sábado, 14 de dezembro de 2013

Os 40 Anos de Tales from Topographic Oceans



"No princípio, Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia; trevas co­briam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas ...".

Assim começa o Gênesis, primeiro livro da bíblia, o famoso texto religioso, sagrado para o cristianismo, e que recebe diversas teorias e interpretações com o passar dos dias por seguidores e detratores do mesmo. 

Há quarenta anos, os britânicos do Yes lançaram a Bíblia do rock progressivo, Tales from Topographic Oceans, que assim como o texto religioso, possui seguidores e detratores em todo o mundo. Várias são as críticas positivas e negativas a respeito do sexto álbum do grupo, e eu particularmente, me encaixo nos apóstolos que pregam a palavra das quatro longas suítes do LP duplo ao mundo, considerando-o o melhor disco de rock progressivo já lançado.

A história do LP surge um ano antes, durante os shows da turnê de Close to the Edge, quando Jon Anderson (vocais, falutas, violões, percussão), Steve Howe (guitarras, steel guitar, danelectro guitar, violões, vocais), Chris Squire (baixo, vocais, harmônica, percussão), Rick Wakeman (teclados) e Alan White (bateria, percussão) levavam seus aclamados e concorridos shows pelo Japão.

Na terra do sol nascente, Anderson foi apresentado ao livro Autobiografia de um Iogue, do mestre hindu Paramhansa Yogananda, através do percussionista Jamie Muir (King Crimson), e simplesmente delirou com os ensinamentos ali contidos). O livro narra a jornada espiritual de Paramhansa, desde sua infância até tornar-se um monge budista, e foi um dos principais livros a mostrar o hinduísmo ao povo ocidental.


O livro que inspirou Jon Anderson a gravar o aniversariante de hoje


Anderson já havia começado a entrar na sua fase religiosa durante as gravações de Close to the Edge, mas ficou ainda mais adepto ao hinduísmo ao ler as linhas de Paramhansa. Aficcionado pela leitura, Anderson começou a fazer a cabeça de seus companheiros de banda, e por mais incrível que pareça na data de hoje, quem defendeu os ideais propostos por Anderson foi Howe.

A fusão de forças entre Anderson e Howe acabou gerando uma pequena dissidência, já que os dois membros remanescentes do Yes de Close to the Edge, Wakeman e Squire, não estavam dispostos a adotar um estilo vegetariano e religioso, com diversas regulamentações e obrigações diárias para serem cumpridas. O novato White ficou em cima do muro, e no fim, prevaleceu a opinião de Howe e Anderson.

A explicação para a gravação de Tales from Topographic Oceans é dada por Anderson na capa interna do LP: " Estávamos em turnê por Tóquio, e eu me retirei por alguns minutos para meu quarto no hotel antes de um concerto noturno. Folheando algumas páginas do livro Autobiography of a Yogi, de Paramhansa Yoganada, eu fiquei preso a uma nota de rodapé na página 83. Ela descreve as quatro partes das escrituras shástricas que cobrem todos os aspectos de religião e vida social, bem como campos como medicina e música, arte e arquitetura. Eu procurei durante muito tempo por um tema para um composição longa, e os shastras eram tão positivos que eu puder visualizar eles em todo o lugar. Quatro peças intercaladas de música sendo estruturadas ao redor delas. Era fevereiro de 1973, e oito meses depois, o conceito foi lançado nessa gravação". 

Em poucas semanas as letras e melodias estavam prontas, e com o término da turnê de Close to the Edge as gravações começaram no estúdio Morgan, em Londres. A ideia básica de Tales From Topographic Oceans era narrar as shastras (regras hindus) em um ponto de vista espiritual, transformando-as em música.


Alan White, Steve Howe, Rick Wakeman, Chris Squire e Jon Anderson

Anderson e Howe concentraram-se nas quatro suítes que tratavam dos temas específicos enunciados por Paramhansa, que por sua vez ocupavam cada um dos lados do vinil duplo, sendo o lado A composto por "The Revealing Science of God" (falando sobre a verdade sobre Deus), o lado B com "The Remembering" (e o conhecimento), o lado C com "The Ancient" (e a cultura) e o lado D com "Ritual" (com a liberdade), todas elas intercalando-se entre si e formando uma única peça com mais de 80 minutos de duração.

Anderson continua: "Ainda durante a turnê, primeiro na Austrália, e depois nos Estados Unidos, contei a ideia para Steve. Ele gostou disto, e nós dois começamos a montar as sessões a luz de velas em nossos quartos de hotel. Nós estávamos passando por Savannah, Georgia, quando as coisas começaram a surgir muito claramente. Então, durante uma sessão de seis horas, que durou até as 7 da manhã, nós trabalhamos na parte vocal, lírica e instrumental para os quatro movimentos. Isto foi uma experiência mágica, que deixou-nos exilados por dias. Chris, Rick e Alan fizeram importantes contribuições, com seus próprios trabalhos evoluindo pelos próximos cinco meses, arranjando, ensaiando e gravando".

Cada lado teve participação especial de um integrante. O lado A deixava claro todo o trabalho vocal de Anderson, enquanto no B quem se sobressaí é Wakeman. Howe demole o lado C com guitarras e violões, enquanto que em "Ritual" White e Squire são os responsáveis pelo cataclisma de encerramento da peça. Mas, claro, toda a banda participava ao mesmo tempo em todas as suítes. 

"Eu tinha lido em algum lugar que o Yes iria musicar a Bíblia, então pensei: 'Certo, eu vou provar que isso pode ser feito", afirmou Anderson em 1991, em uma entrevista durante a Union Tour. 


Jon Anderson

Steve Howe falou aos fãs em uma entrevista na página oficial do grupo no facebook: "Estávamos fazendo Tales from Topographic Oceans, e fomos em um estúdio chamado Morgon. Este foi o primeiro estúdio de 24 pistas em Londres, e ficamos lá por quatro meses. Cada vez que íamos ao estúdio, sendo pós-hippies, precisávamos fazer um pouco de amizade. ... Eu e Jon estávamos muito próximos naquela época. Os demais membros da banda precisavam esforçar-se bastante para esta gravação, por que eles não estavam certos se o que nós estávamos fazendo era uma boa ideia, mas como estávamos muito empolgados com aquilo, não foi difícil convencer os demais".

Squire é um pouco mais indeciso em sua opinião sobre o álbum. Para o jornalista Jon Kirkman, autor do livro Time and a Word: The Yes Interviews, lançado ano passado, ele declarou: "Nós não tínhamos ideia do status que havíamos alcançado. Apesar do sucesso de Close to the Edge, ainda éramos jovens, e aceitamos a ideia de Anderson ... Ficamos com quatro longas peças de vinte e cinco minutos, com ótimos momentos, mas as vezes, eu percebia algumas pessoas cochilando durante a terceira parte de Tales from Topographic Oceans".

Wakeman acabou sendo o principal opositor do álbum, e ainda hoje, ele larga suas farpas para o mesmo. Em uma entrevista de 2008 para o jornal Daily Mail, afirmou: "Este foi um álbum muito difícil de trabalhar. Como tecladista, poucos foram os momentos em que eu não tinha nada para fazer ... Há melodias marcantes, mas muita enrolação, que se prolonga muito. Vários temas foram repetidos, e isto ficou chato até para os fãs ... Este não é o meu álbum favorito do Yes, e eu disse isso quando de seu lançamento. Depois, renome-ei ele para Tales from Toby's Graphic Go-Kart".

Outro que não gostou do resultado final foi o produtor Eddie Offord: "Este é um álbum horrível, que quase me matou. Existia um efeito psicológico na época, do tipo 'Nossa, estamos fazendo um álbum duplo, podemos fazer as coisas duplamente longas', só que tudo parece duplamente chato" (do livro Yesstories, de 1996).

O lado A da versão original de Tales from Topographic Oceans

Na última quinta-feira, tratei aqui sobre "The Revealing Science of God (Dance of the the Dawn)", escolhida por mim para representar o álbum como Maravilha Prog, descrita por Anderson na capa do LP da seguinte forma: "Primeiro Movimento: Shrutis (tradução: Textos Sagrados) A Ciência reveladora de Deus pode ser vista como uma flor permanentemente aberta, da qual emergem as verdades simples, registrando as complexidades e a magia do passado, e fazendo-nos ver que não deveríamos esquecer nunca a canção que nos foi dada escutar. O conhecimento de Deus é uma indagação objetiva e constante".

É uma das melhores peças musicais do Yes e do progressivo, e prefiro deixar o texto que escrevi para que você leia um pouco sobre o que penso sobre ela, mas não posso deixar de destacar as passagens instrumentais de Wakeman e Howe, além da interpretação fantástica de Anderson.

O lado B da versão original de Tales from Topographic Oceans
Os demais três lados do LP também são incríveis Maravilhas sonoras. "The Remembering (High the Memory)" é o momento de Wakeman, e recebeu a seguinte descrição por Anderson: "Segundo Movimento: SURITIS (tradução: Memórias de epopeias inspiradas). Todos os nossos pensamentos, impressões, conhecimentos e temores têm se desenvolvido no transcurso de milhões de anos. Podemos, através de nós mesmos, referirmo-nos somente sobre nosso próprio passado, vida e história. Aqui é o teclado de Rick que projeta vívidos fluxos e refluxos de olho de nossas mentes: o oceano topográfico. Por sorte, notamos que certos aspectos ocorridos ao longo do tempo não são tão significativos como a natureza do que está impresso em nossa mente, e o modo como isso está registrado e é utilizado".

Falando sobre viagem no tempo, através da regressão da memória, é um belo tema sobre a busca espiritual nas luzes do passado, navegando pelo oceano da sabedoria antiga, influenciado pelos Vedas, as escrituras sagradas dos hindus. Um tema extremamente complexo, que equivale por exemplo a tentar explicar o Candomblé para os povos nórdicos, e que acabou influenciando no descaso e oposição ao disco pelos mais "leigos".

Musicalmente, esse é o momento no qual Wakeman ganha espaço. A longa introdução levada pelo tema da guitarra e as vocalizações do trio Anderson, Howe e Squire, são penetradas sedutoramente por passagens soberanas de moog, mellotron e órgão, com toda a habilidade que o músico sempre apresentou em suas canções. 

Além de Wakeman, o poderio vocal e os momentos em que Howe executa pequenos temas durante toda a canção, seja na guitarra ou no violão, são dignos de nota, e até mesmo o duelo de moog e guitarra, próximo ao final da canção, mostra as qualidades de White e Squire, com uma cozinha forte e envolvente.  


O lado C da versão original de Tales from Topographic Oceans
"The Ancient (Giants Under the Sun)" é o espetacular momento aonde Steve Howe brilha, recebendo a seguinte descrição de Anderson: "Terceiro Movimento: PURANAS (tradução: Lendas ou narrações de tempos antigos). "A antiguidade indaga ainda mais profundamente no passado, mais além do ponto de recordação. Aqui a guitarra de Steve é o pivô para a aguda reflexão sobre as belezas e os tesouros das civilizações perdidas: Índia, China, América Central e Atlântida. Estes e outros povos deixaram um imenso tesouro de conhecimentos".

Essa é a parte mais densa das quatro peças. Misturando elementos percussionistas e acústicos, Anderson tenta relacionar os povos antigos com o poder da Mãe Terra, começando a citar a devoção que devemos ter com o Sol. Para muitos, é onde há maior enrolação (Wakeman cita isso, por exemplo), mas na verdade não é bem por aí.

A introdução mostra dois pontos muito interessantes, que são as intrincadas passagens de teclados acompanhando o ritmo insano dos instrumentos percussivos, e a guitarra chorosa de Howe, deslizando seu slide pelo instrumento criando temas estranhos, malucos, simbolizando o retorno e a viagem espiritual em busca desse contato com o Deus Sol. 


Steve Howe, diante de um cartaz de divulgação do LP

Os solos de Howe, preenchedores de boa parte de "The Ancient", não são dos mais inesquecíveis, mas por outro lado, é inegável que dificilmente outro guitarrista conseguiria criar solos tão complexos, misturando velocidade com ritmos mais lentos, e ao mesmo tempo vitais para a dramatização da história. Há ainda a presença constante de uma marcação que apareceu timidamente em "The Remembering", feita por baixo e bateria, e que se tornará um dos ápices do lado D do LP. 

Por fim, o último trecho de "The Ancient" leva as lágrimas até surdos, já que o que Steve Howe constrói ao violão é inexplicável. Uma melodia simples, misturando folk com música clássica, marca registrada do músico, mas que ganhou conotações emocionais altíssimas, tamanha a beleza da mesma, e, combinada com a voz melodiosa de Anderson, faz os ouvidos suspirarem de prazer.


O lado D da versão original de Tales from Topographic Oceans

O álbum encerra com "Ritual (Nous Sommes Du Soleil)", que faz a excelência musical do quinteto colocada à prova, descrita assim por Anderson: "Quarto Movimento: TANTRAS (tradução: "Regras") Os sete pontos da sabedoria para aprender e conhecer o ritual da existência. A vida é uma luta entre as forças perniciosas e o amor puro. Alan e Chris apresentam e transmitem a luta da qual sai vencedora a causa positiva. Nous sommes du soleil. Nós somos do sol. Nós todos podemos ver".

Depois de sair dos oceanos, o viajante espiritual emerge cheio de luz, vitalizado pelo sol do amor e pela sabedoria adquirida com seus antepassados. Ele uniu-se ao Deus Sol, livrando-se das trevas e vivendo através da alegria e do amor. 

Musicalmente, temos um verdadeiro petardo progressivo em mãos. Squire aparece com mais destaque na canção, assim como White, mas os cinco estão em uma performance soberba. Não é a toa que "Ritual" acabou sendo a única a permanecer no set list do grupo durante a turnê do álbum seguinte, Relayer.


Chris Squire

A peça é dividida em quatro momentos distintos. A primeira, apresentando o lindo solo de Howe, repete a marcação de baixo e bateria citada anteriormente, além de um forte ritmo percussivo e o mellotron sendo um espetáculo a parte. O clima é de tensão e perspectiva com a longa sessão instrumental inicial, gerando uma expectativa de o que irá ocorrer a partir das vocalizações de Anderson, e o Yes confirma a beleza apresentada a partir do inicio da letra, após um breve solo de baixo.

Esta é a segunda parte, lenta e arrastada, totalmente diferente da veloz introdução, com um clima espacial, Howe no Danelectro Sitar e Anderson gravando nos anais da música a frase "Nous sommes du soleil", inspirando Sergio Dias e seus Mutantes para registrar o Maravilhoso Tudo Foi Feito Pelo Sol em 1974. 

O terceiro e principal momento de "Ritual" vai para o solo de Squire e White. Squire surge entre os barulhos percussivos, lentamente, para debulhar-se em dedos com uma escala veloz, e depois, ainda faz vocalizações imitando as notas das escalas, a la Slam Stewart, e dê-lhe percussão por debaixo da massa sonora criada pelo baixo. 

Essa percussão explode no assustador solo de White, que acompanhado por Anderson e Squire em seus respectivos instrumentos percussivos, trava uma batalha demoníaca com Wakeman, soltando agudos e criando barulhos infernais em seus teclados. A perfeição sonora dessa batalha acaba com um magistral tema de Howe, que retorna ao início da canção, e nos leva ao último momento de "Ritual" e de Tales from Topographic Oceans, com Anderson cantando frases lindas e emocionantes como "Lay upon me, hold me around lasting hours, we love when we play ... We drift the shadows and course our way on home". 

Alan White

Sobre "Ritual", Alan White comentou ao site musicradar.com: "Passamos muito tempo fazendo este álbum, mais de nove meses. Musicalmente, isto foi uma aventura, completamente diferente de qualquer coisa que eu já tinha feito antes. São ritmos diversos: um pouco étnico em determinado ponto, então volta ao rock 'n' roll, seções de jazz e influênciais orquestrais. A ideia em 'Ritual' era fazer uma melodia única, e tocá-la somente com bateria até o fim. Então Squire tocou tímpano, Anderson um conjunto de percussão e eu um kit regular de bateria, ensinando eles como tocar uma melodia na percussão. O resultado foi um som muito tribal". 

Já Wakeman novamente detona ao Daily Mail: "Existe uma sessão percussiva maluca, onde cada um bate em coisas diversas. Isto durava cerca de dez minutos, e para mim, parecia que eu ficava tocando durante um ano e meio - e provavelmente, até quando eu ouço também parece isso".

Depois de mais um breve solo de Howe, o álbum encerra-se, e só resta ao ouvinte enxugar as lágrimas e colocar o mesmo para ouvir, ou então, jogar o álbum no lixo e soltar o verbo contra o que ouviu.

Steve Howe, no documentário Yesyears (1991) afirmou: "Tales from Topographic Oceans não foi só um álbum, foi uma experiência ... É um álbum que simbolizava um estilo de vida".

O principal resumo foi dado pelo criador, Jon Anderson, há um repórter da BBC: "Tales from Topographic Oceans é uma viagem espiritual sintetizada assim: surge a luz da aurora em nosso coração, a luz de Deus. Relembramos nossa essência espiritual no oceano do tempo, somos eternos. Aprendemos com os sábios antigos a arte espiritual da união com a terra e a reverência ao sol, a arte da expansão da consciência. Voltamos ao presente cheios de esperança e amor para lutarmos pelos nossos sonhos e seguirmos em frente, pois nós somos da Luz". Anos depois, ele comentou no mesmo Yesyears citado acima: "Acho que Tales from Topographic Oceans foi o encontro de grandes ideias, mas de baixas energias ... alguns não se esforçaram para tornar o álbum o que ele deveria ser, mas eu entendo o por que", em uma clara citação à Wakeman.

Capa interna de Tales from Topographic Oceans

A capa, elaborada por Roger Dean, é considerada uma das mais bonitas que o autor já fez, e ao lado de Dark Side of the Moon (Pink Floyd) e The Lamb Lies Down on Broadway (Genesis), é uma das capas mais famosas do estilo. Até hoje, é o LP do Yes que teve o maior número de vendas quando de seu lançamento, e o que mais vendeu do grupo em todos os tempos. 

A revista Time elegeu Tales From Topographic Oceans o melhor disco de 1973, enquanto a revista brasileira Showbizz colocou o disco entre os 20 piores de todos os tempos. O livro The Worst Rock ’n’ Roll Records of All Time, lançado em 1991, colocou o álbum na décima colocação como pior álbum de todos os tempos, em uma mesma citação para Aqualung (Jethro Tull), Days of Future Passed (Moody Blues) e Tarkus (Emerson, Lake & Palmer), isso só para citar alguns.

Vale a pena comentar sobre a turnê de divulgação, a última com Rick Wakeman nos teclados. Os ensaios foram bastante complicados, e Anderson começou a criar figuras ilustrativas em cima do tema. Com a ajuda de Roger Dean, concebeu efeitos de luz que atiçavam a visão da plateia para os viajantes temas do LP, bem como monstros gigantes infláveis ou em fibra de vidro que eram responsáveis por "guiar" a banda até a entrada do palco - a famosa baleia Skull -, a qual era um conjunto de tubulações de órgãos totalmente retorcidas, formando o esqueleto de uma baleia. Diversos cogumelos foram espalhados na frente do palco, além de peças especiais que surgiam durante determinadas partes do show, como bustos de Bach e Beethoven, os quais circundavam os teclados de Rick Wakeman.

No dia 01 de novembro de 1973, Tales From Topographic Oceans foi apresentado pela primeira vez na rádio BBC, e no dia 16 daquele mês, começou a Tales From Topographic Oceans Tour, em Bournemouth, Inglaterra, 
 estendendo-se até 26 de abril de 1974. Após uma sequência de shows, que tinham sempre críticas altamente positivas ou extremamente negativas, o álbum foi lançado no dia 14 de dezembro na Inglaterra e no dia 09 de janeiro de 1974 nos Estados Unidos.


O palco da turnê de Tales from Topographic Oceans, destacanado a "Cabeça de Cobra"
sobre a bateria de Alan White

O que mais chamava a atenção da turnê era que o Yes realmente estava inovando, não somente por tocar um álbum duplo na íntegra, mas por tocar dois diferentes álbuns na íntegra! O show começava com o encerramento da clássica peça "Firebird", de Igor Stravinsky, com um gigantesco pano branco tapando o palco. Enquanto "Firebird" era executada pelas torres de som o pano se abria, mostrando uma gigantesca cabeça de cobra sobre a bateria de White, com a banda acompanhando os acordes da peça e emendando em "Siberian Khatru", do álbum Close to the Edge. Na sequência, as outras duas faixas do LP eram tocadas - "And You and I" e "Close to the Edge" -, e assim todo o álbum Close to the Edge era apresentado ao público em pouco mais de 45 minutos.

Terminada a apresentação de Close to the Edge, era a vez de Anderson começar a narrar o que estava para acontecer. Primeiramente, ele comentava que iriam apresentar uma faixa do novo álbum, começando com "The Revealing Science of God". A partir de então, os oitenta minutos do álbum eram apresentados na íntegra, sendo que ao término de cada uma das suítes, Anderson explicava um pouco sobre o que vinha a seguir e qual ensinamento ou assunto estava sendo tratado.

A dificuldade na interpretação de Tales From Topographic Oceans tornava o show ainda mais interessante de se ver, pois Squire e Howe acabavam se transformando em verdadeiros malabaristas, empunhando por mais de uma vez dois baixos (no caso de Squire) e duas guitarras ao mesmo tempo. Anderson também era outro multi-instrumentista, com um canto especial para ele, onde estavam à disposição flauta, harpa e diversos instrumentos percussivos. Wakeman, sempre trajando sua tradicional capa de brilhantes, vinha cercado de moogs, mellotron e piano, enquanto White desaparecia sob a cabeça da cobra, que soltava fumaça e labaredas de fogo.



Rick Wakeman

O clímax e tensão eram intensos durante toda a apresentação de Tales From Topographic Oceans. Como se sabe, o Yes se tornou mundialmente reconhecido por executar nota por nota de suas canções, e isso se deve principalmente a essa turnê, pois imaginem fazer isso com uma única música durante mais de 80 minutos, sem partitura e sem metrônomos, só com a canção na cabeça.

Durante a apresentação a cabeça da cobra abria-se, revelando por vezes asas de borboletas ou então outras formas, como cogumelos e flores. Nos cantos do palco, vez por outra surgiam bonecos e animais empanados, e o que chamava a atenção era o show de luzes e fumaça, que tinha como o auge "Ritual", aonde os fãs saiam da apresentação com a sensação de que tudo o que haviam aprendido sobre shows era enganação, já que o espetáculo visual fornecido pelo Yes era fora do comum.

Após a apresentação de Tales From Topographic Oceans o Yes deixava o palco por alguns minutos, retornando para o bis com "Roundabout" e, dependendo da energia do público (e dos músicos), "Starship Trooper", encerrando então o espetáculo de quase três horas de duração. Vale ressaltar que alguns shows contaram com "Heart of Sunrise" ou "Yours is No Disgrace" ao invés de "Starship Trooper".

Um pouco mais do palco da turnê.
Repare a passarela em formato de esqueleto de baleia, à direita

A turnê teve vinte e cinco shows na Inglaterra, quarenta e três na América do Norte e mais dez shows pela Europa, passando por Alemanha, Holanda, Suíça e França, encerrando em 23 de abril de 1974 em Roma. Todas as apresentações tiveram seus ingressos esgotados, sendo que em algumas cidades o Yes teve que fazer mais de um show (as vezes no mesmo dia, como ocorreu na Filadélfia).

Por fim, algumas raridades relacionadas ao álbum. A primeira delas é uma raríssima versão lançada unicamente para ser tocada nas rádios inglesas - creditada como "radio vinyl". Como as faixas eram longas, elas foram divididas em temas de quatro ou cinco segmentos, com intervalos entre quatro e cinco minutos, o que possibilitava a execução das mesmas, e isso era criteriosamente creditado tanto na capa quanto no próprio rótulo e sulco do vinil. Outra rara versão do LP traz o triângulo em alto-relevo na capa, em uma edição super-limitada em mil cópias.

Para quem quer curtir a turnê em si, existem diversos bootlegs no mercado, sendo os melhores (em termos de qualidade de áudio) Tales From the Edge, gravado em Ludnigshateen (Alemanha) no dia 14 de abril de 1974, e Ocean Tales, gravado em Detroit (EUA) em 28 de fevereiro de 1974. Em termos visuais, existe um raríssimo video em 8mm da tour, que mostra grande parte de um show filmado em local desconhecido. Particularmente nunca vi este show, mas pesquisando na internet vi vários comentários a respeito do mesmo.

O Yes consolidava-se como a principal banda do progressivo britânico, passando à frente de baluartes como Pink Floyd, principalmente por Tales From Topographic Oceans alcançar o posto número 1 de vendas no Reino Unido, antes mesmo de seu lançamento, e um local aonde Dark Side of the Moon alcançou no máximo a segunda posição. Também foi sexto na Billboard americana, mostrando que em ambos os lados do atlântico, o Yes estava entre os mais vendidos.


Parte da imprensa elevou o Yes ao patamar de deuses, chegando a citar que: "O Yes ultrapassou os limites da criatividade e da capacidade humana de criar música, mergulhando em profundos oceanos topográficos que somente gênios sabem nadar" (Revista Pop!, Reino Unido, 1974), enquanto outros afirmaram: "Tales from Topographic Oceans é a prova definitiva da auto-indulgência que esses rapazes ingleses estão passando ao seu público, bancando pose de inteligentes com uma música insuportável, pretensiosa e sem nenhuma significância sentimental" (Rolling Stone, 1974).


Uma das capas mais lindas do rock progressivo


Gostos a parte, o fato é que Tales from Topographic Oceans obrigatoriamente tem que ser ouvido pelo menos uma vez por alguém que queira conhecer rock progressivo. É a partir daqui que o Yes se tornou O Yes. Mesmo com Close to the Edge sendo uma obra-prima, foi com Tales from Topographic Oceans que o Yes saiu dos teatros e pubs para lotar estádios pela Europa, Estados Unidos e Japão, fazendo o progressivo crescer ainda mais e levando para as grandes arenas bandas como Pink Floyd e Emerson Lake & Palmer.

É impressionante como apenas cinco pessoas acabaram construindo uma obra tão rica e valiosa para o mundo, mesmo com as divisões de pensamentos sempre drásticas sobre ele. É fato, ou você irá amar ou irá detestar, principalmente por ser uma obra tão complexa, o que faz do LP, após quarenta anos, ainda conquistar seguidores e detratores, como a velha bíblia do início do texto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Yes - The Revealing Science of God (Dance of Dawn) [1973]



A quarta Maravilha Prog dos britânicos do Yes foi difícil de escolher. Pertencente ao sexto disco do grupo, Tales from Topographic Oceans, ela possui mais três irmãs gêmeas, todas lindas e capazes de serem categorizadas como Maravilhas. Mas acabei recorrendo a "The Revealing Science of God (Dance of Dawn)" por três aspectos: primeiro, o fato de que é a única canção do álbum na qual o Yes trabalho em conjunto, não havendo um destaque individual; a segunda, é por conta de ela ser a responsável por abrir os trabalhos no vinil duplo, lançado no dia 14 de dezembro de 1973, completando portanto quarenta anos no próximo sábado, e eu já aproveito para convidar o leitor a comemorar essa importante data com um texto alusivo ao aniversário de um dos Melhores (ou seria Piores) álbuns da história. A terceira explico mais adiante.

Preciso primeiro citar que antes do lançamento de Tales from Topographic Oceans, uma mudança na formação do Yes ocorreu, e que foi muito importante para o andamento do grupo nos anos subsequentes. Jon Anderson (vocais, violões, percussão, flauta), Steve Howe (guitarras, violões, Danelectro Sitar, vocais), Chris Squire (baixo, harmônica, violões, percussão, vocais), Rick Wakeman (teclados) e Bill Bruford (bateria, percussão) haviam acabado de lançar Close to the Edge, um dos principais discos do rock progressivo, detentor da Maravilhosa faixa-título, além das essenciais "And You And I" e "Siberian Khatru", que colocaram o álbum em um patamar muito acima dos demais álbuns do grupo no quesito importância para o rock progressivo.


Porém, Bruford estava desgostoso com os caminhos que o Yes começou a trilhar, mergulhando em composições pesadas, densas e complexas, fugindo do lado jazzístico e repleto de improvisos que caracterizou a fase inicial do grupo. Assim, pediu as contas e foi parar no King Crimson de Robert Fripp, abrindo um enorme buraco na parede de sustentação do grupo.

Klaus Voormann, Alan White, Yoko Ono, John Lennon e Eric Clapton. A Plastic Ono Band, em 1969.

Foi o produtor Eddie Offord que encontrou a solução para os problemas. Eddie era amigo de John Lennon, e havia ficado hipnotizado com a performance do baterista da Plastic Ono Band. O grupo de John e Yoko Ono fazia suas experimentações com blues, jazz e rock, e estava bem longe da linha progressiva que o Yes caminhava, mas White mostrou que podia sim segurar as baquetas do grupo. Sua pegada era mais forte, sem tanta virtualidade como Bruford, e foi aprovado logo no primeiro ensaio, quando tocou "Siberian Khatru".

White participou da turnê de divulgação de Close to the Edge, e fez a maior parte da bateria do primeiro ao vivo do grupo, o triplo Yessongs, um dos principais álbuns ao vivo de todos os tempos, lançado em 1973. O disco apresenta Close to the Edge na íntegra, e conta com Bruford fazendo uma apresentação impecável nas faixas "Perpetual Change", "Long Distance Runaround" e "The Fish (Schindleria Praematurus)". Foi sétimo colocado no Reino Unido e décimo segundo nos Estados Unidos, mostrando que o Yes já desfilava como um dos preferidos pelos fãs.


Foi durante a turnê de Close to the Edge que começou a surgir a ideia da gravação de Tales from Topographic Oceans. Anderson teve contato com o livro Autobiography of a Yogi, de Paramhansa Yogananda, e despertou seu interesse pelas escrituras sagradas apresentadas pelo autor em uma nota de rodapé. As quatro escrituras principais foram vislumbradas por Anderson na forma de música, e acabaram se tornando o sexto álbum de estúdio do grupo.

Yessongs, primeiro registro ao vivo do Yes, e um dos álbuns essenciais do progressivo

Mais detalhes contarei no texto de aniversário do álbum, mas é fato que a ideia gerou um racha em três dentro do Yes. De um lado, Anderson e Howe, criador e configurador da ideia e da música do álbum, e primeiros "iniciados" na religião hindu, bem como assumirem o vegetarianismo. De outro, Squire e White, recém adeptos ao vegetarianismo, e indecisos se a ideia realmente deveria ser seguida, já que o projeto final levava para um álbum duplo com apenas quatro longas canções, cada uma ocupando um lado do vinil. Por fim, Wakeman, o único que bebia, comia carne vermelha e totalmente contrário as experimentações longas, definidas pelo próprio como enrolações.

O projeto foi levado adiante por pressão de Anderson e Howe, e foi o primeiro disco do Yes a ser o mais vendido dentro do Reino Unido, com oitenta mil cópias vendidas antes mesmo de seu lançamento, no sistema pre-order. Até hoje, é o álbum mais vendido da carreira do Yes no período progressivo, totalizando mais de cinco milhões de cópias, e ficando atrás apenas de 90125, com sete milhões de cópias. 


A complexidade do álbum acabou não agradando há muitos, mas conquistou uma enorme geração de fãs, e continua criando essa desavença. Para os que apreciam a obra, a discussão é acirrada sobre qual é o movimento preferido dentre os quatro. Uma recente pesquisa na página oficial do Yes no facebook, apontou no último domingo a comprovação dessa divisão de opiniões. 


43% dos que comentaram a publicação "Qual é a sua parte favorita em Tales from Topographic Oceans" escolheram "The Revealing Science of God", enquanto 42% escolheram "Ritual", a última parte do LP. As demais partes, "The Remembering" e "The Ancient", receberam respectivamente 11% e 4%, em um total de mais de quatrocentos comentários até aquele momento. Apesar do número não grande de comentários, isso ilustra bem o que pensam os fãs do grupo em todo o mundo, e essa é a terceira e última justificativa para apresentar "The Revealing Science of God" como a primeira Maravilha prog de Tales from Topographic Oceans, abrindo espaço para futuramente comentar sobre as demais. 

Chris Squire, Rick Wakeman e Steve Howe (acima);
Jon Anderson e Alan White (abaixo)

Nossa escolhida recebeu a seguinte definição por Anderson, na capa interna do vinil: "Primeiro Movimento: Shrutis (tradução: Textos Sagrados) A Ciência reveladora de Deus pode ser vista como uma flor permanentemente aberta, da qual emergem as verdades simples, registrando as complexidades e a magia do passado, e fazendo-nos ver que não deveríamos esquecer nunca a canção que nos foi dada escutar. O conhecimento de Deus é uma indagação objetiva e constante".

Não há divisões entre os vinte minutos e vinte e cinco segundos da suíte. Toda ela é uma única e hipnotizadora peça, surgindo com os vocais de Anderson e leves notas da guitarra, tocadas com o pedal de volume. A marcação de teclados e baixo cresce ao fundo, enquanto as vozes de Anderson começam a se sobrepor (ao vivo, Howe e Squire faziam as vozes de apoio). A canção não para de crescer, com cada instrumento ocupando seu espaço gradativamente, em uma incessante tensão, que conclui-se com uma virada de bateria.

Wakeman apresenta o primeiro tema da canção feita no moog, e temos uma breve sequência de solos de guitarra e moog, feitas sobre um andamento quebrado, arrastado, que repete-se por diversas vezes durante o álbum. 

É esse andamento que carrega o início real da letra, cantada por Howe, Anderson e Squire. Os teclados apenas fazem marcações, enquanto baixo e guitarra pequenas intervenções, e começamos a nos deparar com a série de mudanças que "The Revealing Science of God" apresenta. Quando Anderson fica sozinho, o andamento está mais alegre, sendo o refrão o ponto forte, com as frases "What happened to this song we once knew so well".

Mais duas estrofes sobre o ritmo alegre e repete-se a melodia do refrão, alterando porém a letra ("What happened to wonders we once knew so well"), levando para a fantástica ponte que muda completamente a canção. Os três cantam ao mesmo tempo, com palavras soltas, em um andamento veloz aonde a bateria de White destaca-se com seu andamento percussivo, explorando bastante o bumbo. A guitarra cavalga, permeando as palavras do trio com escalas velozes e rasgadas.

A versão nacional de Tales from Topographic Oceans

Após esse momento, somos levados pelas mágicas notas com pedal de volume da guitarra de Howe. Baixo e bateria conduzem o ritmo marcado enquanto Howe repete o mesmo tema por diversas vezes, até que o moog repete o primeiro tema da canção. Começa então o jazzístico solo de Howe, acompanhado pelos acordes de mellotron e o bonito acompanhamento de baixo e bateria.

Anderson retorna, agora com o moog fazendo intervenções e Howe divertindo-se com os harmônicos. Viajamos pelos acordes de mellotron e moog, enquanto o ritmo da guitarra, baixo e bateria propulsiona força para essa magnífica viagem, conduzida pela voz de Anderson. A sobreposição dos instrumentos é perfeita, e surpreendentemente, retornarmos aos momentos tensões das palavras soltas, com Wakeman espancando o piano.

Entramos no meio da viagem de "The Revealing Science of God", talvez a melhor parte da suíte, com baixo e guitarra fazendo um excepcional duelo de notas, levando para o solo de Howe, carregado de distorção e notas velozes, acompanhado pela pegada de baixo e bateria e com pouca participação dos teclados. 

Steve Howe e Jon Anderson, durante a turnê de Tales from Topographic Oceans

Mais uma guinada surpreendente aparece, com todos os instrumentos parando repentinamente, deixando apenas Howe dedilhar sua guitarra. Tímpanos e pratos fazem intervenções, e eis que Anderson surge solando um emocionante tema em sua flauta, abrindo espaço para o moog. 

A voz de Anderson então apresenta mais uma parte inédita, cercado por mellotron, moog, sintetizadores, escalas de baixo e as notas aleatórias da guitarra, pisoteando o pedal de volume. Wakeman dá show com o mellotron, executando um mesmo tema junto a Danelectro Sitar de Howe, carregada de efeitos. O órgão de igreja e o mellotron ganham força, fazendo um lindo tema que é acompanhado pelas vocalizações de Anderson, enquanto guitarra e moog solam independentemente ao que está acontecendo ao fundo.

A explosão da bateria de White anuncia mais uma sequência pesada e tensa, na qual Wakeman extrapola o limite de sua genialidade com um alucinante solo de moog, perfeito para balançar pernas e cabeças em qualquer lugar que se ouve, encerrando com longos acordes de mellotron que levam a parte final da suíte.

Alan White, Chris Squire, Rick Wakeman e Jon Anderson, na turnê de Tales from Topographic Oceans
Somente com o mellotron, Anderson canta em notas longas, trazendo então as demais vozes e os instrumentos, voltando então para o ritmo quebrado e ao refrão "What happened to this song we once knew so well", concluindo nossa Maravilha conforme seu começo, apenas com as vozes sobrepostas enquanto os teclados fazem marcações e Howe desliza seus dedos pela guitarra, pisoteando o pedal de volume, em um encantador arranjo vocal.

Um espetáculo sonoro, mas que, se você não está disposto e preparado para o choque de mudanças que é apresentado, certamente não irá aprovar, assim como as demais três Maravilhosas suítes, que farei breves comentários no sábado. 

O Yes saiu em uma gigantesca turnê para divulgar o álbum, mas as coisas não andavam bem internamente. Conforme citado, Wakeman ficou bastante desgostoso com o resultado final de Tales from Topographic Oceans, e inclusive, foi a público declarar sua má vontade com o mesmo.

Parte interna da versão nacional

Para piorar, durante uma apresentação no Manchester Free Trade Hall, Wakeman começou a rever sua vida no Yes, principalmente depois de um incidente no mínimo curioso. Enquanto Howe solava sozinho ao violão na bela "The Ancient", o roadie de Wakeman estava comendo uma comida indiana, e havia levado um prato de mesma origem para o palco. Wakeman, sentindo o cheiro da comida, acabou comendo o prato em pleno palco, o que não agradou em nada aos demais, principalmente Howe.

Wakeman bebia, comia carne, gostava de "brincar" com groupies e também divertia-se em bares noturnos, estilo totalmente diferente ao que os demais membros haviam adquirido, muito religioso e familiar. Assim, devido a estas circunstâncias, e também por divergências musicais, no dia 18 de maio de 1975, dia do aniversário de Wakeman, quando começaram os ensaios de gravação do sétimo álbum, Rick deu adeus ao grupo (pela primeira vez), dedicando-se para sua carreira solo e na mesma data que descobriu que seu segundo álbum solo, Journey to the Centre of the Earth (1974), havia conquistado a primeira posição no Reino Unido, fato que se confirmaria na data de 25 de maio de 1974. 

Para o lugar de Wakeman, o tecladista grego Vangelis, que havia encerrado as atividades do fenomenal Aphrodite's Child, foi o convidado, mas problemas internos acabaram levando o Yes a buscar no Refugee o substituto para Wacko, no caso, o suíço Patrick Moraz. Moraz ficou apenas dois anos no grupo, mas suficientes para registrar o álbum Relayer, com mais três peças importantes para o rock progressivo, sendo uma delas, a Maravilhosa "Gates of Dellirium", que será apresentada na próxima semana aqui, no Maravilhas do Mundo Prog. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Yes - Close to the Edge [1972]



1972, o ano da mudança. A geração flower-power despedia-se, através do último álbum dos californianos do Jefferson Airplane, o essencial Long John Silver. David Bowie assassinava Ziggy e o Glam Rock em pleno palco, e o Wishbone Ash fazia surgir uma geração de seguidores com o exemplar Argus, que influenciou nomes como Iron Maiden anos depois. O Pink Floyd havia acabado de apresentar-se em Pompeia, acabando também com uma era de psicodelia londrina, e o Krautrock mergulhava para uma nova direção, através do Kraftwerk e seu experimental Kraftwerk 2.

Nesse fervor de ideias, o rock progressivo crescia ardentemente ao mundo. O já citado Pink Floyd começava suas experimentações que levaram à Dark Side of the Moon, Emerson Lake & Palmer lançou Trilogy, Gentle Giant a dupla Three Friends / Octopus, Ian Anderson dizia ao mundo que o Jethro Tull não era progressivo com Thick as a Brick, e tantas outras formações clássicas consolidavam o rock progressivo como O ESTILO a ser cultuado nas casas, bares e arenas. Mas o Yes faria mais, lançando Close to the Edge.

Esse incrível LP foi eleito pelos Consultores aqui do site como o Melhor Álbum de 1972, e teve sua história contada por mim ano passado, quando completou quarenta anos. Os caminhos trilhados pelo genial quinteto, formado na época por Jon Anderson (vocais, flautas, percussão), Steve Howe (guitarra, violão, voz, steel guitar, Danelectro Sitar), Chris Squire (baixo, vocais, harmônica), Bill Bruford (bateria, percussão) e Rick Wakeman (teclados) havia começado um ano antes, com Fragile, um disco marcante, tendo como destaque a Maravilhosa "Heart of the Sunrise".
Steve Howe, Chris Squire, Bill Bruford, Jon Anderson e Rick Wakeman, durante as gravações de Close to the Edge

Registrando apenas três longas canções, o maior destaque fica por conta da ambiciosa faixa-título. Divida em quatro movimentos, "Close to the Edge" ocupa todo o lado A do vinil, e foi concebida naqueles raros momentos da história da humanidade. "Quando começamos a gravar, começamos com um pedaço de uma música, a qual foi desenvolvendo-se de tal forma que não conseguíamos imaginar como seria o seu fim" falou Bill Bruford anos depois sobre as gravações da canção, que exigiu uma quantidade enorme de trabalho nos estúdios da Advision, entre abril e junho de 1972, gravando diversas partes que acabaram sendo mixadas em um complexo processo de edição de fitas master, trabalho do brilhante produtor Eddie Offord.

A ajuda de Offord foi essencial para que o produto final apresentado ao grande público pudesse ser absorvido e admirado com todo o esplendor de sua grandeza, enaltecida pela genialidade que é a suíte. O produtor, que havia mudado o som do Yes a partir de Fragile, conseguiu traduzir e condensar a nata das estupefantes criações do quinteto. A letra, escrita por Anderson, foi inspirada no livro Siddharta, de Herman Heese, que narra as viagens espirituais do auto-descobrimento, um momento marcante para Anderson e para o Yes, pois ali eles começaram a viver uma fase vegetariana, além de inspirações em religiões orientais.
Chris Squire

"The Solid Time of Change", a abertura de "Close to the Edge", aparece nas caixas de som trazendo barulhos de água e pássaros, com um crescendo dos teclados de Wakeman, estourando no longo solo de Steve Howe. Durante os próximos três minutos, acontece muita coisa para um ouvido despreparado conseguir captar, mas com o passar das audições, o ouvido fica treinado para admirar-se das incríveis linhas de baixo feitas por Squire, em um subir e descer de escalas com uma velocidade incrível, solando em um mundo a parte que por vezes encontra um alucinado Howe fazendo diabruras com a guitarra, mostrando como encaixar notas rápidas sem soar exibicionista.

Falarei de Howe daqui há pouco, já que ele é o homem principal nesse trecho da canção, que também possui uma participação importante de Wakeman, martelando os teclados com notas muito velozes, as quais parecem ter saído de uma programação feita por um computador, tamanha a perfeição da sequência de escalas. E Bruford? O que esse gigante da bateria faz durante todo o solo é sobrenatural. A marcação inventada pelo baterista privilegia apenas leves toques no bumbo, uma agitada batida nos pratos e, quando seu cérebro permite, batidas na caixa e viradas esquisitas, impossíveis de serem reproduzidas ao vivo.

Voltando para Howe, simplesmente o guitarrista destrói. Para muitos, esse é o melhor solo de sua carreira, o que de fato, não deixa de ser correto. Howe inicia seu solo subindo e descendo escalas utilizando de uma série de arpejos, acompanhado apenas por baixo e bateria. A série repete-se duas vezes, e com breve série de arpejos, entra os teclados de Wakeman para Howe soltar seus dedos, abusando de escalas jazzísticas e misturando melodia em velocidade por inúmeras vezes, criando um solo mágico, interrompido brevemente por vocalizações feitas por Anderson.
Steve Howe

O baixo acompanha Howe em um pequeno trecho pós-vocalizações, que surgem novamente para levar Howe ao final de seu solo com uma série de acordes de jazz e notas ainda mais veloz, encerrando magistralmente com bends afiados, dilacerando o cérebro, até chegar na sequência de notas entre baixo, bateria e guitarra, trazendo as vocalizações do trio.

A clássica melodia da guitarra então aparece, repetida por quatro vezes e acompanhada pelos teclados e o leve acompanhamento de baixo e bateria, para então surgir a letra dessa Maravilha, cantada ao mesmo tempo por Squire e Anderson, enquanto Howe debulha sua Danelectro Sitar, Wakeman alterna acordes e Bruford inventa um novo jeito de tocar bateria. Duas estrofes e somos apresentados pela primeira vez ao momento principal da letra de "Close to the Edge", a sequência "Down at the Edge, round by the corner, ... close to the edge, down by the river".

O ritmo muda, tornando-se mais alegre do que a tensa sessão inicial, permitindo que Anderson abrilhante a canção com sua voz, cada vez mais melodiosa e perfeita, logo após um breve solo de Howe. A marcação de Wakeman parece um código morse, e bateria e guitarra fazem o ritmo para Anderson desfilar sua voz, ao mesmo tempo que Squire acompanha atravessando escalas, em um mundo a parte.

Anderson canta sobre a fuga do homem em busca de um futuro, livrando-se dos pensamentos e do seu passado, e nos apresenta outra importante frase de "Close to the Edge", no caso "I get up, I get down", que encerra "The Solid Time of Change" e nos leva para a segunda parte da suíte.
Jon Anderson

"Total Mass Retain" retoma a tensão do início da letra de "The Solid Time of Change", só que tendo ritmo totalmente quebrado por baixo e bateria, além de intervenções dos teclados. Anderson canta agressivamente e sozinho, mostrando que o homem está prestes a encontrar-se com o bem eterno, e lamentando a vida daqueles que não buscam pelo mesmo, e após duas estrofes, voltamos a sequência "Down at the edge, close by a river, close to the edge, round by the corner", com mais intervenções dos teclados para as frases citadas.

O ritmo alegre aparece novamente, e Anderson exalta que os problemas não podem prejudicar sua vida, sempre com a harmonia para cima do ritmo da Danelectro Sitar e as batidas de Bruford, e então, o refrão surge novamente, cantado por todos, encerrando a letra de "Total Mass Retain" com o "I get up, I get down", trazendo uma pequena vinheta instrumental, na qual o Danelectro se sobressai com uma série de escalas, feitas ao mesmo tempo com o baixo e permitindo que Wakeman execute um breve tema no órgão.
A letra dos quatro movimentos de "Close to the Edge"

Mergulhamos então no viajante tema de "I Get Up, I Get Down", um dos momentos mais belos da música mundial, apenas com os teclados executando longos acordes, Howe pisando o pedal de volume com uma suavidade angelical, e Squire colocando distorção em seu baixo, mas sem agredir a espetacular experiência sonora propiciada pelo Yes. Entre os instrumentos, barulhos de gotas serpenteiam a canção, e levemente, dois acordes de teclados vão crescendo seu volume, trazendo as vozes de Squire e Howe na caixa direita, cantando um pequeno trecho da canção, enquanto na caixa esquerda, Anderson canta o nome do trecho da canção.

Anderson agora fica sozinho, falando sobre as pessoas insatisfeitas, as mulheres que observam a mulher chorando, e as enganações diárias da sociedade. Então, as vozes de Howe e Squire sobrepõem-se com a de Anderson, em um magnífico arranjo vocal, sempre acompanhados pelos acordes de Wakeman e uma espacial sessão instrumental ao fundo.

Após o nome do trecho ser exalado por Anderson, um majestoso momento somente com o órgão mostra como Wakeman era capaz de encantar audiências com notas tão sutis, e retornamos então para o ritmo dos dois acordes, para Anderson mais uma vez espalhar ao mundo o nome do trecho de "Close to the Edge", e de novo, Wakeman solar com o órgão de igreja, encerrando esse magistral momento do rock progressivo com uma veloz subida de escalas no moog e no órgão.
Rick Wakeman

Um longo acorde inicia "Seasons of Man", o mais perturbador movimento de "Close to the Edge", com um ritmo insano feito pela marcação no chimbal e bumbo, enquanto Squire pisoteia o wah-wah e Howe e Wakeman repetem os mesmos acordes, ao mesmo tempo, criando um tema especial, que nos leva ao imponente solo de Wakeman nos teclados, comprovando mais uma vez como o jovem músico (na época com apenas vinte e dois anos) sabia tocar com a mesma qualidade qualquer tipo de teclado.

As notas de Wakeman facilmente são capazes de levar o ouvinte as lágrimas, tão o fascínio causado pelas mesmas. Velozes e melódicas, elas invadem o cérebro com muita facilidade, e voltamos então aos vocais de Squire, Howe e Anderson, cantando as últimas estrofes da suíte, quando o homem finalmente descobre seu caminho para a luz eterna, misturando os dois principais ritmos de "The Solid Time of Change", e sabiamente, encerrando com a série "I get up, I get down", após um belíssimo crescendo instrumental e vocal, permitindo apenas que os barulhos de pássaros e rio concluam uma obra-prima, como o ciclo natural pelo qual todos passamos de estar por cima, por baixo, mas sempre buscando o bem, o melhor, e que é pregado nessa Maravilhosa canção.
Bill Bruford

O famoso logo do Yes, criado por Roger Dean
O LP ainda conta com mais duas obras-primas, "And You And I", e "Siberian Khatru", ambas distintas entre si, com a primeira explorando bastante o lado acústico e orquestral do Yes, enquanto a segunda é uma paulada fulminante estabelecida pelos riffs e acordes de Steve Howe, que consagrava-se cada vez mais como o principal guitarrista do rock progressivo. 

É a partir daqui que o logo do Yes, desenvolvido por Roger Dean, virou marca registrada do grupo, sendo abandonado apenas no retorno do grupo durante os anos 80.

Close to the Edge atingiu a terceira posição nos Estados Unidos, e foi quarto no Reino Unido. No auge da carreira, quando parecia que o Yes era uma banda imbatível, eis que Bruford anuncia sua saída do Yes, por divergências musicais. O fato pega todos de surpresa, e mais surpreendente ainda é a escolha do substituto de Bruford, o baterista da Plastic Ono band, Alan White. 

A estreia de White ocorre no ano seguinte, com Tales from Topographic Oceans, um dos discos mais amados e odiados pela imprensa e fãs, e detentor de quatro Maravilhosas suítes, das quais, com muita dificuldade, selecionei apenas uma delas para narrar sua história na semana que vem, no caso, "The Revealing Science Of God (Dance of the Dawn)".

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Tom Zé - Todos Os Olhos [1973]




Um dos compositores mais malucos que o nosso Brasil pariu é sem sombra de dúvidas o baiano Antonio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé. Filho de uma família pobre, que tornou-se rica da noite para o dia após ganharem na loteria, o músico marcou presença na origem do tropicalismo, sendo uma das referências para Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de um braço direito nos arranjos e ideias do maestro Rogério Duprat.

Tom foi um dos idealizadores do projeto Nós, Por Exemplo n° 2, que revelou Caetano, Gil, Gal Costa e Maria Bethânia com apresentações no famoso Teatro Castro Alves, em Salvador. O projeto fez tanto sucesso que levou-os para São Paulo, aonde encenam Arena Canta Bahia, conhecem Os Mutantes e gravam o aclamado e cultuado Tropicália ou Panis et Circensis, em 1968, mesmo ano em que Tom recebe o primeiro prêmio no IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com "São Paulo, Meu Amor". 
Tom Zé, anos 70

1968 foi O Ano da carreira de Tom Zé. Além de Tropicália ou Panis Et Circensis, e da premiação na TV Record, foi o ano também do lançamento de Grande Liquidação, para muitos, o melhor disco da carreira do baiano, e que foi lançado pelo emblemático selo Rozemblit.

Tão emblemático quanto as histórias da Rozemblit é o quarto disco de Tom Zé, batizado de Todos Os Olhos. Depois de afastar-se dos amigos tropicalistas por questões de divergência cultural, Tom apareceu ligado ao selo Continental em 1972, com o álbum Tom Zé, conhecido posteriormente como Se O Caso É Chorar. A mistura irreverente de estilos chamou a atenção do grande público, que no ano seguinte, chocou-se com Todos Os Olhos.


Odair Cabeça de Poeta e grupo O Capote
Responsáveis pelo instrumental de Todos Os Olhos


O ritmo arrastado da curta "Complexo de Épico" nos apresenta um pseudo-samba tropicalista, com uma letra irônica: "Todo compositor brasileiro é um complexado, ... ah meu Deus do céu vá ser sério assim no inferno", saindo em uma viola caipira que faz as notas iniciais de "A Noite do Meu Bem", uma soturna composição com Tom Zé acompanhado apenas por longos acordes de órgão e as notas de viola como que imitando o som de berimbau, em uma das canções mais obscuras e assustadoras da carreira do músico.

"Cademar" é o representante psicodélico-sertanejo, com notas marcadas, imitando um relógio, e Tom Zé cantando o nome da canção de forma gaguejada em pouco menos de 40 segundos, chegando na faixa-título, mais uma deliciosa ironia advinda da mente do baiano, em um ritmo swingado e um refrão encantador, com diversas vocalizações cantando "Mas eu sou inocente" e "Mas eu não sei de nada" entre outras frases que encerram a canção, que trata da visão de Jesus sobre seus fieis seguidores, querendo descansar no céu, ao invés de atender aos mesmos na Terra.

A engraçada "Dodô e Zezé" e uma brincadeira sertaneja entre Odair Cabeça de Poeta (Dodô) e Tom Zé (Zezé), na qual Dodô faz uma série de perguntas para Zezé responder de forma extremamente irônica, chegando inclusive a Zezé simular que não entende o que está sendo pergutado, e ironizar a si mesmo. Essa canção canta com a participação de Rogério Duprat no cavaquinho, e, conforme indicado no encarte, tocando apenas os acordes G7 e C.

O lado A encerra-se com "Quando Eu Era Sem Ninguém", uma canção alegre, no ritmo nordestino que lembra bastante algumas canções de Novos Baianos. Destaque para a voz de Tom Zé, melodiosa e simples. A participação do grupo Capote, responsável pela parte instrumental do álbum, fica evidente nessa canção.


Capa interna de Todos Os Olhos


O lado B começa com uma homenagem para "Brigitte Bardot", um samba-choro, no estilo João Gilberto, lamentando o envelhecimento da atriz, destruindo sonhos de rapazes e homens que a admiraram quando a mesma era bonita, e com uma ironia enorme em toda a letra. "Augusta, Angélica e Consolação" é outro fantástico samba-rock a la Novos Baianos, com talvez a letra mais engraçada da carreira de Tom Zé. A forma como ele lamenta a separação de suas esposas, Augusta e Angélica, e as vocalizações dando a dramaticidade necessária para os lamentos de Tom Zé, certamente irão dar boas risadas com uma letra sensacional.

"Botaram Tanta Fumaça" retorna aos ritmos nordestinos, misturando samba e baião, e mandando ver na população brasileira, com a clássica frase: "Tá, tá, tá com a consciência podre", enquanto "O Riso e a Faca" acalma os ânimos, levada pela viola e por um bonito arranjo de cordas.

A curta "Um "Oh" e um "Ah"" é um divertido jogo de palavras sobre as vogais que aparecem no nome da canção, além de vocalizações, retornando para uma versão estendida de sete minutos para "Complexo de Épico", repetindo a letra da canção que abre o álbum e ampliando-a para mais críticas aos compositores brasileiros, deixando a pergunta na mente do ouvinte: "Por que todo compositor brasileiro é um complexado?".


Foto da sessão para a capa do álbum, gentilmente cedida por
Chico Andrade

Com a repressão política da ditadura militar em nosso país, o músico superou barreiras, e ainda, enganou os militares com um disco ousado, criticando a tudo e a todos com uma rispidez áspera. Para complementar, uma capa ainda mais ousada que as irônicas e geniais canções que abrilhantam o LP.


A arte foi feita pelo artista Chico Andrade, e foi considerada pela revista Folha de São Paulo como a segunda melhor capa de álbum do século XX, além de fazer parte de uma exposição com as cincoenta melhores capas de todos os tempos, realizada em 2011.

Tom Zé já tinha o nome do álbum quando procurou Décio Pignatari, pedindo por uma capa provocante, mas que ao mesmo tempo enganasse a censura. Décio era sócio de Chico, que logo teve a ideia do famoso "olho do cú". Então, pensou em colocar uma bola de gude no cú de uma pessoa, ampliar a imagem e tornar irreconhecível o entorno da região.


Tom Zé, anos 2000

Envolvendo a participação de diversas pessoas, dentre elas Silvio Vasconcellos (fotografia), Marcos Pedro (edição) e Marco Antonio Rezende (redator), Chico encaminhou o projeto para aprovação de Tom Zé. É nesse momento que surge a pessoa principal da imagem, a dona do "olho". O nome perdeu-se no tempo, mas segundo o site chicoandrade.wordpress.com, a moça era uma garota de programa, que fazia ponto próximo ao Jockey Clube de São Paulo.

A ideia então foi aprovada, e ao mesmo tempo que a prostituta do Jockey era fotografada, Reinaldo Moraes, um fotógrafo profissional, fazia a mesma imagem com outra mulher, que acabou entrando na versão final, e ele acabou levando a fama pela capa, apesar da ideia original ser de Chico. 


Todos os olhos de Todos Os Olhos
Quarenta anos de um disco genial, que ainda está para ser descoberto pelos brasileiros e pelo mundo!



Track list


1. Complexo de Épico 
2. A Noite do Meu Bem
3. Cademar 
4. Todos os Olhos 
5. Dodô e Zezé 
6. Quando Eu Era Sem Ninguém 
7. Brigitte Bardot 
8. Augusta, Angélica e Consolação 
9. Botaram Tanta Fumaça 
10. O Riso e a Faca
11. Um "Oh" e um "Ah" 
12. Complexo de Épico 

* As imagens originais da capa de Todos Os Olhos foram gentilmente cedidas pelo proprietário, Chico Andrade
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