segunda-feira, 14 de maio de 2018

El Efecto (Santa Maria, 11 de maio de 2018)



"Duas coisas bem distintas, uma é o preço, outra é o valor". Nunca antes na história do Brasil a famosa frase do grupo El Efecto fez tanto sentido quanto no show realizado pelo grupo carioca na noite do último dia 11 de maio, na cidade de Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul. Divulgando seu mais recente álbum, Memórias Do Fogo, a turma do Rio de Janeiro desembarcou em terras gaúchas para três apresentações (Novo Hamburgo, Santa Maria e Porto Alegre). 

No coração do Rio Grande, o Rockers Soul Food foi o responsável por receber Tomás Rosati (voz, cavaquinho e percussão), Bruno Danton (voz, violão, trompete), Eduardo Baker (baixo), Cristine Ariel (guitarra, voz, cavaquinho), Tomás Tróia (guitarra, voz) e Gustavo Loureiro (bateria), acompanhados ainda de Aline Gonçalves (flauta, trompete). Um local acanhado, com capacidade para no máximo 400 pessoas, e que realmente, foi pequeno para abrigar a energia e a sede de tocar do hepteto, e também para comportar a legião de fãs que vem sido conquistados ao longo dos 16 anos de carreira da banda, e que em Santa Maria, lotaram o Rockers em uma noite inesquecível na cidade.



Antes, teve a abertura local do grupo Guantánamo Groove. Formado por Gustavo Garoto (guitarra/voz), Yuri ML (baixo/voz) e Vagner Uberti (bateria). Eles estavam acompanhados de um percussionista e um trombonista, que infelizmente não descobri o nome, mas que deram um baita gás para encorpar o som da banda. Fizeram uma bela sonzeira, honrando o groove que tem em seu nome, e levantando a galera. Confesso que senti-me transportado para o início dos anos 70, em algum pequeno bar de Nova Iorque, onde rolavam sons fantásticos de grupo como Chicago Transity Authority ou United States of America. 

Em uma hora de apresentação, somente com canções autorais, chamou-me a atenção a harmonia musical do conjunto, que já tem feito seu nome na região de Santa Maria e acabou de lançar seu primeiro álbum, Okupa (2016), e também para o grande guitarrista que é Gustavo, com solos ácidos e recheados de muito feeling. Dentre as 11 canções apresentadas pelo grupo, destaques especiais para "Contracorrente", "Saiba Ver O Sol", "A Do Leonel" e principalmente "Itaimbé" e "Satisfação Total", mas no geral, todas as faixas foram muito animadas. A ginga do trombone faz uma baita diferença, e somada com uma guitarra afiada e grandes arranjos vocais, casou perfeitamente para esquentar a plateia ao grande show da noite.



Eram duas da manhã quando o hepteto subiu no pequeno palco. A banda ficou um tanto quanto apertada, já que levaram todos os seus instrumentos para tocar. A presença da nova guitarrista da banda, Cris Ariel, levou Bruno (o guitarrista original) para ficar concentrado no violão, mas no fundo, podemos afirmar que a El Efecto agora está com três grandes guitarristas, pois o violão de Bruno possui distorções colocadas com precisão em várias faixas.

O show foi baseado no último álbum, e de cara, o show começou com a sensacional "O Drama da Humana Manada". O cavaquinho de Tomás ferveu e incendiou a galera, e a partir dali, todos os presentes sabiam que iam ser tomados por um show energético e muito virtuoso. Samba, rock pesado, chorinho, reggae, tango, enfim, o grupo sabe misturar os ritmos como ninguém, são todos exímios instrumentistas, Bruno e Tomás possuem interpretações vocais impressionantes, e as letras são para ficar na memória, tanto que tem sido usadas para estudo em diversas faculdades do Brasil à fora. 



"O Drama da Humana Manada" foi cantada a plenos pulmões pelo presente, o que me assustou positivamente, já que o álbum foi lançado a menos de dois meses, mas isso demonstra que a El Efecto está conquistando seu espaço cada vez mais. Na sequência, veio "Pedras e Sonhos", do grande disco homônimo de 2012, e que foi o responsável por finalmente fazer com que a El Efecto chegasse aos meus ouvidos. Um dos grandes sucessos da carreira do grupo, fez tremer o piso do Rockers, e foi facilmente cantada e ovacionada pelos fãs. 

Nesse momento da apresentação, foi legal ver a dinâmica do palco da El Efecto. A alteração dos instrumentos, e do posicionamento entre Bruno e Tomás, bem como a energia exalada pelos dois, é contagiante. Mesmo tendo feito uma longa viagem entre Novo Hamburgo e Santa Maria, e com o show entrando madrugada adentro, os dois estavam inteiraços. Veio mais uma do disco novo, a ótima "Café", na qual o violão e as vozes bem arranjadas foram as principais atrações, assim como a participação da plateia auxiliando nas vozes.



Com a plateia dominada, a El Efecto pôde variar seu repertório, voltando a Pedras e Sonhos para apresentar "N'aghadê", outra bela letra, criticando a televisão, e com um ritmo dançante que colocou os presentes a bailar. "O Monge e o Executivo", de Memórias do Fogo, foi um espetáculo a parte. Recheada de variações, essa foi um atestado da complexidade musical da obra da El Efecto, e de como fica difícil classificar o som que eles fazem. Só vendo para acreditar no som que os caras conseguem fazer, e tentar entender como os arranjos musicais são construídos e interpretados com tamanha precisão, é obra para doutores de música. Que música linda, e que obra sensacional. 

Veio mais três do disco novo, a intrincada "Trovoada", com sua letra forte, um maravilhoso trecho onde os metais se sobressaem, bem como as inspirações africanas na harmonia musical, a paulada "Incêndios", metaleira das boas para quebrar pescoços e fechar roda punk (algo que aconteceu fácil no Rockers), e "Carlos e Tereza", essa última com uma homenagem para a vereadora Marielle Franco, que emocionou a banda e os presentes, para então, entrarmos na reta final da alucinante apresentação do grupo.

Eram pouco mais de três da manhã quando Tomás perguntou se a plateia tinha fôlego para mais. Com uma gana imensa de assistir a El Efecto, e uma banda afiada e também sedenta para mostrar seu trabalho, a banda arrasou com uma versão pesada e distorcida de "Ciranda". A linda faixa de abertura do disco acústico A Cantiga É Uma Arma (2014) recebeu guitarras pesadas e muito peso, ficando ainda melhor que sua original. Que música absurdamente fantástica, que letra sensacional, sem explicação.

Uma longa e inspirada versão de outro clássico de Pedras e Sonhos, a estupenda "O Encontro de Lampião com Eike Batista", veio a seguir, e foi mais uma que fez tremer o Rockers, e cantada em uníssono até pelo guardador de carros (principalmente nos versos "Eike Eike resistir"). Mais uma aula de habilidade instrumental, criatividade, competência e muita, mas muita energia. Para fechar, outro clássico, "A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador", do primeiro disco da banda, Como Qualquer Outra Coisa (2004), mas na versão de Pedras E Sonhos, e os gaúchos, bem como a banda, deixaram a casa por volta das 4 da manhã, com a sensação de que se houvesse a oportunidade para mais tempo de show, estariam todos ali presentes, para pular e cantar junto desta que considero a melhor banda brasileira da atualidade.


Ainda houve antes (e também depois) da apresentação um tempo para trocar uma ideia com os caras da banda. Tomás e Bruno foram extremamente gentis e simpáticos, assim como o produtor Iuri Gouvêa, responsável pela banquinha de produtos e por ser um dos braços direitos do grupo. Por isso, a frase que abre esse texto, afinal, o preço do ingresso (R$ 15,00 reais antecipado, R$ 25,00 na hora) foi pouco pelo valor da conversa com esses gênios da música brasileira, e também o valor de ver e ouvir ao vivo e a cores um espetáculo de altíssima qualidade. 

Valeu ao El Efecto por ter propiciado uma noite inesquecível, e que em breve, retornem para o Rio Grande do Sul, para trazer ainda mais energia, garra, mas principalmente, talento, competência e qualidade musical. Em um país assolado por atrocidades como Pablo Vittar e cia., ouvir a El Efecto ao vivo é ter certeza que ainda há espaço para surgir boa música em terras brasilis. Há Braços gurizada, e voltem sempre por aqui.

Set list

1. O Drama da Humana Manada
2. Pedras E Sonhos
3. Café
4. N'aghadê
5. Mayombe
6. O Monge E O Executivo
7. Incêndios
8. Carlos E Tereza
9. Ciranda
10. O Encontro de Lampião Com Eike Batista
11. A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Glenn Hughes (Porto Alegre, 28 de abril de 2018)



Ver um show de um grande artista é sempre um momento marcante em sua vida. Ver esse mesmo artista pela segunda vez, apresentando somente clássicos exclusivos da banda onde se consagrou, diante um metro de seus olhos, é ainda mais inesquecível. E foi isso que me aconteceu no último dia 28 de abril, no Bar Opinião em Porto Alegre. Depois de dois anos, pude reencontrar novamente o baixista e vocalista inglês Glenn Hughes, e desta feita, com a turnê Glenn Hughes Performs Classics Deep Purple.

Assisti ao homem em 2015, em um belíssimo show no formato trio, onde além de Hughes, destacou-se o loiro guitarrista Doug Aldrich (Ex-Whitesnake, Dio, entre outros), que tocou muio naquela noite. Fechava o trio o batera Pontus Engborg, e ali, Hughes passeou pela sua carreira solo e pelos trabalhos com Trapeze, Deep Purple e Black Country Communion. Encerrei a resenha daquele ano na expectativa de que a promessa de Hughes retornar a Porto Alegre seria cumprida, e que mais discos eu iria assinar.

Me & Mr Hughes

Isso por que daquela feita, houve um excelente Meet & Greet com The Voice Of Rock, onde ele foi super atencioso, e autografou tudo o que levei. Dessa vez, a EV7 Live, através do produtor Eliel Vieira, fez novamente o meeting, e óbvio que me fui sem piedade, com mais uma leva de discos para assinar. Além de trovar com Hughes, o Meeting prometia a autobiografia recentemente lançada por ele, um pôster, credencial laminada e um tempo de bate-papo com Mr. Glenn, além de fotos.

Mas, nem tudo é perfeito. Se em 2016 apenas 4 aventureiros desembolsaram a grana para trocar uma ideia, pegar uns autógrafos e tirar muitas fotos, em 2018 foram 20 os participantes. Isso acabou diminuindo bastante o contato com Glenn, que não pôde conversar com os fãs como queria. De qualquer forma, nos poucos minutos que estive com ele novamente, ele foi muito atencioso e querido. Uma alma aberta, que te deixa embasbacado com sua gentileza e simpatia. Não autografou tudo que levei (autografou o livro, dois vinis e um CD), mas isso é o de menos. Poder trocar uma rápida fala com ele já valia a noite. Mas ainda tinha a parte sonora. Vale ressaltar que não recebemos o pôster prometido no anúncio do Meeting, mas o produtor Eliel acabou dando em troca um copo promocional da turnê brasileira, o que foi uma atitude no mínimo sensata do rapaz, para o qual deixo meus elogios por sua honestidade.

Glenn Hughes e o Rickenbacker vermelho, em ação

Falando em organização, me desculpa a produtora que trouxe Glenn para o país, mas a agenda ficou no mínimo confusa. Afinal, em 15 dias por terras brasilis, o artista percorreu uma verdadeira maratona, saindo de Brasília (17/05), passando por Belo Horizonte (19/05), São Paulo (21/05), Limeira (22/05), Curitiba (24/05), Manaus (26/05) até chegar em Porto Alegre. Da capital gaúcha, Glenn foi para o Rio, onde se apresentou dia 29/05, e encerrou a turnê em Vila Velha, no dia 01/05. Não seria melhor ter concentrado os shows na região sudeste e encerrado em Manaus, tendo começado justamente pelo sul, já que ele vinha de Buenos Aires? Uma logística bastante confusa, que acabou sendo percebida no palco, já que Hughes por algumas vezes demonstrou cansaço.

De qualquer forma, passado o encontro, era hora de ir para a frente do palco garantir o melhor lugar. Fiquei embaixo do microfone de Glenn, e dali, pude ver de pertinho quando ele subiu ao palco, acompanhado de Søren Andersen (guitarras), Jesper "Jay Boe" Hansen (teclados) e Fer Escobedo (bateria), empunhando o velho Fender dos anos 70, e estourar as caixas de som com uma pancada versão de "Stormbringer" (do álbum homônimo de 1974). O som das caixas Marshall era sensacional, e onde eu estava, de frente para elas, tomava conta do ambiente. 

Jay Boe

Em "Might Just Take Your Life" e "Sail Away", faixas mais calma do aclamado Burn (1974), pude ouvir os teclados e a guitarra, e percebi que o time que acompanhou Hughes tentou chegar o mais próximo das versões ao vivo da Mark III estabelecidas nos clássicos Made in Europe e California Jam. Até as fisionomias e trejeitos eram meio similares. Andersen permaneceu no seu canto, praticamente imóvel, como Blackmore no California Jam. Jay Boe colocava as pernas sobre os teclados lembrando Lord. As costeletas de Escobedo traziam memórias da contra-capa de Made in Europe. Enfim, tudo certinho para termos certeza que o tributo era ao Deep Purple.

Hughes continua com seu vozeirão praticamente intacto, apesar de já não se aventurar com frequência em tons mais altos. Porém, seus falsetes e agudos estão impecáveis. E no baixo, o cara é um monstro. Acredito que atualmente é o melhor baixista vivo de sua geração, e por que não, de todas as gerações. Como é bonito e agradável de ver ele palheteando as cordas sem piedade, fazendo solos como se o instrumento fosse uma guitarra, e sempre com um sorriso no rosto.

Andersen durante seu solo em "You Fool No One"

O show seguiu com Andersen indo para a frente do palco, e depois de um breve e virtuoso solo, puxar o riff de "Mistreated" (Burn). Hughes e sua banda fizeram brotar lágrimas de vários ao meu lado, com uma interpretação raiz, regada de muito feeling e esbanjado emoção. Lindo! Para encerrar a primeira parte do track list, envolvendo as faixas de Burn, Hughes convidou à todos para fazer uma viagem no tempo, e ir ao California Jam de 1974. Então, Jay Boe ficou sozinho no palco, e realmente, levou à todos para os Estados Unidos, já que arrancou os mesmos uivos e barulhos de seu Hammond, aqueles que Lord fez na apresentação daquele evento, durante a clássica "You Fool No One", e também resgatou a clássica hebraica "Hava Nagila", que o mesmo Lord emulou na versão de Made in Europe. De chorar (parte 1)!

Ficou a expectativa da entrada do cowbell de Fer, e quando o mesmo surgiu, a todo o pique, trazendo o riffzão de baixo e guitarra explodindo as caixas de som, o coração pulou de alegria. As viradas, a letra vigorosa, a pegada do riff, tudo sensacional, botando o Opinião a baixo. O solo de Andersen começou com a pegada veloz em uma única nota que Blackmore criou para a canção, e depois seguiu com as palhetadas arrastadas nas cordas que encaminharam para o blues delicioso e chapante que o Deep Purple apresentou ao vivo nos anos 70. Lindo, arrepiante e de chorar (parte 2).

O menino Escobedo, detonando na bateria

Segue "You Fool No One", e quem duvidou que o menino Escobar pudesse fazer um solo de bateria próximo ao que Ian Paice fazia nos shows da turnê de Burn, deve ter segurado o queixo. O guri destruiu. Com uma força nos braços, uma habilidade no bumbo e muita técnica, Fer reproduziu diversos trechos do solo de Paice no Made in Europe, e ainda fez muito mais. Tanto que quando terminou seu solo, foi aplaudido e reverenciado pelo próprio Hughes. De chorar (parte 3).

Encerrada a mais de meia hora de apresentação só com "You Fool No One", Hughes acalmou os ânimos (mas não às lágrimas) dos presentes. Em uma linda homenagem, disse que a próxima música tinha sido composta em parceria com Jon Lord, para quem ele dedicava a mesma. Antes de começar a cantar, ainda disse: "Acho que vou chorar!", e então, Jay Boe puxou o riff de "This Time Around". De arrepiar. Hughes puxou emoção do fundo da alma, e naqueles minutos, até o copo promocional da turnê cedeu-se à uma lágrima.

Hughes, alegre com a apresentação de Porto Alegre
Tomando o fôlego, era hora de sacudir o esqueleto, e continuando na pegada de Come Taste The Band, veio "Gettin' Tigher", agora em homenagem à Tommy Bolin. Nessa, Hughes aproveitou para mostrar ainda mais seus dotes como baixista. O cara é um monstro, e fim de papo! Uma empolgante e surpreendente "Smoke On The Water", nas linhas do California Jam, conduziu-nos para o final da apresentação, com uma embasbacante versão para "You Keep on Moving". Cara, essa faixa me colocou de pernas pro ar. Uma das melhores canções do Purple MK IV, se não a melhor, ali, com O cara cantando ela. Muita emoção, e a certeza de que ter ido no show naquela noite tinha sido uma escolha certa.

Após alguns minutos de mais um, Hughes voltou, dessa vez não empunhando o baixo, que ficou a cargo de um roadie, mas sim apenas segurando o microfone para surpreender novamente, cantando "Highway Star". Essa eu não esperava no repertório, confesso, e honestamente, teria tirado ela para colocar uma "You Can't Do It Right (With The Only You Love)", "Holy Man" ou até a versão completa de "This Time Around" com "Owed To G". Mas paciência, o artista tem o direito a escolher o que vai tocar, e como o encerramento foi com chave de ouro, não tenho do que reclamar.

Essa chave de ouro contou com a presença do lindo Rickenbacker vermelho que Hughes usou na turnê de Burn. Cara, vá se catar. O som daquele velhote é apavorante. Diante das caixas de som do baixo, quando Hughes apenas ligou ele já dava para sentir que a casa ia estremecer. Foi só ele puxar o riff de "Burn" e pronto, não havia como ficar isolado da potência sonora que exalava do palco. Meus olhos tremiam no ritmo do baixo de Hughes, e aquela pesada versão de "Burn" só atestou que é muito raro achar, hoje em dia, um grupo tão forte individualmente e coletivamente como foram as MKs III e IV, assim como a maioria das bandas dos anos 60 e 70.

Fim de espetáculo

O show encerrou com a promessa de mais um retorno, declarações de amor e aquele sentimento de "bebedeira" após pouco mais de duas horas de apresentação, a qual irá ser lembrada pelos presentes não só por sua importância histórica, mas também por terem visto ao vivo e a cores como se faz rock 'n' roll de verdade.

Track list

1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Sail Away
4. Mistreated
5. You Fool No One
6. This Time Around
7. Gettin' Tigher
8. Smoke On The Water
9. You Keep On Moving

Bis

10. Highway Star
11. Burn



sexta-feira, 27 de abril de 2018

JOGO DIDÁTICO: SUPER TRUNFO DE ASTRONOMIA



Apresentamos aqui o jogo Super Trunfo de Astronomia, bem como suas regras.
  
O jogo de cartas é baseado no tradicional jogo de cartas Super Trunfo, que fez sucesso nos anos 70 e 80, e ainda hoje, encanta e diverte crianças e adultos ao redor o mundo. O jogo original objetiva a análise das informações contidas nas cartas, e aquele jogador que tiver a carta com maior valor na informação escolhida, ganha a carta. No final, o jogador que obtiver mais cartas é o ganhador do jogo. O jogo é dividido em seis grupos de cartas, em que cada grupo possui oito cartas, formando assim um jogo com 48 cartas. Ele propicia com que os jogadores, além de se divertirem com o jogo, também aprendam algumas informações básicas dos temas escolhidos de Astronomia. Os conjuntos representam planetas do sistema solar, estrelas, cometas, luas, crateras de impacto, asteroides e meteoritos. As cartas ficam viradas para baixo, onde é possível identificar cada grupo de cartas pela letra que possui no seu verso (ver imagens ao longo do texto). Pode ser jogado por duplas ou quartetos. Em ambos os participantes irão escolher as suas cartas, que devem ser divididas de forma igual. O jogo possui um dado, o qual é jogado para o jogador saber qual grupo será utilizado para fazer a análise das cartas. Ganha o jogo aquele que obtiver o maior número de cartas.

As escolhas dos autores para confecção das cartas foram baseadas principalmente em nomes conhecidos e/ou corpo celeste com valor de relevância para o jogo. Começando pelo grupo de cartas das estrelas, ele é simbolizado pela letra E. Possui como informações raio (em metros), massa (em quilogramas), luminosidade (em ergs/s) e temperatura (em K). Foram utilizadas as seguintes estrelas: Sol, Alpha Mensae, Cygni A, Estrela de Van Biesbroeck, Orions C, Orions ⱷ, e Gamma Berenice. O grupo dos planetas é simbolizado no verso pela letra P. Ele utiliza como informações o diâmetro (em quilômetros), massa (em quilogramas), período de rotação (em horas) e temperatura de cada planeta (em °C) do Sistema Solar. Foram utilizados os oito planetas existentes no nosso Sistema Solar. O grupo de cartas dos cometas é identificado pela letra C. Ele possui as informações período (em anos), periélio (em unidades astronômicas) e magnitude, considerada a magnitude aproximada do último retorno do cometa à uma Unidade Astronômica (UA) da Terra e do Sol. Os cometas escolhidos foram Encke, Clarck, Kopff, Biela, Oterma-Stephan, Gale, Halley e HaleBopp.

O grupo Luas é identificado pela letra L em seu verso. Ele traz as informações diâmetro (em quilômetros), massa (em quilogramas), período de rotação (em dias) e densidade (em g/cm³). As luas escolhidas foram a Lua (Terra), Deimos e Fobos (Marte), Ganímedes e Europa (Júpiter), Titã (Saturno), Oberon (Urano) e Tritão (Netuno). O quinto grupo de cartas é os das Crateras de impacto, identificada pela letra I, que traz as informações dimensão (em quilômetros), idade (em Mega-anos) e localização. As crateras de impacto utilizadas no jogo foram, Vista Alegre, Chicxulub, Vredefort, Popigai, SudburyBasin, Manicouagan, Jarau e Domo do Araguainha. O sexto e último grupo de cartas é o de Asteroides e Meteoritos, identificadas com a letra A, que possuem informações diâmetro (quilômetros), ano de descoberta e massa (em quilogramas). Foram selecionados os Asteroides Ceres, Vesta, Herculina e Hebe, o os Meteoritos, Willamette, Bacubirito, Hoba e Santa Catharina. 

Este jogo foi desenvolvido como parte de um trabalho de conclusão de curso da Licenciatura em Física do Instituto Federal Farroupilha - Campus São Borja. Os autores responsáveis pelo desenvolvimento deste são a Aluna Cátia Andressa Fortes Buzanello, e os orientadores Mairon Melo Machado e Priscyla Christine Hammerl.

Para baixar as cartas para impressão e colocar o jogo em prática com a sua turma é só clicar no link! Bom jogo!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Entrevista Exclusiva: Biff Byford (Saxon)



O grupo inglês Saxon, um dos mais importante nomes do cenário da New Wave of British Heavy Metal, estará se apresentando no próximo dia 03 de maio, em show exclusivo e único na cidade de São Paulo, promovendo seu mais recente álbum, Thunderbolt. Tive a honra de conversar com o vocalista Biff Byford, que no meio de uma agenda completamente lotada, dedicou um pouco de seu tempo para responder algumas questões sobre o novo álbum e a atual turnê. Confira abaixo o bate-papo, nas versões em português e inglês.

Versão em português

O Saxon está de volta ao Brasil para uma única apresentação em São Paulo. Quais as lembranças que você tem da última passagem da banda por aqui (2013), e o que os fãs podem esperar para este novo show?
Adoramos tocar no Brasil. Temos muitas lembranças de ótimos shows no passado. Maravilhosas pessoas loucas.

Com uma carreira longa, com muitos clássicos, como escolher o set list noite após noite?
Tentamos colocar tantos clássicos quanto possíveis, mas também nos concentramos em Thunderbolt. Teremos 7 novas canções em nossas apresentações como headliner.

Antes do show no Brasil, o Saxon irá fazer uma turnê europeia com Judas Priest e Black Star Riders. Como irão ser estes shows?
Somos convidados do Judas Priest nessa turnê, e em dias alternativos, estaremos tocando como atração principal.
A bela versão DELUXE de Thunderbolt

Vocês estarão em uma turnê Latino-americana, que irá passar por Brasil e México. Quais as principais semelhanças e diferenças entre o público mexicano e brasileiro?
Ambos são muito apaixonados pela música do Saxon. 

No México, o Saxon irá participar em um festival, ao lado de Deep Purple, Ozzy Osbourne, Marilyn Manson, e outros grandes nomes do rock ‘n’ roll. Aqui no Brasill, já temos o anúncio de uma noite do Rock in Rio dedicada para o Heavy Metal. Vocês gostariam de participar desse evento?
Iríamos amar tocar no Rock in Rio. Nunca estivemos lá!

Falando sobre o novo álbum, Thunderbolt, que chegou às lojas em fevereiro, três anos após Battering Ram. Como foi a gravação e quais as principais inspirações para criar o novo material?
O novo álbum entrou nas paradas ao redor do mundo, então, Thunderbolt tornou-se um álbum muito especial para nós, já que as pessoas gostaram muito dele.

Biff e Lemmy, amigos desde 1979

“They Played Rock n Roll”, uma das novas canções, é uma homenagem para Lemmy Kilminster. Para os fãs, a morte de Lemmy foi uma grande perda. Além de fãs, vocês eram amigos dele. Para uma banda tão importante como o Saxon , esta homenagem representa o que, além de gratidão e amizade?
Conheço o Motörhead desde 1979. Eles ajudaram o Saxon muito, quando da nossa primeira apresentação em público. Esta canção é sobre eles e sua música.

Conte-nos sobre as principais lembranças da estrada com o Motörhead, durante a Bomber Tour?
Foi nossa primeira turnê. Eles nos ensinaram tudo o que e como fazer.

Outra canção do novo álbum, a faixa-título, recebeu um clipe com imagens do Saxon ao vivo. Conte-nos sobre a ideia deste vídeo. Ainda, algo muito especial neste vídeo é que existem poucos celulares na audiência, que está lá para curtir a música e a banda. O que você pensa sobre muitos fãs permanecerem gravando ou tirar fotos durante o show, bem como os fãs irem até os hotéis em busca de um autógrafo ou foto com a banda?
Este vídeo é uma compilação de filmagens do Wacken, e da última turnê que o Motörhead fez na Europa. Nós achamos que é legal como nos dias de hoje cada celular se torna uma câmera. Sem problemas com isso.

Vocês também lançarão outro vídeo para esse álbum?
Já temos três vídeos no youtube "PlanetSaxon", e irão existir mais..

, Paul Quinn, Biff Byford e Nigel Glockler
A atual formação do Saxon: Tim “Nibbs” Carter, Paul Quinn, Biff Byford, Doug Scarratt e Nigel Glockler

A atual formação do Saxon é uma das mais estáveis no rock atual. O que você acredita ser a principal causa desse estabilidade na banda?
Somos amigos, e a química entre nós é ótima.

Por favor, envie uma mensagem para os fãs brasileiros. Obrigado por seu tempo e nos vemos em maio.
Obrigado à todos que compraram o novo álbum. Nos veremos em breve. Mantenha a fé.

English version

The English band Saxon, one of the most important names in the New Wave of British Heavy Metal scene, will be performing on May 03, in an exclusive and unique show in São Paulo, promoting their latest album, Thunderbolt. I had the honor of talking to singer Biff Byford, who, in the middle of a busy schedule, took some time to answer some questions about the new album and the current tour. Check out the chat in English (above, in Portugues) versions.

Saxon is back to Brazil for an only presentation in São Paulo. What are the main memories of the last passage for here (2013), and what the fans can expect for this new show?
We love to play in Brazil we have many memories of great shows there in the past crazy wonderful people

With a long career, with many classical songs, how is to choose the set list night by night?
We try to put in as many classic songs as possible but it’s all about thunderbolt so we have 7 new songs in our headline shows.

Before the Brazil show, Saxon will be in a European Tour with Judas Priest and Black Star Riders. How will be these shows? 
We are very special guests on the Judas Priest but we are playing headline shows on day offs

You will be in a Latin American tour, with a leg passing to Brazil and Mexico. What are the main similarities and differences between Mexican and Brazilian audiences?
Both are very passionate about Saxon music

In Mexico, you will participate in a festival, together with Deep Purple, Ozzy Osbourne, Marilyn Manson, and other great rock ‘n’ roll names. Here in Brazil, we have an announcement of one night of Rock in Rio Festival dedicated to Heavy Metal. Would you like to participate in Rock in Rio?
We would love to play on rock in Rio we have never played there.

Talking about the new album, Thunderbolt, which coming at stores in February, three years after Battering Ram. How was the recording and what was the main inspirations to create new material. 
The new album has been in the charts around the world so thunderbolt has become a special album the people love it.


“They Played Rock n Roll”, one of the new songs, is a Lemmy Kilminster tribute. To fans, the Lemmy’s dead was a huge loss. Besides fans, you were Lemmy’s friends. To a band so important like Saxon, this tribute represents what, beyond gratitude and friendship.
I knew Motorhead since 1979 they helped Saxon a lot when we first appeared on the scene and this song is about them and their music.

Tell us the main memories on the road, with Motörhead, in Bomber Tour?
It was our first tour. They taught us how to do it .

Another song of the new album, the title track, has received a clip with images of Saxon caught in the act. Tell us about the idea of this video. And something very special in this video is that are so few mobiles and cell phones in the audience. It is in order to like the songs and the band. What do you think about many fans stay recording or taking pictures during the show, as well as the fans that goes to hotel looking for an autograph or picture with the band?
It’s a compilation of shots from Wacken and the last tour Motörhead did in Europe. We think it’s great that’s how it is these days every phone is a movie camera. No problems


Would you released another video clip from the album?
There are 3 videos on youtube planet Saxon, and there will be more.

The current Saxon line-up is the most lasting in the rock of these days. What do you believe which maintains this stability in the band?
We are friends and the chemistry is great.

Please, send a message to your brazilian fans, thank you for your time and see you in May.
Thanks all who bought the new album we’ll see you soon
Keep the faith
Bx

sábado, 14 de abril de 2018

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Gift Box Anniversary Edition) [2017]



 No dia 01 de junho de 2017, o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, oitavo na carreira do mais famoso grupo de Liverpool, The Beatles, completou 50 anos de estrada. Para muitos, é o melhor álbum de todos os tempos. Para outros tantos, um disco que mudou a história da música. Dele, faixas como "With a Little Help from My Friends", "Lucy in the Sky with Diamonds" e "A Day in the Life" entraram para os anais das grandes composições da história, e estabeleceu os Fab Four como uma das maiores bandas de sua geração. Além disso, sua icônica capa causou um rebuliço na indústria das artes de discos. Com certeza, a partir de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, com sua capa gatefold e as letras indexadas na contra-capa, os demais artistas começaram a prestar atenção nos agrados aos ouvintes não só para ouvidos, mas também para os olhos.


Obviamente que um álbum de tamanha importância não podia deixar de ter um relançamento especial em seu aniversário de cinquenta anos, e assim o foi. No mundo inteiro, pipocaram edições limitadas, remasterizadas e o diabo a quatro em relação a ele. Curiosamente, no Brasil, país que costumeiramente não é muito adepto a versões especiais com tiragens exclusivas, a união das editoras Sonora Editora, Band up e Universal gerou talvez o mais legal dos lançamentos feitos para comemorar o aniversário de Sgt. Pepper's ...

Trata-se da versão Gift Box Anniversary Edition. Lançada no formato do lendário bumbo da "Banda dos corações solitários", e aprovado pela Apple Corps, empresa responsável pelos lançamentos dos Beatles ao redor do mundo, a Gift Box já vale a aquisição somente por seu formato. Mas o que há no seu interior é um belo adendo para uma caixa luxuosa.


Para começar, uma versão remixada e remasterizada de Sgt. Pepper's, vinda em um CD. O processo de trabalho de remixagem e remasterização ficou a cargo de Giles Martin, e com essa nova sonoridade, podemos ouvir em mais detalhes o trabalho árduo que John, Paul, George e Ringo, acompanhados do produtor George Martin, tiveram para criar a obra. O CD vem embalado em uma linda versão Mini-LP, gatefold conforme o vinil, e trazendo um belo encarte de 32 páginas. Ele já começa com uma rara imagem de capa alternativa para o disco, com os quatro beatles em ordem inversa (Ringo, George, Paul e John, da esquerda para a direita, e não John, Ringo, Paul e George, como o original).

Ao longo do encarte, textos - todos em inglês - de Paul McCartney, George Martin, Giles Martin e um breve resumo do processo de construção do disco, bem como detalhes da criação da capa. Inclusive, duas páginas são dedicadas a apresentar todos os artistas e objetos que estão na capa de Sgt. Pepper's (87 no total). Imagens raras dos fab four e as letras do disco encerram o encarte. O famoso Picture Card também está presente, no seu formato mini-encarte. Duvido que alguém irá um dia cortar ele.


Uma camisa oficial exclusiva - em tamanho único - e um pôster especial, no formato 52,5 x 26 cm, com impressão em alta definição, também se fazem presentes. Complementando a caixa, o livro Paz, Amor e Sgt. Pepper, Os Bastidores do Disco Mais Importante dos Beatles. Ele conta as mais detalhadas memórias do produtor e quinto Beatle George Martin sobre os bastidores da produção do disco. No livro, temos transcrições e depoimentos exclusivos de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, além de material de arquivo de John Lennon.

O livro de 194 páginas foi lançado originalmente em 1995, e é um achado para quem quer conhecer as intempéries, bonanças e detalhes da construção de Sgt. Pepper's. A partir das memórias de George Martin, temos 20 capítulos, cada um nomeado com uma frase de uma canção do conjunto, e com narrando desde quando conheceu os quatro garotos de Liverpool, e decidiu produzi-los, as origens da gravação de "Strawberry Fields Forever", em 24 de novembro de 1966, e que conduziram às maravilhosas criações de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. O legal é que a versão brasileira traz um Prefácio especial para nosso país.


Os capítulos possuem também as datas de registros das canções do disco, bem como informações de que instrumento ficou em qual canal, detalhes interessantes de cortes, mixagens e transposições de fitas, e muito trabalho árduo madrugadas adentro. Detalhes da construção da famosa capa do disco também estão presentes, pelo olhar do produtor, claro. Aliás, é aqui que George Martin lançou a famosa resposta aos meninos quando perguntado sobre Pet Sounds, no caso, se conseguiriam fazer um disco tão bom quanto aquele. A resposta: "Podemos fazer melhor". Aqui também fica a afirmação do produtor de Sgt. Pepper's não é considerado por ele como o melhor trabalho dos ingleses (Abbey Road é o responsável por tal posição), mas que a importância do disco vai muito além das canções que nele estão registradas.


Enfim, Gift Box Anniversary Edition é uma obra de luxo para se destacar em sua prateleira. Músicas ótimas, textos ótimos e informações adicionadas em um bumbo legitimamente brasileiro, que em breve, irá virar raridade no mercado mundial.

sábado, 31 de março de 2018

Consultoria Recomenda: rock alternativo dos anos 1990





Editado por Fernando Bueno
Tema escolhido por Diego Camargo
Com Alisson Caetano, Davi Pascale, Diego Bizotto, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ulisses Macedo

Ah o rock alternativo dos anos 90! Tão característico e ao mesmo tempo tão díspar que consegue abranger no mesmo balaio Faith No More e Alice In Chains, Oasis e Red Hot Chili Peppers.

Eu desde sempre acompanho o tal do rock Alternativo já que era criança no meio dos anos 90 e foi nesse período que comecei a ouvir música, logo as bandas dessa época e o som daquela década me cativam ainda hoje. Tanto que uma das minhas coisas favoritas é ainda encontrar uma daquelas bandas que eu ainda não conhecia e que acabam por virar minhas favoritas (alguém aí falou de You Am I?).

No entanto, na lista abaixo o time da Consultoria do Rock focou realmente no ALT da palavra 'alternativo' e escolheu discos que passaram debaixo do radar popular e que, provavelmente você não ouviu. Na verdade, se tudo correr como o planejado, na maioria dos casos o leitor não vai ter nem ouvido falar nas bandas aqui presentes.

Mas com certeza você leitor vai lembrar de milhares de outras bandas que poderiam estar nessa lista, então seja bem vindo aos comentários e ajude todos os outros a descobrir suas mais nova velha favorita banda!

Sterling – Monterlingo (1997)
Recomendado Por Diego Camargo
O Sterling pra mim é um daqueles casos que todos os meus amigos mais próximos já estão cansados de ouvir a história. Quando me mudei pra região central de São Paulo em meados de 2002 ia regularmente ao 'Centrão' da cidade (especialmente aos sábados) para me perder nos sebos atrás de vinis que custavam 1 real cada e para me perder no que eu carinhosamente chamava de 'loja de forró'. As 'lojinhas de forró' eram lojas bem pequenas no Centro que eram abarrotadas de CDs do chão ao teto e que SEMPRE tinham como trilha sonora algum forró saindo dos falantes da loja. Isso assustava a maioria dos 'roqueiros de plantão' que nunca nem entravam nessas lojas e se dirigiam direto à Galeria do Rock, eu, em contrapartida, entrava nessas lojas e saia cheio de CDs. Uma loja em particular na rua Dom José de Barros era a minha favorita, sai de lá com muitos discos que eram raridades como o Lateralus do Tool edição europeia por 10 reais, o G-Force do Gary Moore por 5 reais entre muitas muitas outras pechinchas, incluindo o Monsterlingo, do Sterling. Comprei parte pela capa, parte pela curiosidade, paguei 5 reais no CD e ao chegar em casa e colocar o disquinho no play foi paixão de cara! Por anos foi impossível achar qualquer informação sobre a banda já que Sterling é um sobrenome pra lá de comum na Ilha Britânica, foram anos até conseguir saber mais sobre a banda e mesmo assim as informações não são grande coisa. A banda gravou apenas 4 singles, 1 EP e um disco completo entre 1996 e 1997 e sumiu. O grupo deixou um impacto tão grande em mim que hoje em dia tenho tudo que a banda lançou, incluindo um single só lançado em vinil 7 polegadas em que as duas músicas estão incluídas no EP, que eu também tenho... vai entender. Pra mim fica complicado falar do som da banda já que eles estão tão próximos e já que eu ouvi o disco tantas vezes que é algo que se tornou como um 'melhor amigo', posso esquecer do disco por um tempo, mas sempre que quero relembrar de algum momento da vida ou sempre que quero apenas cantar um disco do começo ao fim, é Monsterlingo que vai pro play. Bem vindo você também se quiser um novo amigo, nunca é tarde!
Fernando: Me senti em uma prova de gincana tentando encontrar esse disco para ouvir. Nos lugares que eu costumo usar e encontrar tudo o que procuro não tinha. Daí lembrei que o link do álbum no Bandcamp foi enviado junto quando montamos essa lista. Acho que é banda com apelo mais pop das que entraram aqui. No geral é interessante, os músicos me parecem competentes, mas não me comoveu.
Ulisses: Tocam bem, mas fora isso a maioria das composições são completamente descartáveis. Geralmente algum elemento se sobressai, como a linha de baixo ("Dream Queen") ou o vocal, mas não o suficiente para tornar a audição algo realmente prazeroso... O som é tipicamente noventista, mas com tantas boas bandas no período eu não sei por quê alguém ouviria esta aqui.
Davi: Esse foi um dos grandes destaques da lista, na minha opinião. Os caras conseguem mesclar direitinho a bateria e as passagens de guitarras distorcidas típicas do rock alternativo com linhas vocais pops repletos de refrãos radiofônicos. O trabalho é bem consistente e deve agradar em cheio aos fãs de grupos do chamado post grunge como Seether, Puddle of Mudd e afins. Faixas de destaque: “Is This The Time”, “Intravenous”, “Headless” e “The Good Sun”.
Alisson: Tem coisas que são segundo, terceiro escalão por motivos justos. Tirando o detalhe interessante de Justin Chancellor (baixista do Tool) ter feito parte da banda em algum momento da vida, mais nada chama atenção para qualquer aspecto aqui. O som é anos 90 em todos os sentidos, pegando tudo que deu certo na época e misturando, e jogue aí influências de Oasis dos dois primeiros discos, Weezer, um pouco de grunge, e pronto. "Qualquer coisa" é um adjetivo bem pertinente.
Diogo: O Sterling tem uma coisa em comum com minha indicação, que é um foco maior nas melodias do que nos riffs ou em algum outro elemento. Esse fato acaba tornando a audição relativamente palatável. Cabe o rótulo “alternativo”, mas sem aquele ranço indie que muitas vezes me incomoda. Claro, a repetição no fim de “Shiver” é desnecessária, mas não dá pra cobrar perfeição de algo que está muito longe de ser perfeito. Apesar de algumas características positivas, trata-se de um disco apenas razoável, que apresenta seu melhor no início do tracklist (especialmente “Intravenous” e “Out of the Sunlight”) e depois dá uma caída de nível. Da segunda metade, gostei de “Dream Queen”, que me lembrou o Velvet Revolver. Bota uma Gibson Les Paul na mão do guitarrista no lugar da provável Fender Jaguar (será?) enquanto a banda a toca que eles até passam por hard rockers.
Mairon: Isso é rock alternativo da mais pura origem alternativa que poderia esperar por aqui. Há um pé no grunge, seja pelo baixo distorcido ou pelas guitarras envenenadas, e por vezes uma lembrança ao Nirvana, e consequentemente ao Pixies (pedras, podem jogar) no vocal, mas o grupo não é uma cópia/filhote de Seattle. Gostei do lado soturno de "Addlestone Rock", o baixão da intro de "Crawl Mary", o embalo de "Three Hand Man" . Não curti "Headless" e "Out Of The Sunlight", mas elas são bem genéricas com relação a outras bandas de sucesso do Rock Alternativo. Pelo que pesquisei, é o único disco dos americanos. Uma lástima, pois tinham calibre para fazer mais. Não conhecia a banda e achei-a interessante.

Morphine – Cure for Pain (1993)
Recomendado por Fernando Bueno
Essa edição foi a mais difícil para mim. Como não podíamos citar banda mais "famosas" as minhas opções se reduziram drasticamente e foram a quase zero. Sorte que lembrei desse disco aqui. O Morphine chegou para mim pelo fato de ser uma formação inusitada e confesso que nas primeiras eu ouvi com um pouco de desdém. Ainda bem que eu insisti, porque o som do trio é muito bom. Difícil desvincular o som de um bar vazio e com pouca luz ao ouvir o som da bateria, sax e baixo com a voz calibrada de whyskie de Mark Sandman. Podia ter indicado tanto o disco anterior quanto o posterior, mas é Cure for Pain que os fãs mais celebram, assim a tendência que seja mais bem recebido pelos amigos consultores. Sua música cheia de sentimento, seja de tristeza, saudade, dor ou qualquer outra coisa que normalmente te deixaria para baixo acaba sendo um prazer de ouvir. Sei que de todos os discos da lista esse pode ser o mais conhecido e também o mais diferente.
Diego: Fazia muito tempo que eu não ouvia Morphine e como foi bom retornar ao som da banda! Lá pelos idos de 2000, quando do lançamento do disco The Night, foi quando eu ouvi falar do Morphine pela primeira vez, graças à extinta rebista Bizz. No entanto, ainda nessa época, não era tão fácil digitar o nome da banda no Google e ouvir o disco, como todos sabemos, então corta para 2008 quanto eu ouvi a discografia toda da banda sem parar e adorei. Cure For Pain sempre foi o meu disco favorito da banda mas nunca rodou tanto no meu player, não pela falta de interesse ou qualidade, mas porque Morphine não é para todos os momentos. A música da banda é melancólica e cheia de dor e por mais que essa melancolia e dor sejam de alta qualidade, você não ouve um disco assim a todo momento. De qualquer forma foi bom ter relembrado deles, pois não pretendo esquecer do grupo por tanto tempo a partir de agora. Cure For Pain traz aos nossos ouvidos o som único da banda com bateria, saxophone e baixo de duas cordas (isso mesmo que você leu). Tudo regado com o vocal carismático de Mark Sandman. Um deleito aos ouvidos que deve ser apreciado com calma e com o coração aberto!
Ulisses: O Morphine faz parte do seleto grupo de bandas que desafia a norma de fazer rock com guitarra. Ao invés, o power trio aposta numa combinação de saxofone e baixo de duas cordas, unidos ao groove do baterista Jerome Deupree e à própria voz grave e melancólica de Mark Sandman. O resultado é um disco que, embora marcado pela atmosfera alternativa dos anos noventa, preserva o jeitão cool de seu jazz-rock com sabor de blues, e entrega vários hits no decorrer do tracklist, entre os quais a famosa faixa "Buena".
Davi: Esse segundo álbum do Morphine foi lançado em 1993, justamente quando o grunge vivia seu auge. Aqui no Brasil tivemos a histórica edição do Hollywood Rock que contou com alguns dos grandes nomes do gênero (L7, Alice In Chains e Nirvana). Enquanto as bandas buscavam fazer um som mais pesado, com vocais raivosos, buscando inspiração no punk , no noise e no heavy metal, a galera do Morphine apresentava o oposto. Canções repletas de sax jazzísticos, violões blueseiros e vocal quase tão calmo quanto ao do Jack Johnson. Cure For Pain é um trabalho bem desenvolvido, bem interpretado, mas não faz muito meu gosto pessoal. Para quem quiser uma dica do que aprontavam, recomendo ouvir seu ‘quase little hit’, “Thursday”.
Alisson: Gosto do Morphine mais pela ideia e proposta do que por gostar realmente do som. Acho bacana a ideia de aproximar jazz e rock de um jeito sem parecer erudito ou complicado ao extremo. As ideias se juntam em músicas que sempre caem no inusitado ou onde a pegada e o feeling são o foco. É lembrado com carinho pelos fãs de alt-rock dos anos 90 com justiça.
Diogo: Sem dúvida trata-se da audição mais, digamos, tranquila entre todas as indicações. O som do Morphine é tão classudo que o rótulo “alternativo” causa algum estranhamento, mas considerando a amplitude que essa palavra pode denotar, não discordo da recomendação. Falar que a escassez de guitarras é compensada pelo bom uso dos saxofones é lugar comum, então acrescento a isso a citação das canções em que esse formato melhor encontra sua expressão, que são “I’m Free Now”, “All Wrong”, “Sheila” e a faixa-título. Não sei se isso procede, mas sinto uma (grande) possível influência de Tom Waits ao longo das faixas. “In Spite of Me”, então, poderia facilmente ter sido gravada pelo trovador de voz rouca. Sem dúvidas trata-se de um belo disco.
Mairon: Dos álbuns aqui apresentados, com certeza esse é o que mais pessoas devem dizer que conhecem. A mistura de rock com jazz, levada pelos inusitados instrumentos (baixo de 2 cordas e saxofone), além de uma bateria cadenciada e um vocal que pega nos ouvidos, conquistou diversos fãs pelo mundo. O álbum é sinuoso e apreciativo, exalando um cheiro de modernidade para quem vivia um período onde o grunge parecia dominar o mundo do rock. Como não se surpreender com os bandolins da linda "In Spite Of Me", faixa com grandes inspirações na clássica "Going To California" (Led Zeppelin). O saxofone é o instrumento que mais me chama a atenção, fazendo os ouvidos sorrirem durante "I'm Free Now" e na animada "Mary, Won't YoU Call My Name?". O baixo e o saxofone, juntos, fundem-se confortavelmente nos riffs de "All Wrong", "Buena", e "Thursday". E atirem as pedras quem não se diverte com a ótima "A Head With Wings", ou não se emociona com "Miles Davis' Funeral". Disco fundamental e emblemático do rock alternativo, e muito bem-vindo por aqui.

Living in the Shit – Chá Magiológico (1996)
Recomendado por Ulisses Macedo
Inegavelmente uma das bandas mais importantes da história da música alagoana, o Living começou como uma banda meio punk rock que foi, pouco a pouco, deixando o som mais recheado, com influências que iam do hardcore e metal ao manguebeat, reggae e ska, acabando por se tornar mais uma daquelas efervescentes bandas do rock alternativo noventista, com criatividade e originalidade de sobra. Independentes, misturavam inglês e português num caldeirão musical que combinava composições pesadas ("Essência da Mata", "Protect Your Freedom" e a faixa-título) com outras mais acessíveis e até engraçadas ("Raputenga" e "Degustação"), mas sempre com bastante energia e aquela pegada orgânica e viva, para fazer o ouvinte bater cabeça. Único álbum de estúdio do grupo, e ainda assim uma peça essencial da história do rock alagoano.
Diego: São dezenas e dezenas de bandas independentes surgidas na década de 90. A ascensão do CD e o barateamento da tecnologia e dos estúdios de gravação fez com que centenas de bandas gravassem e lançassem trabalhos independentes naquela década. Por isso mesmo fica impossível conhecer tudo, e por isso mesmo, eu nunca tinha ouvido falar no Living In The Shit, apesar de conhecer o baterista da banda e seu projeto Sonic Junior. Chá Magiológico tem produção modesta mas é competente naquilo que se pretende fazer: Mangue Beat/Funk Metal/Hardcore/Rap Rock. O problema, acredito eu, mora justamente nessa mistureba toda, a banda não consegue uma identidade própria. Ora quer ser Planet Hemp, ora quer ser Chico Science & Nação Zumbi e ora quer ser o Suicidal Tendencies. No final a banda não é nenhuma das influências e também não é o Living In The Shit... Uma pena, se a banda tivesse durado mais um disco eles poderiam ter conseguido atingir uma identidade própria que poderia ser interessante. Li comentários que um segundo disco teria sido gravado, no entanto não encontrei rastro nenhum dele, sendo assim Chá Magiológico fica como o único registro da banda Alagoana.
Fernando: Só eu que achei que estava ouvindo alguma coisa do Planet Hemp nos primeiros minutos da música? Claro que foi só uma impressão inicial já que no todo o som do Living in the Shit está mais próximo ao manguebeat, mesmo que o discurso ‘Legalize Já’ também dê as caras. Bom instrumental, baixista bastante presente, mas o som de bateria é ruim, com a caixa estalando que cansa lá pela terceira ou quarta música. Não é para mim e fica a pergunta: quem teve a ideia "brilhante" do nome da banda?
Davi: Banda de Recife. Conheço algumas bandas alternativas dessa época como o Pin Ups e o Killing Chainsaw, mas confesso que nunca tinha parado para ouvir o Living In The Shit. O trabalho é bem feito e remete bastante à cena da época. “Essência da Mata” é Chico Science total. Tanto nos riffs quanto no trabalho vocal. “Rojão” já bebe bastante no Planet Hemp, “Raputenga” traz outra referência bastante usual na época, o reggae. Referência que se repete em “Ganja Yeah”, que como o próprio nome entrega fala sobre maconha. Outro tema corriqueiro na ocasião. Isso, talvez, explique o porquê o conjunto não chegou ao segundo disco. Os músicos eram competentes, mas não possuíam um grande diferencial em relação aos demais conjuntos de sua época, que possuíam mais mídia e eram melhores compositores. De todo modo, foi bacaninha ouvir.
Alisson: Decente, mas não dá pra elogiar muito, já que o produto é muito igual a um monte de bandas de mais sucesso dos anos 90. Pense em Planet Hemp, Nação Zumbi, Faith No More, Charlie Brown Jr., e por aí vai. Está tudo aqui, mas sem o mesmo talento dos originais.
Diogo: Bastam poucos segundos para perceber a fortíssima influência que a turma manguebeat de Recife teve nesses alagoanos, que fazem exatamente a previsível mistura de rock (especialmente em seu lado mais punk), rap, reggae e maracatu, regada a muita percussão. A produção é magrinha (o som de bateria é meio anêmico e a caixa se sobrepõe ao resto) e a mixagem enterra o vocal lá no fundo, mas até que isso não é um grande problema considerando o contexto. Trata-se de um caso em que elementos negativos como esse fazem parte da expressão do trabalho, mesmo que essa não seja bem a intenção. Quando a banda aposta mais no rock, chega a soar como o Planet Hemp, que estava surgindo com força na mesma época, então não creio poder rotular como influência, apesar das letras sugerirem esse fato. Não chega a ser ruim (algumas músicas são beeeeem fraquinhas, outras são razoáveis), mas não tenho planos de ouvi-lo novamente.
Mairon: Nunca tinha ouvido falar dessa banda. Lembrou-me bastante o Nação Zumbi, com algo de Sepultura nas guitarras e percussão, e um pouco de Raimundos nos vocais. É Mangue Beat na essência. As faixas que mais me chamaram a atenção foram a faixa-título, "Essência da Mata", "Raputenga" e a matadoras instrumental "Awinthila Dreams". As faixas em inglês são muito boas, pesadas, e mesmo como o sotaquezão nordestino, é admirável a audição de  e "Fuck Off The People" e "Protect Your Freedom" (a melhor delas) e do embalo de "Pessoas Bad Communication". A versão para "Degustação", original de Rita Lee (e particularmente, uma das piores músicas/letras que ela e o Roberto de Carvalho já fizeram) ficou muito boa musicalmente. Apesar de a gravação ser bastante crua, gostei do que ouvi, até mais do que o próprio Nação Zumbi. Boa surpresa!

The Gits - Frenching The Bully (1992)
Recomendado por Davi Pascale
Quando foi lançado o tema, fiquei dividido entre indicar o Gruntruck e o The Gits. Acabei optando pelo segundo por toda sua importância. O The Gits nunca se tornou uma banda de grandes proporções, mas tudo indicaria que isso aconteceria com eles em questão de pouco tempo. Na cena local, a banda já dava o que falar. A vocalista Mia Zapata acabou se tornando referência para diversas cantoras da cena. Infelizmente, tudo foi por água abaixo, no dia 7 de Julho de 1993 quando a cantora, aos seus 27 anos, foi estuprada e assassinada na volta de um bar em Seattle. Os músicos optaram por não seguir adiante. Era o fim do The Gits. A sonoridade do grupo era um punk rock direto, honesto e cheio de gás. Mia tinha bastante atitude. Quem assistiu o grupo ao vivo diz que a garota roubava a cena no palco. “Another Shot of Whiskey”, “Insecurities”, “It All Dies Anyway” e “Here´s To Your Fuck” estão entre minhas favoritas.
Diego: Não conhecia o The Gits e confesso que é difícil ficar isento, emocionalmente, depois de ler o que aconteceu com a vocalista da banda Mia Zapata (uma simples leitura na Wikipedia te traz todo o conteúdo, não sendo necessário eu contar a história aqui). Também é fato que, mais uma vez, a escolha foge um pouco da minha ideia original de citar bandas de rock alternativo já que o The Gits faz um direto e cru Punk Rock. Mas de qualquer forma Frenching the Bully tem um certo charme. Duração adequada (pouco mais de 30 minutos), boas melodias, instrumentais competentes, boas canções e uma vocalista acima da média. Em suma Frenching the Bully é um disco pra se ouvir, pelo menos uma vez, com calma e daí se julgar se ele entra na sua lista de favoritos. Eu confesso que vou ter que ouvir ele algumas outras vezes ainda, mas vou!
Fernando: O rock alternativo é um termo bastante abrangente. Tem bandas com influências diversas, dos grupo clássicos dos anos 70 até o punk oitentista, e esse último é a veia do The Gits. Punk rock até o osso. Mais uma vez não gostei e dificilmente ouvirei de novo.
Ulisses: Opa, punk rock com vocal feminino. Com exceção de "Another Shot of Whiskey", que é mais cadenciada, a banda se dá bem no filão de composições velozes, tendo como apoio a voz versátil de Mia Zapata, transitando entre o melódico e o visceral sem tropeçar. O álbum é célere em sua premissa e não faz muito esforço em ser variado e diferente, mas dá aquela injeção de adrenalina que muita gente busca no punk rock.
Alisson: O legado dessa banda ainda continua vivo no underground do punk contemporâneo, tanto pela força das apresentação ao vivo do grupo na época, quanto pela influência que a vocalista Mia Zapata teve em várias vocalistas dali em diante. Uma pena que a carreira do grupo foi tristemente interrompido pelo assassinado da vocalista. Mesmo o som não sendo pra mim, reconheço o poder que o disco tem em quem quer um bom registro punk.
Diogo: O punk rock do The Gits é bem intenso e ganha contornos peculiares graças aos vocais de Mia Zapata, que destacam a banda das demais e conduzem as canções. Não são os riffs, mas suas melodias vocais que constroem o cerne do tracklist. Se eu dissesse que morro de amores por essa sonoridade estaria mentindo, mas é um trabalho que parece ter um grande número de admiradores e esse fato é compreensível, pois não se trata de uma banda genérica. As faixas são executadas com precisão e vão direto ao ponto, sem enrolações desnecessárias. “Insecurities” e “Slaughter of the Bruce” são as músicas que mais chamaram minha atenção.
Mairon: Punk rock raiz, para se fechar uma roda e quebrar o pescoço. Várias faixas legais, em especial "Cut My Skin, It Makes Me Human", "Insecurities", "While You're Twisting, I'm Still Breathing" e "Kings and Queens", com seu jeitão Ramones de ser. Para a maioria das canções, se não fosse pelas letras em inglês, eu diria que era de uma banda paulista dos anos 80. Aliás, falando nas letras, a vocalista Mia Zapata canta super agradável para o punk. Há alguns pontos fora da curva ("Another Shot of Whiskey" e "It All Dies Anyway"), mas nada assombroso de ruim. No geral, curti bastante.

My Bloody Valentine – Loveless (1991)
Recomendado por Alisson Caetano
A capa do segundo registro de estúdio do My Bloody Valentine diz muito quanto ao que encontramos em termos de som. Parafraseando o que Anthony Fantano disse em sua análise para o disco: "Se a observarmos por tempo suficiente, ficará claro que se trata de uma guitarra. Porém, ela está coberta por uma camada de névoa rosa, ao ponto de obscurecer a guitarra". Essa ideia de distorcer e transformar uma ideia por efeito artístico ja é notável com poucos segundos de "Only Shallow", onde qualquer um pode dizer que é uma barulheira oca e desprovida de conteúdo, mas que no fundo, se atentando à música, podemos ver que se trata de uma música pop, de levada calma e vocais doces. Esse contraste entre o noise quase sufocante e o pop quase surreal traz um contraste único a cada uma das faixas. Não foram os primeiros a trazer esse conceito de justaposição de conceitos oposto para a música (O Velvet Underground já havia feito coisa bem parecida em White Light, White Heat), porém, o pioneirismo aqui está no efeito pretendido. A guitarra de Kevin Shields, protagonista indiscutível, cria texturas e camadas sonoras infinitas, ajuda de anos de pesquisa em estúdios de gravação, além de alguns milhares de libras investidos. O resultado é algo sublimemente contemplativo, feito para sentir os sons nos levando para pensamentos surreais e tranquilizantes. Claro que quase ninguém entendeu o conceito de cara. O disco custou uma fortuna e o retorno foi pouco próximo de nada. Apenas tempos depois que o legado do registro foi se fazendo visível, com obras claramente inspiradas apenas em Loveless (Billy Corgan chamou o engenheiro de som deste para trabalhar no Siamese Dreams, tamanho o fascínio pela obra).
Diego: O auge da pretensão 'hype', o auge orgasmático dos alternativos descolados de plantão, o que significa que Loveless é um disco oco e completamente perfeito para 'show off'. Passo!
Fernando: Sei que o My Bloody Valentine fez bastante sucesso junto daquele grupo de bandas que se convencionou a chamar de emo, mas não sabia que eram tão antigos. Algumas coisas meio ridículas dos adolescentes que curtiam esse som acabou estigmatizando as bandas e até limitando um eventual desenvolvimento das mesmas. Algumas melodias foram feitas para emocionar adolescentes, mas outras são bem sacadas, alguma coisa de Radiohead aqui e acolá. No todo não é ruim, mas para mim uma audição está de boa.
Ulisses: Exemplo de álbum que melhor define o estilo em que se encaixa. Loveless costuma ser descrito através de adjetivos como "onírico", "líquido" e similares, o que nada mais é do que uma tentativa de colocar em palavras sua inexplicável parede sonora, cheia de guitarras experimentais e distorcidas sufocando na produção nebulosa. Por baixo de todo o noise e da névoa rosa encontram-se canções acessíveis e emotivas. Por isso, as (muitas) pessoas que idolatram o álbum têm suas boas razões para isso - não é o meu caso, já que não consigo ter grande apreço pelas composições do álbum e nem por sua sonoridade e estética.
Davi: Muita gente considera esse disco um clássico do movimento, mas confesso que não mexe comigo. As guitarras possuem uma distorção razoável, as linhas vocais são melódicas, mas o modo que esses caras mixaram esse disco me incomoda muito. Parece que Kevin Shields sofria de uma síndrome Ritchie Blackmore e achou que somente ele deveria ser ouvido. Bateria lá atrás, baixo quase inaudível. O CD tem bastante experimentações. Em alguns momentos é bacana, mas depois de passados alguns minutos, dá uma saturada. Faixa preferida: “When You Sleep”.
Diogo: Loveless é o tipo de álbum que tinha tudo para me desagradar, mas isso não acontece. Sua estética propositalmente “torta”, canções barulhentas, o fato de ser muito superestimado... Só que se trata de um bom disco, um verdadeiro manifesto pelo direito de fazer música feia e “errada”, sem a preocupação de encaixar-se em convenções comerciais, apenas de botar para fora as ideias na forma de um fluxo que parece meio desorganizado, mas que se revela bastante meticuloso para os ouvidos mais atentos. Prestem atenção na faixa de encerramento, “Soon”, especialmente nas guitarras, e entendam o que quero dizer. Há um cuidado em construir atmosferas que se sobrepõe à estética noise de distorção e feedback, usando esses elementos a favor de um contexto amplo, no qual cascatas de arranjos fluem com invejável facilidade. Havia inclusive ficado surpreso que este álbum não fez parte da edição voltada a 1991 da série “Melhores de Todos os Tempos”, na nossa famosa “cota indie”.
Mairon: Outro álbum bastante conhecido por aqui, e que marcou época no início dos anos 90. O som do MBV é bastante viajante, com abuso de experimentações nos vocais e nas guitarras (trêmolos, samplers, entre outros), vide "Blown A Wish", "I Only Said", "Touched" e "What You Want" . Outro destaque é o vocal sussurrado de Bilinda Butcher, principalmente em "Only Shallow". Quem viveu os anos 90, certamente irá lembrar de "When You Sleep", canção que tocou muito por aqui.  Não há como não viajar em "Come in Alone" e "Soon", e claro, a delirante "To Here Knows When". Disco legal de ser ouvido, e uma produção que na época foi orçada em caríssimos 500 mil dólares, e que acabou levando o grupo a falência, já que mesmo sendo um marco no rock alternativo, não conseguiu emplacar nas vendas.

Marvelous 3 – Hey! Album (1998)
Recomendado por Diogo Bizotto
Senti-me em um beco sem saída quando fui confrontado com esse tema. Afinal de contas, rock alternativo e tudo aquilo que a ele é relacionado nunca foi meu forte. Felizmente acendeu-se uma luz ao lembrar-me do ótimo Marvelous 3, que praticava uma sonoridade poppy punk/pop rock com a cara dos anos 1990, mas com um pé fincado no power pop da década de 1970. Pensei inclusive que minha indicação poderia não ser aceita, mas eis-me aqui. Esse tipo de sonoridade dificilmente me agrada, mas o guitarrista e vocalista Butch Walker é um compositor tão bom que o resultado não poderia ser outro, uma série de canções viciantes cheias de ganchos melódicos, refrãos perfeitos e energia transbordando minuto a minuto, tudo orientado pelas linhas vocais de Butch. As baladas “Until You See” e “Let Me Go” são inegáveis destaques, muito superiores a quase tudo que foi sucesso radiofônico na época do lançamento. “Freak of the Week” então, é pura covardia. É chiclete? É sim, mas até hoje não perdeu o sabor. Também merece especial menção “Lemonade”, mais longa e ambiciosa, indicando o caminho que seria seguido no terceiro e último álbum, ReadySexGo (2000). Quem quiser pode conferir aqui minha discografia comentada do grupo.
Diego: Outra banda que eu não conhecia e que foi uma bela surpresa! Ok, o Marvelous 3 não é nenhuma grande banda, na verdade eles são bem medianos, com letras bem abaixo da média e com um som típico adolescente, mas, por algum motivo que nem mesmo eu conheço bem, eu sou atraído por esse tipo de som, especialmente se vindo dos anos 90. Assim como tantas outras bandas dos anos 90 como Fastball, Everclear, Bush, Better Than Ezra, etc o Marvelous 3 calca seu som numa pitada de punk, muito de rock alternativo e um pézinho no power pop pra fazer com que as melodias grudem como chiclete. Não vai mudar o mundo e com certeza não vai mudar a sua vida, mas é o tipo de disco que você bota pra rodar pra ter uma trilha bacaninha enquanto faxina a casa ou lava a louça. Pode ir que eu garanto que funciona!
Fernando: Como vocês pode estar percebendo, além da minha própria indicação não gostei de quase nada dessa lista, mas o Marvelous 3 até que arrancou alguma simpatia. Imaginei colocando esse som em um churrasco à beira de uma piscina e agradando todo mundo.
Ulisses: De longe o disco mais genérico da lista. Ao contrário de discos diferentões da lista, como o Loveless e o Cure for Pain, o Marvelous 3 joga seguro o tempo todo, com um som tipicamente power pop e pop punk com aquele jeitão de "frat boy" que só deve cativar os fanáticos pelo estilo.
Davi: Esse foi o que mais gostei da lista. Disco muito bacana mesmo. Pop rock de primeira qualidade. Ótimas composições, trabalho vocal muito interessante. Embora eles façam um som um pouco mais moderno, peguei bastante de Enuff Z´Nuff nos arranjos, grupo que eu adoro. Principalmente, nas linhas vocais. Certeza que se o Chip Z´Nuff ouvisse “Write it On Your Hand” ele iria querer gravar. “Freak Of The Week”, “Until I See”, “Indie Queen” e “Vampires In Love” se destacam.
Alisson: Pop punk composto por viciados em prozac. A felicidade bate tão forte no disco todo que beira o irritante.
Mairon: Das audições aqui recomendadas, achei esse o álbum mais fraquinho. Lembrou-me um pouco Offspring e Green Day, sem a grandiosidade dos mesmos. Parece que estava ouvindo uma trilha sonora da Malhação americana. Não é um disco ruim de todo, passa tranquilo em uma festinha de amigos para relembrar adolescência, apesar da xaroposa baladinha "Let Me Go". Honestamente, não consegui tirar nada de bom dele para destacar aqui. Me desculpe o consultor que o indicou.

Terminal Curve – Feeding Frenzy (1994)
Recomendado por Mairon Machado
Conheci esse grupo quando estive em Atenas, e um lojista local indicou-me uma coletânea chamada Act-UP como representativa de bandas gregas que tiveram destaque no país nos anos 90. O som é levado por guitarras carregadas de distorção, unindo hardcore com um pouco de grunge e muitos momentos para sair quebrando o pescoço. Logo de cara, a instrumental "Rise" já chama a atenção pelo equilíbrio entre baixo e guitarra, com boas melodias e o peso claro. O mesmo vale para "In Action",  e "Walking On The Beach". Quem curte rock anos 90 irá apreciar a sujeira de "Joy", "Penetrate", "Suicide" e "Worship". A gravação é meio tosca, soando muito próximo de um punk anos 80 em alguns momentos, mais precisamente na segunda metade do disco, como "Don't You Mess", "Suicidal Love", "Soul Drug" e "Terminal Curve".
Diego: Antes de entrar no mérito da música do disco em si, é bom dizer que a escolha fugiu (e muito) do tema que eu propus. O Terminal Curve faz um hardcore com nuances punk e um pézinho no funk metal tão em voga na primeira metade dos anos 90. De rock alternativo ele não tem nada. É bom frisar que o rock alternativo, apesar de ser um termo usado pra 30 trilhões de bandas, tinha sim um som característico e não é o caso desse disco! O interessante do disco é que ele foi gravado por uma banda grega e lançado em 1994. Pra quem assim como eu vai atrás de sons de lugares sem tradição no rock sabe que os gregos não tem tantos lançamentos fáceis de se encontrar por aí. Infelizmente esse fato também prejudica o disco já que a verão encontrada na web é de pouca qualidade e a qualidade da gravação em si é terrível com uma produção tosca e os timbres dos instrumentos são amadores pra dizer o mínimo. Em suma, parece aquele disco que a banda do seu primo rico gravou em 1994 e que só o fez porque era rico. Não digo que faltou talento para a banda, mas faltou um amadurecimento do som e uma melhor preparação pra gravação. Gravaram esse disco e sumiram.
Fernando: De início alguns acordem que me remeteram ao doom, depois a influência punk/hardcore que tomou conta, mas me surpreendeu algumas passagens quase na linha do metal oitentista. Porém também não me agradou como quase que a totalidade da lista. Acho que rock alternativo mais underground não é minha praia.
Ulisses: Uma boa surpresa nesta lista: banda grega com um som que puxa um pouco para o punk e o metal. Energia constante no decorrer do tracklist e faixas bem legais, como "Sacrifice" e "Worship". Seria melhor ainda com uma produção mais caprichada, que privilegiasse o peso e a velocidade do registro com maior clareza.
Davi: Banda que faz um hardcore pesadinho com vocais limpo e melódico, mesclado com algumas linhas quase raps. É uma espécie de Suicidal Tendencies subnutrido. Parece que eles não tomaram leite Ninho quando criança. A qualidade de gravação não é das melhores. Caixa da bateria com som de lata de tinta Suvinil, baixo quase não se ouve, som muito agudo. Nesse tipo de som, tem que se destacar o grave para dar mais peso. As composições são ok. Nenhuma abominável, mas nenhuma que você pense ‘cara, que som’. Um trabalho mediano que vale mais pela curiosidade.
Alisson: Mesmo ignorando o fato de isso ser mais um disco de hardcore punk do que um disco de rock alternativo, tudo não passa do genérico, ao ponto de não sobrar muito o que falar aqui.
Diogo: Achei o punk rock do Terminal Curve bem convencional, até pendendo para o lado mais heavy do que para o lado alternativo. Alguns riffs, inclusive, fariam bastante sentido em discos de thrash metal e crossover thrash da década de 1980. Nas mãos de Rocky George e Mike Clark (Suicidal Tendencies), é material que poderia render boas músicas. Na mão desses gregos, alterna entre o satisfatório e o decepcionante. A produção pobrinha também não ajuda, mas músicas como “Penetrate” e “Sacrifice” dão uma boa empolgada. Fica bem claro que o responsável por conduzir a banda é mesmo o guitarrista, pois é dele que brotam as melhores ideias e seus riffs conduzem as faixas. Ao vocalista, falta mais personalidade. Mesmo em um estilo agressivo e despojado como o punk rock, é possível colocar um pouco mais de alma e interpretação no seu trabalho.
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