quinta-feira, 12 de junho de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Supertramp - Rudy [1974]



A década de 70 foi prolífica na difusão do rock progressivo, e isso é inegável. Todas as grandes bandas do estilo surgiram entre 1968 e 1977, quando o rock progressivo foi destruído em praça pública pelo punk, mas perdeu espaço realmente para a New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), que fez crescer a cena metálica a partir de 1978 e ganhar a década de 80 com nomes como Judas Priest, Iron Maiden, Def Leppard, Saxon entre outros.

Mas enquanto o rock progressivo esteve no auge, vários foram os grupos não-progressivos que flertaram com o estilo, e se saíram muito bem, diga-se de passagem. Led Zeppelin ("Kashmir"), Black Sabbath ("Megalomania"), Alice Cooper ("Black Juju") e Poco ("Nobody’s Fool – El Tonto De Nadie, Regresa") são bons exemplos de nomes consagrados que jamais foram classificados como progressivo, mas cujas canções citadas são ótimas representantes para essa série sem sombra de dúvidas.

Um grupo que esteve sempre na zona intermediária do "Ser ou Não Ser Progressivo?" foi o britânico Supertramp. Em muitas listas classificatórias de grupos, o Supertramp aparece forte sob o logo PROGRESSIVO, enquanto outras o classificam apenas como pop rock (alguns ainda o chamam de soft rock, estilo que se consagrou no final da década de 70 por ser um rock mais leve do que o rock pesado de grupos como Led Zeppelin), mas na verdade, a crise de identidade do grupo nunca afetou a qualidade e suas gravações, e também a ampliação de fãs, que independente do que classificam a banda, reconhecem-na como uma das mais importantes saídas da Ilha da Rainha, e capaz sim de criar obras-primas seja no rock progressivo, seja no pop, seja no blues, seja no mais simples rock 'n' roll.

Doug Thomson, Bob Siebenberg, John Anthony Helliwell, Roger Hodgson e Rick Davies

Os ingleses já apareceram por aqui logo no início da série, com a Maravilha desconhecida "Brother Where You Bound", lançada em 1985 no álbum homônimo e com uma participação mais que especial do guitarrista David Gilmour (Pink Floyd), mas esta não foi a única, e nesse mês de junho, o mês dos namorados, apresentarei outras duas Maravilhosas canções que o grupo com as melhores canções para namorar já criadas fez lançou em sua carreira.

No início, o Supertramp surgiu como mais uma banda de influências bluesísticas, misturando a psicodelia londrina com elementos folk que fazem dos dois primeiros álbuns da banda um caso a parte na Discografia do grupo, formado em 1970 através de um anúncio do pianista e vocalista Rick Davies no famoso semanário inglês Melody Maker, para o qual responderam diversos músicos, e os escolhidos foram Roger Hodgson (baixo, vocais), Richard Palmer (guitarras) e Robert Millar (bateria).

Richard Palmer, Roger Hodgson e Rick Davies, uma das primeiras fotos do Daddy

O quarteto foi acolhido por Stanley "Sam" August Miesegaes, um milionário holandês que havia apostado muito de seu dinheiro no grupo The Joint, e não viu a flor do sucesso surgir. Foi Sam quem ajudou Davies a montar o grupo, e financiou os primeiros ensaios da banda, já que Davies era para Sam o principal músico do The Joint, vendo nele uma promissora estrela da música.

Davies vinha de uma formação musical muito forte, calcada na música clássica e no jazz. No início de sua carreira, ele havia começado como baterista, e depois passou para o piano, quando começou a desenvolver também seu lado bluesy. Em 1966, ele ingressou no grupo The Lonely Ones, pouco depois do astro da Jimi Hendrix Experience deixar o mesmo, Noel Redding, e a The Lonely Ones evoluiu para o The Joint, cujos trabalhos não passaram de trilhas sonoras para filmes B alemães. Sem o sucesso e com o apoio de Sam, veio a oportunidade de montar a nova banda.

Raro compacto do grupo Argosy,
com Roger Hodgson e Elton John
O primeiro músico a ser aprovado foi Roger Hodgson, um jovem de 19 anos que era apaixonado pelo rock 'n' roll. Com dez anos, Roger já se destacava entre os colegas por tocar guitarra soberbamente, e aos doze, já estava compondo suas músicas. Antes de entrar no Supertramp, Roger havia feito uma série de shows ao lado do baterista Roy Hovey (formando a dupla H'bombs) e gravado a guitarra do grupo People Like Us no compacto "Duck Pond" / "Send Me No Flowers", o qual nunca foi lançado.

Esse desbunde com o People Like Us não afetou o já reconhecido talento de Hodgson, que no mesmo ano, participou de um raríssimo compacto da banda Argosy, com as canções  "Mr. Boyd" / "Imagine". O compacto não vendeu praticamente nada, e assim, Hodgson resolveu tentar a sorte no anúncio da Melody, e pouco depois, lá estava ele para formar uma das principais duplas da música ao lado de Rick Davies.

Apenas para informação, os demais integrantes da Argosy eram Nigel Olsson (famoso baterista que acompanhou boa parte da carreira de Elton John, gravando o clássico Goodbye Yellow Brick Road - 1973), Caleb Quaye (guitarrista que tornou-se reconhecido por gravar com Paul McCartney, Mick Jagger, Elton John, Pete Townshed entre outros) e um rapaz chamado Reginald Dwight no piano e teclados (posteriormente Sir Elton John).

Rick Davies, Richard Palmer-James, Robert Millar e Roger Hodgson

Hodgson estava pronto para assumir o papel de guitarrista da nova banda, chamada Daddy, mas no dia seguinte, veio a audição de Richard Palmer. O experiente guitarrista (23 anos na época) vinha de uma carreira por diversas bandas, como The Corvettes, Tetrad e Ginger Man (ao lado do baixista John Wetton), e segundo os relatos de Davies, simplesmente o deixou de boca-aberta. Além de tocar muito, Palmer tinha uma habilidade incomum para criar letras, e os olhos de Daves brilharam. Hodgson não queria perder a oportunidade de emprego, e então, sugeriu ser o baixista do Daddy, tendo que aprender o instrumento rapidamente.

Por fim, veio Keith Baker, que não durou muito como baterista do Daddy, sendo substituído por Millar. A entrada de Millar trouxe junto o primeiro contrato para uma série de apresentações na Alemanha, mais precisamente no P. N. Club de Munique. Os shows eram regados de psicodelia, com o grande momento sendo uma longa versão de "All Along the Watchtower", repleta de improvisos.

A psicodélica estreia dos ingleses

Na Alemanha, descobrem que existe um outro grupo de nome parecido, o Daddy Longlegs, e então, para evitar confusões, resolvem batizar-se de Supertramp, um apelido inspirado no livro A Autobiografia de um Super-Tramp, de William Henry Davies (lembrando que Tramp significa algo como vagabundo).

Com o novo nome, são um dos primeiros a assinar com a A & M Records, e assim lançam Supertramp, em 14 de julho de 1970, apenas no Reino Unido, Alemanha e Canadá (o álbum demoraria sete anos para ser lançado oficialmente nos Estados Unidos). Nos sulcos da estreia, uma mistura frenética de psicodelia, jazz, blues e folk, destacando a longa "Try Again", uma Maravilhosa experiência para ser iniciado no mundo progressivo dos ingleses, além das baladas "Maybe I'm a Beggar" e "Aubade / And I Am Not Like Other Birds of Prey", típicas do estilo que marcaria o grupo anos depois. Supertramp vendeu muito pouco, e para manter-se na ativa, o chefão Davies fez uma reformulação no line up, adicionando o flautista Dave Winthrop.

Supertramp na Ilha de Wight, m 1970:
Rick Davies, Roger Hodgson, Richard Palmer, Robert Millar e Dave Winthrop

Apesar de não ter vendido muito, Supertramp foi bem recebido pelos críticos, o que levou o agora quinteto a ser convidado para participar da terceira edição de 1970 do Festival da Ilha de Wight, uma grande oportunidade para divulgar a banda, ao mesmo tempo que outro gigante progressivo também estreava para um grande público, o trio Emerson, Lake & Palmer, e no mesmo palco que o The Who apresentou a ópera-rock Tommy com John Entwistle vestindo a famosa roupa de caveira.

O Supertramp abriu a segunda noite do Festival, na quinta-feira, dia 27 de agosto, seguido por Black Widow, Everyone With Every Roberts, Howl, Groundhogs e Tony Joe White. O nome do grupo até que conseguiu algum destaque, levando o grupo a começar a composição do segundo álbum.

Roger Hodgson, Frank Farrell, Rick Davies, Kevin Currie e Dave Winthrop

Infelizmente, quatro meses após apresentarem-se em Wight, em dezembro de 1970, Palmer discutiu com Hodgson, e saiu do grupo. Seu último show com o Supertramp foi em Frankfurt, e dali, Palmer saiu para se tornar o principal letrista do King Crimson, escrevendo as letras dos clássicos Lark's Tongues in Aspic (1973), Starless and Bible Black (1974) e Red (1975). Em janeiro de 1971, foi a vez de Millar sair, devido a problemas de saúde, pouco depois de o grupo fazer uma fracassada excursão pela Noruega.

Hodgson então foi para a guitarra, e no baixo entrou Frank Farrell. Para a bateria, Kevin Currie foi o escolhido, e agora o quinteto Supertramp estava pronto para lançar seu segundo álbum.

Último disco sem a formação clássica

Indelibly Stamped chegou às lojas em junho de 1971, e particularmente, é um dos melhores trabalhos da carreira da banda, famoso por sua capa com a mulher nua tatuada, o que causou uma certa polêmica, e fez com que o nome Supertramp ficasse mais conhecido na Europa. O disco é belíssimo, sendo impossível não ser contagiado com pérolas do tamanho da folk "Aries", o ritmo The Band de "You're Poppa don't Mind", o agito de "Remember" ou a balada "Times Have Changed". Porém, vendeu menos que seu antecessor, e o fim do Supertramp tornou-se eminente.

Davies estava convencido de que sua ideia musical era correta, mas talvez os nomes não fossem os apropriados. Então, reformulou o grupo mais uma vez, substituindo novamente a cozinha por dois músicos não ingleses: o americano Bob Siebenberg (bateria, vocais, na época grifado como Bob C. Benberg) e o escocês Dougie Thomson (baixo). Siebenberg veio de um grupo de jazz rock chamado Bees Make Honey, que estabeleceu sua moradia no Reino Unido em 1971. Já Thomson começou sua carreira musical em 1969, no grupo The Beings. Em 1971, passou a ser membro do The Alan Bowl Set, até ser chamado para uma audição com o Supertramp, ganhando a posição. Do The Alan Bowl Set veio o substituto para Withrop, John Anthony Helliwell. A carreira de Helliwell começou justamente nessa banda, substituindo Dave Green, e foi a sua amizade com Thomson que o levou ao Supertramp.

Com a permanência de Hodgson, nascia uma das maiores formações da música: Davies, Hodgson, Helliwell, Thomson e Siebenberg.

A nova formação passou a ensaiar em uma fazenda medieval, onde começaram a compor novas canções, para depois adentrarem por diversos estúdios ingleses (principalmente o Ramport, do The Who) para as gravações do terceiro LP. No total, quarenta e duas canções foram compostas no período de retiro na fazenda, e oito delas foram selecionadas para o disco, batizado Crime of the Century.

Contra-capa de Crime of the Century

Esse álbum está fácil nas listas de Melhores Álbuns de Todos os Tempos, e faz um resumo da ópera do que o Supertramp era, misturando elementos diversos e fazendo canções para marcar época. Crime of the Century abre com a clássica frase de harmônica de "School", marcante canção principalmente pelo riff do meio da canção, que se tornou um dos principais momentos para os fãs nos shows do grupo. Seguem a jazzística "Bloody Well Right" e a lindíssima "Hide in Your Shell", encerrando o lado A com "Asylum", e possibilitando ao ouvinte perceber que o grupo inova na construção do track list do álbum, já que as canções ímpares ficaram para Hodgson como vocalista principal, enquanto as canções pares estão para Davies.

O lado B traz "Dreamer", outro grande sucesso da carreira do Supertramp, e como é uma canção ímpar, cantada por Hodgson, e chega na Maraviha de hoje, "Rudy", sete minutos e dezessete segundos de uma aula de construção musical. A letra dessa Maravilha trata sobre as desesperanças de um homem chamado Rudy, o qual sofre de problemas sociais e busca por uma solução para encaixar-se na sociedade. Ele busca desesperadamente planejar sua vida, mas acaba não conseguindo o mais importante, que é viver.

O barulho de um trem chegando na estação leva para a clássica introdução no piano feita por Davies, mostrando toda sua qualidade como pianista e abusando de uma escala bluesy. O trem simboliza a vida que está levando Rudy, indo para um lugar qualquer, como exaltado na primeira frase da Maravilha, cantada por Davies acompanhado pelo piano e por uma leve percussão. Duas estrofes são cantadas com intervenções de sintetizadores, e a canção vai ganhando corpo, com Davies cantando mais alto e com marcações percussivas feitas por Helliwell, além de baixo e sintetizadores. Nesse trecho, descobrimos que Rudy está em busca de tempo para poder viver, e durante sua viagem, ele pensa sobre seu significado para a sociedade, já que ele não é sofisticado e tão pouco bem-educado.

"Rudy" explode em um agitado rock com a entrada da guitarra, e então, o ritmo muda, com marcações de sintetizadores, baixo e bateria feitas igualmente. O piano comanda o ritmo para o vocal de Davies ser esganiçado, falando das dúvidas de Rudy (não é gordo, tenta ser legal, mas acaba sempre sendo um tolo), levando a um curto solo de guitarra sobre uma rápida levada de baixo e bateria.

A canção acalma-se, e somente com o piano e longos acordes de órgão, mergulhamos nos pensamentos de Rudy, que considerava que as coisas boas acontecem somente para os que sabem esperar, mas que as vezes, essa espera na verdade pode ser longa demais. O saxofone perambula por trás da voz de Davies, junto a tímidas escalas de baixo, caindo em um riff muito bonito feito por uma guitarra carregada de distorção junto do baixo e de sintetizadores.

Chegamos no cerne da canção, quando o piano fica solando sozinho durante alguns segundos, dando espaço para o lindo solo de clarinete. Vozes são ouvidas, avisando da saída de um trem, e com encerramento do solo de clarinete, o ritmo torna-se tenso, com guitarra, baixo, bateria e piano puxando a frente como se fosse uma locomotiva, enquanto a guitarra delira com o wah-wah e sintetizadores saltam de uma caixa de som para a outra.

As letras do álbum

De repente, a voz de Hodgson surge sofrida no canal esquerdo, dizendo que durante toda a vida de Rudy, durante todos os seus anos, e Davies complementa que ele não teve amor e ninguém se importou com ele, preenchendo o canal direito e fazendo uma genial sequência de alternância de vozes. Ao fundo, Hodgson demole seu wah-wah sobre um ritmo frenético de baixo, bateria e piano, e enquanto Hodgson lembra que quando apagavam-se as luzes, os seus medos surgiam, Davies comenta que era impossível segurar as lágrimas. Hodgson pergunta como Rudy conseguiu viver sem amor, e Davies responde que alguém disse para Rudy sempre dar amor, mas não entende por que nunca recebeu em troca. Por fim, Hodgson pergunta o que de bom Rudy espera ouvir, e Davies responde que espera ouvir que está tudo bem para todo mundo.

O ritmo enlouquecido aumenta com Hodgson e Davies dividindo os vocais ao mesmo tempo, dizendo que é hora de Rudy agir, e finalmente encontrar uma razão para sua vida, e encontrar o seu amor, para uma série de marcações feitas por baixo, guitarras, piano, sintetizadores e bateria encerrarem esse magnífico trecho com a chegada na estação, quando ouvimos um músico interpretando uma canção ao violino, som este que é um registro de um músico de rua na Leicester Square de Londres.

O mellotron faz uma aparição no encerramento da canção, acompanhando o lamento vocal de Davies, dizendo que Rudy sai de um filme - a viagem - entorpecido de dor, e tristemente se dá conta de que em breve, continuará andando novamente no trem, concluindo com uma sequência de notas de sintetizadores que repetem-se por diversas vezes.

Encarte do LP

O álbum ainda segue com outras joias fabulosas, que são a balada "If Everyone Was Listening", uma prova perfeita de quão incrível era a capacidade musical do Supertramp não só como músicos, mas também na construção de harmonias vocais, ou ainda a bela faixa-título, uma das canções mais lindas que o ser-humano já compôs, e que serve perfeitamente para encerra a data de hoje, dia dos namorados, para aqueles casais eternamente apaixonados, sendo Crime of the Century inteiro - e por que não a discografia do Supertramp - perfeito para acompanhar a noite romântica dos mesmos casais.

Crime of the Century tornou-se o primeiro grande sucesso do quinteto, levado pelos hits "Dreamer" (nos Estados Unidos) e "Bloody Well Right" (Inglaterra). Na Terra-Natal, o LP entrou no Top 10, alcançando a quarta posição, enquanto nos Estados Unidos ficou entre os 40 mais, ganhando ouro em 1977. Tem que ser destacado também o sucesso do álbum no Canadá, onde vendeu mais de um milhão de cópias em pouco mais de um ano.

Alguns audiófilos e críticos insistem em dizer que o álbum é conceitual, fato este que foi desmentido em uma recente entrevista dada por Roger Hodgson, na qual ela afirma que apesar de os temas encaixarem-se, o álbum não foi concebido com tal propósito, e se quer Rudy é o personagem que atravessa as histórias de todas as canções.

No ano seguinte, o grupo continuou seu crescendo musical, lançando Crisis? What Crisis?, que manteve o nome do Supertramp em alta, fugindo bastante do rock progressivo e mergulhando no pop. Porém, em 1977, o grupo retornaria com o status de grande banda progressiva, ao registrar a maravilhosa "Fool's Overture", como veremos em quinze dias, aqui no Consultoria do Rock.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Anacrusa


Arte inicial por Pablo Ribeiro

Durante a década de 70, Brasil e Argentina não rivalizavam apenas no futebol, mas também na formação de grandes bandas. Enquanto o Brasil tinha Secos & Molhados, Mutantes, Som Nosso de Cada Dia e O Terço (só para citar alguns), a Argentina rivalizava com Sui Generis, Vox Dei, Almendra e La Maquina de Hacer Pajaros (também para citar só alguns). Porém, os argentinos tinham um diferencial em suas bandas, já que a maioria delas explorava com muita qualidade as características sonoras de seu país.

Não era diferente com o Anacrusa, um grupo espetacular, que sabia fazer miséria com tango, rock progressivo, mambo, milonga, chamamé e diversos outros estilos comuns ao pampa portenho.

O grupo, cujo nome é uma forma musical europeia, advinda do grego ἀνάκρουσις, que significa retrocesso, tem uma história praticamente obscura, mas graças a geração MP3, o mundo pode conhecer uma das bandas mais versáteis que o pampa portenho já ouviu, que fez questão de retroceder às origens folclóricas de seu país, mas foi além com o passar dos anos e as inspirações progressivas.

Fundado no início dos anos 70, capitaneado José Luis Castiñeira de Dios (violão, charango, cuatro, bandoneón, baixo, arranjos) e pela voz marcante de Suzana Lago (piano, órgão, charango e voz), acompanhados pelo trioAlex Eriich-Oliva (double bass, violões, violoncelo), Julio Pardo (flauta, oboé, instrumentos de sopro) e Elias "Chiche" Heger (bateria, percussão).


"Chiche" Heger

Individualmente, as formações eram bastante distintas. Chiche tinha uma formação essencialmente jazzística, e começou sua atividade artística como baterista de jazz no The Royal Garden Jazz Band, que em seguida virou a Diexieland Smugler's, quando começou a receber aulas de percussão do maestro Antonio Yepes. Em 1960, foi designado para representar a Argentina no Primer Festival Internacional de Jazz, no Chile. Posteriormente, passou por diversos grupos do estilo, tanto na Argentina como no exterior, até passar a ser parte do conjunto Trío Juárez, em 1969, gravando dois LPs. Ainda em 1969, funda com o também baterista Eduardo Casalla o Centro de Estudios de Percusión, onde passou a ministrar aulas com regularidade.

Pardo vinha de uma formação clássica no piano e no violão, tendo sido estudante nos conservatórios Julián Aguirre e Manuel de Falla, onde também aprendeu clarinete. Foi com este último que converteu-se em um amante do jazz, tocando ao lado dos conjuntos The Hot Gang, The Modern Dixielands, The New Orleans Stompers, The Saint Louis Stompers e The Dixie Band. Despertou seu interesse pela flauta cm Alfredo Ianelli, ingressando o conceituado grupo de Eduardo Rovira no final da década de 60. Era o flautista principal na Banda Sinfónica da Polícia da Província de Buenos Aires, quando foi convidado para integrar o Anacrusa.

Por fim, Alex Oliva vinha de uma tradição folclórica, tendo como mestres seu pai Ruwin Erlich (piano) e Aldo Tonini (violino). A partir de 1967, integrou o grupo Trio Juárez, gravando dois álbuns. Virou diretor musical em diversos espetáculos do teatro argentino, e contrabaixista da Orquestra de Cámara del Sindicato de Luz y Fuerza, em Buenos Aires.


A dupla Susana Lago e Jose Luis Castiñeira, nos anos 2000
O cerne do Anacrusa era a dupla Susana Lago e Jose Luis Castiñeira de Dios. Suzana era uma renomada artista argentina, tendo sida enviada para representar o país no September Musical Tucumano, em 1972, e também nos XX Jogos Olímpicos de Munique, no mesmo ano, onde conheceu Castiñeira. Formada no Conservatório Nacional de Música argentina, foi integrante do grupo Cuarteto Cabrakán, bem como foi figura principal no espetáculo Folklore de Rancho y Rascacielo, ao lado de Leda Valladares e Anastasio Quiroga, o qual lotou o Teatro Regina e o Teatro Municipal de San Martín em duas temporadas na década de 60. Depois, mudou-se para a França, onde atuou em recitais por lá e na Espanha, tocando com destaque no Colégio Mayor de Madrid e em rádios e televisões franceses, voltando para a Argentina para fazer seu nome como concertista apresentando-se no Instituto de Arte Moderno Exposhow, Cine Club Mar del Plata, Biblioteca Municipal Verdi de al Plata e também na rádio e TV argentina.


Jose Luis Castiñeira de Dios

Castiñeira integrou diversos grupos folclóricos e de música popular argentina antes de montar o Anacrusa, destacando-se  o Trio Eduardo Lagos, o Quinteto Teluria e o Trio Juárez + 2, ao lado de Oliva. Seus estudos levaram-no a conseguir uma bolsa do Instituto de Cultura Hispánica, que permitiu mudar-se para a Espanha em 1965. Por lá, tomou contato com Waldo de los Ríos, participando de diversas gravações do maestro argentino durante o ano de 1966. Fez renome através de trilhas sonoras para filmes e teatro, o que levou a representar a Argentina durante os XX Jogos Olímpicos de Munique, quando conheceu Suzana (com eles também estavam Leda Valladares e Anastasio Quiroga).

O grupo apresentava-se em pequenos locais de Buenos Aires, apresentando um som fortemente influenciado pelos ritmos portenhos e latinos.

A estreia do Anacrusa, com muitos elementos tradicionais
Não tardou para que assinassem um contrato com o selo Redondel, e em 1973, lançasse seu álbum de estreia, auto-batizado. O disco é muito belo, misturando os elementos do pampa com sutis porções de rock progressivo.

Em pouco mais de trinta minutos, somos apresentados a diversos ritmos latinos, como as cuecas "La Rosa Y El Clave" e "Rio Limay", esta contrastando os violões, piano e bandoneón com majestosos solos de flauta e xilofone, e as canções populares e dançantes presentes no joropo "Lo Que Mas Quiero" e no merengue "Marula Sanchez". 


Contra-capa do LP de estreia dos argentinos

A voz de Susana destaca-se na guajira "Pobre Mi Tierra" e em "Elegia Sobre Un Poema", onde ela realmente assombra, e os destaques ficam para as instrumentais "El Baile del Pajarillo" (joropo venezuelano), "Zamba de Invierno", ambas com um show de Castiñeira e Pardo, "Galopa del Mamboreta", uma galopa com uma empolgante variação de ritmos entre piano e flauta, a andina "Viento de Yavi", todas com ótimas passagens de elementos prog com elementos do pampa, e a mágica chacarera "Piedra Y Madera", sem sombra de dúvidas a melhor e mais elaborada canção do LP. 

São canções curtas, mas com um belo apelo emocional, que indicavam um promissor caminho para o quinteto, que na capa do LP, mostrava suas influências progressivas, imitando o Pink Floyd de Ummagumma ao posar com todos os seus instrumentos ao mesmo tempo.

Segundo álbum do grupo
O álbum vendeu relativamente bem, angariando mais shows para o grupo e permitindo a gravação de um segundo LP no ano seguinte. Anacrusa II apresenta a primeira reformulação da banda, agora com o La Platense Rubén "Mono" Izaurralde no lugar de Pardo.

O grupo continua suas explorações musicais no ano seguinte, e Mono foi A substituição, dando uma nova face para o grupo, já que além de tocar muito bem, também canta, aqui em "Rio Manzanares". 

Contra-capa de Anacrusa II
O álbum possui canções populares de diferentes países, como a citada "Rio Manzanares" (canción venezuelana), "Coplas de Cundinamarca" (coplas colombianas) e a dançante "Palmero" (marinero peruana), além de "Homenaje", uma cueca legitimamente portenha, e que está no lado B. 

Mas com a dolorida "Polo Coriano", o grupo surpreende nas partes instrumentais, enaltecidas nas pérolas "Zamba de la Despedida", destacando o órgão de Susana, e a suíte "Campo Sur", divida na suave "Saque Mi Corazón de la Tierra Quemada", com violão, flauta e piano dividindo as atenções,  e a estonteante "Calcufurá", uma incrível canção na qual Susana usa e abusa das notas do piano, e Mono faz misérias com a flauta, encerrando de forma fantástica esse belíssimo álbum, e mostrando os caminhos progressivos que o grupo iria seguir em breve.

União dos dois primeiros LPs em um único CD

Anacrusa e Anacrusa II foram posteriormente relançados em um único CD, chamado Anacrusa (2001), trazendo todas as canções de ambos os álbuns. 

O mercado latino começava a receber de braços abertos o quinteto, que não parava de produzir espetáculos cada vez mais concorridos. Porém, em plena ditadura militar, sobreviver como músico no país vizinho tornou-se uma tarefa complicada, e desta forma, as dificuldades financeiras começaram a aparecer.

Mesmo assim, o quinteto seguiu na luta, e com uma nova formação tendo Castiñera,  Mono, Susana, Bruno Pizzamiglio (oboé), Quique Alvarado (baixo e sintetizador), Juan Carlos Lícari (bateria) e Ricardo Martinez (percussão), lançam Anacrusa III, em 1975, pelo pequeno selo Global. 

O último disco do grupo lançado antes do exílio
Se em Anacrusa II, os argentinos colocavam o pé levemente no progressivo, no terceiro disco a situação inverte-se, já que esse é o álbum mais folclórico do grupo, que como todos os demais, possui uma distinção muito clara nos ritmos apresentados. 

Nas canções com vocal, temos o joropo de "Pullas", com os vocais divididos entre Mono e Susana, as vidalas "Lamento del Salitral" e "Tanta Lagrima Regada", a marinera peruana de "M'hey de Guardar", a valsa peruana "Maldito Amor" e a milonga "Milonga del Silencio", ambas com dramáticas interpretações de Susana. 

Contra-capa de Anacrusa III

Para manter a constante, os arranjos instrumentais do maestro Castiñeira são o que temos de melhor, engrandecendo cada vez mais o nome do grupo para os fãs, através das jóias "Polquita Cruceña", uma polca boliviana com um belo duelo de flauta e oboé, e "Los Capiangos", uma chaya típica representante da sonoridade Anacrusa, trazendo como novidade a presença do sintetizador.

A agitada candomble "Recuerdos de Monserrat", que serviria de base para outra canção do grupo no futuro, destacando a inclusão do xilofone na mesma, é um dos principais destaques, ao lado de "Horizontes Y Senderos", que traz lágrimas em suas três partes, uma mais bela que a outra, e totalmente distintas entre si, mostrando que é possível construir uma ótima canção repleta de variações em apenas cinco minutos.

Coletânea unindo Anacrusa III com canções inéditas

Em 2005, esse álbum foi relançado com o nome Documentos 75-76, trazendo cinco bônus, que foram gravadas para o quarto álbum do grupo, o qual seria lançado em 1976, mas não chegou a sair. São elas: "Cuando Llegare", "Vidala de la Tierra Conocida", "Cuando Salgo a Sabanear", "Polo Margariteno" e "Carnavalito Y Vidala", sendo Documentos 75-76 um álbum de mais fácil acesso em comparação aos demais.

A ditadura passou a ficar cada vez mais pesada entre os hermanos, obrigando o grupo a retirar-se do país, buscando exílio na França em 1977. Apesar da saída às pressas de sua Terra Natal, os ares europeus foram revitalizadores, já que lá, o quinteto ampliou seus conhecimentos musicais. 

Amigos argentinos e da América Latina em geral, também exilados na França, passaram a frequentar as residências de Susana e Castiñeira, surgindo um novo Anacrusa, agora com Susana, Castiñeira, Pardo e Bruno, Daniel Sbarra (guitarras), Jorge Trasante (bateria e percussão), Juan Mosalini (bandoneon) e Phillipe Pages (piano, órgão). O que estava bom iria fica incrivelmente melhor a partir de então. Os novos rumos ainda levaram o grupo a assinar com o mega selo Philips, e em 1978, chega às lojas El Sacrificio.

O melhor álbum do grupo, e o primeiro do exílio

Desde a estonteante entrada com "El Pozo de los Vientos", e uma impecável mistura de elementos progressivos com latinos, percebemos que o grupo cresceu e muito. Guitarra, baixo e piano misturam-se a flauta, oboé e percussões de uma maneira ímpar, sendo que o trabalho de Sbarra é perfeito, com suas distorções puramente psicodélicas, apresentadas na recriação de "Los Capiangos" e em "Quien Bien Quiere", ambas com um belíssimo arranjo orquestral. 

O trabalho instrumental de Castiñeira e Susana é elevado para o nível mais alto, como atestam "Sol del Fuego", com uma ótima participação do bumbo-leguero, e na longa suíte "Tema de Anacrusa", uma canção merecedora de ser chamada de Maravilha, com seus treze incansáveis minutos de variações e andamentos mágicos criados por piano, flauta, saxofone, baixo, guitarras e percussão, além de fantásticas vocalizações de Susana. 


Contra-capa do vinil (acima) e do CD (abaixo) de El Sacrificio

Aliás, o que ela faz com a voz na faixa-título assusta até fantasmas, e quando ouvimos os cinco minutos da Maravilhosa "Homenaje a Waldo", não tem como evitarmos as lágrimas e a tradicional frase cuja sigla é "PQP!", tamanha a emoção e perfeição que os músicos exprimem na mesma.

Um disco perfeito, que ao lado de La Biblia (Vox Dei) e Artaud (Pescado Rabioso), está no topo dos Melhores álbuns já lançados por um grupo da Argentina.

O Anacrusa seguiu como um grupo errante, atuando pouco mas concentrando-se bastante nas composições, além de uma grande mudança na formação, agora com Castiñeira e Susana acompanhados de Narciso Omar Espinosa (violão), Tony Bonfyls (baixo), André Arpino (bateria), Jacky Tricore (guitarra), Alain Human (percussão),  Rubem Sanchez Resta (percussão), Patrice Mondon (violino), Pierre Gozzes (saxofone), Claude Maisonneuve (oboé) e Raymond Guiot (flautas).

Segundo disco do período de exílio

O segundo disco do exílio demorou quatro anos para ser parido, com o nome de Fuerza, e é um forte concorrente para El Sacrificio à posição de melhor do grupo. Temos um álbum muito elétrico, levado principalmente pela guitarra ácida de Tricore. 

As únicas canções que trazem um pouco das origens são a quase Weather Report "Monserrat", inspirada nos acordes de "Recuerdos de Monserrat", e a bela faixa-título, com o bumbo leguero se fazendo presente, mas destacando exclusivamente o arrepiante arranjo vocal, mas no mais, o Anacrusa apresenta novidades em seu som, como as baladas "En Paz" e "Vidala de la Tierra", essa com um ótimo arranjo orquestral, e até mesmo jazz-fusion, na incrível "Presion", com Susana dando show ao piano, além de um duelo inesquecível de violino e guitarra. 

Contra-capa de Fuerza

A maravilhosa recriação para "Calfucurá" é tão sublime quanto a versão de Anacrusa II, mas muito mais potente com a presença dos metais e das cordas, além do tom medieval empregado na parte final da canção. O melhor fica para o final, com a estonteante "Chaya", repleta de inspirações diversas, desde o jazz ao tango, e  a suíte "Voz del Agua", que certamente irá fazer você pensar "Por que eu não ouvi essa banda antes?", tamanha a profundeza emocional que o Anacrusa nos apresenta ao longo dos seus nove minutos de duração, nesta que é a canção mais trabalhada orquestralmente na carreira do grupo.

Infelizmente, após o lançamento de Fuerza, o grupo separou-se, com alguns músicos voltando para a Argentina e outros permanecendo na Europa. Nesse período, o Anacrusa entrou na obscuridade, e somente Castiñeira ganhou algum destaque, compondo trilhas para diversos filmes franceses e argentinos. Somente nos anos 90, uma nova reunião entre Susana e Castiñeira veio a ocorrer, e a mesma acabou gerando mais um registro fonográfico, o quinto do grupo.

O retorno da dupla Castiñeira / Lago, em 1995

13 anos depois de Fuerza, Castiñeira e Susana reencontraram-se em Buenos Aires, registrando Reencuentro (1995), com a participação de diversos músicos convidados. No álbum, revezam-se Arturo Schneider e Rubén Mono Izarrualde (flautas), Adalberto Cevasco e Quique Alvarado (baixo), Enrique "Zurdo" Roizner e Carlos Carli (bateria), Narciso Omar Espinoza e Ricardo Lew (guitarras), além de Bruno Pizzamiglio (oboé), Daniel Binelli (bandoneón), Hugo Pierre (clarinete e saxofone) e Víctor Skorupski (flauta e saxofone). 

O grande momento desse reencontro é a faixa que abre o CD, a suíte "Tristes Llanos", com épicos quinze minutos instrumentais nos quais piano, guitarra, flauta e saxofone são os senhores de uma musicalidade quase esquecida nos anos 90. 

Contra-capa de Reencuentro

Depois, temos quinze canções que variam bastante os estilos, algumas reaproveitadas de obras já compostas por Castiñeira, com Susana prestando sua voz para "Alla Viené Un Corazón" , "Ya Me Voy", e a excepcional "Hasta Volver", que são as canções mais folclóricas do álbum. Como sempre, os momentos instrumentais são os que mais chamam a atenção, destacando "Gotas", "Violento", "Bajo Otro Sol", "Noche de Cueca", Prisión" e "Glaciares", todas com complexos e belos arranjos. 

Há ainda canções que perambulam entre agradar ou não, que são as baladas vocais "Procesión" e "Estilo", e as instrumentais "De Aca Y de Alla", com flautas andinas fazendo o solo principal, mas com um magnífico bandoneón na sua segunda parte, e "Subiendo Cuestas", tendo como destaque o charango, mas um ritmo muito sonolento. 

Encarte de Reencuentro

Os deslizes ficam para "Canto a la Tierra" e "Elegía", totalmente descartáveis. Um disco ameno, que podia ser mais curto (principalmente nas canções com vocal), mas cuja importância é muito relevante, já que algumas pérolas são encontradas apenas aqui.

Seguiu-se um longo hiato novamente, e somente em 2005 os fãs puderam se surpreender com mais um lançamento do conjunto, Encordado.

O último álbum do grupo até o presente momento
Com Susana, Castiñeira, Alejandro Santos (flauta, saxofone, quena, sikus), Hugo Pierre (saxofone, flauta, clarinete), Ricardo Lew (guitarra, violão), Enrique "Zurdo" Roizner (bateria) e Allan Ballan (baixo, violoncelo), e apresentando também um quarteto de cordas, bem como diversos convidados, o Anacrusa surpreendeu os fãs com Encordado, no qual o o grupo homenageia o Brasil com "Nordestino", uma canção que, como o nome diz, remete ao nordeste brasileiro através da flauta, cordas e percussão.

No álbum, há uma recriação mais lenta para "El Sacrificio", e também, "Mamboreta", nada mais que uma versão moderna para "Galopa del Mamboreta", do primeiro álbum. As canções populares soam cansativas, e aqui encaixam-se "Rema Rema", "Rio Rio", "La Partida" e "Atardecer".  Por outro lado, o instrumental continua impecável, como atestam "Prision", "Galeron" e "Cautiva". "Candombe de Alain", "Cruz de Sal" e "Zamba de Invierno" são o trio de ouro de um álbum mediano, mas bem melhor que seu antecessor.

O único registro ao vivo do grupo

Uma pequena série de apresentações acabou fazendo com que mais um registro ocorresse, dessa vez do álbum En Vivo, registrado em novembro de 2005, no Teatro Presidente Alvear, em Buenos Aires,  e lançado no mesmo ano. 

Desde então, Castiñeira segue sua carreira como compositor, e aguarmos por uma reunião que parece, por enquanto, existir apenas nos sonhos dos fãs de uma das melhores bandas da América do Sul.

sábado, 7 de junho de 2014

ECM Records



Depois de ter apresentado aqui a Fábrica de Discos Rozenblit, hoje irei complementar aquele texto falando sobre uma das mais poderosas gravadoras de jazz do mundo, a alemã Edition of Contemporary Music Records, conhecida mundialmente como ECM Records.

Sua história é muito longa e repleta de curiosidades, que para complementar, indicarei alguns sites no final do texto, mas aqui, farei um resumo suficiente para o leitor ser apresentado ao selo (caso não conheça).

Fundada em 1969 na cidade de Munique, esta gravadora foi um dos grandes trunfos que o ser humano pode registrar nos anais como parte de sua história. Afinal, a ideia de Manfred Eicher, o principal nome por trás da ECM, era ampliar o mercado do jazz americano na Europa, e mostrar ao mundo a potência que o jazz da Europa também tinha.


Manfred Eicher, em 1969

Eicher era um baixista de jazz, apaixonado pelo estilo, e que garimpava álbuns importados nas diversas lojas da Alemanha e Europa. Porém, os mesmos não eram tão simples de serem encontrados, ainda mais o jazz europeu que Eicher ouvia nos locais por onde se apresentava.

Do próprio bolso, Eicher investiu 16 mil marcos alemães (algo em torno de 40 mil dólares na época) para montar o selo, sendo acusado por muitos como um amador, o qual ele mesmo adotou como insígnia, já que se considerava um amador (amante) do jazz. Depois de montar a companhia, passou a buscar os artistas que iria lançar, procurando sempre aqueles que ele gostava. 


Primeiro LP lançado pela ECM Records
Em suas próprias palavras: "Minhas escolhas nunca foram influenciadas pela evolução do mercado musical. Eu escolhia os artistas intuitivamente, principalmente por causa do que suas músicas causavam em mim, tocando-me e fazendo sentir que deveria estar em nosso catálogo da ECM. Se eu tinha dinheiro suficiente no banco, eu produzia a gravação".

O primeiro disco lançado pelo selo coube ao pianista americano Mal Waldron, o excepcional Free at Last (1969), com a marcação ECM 1001. Depois dele, vieram diversos artistas ingleses (Dave Holland e Derek Bailey), americanos (Paul Bley, Bayy Autschul, Barre Phillips, Marion Brown,Robin Kenyatta, Chick Corea alemães (Alfred Harth, Wolfgang Dauner) e europeus (Jan Garbarek - Noruega, Bobo Stenson - Suécia e Terje Rypdal - Noruega), até que em 1972, surge a primeira grande estrela da ECM Records, Keith Jarett.



Keith Jarrett (acima) e três de seus principais álbuns com a ECM
O pianista estava excursionando com Miles Davis pela Noruega, e conquistou a mente de Eicher, que ofereceu-lhe a oportunidade de registrá-lo com um trio, caso achasse necessário. Jarrett decidiu lançar-se sozinho, e assim, registrou uma série de improvisações no ótimo  Facin' You (1972), o primeiro álbum da ECM a ultrapassar a marca de meio milhão de cópias vendidas. 

Jarrett lançou mais onze álbuns pelo selo, dentre eles os clássicos  Hymns/Spheres (1976) e The Köln Concert (1975), esse o primeiro disco do selo a ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas (quase três milhões de cópias até hoje), enquanto teve alguns discos lançados por outro grande selo de Jazz, o americano Impulse! no mesmo período, e a partir de 1977, TODOS os álbuns de Jarrett saíram pela ECM, totalizando quarenta e cinco discos até o presente momento.


A estreia do Return to Forever, alavancando o nome da ECM na América

Ainda em 1972, outro álbum vendeu extremamente bem para a ECM, o inquestionável Return to Forever, lançado pelo grupo de mesmo nome. A fusão de estilos de Chick Corea (teclados), Joe Farrell (saxofone, flautas), Stanley Clarke (baixo), Flora Purim (vocais, percussão) e Airto Moreira (percussão, bateria) e alcançou a oitava posição entre os álbuns de jazz mais vendidos dos Estados Unidos, uma proeza para uma gravadora com apenas três anos. Não à toa, o Return to Forever é reconhecidíssimo como um dos pilares do jazz fusion, ao lado de Weather Report e The Eleventh House.

Foi graças ao sucesso do Return to Forever nos Estados Unidos que a ECM começou a ser reconhecida, e cada vez mais nomes americanos passaram a ser lançados pelo selo, que manteve o americano Jarrett sempre como principal força-motor.


Pat Metheny (acima)
e seu principal lançamento pelo selo (abaixo)

Depois de Jarrett consolidar-se como estrela no cast da ECM, e de ter lançado no mercado a carreira solo de nomes como Ralph Towner, John Abercrombie e Dave Liebman, eis que surge o segundo artista a reinar soberano no selo, mais uma jovem surpresa americana que Eicher conheceu em suas audições, o talentosíssimo Pat Metheny. Metheny assustou Eicher com seus fraseados e estilo único, e rapidamente, o alemão lançou o primeiro álbum com o guitarrista, o essencial Bright Size Life, na qual ele está acompanhado por nada mais nada menos que Jaco Pastorius (baixo) e Bob Moses (bateria). Foram apenas quatro álbuns junto ao selo, entre 1977 e 1981, mas o suficiente para que a ECM ganhasse uma sequência de milhões de dólares para The Köln Concert, já que o clássico disco de estreia solo de Metheny, New Chautauqua (1979) é até hoje um dos discos de jazz mais vendidos na história da música.

Outro fator genial de Eicher e sua companhia era a união de nomes do cast para a gravação de um álbum. Foi assim que surgiram diversos trios e duplas de jazz consagrados, como: John Surman / Jack DeJohnette; Paul Bley / Gary Peacock / Paul Motian; Keith Jarrett / Gary Peacock / Jack DeJohnette; John Abercrombie / Dan Wall / Adam Nussbaum; Charles Lloyd / Billy Higgins; Ralph Towner / Gary Peacock; entre outros nomes que acabaram não sendo reconhecidos mundialmente, mas de valores comparáveis com os gigantes citados, dos quais destaco Kimiko Hagiwara / Dohyung Kim / Junko Kuribayashi e Trygve Seim / Øyvind Brække / Per Oddvar Johansen.


Os brasileiros Egberto Gismonti e Nana Vasconcelos tiveram álbuns lançados pela ECM
Como vocês podem ver, os nomes que saíram pela ECM durante a década de 70 são extremamente valiosos, mas durante a segunda metade daquela década, Eicher decidiu aumentar o leque de gravações, não ficando apenas no Jazz. Assim, investiu em áreas bastantes distintas, buscando nomes que fugiam do eixo Estados Unidos - Europa. Foi assim que os brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram alguns de seus álbuns registrados pelo selo (Dança das Cabeças, de 1977, por Egberto, e Saudades, 1979, por Nana, além de Duas Vozes, unindo ambos os músicos em 1985), que tornou-se um precursor no lançamento do gênero hoje conhecido como World Music, trazendo ao mundo obras de países que não eram ainda ouvidos pelo ocidente, como Tunísia, Tchecosováquia, Finlândia e Índia.

A música clássica uniu-se aos lançamentos de música local, que receberam uma marcação nova no selo, batizados sob o título New Series. Todos os álbuns com a sigla ECM NS significavam álbuns voltados essencialmente para a música clássica e/ou lançamentos de música característica de um determinado local/país. O selo foi fundado em 1984, e seu primeiro lançamento foi o CD de Octet / Music for a Large Ensemble / Violin Phase, de Steve Reich, que havia sido lançado originalmente em 1980. Esse também foi o primeiro CD lançado pelo selo.

A NS ganhou força com o passar dos anos, e atualmente, é tão responsável pelos lançamentos do selo quanto o Jazz, sendo que por ela também saíram algumas trilhas sonoras de filmes e documentários europeus, principalmente em colaboração com o diretor francês Jean-Luc Goddard.

A ECM notabilizou-se também pela qualidade de suas gravações. Mixagens em Stereo, com instrumentos tendo caixas exclusivas (piano na esquerda, baixo e bateria na direita, por exemplo, em discos de trio) ou efeitos sonoros são algumas das "modernidades" que o selo trouxe ao mundo. Para Eicher, a qualidade de gravação era o essencial para poder captar aquilo que o conquistava. Assim, ele gravava os instrumentos obedecendo duas regras importantíssimas:

1) Imagem de estéreo completamente homogênea (o som deveria ser gravado com mesmo nível em ambos os canais, a não ser em casos especiais, quando fosse um pedido do autor);

2) Muitos níveis de profundidade do som durante a mixagem (eram feitas quantas mixagens fossem possíveis para se obter o som mais claro possível).


Alguns álbuns lançados pela New Series

Nas palavras de Eicher: "Eu coloquei em prática tudo que eu aprendi durante minhas sessões como produtor assistente em algumas sessões de gravação de música de câmara. Até então, eu tinha ouvido muitos discos de jazz, principalmente da Impulse! e da ESP. Eu achava a música muito interessante, mas eu não gostava da forma como ela era produzida, principalmente por que eu sentia um vazio na qualidade final, como se parte da mensagem tivesse desaparecido. Meu principal objetivo, quando fundei a ECM, foi respeitar cada aspecto da música, o que significa ser hábil a ouvir cada nuância do instrumento, cada colorido, e respeitar as dinâmicas do som, como dadas pelo músico. Era uma forma muito diferente de se gravar o jazz, e o público foi  muito sensível para isso".

Ainda hoje, milhares são os que creditam aos álbuns da ECM como os que possuem a melhor qualidade de gravação. As mixagens eram feitas com modernas técnicas de unidades eletrônicas, capazes de inserir no som reverberações (pequenas distorções e sobreposições de instrumentos) e os famosos decays (aquela diminuição do volume do som no final de cada faixa). 


Eicher sempre gostou de participar das produções dos álbuns da ECM.
Acima com Keith Jarrett, e abaixo, com Pat Metheny


Pode ser normal nos dias de hoje, mas no início da década de 70, isso era uma grande novidade. O mais interessante é que Eicher tentava capturar as gravações praticamente ao vivo no estúdio, na primeira tomada. Poucos foram os discos que levaram mais que dois dias para serem gravados, e a mixagem percorria um dia inteiro, agilizando no lançamento do material praticamente depois de ele ter sido construído.

Por fim, outro ponto marcante nos lançamentos da ECM era a combinação de música clássica e jazz. Frequentemente, Eicher resolvia que um artista seu iria gravar com uma orquestra, e o resultado não-raramente tornava-se uma obra-prima. 


Officium, marcante fusão do Jazz com a Música Clássica lançada pela ECM em 1994

Alguns bons exemplos são Officium (1994), de Jan Garbarek, gravado ao lado da The Hilliard Ensemble, um quarteto vocal que arrepia durante o álbum com cantos gregorianos sob os solos de saxofone de Jan, e A Wider Embrace, magnífica fusão do saxofone de Trevor Watts com as percussões africanas da Moiré Music Drum Orchestra, lançado também em 1994.

A ECM tem em seu catálogo são quase mil e quinhentos álbuns, registrados em quarenta e cinco anos de existência. Em uma média de 33 LPs por ano, ou 3 LPs por mês, mostrando toda a importância do selo para divulgar seus músicos.


Manfred Eicher, em 2009

Entre 2002 e 2004, foi lançada uma série de compilações de vinte dos principais artistas do selo. Jan Garbarek e Keith Jarrett foram agraciados com coletâneas duplas, e os demais, com CDs simples que resumem a obra do artista na ECM. Aos interessados, os artistas são: Keith Jarrett, Jan Garbarek, Chick Corea, Gary Burton, Bill Frisell, Art Ensemble of Chicago, Terje Rypdal, Bobo Stenson, Pat Metheny, Dave Holland, Egberto Gismonti, Jack DeJohnette, John Surman, John Abercrombie, Carla Bley, Paul Motian, Tomasz Stanko, Eberhard Weber, Arild Andersen, Jon Christensen.

A infinidade de fãs do selo pelo mundo garante ainda mais sua importância para a história da música. Para se ter uma pequena ideia, entre 23 de novembro de 2012 e 10 de fevereiro de 2013 foi realizada uma exposição no Museu Haus der Kunst, em Munique, somente com os álbuns de Jazz lançados pela ECM até meados dos anos 80. Durante a exposição, músicos como Enrico Rava, Evan Parker, Jan Garbarek, Meredith Monk, Anoham Brahem Quartet, entre outros apresentavam-se para a plateia, que levou mais de 10 mil pessoas por dia (aproximadamente) durante o período de exposição. Há ainda um belíssimo site dedicado à obra da gravadora, o qual é frequentemente atualizado por seu idealizador, o fã Tyran Grillo.


Pôster de exposição dedicada ao selo (acima)Anoham Brahem Quartet, na exposição em homenagem ao selo (abaixo)

O sucesso da ECM foi tão grande que nos Estados Unidos, o selo foi distribuído pela Warner Bros., BMG Records e Polygram. Desde 1999, a Universal Music (que comprou os direitos da Polygram) é a responsável pela distribuição dos álbuns do selo, que já conquistou cinco vezes a premiação de Melhor Selo do Ano (1980, 2008, 2010, 2012 e 2013), selo este que permanece intacto até hoje, com as três letras ECM (o C como sendo um vinil retirado da capa M sobre o encarte E) com um fundo alternando de cores entre um verde escuro, preto ou cinza, e que dia após dia, faz cada vez mais mentes ferverem com as preciosidades do jazz e da música clássica que a gravadora lançou, e que certamente lançará por muitos anos.

Eicher continua ativamente seus estudos e interesse pela música, atuando como produtor na maioria das gravações, e sempre buscando novos artistas, mantendo a chama de um Selo Lendário acesa e com força.


O famoso selo com o C em formato de vinil saindo da capa M sobre o encarte E



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