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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Glenn Hughes (Bar Opinião, Porto Alegre, 11 de Novembro de 2025)

"The Chosen Years, A Turnê De Despedida", assim foi anunciada a mais recente tour de The Voice of Rock Glenn Hughes por nosso país, a qual começou ontem com uma excelente apresentação em Porto Alegre, e segue para mais quatro datas no Brasil (Belo Horizonte amanhã, dia 13, Rio, dia 14, Sampa, dia 16 e Curitiba, dia 18).

O exorbitante valor do Meet & Greet (169 dólares) me impediu o acesso a mais umas conversas com Hughes, as quais já tive em 2015 e 2018, mas graças a excelente organização da Abstratti, consegui presenciar esse momento que marca - quem sabe - a última vinda de Hughes ao Brasil. Na - até então - última passagem do britânico em terras brasilis, há dois anos, Glenn estava com problemas de saúde, sendo que o show de Porto Alegre foi considerado bem abaixo em termos de performance, e logo na sequência, o show de Curitiba teve que ser cancelado, por conta de uma gripe. Mas desta vez, a coisa foi diferente.

Glenn e eu, again

Cheguei ao tradicional Bar Opinião por volta das 15:30, e logo em seguida, tive a honra de recepcionar Glenn, que chegava para passar o som. Sempre um lorde, Glenn me atendeu com muito carinho e atenção (assim como fôra nas outras vezes em que pude conversar com ele), assinou meus discos, tirou fotos, e falou a frase que sempre diz aos fãs: "I love you guy, thank you". Uma humildade impressionante, mas me chamou bastante atenção a fragilidade de Hughes. Ele desceu mancando da van, e estava perceptível que havia um desconforto na perna, ao mesmo tempo seus braços finos e o tamanho diminuto, longe do Glenn que vi há 7 anos pela última vez, e muito distante daquele ser encantador de mulheres e homens, com sua vasta cabeleira e peito aberto, dos anos 70. Sete anos depois de ter visto Hughes pela última vez, a idade bateu no velhinho. Mas, logo em seguida, deu para acompanhar a passagem de som, e perceber que a voz ainda está intacta, e que o show ia ser arrebatador.

Com Rodrigo Marenna

Ainda deu tempo de trocar uma ideia com Rod Marenna, que também foi super atencioso e conversou comigo um bom tempo. Ele foi o responsável pela abertura da noite junto de sua banda Marenna, e não escondia a alegria de estar ali, fazendo o papel de mestre de cerimônias para um dos maiores nomes da história da música. Recentemente o grupo lançou o álbum ao vivo Ten Years After, comemorando os 10 anos da banda.

Em quase uma hora de uma excelente apresentação, o grupo formado por Rodrigo Marenna (voz), Edu Lersch (guitarra), Bife (baixo), Arthur Schavinski (bateria) e Luks Diesel (teclados) mandou ver em 8 canções, destacando as já clássicas "Never Surrender" (de No Regrets - 2016), "You Need To Believe" (de My Unconditional Faith - 2016) e "Had Enough" (do EP Pieces Of Tomorrow, de 2021), mostrando que não é a toa que o rapaz vem sendo elogiado no Brasil inteiro, sendo com certeza um dos principais nomes brasileiros do cenário hard/heavy metal nacional.


O palco do Opinião esperando Hughes

Um rápido detalhe adicional, muito importante para este que vos fala, é que passado um tempo pós-encontro com Hughes, encontrei meu amigo William Faria em um bar logo em frente ao local do show, e eis que quem estava lá curtindo umas Heineken? Nada mais nada menos que a banda de apoio de Hughes, Soren Andersen (guitarras) e Ash Sheehan (bateria). Os dois ali, de boas, curtindo uma ceva, e foram super atenciosos comigo, tirando foto, trocando uma ideia, e com Ash me prometendo a baqueta ao final do show - que ele realmente cumpriu. Valeu camaradas!

Ash Sheehan (acima) e Soren Andersen (abaixo)


Voltando então ao show, uma rápida pausa para arrumar o palco e então, quando Hughes subiu ao palco, a sensação de nostalgia tomou conta. Mesmo sabendo que ele lançou Chosen, primeiro disco solo em 9 anos, agora em 2025, não há como negar que o cara fez sua fama nos anos 70, junto de Trapeze, Deep Purple e carreira solo.

Glenn e o sorriso estampado na cara

Ao mesmo tempo, a turnê trouxe novidades não só dos gigantes citados e da carreira solo, mas também do projeto ao lado de Pat Thrall (Hughes/Thrall), da Black Country Communion e também do projeto Iommi/Hughes (ao lado de Tony Iommi). E sendo um show no formato trio que consagrou o Trapeze, certamente, me fez ainda mais faceiro por ver algo como as origens de Glenn para o sucesso.

O show começou com Hughes revisitando sua carreira solo, mandando ver com "Soul Mover" (do álbum de mesmo título, lançado em 2004), uma das melhores canções de sua carreira, e que já mostrava que a plateia que ocupava uma boa parte do Opinião estava ali realmente para curtir tudo o que viesse, cantando junto o refrão, seguida de "Muscle And Blood", do trabalho com Pat Thrall, de 1982, e a ótima "Voice in My Head", do recém lançado Chosen. Uma boa entrada, para realmente aquecer os fãs, na qual Hughes mostrava que mesmo mancando, está com a voz afiadíssima, mandando ver nos falsetes e vocalizes, bem como tocando baixo como se fosse um menino. O sorriso na face era algo notável, e tanto Soren como Ash simplesmente estavam em excelente noite.

Um pouco mais de Glenn no
palco do Opinião

Com o público aquecido, surge a primeira surpresa para mim, "One Last Soul", registrada no álbum de estreia da Black Country Communion (de 2010). Juro que nunca esperei ouvir essa faixa ao vivo, e foi muito legal ver a plateia cantando junto. Veio "Can't Stop the Flood" (Building the Machine - 2001) e "First Step of Love", que me remeteram direto ao excelente ao vivo Soulfully: Live in the City of Angels (2002), um dos melhores ao vivo de todos os tempos, e que "First Step of Love" foi registrada primorosamente. Ver e ouvir ao vivaço uma das minhas músicas favoritas da carreira solo de Glenn, diante dos meus olhos, foi o primeiro momento de arrepio da noite. Mas ainda veio mais.

Hughes contou de como três garotos do norte da Inglaterra, adolescentes (ele, Mel Galley e Dave Holland), trabalharam duro para manter o Trapeze na ativa, sem dinheiro algum, e então, quando estavam tocando em Los Angeles, ele viu uma linda garota, a mais linda garota que ele já tinha visto na vida, dançando sensualmente ao som da Trapeze. Ao chegar de volta em casa, contou sobre a garota para a avó, que apenas lhe disse: "por que você não compõe uma música para ela?", mandando ver em uma versão de quase dez minutos de "Way Back to the Bone", do Trapeze (You Are The Music ...We're Just The Band - 1973), recheada de improvisos vocais. Sensacional! Mantendo a sequência Trapeze, o "primeiro amor de Glenn", o músico contou que Mel ingressou no Whitesnake, e Dave entrou no Judas, ou seja, os caras que trabalharam duro, viviam nas casas de seus pais, ganharam na vida, e então veio "Medusa" (do álbum homônimo de 1972), também com quase 10 minutos. Linda faixa, linda apresentação, emocionante audição! O que Glenn fez com os vocais foi digno de aplausos até por seus colegas de banda. Aqui eu já estava arrebatado totalmente.

Para fechar as surpresas, veio a música "composta com meu irmão, o cara que como pode ser tão calmo e ser o mais fodido criador de riffs de todos os tempos no metal? Tony Iommi", e assim mandar ver nas fantásticas e pesadíssimas "Grace/Dopamine" (de Fused, 2005), outras que nunca imaginei ouvir ao vivo, e que me fez ficar viajando de como seria bom ver uma turnê de despedida do Iommi com Glenn e Tony Martin dividindo o palco. Foi o momento para ver também que Hughes está tocando baixo muito, mas muito bem, ensinando muito guri por aí que acha que faz música.

Glenn no palco do Opinião

Veio a faixa-título do mais recente álbum e, para surpresa de todos (já que não estava no set list espalhado pela internet até então), Hughes disse que "a próxima música nós não estávamos tocando, mas eu não posso não tocar ela para vocês", e assim detonar com 15 minutos de "Mistreated". Simplesmente de chorar, e não preciso dizer mais nada! A apresentação encerra-se com "Stay Free" (de V, lançado pela Black Country Communion em 2024), outra baita surpresa, e que desta feita me fez viajar em "por que não ver a BCC aqui no Brasil ano que vem?", e sobre muitos aplausous, Hughes volta para Bis.

Aqui, sozinho ao violão, ele faz uma emocionante interpretação de "Coast to Coast" (registrada pelo Trapeze no You Are The Music ...We're Just The Band), fantástica, para então Ash e Soren voltar ao palco e trazerem mais uma surpresa, "Black Country", outra do álbum de estreia da BCC, e que aí sim, me fez querer mesmo ver os caras ao vivo. Para fechar a noite, "Burn" foi entoada a plenos pulmões por todos os presentes no local, e assim, chegarmos ao momento mais tocante do show, quando Hughes anunciou seus colegas de banda, e então, visivelmente emocionado, falou que "nunca esquecerei vocês, carregarei isso em meu corpo até os últimos dias de minha vida", com a voz totalmente cheia de emoção, segurando para não chorar, despedindo-se assim de seus fãs claramente prestes a cair em lágrimas.

Vinis autografados

Tomara que Glenn continue ao menos lançando discos regulares. Pelo que se viu no palco do Opinião, voz ele tem para manter sua carreira, e, caso tenha forças, que volte novamente para Porto Alegre o mais breve possível. Sua ausência com certeza será muito sentida nos palcos não só da capital gaúcha, mas do mundo inteiro, e que honra para mim poder, mais uma vez, ter visto, ouvido, e ainda receber das mãos de Hughes sua palheta (e sim, Ash me deu a baqueta ao final do show).

Galera da Marenna no Speed

PS 1: Quero aqui agradecer imensamente ao Homero e a produtora Abstratti por ter me colocado no show! Não à toa vocês são a melhor agência de shows do Rio Grande do Sul, e com certeza, uma das melhores do país.

PS 2: E não é que no pós-show, eu e meu irmão Micael vamos comer um Xis no tradicional Speed e quem aparece por lá? A banda Marenna, justamente para matar a saudade do melhor lanche de Porto Alegre. Os caras foram super simpáticos, deram muitas risadas no pouco tempo que conversamos e, para variar, mais uma (s) foto (s) garantida (s)! Valeu Marenna, sucesso para vocês!

Set list do show
Baqueta e palheta do show

Set list

1. Soul Mover

2. Muscle and Blood

3. Voice in My Head

4. One Last Soul

5. Can't Stop the Flood

6. First Step of Love

7. Way Back to the Bone

8. Medusa

9. Grace / Dopamine

10. Chosen

11. You Are the Music

12. Mistreated

13. Stay Free

Encore:

14. Coast to Coast

15. Black Country

16. Burn

domingo, 3 de agosto de 2025

Resenha de Show: Vitor Ramil (Rio De Janeiro, 29 de Julho de 2025)


Em 1998, na entrada do meu ensino médio, na cidade de Pelotas, tive uma professora de português, Beatriz, que ensinava também literatura, e me apresentou Vitor Ramil, pelotense, irmão da famosa dupla Kleiton e Kledir. Meu interesse que levou a tal apresentação veio de uma breve discussão sobre se havia algum escritor pelotense mais importante que Simões Lopes (N. R. João Simões Lopes Neto, nascido em Pelotas, Rio Grande do Sul, considerado o maior autor regionalista do Brasil, já que em sua produção literária valorizou a história e as tradições do gaúcho). Lembrando que sou natural de Pedro Osório, cidade localizada a 60 Km de Pelotas, e portanto, tinha em minha adolescência uma certa busca por uma identificação regionalista. Através do livro Pequod, que havia sido lançado anos antes, ela me ensinou sobre a literatura e também sobre a arte de Vitor, apresentou-me a palavra Satolep (Pelotas de trás para frente), que foi algo inédito para mim, surpreendente.

Vitor e banda no Teatro Ipanema


Ao mesmo tempo, com o passar do ensino médio, conheci a música de Vitor Ramil e o álbum Tango (1987), de onde sai "Joquim", uma versão para "Joey", de Bob Dylan, e uma das melhores músicas da MPB. Os anos passaram e, durante a faculdade, "Joquim" se torna um símbolo para mim, um símbolo de luta, um símbolo de raça, um símbolo de conquistas, um símbolo de vitórias e de enfrentamento contra as injustiças. Eu e meus colegas, principalmente o meu colega e irmão Rodrigo Magalhães, o Kalaba, tínhamos em "Joquim" um símbolo a ser seguido. E "Joquim" se fez presente em meu mestrado, no meu doutorado, em todas as vezes que eu precisava de forças, ouvia "Joquim" e seguia adiante. Não à toa, ela foi a canção que abriu minhas defesas de mestrado e doutorado. E ainda hoje, lembro o cheiro da sala do local onde defendi minha tese, o meu doutorado, com muita alegria.


O cheiro diferente do cheiro que senti no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, na noite de 29 de julho de 2025. Ipanema, bairro localizado ao lado de Copacabana, na zona sul carioca, não tem o mesmo charme de sua irmã próxima. Outro cheiro que facilmente me vem à mente é o de quando senti a brisa do mar de Copacabana pela primeira vez, aquela mistura de peixes, frituras, suor e outros odores misturados que só Copacabana tem, isso já em 2006, quando eu fiz o que Vitor fez um dia, caminhei meus sapatos por Copacabana atrás de um livro algum para ler no fim de semana. Era minha primeira vez por lá, e jamais imaginaria que, caminhando de Copacabana para Ipanema, quase 20 anos depois iria ver Vitor pela primeira vez exatamente em Ipanema.

Vitor e Ney interpretando "Astronauta Lírico"


Lá no acanhado Teatro Ipanema, promovendo o álbum Mantra Concreto, com poemas de Paulo Leminski, musicados por Vitor, junto de Alexandre Fonseca (bateria, percussão, efeitos, e ainda, neto do famoso Joquim entoado por Vitor) e Edu Martins (baixo, teclados, voz), subiram ao palco, numa noite que tinha tudo para ser perfeita, e assim o foi. À exceção daquele cheiro. Aquele cheiro de uma plateia idosa, uma plateia predominantemente elitista, e que havia em grande parte ido ali assistir não ao Vitor, não aos poemas de Paulo Leminski, mas a um convidado que ia subir ao palco naquela noite junto de Vitor: Ney Matogrosso.


Eu não tinha ingresso para o evento, realizado como parte do projeto Terças No Ipanema, mas fui com a expectativa de ao menos conseguir ficar num canto, e quiçá pegar um autógrafo e trocar uma ideia com Vitor. Por sorte, obra do destino, minha devoção à Entropia ou qualquer outra fé que possa existir, a filha e o genro de uma moça - nem tão moça assim - não foram ao show, e consegui ingresso em uma posição privilegiada do palco, sem antes ter que assistir aquele elite mofada entrando no teatro, ver que uma mulher com roupas com certeza inapropriadas para um teatro foi lá enviada pela sua "dona" para guardar lugar e conseguir um ingresso para ela (a escravidão ainda existe), e uma outra que me olhando com ar de esnobe, perguntando o que eu achava da segurança do Rio, ao ouvir eu falar que havia gostado da nova rodoviária (a Novo Rio) me falou no alto de sua empáfia: "meu bem, eu não vou em rodoviária", enquanto aproveitava para descer a lenha no atual governo federal e também no governo municipal do Rio de Janeiro (curiosamente poupando o governador do estado).


Enfim, às 20:00, Vitor e banda subiram ao palco. O gaúcho tocou durante duas horas para a elite carioca que, com uma arrogância gigantesca, um cheiro de naftalina e de "riqueza", pois o seu dinheiro não tem o valor da cultura de Vitor Ramiro, uma elite que não entende as músicas de Ramil, que mal sabia quem era Paulo Leminsky, que desconhece que a capa de Mantra Concreto traz uma explícita homenagem ao regime soviético e aos comunistas, e tão pouco imaginava que Ney não era a principal atração da noite. Esta mesma plateia patética ficou obsoleta e simplesmente quieta diante de um artista sensacional.


Vitor apresentou um repertório baseado em Mantra Concreto (9 das 15 canções do CD foram apresentadas), lançado em 2024, e bastante intimista, num teatro lotado que desconhecia a obra ali apresentada. Foi o primeiro show para promover o disco, que começou exatamente com as duas faixas que abrem o disco, "De Repente" e "Teu Vulto". Com o violão em punhos, o gaúcho comandou a noite de forma tranquila e como se estivesse em um ensaio. Entre conversas que geravam certas risadas um tanto quanto constrangedoras dessa elite mofada, Vitor tocou não só canções recentes, mas algumas faixas de seu vasto repertório, como por exemplo "Invento" (gravada por Ney no álbum Beijo Bandido), a sensacional "Foi No Mês Que Vem" (faixa homônima daquele que talvez seja o melhor disco de Vitor), "Estrela, Estrela", do álbum de estreia do guri, com apenas 17 anos, e a belíssima "Tierra", canção que foi adaptada por Vitor ao português, e que segundo ele, lhe traz ainda hoje muitas lágrimas (ao contar sua relação com a música "Tierra", o caminho que ele fez saindo de casa até o laranjal, e sentindo a emoção dele, confesso que também me emocionei).


Então, Vitor trouxe uma boa definição sobre a importância do Secos & Molhados para a música nacional, e foi então que Ney subiu ao palco para interpretar "A Ilusão Da Casa", que aí a plateia parece que acordou realmente. Ney cantou e parecia totalmente à vontade em estar ali. Com uma calça jeans e uma bela camisa preta, Ney interpretou soberanamente essa canção de Tambong (2000). Ovacionado, Ney agradeceu e logo em seguida a banda emendou "Astronauta Lírico", uma das mais belas canções de Vitor, o que é difícil, já que quase todas as canções de Vitor são belas. Mas logo no começo, Ney parecia perdido, e na segunda frase, se atrapalhou completamente. Então, ele tentou continuar cantando, mas pediu para Vitor voltar, alegando que o grupo estava tocando em um tom diferente do ensaiado. Vitor, então, afirmou que o tom estava correto, e assim voltaram à "Astronauta Lírico" para o incomodado Ney demorar a se soltar. Mas, quando ele se soltou, foi um grande êxtase e um dos grandes pontos altos da noite. Mas não só isso. Ney cantou apenas duas músicas que foram ovacionadas, aplaudidas de pé, mas o show foi muito mais do que Ney.

Encerramento do show: Vitor, Ney, Alexandre e Edu


O show foi uma amostra de um gênio da música nacional, um ser brilhante, que não merecia a plateia que estava ali. E tão pouco, essa plateia mofada, enriquecida de pobreza, enriquecida de dinheiro esnobe, como uma senhora que disse para mim: "acabei de vir dos Estados Unidos, aqui é o fim do mundo, mas infelizmente eu tenho que morar aqui, neste país ridículo". Poxa, que alegria, né? Enquanto isso, Vitor destilava os poemas de Leminski para aquela (com certeza) plateia burguesa e anti-comunista, que não entendia bulhufas do que estava sendo entoado no palco do Teatro Ipanema, e também seus próprios pensamentos.


Ao final do show, após voltar ao bis, onde apresentou "Joquim", a melhor versão feita por uma música de Bob Dylan em todos os tempos, que narra a história de Joaquim Fonseca, um senhor que criou aviões no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Pelotas, em Satolep, exatamente a mesma cidade onde eu fiz o meu ensino médio, onde fiz a minha faculdade, onde nasceu meu filho, e do lado da cidade onde eu nasci. "Joquim" foi interpretada com a versão muito próxima da versão de Foi no mês Que Vem (e não à versão original de Tango). E, ao final, Vitor deu uma bela de umarrelhada naquela plateia mofada, fedendo a mofo, com seus mofos nas gravatas, aquele mofo que Joquim teve que lamber, mas que lá, no Teatro Ipanema, não foi Vitor quem lambeu. Foi a plateia que acabou sendo, vamos dizer assim, repreendida por palavras fortes, não só da letra genial de Vitor, mas também, ao final de "Joquim", quando ele disse que "foi uma carta em inglês, lá dos Estados Unidos, que impediu Joaquim Fonseca de ser um dos maiores construtores brasileiros, de avião, o primeiro construtor e dono da primeira fábrica de aviões do Brasil. Nada diferente dos dias de hoje".

Trocando uma ideia emocionado diante de um gênio


Ainda houve tempo para Vitor mandar ver "Caricatura", e convidar à plateia para recepcioná-lo no pós-show, onde iria tirar fotos e conversar com quem quisesse. As 169 pessoas que lotaram o Teatro Ipanema simplesmente foram embora, e pouco mais de 20 verdadeiros fãs e amantes da obra de Vitor (e talvez Leminsky?) ficaram para conversar com uma das mais humildes pessoas que já tive a oportunidade de conhecer. Meu sonho havia se tornado realidade, o de conhecer pessoalmente o maior gênio da literatura e da arte gaúcha deste século, e que eu possa ver um show tão incrível quanto o do último dia 29 de julho em breve. Mas aos interessados, amanhã, 5 de agosto, Vitor estará novamente no Teatro Ipanema, com o mesmo show, mas agora tendo Adriana Calcanhotto como convidada. Os ingressos já estão (novamente) esgotados, mas vá lá, vá que a Entropia lhe dê a mesma oportunidade que eu tive. Viva Vitor, Viva Leminsky Viva a Verdadeira Arte Brasileira!


PS: Quero agradecer (e muito) à Marcia Regina, pelas imagens, pelo ingresso e pela parceria durante o show, e Jorge Gomes, pela parceria, imagens e atenção na banca da Biscoito Fino. Vocês também mereceram estar lá!


Set list


De Repente

Teu Vulto

Um Bom Poema

Invento

Anfíbios

Foi No Mês Que Vem

O Velho León E Natália Em Coyoacán

Profissão De Febre

Tierra

Sujeito Indireto

Estrela, Estrela

A Ilusão Da Casa

Astronauta Lírico

Amar Você

Loucos De Cara

Não É Céu

Joquim

Caricatura

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Review Exclusivo: Roger Waters - Curitiba e Porto Alegre (27 e 31 de outubro de 2018)



Queria fazer um texto sobre os shows de Roger Waters no Brasil, durante a turnê Us + Them, em outro contexto que não o que estamos vivendo em nosso país. Relutei, e pensei bem para chegar a conclusão que ele não irá comentar tudo de política que houve nos shows. Irei falar do que aconteceu musicalmente, e trazer uma visão geral dessa porcaria política. É muito triste ver um artista do tamanho de Waters ser vaiado por seu posicionamento político, e pior, ser xingado impiedosamente por pessoas que pagaram um bom dinheiro para estar na grade VIP, malucos sem noção que passaram apontando o dedo médio e gritando "comunista", "Aqui você vai ir para a cadeia com o Lula" e outras baixarias inacreditáveis, que obviamente ele não ouviu, ele não entendeu, talvez ele tenha visto, mas do alto de sua sabedoria, inteligência e por que não, arrogância que marcam uma carreira impecável de 50 anos e muito sucesso, superou musicalmente (e visualmente) com um show de alto nível.


Waters mandando ver no baixo de "One of These Days"

Baixarias de fanáticos a parte, os dois últimos shows de Waters em nosso país marcaram uma grande mudança em relação as suas últimas passagens, em 2007 e 2012. Se lá ele apresentou The Wall - o clássico disco do Pink Floyd, lançado em 1979 - na íntegra, e em 2007 concentrou-se em trazer Dark Side of The Moon em sua totalidade, com outros clássicos de sua carreira, dessa vez ele não ficou só em um disco, e veio promover o ótimo Is This The Life We Really Want?, que saiu ano passado. Com isso, percorreu também cinco álbuns lançados pelo Pink Floyd, passeando então por Meddle (1971), Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e o citado The Wall.

Para tal, um palco gigantesco, com um telão igualmente gigantesco, preencheu boa parte dos estádios Couto Pereira (Curitiba, no dia 27) e Beira-Rio (Porto Alegre, no dia 30). O show foi dividido em três partes, muito parecidas entre Curitiba e Porto Alegre, com exceção da terceira parte, que teve canções excluídas em Porto Alegre. Na primeira parte, o show começou com um vídeo de meia hora de uma moça sentada a beira da praia. A imagem representa uma refugiada, fugindo do seu país, e a moça irá aparecer por outras vezes ao longo do show, inclusive no final.

O som do mar vai se confundir com sons de batidas de coração, e então, "Speak To Me" e "Breathe" abrem o espetáculo de forma suave, nos convidando para apreciar Dark Side of the Moon. Foi curioso encerrar "Breathe" e ouvir na sequência "One of These Days". Waters aqui mandou ver no baixo, e o chão tremeu com os solos de Jon Carin (tecladista que fez parte da formação do Pink Floyd pós-saída de Waters, e que no show, além de teclados também tocou violão e foi responsável em "One of These Days pelo slide guitar) e Dave Kilminster (na guitarra). Sonzaço, seguido pelos relógio de "Time", e uma mágica interpretação das vocalistas Holly Laessing e Jess Wolfe (apelidadas de Lucius) para "The Great Gig in the Sky", que não ficou nem perto da original em ambas as apresentações (fazer o que Clare Torry fez é irreproduzível), mas deu um bom agrado aos ouvidos, e encerrou o lado A de Dark Side of the Moon apenas substituindo "On the Run" por "One of These Days", o que confesso, curti bastante.

"Time" e "Welcome to the Machine"

A surpreendente "Welcome to the Machine" veio na sequência, trazendo ao fundo o famoso vídeo que marcou sua execução nos anos 70. Foi aqui que aconteceu a manifestação política em Curitiba, mas em Porto Alegre, passou sem nenhuma manifestação (aliás, a capital gaúcha não teve NADA referente ao Bostonaro). Os demais integrantes da banda de Waters, Jonathan Wilson (guitarra, vocais), Gus Seyffert (baixo) e Joey Waronker (bateria), além de Ian Ritchie (saxofone) e Bo Koster (teclados, guitarras), estão na formação de Is This the Life ..., e fizeram muito bem a apresentação de três canções deste disco, "Déjà Vu", "The Last Refugee" e "Picture That" . Confesso que "The Last Refugee" me levou às lágrimas, ainda mais pelo belíssimo clipe exibido no telão, e que "Picture That" foi um belo tapa na cara de muita gente que estava nos dois estádios só para ouvir as duas seguintes, "Wish You Were Here" e "Another Brick in the Wall Pt. 2". Foi o momento celular, onde os estádios se iluminaram e pude constatar que os retardados que vaiaram Waters só conheciam essas duas músicas mesmo. Agora, o que não entendo é como um cidadão ficou registrando "Another Brick in the Wall Pt. 2" gritando o tempo todo "Vai pra Cuba!", e isso na pista Vip, e depois foi embora ... É vontade de gastar dinheiro!

Tirando isso, vale citar que "The Happiest Days Of Our Lives" se fez presente, assim como a terceira parte de "Another Brick in the Wall", que encerrou então a primeira parte do show. Também foi bonito ver a mensagem que Waters passou com as crianças encapuzadas durante "The Happiest Days of Our Lives", como se fossem ser executadas, e depois, ao longo de "Another Brick in the Wall Pt. 2", tirando o capuz e a roupa de presidiário para curtirem o show livres, dançando, com a liberdade que toda criança - e ser humano - deve ter, e com a palavra RESIST estampada no peito. Ele não tem ideia do impacto que essa mensagem, junto do clipe de "The Last Refugee", me causou. Ah, houve um pequeno vacilo de Waters na entrada de "Wish You Were Here", isso no show de Curitiba, mas nada que causasse tanto estrago.


Waters em "Picture That" (acima) e as crianças prestes a serem "executadas" em "The Happiest Days of Our Lives" (abaixo)

O intervalo foi recheado de mensagens no telão, que disseram muito para quem tinha que ler, mas duvido que tenha lido, vide o que aconteceu no domingo das eleições ... Enquanto as mensagens rolavam, mais manifestações políticas vinham da plateia, em mais atitudes novamente ridículas de ambos os lados, afinal, aquilo é um show de rock. Enfim, vem a segunda e encantadora segunda parte.

Aqui realmente o show começou. Depois do intervalo com muitas mensagens de resistência a diversos males do mundo, como fascismo, ditadura e até o facebook, o chão começou a tremer, e então, o gigantesco telão transformou-se na usina termelétrica Battersea, que estampa a capa de Animals. Acima do telão, quatro chaminés e o famoso porquinho voando entre elas, e os presentes puderam presenciar uma aula de tecnologia, deixando todos de olhos vidrados, e ouvidos atentos, para as impecáveis apresentações de "Dogs" e "Pigs (Three Different Ones)", ambas do disco de 1977. A forma como a usina surge no telão é encantadora. Uma pena que no Brasil ela não veio "completa", como nos shows do exterior, onde parte dela prolongava-se para a plateia, mas mesmo assim, foi incrível.

Momentos do show de Curitiba (acima) e Porto Alegre (abaixo) durante as execuções de "Dogs" e "Pigs (Three Different Ones)

Musicalmente, "Dogs" foi interpretada fielmente a versão original. Os solos de guitarra, a participação dos teclados, tudo esteve muito bem encaixado. A sacanagem unindo os três animais do disco, com a ovelha servindo champanhe para os porcos, e os cães latindo ao fundo, ficou muito legal, e claro, Waters fantasiado de porco, dizendo que os porcos governam o mundo, e depois mandando um belo "Fuck the Pigs" (já sem máscara) foi de tirar o sarro. "Pigs (Three Different Ones)" foi mais centrada em "homenagear" Donald Trump. O uso do vocoder por parte de Dave me fez viajar no tempo, quando ouvia Animals deitado no meu quarto delirando com aqueles efeitos. Só essas duas faixas já valeram a ida nos dois shows, seja pela música, ou pela beleza que foi a criação da usina no telão.

O mais interessante mesmo foi o que ocorreu em Porto Alegre. Assim que o telão apresentou a palavra "Dogs", um raio gigante cruzou o céu da capital gaúcha. Muitos acharam que fazia parte do show, mas na verdade, foi só um prenuncio do temporal que atingiu a cidade logo em seguida, mas em tempo de ainda acabar o show, o qual foi toda a segunda parte embaixo de água. Inclusive, o porquinho voador, com as palavras Seja Humano estampadas na barriga, deu uma breve volta no estádio e logo foi guardado (em Curitiba ele ficou mais algumas canções "no ar"). O público não arredou o pé em Porto Alegre, e em Curitiba, todos sequinhos curtiram "Money" e "Us and Them", mais duas de Dark Side of The Moon, e que novamente levaram-me às lágrimas. Que músicas belas, e que composições. Presenciar o criador delas tocando ali, diante dos meus olhos, é algo inesquecível.

Mais imagens da Usina, com destaque para o porquinho voando sobre as chaminés (abaixo) e Waters com a máscara de porco (acima)

Veio "Smell the Roses", do novo álbum, e um cheiro forte e repugnante surgindo na frente do palco, que nos fez sentirmos dentro da própria usina termelétrica (esse efeito, para quem não estava na pista, creio que não foi sentido). Fechando a segunda parte do show, o momento mais aguardo, com "Brain Damage", "Eclipse" e a recriação da capa de Dark Side of The Moon, através de um show de lasers que iluminaram os estádios, formando então a pirâmide (lasers branco) e as cores do arco-íris. Vendo de dentro da pirâmide, o efeito não foi tão belo quanto da arquibancada, onde podia se ver explicitamente a capa de Dark Side, mas de qualquer forma, foi muito esperta e inteligente a produção que fez essa obra, encantadora de todos os lugares que fosse vista, e que encerrou a terceira parte do show de forma sublime.

Em Curitiba, Waters deu um breve intervalo, apresentou a banda, contou que a próxima canção ele resolveu tocar no lugar de "Mother", por conta dos problemas judiciais que poderiam surgir, e que a mesma era dividida em três partes. Assim, vieram "Wait for Her", "Oceans Apart" e "Part of Me Died", que ficaram lindas, com muita emoção e mensagens belíssimas de paz vindas do telão. Já em Porto Alegre, com a chuva aumentando e o temporal se aproximando, Waters quebrou o protocolo, disse que não ia apresentar a banda, e foi direto para o final, com "Comfortably Numb". Outra faixa sensacional, com belos solos por parte de Kilminster, e na qual eu tive a oportunidade de ao menos cumprimentar Waters e agradecer por ele ter trazido essa turnê ao Brasil, já que ao final da canção (em ambos os shows), ele desceu do palco e foi dar um tapinha nas mãos dos fãs que se aglomeravam nas grades.



A pirâmide de Dark Side em dois momentos


Foi uma demonstração de simpatia e carisma de Waters, um momento digno de alguém como ele, o qual saiu do palco dizendo amar à todos e agradecendo a presença (e dando uma corridinha para fugir da chuva em Porto Alegre). Com os estádios já iluminados, a mulher sentada na beira da praia volta ao telão, e então, eis que surge sua filha, do meio da praia, para um fraterno e emocionante abraço encerrar definitivamente a apresentação.

Alguns pontos preciso ressaltar:

  • O show de Curitiba, para mim, teve muito mais tesão por parte de Waters. Em Porto Alegre, ele pareceu mais frio, ou conformado com a eleição do Bolsonaro. Em Curitiba, ele ainda tinha um gás para queimar, e foi bem mais interativo com a plateia no sentido de tentar fazer algum eleitor repensar o voto.
  • O público em Porto Alegre foi maior, mas não lotou o Beira-Rio. Talvez por que havia semifinal de Libertadores no mesmo horário, ou a ameaça de chuva, enfim. Na média, os dois shows deram 40 mil pessoas cada.
  • A tecnologia dos shows estão cada vez mais surpreendendo, o que é ótimo, mas como é bom ver uma banda afiadinha e sem errar quase nada.
  • A comida e bebida estavam com preços bem abusivos, sem falar no estacionamento. Foi a oportunidade para muitos enriquecerem as custas dos fãs, e pior, a oportunidade de ver que tem muito direitista cheio da grana, que se prestou a comer pra caralho durante o show, vaiar Waters quando podia, bater papo durante "Dogs" ou "The Last Refugee" (só para citar algumas) e ligar o celular para filmar "Another Brick in the Wall, Pt. 2".
  • Interessantíssimo ver que em "Another Brick in the Wall, Pt. 2", até o vendedor de lanches sentou para curtir o espetáculo.
  • Provavelmente essa foi a última turnê de Waters por nosso país.
  • O povo brasileiro, em suma maioria, ainda tem muito a aprender sobre democracia, e principalmente, que em local de show, política, futebol e religião não podem entrar em campo de jeito nenhum.
  • #EleNão!!
Fim de espetáculo

Set list

Speak to Me
Breathe
One of These Days
Time
Breathe (Reprise)
The Great Gig in the Sky
Welcome to the Machine
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Another Brick in the Wall Part 3
Dogs
Pigs (Three Different Ones)
Money
Us and Them
Smell the Roses
Brain Damage
Eclipse
Wait for Her (Curitiba)
Oceans Apart (Curitiba)
Part of Me Died (Curitiba)
Comfortably Numb

segunda-feira, 14 de maio de 2018

El Efecto (Santa Maria, 11 de maio de 2018)



"Duas coisas bem distintas, uma é o preço, outra é o valor". Nunca antes na história do Brasil a famosa frase do grupo El Efecto fez tanto sentido quanto no show realizado pelo grupo carioca na noite do último dia 11 de maio, na cidade de Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul. Divulgando seu mais recente álbum, Memórias Do Fogo, a turma do Rio de Janeiro desembarcou em terras gaúchas para três apresentações (Novo Hamburgo, Santa Maria e Porto Alegre). 

No coração do Rio Grande, o Rockers Soul Food foi o responsável por receber Tomás Rosati (voz, cavaquinho e percussão), Bruno Danton (voz, violão, trompete), Eduardo Baker (baixo), Cristine Ariel (guitarra, voz, cavaquinho), Tomás Tróia (guitarra, voz) e Gustavo Loureiro (bateria), acompanhados ainda de Aline Gonçalves (flauta, trompete). Um local acanhado, com capacidade para no máximo 400 pessoas, e que realmente, foi pequeno para abrigar a energia e a sede de tocar do hepteto, e também para comportar a legião de fãs que vem sido conquistados ao longo dos 16 anos de carreira da banda, e que em Santa Maria, lotaram o Rockers em uma noite inesquecível na cidade.



Antes, teve a abertura local do grupo Guantánamo Groove. Formado por Gustavo Garoto (guitarra/voz), Yuri ML (baixo/voz) e Vagner Uberti (bateria). Eles estavam acompanhados de um percussionista e um trombonista, que infelizmente não descobri o nome, mas que deram um baita gás para encorpar o som da banda. Fizeram uma bela sonzeira, honrando o groove que tem em seu nome, e levantando a galera. Confesso que senti-me transportado para o início dos anos 70, em algum pequeno bar de Nova Iorque, onde rolavam sons fantásticos de grupo como Chicago Transity Authority ou United States of America. 

Em uma hora de apresentação, somente com canções autorais, chamou-me a atenção a harmonia musical do conjunto, que já tem feito seu nome na região de Santa Maria e acabou de lançar seu primeiro álbum, Okupa (2016), e também para o grande guitarrista que é Gustavo, com solos ácidos e recheados de muito feeling. Dentre as 11 canções apresentadas pelo grupo, destaques especiais para "Contracorrente", "Saiba Ver O Sol", "A Do Leonel" e principalmente "Itaimbé" e "Satisfação Total", mas no geral, todas as faixas foram muito animadas. A ginga do trombone faz uma baita diferença, e somada com uma guitarra afiada e grandes arranjos vocais, casou perfeitamente para esquentar a plateia ao grande show da noite.



Eram duas da manhã quando o hepteto subiu no pequeno palco. A banda ficou um tanto quanto apertada, já que levaram todos os seus instrumentos para tocar. A presença da nova guitarrista da banda, Cris Ariel, levou Bruno (o guitarrista original) para ficar concentrado no violão, mas no fundo, podemos afirmar que a El Efecto agora está com três grandes guitarristas, pois o violão de Bruno possui distorções colocadas com precisão em várias faixas.

O show foi baseado no último álbum, e de cara, o show começou com a sensacional "O Drama da Humana Manada". O cavaquinho de Tomás ferveu e incendiou a galera, e a partir dali, todos os presentes sabiam que iam ser tomados por um show energético e muito virtuoso. Samba, rock pesado, chorinho, reggae, tango, enfim, o grupo sabe misturar os ritmos como ninguém, são todos exímios instrumentistas, Bruno e Tomás possuem interpretações vocais impressionantes, e as letras são para ficar na memória, tanto que tem sido usadas para estudo em diversas faculdades do Brasil à fora. 



"O Drama da Humana Manada" foi cantada a plenos pulmões pelo presente, o que me assustou positivamente, já que o álbum foi lançado a menos de dois meses, mas isso demonstra que a El Efecto está conquistando seu espaço cada vez mais. Na sequência, veio "Pedras e Sonhos", do grande disco homônimo de 2012, e que foi o responsável por finalmente fazer com que a El Efecto chegasse aos meus ouvidos. Um dos grandes sucessos da carreira do grupo, fez tremer o piso do Rockers, e foi facilmente cantada e ovacionada pelos fãs. 

Nesse momento da apresentação, foi legal ver a dinâmica do palco da El Efecto. A alteração dos instrumentos, e do posicionamento entre Bruno e Tomás, bem como a energia exalada pelos dois, é contagiante. Mesmo tendo feito uma longa viagem entre Novo Hamburgo e Santa Maria, e com o show entrando madrugada adentro, os dois estavam inteiraços. Veio mais uma do disco novo, a ótima "Café", na qual o violão e as vozes bem arranjadas foram as principais atrações, assim como a participação da plateia auxiliando nas vozes.



Com a plateia dominada, a El Efecto pôde variar seu repertório, voltando a Pedras e Sonhos para apresentar "N'aghadê", outra bela letra, criticando a televisão, e com um ritmo dançante que colocou os presentes a bailar. "O Monge e o Executivo", de Memórias do Fogo, foi um espetáculo a parte. Recheada de variações, essa foi um atestado da complexidade musical da obra da El Efecto, e de como fica difícil classificar o som que eles fazem. Só vendo para acreditar no som que os caras conseguem fazer, e tentar entender como os arranjos musicais são construídos e interpretados com tamanha precisão, é obra para doutores de música. Que música linda, e que obra sensacional. 

Veio mais três do disco novo, a intrincada "Trovoada", com sua letra forte, um maravilhoso trecho onde os metais se sobressaem, bem como as inspirações africanas na harmonia musical, a paulada "Incêndios", metaleira das boas para quebrar pescoços e fechar roda punk (algo que aconteceu fácil no Rockers), e "Carlos e Tereza", essa última com uma homenagem para a vereadora Marielle Franco, que emocionou a banda e os presentes, para então, entrarmos na reta final da alucinante apresentação do grupo.

Eram pouco mais de três da manhã quando Tomás perguntou se a plateia tinha fôlego para mais. Com uma gana imensa de assistir a El Efecto, e uma banda afiada e também sedenta para mostrar seu trabalho, a banda arrasou com uma versão pesada e distorcida de "Ciranda". A linda faixa de abertura do disco acústico A Cantiga É Uma Arma (2014) recebeu guitarras pesadas e muito peso, ficando ainda melhor que sua original. Que música absurdamente fantástica, que letra sensacional, sem explicação.

Uma longa e inspirada versão de outro clássico de Pedras e Sonhos, a estupenda "O Encontro de Lampião com Eike Batista", veio a seguir, e foi mais uma que fez tremer o Rockers, e cantada em uníssono até pelo guardador de carros (principalmente nos versos "Eike Eike resistir"). Mais uma aula de habilidade instrumental, criatividade, competência e muita, mas muita energia. Para fechar, outro clássico, "A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador", do primeiro disco da banda, Como Qualquer Outra Coisa (2004), mas na versão de Pedras E Sonhos, e os gaúchos, bem como a banda, deixaram a casa por volta das 4 da manhã, com a sensação de que se houvesse a oportunidade para mais tempo de show, estariam todos ali presentes, para pular e cantar junto desta que considero a melhor banda brasileira da atualidade.


Ainda houve antes (e também depois) da apresentação um tempo para trocar uma ideia com os caras da banda. Tomás e Bruno foram extremamente gentis e simpáticos, assim como o produtor Iuri Gouvêa, responsável pela banquinha de produtos e por ser um dos braços direitos do grupo. Por isso, a frase que abre esse texto, afinal, o preço do ingresso (R$ 15,00 reais antecipado, R$ 25,00 na hora) foi pouco pelo valor da conversa com esses gênios da música brasileira, e também o valor de ver e ouvir ao vivo e a cores um espetáculo de altíssima qualidade. 

Valeu ao El Efecto por ter propiciado uma noite inesquecível, e que em breve, retornem para o Rio Grande do Sul, para trazer ainda mais energia, garra, mas principalmente, talento, competência e qualidade musical. Em um país assolado por atrocidades como Pablo Vittar e cia., ouvir a El Efecto ao vivo é ter certeza que ainda há espaço para surgir boa música em terras brasilis. Há Braços gurizada, e voltem sempre por aqui.

Set list

1. O Drama da Humana Manada
2. Pedras E Sonhos
3. Café
4. N'aghadê
5. Mayombe
6. O Monge E O Executivo
7. Incêndios
8. Carlos E Tereza
9. Ciranda
10. O Encontro de Lampião Com Eike Batista
11. A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Glenn Hughes (Porto Alegre, 28 de abril de 2018)



Ver um show de um grande artista é sempre um momento marcante em sua vida. Ver esse mesmo artista pela segunda vez, apresentando somente clássicos exclusivos da banda onde se consagrou, diante um metro de seus olhos, é ainda mais inesquecível. E foi isso que me aconteceu no último dia 28 de abril, no Bar Opinião em Porto Alegre. Depois de dois anos, pude reencontrar novamente o baixista e vocalista inglês Glenn Hughes, e desta feita, com a turnê Glenn Hughes Performs Classics Deep Purple.

Assisti ao homem em 2015, em um belíssimo show no formato trio, onde além de Hughes, destacou-se o loiro guitarrista Doug Aldrich (Ex-Whitesnake, Dio, entre outros), que tocou muio naquela noite. Fechava o trio o batera Pontus Engborg, e ali, Hughes passeou pela sua carreira solo e pelos trabalhos com Trapeze, Deep Purple e Black Country Communion. Encerrei a resenha daquele ano na expectativa de que a promessa de Hughes retornar a Porto Alegre seria cumprida, e que mais discos eu iria assinar.

Me & Mr Hughes

Isso por que daquela feita, houve um excelente Meet & Greet com The Voice Of Rock, onde ele foi super atencioso, e autografou tudo o que levei. Dessa vez, a EV7 Live, através do produtor Eliel Vieira, fez novamente o meeting, e óbvio que me fui sem piedade, com mais uma leva de discos para assinar. Além de trovar com Hughes, o Meeting prometia a autobiografia recentemente lançada por ele, um pôster, credencial laminada e um tempo de bate-papo com Mr. Glenn, além de fotos.

Mas, nem tudo é perfeito. Se em 2016 apenas 4 aventureiros desembolsaram a grana para trocar uma ideia, pegar uns autógrafos e tirar muitas fotos, em 2018 foram 20 os participantes. Isso acabou diminuindo bastante o contato com Glenn, que não pôde conversar com os fãs como queria. De qualquer forma, nos poucos minutos que estive com ele novamente, ele foi muito atencioso e querido. Uma alma aberta, que te deixa embasbacado com sua gentileza e simpatia. Não autografou tudo que levei (autografou o livro, dois vinis e um CD), mas isso é o de menos. Poder trocar uma rápida fala com ele já valia a noite. Mas ainda tinha a parte sonora. Vale ressaltar que não recebemos o pôster prometido no anúncio do Meeting, mas o produtor Eliel acabou dando em troca um copo promocional da turnê brasileira, o que foi uma atitude no mínimo sensata do rapaz, para o qual deixo meus elogios por sua honestidade.

Glenn Hughes e o Rickenbacker vermelho, em ação

Falando em organização, me desculpa a produtora que trouxe Glenn para o país, mas a agenda ficou no mínimo confusa. Afinal, em 15 dias por terras brasilis, o artista percorreu uma verdadeira maratona, saindo de Brasília (17/05), passando por Belo Horizonte (19/05), São Paulo (21/05), Limeira (22/05), Curitiba (24/05), Manaus (26/05) até chegar em Porto Alegre. Da capital gaúcha, Glenn foi para o Rio, onde se apresentou dia 29/05, e encerrou a turnê em Vila Velha, no dia 01/05. Não seria melhor ter concentrado os shows na região sudeste e encerrado em Manaus, tendo começado justamente pelo sul, já que ele vinha de Buenos Aires? Uma logística bastante confusa, que acabou sendo percebida no palco, já que Hughes por algumas vezes demonstrou cansaço.

De qualquer forma, passado o encontro, era hora de ir para a frente do palco garantir o melhor lugar. Fiquei embaixo do microfone de Glenn, e dali, pude ver de pertinho quando ele subiu ao palco, acompanhado de Søren Andersen (guitarras), Jesper "Jay Boe" Hansen (teclados) e Fer Escobedo (bateria), empunhando o velho Fender dos anos 70, e estourar as caixas de som com uma pancada versão de "Stormbringer" (do álbum homônimo de 1974). O som das caixas Marshall era sensacional, e onde eu estava, de frente para elas, tomava conta do ambiente. 

Jay Boe

Em "Might Just Take Your Life" e "Sail Away", faixas mais calma do aclamado Burn (1974), pude ouvir os teclados e a guitarra, e percebi que o time que acompanhou Hughes tentou chegar o mais próximo das versões ao vivo da Mark III estabelecidas nos clássicos Made in Europe e California Jam. Até as fisionomias e trejeitos eram meio similares. Andersen permaneceu no seu canto, praticamente imóvel, como Blackmore no California Jam. Jay Boe colocava as pernas sobre os teclados lembrando Lord. As costeletas de Escobedo traziam memórias da contra-capa de Made in Europe. Enfim, tudo certinho para termos certeza que o tributo era ao Deep Purple.

Hughes continua com seu vozeirão praticamente intacto, apesar de já não se aventurar com frequência em tons mais altos. Porém, seus falsetes e agudos estão impecáveis. E no baixo, o cara é um monstro. Acredito que atualmente é o melhor baixista vivo de sua geração, e por que não, de todas as gerações. Como é bonito e agradável de ver ele palheteando as cordas sem piedade, fazendo solos como se o instrumento fosse uma guitarra, e sempre com um sorriso no rosto.

Andersen durante seu solo em "You Fool No One"

O show seguiu com Andersen indo para a frente do palco, e depois de um breve e virtuoso solo, puxar o riff de "Mistreated" (Burn). Hughes e sua banda fizeram brotar lágrimas de vários ao meu lado, com uma interpretação raiz, regada de muito feeling e esbanjado emoção. Lindo! Para encerrar a primeira parte do track list, envolvendo as faixas de Burn, Hughes convidou à todos para fazer uma viagem no tempo, e ir ao California Jam de 1974. Então, Jay Boe ficou sozinho no palco, e realmente, levou à todos para os Estados Unidos, já que arrancou os mesmos uivos e barulhos de seu Hammond, aqueles que Lord fez na apresentação daquele evento, durante a clássica "You Fool No One", e também resgatou a clássica hebraica "Hava Nagila", que o mesmo Lord emulou na versão de Made in Europe. De chorar (parte 1)!

Ficou a expectativa da entrada do cowbell de Fer, e quando o mesmo surgiu, a todo o pique, trazendo o riffzão de baixo e guitarra explodindo as caixas de som, o coração pulou de alegria. As viradas, a letra vigorosa, a pegada do riff, tudo sensacional, botando o Opinião a baixo. O solo de Andersen começou com a pegada veloz em uma única nota que Blackmore criou para a canção, e depois seguiu com as palhetadas arrastadas nas cordas que encaminharam para o blues delicioso e chapante que o Deep Purple apresentou ao vivo nos anos 70. Lindo, arrepiante e de chorar (parte 2).

O menino Escobedo, detonando na bateria

Segue "You Fool No One", e quem duvidou que o menino Escobar pudesse fazer um solo de bateria próximo ao que Ian Paice fazia nos shows da turnê de Burn, deve ter segurado o queixo. O guri destruiu. Com uma força nos braços, uma habilidade no bumbo e muita técnica, Fer reproduziu diversos trechos do solo de Paice no Made in Europe, e ainda fez muito mais. Tanto que quando terminou seu solo, foi aplaudido e reverenciado pelo próprio Hughes. De chorar (parte 3).

Encerrada a mais de meia hora de apresentação só com "You Fool No One", Hughes acalmou os ânimos (mas não às lágrimas) dos presentes. Em uma linda homenagem, disse que a próxima música tinha sido composta em parceria com Jon Lord, para quem ele dedicava a mesma. Antes de começar a cantar, ainda disse: "Acho que vou chorar!", e então, Jay Boe puxou o riff de "This Time Around". De arrepiar. Hughes puxou emoção do fundo da alma, e naqueles minutos, até o copo promocional da turnê cedeu-se à uma lágrima.

Hughes, alegre com a apresentação de Porto Alegre
Tomando o fôlego, era hora de sacudir o esqueleto, e continuando na pegada de Come Taste The Band, veio "Gettin' Tigher", agora em homenagem à Tommy Bolin. Nessa, Hughes aproveitou para mostrar ainda mais seus dotes como baixista. O cara é um monstro, e fim de papo! Uma empolgante e surpreendente "Smoke On The Water", nas linhas do California Jam, conduziu-nos para o final da apresentação, com uma embasbacante versão para "You Keep on Moving". Cara, essa faixa me colocou de pernas pro ar. Uma das melhores canções do Purple MK IV, se não a melhor, ali, com O cara cantando ela. Muita emoção, e a certeza de que ter ido no show naquela noite tinha sido uma escolha certa.

Após alguns minutos de mais um, Hughes voltou, dessa vez não empunhando o baixo, que ficou a cargo de um roadie, mas sim apenas segurando o microfone para surpreender novamente, cantando "Highway Star". Essa eu não esperava no repertório, confesso, e honestamente, teria tirado ela para colocar uma "You Can't Do It Right (With The Only You Love)", "Holy Man" ou até a versão completa de "This Time Around" com "Owed To G". Mas paciência, o artista tem o direito a escolher o que vai tocar, e como o encerramento foi com chave de ouro, não tenho do que reclamar.

Essa chave de ouro contou com a presença do lindo Rickenbacker vermelho que Hughes usou na turnê de Burn. Cara, vá se catar. O som daquele velhote é apavorante. Diante das caixas de som do baixo, quando Hughes apenas ligou ele já dava para sentir que a casa ia estremecer. Foi só ele puxar o riff de "Burn" e pronto, não havia como ficar isolado da potência sonora que exalava do palco. Meus olhos tremiam no ritmo do baixo de Hughes, e aquela pesada versão de "Burn" só atestou que é muito raro achar, hoje em dia, um grupo tão forte individualmente e coletivamente como foram as MKs III e IV, assim como a maioria das bandas dos anos 60 e 70.

Fim de espetáculo

O show encerrou com a promessa de mais um retorno, declarações de amor e aquele sentimento de "bebedeira" após pouco mais de duas horas de apresentação, a qual irá ser lembrada pelos presentes não só por sua importância histórica, mas também por terem visto ao vivo e a cores como se faz rock 'n' roll de verdade.

Track list

1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Sail Away
4. Mistreated
5. You Fool No One
6. This Time Around
7. Gettin' Tigher
8. Smoke On The Water
9. You Keep On Moving

Bis

10. Highway Star
11. Burn



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