quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Janis Joplin


Uma das maiores vozes que o mundo já ouviu, teve sua morte completando quarenta e três anos no último dia 04 de outubro. Estamos falando de Janis Lyn Joplin, mundialmente conhecida como Janis Joplin. A americana de Port Arthur, Texas, teve uma meteórica carreira musical entre 1964, quando perambulava por bares da Califórnia em busca de dinheiro, sexo, drogas e emoções baratas, até a fatal noite de 04 de outubro de 1970, quando morreu por overdose de heroína com álcool, no auge de sua carreira solo e prestes a lançar seu segundo álbum solo.

Nesse período, Janis lançou dois álbuns como membro do grupo Big Brother & The Holding Company e apenas um álbum solo, mas o suficiente para deixar um carisma e legado reconhecido até os dias de hoje.

O bebê Janis Joplin, dando seus primeiros gritos
Criada em uma família cristã, Janis era a filha mais velha de um engenheiro da Texaco (Seth Joplin) e da secretária de assuntos estudantis, Dorothy Joplin, e desde criança, mostrou ser uma criança problemática, e quando adolescente, revoltada. Outra característica marcante de Janis na infância e na adolescência era sua proximidade com a música negra, ouvindo bastante nomes como Big "Mama" Throton, Willie Dixon, Billie Holiday, Bessie Smith e Lead Belly. Os dois últimos foram responsáveis por motivar a pequena Janis a seguir carreira musical, e não demorou para ela começar a cantar no coral da igreja frequentada pelos Joplins.

No Thomas Jefferson High School, Joplin passou a conviver com mais um problema, que era a relação com os colegas. Considerada feia por sua pele cheia de espinhas, além de não manter uma higiene regular, e principalmente, por andar com negros, Janis passou a ser chamada pelos colegas de "Porca", "Louca", "Amante de negros" entre outros apelidos depreciativos.

Janis na infância e no início da adolescência. Uma menina rebelde e diferente

Em 1960, ela conseguiu se formar no Ensino Médio, indo estudar no Lamar State College of Technology em Beaumont, no Texas, desenvolvendo o aprendizado necessário para matricular-se na Universidade do Texas, em Austin. Na faculdade, ela começou a se destacar musicalmente, fazendo pequenas apresentações tocando harmônica e cantando, principalmente após começar um relacionamento com um jovem chamado Country Joe McDonald (Country Joe & The Fish). Não demorou para ela conseguir algum dinheiro, e em dezembro de 1962, fazer sua primeira gravação, a rara bolachinha com "What Good Can Drinkin' Do". 

Insatisfeita com a faculdade, Janis abandonou-a e foi tentar a carreira em San Francisco, em janeiro de 1963. Por lá, fez diversas parcerias, sendo a principal delas com o guitarrista Jorma Kaukonen (Jefferson Airplane), com quem gravou uma série de clássicos do blues em 1964. Foi nesse período que a jovem teve seu primeiro contato com as drogas, ficando praticamente viciada em heroína. Além disso, o álcool era outra fonte de "alimentação" constante na mesa de Janis, principalmente uísque e um licor chamado Southern Comfort.

Presa por roubo, em Berkeley

Janis partiu para Nova Iorque, e lá, consumia cada vez mais bebidas, anfetaminas e drogas. Sem alimentar-se direito, em 1965 Joplin acabou sendo internada para um tratamento de desintoxicação, após ser presa por roubo, em um período que inclusive chegou a viver nas ruas de Manhattan e a dormir ao relento na Broadway.

Janis voltou a viver em Port Arthur em maio daquele ano. Nessa altura, estava pesando apenas 40 kg, desnutrida e muito mal vestida. De volta a casa, foi obrigada a modificar seu estilo de vida, voltando para a universidade, desta feita a Lamar University, em Beaumont. Na Lamar, voltou a ter contato com a música, e agora, passou a apresentar-se acompanhada apenas de seu violão. No final daquele ano, gravou mais sete canções em um estúdio, que seriam lançadas em 1995 no álbum This is Janis Joplin 1965.

Janis com a Big Brother & The Holding Company

Em 1966, Janis voltou para San Francisco, e passou a fazer parte do grupo Big Brother & The Holding Company. Sua trajetória com a banda pode ser acompanhada aqui. Foram dois anos de muito sucesso, tendo como registros os álbuns Big Brother & The Holding Company (1967) e Cheap Thrills (1968), um dos álbuns mais vendidos na história da música. Além dos álbuns, Janis marcou época na apresentação no Monterey Pop Festival de 1967, quando, ao lado de Peter Albin (baixo, guitarra, vocais), James Gurley (guitarras), Sam Andrew (guitarra, vocais) e David Gets (bateria), os demais integrantes da Big Brother & The Holding Company, deixou os presentes ao festival de boca-aberta com uma apresentação estupefante.


Sequência de fotos de Janis nua (acima)
Destaque para uma das fotos
Em 1 de setembro de 1968, Janis decidiu sair do Big Brother. Sua última participação com o grupo foi três meses depois, em San Francisco.

 A partir dali, Janis começou sua carreira solo, levando com ela Sam Andrew. Baseada em um som próximo ao rhythm and blues, longe das psicodelias de seu antigo grupo, a nova banda de Janis apresentava um naipe de metais e uma sonoridade bastante inovadora para um grupo da Califórnia, sendo formada por Janis, Andrew, Brad Campbell (baixo), Richard Kermode (órgão), Gabriel Mekler (órgão), Maury Baker (bateria), Lonnie Castille (bateria) Terry Clements (saxofone tenor), Cornelius Flowers (saxofone barítono) e Luis Gasca (trompete).

Janis, com a Kosmic Blues Band

Batizada de Kosmic Blues,  para muitos essa foi a melhor banda para acompanhar o poderio vocal de Janis, em um período que novamente voltou a conviver pesadamente com drogas, chegando a gastar 200 dólares por dia com heroína.

Os primeiros shows da Kosmic Blues ocorreram em Frankfurt, na Alemanha, seguido por uma curta série de shows na Europa. Depois, foram uma série de apresentações e participações em programas de TV nos Estados Unidos, como o TV Pop Show e o The Dick Cavett Show, até que rapidamente, Janis entrou em estúdio para gravar seu primeiro álbum solo.

Animalesca estreia solo de Janis

Lançado em setembro de 1969, I Got Dem 'ol Kosmic Blues, Again Mama! foi um estrondoso sucesso, conquistando ouro nos Estados Unidos dois meses depois de ser lançado, e platina (um milhão de cópias) um ano depois, sendo um dos principais álbuns da década de 60. Temos uma aula de emoção e inspiração, a começar pela maravilhosa capa, flagrando Janis em cima do palco em um agito que somente ela conseguia exalar de seu corpo. 

Janis livra-se do som característico de San Francisco, experimentando novas direções e comprovando aquilo que todos haviam visto (e ouvido) quando ela era apenas uma cantora no Big Brother: na verdade, ELA era verdadeira estrela. Abrindo com o suingue de "Try (Just a Little Bit Harder)", Janis e a Kosmic Blues Band desfilam por pérolas mágicas da música, com lindas baladas ("Maybe", "Little Girl Blue" e a arrepiante versão para "To Love Somebody", original do Bee Gees), uma estonteante sessão instrumental na introdução da dançante "As Good As You've Been to This World", com um espetáculo a parte do naipe de metais, e blues alucinantes ("One Good Man" e "Work Me Lord"). 

Encontro de gigantes: Jimi Hendrix e Janis Joplin

Janis supera-se em "Kosmic Blues", uma das mais emocionantes gravações da carreira da cantora, se não a maior, com uma estupenda reta final que arranca o fôlego de qualquer ouvinte. Musicalmente, o melhor disco da carreira da cantora. Em termos de interpretação, a vocalista estava preparando-se para chegar no ápice da carreira. Uma pena que a Kosmic Blues acabou pouco depois, mas deixou um legado venerado por todos os admiradores do estilo. 

O relançamento em CD apresentou a inédita "Dear Landlord" e mais versões em Woodstock para "Summertime" e "Piece of My Heart".

A Columbia Records lançou "Kozmic Blues" como single, que chegou na posição 41 na parada da Billboard, assim como uma versão ao vivo de "Raise Your Hand" saiu em um compacto exclusivo na Alemanha, aonde garantiu a décima posição. 

O sucesso de I Got Dem 'Ol Kosmic Blues, Again Mama! levou Janis para ser uma das estrelas no festival de Woodstock, em 1969. Na manhã de 17 de agosto, a cantora, acompanhada pela Kosmic Blues, Janis fez um show bastante irregular, culpa principalmente da quantidade de heroína e bebida utilizada durante as dez horas que a cantora esperou desde sua chegada na fazenda aonde acontecia o festival até sua subida ao palco. Apesar das diversas críticas negativas, Janis marcou sua história mais uma vez com interpretações exclusivas para "Kosmic Blues" e "Work Me, Lord".

Grace Slick (Jefferson Airplane) e Janis Joplin, nos camarins de Woodstock

Passado Woodstock, Janis apresentou-se em Nova Iorque, com um show importante no dia de Ação de Graças de 1969, em um dueto com Tina Turner que ficou marcado por sua péssima performance, devido ao abuso de drogas e bebidas. Diversos problemas acabaram levando ao encerramento das atividades da Kosmic Blues no final de 1969, possibilitando à Janis a criação de mais uma nova banda, a envolvente Full Tilt Boogie Band. 

Antes, em 15 de novembro de 1969, durante um show no Curtis Hixon Hall, em Tampa, na Flórida, Janis Joplin foi acusada de linguagem vulgar e indecente diante do público, sendo presa. No caminho para a prisão, a cantora xingou os policiais, e só foi solta após o pagamento de 500 dólares de fiança.

             
Registros da passagem de Janis pelo Brasil
Antes da nova banda, um momento importante na vida de Janis ocorreu em fevereiro de 1970, quando ela veio ao Brasil com a finalidade de finalmente livrar-se das drogas. No Brasil, Janis participou de desfile de carnaval, apresentou-se em um pequeno bar de Copacabana e ainda flertou com o cantor Serguei, pelo qual Janis declarou-se para sua irmã como apaixonada. Infelizmente, a temporada de Janis no Brasil deixou apenas saudades e diversas polêmicas, além de fotos de Janis fazendo topless em Copacabana e dando uns bons pegas em Serguei. Durante todo o período no Brasil, Janis consumiu apenas maconha e álcool, mas fez-se livre da heroína, até por que a mesma era escassa em nosso país.

              
Momentos de Janis e Serguei


Ao retornar para os Estados Unidos, Janis voltou a consumir heroína, em nível cada vez maior. Ao mesmo tempo, um novo grupo começava a surgir para acompanhar Janis, voltado para o hard rock que surgia no final dos anos 60 e com a maioria dos músicos sendo canadense. 

A The Full Tilt Boogie Band começou a excursionar em maio de 1970, sendo aclamada por onde passava e pelos fãs da cantora. Janis praticamente largou das drogas, mas seguiu consumindo álcool como água. O ponto alto dos shows com a Full Till foi a participação no Festival Express, que ocorreu de 28 de junho a 4 de julho de 1970 no Canadá.

Janis em Copacabana
Nessa turnê, a Full Tilt Boogie Band atravessou o Canadá de trem, tocando em Toronto, Winnipeg e Calgary, ao lado de Buddy Guy, The Band, Delaney and Bonnie, Grateful Dead, Ian & Sylvia, Eric Andersen e Ten Years After. Para muitos, foi a melhor fase vocal de Janis, e felizmente, temos alguns registros em vídeo e áudio disponíveis para conferir a potência da Full Tilt Boogie Band, que contava com os músicos John Till (guitarras), Brad Campbell (baixo), Richard Bell (piano), Ken Pearson (órgão) e Clark Pierson (bateria).

Outros pontos altos de Janis com a Full Tilt Boogie Band foram os últimos shows da artista, ocorrendo em agosto de 1970, começando por Boston, no Harvard Stadium, em 12 de agosto, e a reunião com os colegas de Ensino Médio no Thomas Jefferson High School ocorrida no dia 14, os mesmos colegas que apelidaram Janis de "O homem mais feio da escola".

As gravações do segundo álbum solo de Janis começaram no final de agosto de 1970, seguindo por setembro e outubro, mas, no dia 04, uma tragédia encerrava as gravações prematuramente. Janis era encontrada morta na sua casa, vítima de uma overdose de heroína, possivelmente com consumo de álcool junto. Seu corpo acabou sendo descoberto pelo produtor Paul Rotchild, que havia produzido diversos trabalhos do The Doors, e era o responsável pela produção de Pearl.

O póstumo e essencial Pearl

Ele acabou incentivando o lançamento do material que já havia sido gravado, e assim, três meses depois da morte da cantora, Pearl chegou às lojas, em 11 de janeiro de 1971. Ele conta com a última gravação feita por Janis, três dias antes de sua morte, que foi a hoje clássica "Mercedes Benz". 

Pearl é a despedida perfeita que um artista poderia deixar para os seus fãs. Não que alguém se conforme com a morte de Janis, mas o que ela faz nesse álbum é simplesmente de cair o queixo. Nele estão os maiores clássicos da carreira de Janis, no caso "Me & Bobby McGee" e a já citada "Mercedes Benz", mas honestamente, Pearl é muito mais que isso.

Janis e seu Porsche colorido

Acompanhada dea Full Tilt Boogie Band, Janis transborda emoção, destacando o fantástico miado inicial de "Cry Baby", e é isso mesmo, uma gata no cio, sendo penetrada ferozmente por seu parceiro, em um uivo alucinante. Mas não para por aí. "Get It While You Can", "My Baby" e "Trust Me" mantém a linha de baladas suaves, mas dessa vez sem peregrinar por diversos estilos, parecendo basicamente uma única canção quando ouvidas em sequência.

"A Woman Left Lonely" é uma competente rival para "Kosmic Blues", sendo impossível não se emocionar com o soberano crescimento da canção até o seu final. Mas não pense que somente de baladas vive o LP. "Half Moon" e "Buried Alive in the Blues" (essa última uma faixa instrumental) destacam a competência instrumental da Full Tilt Boogie Band, outra grande banda a acompanhar a divindade de Janis, e "Move Over" é uma pancada hard para metaleiro nenhum botar defeito.

Sem comparações, assim como seu antecessor é essencial na prateleira, e com certeza, o auge das interpretações emocionantes de Janis. Quatro platinas em menos de dois meses, acabou sendo (e é até hoje) o álbum mais vendido da cantora, que infelizmente, não pode aproveitar desse sucesso.

Registro de raridades da carreira de Janis 

Várias foram as homenagens à Janis após sua morte. Shows, filmes (The Rose, com Bette Midler) e coletâneas póstumas invadiram o mercado. Algumas destas coletâneas merecem destaque, começando por Janis, trilha sonora para um filme em homenagem a artista e que foi lançada pela gravadora CBS no formato duplo, em 1975.

Janis em ação
No primeiro LP, canções dos dois álbuns solos da cantora, algumas gravadas ao vivo na Alemanha e no Canadá, tendo a Kosmic Blues Band como banda de acompanhamento, além de "Piece of My Heart" retirada de Cheap Thrills (do Big Brother & The Holding Company) e duas pequenas entrevistas com Janis.

No segundo LP, uma jóia raríssima. Janis aparece no início de carreira, entre 1963 e 1965, quando ela cantava pelos bares de Austin, no Texas, ora sozinha, ora acompanhada pela Dick Oxtot Jazz Band. São dezessete canções, a maioria delas covers, que revelam uma Janis Joplin com a voz ainda sendo moldada, tímida, mas já arrancando aplausos dos privilegiados de verem ela em ação tão nova.

Destacar alguma canção entre todas é complicado, mas vale a pena citar as primeiras composições de Janis em seu início de carreira, no caso "What Good Can Drinkin' Do" (primeira canção que ela gravou em um estúdio, nunca lançada oficialmente), "No Reason for Livin'", "Mary Jane" e "Daddy, Daddy, Daddy". São todas jazz e blues inspíradíssimos, e prefiro apenas deixar ao ouvinte a curiosidade de encontrar Janis e seu violão (ou o pequeno quarteto de jazz) fazendo uma música simples, humilde e, como toda a carreira dela, carregada de emoção. "Trouble in Mind" chegou a sair em uma coletânea lançada no Brasil anos depois, e talvez seja a mais conhecida dos fãs em geral. Disco de Ouro nos Estados Unidos, e uma bela recordação aos fãs!

Coletânea de inéditas, lançada em 1983

Outra importante coletânea foi lançada em 1983, Farewell Song, dessa vez somente com canções inéditas, tendo a participação de cada uma das bandas que acompanharam Janis, Farewell Song apresenta um interessante material de canções até então desconhecidas para os fãs de Janis, a maioria delas, cinco das nove, canções que ficaram de fora de Cheap Thrills (pensado originalmente para ser lançado no formato duplo).

Entre as seis canções, temos a psicodélica "Harry", a dupla gospel "Amazing Grace / Hi-Hell Snakers", a totalmente flower-power "Magic of Love" e as agitadas "Catch Me Daddy" (conhecida dos fãs da Big Brother & The Holding Company pelo nome de "Comin' Home") e "Farewell Song".

Janis em momento "Viagem"

Complementam o álbum as pancadas "Raise Your Hand" (com a Kosmic Blues Band arrasando ao vivo), a linda "One Night Stand", ao lado da Paul Butterfield Blues Band, "Tell Mama" (uma obra prima com a Full Tilt Boogie Band), e o blues choroso de "Misery' N", gema da carreira da Big Brother que os fãs só conheceram nesse ótimo LP, que se não está no nível dos discos solos, faz jus a carreira dessa que foi (e ainda é) a maior cantora que o mundo já ouviu.

Ótimo álbum ao vivo de Janis

Por fim, temos o maravilhoso In Concert, álbum ao vivo de 1972 que traz muito material de qualidade e novidades para os fãs, como a inédita "Ego Rock", gravada junto à Big Brother & The Holding Company. O primeiro LP contém somente shows com a Big Brother, em registros  de 1968 no Winterland de San Francisco, Fillmore West, também em San Francisco, The Carousel Ballrom, ainda em San Francisco, e The Grand Ballrom, em Detroit.

Já o segundo LP é um achado fervoroso aos fãs, com Janis acompanhada pela Full Tilt Boogie Band durante o Canadian Festival Express, com registros das apresentações em Calgary e Toronto. 

Janis Joplin faleceu, mas deixou um legado belíssimo para a história da música, daquela que com certeza é a maior voz feminina que o mundo do rock já ouviu, e ainda hoje, ecoa pelas casas dos apreciadores e aficcionados por sentimento.

Um brinde para ti, Janis!

Uma voz, uma mulher e uma incrível artista, que possui seguidores por todo o mundo, e que merece um brinde, para esta que é a maior cantora de todos os tempos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sagrado Coração da Terra

Ivan Corrêa e Marco Antonio Botelho (acima),
Augusto Rennó, Marcus Viana e Zé Marcos (abaixo)


Praticamente desconhecido em nossas terras, o grupo mineiro Sagrado Coração da Terra conquistou uma legião de fãs internacionalmente, principalmente na Europa e no Japão, aonde seus álbuns foram todos relançados em CD antes mesmo disso acontecer em nosso país.

O Sagrado em 1979, ainda em formação:Alexandre Lopes, Edson Pla, Zé Artur, Cristiana Ramos e Marcus Viana
Formado em 1979 pelo multi-instrumentista Marcus Viana (violino, voz, mandolin, piano, teclados, violões), que pouco antes havia feito parte do hoje reconhecido Saecula Saeculorum, o Sagrado passou por diversas formações ao longo de sua carreira, e lançou apenas cinco álbuns de estúdio, os quais contam com uma sonoridade única, que talvez por isso, o distingua tanto de outras bandas contemporâneas ao seus álbuns, sendo classificado por muitos como o precursor da World Music e da New Age em nosso país, ao lado dos também mineiros do Uakti. 

Desde o início, o grupo teve como objetivo misturar elementos elétricos e acústicos em uma sonoridade nova, trazendo elementos barrocos e eruditos fundidos a elementos do rock progressivo britânico. Esse estilo acabou prejudicando o início da banda, que passou quatro anos ensaiando, tocando em pequenos locais e buscando uma gravadora, sofrendo diversas mudanças de formação nesse período, sendo uma das principais com Viana, , Alexandre Lopes (guitarra), Edson Pla (baixo), Cristiana Ramos (Piano) e Zé Artur (bateria).

Edson Pla, Cristiana Ramos, Zé Artur, Alexandre Lopes e Marcus Viana.

Em 1984, finalmente a jovem gravadora Arteciencia resolveu apostar nos mineiros, que contava na formação com Viana, Vanessa Falabella (voz), Marquinhos Gaughin (baixo), Nenen (bateria), Inês Brando (piano), Giácomo Lombardi (sintetizadores), Fernando Campos (guitarra), Sebastião Vianna (flauta), Andersen Vianna (flauta), Miriam Vianna (harpa), Gilberto Diniz (baixo sem trastes), Lincoln Cheib (pratos), Paulinho Santos (percussão) e Alexandre Lopes (violão). Em 1985, chegou às lojas Sagrado, o primeiro álbum do grupo.

A estreia do Sagrado, em 1985

Para quem esperava algo na linha do trabalho feito por Viana no grupo Saecula Saecuorum durante a década de 70 (e que só teve seu trabalho lançado nos anos 2000), o Sagrado aparece com letras positivas, para cima, falando de amor, natureza e esperança,  As experimentações com barulhos de natureza, que marcam a carreira da banda, estão presentes em "Lições da História", nas vocalizações indígenas de "Memória das Selvas" e na introdução da balada instrumental "A Glória das Manhãs", com Viana exibindo-se ao piano, enquanto "Asas", a faixa-título e "Arte do Sol" destacam a voz de Vanessa e possuem interessantes arranjos instrumentais, destacando a participação de Nenen na segunda. 

"Corpo Veleiro" e "A Luz É Terna" indicam o futuro de trilhas de novelas que Viana seguiria durante toda sua carreira. "Feliz (Abertura de Selvagem)" é uma curta vinheta instrumental no LP, que tem exatamente na instrumental "Deus Dançarino" seu melhor momento, com fortes inspirações em Genesis e Mahavishnu Orchestra. 

Alexandre Lopes, Esdra 'Neném'', Marcus Viana, Vanessa Falabella, Gilberto 'Giló'' e Inês Brando
Destaque para o encarte do vinil original, o qual possui uma imagem de um menino segurando um violino em preto e branco, e abrindo o mesmo ao meio, revelando o menino tocando o violino.

Sagrado acabou saindo em CD no Japão, em 1988, através do selo Crime, trazendo como bônus a faixa "Urban Ragas". Outros dois relançamentos em CD ocorreram no Japão: em 1996, pelo selo Nexus; em 2008, pelo selo Belle Antique. Ambas as versões idênticas ao lançamento de 1988.

Esse primeiro álbum teve alguma relevância na região do triângulo mineiro, possibilitando ao Sagrado Coração da Terra fazer shows pelo sudeste de nosso país. Nesses shows, novas composições começaram a surgir, permitindo que o grupo voltasse aos estúdios para registrar seu segundo álbum. Com uma nova formação, tendo Viana na companhia de Rennó na guitarra, e dos novatos Ivan Correia (baixo), Marco Antonio Botelho (bateria), José Marcos Teixeira (sintetizadores) e João Guimarães (bateria eletrônica), sendo que duas canções possuem a participação de Nenem na bateria, em 1987 é lançado Flecha.

A revelação para o sul do Brasil

Flecha se tornou um clássico no rock progressivo nacional, projetando o Sagrado Coração da Terra para o sul do Brasil. O álbum é dividido em dois lados: As Canções e As Sinfonias. No Lado As Canções estão canções curtas, que trazem as letras positivas e futuristas de Viana, porém com arranjos sonolentos perto das canções de Sagrado, e também aproveitando-se um pouco do clima oitentista com inserções de bateria eletrônica, principalmente na faixa-título, que foi inserida na trilha sonora da novela global Que Rei Sou Eu?, a primeira participação de Viana em novelas, com videoclipe sendo exibido no fantástico e tudo o mais. 

O nível novelístico continua nas fracas baladas "Manhã dos 33", "Seres Humanos" e "Carinhos Quentes", com raros instantes progressivos, e a vinheta "Paz" é o único momento decente deste lado, em um lindo trabalho instrumental de Viana apenas com violino e sintetizadores. 

Ivan Corrêa, Zé Marcos, Marcus Viana, Marco Antônio Botelho e Augusto Rennó.
Porém, o lado As Sinfonias acaba com a melosidade do lado oposto, com apenas três longas canções que marcaram época no rock progressivo nacional, começando com "Tocatta", e Viana esbanjando virtuosismo nos teclados, seguindo éla épica "Cosmos X Caos", talvez a principal suíte do rock progressivo no final da década de 80, digna de ser chamada de Maravilha Prog, lembrando muito as canções de Milton Nascimento durante a fase Clube da Esquina, porém com um arranjo musical complexo, além de uma letra fantástica e mudanças que encantam em seus quase onze minutos de duração, principalmente durante o longo trecho central apresentando o solo de violino, e encerrando com a linda instrumental "O Futuro da Terra", apresentando uma série de solos de flauta (por Anderson Viana) e de violino, em um clima muito leve e encantador. 

O grupo ao vivo nos anos 80

O trabalho de Flecha levou o Sagrado para a Ásia. Assim como Sagrado, Flecha foi lançado em CD naquele país em 1988, trazendo o mesmo conteúdo da versão vinílica brasileira. A novidade de Flecha é que ele também saiu em LP pelas terras nipônicas. Em 2008, o selo Belle Antique relançou Flecha em CD no Japão, com as mesmas faixas da versão original.

O grupo cresceu, e fez uma série de apresentações pelo país. Ao mesmo tempo, a participação de "Flecha" em Que Rei Sou Eu? levou Marcus para ser convidado a cômpor uma canção para a novela Kananga do Japão, da Rede Manchete. O resultado foi a faixa "Tango", mas o mais importante não foi isso, e sim a apresentação de Marcus para o diretor Jayme Monjardim.

As trilhas de Pantanal, revelando o Sagrado Coração da Terra para o Brasil

É Monjardim o responsável pelo convite para Marcus produzir a trilha do maior sucesso em termos de novelas lançadas pela Rede Manchete, Pantanal. Lançada em dois volumes, esta Trilha Sonora vendeu muito em 1990, e tem Marcus interpretando canções de forma solo ("Amor Selvagem", "Reino das Águas", "Espírito da Terra" e "Noite") e também com o Sagrado ("Pantanal", "A Glória das Manhãs" e "Paz"), as quais serviram de base para o lançamento do terceiro LP do Sagrado no ano seguinte, e colocaram o Sagrado Coração da Terra como uma banda reconhecida agora nacionalmente.

A formação de Farol da Liberdade tem Viana (violino, teclados), Renno (guitara, violões), Lincoln Cheib (bateria), a dupla Anderson e Sebastião Viana nas flautas, Ronaldo Pellicano (teclados), Ivan Correia (baixo) e Paula Santoro (voz). 

Farol da Liberdade, o disco do auge na carreira dos mineiros

Consolidados perante o mercado nacional, o grupo regrava algumas canções de Pantanal e ainda cria novas canções, gerando um belo trabalho, o primeiro lançado pelo selo Sonhos & Sons, de propriedade de Viana, e que relançou todos os álbuns anteriores do grupo, bem como os lançados a partir de então, além de uma série de grupos e artistas New Age.

Farol da Liberdade apresenta músicas excelentes, apesar das baladas novelísticas. A abertura com a hipnotizante "Dança das Fadas", com parte da letra cantada em latim, é um ápice do que o rock progressivo do grupo poderia gerar, em uma das melhores canções da carreira do grupo, e o clima progressivo segue com a bela instrumental "Solidariedade", levada pelo violão e violino, além de um belo acompanhamento de sintetizadores, baixo e bateria. 
Marco Antônio Botelho, Marcus Viana, Ronaldo Pellicano, Ivan Corrêa, Augusto Rennó.
A faixa-título é um representante típico do rock brasileiro nos anos 80, carregada de sintetizadores, enquanto "Raio e Trovão" é uma dançante faixa, tendo um clima mezzo celta, mezzo progressivo que me lembra muito Jethro Tull de meados dos anos 80, além de uma maravilhosa sessão instrumental com violão clássico e violino dando um show a parte. Sem dúvidas, a suíte que encerra o álbum, "The Central Sun of the Universe", é o clímax do álbum, com mais de onze minutos de duração, letra cantada em inglês, uma introdução a la "I Get Up, I Get Down" (Yes), uma longa sessão instrumental destacando piano e violino, além de marcações delirantes de guitarra, baixo e bateria, em mais uma candidata a Maravilha Prog. 

Temos ainda mais uma pequena vinheta, "Olívia", contando com sonorizações e grunhidos do bebê que dá nome à canção, e das faixas de Pantanal aqui aproveitadas, "Amor Selvagem" acaba sendo totalmente descartável, mas "Pantanal", tendo um incrível coral apoiando nas vocalizações, aumenta a quantidade de pontos nesse belo álbum, candidato a melhor da carreira do Sagrado, mas que perde de longe para o quarto e essencial disco do grupo.

Sem perder muito tempo, seguem com a série de shows e composição de novas canções, culminando rapidamente com a gravação do quarto álbum do grupo, o ótimo Grande Espírito


O melhor disco dos mineiros

Grande Espírito é o disco mais trabalhado e construído do Sagrado. As canções novelísticas quase não aparecem, e o resultado final é um trabalho perfeito. A formação do grupo permaneceu a mesma de Farol da Liberdade, e agora, eles tem a companhia de Bauxita nos vocais, dando uma nova cara para a banda, transformando o som em algo mais pesado e bastante experimental, principalmente com a participação mais que especial dos músicos da Uakti, realizando uma união esperada desde Flecha

Esse casamento gerou filhos incríveis, como podemos ouvir na sensacional "Kian" (cantada em tupi-guarani por um coro de vozes). A participação de Milton Nascimento na linda "Eldorado", acompanhado apenas pelo piano e sintetizadores, é o momento mais ameno de um grande disco, ao lado de "Libertas", a canção mais novelística de Grande Espírito, mas com uma letra poderosa que jamais tocaria em novela alguma. 

Lincoln Cheib, Marcus Viana, Ivan Corrêa e Ronaldo Pellicano

Nenem retorna ao grupo para tocar bateria em "Rapsódia Cigana", um espetáculo sonoro com várias sequências com violino, piano e guitarra duelando entre si, e uma viajante sessão com tablas e Sitar (Maravilha Prog sem sombra de dúvidas), e como o grupo crescia cada vez mais internacionalmente, foi inevitável a inclusão de canções com letras em inglês, a cargo da suave "Sweet Water", com a participação de Firmino Cavazza no violoncelo e os violões fazendo uma bela base, e da pesada "Human Beans". 

O ponto máximo novamente vai para uma suíte, aqui a própria faixa-título, com citações indígenas e outra letra manifesto, além de uma base instrumental viajante. A versão em CD conta ainda com a suíte "Pais dos Sonhos Verdes", seguindo a linha de "Grande Espírito" e com importante participação do grupo Uakti. 

A partir de então, o grupo entrou em um longo hiato de sete anos, com Marcus concentrando-se na composição de trilhas para filmes. Somente no início dos anos 2000 com o seu quinto e último álbum de estúdio até o presente momento, A Leste do Sol, A Oeste da Lua.

O retorno do grupo nos anos 2000

Lançado em 2000, esse é o álbum mais longo da carreira do Sagrado Coração da Terra, mantendo o nível das composições dos primeiros álbuns, trazendo regravações de canções de Marcus Viana para novelas e a participação de diversos músicos que passaram pela banda, e também de Andre Matos nos vocais de "Bem-Aventurados", com um show a parte do violão flamenco de Augusto Rennó durante a introdução, sendo essa uma rara oportunidade de ouvir Andre cantando em portugês. 

A formação principal é a mesma que gravou Grande Espírito e Farol da Liberdade, e eles recriam "Terra", de Caetano Veloso, dando uma cara totalmente nova para a canção. As letras sobre paz e culto a natureza surgem em "Canção dos Viajantes", "Lágrimas da Mãe do Mundo" e na própria faixa-título, enquanto o clima novelístico surge em "Clair de Lune", destacando as passagens de piano e violino, e "Serras Azuis", com muitas vocalizações femininas. 

Sagrado em 2001
"Oviniana" apresenta um belo arranjo com o violão acústico e o moog, enquanto "Firecircle" traz Viana cantando em inglês. Os momentos máximos vão para o maravilhoso arranjo de cordas e violões de "Madame Butterfly", que tem a participação dos instrumentos indianos Sitar e tabla, além de uma soprano fazendo arrepiantes vocalizações, "Anima Mundi", também com a presença dos intrumentos indianos e viajantes mudanças sonoras, a peça clássica "Allegro", um fantástico solo de piano feito por Viana, a sensacional "Planeta Minas", somente com violino, violões e xilofone durante a sua introdução, virando uma pesada canção ao seu final, "Amigos", bonita balada tendo o violino como destaque, a viajante "Maya", com seu clima todo New Age e repleta de instrumentos de percussão.


Versões em inglês no sexto álbum da banda
Em 2001, Sacred Heart of Earth trouxe revisões em inglês para canções do grupo, além de novos arranjos, e com o lançamento voltado apenas para o mercado internacional, esse álbum complementou o retorno em comemoração aos vinte anos do grupo. As faixas que o compõem foram selecionadas dentre os cinco álbuns anteriores, a menos de Flecha, que não teve nenhuma canção relembrada. 

Assim, estão no mesmo "Sagrado" (Sagrado), "The Central Sun of the Universe" (Farol da Liberdade), "Human Beans", "Gypsy Rapsody" e "Sweet Water" (Grande Espírito), e "East of the Sun, West of the Moon", "Travelling Show", "Firecircle" e "Maya" (A Leste do Sol, A Oeste da Lua), além de uma interpretação para "2001 - Also Sprach Padim Cisso" e " The Green God of the Woods", " The Gates of Heaven", "Carpe Diem" e "Urban Ragas".

Um álbum para completar a coleção, mas sem nenhuma novidade além das letras em inglês. Marcus passou a se dedicar para trilhas de novelas e séries, destacando participações nas novelas Terra Nostra (2000) e O Clone (2001), bem como a trilha do filme Olga (2004), desenvolvendo sua carreira solo e servindo como músico acompanhante em shows e álbuns de diversos artistas.
O retorno em 2012


As coletâneas Canções, com os principais clássicos da banda, e Instrumental, somente com as canções instrumentais do grupo chegaram às lojas em 2002, e mais um hiato ocorre. Em 2009, o DVD Cosmos X Caos - A História Parte 1, chegou às lojas, apresentando um show do grupo realizado em 1989, no Palácio das Artes e trechos de uma apresentação no Rio Art Rock Festival em 1996 no Metropolitan / RJ, além de um documentário descrevendo a trajetória do grupo nestes últimos anos.


Em 2012, através do produtor Claudio Fonzi, o grupo voltou a fazer shows, apresentando-se no Teatro Rival, mesmo local que também recebeu os mineiros em 2013, assim como Belo Horizonte, tendo na formação Vianna, Augusto Rennó (violão e guitarra), Adriano Campagnani (baixo), Eduardo Campos (tímpanos e percussão), Esdra Neném Ferreira (bateria), Danilo Abreu (teclados), uma fusão do antigo e do novo Sagrado com a Transfônica Orkestra, outro projeto musical de Viana, que percorre o país com apresentações eventuais, sendo as próximas ocorrendo em São Paulo nas datas de 21 e 22 de fevereiro, deixando os fãs no aguardo de um novo lançamento do grupo, sendo que para este ano está prometido o lançamento do volume 2 de Cosmos X Caos - A História.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sly & The Family Stone - Parte III


Hoje, encerro a história do grupo californiano Sly & The Family Stone. Já apresentei duas partes, desde o início em 1967 até o lançamento do álbum Life (1968), e do sucesso de Stand! (1969) ao fim precoce do grupo em 1975, por problemas internos.

Sly, assim como outros integrantes do grupo, partiu para uma carreira solo, e já em 1975, lançou High on You. Lançado pela Epic, ele marca um período no qual Sly toca praticamente todos os instrumentos do álbum, sendo o centro total das atenções. Em esse álbum, ele tem a companhia de dois membros da primeira geração da Família de Pedra, Cynthia Robinson no trompete e Jerry Martini no saxofone, além das Little Sisters e diversos convidados, que serão citados no decorrer do texto, mas que podemos destacar Dennis Marcellino no saxofone, Cousin Gale na guitarra, Bobby Lyles, Tricky Truman Governor nos teclados e Sid Page no violino, esses em quase todas as canções.

Ótima estreia solo de Sly Stone

O LP, mesmo não estando no nível de um Stand!, é ótimo de se ouvir, e começa com o baixão de Bobby Vega em "I Get High On You", e o sintetizador de Sly mostrando um ritmo mais cadenciado, acompanhado pelo órgão de Little Moses, dando um poder de fogo dos grandes clássicos da primeira geração, seguido pelo delicioso embalo de "Crossword Puzzle", no qual as linhas vocais se destacam. Essa faixa conta com Michael Samuels na bateria. O disco é um embalo tranquilo e saboroso até o fim, passando por preciosidades como "That's Lovin' You" (com Bill Lordan na bateria), "Who Do You Love?" e "Green Eyed Monster Girl" (também com Samuels na bateria), todas capazes de fazer pequenos sacolejos em seu corpo.

"Organize", escrita em parceria com Freddie Stone, mostra que dentro dos erros cometidos no final da carreira da Family Stone, ainda havia bom material elaborado, sendo que esta conta com Rusty Allen no baixo, e o único deslize fica por conta de "Le Lo Li", com Willie Wild Sparks na bateria e muito sem sal para a fantástica mistura de temperos que Sly era capaz de criar. 

Clássica contra-capa de High On You

Porém, é impossível não se emocionar com a balada "My World", uma das melhores composições da carreira de Sly, seguida pelo funk despretensioso de "So Good to Me", o qual poderia estar em qualquer um dos primeiros álbuns da Family Stone. O álbum encerra com a poderosa "Greed", fazendo de High on You um disco no mínimo sensacional e digno na Discografia de Sly Stone. O baterista nas demais faixas foi Jim Strassburg. O álbum também foi lançado em uma limitada versão quadrifônica.

O segundo single do álbum, "Le Lo Li" / "Who Do You Love", assim como o terceiro, "Crossword Puzzle" / "Greed", foram um grande fracasso. Mas o single "I Get High On You" / "That's Lovin' You" alcançou a terceira posição na parada Rhythm 'n' Blues americana, vendendo tanto que manteve a chama de Sly Stone acesa, dando oportunidade de um retorno do uso da Family Stone para o álbum seguinte. 

Acima: John Farey, Steve Schuster,Lady Bianca, Dwight Hogan, Sly Stone,
Virginia Ayers e Joe Baker.

Abaixo: Cynthia Robinson, John Colla, Vicki Blackwell e Anthony Warren.
Assim, com o desejo de provar que era capaz de fazer bons álbuns e seguir carreira, Sly Stone recebe apoio da gravadora Epic, e com o apoio de Cynthia Robinson e mais nove músicos (Joe Baker - guitarra e vocais; Dwight Hogan - baixo e vocais; John Colla - saxofone e vocais; Steve Schuster - saxofone, flauta; John Farey - teclados; Virginia Ayers - vocais; Anthony Warren bateria; Lady Bianca - vocais, clavinet; e Vicki Blackwell - violino), criando a Segunda Geração da Família de Pedra. 

A estreia da segunda geração da Família de Pedra

Alguns shows e rapidamente, esse time entra nos estúdios, registrando Heard Ya Missed Me, Well I'm Back, lançado em dezembro de 1976. A de se reclamar, assim como todos os álbuns da Segunda Geração, é a curta duração desse maravilhoso álbum. Alegre e muito bem gravado, amplia as linhas dançantes de High On You, apresentando novidades como a flauta em "Heard Ya Missed Me, Well I'm Back". 

Gosto muito do arranjo vocal desse álbum, principalmente das leves, mas harmoniosas, "Everything in You", "The Thing" e "Blessing In Disguise". Esses mesmos vocais, e o ritmo alucinante, são o ponto alto de "Sexy Situation", resgatando a época das canções positivas de Stand!. O baixão característico do grupo está presente em "What Was I Thinking In My Head" e "Let's Be Together". 

Sly Stone, a banda de um homem só

Bianca faz a voz principal na bela balada gospel "Nothing Less Than Happiness" e em "Mother is a Hippie", essa com um fantástico arranjo de metais e cordas. O álbum encerra com o vocoder ressurgindo das cinzas na ótima "Family Again", recheada de solos individuais, sendo um atestado de que a nova geração da Família de Pedra, além de ser maior, também era capaz de fazer grandes discos. 

O único single do LP, "Family Again" / "Nothing Less than Happiness", foi um fracasso comercial, o que impediu a Família de Pedra continuar suas atividades. Uma pena, já que o disco é sensacional.  Lynn Mabry e Dawn Silva saíram do grupo na sequência, formado o The Brides of Funkenstein em 1978. 

O levíssimo Back on the Right Track

Sly não desistia, e afastando-se das drogas, conseguiu um contrato com a Warner Bros. Um novo Sly Stone aparecia no cenário musical, assim como uma nova formação para a Família de Pedra. 

Coletânea de remixes
Enquanto isso,  a Epic lançou Ten Years Too Soon, uma coletânea de remixes do grupo em versão disco, trazendo versões para "Dance To The Music", "Sing A Simple Song", "I Get High On You", "Everyday People", "You Can Make It If You Try", "Stand!" e "This Is Love"

Pouco depois do lançamento dessa coletânea, chega às lojas Back on the Right Track, com a Família de Pedra agora tendo dezesseis membros, entre eles Sly, Cynthia e Pat Rizzo da Primeira Geração.

Estão lá ainda Freddie Stewart (flautas), Joe Baker (flautas), Lisa Banks (flautas), Rose Banks (flautas), Keni Burke (baixo), Alvin Taylor (bateria), Hamp Banks (guitarras), Joseph Baker (guitarras), Fred Smith (metais) Gary Herbig (metais), Steve Madaio (metais), Mark Davis (teclados) e Walter Downing (teclados).

Contra-capa de Back on the Right Track

O som é voltado para o lado leve das canções que a Segunda Geração elaborou em seu primeiro disco, sem arranjos fabulosos, mas privilegiando os vocais sensuais de Sly. Assim o é em "Remember Who You Are" e na gospel "Shine It On". Segure-se na cadeira durante o embalo de "Who's to say", energética em cada segundo, e o grudento refrão entoando o nome da canção após as vocalizações de Sly. 

O vocoder aparece timidamente em "It Takes All Kinds" e triunfante em "The Same Thing (Makes You Laugh, Makes You Cry)", fazendo o solo da canção, e o baixão inconfundível está presente nestas e, principalmente, em "If It's No Addin' Up ...". Aliás, o que é a linha de baixo da faixa-título? Indescritível! Como se não bastasse, Sly comanda a harmônica em "Sheer Energy", grandiosa canção com um grandioso arranjo vocal, encerrando um álbum ótimo, simples e direto, de uma Segunda Geração que é outra banda em comparação a Primeira Geração, e infelizmente, muito curto. 

Do álbum, saíram os singles "Remember Who You Are"/ "Sheer Energy", que ficou em trigésimo oitavo na parada rhythm 'n' blues da Billboard, e foi lançado em 1979, e "Who's to Say"/ "Same Thing", que não conquistou posição na Billboard, e saiu em 1980. 

Sly Stone, um novo homem em 1979

A Família de Pedra encerrou a segunda geração de forma deprimente, com Sly praticamente sendo expulso da Warner, e voltando as drogas. Graças ao amigo George Clinton e o Funkadelic, Sly sobreviveu durante algum tempo, excursionando com o Funkadelic entre 1980 e 1981, quando participou do álbum The Electric Spanking of War Babies, vigésimo quinto dos americanos. Esse álbum motivou a gravação de um novo álbum da Sly & The Family Stone, e George Clinton era o principal responsável pelo resgate do músico. Porém, Clinton brigou com os diretores da Warner, e acabou abandonando o projeto no meio do caminho.

O fim trágico acabou ocorrendo com Ain't But the One Way, um álbum gravado totalmente de forma inconsequente, e que foi concluído pelo produtor Stewart Levine após Stone partir para um refúgio de recuperação das drogas. O resultado foi um disco eletrônico e sem muita empolgação. A guitarra de Sly está sofrega, e as vocalizações soam maçantes até para o mais fanático admirador do grupo.

Melancólica despedia da Família de Pedra

As canções acabam soando praticamente iguais, em um ritmo leve e de poucos destaques, e aqui entram "One Way", "L. O. V. I. N. U.", "High, Y'All" e "Ha Ha, Hee Hee". Nem a cover para "You Really Got Me" consegue agradar. A vinheta "Sylvester" poderia ser uma bela canção, mas foi relegada a apenas quarenta e quatro segundos de duração. Os momentos de exceção positiva são "Hobo Ken", graças a levada do hammond, o reaparecimento da harmônica e o wah-wah vocalizante, e "We Can Do It", na qual os metais dão show.

O ritmo dançante de "Who in the Funk Do You Think You Are" é interessante, mas a guitarra e a bateria eletrônica não combinaram. Despedida triste de uma grande banda. Ain't But the One Way e Back on the Right Track foram posteriormente lançados juntos na coletânea Who in the Funk Do You Think You Are: The Warner Bros. Records, de 2001.

Sly chegou a participar do programa Late Night With David Letterman, ainda em 1982, mas depois, mergulhado nas drogas, sumiu do mapa, fazendo um longo tratamento durante o ano de 1984, graças a ajuda do amigo Bobby Womack. Do álbum foram lançados os singles "L.O.V.I.N.U." (em 12") e "Ha Ha, Hee Hee / High Y'all ‎ (7").

Na década de 80, Sly colaborou em alguns singles, que foram "Chasing The Rock", de Gene Page (1983), "Crazay", de Jesse Johnson (1986) e "Eek-Ah-Bo-Static Automatic" / "Love And Affection", ao lado de Martha Davis (1986). Em 1987, Sly foi preso por porte de cocaína e por tráfico da mesma, voltando a ativa somente em 1992, quando apareceu na coletânea Red Hot + Dance contribuindo com  "Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin) (Todds CD Mix)". Esse álbum foi lançado para arrecadar fundos na ajuda do tratamento da AIDS.


Sly Stone, em 2006

Depois, foi uma longa ausência. Mesmo em 1993, quando o grupo foi homenageado na Rock 'n' Roll Hall of Fame, Sly não esteve presente, até que em 2006, Sly Stone foi homenageado com um Grammy por serviços prestados a música. Foi a primeira e última reunião da Família de Pedra, que interpretou diversas canções naquela noite. 


Último álbum de Sly Stone até o momento

Em 2011, Sly lançou seu segundo álbum solo, I'm Back! Family & Friends pelo pequeno selo Cleopatra. Com a participação de diversos convidados especiais "I'm Back! Family & Friends se torna um álbum frustrante em vários quesitos, mas entre os principais, a recriação nada inspirada para clássicos da primeira geração da Família de Pedra e, pior ainda, remixes totalmente desnecessários para esses mesmos clássicos, como atestam as terríveis versões para "Family Affair (dubstep remixe)", "Thank You (Fallentime Be Mice Elf Agin) (Electro Club Mix)", "Dance to the Music (Club Mix)" e "Dance to the Music (Extended Mix)", sendo as três primeiras, bônus na versão em CD. 

Porém, temos alguns momentos saciáveis nas inéditas "Plain Jane", "Get Away" e "His Eyes is on the Sparrow". Johnny Winter da as caras na simples "Thank You (Fallentime Be Mice Elf Agin)", assim como temos uma sem sal "Hot Fun in the Summertime", com Bootsy Collins e Ann Wilson, sem dizer muito a que veio, em "Everyday People". Carmine Appice em "Stand!", Ray Manzarek em "Dance to the Music", e Jeff Beck em "I Want to Take Your Higher", são as poucas participações que tornam as versões atuais no mesmo nível da versão original. Pouco para alguém como Sly Stone, e facilmente esquecível.

Sly Stone, um gênio americano

Sly continua apresentado-se regularmente em bares e pequenos locais nos Estados Unidos, vivendo em uma van e sem local fixo. Um triste fim de carreira para um dos maiores nomes da música.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...