sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os discos menos conhecidos do Secos & Molhados


Muita gente já ouviu "O Vira", "Sangue Latino" e "Rosa de Hiroshima" e ficou pensando como o Secos & Molhados pode durar tão pouco. Na realidade, o Secos & Molhados que muitos conhecem gravou apenas os dois discos mais conhecidos, mas João Ricardo reformulou a banda por diversas vezes, registrando diversos outros álbuns, porém sem nunca atingir o sucesso que havia obtido com Ney Matogrosso. Mesmo assim, temos no mínimo dois excelentes discos e que devem ser ouvidos e admirados por todo fã da banda e até mesmo por quem não gosta da fase Ney Matogrosso.

Após a saída de Gerson Conrad e Ney Matogrosso, João Ricardo (violões de 12 e 6 cordas, gaita e voz) decidiu partir para uma carreira solo, lançando dois álbuns que não fizeram muito sucesso, João Ricardo e Da Boca Pra Fora. Fracassado financeiramente, João ganha os direitos sobre o nome Secos & Molhados e resolve reviver o grupo. Para isso, convoca o guitarrista e vocalista Wander Taffo (que fez sucesso em carreira solo e também como fundador do Rádio Taxi, além de ser integrante da clássica formação do Made in Brazil), o baixista João Ascensão e o vocalista Lili Rodrigues. Com a participação de Gel Fernandes (bateria), Lazy (teclados) e Rubão (percussão), em maio de 1978, quatro anos após o fim prematuro da primeira formação do Secos & Molhados, a chama voltava a ser acesa. Porém a proposta era diferente. 


Apesar de seguir uma linha similar aos primeiros discos e de Lili ter uma voz tão aguda quanto a de Ney, João decidiu parar com a androginia, e, de cara limpa, lançou o excelente álbum Secos & Molhados (também conhecido como A Volta dos Secos & Molhados). O disco abre com um clássico. A gaita de João dá espaço para as vozes entoarem o nome da canção de abertura, "Que Fim Levaram Todas as Flores?", a qual foi um sucesso nacional, dando direito à banda de participar de inúmeros programas de televisão. A semelhança com faixas como "Flores Astrais" e "Assim Assado" não pode ser evitada, e Lili mostra que estava na banda para substituir, e bem, Ney. Muita festa curti ao som dessa canção, onde 99% das pessoas achavam que o vocalista era o próprio Ney Matogrosso, mas não era, e isso já se torna evidente na faixa seguinte, "Lindeza", onde os violões introduzem a canção com o baixo característico das músicas mais rápidas dos primeiros álbuns, além de trazer um belo arranjo de cordas, o que era novidade no som dos Secos. 

Segue uma canção totalmente diferente do que já havia sido feito pela banda. Após flertar com o blues em "Primavera nos Dentes", o flamenco em "Primer Mundo" e o fado de "O Vira", o Secos & Molhados invadia o funk, com uma bateria marcando o ritmo, seguida na sequência por uma ótima linha de baixo, guitarras e teclados, dando espaço para os vocais cantarem "De Mim Pra Você", uma das faixas mais dançantes da banda e que merece espaço em qualquer festa anos setenta que você pense em fazer, ao lado dos clássicos de Village People, Bee Gees, Gloria Gaynor entre outros. 

Após a sacudida no esqueleto de "De Mim Pra Você", temos a bela balada "Minha Namorada", onde Lili está fenomenal, mostrando sua simpatia (a qual contava nos créditos do álbum). O violão de 12 cordas de João leva a canção, que ainda trás um belo solo de Taffo (conhecido no álbum como Wander Tosh). O lado A encerra com a fraca "Anônimo Brasileiro", que apesar da bela melodia e do arranjo de cordas e metais, traz os vocais graves de João Ricardo, não combinando com o clima proposto na canção.

O lado B começa com "Última Lágrima", que lembra muito "Sangue Latino", principalmente pela levada do violão e do baixo. Segue "Insatisfação", uma pedrada na orelha de quem achava que o lado B seria lento, contando com as vocalizações dos três integrantes, com destaque maior para a voz de Lili. Temos aqui uma boa letra de João, bem auxiliada por uma sessão instrumental de teclados e guitarras. Os arranjos de cordas se fazem presente em "Oh! Canção Vulgar". 

Segue uma sessão acústica (antes mesmo dos acústicos terem sido inventados), com a belíssima "Como Eu, Como Tu". Com João Ricardo liderando as vozes, temos aqui uma das mais belas e comoventes letras da banda, a qual trata sobre a dor de uma pessoa que recorda os poucos momentos de um amor entre dois amigos que não deu certo. De chorar! A animada "Quadro Negro" resgata o clima leve do álbum, contando com boas participações dos integrantes nas vocalizações, que também possui João no vocal principal. Essa é uma canção perfeita para adolescentes cantarem em um luau. 

Por fim, "Cobra Coral Indiana", introduzida pelo piano elétrico e baixos que lembram bastante "Flores Astrais". A pequena letra, narrando a história de milhares de brasileiros que entram e saem de filas enormes para pagar suas contas, dá espaço para um longo tema instrumental com cordas e guitarras, encerrando o álbum tão bem quanto os demais discos da banda, e revivendo os grandes momentos da fase 1973-1974.

Porém, nem toda flor cheira bem, e João acabou tendo diversos problemas com os integrantes dessa formação, lançando seu terceiro trabalho solo, Musicar, em 1979. Em meados de 1980 tenta mais uma vez resgatar o Secos & Molhados, contando agora com os irmãos Roberto Lampé (violão), César Lampé (voz) e Carlos Amantor (percussão), lançando mais um álbum homônimo. 



O disco seguiu a mesma linha dos anteriores, contando na abertura com a faixa "Quantas Canções é Preciso Cantar", com aquela levada a la "Que Fim Levaram Todas as Flores", destacando a voz aguda do novo cantor. "Roído de Amor" é uma balada semelhante as do disco com Lili, porém com César e João alternando-se nos vocais. "Meu Coração Não Pode Parar", apesar do nome, é uma faixa bem rock'n'roll, com muito baixo, guitarras e vocalizações ao melhor estilo Secos & Molhados. "Sem as Plumas, Numas" traz novamente a gaita e o baixo como destaques. Segue "Homenzarrão", a qual possui uma letra bem agressiva, mostrando que nem só de doces e agrados vivia a cabeça de João. O lado A encerra, e muito bem, com "Pão João", outro rock estilo Secos & Molhados.

Temos no lado B a gaita introduzindo "Muitas Pessoas", a qual conta com várias vocalizações. Depois do blues, funk, flamenco e fado, surge o jazz anos trinta na faixa "Você Faz Amor Engraçado", a qual lembra as faixas cabaré dos álbuns do Queen, com destaque para baixo e piano. "Pelos Dois Cantos da Boca" retoma os rocks do grupo, seguida pela pequena "Aja", revivendo os momentos de canções curtas como "El Rey" e "As Andorinhas", do primeiro disco. "Contudo" é uma canção sombria, contando com muito piano e vocalizações. O álbum encerra-se com "Vira Safado", que, como o nome diz, relembra a letra de "O Vira" em mais um fado e tentativa de resgatar o antigo sucesso.


Com o fracasso comercial do disco, João partiu para o exterior, tentando esquecer de vez a banda que o havia revelado e seguir finalmente em uma carreira solo. No ano seguinte retorna ao Brasil, por onde fica na obscuridade até 1987, quando conhece o cantor Heitor Abujamra (Totô Braxil), o qual o incentiva a resgatar o Secos & Molhados. Com a participação de Edinho França (guitarras), Jean Eduardo (baixo), Gilberto Ninho (bateria) e Wilson (teclados), volta a fazer shows com o nome Secos & Molhados e, com apoio da Rede Bandeirantes, lançam, em 1988, o oitentista
A Volta do Gato Preto, o qual possui poucos momentos de inspiração, como "Sem Rei Nem Rock", "Eu Estou Fugindo de Casa" e o medley "Final Jam", resgatando os clássicos "Assim Assado", "Flores Astrais" e "O Vira".

Em 1999 João lançou
Teatro? com o nome Secos & Molhados, onde ele é o único membro da banda, e em 2000 lança Memória Velha, com canções feitas no período entre 1986 e 1990.

E feitas de papel machê, as flores se encontraram entre muitas pessoas que cantavam engraçado em uma fila indiana.

6 comentários:

  1. João Ricardo apesar de excelente artista foi junto ao pai os q destruíram a maior banda do Brasil. A ganância de ambos inesplicavel tirou de nós brasileiros a chance de sermos um pouco livres através das músicas e da banda q nós fazia esquecer um pouco da ditadura.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É o legítimo caso onde os caras tiveram o sucesso acima da cabeça. Uma lástima. Secos & Molhados e Mutantes eram duas bandas que eu gostaria que tivessem voltado com as formações clássicas, Abraço

      Excluir
  2. Respostas
    1. Ola Zecintra. Nem ideia infelizmente. Há uma matéria do estadão de 2023 que comenta sobre onde foram parar os músicos do Secos & Molhados, mas não tenho acesso a mesma infelizmente. Se quiser tentar, está aqui

      https://www.estadao.com.br/cultura/musica/secos-molhados-perdidos-achados-o-que-aconteceu-com-os-musicos-que-fizeram-parte-da-banda/?srsltid=AfmBOoq8b-uV9B_bRyQUELegaWZkUg2MSd8qrbA4YsfYejFN42cLS4g-

      Abraço

      Excluir
    2. O site da revista "Isto É" republicou a matéria do Estadão na íntegra:
      https://istoe.com.br/por-onde-andam-os-musicos-que-passaram-pelo-secos-molhados

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...