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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

50 Anos de Crystal Ball


Conforme prometido, apresento hoje a história de Crystal Ball. Mas por que o sexto álbum dos estadunidenses merece um texto aqui no site? Bom, por que ao meu ver, ele foi fundamental para direcionar o Styx para novos caminhos sonoros que fizeram da banda uma maiores de sua geração, além de influenciar nomes como Boston, Journey, Kansas, entre outros, praticamente criando o rock de arena, mas, principalmente, revelar ao mundo o talento de Tommy Shaw.

Voltando no tempo, o ano é 1975. O Styx estava lutando na estrada desde 1970, em uma gravadora pequena (a Wooden Knickel, a qual chegou a apelidar os caras durante este período) e com apenas um sucesso em sua carreira, "Lady", de Styx II (1972). A formação do grupo à época era Dennis DeYoung (teclados, vocais, piano), James JY Young (guitarra, vocais), John Curulewski (guitarras), John Pannozzo (bateria) e Chuck Pannozzo (baixo), e após o lançamento de Equinox, no primeiro dia de dezembro de 1975, o quinto disco da banda, Curulewski decidiu que ia seguir outros caminhos musicais.
A formação inicial do Styx: James JY Young, Dennis DeYoung,
John Curulewski, John Panozzo e Chuck Panozzo

Este era o primeiro disco do grupo com uma grande gravadora, a A&M. Porém, Curulewski sentia-se com dúvidas no novo contrato, chegando a afirmar que "está acontecendo a mesma merda com a A&M que aconteceu com a Wooden Nickel. Não estão investindo na gente, não estão fazendo divulgação, não estão nos dando os bons horários de turnê". Ao mesmo tempo, Frampton Comes Alive!, de Peter Frampton, chegou às lojas também lançado pela A&M, e seu lançamento só piorou as coisas, pois afinal, o disco ao vivo do guitarrista estourou inesperadamente, e assim, o Styx passou a não receber a atenção da A&M.

DeYoung também estava insatisfeito com a forma como Equinox foi divulgado. “Eis o que aconteceu: ele parou nas paradas na posição 60 e não chegou a disco de ouro. Originalmente vendeu cerca de 350 mil cópias. Foi, mais uma vez, uma falha da gravadora... eles deixaram Equinox cair.” Disse DeYoung para o jornalista Sterling Whitaker, em 2007. Sobre Comes Alive!, DeYoung complementa: “Aquilo afetou todo o mercado da música, porque aquele álbum mostrou aos executivos das gravadoras que era possível vender milhões de álbuns para os jovens sem precisar de singles de sucesso. Em certo sentido, a A&M, para nós naquela época, virou uma gravadora pequena e sem distribuição, porque o Frampton estava em todo lugar e Equinox foi jogado pra escanteio.”

Com um temperamento difícil, acusado de não ser uma pessoa positiva, sempre infeliz, e que não se relacionava bem fora dos palcos, levando o apelido de "rebelde", chegou ao ponto de que nenhum dos outro quatro membros do Styx queriam dividir quarto de hotel com Curulewski. Cabia ao tour manager Jim Vose ser o responsável por acolher e acompanhar Curulewski. Nas palavras de Vose: “Eu sempre me certificava de ficar com ele pra tentar ser pacificador e intermediário. Ele era um pouco mais radical, uma pessoa muito criativa, mas com algumas ideias diferentes. Ninguém se dava bem com ele”.

O styx à época de Equinox: Dennis DeYoung, James JY Young,
John Curulewski, Chuck Panozzo e John Panozzo

Para piorar a situação, depois de ter sido considerado um compositor importante para o Styx - afinal, ele co-escreveu "Lady" - , Curulewski teve apenas um crédito completo ("Prelude 12") e dois co-créditos ("Born for Adventure" e "Mother Dear") em Equinox, fazendo-o realmente sentir-se incomodado com o comportamento dos demais colegas. Vose estava lá no derradeiro dia do guitarrista na banda, 6 de dezembro de 1975, menos de uma semana pós-lançamento de Equinox. Com problemas de saúde e decepcionado com o comportamento autoritário de DeYoung, Curulewski pediu as contas após um show, no qual houve uma grande discussão entre ele e DeYoung. Curulewski estava com laringite e tentou cancelar a apresentação dentro dos camarins, enquanto 12000 fãs aguardavam o Styx. Ele fez o show abaixo de remédios, mas ao final, DeYoung disse a Curulewski: "Eu nunca mais quero subir no palco com você", ao que ele respondeu: "Ok, então eu peço demissão", e foi cuidar de si e de sua família.

O temperamento forte de Curulewski já havia o feito a pedir demissão outras vezes, mas dessa vez os colegas de banda levaram a sério. Voltando ao depoimento de Vose: "DeYoung basicamente me perguntou o que eu achava, depois se virou e disse ‘Some daqui’, e os outros apoiaram. Naquela época eles não tinham escolha. DeYoung sempre teve o poder". Por fim, a presença de Derek Sutton como novo empresário do grupo foi a gota d'água para encerrar de vez as contribuições de Curulewski com o Styx. Foi ele quem colocou a pá de cal, afirmando que "a gente troca ele" e pronto, pois julgava que o Styx ainda não tinham tido nenhum sucesso de verdade. Curulewski tornou-se professor de música em Chicago, tocando eventualmente em algumas bandas, vindo a falecer em 13 de fevereiro de 1988, vítima de aneurisma cerebral, aos 37 anos.

Com uma turnê nacional prestes a começar, o Styx não tinha muito tempo para achar um substituto, e então, surge o nome de Tommy Shaw. Nascido no Alabama, em Montgomery, Tommy deixou a pequena cidade ao se formar no ensino médio, para buscar sucesso no mundo da música. Ele passou por grupos como o The Smoke Ring e o MSFunk, onde tocou por três anos. O MSFunk era empresariado por pessoas de Chicago, e numa das apresentações do grupo na cidade, Shaw foi visto pelo pessoal do Styx.

Com o término da MSFunk, Shaw voltou para Montgomery, indo tocar no Harvest, mas logo recebeu a ligação de Jim Vose e o convite para fazer audição para o Styx. Shaw disse: "Eu peguei o avião e fui pra lá no dia seguinte, e eles nem me pediram para tocar guitarra. A guitarra nem saiu do case". Assim que o Styx ouviu a fita demo de Shaw e ele provou que conseguia cantar a harmonia aguda em "Lady", ele foi contratado, no dia 12 de dezembro de 1975.

A nova formação do Styx: Dennis DeYoung, Chuck Panozzo, James JY Young,
Tommy Shaw e John Panozzo

O grupo caiu na estrada com a nova formação, com Shaw fazendo sua estreia em 16 de dezembro (quatro dias após ser contratado), no Municipal Auditorium de Zanesville, Ohio. Agora, o Styx tinha um novo compositor, vocalista e guitarrista. Shaw caiu como uma luva para as ideias musicais de DeYoung, e além disso, também era capaz de dividir solos de guitarra com JY sem a timidez de Curulewski, o que era outro fator que incomodava bastante os colegas, pois o antigo guitarrista quase nunca colocava-se à frente do palco para solar, devido a uma espécie de complexo de inferioridade, e sim, muita timidez. Na estrada, passam a escrever as canções do sexto álbum, o qual chegou às lojas no primeiro dia de outubro de 1976.

E Shaw chegou chegando. Cinco das sete faixas do LP trazem sua mão na escrita, começando com a excelente "Put Me On" (obra composta à seis mãos, entre Shaw, JY e DeYoung) e que é uma exaltação as audições de um vinil, e ao mesmo tempo uma das melhores canções da banda. A devastadora introdução dos teclados, com o riff das guitarras e do baixo, é daqueles momentos eternos na carreira de uma banda, com DeYoung mandando ver no virtuosismo. Grandiosa, a introdução traz os vocais de Shaw, JY e DeYoung: "Put me on I'm your brand new record album / Side one, cut one listen to the songs / Play me loud don't you worry 'bout  your neighbours / Hope I make you feel good all day long / All day long" ("Me coloca pra tocar, eu sou seu álbum novo em folha / Lado A, faixa 1, escuta as músicas / Toca alto, não se preocupa com os vizinhos / Espero te fazer se sentir bem o dia todo / O dia todo"). Cara, que coisa sensacional. Quem nunca teve a vontade (e acabou fazendo) de colocar o vinil novinho na agulha, primeira faixa no talo, sem se importar com os vizinhos, e sair pulando pela casa, ouvindo o disco o dia inteiro??

E o mais foda é que "Put Me On" é uma paulada, pesadíssima. Cantada pelo vocal debochado de JY, a canção segue aclamando o vinil como o melhor amigo de um fã: "Put me on and play me loud / I'm the madman screaming in your living room / I'll soon be coming to your town / To sing and play a little tune / I said put me on and play me loud / Turn your stereo up all the way / All the way / Now your body's immersed in sound / So hear the synthesizers play" ("Me coloca pra tocar e toca alto / Eu sou o louco gritando na sua sala de estar / Em breve estarei chegando na sua cidade / Para cantar e tocar uma musiquinha / Eu disse me coloca pra tocar e toca alto / Aumente seu som no máximo / No máximo / Agora seu corpo está imerso no som / Então ouça os sintetizadores tocarem").

Styx, prontos para se tornarem uma das maiores bandas dos EUA

Não sou de colocar letras nos meus textos, mas "Put Me On" merece o destaque por que a letra é sensacional. Simples, direta, falando exatamente o que um fã faz ao ouvir um vinil. Após JY dizer para "ouvir os sintetizadores", DeYoung surge solando alucinadamente com os sintetizadores, levando para o magnífico solo de JY, com notas velozes e muito peso. A canção muda, e num clima quase Yes, camadas de sintetizadores trazem a voz aguda de DeYoung para cantar a última estrofe, acompanhado por violões e o leve andamento de baixo e bateria: "And now you're in the mood / Let the melody just drift your cares away / It's got to do you good / As it mesmerizes you in it's own way / So drift away" ("E agora você está no clima / Deixe a melodia levar suas preocupações embora / Ela tem que te fazer bem / Enquanto te hipnotiza do jeito dela / Então vá se deixando levar"). As vocalizações do grupo, os harmônicos de guitarra, o andamento suave, tudo leva a canção para aqueles momentos etereanos, voltando repentinamente para o riff pegado que encerra de vez uma das melhores faixas de abertura de todos os tempos.

Compacto de "Mademoiselle"
A segunda faixa nos apresenta a voz de Shaw, através de "Mademoiselle", canção cujo single atingiu Top-40 das paradas. Ela lembra muito o Queen de A Night At the Opera e A Day At the Races, com o baixão de Chuck fazendo a introdução, o riff das guitarras gêmeas e as vocalizações esganiçantes. O andamento dançante, com a guitarra e o baixo serpenteando os vocais de Shaw, além dos backing vocals agudos - puro suco de Queen - nos colocam fácil, na verdade, em qualquer álbum da trupe de Freddie Mercury nos anos 70.
Compacto de "Jennifer"

DeYoung volta aos vocais na excepcional "Jennifer", rockzão setentista comandado por piano elétrico e violões, além de uma guitarra carregada de distorções, onde o refrão é demolidor. Mais uma canção pesada, enaltecendo as belezas da menina de 17 anos, cujo amor é tão convidativo e excitante (hoje, com certeza seria uma faixa cancelada nas redes). O solo de JY, repleto de efeitos e alavancadas, e os vocais do refrão, assim como o peso das guitarras, são as grandes atrações de uma faixa poderosa e esplêndida, que encerra-se em um climão prog, cheia de sintetizadores. 

Compacto de "Crystal Ball"

Quando mal percebemos, o lado A se conclui com a faixa-título. Os violões fazem um dos dedilhados mais emblemáticos da carreira do Styx, trazendo o doce vocal de Shaw para mais uma canção brilhante. O longo trecho aos violões segue por duas estrofes que conta sobre o personagem central, que costumava andar na linha mas agora sente-se sozinho e confuso, levando ao refrão onde ele sofre e implora à bola de cristal o que fazer, explodindo num riff mais que pesado, com um espetáculo de vocalizações e o magnífico solo de moog por DeYoung. Que faixa linda e espetacular, e tem em seu final, repetindo o refrão apenas com a voz de Shaw e as guitarras detonado ao fundo, o seu ápice. Arrepiante, não à toa, "Crystal Ball" tornou-se uma das mais tocadas nas apresentações do Styx a partir de então, e um símbolo da era Shaw.


O lado B abre com "Shooz", rockaço feito por JY e Shaw, começando com o estalar de dedos e a voz de Shaw, trazendo o riff de slide feito por Shaw, que solta a garganta em uma hardão estadunidense ótimo, com pitadas southern, e ótimas vocalizações enaltecendo as diversões no fim de semana pelas ruas de Chicago. Seguimos com "This Old Man", linda canção de DeYoung em homenagem ao pai, o trabalhador de uma fábrica de luz durante trinta anos, e que ensinou ao filhou que mostrar o amor deve ser simples, e não se pode esconder os sentimentos. O riff das guitarras gêmeas logo de início já emociona, e a interpretação de DeYoung, sobre os violões de Shaw e JY, é tocante. O refrão certamente faz arrancar lágrimas dos ouvintes mais sensíveis, com os vocais entoando a melodia das guitarras gêmeas, e a marcante presença do hammond de DeYoung. No solo, com o hammond sendo o centro das atenções junto das guitarras, temos um momento mais roqueiro, mas no geral, "This Old Man" é mais uma lindíssima canção da carreira dos caras.

Por fim, como de costume nos álbuns do Styx até então, uma mistura de uma peça clássica com uma composição da banda. Aqui, temos "Clair de Lune", de Claude Debussy, apenas com DeYoung ao piano, introduzindo "Ballerina, uma paulada fenomenal que surge com a voz de DeYoung e o piano alternando bruscamente o tom de "Clair de Lune", de forma mais agressiva. Após a primeira estrofe, entra o hammond acompanhando a voz de DeYoung falando sobre seu encantamento pela bailarina. A banda então passa a acompanhar os vocais, e "Ballerina" ganha ritmo.

Um belo trecho com o dedilhado das guitarras, traz um curto solo de JY, para mais uma breve participação de DeYoung aos vocais, explodindo nos imortais "lá-lá-lás" e "o-o-os" do refrão que grudam em nossa mente. Que momento! A partir daqui é só curtir e ficar cantando junto da banda, enquanto Shaw e JY solam acompanhando os vocais de DeYoung. Fantástico, fechando esplendidamente um disco esplêndido.

O encarte de Crystal Ball traz mini-biografias de cada um dos músicos. Trago os textos para cada músico.

As mini-biografias no encarte do vinil ...

Dennis

O Styx mitológico era descrito como um rio de fogo que separava o Purgatório do Inferno. O objetivo do Styx musical tem sido acender um fogo finamente controlado no estúdio e, em seguida, deixá-lo enfurecer-se violentamente pelas salas de concerto em apresentações ao vivo. Ao traçar essa chama até sua origem, descobrimos que as primeiras faíscas emanaram do tecladista Dennis De Young, que apropriadamente incorpora esse calor intenso em temperamento e talento. Poucos tinham a disposição para lutar e escapar da turbulenta Comunidade Pullman de Chicago, na Zona Sul, e passaram a se tornar alguém de destaque. De Young participou do campo de batalha local com determinação, de modo que, quando descobriu os teclados por volta dos 16 anos, já estava suficientemente fortalecido para a batalha de dez anos que tinha pela frente. Ao longo desse período, De Young desempenhou o duplo papel de combustível e chama — ele exala o tipo de energia que pode guiar um grupo de cinco pessoas pelos momentos mais difíceis, e exibe continuamente o tipo de habilidade musical que torna o estrelato possível. É assim que Dennis encara tudo — se ele define uma meta pessoal, ela se torna realidade. Apesar de sua presença de palco tempestuosa, Dennis está obstinadamente determinado a estar no controle de si mesmo, de sua carreira e do destino do Styx — e suas canções são a razão principal para o sucesso do Styx até este momento. Seus esforços cooperativos com James Young abriram novos horizontes musicais, e a recente adição de Tommy Shaw já proporcionou mais um estímulo musical aos talentos de Dennis para composição e performance.

Chuck e John

Os irmãos gêmeos Chuck e John Panozzo nasceram com apenas 90 minutos de diferença, mas não poderia haver maior contraste entre os dois. O baterista John é o impaciente que dita o ritmo, revelando uma energia bruta interior que está perpetuamente em busca de uma fuga. Ele é alto e ostenta um cabelo afro volumoso, um tipo um tanto intimidador. Chuck é um pouco menos imponente no comportamento e na aparência, mas sua quase imobilidade no palco carrega seu próprio tipo de ameaça, e suas avaliações mais calmas equilibram a impaciência de seu irmão. Mas independentemente de quem tenha começado, essa dupla incomum de gêmeos tem fornecido o ritmo para o Styx e seus projetos anteriores desde o início. É talvez a telepatia que une o baixo e a bateria do Styx na base musical sólida em que os outros membros do grupo confiam e a partir da qual constroem. Os garotos Panozzo cresceram logo na mesma rua de Dennis, mas os três não se conheceram até que a música lhes deu um terreno comum. Na verdade, é mais preciso chamar os Panozzo de "fundadores" do Styx, porque Dennis originalmente se juntou à banda de garagem deles. Chuck e John têm um orgulho intenso de suas contribuições criativas, tanto no estúdio quanto no palco. A abordagem deles em relação aos seus papéis musicais é uma das características pessoais que compartilham — os dois Panozzo dedicam HORAS INTERMINÁVEIS de prática. John encontra uma fuga do trabalho árduo da música produzindo filmes caseiros sobre o Styx. Chuck é confiante ao trabalho de coordenar a arte dos álbuns e é o árbitro final de bom gosto do Styx. Ambos consideram a produção de filmes como parte de seus planos de longo prazo e, em algum momento, farão uma tentativa séria de cronicar as aventuras do Styx.

... e na capa interna da edição gatefold francesa

JY

Se Dennis De Young é a fera que encontra libertação através do romantismo, então James Young (chamado de "J. Y." pela banda) é o romântico que se torna um monstro na performance. Fora dos palcos, J. Y. desempenha o papel de analista cuidadoso, um homem que adota uma abordagem minuciosa nos negócios da música e em suas idiossincrasias decorrentes. Seu pragmatismo é um trunfo inestimável para o Styx, servindo para equilibrar o temperamento explosivo dos outros hiperativos integrantes do Styx. Ele vem da Comunidade Roseland, que fica adjacente à área de Pullman de onde vêm De Young e os Irmãos Panozzo. Ele se juntou ao trio cerca de seis meses antes de gravarem pela primeira vez e foi o seu trabalho eletrizante na guitarra que originalmente chamou a atenção das gravadoras quando o Styx tocava no circuito de clubes de Chicago. Suas feições marcantes e sua altura de 1,88m o tornam uma figura imponente no palco. Lá, ele deixa de lado sua abordagem geralmente pragmática das coisas e se torna totalmente desinibido. J.Y. sempre foi o Rock 'n Roller do grupo, como mostram suas canções, mas sua presença de palco rosnante e provocadora e sua guitarra selvagem finalmente encontraram um contraponto no sensual lirismo sulista de Tommy Shaw.

Shaw

Caramba, Tommy Shaw. Boas-vindas ao mais novo integrante do Styx, que expandiu o elenco totalmente de Chicago do grupo ao se juntar a eles após a conclusão do álbum anterior, Equinox. Tommy é nativo do interior do Alabama. Sua presença foi sentida imediatamente pelo Styx quando ele saiu em turnê com eles apenas alguns dias após o primeiro ensaio. Tom estava bem preparado para isso, no entanto, tendo dedicado 18 de seus 23 anos à guitarra, trabalhando continuamente, esperando pacientemente por sua oportunidade. Seu impacto foi aparente no palco imediatamente, adicionando uma dimensão revigorante à performance ao vivo do Styx. Ele é um forte comunicador no palco, apesar de suas proporções físicas miúdas, que contrastam com a altura imponente de J. Y. Seu desejo de vencer é algo compartilhado com o resto da banda, e seu talento será um trunfo inestimável para o Styx. De qualquer forma, seus companheiros consideram sua adição ao grupo como a melhor coisa que aconteceu desde que J. Y. se juntou ao grupo 5 anos atrás. Durante seus anos em bandas de circuito de clubes que trabalhavam duro, mais notavelmente a M. S. Funk, Tommy acumulou uma grande quantidade de material. Ao verificar os créditos deste álbum, você notará que ele não perdeu tempo em dar sua contribuição à música do Styx. O grupo demonstrou sua fé no recém-chegado ao dar ao álbum o título de uma música totalmente escrita e cantada por Tommy. As contribuições de Tommy — tanto no estúdio quanto no palco — garantirão um crescimento contínuo para o Styx, fornecendo outro estilo musical e uma abordagem diferente da vida. Seu dinamismo impulsionará o grupo ainda mais em direção à perfeição musical e ao estilo mais individual que eles sempre buscaram.

Com estas credencias, o Styx entrava em uma nova fase. Crystal Ball não teve uma recepção muito boa de início, alcançando apenas a posição 66 na Billboard, a mais baixa de um lançamento do Styx pela A&M. Mas também, o que veio na sequência foram absurdos de vendas. Porém, com o passar dos tempos, Crystal Ball subiu nas vendas, alcançando ouro no Canadá (50 mil cópias) e Estados Unidos (500 mil cópias). A partir daqui, o Styx só iria crescer nos Estados Unidos. The Grand Illusion (1977, 6 milhões de cópias no mundo, sendo 3 milhões apenas nos EUA), Pieces of Eight (1978, 5 milhões em escala mundial, sendo 3 milhões nos Estados Unidos), Cornerstone (1979, 4 milhões em nivel mundial, com metade disso somente nos Estados Unidos) e Paradise Theater (1981, único primeiro lugar nos Estados Unidos, vendendo quase 4 milhões de cópias) colocaram a banda no topo das paradas e vendas, fazendo-a uma das maiores de sua geração. Encerro então as duas homenagens aos álbuns aniversariantes do Styx dizendo simplesmente: ouça!

Contra-capa do vinil

Track listing


1. Put Me On


2. Mademoiselle


3. Jennifer


4. Crystal Ball


5. Shooz


6. This Old Man


7. Clair de Lune / Ballerina

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

25 Anos de Magnification


No dia 10 de setembro de 2001 (um dia antes do fatídico 11/09), o mundo do rock progressivo recebia aquele que se tornou o último álbum de estúdio do Yes com o vocalista Jon Anderson: Magnification. O 19° disco da banda - em termos de álbuns em estúdio - completa hoje, portanto, 25 anos, e é para mim um dos grandes discos dos já veteranos Anderson, Steve Howe (guitarra, vocais), Chris Squire (baixo, vocais) e Alan White (bateria, piano). Além disso, é o único em uma carreira de quase 60 anos, a ter apenas um quarteto na formação do grupo, graças ao ineditismo de gravar o disco ao lado da Orquestra Sinfônica de San Diego, com arranjos de Larry Groupé, que também conduziu a Orquestra. 

Yes durante a Masterworks Tour

Voltando no tempo, em 1999 o Yes lançava The Ladder. O álbum trouxe como novidade o tecladista russo Igor Khoroshev, que já havia excursionado com o grupo na turnê de Open Your Eyes (lançado em 1997, e que trouxe o grupo ao Brasil inclusive com um show inesquecível em Porto Alegre). A turnê de The Ladder, batizada Masterworks, durou três meses, passando por 31 cidades dos Estados Unidos. Nela, o Yes caprichou em resgatar suítes dos anos 70, incluindo no repertório "Close to the Edge", "The Gates of Dellirium" e "Ritual".

Porém, ela foi encerrada com polêmicas envolvendo o russo, o qual foi acusado de assédios sexual e moral com policiais femininas. Segundo elas, durante o show realizado em 22 de julho de 2000, na cidade de Hartford, ele se aproximou de uma delas, que fazia a segurança próximo à grade de proteção e tentou beijá-la à força. Como foi afastado, acabou por cravar os dentes no seu pescoço. Logo após o espetáculo avançou em outra policial, dizendo palavras de baixo calão e se afastando, não sem antes alisar as nádegas da mulher. Ele foi acusado de duas contravenções, sendo libertado com uma fiança de mil dólares. Khoroshev também possuía comportamento barulhento em hotéis, e assim, pouco depois do último show da turnê, realizado em Cincinatti no dia 04 de agosto de 2000, ele foi demitido. Sem um tecladista, Anderson, Howe, Squire e White começaram a pensar sobre o que fazer, e uma ideia que surgiu era a de tocar com uma orquestra no palco. Vamos às palavras de Howe na época de lançamento de Magnification: 

Igor e Jon em estúdio
Steve Howe durante a gravação
de Magnification

"Nos encontramos com um cara chamado Larry Groupé, que trabalha com a Orquestra Sinfônica de San Diego, e começamos a conversar com ele sobre esse projeto. Inicialmente ele estava muito empolgado em fazer as músicas antigas, para tocar todas as noites, e ele vai reger. Nós vamos sair em turnê, e ele vai reger uma orquestra diferente em cidades diferentes, tocando a partitura dele do Yes enquanto nós tocamos. Me pareceu que, já que estávamos procurando uma orquestra em parte para substituir um tecladista, um dia sugeri, por que não fazemos isso com o disco; em vez de ter um tecladista, por que não usamos instrumentos de verdade quando quisermos, se quisermos cordas, por que não ter cordas de verdade. Eu não levo todo o crédito por ter pensado na ideia de colocar a orquestra, ela meio que veio através de discussões, e eu meio que percebi que era uma opção; e quando eu apontei, os caras disseram, bem, é uma ideia muito boa." 

Anderson ficou surpreso que Squire e White concordaram, pois sentia que os dois sempre preferiam um som de rock mais pesado. Em janeiro de 2001, uma votação online foi publicada no site oficial do grupo perguntando se os fãs desejavam ver a próxima turnê com uma orquestra, e a resposta foi "SIM" (ou melhor, "YES"). Com a confirmação da turnê, em fevereiro a banda entra em estúdio para começar as gravações de Magnification, título escolhido pelo próprio Anderson. 

Larry Groupé e Chris Squire

O álbum abre com uma das melhores canções do disco, tendo o violão e a guitarra trazendo a orquestra para abrir a faixa-título. A marcante voz de Anderson surge, e "Magnification" vai ganhando força com as entradas das cordas, baixo e bateria, além de Anderson dividir os vocais com Squire. O refrão é pulsante, entoando o nome da canção, e a orquestra da um espetáculo a parte ao fundo. Além dela, Howe está impecável, e é impossível não cantar junto de Anderson o nome da canção, que abre o álbum lá em cima. 

"Spirit of Survival" traz um clima bastante sombrio para letras do Yes, levada peo violão de Howe e o baixo de Squire. Os vocais de Anderson são agressivos, e a participação da orquestra é igualmente agressiva. Além disso, o baixão Rickenbacker de Squire explode as caixas de som, em uma faixa muito diferente do que estamos acostumados a ouvir no Yes, e que acabou gerando uma série de teorias, pois no dia seguinte ao lançamento do álbum, ocorreu o famoso atentado das torres gêmeas. O álbum segue com "Don't Go", a canção mais comercial do disco, que se fez presente nos shows de divulgação do disco, e lembra algo na linha do que foi registrado na era Trevor Rabin. Confesso que acho ela a mais fraca do disco, e portanto, passo para a próxima. 

Steve Howe, Alan White, Jon Anderson e Chris Squire. Yes em 2000

"Give Love Each Day" surge com as orquestras em um clima de trilha sonora de filmes de ficção científica. A introdução orquestral é linda, nesta que é a terceira faixa mais longa do álbum, com quase 8 minutos. Após a presença de apenas orquestra por mais de dois minutos, entram guitarra, percussão e o baixo, o qual contracena com a voz de Anderson, em algo muito próximo à carreira solo de Anderson nos anos 70. Ótima faixa, com a orquestra dando um ganho sensacional para o instrumental criado pelo Yes. Impressionante como o vocal cristalino de Anderson brilha aqui, principalmente no belíssimo refrão. 

Squire faz os vocais principais da próxima canção, "Can You Imagine", a qual foi originalmente escrita para o supergrupo XYZ, que contava com Squire, White e Jimmy Page, e que chegou a gravar algumas canções demo em 1981. Aqui, com apenas três minutos de duração, ela ganha vida através do piano de White, cordas e o lap steel guitar de Howe, podendo tranquilamente ser uma faixa do aclamado Fish Out of Water. Chega então a vez de Howe brilhar ao violão na linda introdução de "We Agree". Quem que não curte as criações acústicas do velhinho, simples mas complexas de se tocar, e que se tornam arrepiantes com a presença de um oboé que conduz aos doces vocais de Anderson. Esta é uma canção que considero muito injustiçada, pois além de bela, e com a orquestra marcando presença, "We Agree" apresenta uma das melhores performances de Howe no violão dentro do Yes. Como é bom ouvir ele acompanhando os vocais de Anderson na virada central da canção, muito Yes, e muito, muito bom. 

Imagens no encarte de Magnification

Os vocais de Anderson e o violão de Howe dividem o espaço com flautas, harpa, violoncelo e violinos na bela "Soft as a Dove", outra linda faixa, que peca apenas por ser curta. Mas mesmo assim, com apenas 2 minutos, é de uma grandiosidade que somente gênios como Anderson e Howe conseguem criar, levando à longa "Dreamtime", uma faixa complexa, de 11 minutos, cuja introdução frenética ao violão, tendo um dramático violino solando, e a forte presença orquestral, nos coloca em uma espécie de ansiedade e curiosidade pelo que virá pela frente. 

A alternância de ritmos, instrumentos e a percussão que assola "Dreamtime" fazem dela uma mini-suíte que inicialmente causa um impacto estranho, do tipo "mas o que é isso que os caras fizeram?". Somente após várias audições que entendemos a complexidade magnifica dela, principalmente de como Howe e Squire alternam-se como o centro das atenções durante o trecho instrumental onde Howe sola ora ao violão, ora na guitarra, enquanto o Rickenbacker ressoa pelas caixas de som, e a orquestra, junto de White, comandam o ritmo numa espécie de locomotiva sem freios, cujo final é espetacular, um show orquestral sensacional, que encaminha para outra forte candidata a melhor do álbum. 

Ela é a mini-suíte "In The Presence Of", com suas quatro partes: "Deeper"; "Death of Ego"; "True Beginner" e "Turn Around And Remember". Com White ao piano, fazendo o riff inicial, entra então a voz de Anderson, embriagante, seguido do baixo de Squire, vocalizações e o mandolim de Howe. Orquestra, bateria e guitarra surgem na sequência, dando ritmo para "Deeper", a qual avança pelas caixas de som hipnotizando os ouvidos de uma forma singular, seja pelos vocais de Anderson, seja pelo arranjo orquestral, seja pela base vocal de Squire, seja pela guitarra de Howe.

Yes em show na Suécia, em 6 de novembro de 2001

A canção vai crescendo mais e mais, apresentando o primeiro solo de Howe, chegando então em "Death of Ego", agora com os violões mais presentes, além do lap steel guitar de Howe. Este trecho é tenso, e tem a orquestra em maior destaque na parte instrumental, além de Howe fazer seu segundo solo, abusando da lap steel. "True Beginner" então aparece com fortes vocalizações e marcações como só o Yes sabe fazer, e cara, que coisa magnífica é a harmonia vocal que os caras criam aqui. Finalmente, "Turn Around And Remember" encerra com baixo, lap steel e orquestra conduzindo a voz de Anderson falando "Turn around and remember that ...", alternando os fins de cada frase, e fechando com "Standing on sacred ground", para mais um belíssimo solo de Howe, naquilo que pode ser facilmente definido como uma Maravilha Prog. O álbum fecha com "Time is Time", pequena canção de apenas dois minutos, que serve como uma despedida digna de Anderson, lembrando a saudosa "We Have Heaven", de Fragile. 

A capa do álbum apresenta a arte criada por Bob Cesca, depois de quatro artes criadas pelo genial Roger Dean. Ela traz o logo criado por Dean criou em 1972, que não agradou a Howe, que afirmou que "é uma imagem sem brilho, sem graça e sombria que não fez nada além de decepcionar os fãs e a mim." 

O EP YesSymphonic, com canções que acabaram
saindo em lançamentos com extras

Entre 2001 e 2004, saíram relançamentos do álbum, trazendo como bônus um CD com faixas ao vivo inéditas, registradas nas turnês Masterworks (ainda com Khoroshev nos teclados) e na turnê promocional de Magnification (que falarei a seguir). Aos completistas, vamos para as edições, com as respectivas canções bônus gravadas ao vivo:

- Edição dupla com CD-Rom: "Deeper (In The Presence Of)"; "Gates Of Delirium" e "Magnification", além de entrevista com Jon Anderson, o clipe de "Don't Go" e o vídeo de "Gates Of Delirium" ao vivo;

- Edição dupla normal: "Ritual-Nous Sommes Du Soleil" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Close To The Edge" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround"; 

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Long Distance Runaround", "Don't Go" e "Magnification";

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium", "Starship Trooper", "And You & I" e "In The Presence Of";

Steve Howe e Tom Brislin,
em ensaio para a Symphonic Tour

- Edição dupla normal: "Close To The Edge", "Long Distance Runaround" e "Gates Of Delirium / Soon";

A turnê de promoção de Magnification foi - como quase toda turnê do Yes - audaciosa, com a banda tendo no palco a companhia de uma orquestra e o tecladista estadunidense Tom Brislin (futuro Camel, Renaissance, Kansas, entre outros). 

Ela foi batizada de Symphonic Tour, e o show em Amsterdam, no Heineken Music Hall, em 22 de novembro de 2001, acabou sendo registrado no CD, DVD e LP Symphonic Live, um dos grandes ao vivos da banda. Felizmente, no track list há três faixas ("Magnification", "Don't Go" e "In The Presence Of") do aniversariante de hoje, deixando para a posteridade o brilhantismo ao vio daquilo que o Yes criou há 25 anos em estúdio, em um de seus melhores trabalhos. Ouça sem medo!

Contra-capa de Magnification

Track list

1. Magnification

2. Spirit Of Survival

3. Don't Go

4. Give Love Each Day

5. Can You Imagine

6.We Agree

7. Soft As A Dove

8. Dreamtime

9. In The Presence Of

10. Time Is Time

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