgindo entre o crescendo das vocalizações e do órgão, e então, o nome da canção é entoado pelo conjunto vocal, apresentando-nos mais uma bonita balada no estilo característico de tocar do Vanilla Fudge, misturando peso e psicodelia como poucos. Destaques para as vozes e para as variações climáticas criadas pelo órgão. 

Um pequeno trecho com a participação de sinos tubulares acompanha as vozes celestiais do quarteto, mostrando que além de grandes músicos eram também grandes vocalistas, e sentimo-nos como realmente em um paraíso, ou dentro de uma igreja. As vozes explodem em uma pegada sequência de acordes da guitarra e do baixo, trazendo novamente a letra, cantada com o acompanhamento de acordes diminutos, e encerrando com uma tímida participação vocal. 

A sessão marcada da bateria, órgão, guitarra e baixo abre “That’s What Makes a Man”, com um poderoso arranjo vocal construído para uma balada intimista, onde as pancadas de Appice se opõem ao estilo delicado proposto pela canção. Durante o refrão, o peso pega através da guitarra de Martell. A sessão marcada da introdução é repetida, levando a sequência da letra com mais um espetáculo sonoro das vocalizações, carregadas de falsetes, encerrando, com a repetição do nome da canção por diversas vezes, o lado A desse fenomenal disco. 


Bogert, Martell, Appice e Stein


O lado B abre com o baixo introduzindo “The Spell That Comes After” (original de Essra Mohawk). Batidas no chimbal acompanham as batidas nas cordas de Bogert. Pouco a pouco o órgão vai surgindo, assim como vocalizações agudas e sinistras, envolvendo uma na outra através da mudança das caixas de som. Um sustain agonizante da guitarra, lembrando uma sirene, gera uma barulheira que estoura nas vocalizações, abrindo espaço para Martell cantar uma canção repleta de sessões quebradas e variações de andamento. Mais uma vez, os vocais são o principal destaque. Vozes agudas cantam o nome da canção, seguidas pelas velozes notas do baixo e das marcações na bateria, para retornar ao explosivo acompanhamento original dessa paulada sonora, a qual se encerra com a repetição do nome da mesma entre acordes sinistros do órgão. 

“Faceless People” surge com o órgão de Stein fazendo um longo acorde que acompanha o tema central da canção, feito primeiramente pelo órgão e depois por guitarra e baixo. A sessão é repetida, com baixo e guitarra criando um novo tema enquanto o órgão viaja com seus longos acordes. Este novo tema muda a cara da canção, como que em um ritmo medieval, alienadas por escandalosas viradas do órgão, enquanto Martell solta o braço nas cordas. 

Um solo rasgado e sem muita técnica nos leva à letra da canção, que mantém o estilo das anteriores, ou seja, Appice socando seu kit enquanto Bogert, Martell e Stein deliram cada um por si em seu instrumento, construindo uma maravilhosa cama sonora. Mais um solo de Martell  e voltamos para a continuação da letra. Aqui, chama a atenção o fato de as vocalizações surgirem apenas no final da canção, fazendo um pequeno tema, antes de órgão e guitarra executarem uma espécie de tema oriental . 

Por fim, a épica “Season of the Witch” (Donovan) chega para assustar os moleques metidos à metaleiros mundo a fora. Já na sinistra introdução, notas de baixo, barulhos de guitarra e alternâncias do piano elétrico são acompanhadas por um longo acorde de órgão. O piano elétrico executa um breve tema dedilhado, acompanhado pelo baixo, e na sequência, o órgão puxa o tema central, trazendo a voz comovente de Stein, enquanto ao fundo, a guitarra repete o tema do órgão, e Appice faz suas participações percussivas, chegando ao refrão, no qual as vocalizações cantam o nome da canção como que bruxas atravessando na frente de seu quarto. 

Vozes sussurradas levam ao segundo trecho da letra, tendo ainda ao fundo o tema executado por órgão e guitarra, voltando ao refrão. Agora, podemos entender o que as vozes sussurradas dizem (“Help Me”), e um poema começa a ser declamado (a letra de "We Never Learn", de Essra Mohawk), tendo ao fundo um delirante solo de órgão, até que baixo e bateria marcam um andamento mais pesado. A voz pedindo socorro aparece novamente, quase morrendo, e Stein repete o tema do órgão, continuando a letra da canção, repetindo o refrão com muitos gritos, que encerram essa assustadora canção destacando as linhas de baixo de Bogert e os gritos assustadores de um homem, falando “Please, God, mama I’m called”. 

O relançamento em CD trouxe três faixas bônus: a versão editada de “You Keep Me Hanging On” e as inéditas “Come By Day Come By Night”, uma balada sessentista que poderia facilmente ter entrado em Vanilla Fudge, e “People” uma interessante experiência flamenco-funk-psicodélica, aonde Martell é quem se destaca mais com seus solos permeando as vocalizações e palmas predominantes em toda a canção.


Vanilla Fudge

Apesar do ótimo disco, o Fudge ainda encontrava dificuldades em conquistar a costa oeste, na época dominada pelas bandas da região de San Francisco. Por outro lado, o grupo conquistou sua primeira turnê pela europa, além de ampliar o horizonte de shows também pelo Canadá, e desfilar pelos Estados Unidos abrindo para Jimi Hendrix Experience, com shows na primeira semana de setembro (dia primeiro no Red Rocks Park em Denver, dia 3 no Balboa Stadium de San Diego, no dia 4 no Memorial Coliseum, em Phoenix e no dia 5 no Swing Auditorium, em San Bernadino).


A série de shows com Hendrix aumentou, com a dupla passando por Seattle (06/09) e indo parar no Canadá  (Vancouver, no dia 07/09). A turnê regressou aos Estados Unidos, tocando em Portland (09/09), Oakland (13/09), San Francisco (14/09) e Sacramento (15/09). A grande série de shows com Hendrix fez sucesso, e levou-os novamente para a TV, aparecendo no programa Beat Club e no Wonderama TV, ambas as apresentações em 1968. Durante a turnê, a ATCO lançou o single de "Take Me for a Little While", em uma versão remix da versão lançada no álbum de estreia, que chegou na posição trinta e oito na parada da Billboard.


O sucesso da tour com Hendrix, e do compacto de "Take Me for a Little While", levou o Vanilla Fudge a ser a banda de abertura da turnê de despedida do Cream pelos Estados Unidos, durante o outono de 1968, e fazendo ainda um show extra tendo o Canned Heat como banda de abertura.


Mais um single foi lançado no dia 15 de novembro, dessa vez a versão editada de "Season of the Witch", e o ano de 1968 encerrava com The Beat Goes On e Renaissance vendendo bastante, e com o Vanilla Fudge excursionando sozinho, sendo a atração principal em quase todos os lugares que tocava, com exceção dos últimos shows do ano, nos quais o Jeff Beck Group foi contrarado para abrir para os nova iorquinos.


Porém, o Jeff Beck Group cancelou os shows, e para substituí-lo, nada mais nada menos que o Led Zeppelin foi chamado, sendo esta a primeira excursão do Led pela América, antes mesmo do primeiro LP do grupo ser lançado. O último show de 1968 foi feito no Fillmore West de San Francisco, na virada do ano de 1968 para 1969, contando com o Led Zeppelin, Richie Havens, Cold Blood e Youngbloods como bandas de abertura.


Na segunda e última parte, vamos ver como foram os últimos dias do Vanilla Fudge, e por oonde andaram os músicos do grupo a partir da década de 70, até a reunião no início dos anos 2000.
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