sábado, 18 de novembro de 2017

Melhores de Todos os Tempos - Aqueles que Faltaram: por Alexandre Teixeira Pontes


Michael Anthony, Alex Van Halen, David Lee Roth e Eddie Van Halen


Nota do editor: quando publicamos a última edição anual da série, abordando 2010, há pouco menos de um ano, agradeci a todos aqueles que ajudaram a fazer desse trabalho algo tão especial: colaboradores, convidados e leitores. Agradeço novamente a todas essas pessoas que tornaram isso realidade e manifestaram suas opiniões com respeito e civilidade. Desta vez, porém, o fim é para valer. Não haverá outra extensão da série. Quem quiser ler ou reler as edições anteriores, pode clicar aqui e seguir livre para comentar quantas vezes desejar, seja em tom elogioso ou crítico. Obrigado!



Por Alexandre Teixeira Pontes

Edição de Diogo Bizotto

Com André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Flavio Pontes, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Coube a mim a imensa responsabilidade de fechar esta ótima série. Aliás, se é um desafio, também é um bônus, pois vários dos meus álbuns foram sendo citados pelos demais consultores. Sobrou mais espaço para outros, e isso é muito bom. Eu, que venho acompanhando a série quase desde o início, tenho ficado grato com citações aos grandes álbuns dos anos 1960 e 1970. Assim, resolvi privilegiar, entre uns 25 discos que ainda tinha na manga, os anos 1980. Nessa década, a edição voltada a 1984 deixou para mim, desde a publicação, a sensação de que faltava algo. Aliás, faltava bastante coisa, se me permitem a ousadia. É um ano mágico para o hard rock e o heavy metal, gêneros que dividem minha predileção junto com o progressivo. Esta lista cita então três álbuns lançados nesse ano. Por isso resolvi ilustrar esta publicação com o Van Halen, que aparece aqui com seu disco intitulado com o ano em questão. Mesmo assim, alguns bons lançamentos, como o enérgico primeiro do W.A.S.P. e o grande Slide It In, do Whitesnake, acabaram sendo preteridos. Não dava para fazer uma lista só com 1984. Registro aqui minha homenagem ao ano em particular e meu agradecimento a todos os participantes pela oportunidade de aprender. Valeu, Consultoria!


Renaissance - Ashes Are Burning (1973)
Alexandre: Confesso que olhei a edição dedicada a 1973 várias e várias vezes para ter certeza de que não estava enganado. Mas é verdade; este, que talvez seja o mais clássico entre os álbuns que escolhi, realmente não está lá!!!!! Sei que foi um ano forte, mas não dava para esquecer de Ashes Are Burning. Este será, provavelmente, meu maior momento de indignação nesta série. Pior ainda, o Renaissance não aparece em nenhuma edição da série (indiquei-os em 1975). Ou seja, para mim há uma clara lacuna. A banda precisava ser mencionada, a voz de Annie Haslam jamais poderia ficar de fora, uma vez que fosse!!! Pouca gente cantava como essa moça em 1973. Assim, resolvi escolher Ashes are Burning entre outros ótimos álbuns desse grupo. A escolha é até um pouco óbvia, pois há, entre as seis boas faixas, quatro autênticos e inquestionáveis clássicos. Minhas favoritas apontam primeiramente para a faixa-título, mas para os também inacreditáveis vocais de "Carpet of the Sun". Confesso, sem cerimônia alguma, que adoro "Let It Grow", música mais radiofônica do grupo, que tocou nas rádios brasileiras, e da poderosa abertura, com "Can You Understand". Um pouquinho abaixo das demais está "On the Frontier", ainda assim uma faixa de qualidade. Ótimos pianos, teclados, ótimo baixo e um compositor de mão cheia (Michael Dunford). Não dava para deixar este disco de fora.
André: Gostei muito da lista do Alexandre, porém, se ele me permite uma pequena crítica, achei que nosso amigo se focou muito em bandas que já apareceram antes e constam aqui com seu quarto ou quinto melhor disco, tendo em vista que os clássicos já entraram antes. Eis aqui, contudo, o Renaissance, para tirar essa impressão, fazendo justiça a uma das mais belas bandas do progressivo setentista, e com um dos seus melhores álbuns, é claro. Um pouco mais direto e menos progressivo que os anteriores, além de usar mais elementos folk europeus em seu rock sinfônico, Ashes Are Burning é uma bela coleção de melodias do início ao fim. Não tem como negar que, quando a musa do prog Annie Haslam abre a garganta, tudo fica menor diante de sua linda e doce voz. Apesar de eu gostar da maioria dos álbuns aqui citados, ver uma banda que não apareceu antes entre aqueles que faltaram é de um alívio enorme. Melhor disco da lista e agradecido ao Alexandre por nos ter dado a oportunidade de fazer justiça ao Renaissance.
Bernardo: Rock progressivo com orquestra, um dos primeiros. Bem, posso estar sendo redundante nesses comentários, mas realmente não faz meu estilo. Ouvi e esqueci.
Christiano: Um dos discos mais bonitos que já ouvi. Tudo soa tão perfeito que é até difícil comentar. Não existe ao menos uma música que seja mais fraca. Claro que algumas se sobressaem, como é o caso da abertura, com “Can You Understand”, que, além de ter uma melodia perfeita, apresenta variações de andamento muito interessantes. Aliás, o arranjo de baixo é muito bem elaborado. Outro momento de extrema beleza é “At the Harbour”, no qual Annie Haslam mostra que foi uma das melhores vocalistas daquela rica década. Enfim, um disco perfeito e, sem dúvida, um dos melhores de todos os tempos.
Davi: Vocês acreditam que eu comprei um monte de discos desses caras e ainda não peguei este, que é justamente o mais famoso? Kkkkkkkk, eu e minhas loucuras. Gostei muito do álbum. O som do Renaissance é bem suave, calmo, com bastante violão, piano e orquestrações. Não faltam, é claro, as passagens instrumentais, o anticlímax, as quebradas de tempo, mas tudo é feito de maneira menos exibicionista. As linhas melódicas são muito bem construídas e a voz delicada de Annie Haslam casa super bem com a sonoridade do quarteto inglês. Michael Dunford e Andy Powell, do Wishbone Ash, fazem uma participação especial na bela faixa-título, mas minhas preferidas são mesmo “Can You Understand”, “Let It Grow” e “Carpet of the Sun”. Lindo disco.
Diogo: Tenho uma relação mais próxima com quase todos os álbuns citados pelo Alexandre, mas Ashes Are Burning só não é sua mais importante citação por conta de 1984, que realmente é marcante demais. Tenho apreciado mais e mais o som do Renaissance ultimamente, sua maneira de fazer progressivo com intersecções folk e sinfônicas, conduzido mais pelo piano do que por qualquer outro instrumento e menos focado nas guitarras, isso sem falar nos maravilhosos vocais de Annie Haslam. Faltam-me palavras adequadas para elogiá-los como deveria. Arrependo-me, inclusive, de não tê-la citado na edição especial desta série voltada a escolher os melhores vocalistas de todos os tempos. Tirando "On the Frontier", que não chama tanto minha atenção, todo o restante do disco é excelente. "Let It Grow" e "Carpet of the Sun" soam acessíveis sem soarem comuns, apresentando algo mais radiofônico com muita qualidade e personalidade. A faixa-título é uma bela demonstração daquilo que escrevi mais acima, mas é "Can You Understand", com uma carga de dramaticidade acima da média, que me fisgou de vez e fez com que eu prestasse mais atenção a este álbum. Não esperava ver o Renaissance lembrado por aqui, mas é algo muito bem vindo.
Fernando: Único representante da década de 1970, o Renaissance é uma banda praticamente desconhecida da maioria das pessoas, mas muito cultuada pelos que ouvem progressivo. Uma das coisas que sempre pensei sobre o grupo é que ele acabou sendo estigmatizado por ter Annie Haslam no vocal. Fica sendo sempre o progressivo com voz de mulher. É claro que ela tem uma voz fantástica e seria até natural realmente chamar atenção por isso, mas subestima-se o instrumental, que também é de alto nível.
Flavio: Em um progressivo com pouca presença de guitarras, focado no maravilhoso vocal de Annie Haslam e no teclado (predominantemente piano) de John Tout, o Renaissance aparece com seu disco clássico: Ashes Are Burning. O álbum é o primeiro do grupo a contar com acompanhamento de orquestra, trazendo um tom ainda mais grandioso para o som. Recheado de composições fortes, mostrando a banda em ótima fase, fica difícil apontar uma melhor canção, já que todas trazem aspectos destacáveis em formas diferentes. "Can You Understand" abre como um excelente folk progressivo e é seguida pela canção mais conhecida no Brasil, muito executada pelas rádios nos anos 1970: "Let It Grow", uma balada com tom suave e um vocal extraordinariamente belo de Annie. Destaco a curta "Carpet of the Sun", fortemente preenchida pelo piano acústico, e o fechamento de ouro com a faixa-título, em um rock progressivo com todos os seus elementos, incluindo o baixo Rickenbacker palhetado de John Camp, outro elemento bem presente à epoca. Um disco excelente e altamente recomendado para os amantes do rock progressivo dos anos 1970.
Mairon: Este é o segundo disco da encarnação consagrada do Renaissance, aquela com Annie Haslam nos vocais, John Tout ao piano, Jon Camp no baixo e Terence Sullivan na bateria (além da participação especial de Michael Dunford no violão e na voz). É o álbum que colocou o grupo no mundo dos grandes do rock progressivo. Os discos anteriores (dois com Keith Relf e Jane Relf nos vocais, e o ótimo Prologue, de 1972) mostram uma banda com grandes inspirações na música renascentista, mas com tons psicodélicos que ainda eram reflexo do fim dos anos 1960 na Inglaterra. Em Ashes Are Burning, o grupo realmente concentra-se em construir algo totalmente novo, misturando a música renascentista com o pop, e faz isso com tamanha propriedade que acaba gerando no mínimo dois clássicos incontestáveis, chamados "Let It Grow" (que letra sensacional) e "Carpet of the Sun", hinos sagrados para todo fã que se preze. Ao mesmo tempo, a banda passou a apostar na criação de épicas suítes que empregam elementos orquestrais, algo que seria uma marca do Renaissance nos cinco anos posteriores. Nesse quesito, "Can You Understand", com sua linda introdução ao piano, e a faixa-título, uma das melhores canções do grupo, com um espetáculo à parte pelos teclados de Tout, dão um banho de composição e melodia. A última, inclusive, conta com a participação de Andy Powell (Wishbone Ash) nas guitarras. Fecham o tracklist "At the Harbour", um espetáculo vocal de Haslam acompanhada apenas pelo violão, e a lindaça harmonização vocal flower power de "On the Frontier". O ano de 1973 foi complicado, mas com certeza haveria espaço para o Renaissance na respectiva edição, principalmente no lugar dos Stooges. Ótima adição, Alexandre.
Ronaldo: O Renaissance encontra sua zona de conforto definitiva em Ashes are Burning, com um encaixe sinérgico entre melodias conduzidas pelo piano, fortes marcações no baixo, violões ritmados e a frequência vocal cândida de Annie Haslam. No meio de uma profusão de sons de teclado que era praxe na época, chega a ser minimalista a banda praticamente conduzir todo seu trabalho apenas por um solene piano acústico e o mesmo pode ser dito sobre a quase total ausência de guitarras. Canções memoráveis e com fantástica construção de arranjos, como a longa faixa-título e "Can You Understand", é algo que faz o disco ter seu espaço garantido no rock progressivo.
Ulisses: Ouvir Annie Haslam durante 40 minutos é terapêutico. Letras edificantes e uma atmosfera folk com momentos sinfônicos abrangentes perpassam todo o tracklist. Junte isso aos ótimos arranjos e à proficiência prog que a banda ocasionalmente traz, e nota-se que o Alexandre escolheu iniciar sua lista com um álbum do qual é impossível não gostar.


Scorpions - Blackout (1982)
Alexandre: Que eu incluiria os alemães aqui, isso era certo. Apenas dois álbuns deles estiveram na série. Selecionar um disco do Scorpions foi praticamente uma “escolha de Sofia”. Depois de boas escolhas feitas pelo Flavio e pelo Fernando, faltavam ao menos três grandes registros não citados. Além de Blackout, In Trance (1975) e Lovedrive (1979) martelaram minha cabeça. Por fim, a despeito da minha enorme admiração por Ulrich Roth e Michael Schenker, resolvi incluir este também excelente álbum dos alemães. Afinal, Mathias Jabs também é um guitarrista super competente e Rudolf Schenker encontrava-se ainda em plena forma como compositor. Além disso, minha entrada no universo do grupo foi por Blackout, um disco que traz uma relação mais emocional comigo. Considero apenas "Now!" ligeiramente abaixo das demais. Mesmo a menos conhecida "Arizona" me agrada muito. O lado A traz três canções clássicas, que estiveram no duplo World Wide Live (1985): "Can’t Live Without You", "No One Like You" e a faixa-título, essa presente em qualquer show que se preze até hoje. Minha favorita, no entanto, é a linda balada "You Give Me All I Need". O lado B começa com outra super tocada nos shows, "Dynamite", e termina em altíssimo nível: "China White", um épico mais cadenciado, de clima oriental, com uma performance excepcional de Klaus Meine, na época recém recuperado de uma delicada cirurgia vocal . Para fechar, outra linda balada, que de vez em quando dá as caras nos shows: "When the Smoke Is Going Down". Blackout é um disco praticamente sem pontos fracos.
André: Disco clássico do Scorpions, banda que já foi muito bem representada na série. Não ficaria exagerado, entretanto, colocar mais este álbum entre os dez de 1982. Melódico até o talo e divertido até dizer chega, é aquele típico rock chacoalhador de cabelos que faz muito bem aos ouvidos. Só balançar ao som das faixas de que mais gosto, que são "No One Like You" e a empolgante "Arizona" (que grandes guitarras!).
Bernardo: Tirando "No One Like You", sempre achei o mais sem graça da fase áurea do Scorpions.  Acho o sucessor (Love at First Sting, de 1984) tão melhor que não tem nem comparação.
Christiano: Além de ser um bom disco, talvez traga a melhor capa do Scorpions, que nunca foi uma banda criativa na hora de escolher a embalagem para seus álbuns. Por mais que Love at First Sting seja considerado o grande representante do que fizeram na década de 1980, acho que foi em Blackout que conseguiram alinhar suas aspirações comerciais, tendo em vista o mercado norte-americano, a ótimas composições. Nada soa exagerado ou mesmo desnecessariamente repetitivo, coisa que marcaria seus lançamentos posteriores. Além de mostrar um hard rock cativante e bastante enérgico, alguns momentos mais pesados, como “Now!” e mesmo a faixa-título, mostram que a banda estava no auge, mesmo após uma sequência de ótimos álbuns gravados na década anterior.
Davi: Este álbum foi criado durante um período tenso e, mesmo assim, acabou atingindo um puta nível. Enquanto criavam este disco, Klaus Meine ainda se recuperava dos problemas que havia tido com suas cordas vocais. As demos, inclusive, foram gravadas por Don Dokken (Dokken). Graças ao bom pai, Klaus se recuperou e pôde gravar o LP. Gosto bastante do Dokken, mas Klaus é a cara da banda. O álbum segue a lógica de Lovedrive (1979) e de Animal Magnetism (1980). Ou seja, traz uma maior aproximação com o hard rock e espaço para as power ballads (fórmula que chegaria ao ápice no fantástico, soberbo e magnífico Love at First Sting. As baladas são representadas pelas (boas) “You Give Me All I Need” e “When the Smoke Is Going Down”, mas é nas mais pesadas que o quinteto realmente rouba a cena. “Blackout”, “No One Like You”, “Can't Live Without You” e “Dynamite”, mais que impactantes, são clássicos da trajetória do grupo. Fazia tempo que não ouvia este disco. Espetacular!
Diogo: Blackout é o álbum que cristalizou de vez a sonoridade pela qual o Scorpions se tornaria mundialmente conhecido, através deste e mais especialmente do lançamento seguinte. Desde Lovedrive a banda já vinha flertando com algo mais acessível e baseado mais em melodias (vocais e na guitarra) e refrãos contagiantes do que nos riffs de Rudolf Schenker. Com Blackout, a metamorfose se completou. O grupo tem o mérito de ter incluído esses novos elementos e se mantido na seara do hard rock com evidentes flertes com algo mais pesado, além de ter caprichado em composições realmente cativantes. Cinco faixas exemplificam tudo isso que expliquei de maneira muito evidente: a canção que dá título ao disco, "Can't Live Without You", "You Give Me All I Need", "Arizona" e, mais especialmente, a ótima "No One Like You". O flerte mais forte com o heavy metal (já em sua forma oitentista, ao contrário do que ocorre em álbuns como Virgin Killer, de 1976, e Taken By Force, de 1977) acontece na forma da excelente "Dynamite", minha favorita ao lado de "China White", cujo estilo arrastado e pesado remete a "The Zoo" (Animal Magnetism) e poderia ter sido melhor explorado em lançamentos seguintes. É realmente uma pena que isso não tenha ocorrido. "When the Smoke Is Going Down" é uma boa balada sem a breguice de outras músicas do tipo criadas pelo Scorpions em oportunidades posteriores e fecha um grande disco que, por mais que não tenha o mesmo nível de qualidade daquilo que a banda fez entre 1975 e 1979, mostra várias razões pelas quais o Scorpions tem sido tão longevo, mesmo tendo lançado álbuns bem menos relevantes. Repertório esses caras têm de sobra.
Fernando: Sei da importância deste disco para a banda na época de seu lançamento e a capa icônica marcou demais. Sei que se eu falar que não gosto tanto dele posso ofender alguns, mas eu prefiro, por exemplo, o anterior, Animal Magnetism, e o seguinte, Love at First Sting. Acredito que ambos têm mais faixas clássicas do que Blackout.
Flavio: Blackout continua a evolução da banda rumo ao estilo calcado nas melodias vocais, trazendo seu melhor ponto na discografia nesse aspecto. Em um disco praticamente perfeito, há todos os elementos do clássico hard rock, caso das aceleradas "Blackout", "Can't Live Without You", "Dynamite" e da curta "Now!", e das baladas (como "When the Smoke Is Going Down"), que mais adiante tornar-se-iam fórmula de sucesso para os grupos do estilo. Há ainda as ótimas midtempo "No One Like You" e "You Give Me All I Need", além da repetição do ritmo super marcado de "The Zoo" em "China White", com a jogada genial de tempo desconcatenado até o fim do compasso nas estrofes. Recomendo Blackout como ótimo ponto já na fase comercial da banda. Embora não tenha obtido o sucesso do disco subsequente, sempre será apreciado por mim como o melhor do puro hard rock, antes das lantejoulas e das baladas açucaradas tomarem conta do repertório dos alemães.
Mairon: Depois da saída de Uli Roth, o grupo chamou de volta Michael Schenker para as guitarras. Com a adição de Matthias Jabs, gravou o bom Lovedrive. Michael preferiu seguir em carreira solo e sobrou para Jabs a posição de guitarrista principal. Veio Animal Magnetism, traçando novos caminhos para o grupo e a consolidação dessa nova formação com Blackout, um álbum que mescla elementos do hard que consagrou os alemães nos anos 1970 com ares mais americanos, que os tornaram gigantes nos anos 1980. Da parte hard, destacam-se a ótima faixa-título e a pegada "Now!", todas passíveis de estarem presentes ao menos em Taken By Force. Já no som mais americanizado, "Can't Live Withot You" e "Arizona" são as representativas, e não sou grande fã delas. Agora, quer saber o que virou o Scorpions nos anos 1980, ouça "No One Like You", "You Give Me All I Need" e "When the Smoke Is Going Down", faixas que misturam pseudobaladas dedilhadas com solos rasgados e refrãos grudentos, além de letras melosas e cheias de romantismo. Se quiser ouvir as melhores canções, vá direto ao lado B e largue a agulha na primeira faixa, "Dynamite", talvez a última grande canção dos alemães, ou então na terceira, "China White", pesada e totalmente diferente de tudo o que o Scorpions gravou antes ou depois. Blackout é um dos últimos discos decentes da banda, muito aquém daqueles lançados nos anos 1970, mas digno de estar presente na edição voltada a 1982, no lugar do The Descendents ou do Cock Sparrer.
Ronaldo: Um disco muito importante para a consolidação da identidade do hard rock/heavy metal dos anos 1980. Musicalmente, o Scorpions se concentrou em duas ou três fórmulas de riffs pesados e trabalhou forte nos refrãos e nas linhas vocais, de modo a torná-las as mais entoáveis possíveis. O disco é claramente limitado em seu conceito, mas é inegável que as músicas funcionam muito bem. Agitam a cabeleira e são rocks de primeira.
Ulisses: Um dos álbuns mais queridos da segunda fase do Scorpions. Não é por menos, afinal a banda estava afiada e conseguiu entregar performances empolgantes, como a icônica faixa-título, "Now!" e "Dynamite". As baladas não são tão melosas e há músicas mais cadenciadas no fim (as surpreendentes "China White" e "When the Smoke Is Going Down"). Já é o terceiro álbum do Scorpions resgatado nesta série!


Black Sabbath - Born Again (1983)
Alexandre: Prevejo polêmicas, porque, pelo que me consta, Gillan acabou aceitando essa doideira mais pela grana do que propriamente pela ideia de ser vocalista do Black Sabbath. A produção e a mixagem, ninguém contesta, são muito ruins. Quem for por uma dessas linhas para sentar o pau no álbum, no fundo até tem razão. A razão, contudo, muitas vezes perde para a emoção. Nunca ouvi na vida Gillan soar como em Born Again, nem nos seus melhores momentos junto ao Purple. Aliás, pouquíssimas vezes ouvi alguém cantar assim. Quando ouço os sons soturnos de "Stonehenge" e a eles se emendam os vocais mais macabros que alguém já entoou na banda, em "Disturbing the Priest", entendo que já é um total bônus ter tido a rara oportunidade de juntar essas três lendas em um registro fonográfico. Além disso, vai a minha opinião mais pessoal, eu realmente curto demais várias dessas canções. O lado A, que termina com "Zero the Hero", é bom por inteiro. O lado B tem duas faixas mais fracas, que até eram tocadas na turnê: "Digital Bitch" e "Hot Line". A faixa-título, no entanto, uma balada com outro vocal inacreditável de Gillan, também é espetacular. Uma questão muito peculiar; nos anos 1980 tive várias edições de Born Again em vinil, porque muito provavelmente um problema da prensagem nacional (muito da vagabunda) fazia o álbum pular na última faixa. Sempre no mesmo trecho, pouco depois do solo. Perdi as contas de quantos álbuns comprei, troquei, reclamei na loja, tudo em vão. O problema só foi reparado quando adquiri o CD e depois o Flavio acabou comprando uma versão importada do disco. Por conta disso, "Keep It Warm" acabou entrando entre as faixas das quais gosto, aliás, com um belo solo do sr. Iommi. Born Again resume-se, para mim, na frase que o inicia, em "Trashed": “It really was a meeting!”.
André: Incrível como este disco virou cult no Brasil. Lá fora continua ignorado como sempre. Seguindo a opinião do povo, também o curto, exceto a capa horrorosa. Não tem como não se impressionar, principalmente com os vocais insanos de Gillan, para muitos o melhor trabalho que ele fez na carreira. Adoro "Trashed" e "Disturbing the Priest". Ouvi muito este álbum há uns quatro anos, não ouço tanto hoje em dia, todavia adoro o jeito pesado e cru que ele possui. Nem mesmo sua produção ruim me tira qualquer consideração para com ele.
Bernardo: O disco visceral do Black Sabbath. Iommi em parceria com Gillan estava possuído, e além da delinquência de "Trashed" tem momentos verdadeiramente assustadores, como a faixa-título e "Zero the Hero". A capa tosca, a produção estourada, Gillan estourando a voz para nunca mais cantar direito no Purple, a cozinha estourando, Iommi mais barulhento que nunca  esse não é o Black Sabbath requintado depois de uma viagem onírica de LSD, esse é o Black Sabbath tosco depois de uma bad trip muito ruim de bagulho estragado. Ainda tão prazeroso e desconfortável de se ouvir na mesma medida... Um disco único.
Christiano: Quando me perguntam o que acho deste disco, nunca sei o que dizer. Tinha tudo para ser um clássico, pois traz o vocalista do Deep Purple para cantar no Black Sabbath, duas das maiores bandas da década de 1970. Imagino que tenha gerado muita expectativa na época em que foi lançado... Mas essa gravação é horrível. Claro que existem ótimas faixas, bons exemplos são “Trashed” e “Disturbing the Priest”, as duas de que mais gosto. Sei que hoje em dia o álbum ganhou status de cult, mas não o considero um dos melhores momentos da carreira do Sabbath, que, aliás, gravou discos bem melhores com Tony Martin.
Davi: Essa é, sem dúvidas, uma das capas mais feias da história do rock. Esse diabinho lembra-me o “bebê diabo” que o jornal Noticias Populares criou décadas atrás. Musicalmente, considero-o um disco bacana, mas ele não me soa muito Sabbath. Também acho que falta uma música realmente marcante. A mais lembrada é “Trashed”, que até ganhou videoclipe. Mesmo assim, para uma banda que tem sons como “Heaven and Hell”, “N.I.B.”, “War Pigs”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Mob Rules” em sua trajetória... Gillan ainda estava com uma voz forte, soltando altos agudos. Tony Iommi é um mestre na arte de criar riffs, mas os riffs de “Hot Line”, “Disturbing the Priest” e “Digital Bitch”, ainda que sejam excelentes, definitivamente não me soam Sabbath. Remetem-me a Rainbow, Iron Maiden e Ozzy Osbourne (carreira solo), respectivamente. Acho que em “Zero The Hero” foi resgatada um pouco da essência da banda, com aquela pegada mais arrastada tão marcante. É um bom disco, não há dúvidas, mas para apreciá-lo precisamos esquecer que estamos ouvindo um trabalho do Black Sabbath, mesmo que essas palavras estejam estampadas na capa.
Diogo: Publiquei recentemente uma edição da seção "Do Pior ao Melhor" abordando o Black Sabbath. Na oportunidade, mencionei o fato de Born Again  vir recebendo mais reconhecimento nos últimos dez ou 15 anos, ao menos dos fãs brasileiros. Ao mesmo tempo que há merecimento, pois se trata de um bom álbum, com algumas ótimas canções, há muito exagero em torno desse fato. Sua produção e sua mixagem, por mais que tenham lhe dado um caráter único, pesado e ardido, parecem coisa de amador, ainda mais considerando que, bem pouco tempo antes, o grupo havia feito um belo trabalho nesse sentido, ao lado de Martin Birch. Para alguns, Ian Gillan protagoniza um festival de gritos; para outros, a melhor performance de sua carreira. Nesse quesito, devo admitir, encontro-me no segundo grupo, pois muito me agrada o berreiro que adorna as magníficas "Trashed" (o melhor exemplo de como o Sabbath com Gillan era um monstro completamente diferente, incluindo letras) e "Disturbing the Priest". Não sou tão fã de "Zero the Hero", mas seu riff é grandioso ao ponto de ter sido reciclado por outras bandas e pelo próprio Iommi. "Digital Bitch" é legalzinha e a faixa-título é uma das baladas mais estranhas que já ouvi na vida, mas gosto dela. "Hot Line" não fede nem cheira, já "Keep It Warm" é uma das piores canções registradas pelo Black Sabbath. Colocando suas características em uma balança, Born Again pende mais para o lado positivo; ainda assim é necessário arrefecer os ânimos daqueles muito empolgados.
Fernando: Aqui no Brasil, me parece, este álbum é mais bem considerado que no resto no mundo. Não sei como foi para outras pessoas, mas, para mim, um disco do Black Sabbath com Ian Gillan foi muito mais uma curiosidade do que algo para se levar a sério. Não sei como foi a repercussão na época, mas será que todos achavam que a banda poderia ser longeva com essa formação? E se engana quem achou que eu não gosto do álbum.
Flavio: Em uma cartada inesperada, mr. Iommi recrutou o ex-vocalista da fase clássica do Deep Purple para não deixar a peteca cair após a saída de Ronnie James Dio. A ida de Ian Gillan para o Black Sabbath foi comemorada pelos fãs com grande expectativa para o disco e pela manutenção do altíssimo nível da demoníaca banda. Born Again não falha em trazer boas performances de Gillan, Iommi, Butler e também do baterista Bill Ward. Há pontos altíssimos, como a linda faixa-título e a religiosamente perturbadora "Disturbing the Priest", com um assombroso e avassalador vocal, realmente uma aula de mr. Gillan. "Trashed" também marca, com um heavy rock mais acelerado de bom nível, fato que não se pode dizer do videoclipe lançado à epoca, um verdadeiro "trash video", ou melhor, um lixo visual. Coisas esquisitas aqui e ali, interlúdios de efeitos sonoros entre as faixas, a polêmica capa e o som abafado e criticado da produção não chegaram a afetar o bom nível da bolacha, que ainda tem outras boas composições, como "Zero the Hero". Gillan passou como um cometa no Sabbath, ajudou a montar um álbum inesquecível, acabou com a voz na turnê e se foi de volta para o Purple no ano seguinte, em outro ótimo disco presente nesta edição.
Mairon: Este é um dos discos que mais ouvi na vida. Quando descobri o Sabbath, não sei por que Born Again chegou-me facilmente, e me encantei por pedras furiosas do porte de "Digital Bitch", "Hot Line", "Trashed" e "Zero the Hero", disparadas as melhores canções do único álbum de Gillan com Iommi, Butler e Ward (que baita line-up). As canções mais arrastadas também são interessantes, e nesse caso cito "Disturbing the Priest" e a ótima faixa-título. O gogó de Gillan estava afiadaço, com o homem mostrando uma vontade de cantar rock pesado depois de um período no fusion junto à Ian Gillan Band e com uma carreira sem muito sucesso com o Gillan. Todas as canções que citei são exemplos de por que Gillan é considerado um dos maiores vocalistas de todos os tempos. Pena que não manteve sua voz. Não sou muito fã de "Keep It Warm", acho que está bem abaixo das demais, e "Stonehenge" e "The Dark" são meras vinhetas que não contribuem em nada para a obra em geral. É um baita disco, que poderia ter dado mais frutos se não fosse o retorno da Mark II no ano seguinte. Pelo contexto histórico e pela gravação em geral, teria espaço na edição abordando 1983.
Ronaldo: Já tive a oportunidade de detonar este disco em outras cercanias e estou diante do mesmo ofício novamente. Capa horrenda, produção sonora bisonha (bateria alta e grave, som estourado, abafado e sem distinção entre guitarra e baixo). No meio disso tudo, berros e mais berros de Ian Gillan. "Stonehenge" prova que havia salvação para coisas feitas com teclados nos anos 1980, mas os tecladistas deram de costas para coisas do tipo. As linhas vocais parecem ter sido feitas com o único objetivo de fazer Ian Gillan gritar o máximo que pudesse, os riffs são estranhos e as músicas parecem ser apenas amontoados de frases de guitarra. "Digital Bitch" até é um pouco mais honesta, apesar de convencional; contudo, a péssima qualidade de gravação joga tudo a perder. "Born Again", se bem gravada e lançada com a sonoridade do Black Sabbath em 1973, poderia ter alguma salvação.
Ulisses: A junção do grande Ian Gillan com os instrumentistas originais do Sabbath parece uma daquelas coisas que os fãs ficariam imaginando naquelas brincadeiras de "monte sua banda ideal" e coisas do tipo, exceto que dessa vez foi algo que realmente aconteceu. O único fator que pesa contra o disco – pelo menos até certo ponto – é a mixagem, um tanto densa, com um som de bateria pobre e por vezes deixando a guitarra quase enterrada sob a grave camada sonora – e é um pecado fazer isso com o maior guitarrista do heavy metal. Fora isso, as composições ficaram um tanto interessantes, com Iommi entregando alguns de seus melhores riffs ("Zero the Hero", "Digital Bitch") e Gillan em performance lendária, soando quase psicótico na excelente "Trashed" e em "Disturbing the Priest". Nenhum outro álbum da banda suscita tanta controvérsia quando este aqui, e eu devo dizer que vejo nele mais pontos positivos do que negativos.


Ozzy Osbourne - Bark at the Moon (1983)
Alexandre: Mais uma vez Ozzy? Não, mais uma vez Jake E. Lee!!!!!! E, é claro, o extraordinário e subestimado Bob Daysley. A presença de um monstro como Tommy Aldridge fica até em segundo plano, ofuscada pelo talento desses dois. O disco já vale apenas pela soberba interpretação de Jake na faixa-título. E tendo a imensa responsabilidade de substituir um gênio como Randy Rhoads. Solos extraordinários, riffs sensacionais. A faixa em si, indiscutivelmente, é um dos clássicos supremos do ex-vocalista do Sabbath. Preciso admitir, porém, o álbum não é perfeito. Há faixas menores, como "Slow Down" e "Now You See It (Now You Don’t)". O restante, se não fica entre os clássicos super executados da carreira do Madman, é de ótima qualidade. Este disco traz vários exemplos de faixas das quais eu tanto gosto, mas não são tão citadas. Algumas delas são demais, como "You’re No Different" (baixo fretless espetacular de Daisley) e "Waiting for Darkness", mais uma aula da categoria de Jake. Sugiro ouvir "You’re No Different" na versão remasterizada, com o fim estendido. O que já era bom, ficou ainda melhor. "So Tired" é uma balada brega da qual não tenho vergonha de dizer que gosto. No Rio de Janeiro, em meados dos anos 1980, a faixa era usada em publicidade imobiliária que era veiculada nos programas de rock da extinta Rádio Fluminense FM. Muitos preferem The Ultimate Sin (1986) entre os álbuns gravados por Jake na banda, mas considero Bark at the Moon menos  calcado no hair metal, apesar da considerável altura dos teclados de Don Airey na mixagem. Ah, Ozzy está bem também, canta de forma bem harmoniosa, como nos seus bons momentos junto ao Sabbath.
André: Gosto muito de Ozzy com Jake E. Lee. Os dois discos que eles fizeram juntos são meus favoritos do Madman. Apesar de eu gostar um pouco mais do posterior, em Bark at the Moon estão suas músicas mais conhecidas dessa fase, como a faixa-título e "So Tired". Há aquela história de que Lee compôs o disco todo e acabou tendo que abrir mão dos direitos sobre as músicas graças àquela senhorinha que uma porção de gente no meio heavy metal odeia. Independentemente disso, Ozzy canta bem e sem qualquer dificuldade em interpretar as letras, mesmo sabendo que nos bastidores estava mais para lá do que para cá devido aos seus conhecidos problemas com entorpecentes. Minha preferida deste álbum e uma das melhores de toda carreira de Ozzy é "Centre of Eternity", com aquela aura sinfônica cheia de sinos e órgão que fez com que a canção me ganhasse no seu primeiro minuto para depois explodir no metal clássico. Brilhante canção e álbum.
Bernardo: Ozzy farofando para tentar garantir público após a perda irreparável de Randy Rhoads. Ainda bem que depois do álbum seguinte Jake E. Lee havia rodado, porque o sujeito tem talento, mas seu estilo de hard rock em nada combina com o estilo demencial e tétrico do Madman. Vale pela faixa-título, mas "So Tired" chega a constranger.
Christiano: Jake E. Lee é o melhor guitarrista que já passou pela banda de Ozzy e este é o melhor disco da carreira solo de mr. Osbourne, sempre muito bem acompanhado por ótimos músicos e compositores. A grande estrela aqui, no entanto, é o guitarrista, fato que já fica muito evidente no riff de abertura da faixa-título. O álbum, como um todo, é muito bom, inclusive trazendo duas baladas bem interessantes: “You’re No Different” e “So Tired”. Considero, porém, que existem pelo menos duas faixas que são pouco comentadas, mas que estão entre as melhores do registro: “Slow Down”, com Bob Daisley mostrando do que era capaz, e a quase progressiva “Waiting for Darkness”. Ótima escolha.
Davi: Clássico! Muita gente, na hora de comentar o trabalho solo do Ozzy, rasga elogios (com razão) à fase com Randy Rhoads. Muito se comenta sobre o (ótimo) No More Tears (1991), mas a fase com Jake E. Lee parece ser menos comemorada. Nunca consegui entender a razão. Os dois álbuns que ele fez com o Ozzy são espetaculares. Sem contar o histórico VHS The Ultimate Ozzy (1986), que certamente é um dos melhores vídeos já produzidos na cena heavy metal. Ok, este trabalho se perde um pouquinho nas baladas; “So Tired” e “You're No Different” realmente são fraquinhas, mas nas faixas mais pesadas, como “Rock 'n' Roll Rebel”, “Centre of Eternity”, “Slow Down” e “Bark at the Moon”, temos Ozzy no auge. Sem contar que o solo de “Bark at the Moon” é simplesmente antológico. “Waiting for Darkness” também é bem bacana. caso Ozzy decida gravar mais um álbum antes de sua já anunciada aposentadoria, gostaria que fosse uma mistura da fase Randy com a fase Jake. Serião mesmo!
Diogo: Bark at the Moon sofre do mesmo mal de quase todos os álbuns de Ozzy em carreira solo, a alternância entre faixas excelentes e outras bem menos memoráveis. Neste caso, felizmente, as boas ainda são maioria e o disco constitui uma audição obrigatória mesmo para aqueles com um interesse apenas mediano na carreira do Madman. São dois os principais motivos. O primeiro é a guitarra nervosa e absurdamente bem tocada de Jake E. Lee. Quase todos já se derreteram para o cara na edição desta série que citou The Ultimate Sin, então pouparei meu português. O segundo é a absurda faixa-título, um tratado de como se tocar guitarra heavy metal de maneira inteligente, incluindo um riff sensacional e dois solos de cair o queixo. Claro, Jake E. Lee é um monstro, mas o restante da banda não deixava por menos: Don Airey (teclados), Tommy Aldridge (bateria) e Bob Daisley (baixo), este último destacando-se nas linhas de "Slow Down", música pouco lembrada pelos fãs, mas que me agrada bastante. A produção é extremamente datada e os teclados denunciam sua idade. Isso não impede, contudo, que "You're No Different" e "Waiting for Darkness" (as costuras entre teclado e guitarra são ótimas) sejam destaques, em um clima mais dark, apesar da evidente tendência comercial que começava a dar as caras. Mesmo em músicas que não são lá grande coisa, como "Rock 'n' Roll Rebel" e "Centre of Eternity", os bons riffs de Jake ajudam a prender nossa atenção. Agora, "So Tired", essa não há guitarrista talentoso que salve...
Fernando: Este é um daqueles discos que sofrem pela comparação com outros. É um baita álbum, mas é claramente inferior aos dois primeiros. Falando por mim, o conheci antes dos demais e me foi muito importante. Hoje, com a notícia de que Ozzy está se aposentando das turnês – promessa que ele já fez mais de uma vez –, é curioso perceber que desde 1983 ele se diz “So Tired”.
Flavio: Depois de confusões e polêmicas acontecidas nas turnês dos dois primeiros discos e apostando na forte imagem demoníaca, assustadora e polêmica, Ozzy retornou como um lobisomem uivante, após a trágica morte de Randy Rhoads. Ao manter a base compositora de Bob Daisley e Don Airey, Ozzy tentou continuar sua boa fase com a presença do estupendo guitarrista Jake E. Lee. Jake está magnífico, indiscutivelmente seu melhor ponto na carreira com Ozzy, trazendo solos impressionantes no tracklist todo, notadamente na ótima faixa-título e em "Rock 'n' Roll Rebel". Há outros grandes pontos altos, como as baladas "You're No Different", a super orquestrada "So Tired" e a marcante "Waiting for Darkness", que considero a melhor do álbum. Há, porém, algumas bolas na trave, como o uso mais forte de um teclado pasteurizado, vide "Slow Down", e principalmente a fraca "Now You See It (Now You Don't)". Mesmo com esses senões, Bark at the Moon apresenta ótimas composições, valendo totalmente a audição.
Mairon: A estreia de Jake E. Lee nas guitarras do Madman mantém a qualidade dos discos com Randy Rhoads, apesar de ser ainda mais americanizado, tendendo para o hard farofa com muita força (o que ocorreria no álbum seguinte, The Ultimate Sin). Considero Lee um guitarrista ainda melhor que Rhoads e, neste álbum, algumas das diversas amostras da capacidade e do talento de Lee aparecem nos solos de "Rock 'n' Roll Rebel" e nos riffs pesados e cheios de vigor de "Slow Down" e "Now You See It (Now You Don't)", que Lee acabaria levando posteriormente para serem usados no ótimo Badlands. Há ainda mais uma novidade, que é a maior presença de teclados, que estão em destaque em "Waiting for Darkness" e "So Tired", ambas com a presença de cordas, e na balada "You're No Different". Até cantos gregorianos Ozzy inseriu no disco, fazendo a introdução de "Centre of Eternity", cujos teclados lembram bastante "Mr. Crowley". A faixa, contudo, é uma paulada que está entre as melhores, ao lado da faixa-título, um arrasa-quarteirão que deveria sempre ser usado na abertura dos shows. Não sei se entraria na edição voltada a 1983, mas é um bom álbum sim.
Ronaldo: Apesar de alguns momentos inspirados, como a faixa-título e "Waiting for Darkness", o restante do disco é recheado de hard rocks dos mais ordinários. Obviamente que a colocação da voz de Ozzy Osbourne nas músicas faz toda a diferença, e seu anticarisma carismático torna a obra valiosa. Os teclados do formidável Don Airey soam incômodos bem ao sabor da época e a balada "So Tired" soa constrangedora.
Ulisses: Álbum de estreia da era Jake E. Lee. A faixa-título é excelente e icônica, apesar do tosco videoclipe no qual Ozzy se fantasia de um lobisomem que mais parece um Chewbacca possuído. O disco permanece naquela mistura de hard rock com heavy metal e aproveita para nos introduzir a presença um pouco mais marcante de sintetizadores nas composições. Não há muitos momentos empolgantes após a faixa de abertura, salvo "Rock 'n' Roll Rebel", "Centre of Eternity" (com introdução de sintetizador) e a finaleira "Waiting for Darkness"  justamente momentos nos quais Lee consegue se soltar mais. Seus solos, porém, nas faixas após "Bark at the Moon", não são tão memoráveis. Ozzy ainda aproveita para pagar mico na balada entediante da vez, "So Tired". Não é uma má escolha, mas eu não senti saudades deste álbum em sua edição correspondente.


Van Halen - 1984 (1984)
Alexandre: O disco da cisão da formação original é o mais bem sucedido desta edição, com mais de uma dezena de milhões de cópias vendidas somente nos EUA. É um Van Halen diferente, cuja tendência seguiria nos anos seguintes, após a troca de vocalistas. Ao colocar o álbum para tocar, a impressão inicial é que se está ouvindo outro grupo. A bonita introdução impressiona, mas cadê as guitarras? 1984 também é um álbum de transição entre os dois estilos da banda, então há exemplos de grandes canções de ambas as fases. Aparece nele a nova faceta de Eddie, atacando nos sintetizadores, como se não bastasse sua imensa capacidade nas cordas. Esse som mais pop, com o acréscimo desses teclados super bem sacados, os colocaria nessa espécie de segunda fase. "Panama", "Hot for Teacher" e, principalmente, "Jump" puseram novamente o Van Halen nos primeiros lugares das paradas. "Jump", a bem da verdade, é um daqueles hits que ultrapassam o público especializado, um inegável atestado de sucesso. "Hot for Teacher" é um tratado para os guitarristas que se atreverem a desvendá-lo. "Panama", por sua vez, traz o DNA da banda, não devendo nada a qualquer canção mais clássica dos trabalhos anteriores. Dave se despede em ótima forma, com seu estilo inimitável. Minha escolha também se dá pelas canções menos conhecidas. Há espaço para uma bela balada ("I’ll Wait"), recheada de boas intervenções de teclado. O trabalho de Eddie Van Halen é brilhante, no meu entender degraus acima do que vinha fazendo ao menos nos três álbuns anteriores. Músicas como "Top Jimmy" (com uso de afinação fora do padrão), "Drop Dead Legs" e "Girl Gone Bad" estão as minhas preferidas, todas magistralmente compostas e brilhantemente executadas por esse gênio das cordas. A última é um espetacular trabalho da banda toda, desde a cozinha aos vocais com toques de Robert Plant lá pelo meio da canção. E lá vêm os vocais à la Plant para fechar o disco com "House of Pain". Para mim, este álbum só rivaliza na discografia do grupo com o primeiro, esse sim impossível de bater. É mais um dos bons exemplos de 1984 que ficaram de fora da série.
André: Embora meu vocalista preferido da banda seja Sammy Hagar, não tenho dúvidas em apontar este como o melhor disco deles e aquele de que mais gosto também. Sei que tem um pessoal que chia por causa do teclado, mas, como amante aorzento que sou, isso nunca me incomodou. Aquela introdução espacial em "1984" já dá a tônica do disco. "Jump" e "I'll Wait" são dois belos clássicos e conhecidas de todos. As composições são empolgantes e a cara dos anos 1980. Só o Europe, com seu The Final Countdown (1986), fez frente a este álbum em termos de hard tecladeiro.
Bernardo: Não o considero um disco bom por inteiro, mas, meu Elvis do céu, meu coração sempre dá um pulo com o riff de teclado de "Jump", meus pés sempre querem dançar com "Hot for Teacher" e ainda lembro até hoje com carinho de toda a zoeira do vídeo de "Panama", também sempre empolgante de se ouvir. Quer saber? No quesito diversão, o Kiss perde muito feio para o Van Halen. Falta uma união de talentos excepcionais como a guitarra elaborada mas chamativa de Eddie, os backing vocals marcantes de Michael Antony e a performance que levanta até defunto da cova de Diamond Dave. Não ouço rotineiramente, mas Van Halen me dá lembranças muito boas.
Christiano: É o disco mais famoso do Van Halen, mas não é o melhor. Traz a faixa mais conhecida da banda, “Jump”, uma espécie de hino dos anos 1980. Além disso, tem músicas muito legais, como “Drop Dead Legs”, “Girl Gone Bad” e “House of Pain”. Tudo isso já é mais do que suficiente para que seja indicado nesta série. Reconheço sua importância para a história do grupo e mesmo para a explosão da onda hard rock nos anos 1980, mas considero os álbuns anteriores bem melhores.
Davi: Outro clássico! Incrível como tem banda que acaba durante uma fase de ouro. Este foi o último álbum com o emblemático David Lee Roth. Bom, pelo menos até A Different Kind of Truth (2012). De diferencial, em 1984, uma maior aproximação com os teclados, algo perceptível com grande evidência em “I'll Wait” e no clássico “Jump”. Os irmãos Van Halen destacam-se em “Hot for Teacher” (a bateria de Alex é comentada até hoje) e “Girl Gone Bad”. Eddie destrói tudo em “Panama”. Os vocais de Roth são um caso à parte e casam certinho com o som praticado pelo grupo. Trabalho mágico. Que vergonha este disco ter ficado de fora, hein, galerinha...
Diogo: Adoraria ver esta posição sendo ocupada por Fair Warning (1981), mas que seja então com 1984, que não apenas é um discaço por si só, mas o melhor resgate feito pelo Alexandre. É uma pena constatar que a banda vinha construindo uma carreira extremamente sólida e bem sucedida ao longo dos dez anos anteriores, com álbuns excelentes, para encerrar seu melhor ciclo justamente com seu maior sucesso, que vendeu mais de 10 milhões de cópias. Talvez tenha sido para bem, talvez tenha sido para mal, mas a verdade é que foi apenas em 2012, reunido com David Lee Roth em A Different Kind of Truth, que o grupo voltou a fazer algo em um nível de qualidade próximo e com as características que eu gosto de ouvir em um disco do Van Halen. Para variar, Eddie está afiadíssimo, Alex toca com a personalidade que lhe é peculiar e Roth incorpora o deboche e a cara de pau da maneira mais sedutora possível. Todas as músicas são boas, desde "Jump" e "I'll Wait", diamantes pop que nem se dão ao trabalho de se disfarçarem de hard rock, até as pesadas e guitarrísticas "Girl Gone Bad" e "House of Pain", esta última com pinta de que poderia ter dado as caras em Fair Warning. O meio termo disso, então, é o mais fino do álbum, a contagiante "Panama" e a abusada "Hot for Teacher", uma aula de como fazer uma canção viciante ao mesmo tempo em que se toca absurdamente bem. É surpreendente constatar que, quando Roth se separou do grupo, o glam metal ainda não havia conquistado de vez as paradas, mostrando como o Van Halen não apenas estava à frente de seu tempo como foi uma influência gigante para os músicos que logo depois estariam emplacando seus discos e singles na Billboard.
Fernando:  Seria 1984 o disco de maior sucesso do Van Halen? Comercialmente, acredito que sim, muito disso pelo bombástico single “Jump”. O álbum, contudo, dificilmente seria considerado o melhor por algum fã mais interessado. Sua citação vale até porque os dois primeiros já foram agraciados na série.
Flavio: 1984 inicia a trilogia do ano preferido do Alexandre: a safra de 1984. Nele também há o início do flerte de Eddie com os teclados. Não tem erro, é petardo atrás de petardo, em um desfile de canções irrepreensíveis. Para não dizer que são todas impecáveis, a introdução "1984" "não inflói, nem contribói", apesar de já dar a cara do som do disco, feita apenas com sintetizadores. A seguir vem a conhecidíssima "Jump", com um solo inesquecível de Eddie, que talvez estivesse em sua melhor forma, já consagrado como melhor guitarrista do mundo. Seu estilo seria devidamente chupado por (ao menos) nove entre dez guitarristas no restante da década e em anos a seguir. Falar o que de "Panama" e "Hot for Teacher" (super influenciadora), devidamente videotocadas exaustivamente pela MTV na época? Elogio também o trabalho da cozinha. Alex está soberbo em competência e inteligência, principalmente em "Hot for Teacher" (estilo também super copiado). Michael, além dos vocais importantíssimos para o som da banda, está muito bem, como podemos verificar em "Girl Gone Bad". Afirmo ainda que as menos conhecidas são as melhores do álbum: "I'll Wait", "Girl Gone Bad", "House of Pain", "Drop Dead Legs" e até "Top Jimmy" são composições sensacionais. Ah, esqueci de falar de Dave, que também estava em ótima fase, com seu estilo irreverente e incomparável. Excelente escolha, devidamente resgatada, que realmente tinha espaço na edição abordando 1984.
Mairon: Este álbum é daqueles que eu dava como certo em sua edição correspondente. No fim, não entrou. Muitos daqueles que conhecem o Van Halen no Brasil devem esse fato a este disco. Nele estão as clássicas "Jump" (quantos não tentaram tirar seu riff de teclado?), "Panama", "Hot for Teacher" e "House of Pain", todas indiscutivelmente essenciais nos shows e excelentes. Tudo bem que "Jump" é meio forçadinha, mas é uma baita música. O videoclipe de "Hot for Teacher" é sensacional, e "Panama" e "House of Pain" têm em seus refrãos os pontos altos para a galera pular. Ainda há mais. Os teclados também são presença forte na balada "I'll Wait", que indicava os caminhos que o Van Halen tomaria com a saída de Lee Roth, lembranças do Led Zepppelin em "Drop Dead Legs" e uma introdução destruidora na animalesca "Girl Gone Bad", uma das minhas preferidas dos caras. Falando em introdução, o que Eddie Van Halen cria com os harmônicos em "Top Jimmy" é impressionante. O cara foi o melhor guitarrista de sua geração e um dos maiores de todos os tempos, sem dúvida. Disco que marcou o ano de 1984 e merecia ter entrado na série.
Ronaldo: É o puro espírito de época, representando boa parte do espectro sonoro da própria década de 1980. Sintetizadores polifônicos, guitarras distorcidas em cadência dobrada com o baixo, bateria retilínea, músicas vibrantes e cheias de energia. E o melhor de tudo isso, uma sonoridade digna de respeito, engolindo 90% da produção de rock com o chamado "som de plástico", que é assinatura-mor dos anos 1980. O disco tem riffs inesquecíveis e uma performance assustadora de Eddie Van Halen na guitarra. É em certa medida pop, mas decididamente rock em sua pegada.
Ulisses: Último álbum da banda antes da saída de Roth, e se não me engano o mais bem-sucedido também! O grupo trabalhou as músicas com mais texturas e sintetizadores, formando uma aproximação entre hard rock e pop bem dosada, estourando com "Jump", "Panama" e "Hot for Teacher". A capacidade técnica da banda não ficou prejudicada, vide o solo de Eddie em "Drop Dead Legs" e a performance de Alex, arregaçando na bateria, em "Girl Gone Bad" e na própria "Hot for Teacher". É um disco que diverte do começo ao fim, não sendo muito farofeiro e de mau gosto, e nem tendo sua qualidade restrita aos singles. Apesar da ótima lista que elaboramos para a edição abrangendo 1984, talvez este álbum fosse uma escolha mais acertada do que, por exemplo, o Minutemen.


Yngwie J. Malmsteen's Rising Force - Rising Force (1984)
Alexandre: Se o ano é genial, o que escrever sobre isto aqui? O talento do temperamental guitarrista sueco deu as caras de vez neste seminal álbum, que influenciou zilhões de guitarristas desde então. É até estranho que o cara tenha passado uns três anos em bandas como o Alcatrazz sem um reconhecimento tão claro. Um timbre sisudo de guitarra, que muito raramente foi ouvido anteriormente, não de forma tão plena. Guitarristas como Paul Gilbert, John Petrucci e Kee Marcelo certamente tiveram este álbum em suas mesas de cabeceira. Em 1984 ou 1985, afirmo, todo guitarrista queria soar como Malmsteen. Além disso, Rising Force abriu espaço para os tais álbuns instrumentais que tanta gente boa como Joe Satriani, Steve Vai, Greg Howe, Marty Friedman, Tony MacAlpine e Vinnie Moore gravou. A importância histórica da estreia de Yngwie é inquestionável, goste você ou não. Ele verdadeiramente assombrou o mundo, virou tudo de ponta-cabeça. O problema é que o marrento guitarrista não teve criatividade para tocar sua carreira uns quatro álbuns para frente. Em Rising Force, entretanto, estão seus clássicos inegáveis que ficaram para sempre nos shows. Músicas como a linda "Black Star" e a fantástica "Far Beyond the Sun" estarão nos seus setlists enquanto houver uma Fender Stratocaster para que ele a empunhe. Ao privilegiar faixas instrumentais inspiradíssimas, sobrou pouco espaço para os vocais poderosos de Jeff Scott Soto, mais presentes no álbum seguinte. Com ele são apenas duas canções: "Now Your Ships Are Burned", que me lembra da influência de outro gênio, Ulrich Roth, e "As Above, So Below", que ainda consegue superá-la, com vocais desafiadores de Soto. Todas as faixas me agradam quase que por igual, mas "Icarus' Dream Suite Op. 4" é a minha favorita, uma releitura emocionante do adagio clássico de Albinoni.
André: Gosto mais de outros discos do sueco que já citei na edição dedicada à lista do Flávio, mas este primeirão também é muito bom. É Malmsteen no vigor da juventude, querendo surpreender a todos com uma pegada técnica e veloz ao mesmo tempo, junto a composições muito boas e uma banda megacompetente (porra, tem Barriemore Barlow, ex-Jethro Tull, tocando bateria, mais o futuro Stratovarius Jens Johansson e o conhecidíssimo Jeff Scott Soto nas poucas vozes). Só não confundam o Les Claypool baixista com o Lester Claypool engenheiro de som. Este álbum dá a noção de por que o sujeito acabou se tornando um ícone da guitarra, mesmo que uma porrada de gente não goste dele.
Bernardo: Ninguém merece Malmsteen. Passado o impacto inicial da técnica do sujeito, fica até chato.
Christiano: Podem chamar o cara de chato, arrogante, firuleiro etc. Aceitem, este disco mudou a maneira como muitos guitarristas encaravam seu instrumento. Era uma abordagem nova, inédita. Além disso, trouxe a assinatura de um artista capaz de ser reconhecido logo nos segundos iniciais de suas músicas. Muita gente copiou. Não é técnica pela técnica, pois as composições são muito boas. Como se isso não fosse suficiente, o álbum ainda apresentou ao mundo um vocalista extremamente talentoso: Jeff Scott Soto, que mais tarde fundaria o Talisman com o também ex-Malmsteen e excelente baixista Marcel Jacob. É um disco clássico. Uma curiosidade interessante é que o baterista Barriemore Barlow gravou boa parte dos clássicos do Jethro Tull na década de 1970.
Davi: Do mesmo jeito que Eddie Van Halen popularizou o tapping, Yngwie Malmsteen popularizou os solos extremamente velozes e aproximou o heavy metal da música clássica. Sem ele, bandas como Stratovarius nunca teriam existido. Sim, ele é um menininho arrogante, mas esse menininho também é um músico extremamente talentoso. A grande sacada do Malmsteen não é apenas a velocidade com que ele toca, mas principalmente as técnicas que ele usa na velocidade em que ele toca. Este disco foi um divisor de águas nesse sentido. Na época, todos ficaram impressionados com o que estavam ouvindo, e só por isso sua entrada na edição voltada a 1984 já seria justificada. Jeff Scott Soto ficou responsável pelas poucas músicas cantadas. Ele fez um trabalho ok (gosto muito dele, mas o prefiro em trabalhos posteriores), mas o grandes momentos deste trabalho são realmente as faixas instrumentais, especialmente “Icarus' Dream Suite Op. 4” e as clássicas “Far Beyond the Sun” e “Black Star”. Bela lembrança.
Diogo: Poucos discos foram tão importantes para o desenvolvimento do modo de tocar guitarra quanto Rising Force. Meu preferido é Marching Out (1985), mas é inegável que Rising Force virou a cabeça dos músicos da época como nenhum outro lançamento de Malmsteen. Basta observar a explosão de guitarristas lançando álbuns solo que o mercado fonográfico experimentou na segunda metade da década de 1980 e constatar a tendência estabelecida pelo sueco. Mesmo aqueles que hoje em dia não tocam algo parecido sabem que foram direta ou indiretamente influenciados por seu estilo extremamente virtuoso. Muito do que Malmsteen fez nos últimos 25 anos é bem menos relevante e de qualidade duvidosa, mas nessa época o cara estava encapetado. Seu estilo rotulado como neoclássico tem muito a ver com aquilo que Ritchie Blackmore e Uli Jon Roth vinham desenvolvendo desde meados da década anterior, porém fica claro que Malmsteen deu muitos passos além, adicionando ainda mais influências eruditas e uma dose um pouco mais generosa de heavy metal, além de um timbre inconfundível de Fender Stratocaster plugada em amplificadores Marshall. "Black Star" e a bombástica "Far Beyond the Sun" tornaram-se, com justiça, referências nessa arte. São mesmo suas melhores faixas. "Little Savage" é outra pedrada de respeito, com destaque para o baterista Barriemore Barlow, enquanto as boas "Now Your Ships Are Burned" e "As Above, So Below", com os vocais de Jeff Scott Soto, indicam o caminho que Malmsteen seguiria em seus álbuns posteriores, menos voltados para faixas instrumentais. Muitos o diminuem, mas Rising Force é um capítulo importantíssimo na história da guitarra.
Fernando: Sei que o sueco é visto com maus olhos por uma penca de gente. Isso se deve pela atitude do próprio guitarrista. Se o que ele faz há uns 15 ou 20 anos é tratado com um pouco de desdém pelo público, porém, isso se deve a este disco em especial. Um clássico gigantesco que mudou, ou acrescentou, muito na história da guitarra. Imagino tê-lo ouvido logo após seu lançamento. Deve ter sido um tormento para outros guitarristas e um banho de água fria para muito iniciantes.
Flavio: Escolher entre Marching Out (que citei na edição dedicada às minhas escolhas) e o irrepreensível primeiro disco solo de Malmsteen é tarefa para Sofia mesmo. O primeiro tem até maior importância histórica. Destaco as maravilhosamente clássicas "Black Star", "Far Beyond the Sun" e a belíssima "Icarus' Dream Suite Op. 4", mas deixo claro que Rising Force é um álbum sem falhas, com composições surpreendentes, impecáveis (como "Evil Eye" e "Little Savage") e definitivamente influentes, realmente à frente do seu tempo. Sem dúvida, resgata a época de ouro do sueco, é atemporal e clássico, e merecia ser destacado na série,
Mairon: Magnífico álbum de estreia do guitarrista sueco. Há várias faixas emblemáticas para o estilo virtuoso que ele, Vai e Satriani consolidaram nos anos 1980, como "Black Star", a bela "Little Savage" e a super clássica "Icarus Dream Suite Op. 4", baseada no "Adagio in G minor" de Remo Giazotto, que acredito ser sua faixa mais conhecida. Aprecio as inspirações clássicas de "Far Beyond the Sun" e, cara, batera melhor que Barriemore Barlow para aguentar ego tão inflado quanto o de Yngwie não existiu, até porque ele já havia comido o pão que o diabo amassou ao lado de Ian Anderson, no Jethro Tull. Para mim, Barlow é o grande nome de Rising Force além de Malmsteen, é claro, que também é um ótimo baixista. Não gosto quando os vocais de Jeff Scott Soto aparecem ("Now Your Ships Are Burned" e "As Above, So Below"), mas o instrumental é muito bom. Por incrível que pareça, a faixa de que mais gosto é "Farewell", breve vinheta acústica que encerra o disco. Em segundo lugar, a fantástica união de violão e guitarra na pesada "Evil Eye". O cara é um baita guitarrista, pena que se perdeu no próprio ego. Gosto do álbum e, com certeza, pela sua importância histórica e pela quantidade de nabas que entraram na edição voltada a 1984, merecia seu lugar.
Ronaldo: A capa representa bem o conteúdo, guitarra sendo frita. Ok, pode até ser que, pela brasa, estaria sendo assada, mas é fato que o substantivo adequado para Rising Force é velocidade. Trata-se de um virtuoso que usou uma banda inteira (competente, diga-se de passagem, com Barriemore Barlow e Jeff Scott Soto) como seu tapete voador. Há momentos que são puro ilusionismo  achamos que podemos estar ouvindo uma canção inteira, quando na verdade trata-se de um grande solo de guitarra. Com menos exagero e uma melhor produção sonora (bateria e baixo têm um som sofrível), seria possível ter um bom disco. "Now Your Ships are Burned" tem uma rítmica bem interessante e pegada violenta, e "Little Savage" é outra boa composição, por exemplo. Só que a inundação de solos de guitarra destrói qualquer construção coletiva da música.
Ulisses: Um músico com o qual poucos conseguem ficar indiferentes; ele costuma suscitar reações de amor ou ódio. De fato, não sou apreciador da obra do sueco, mas é impossível não reconhecer sua importância na história da guitarra elétrica. Seu estilo neoclássico, bastante limpo, rápido e preciso, mistura Bach, Paganini e Ritchie Blackmore em iguais medidas. Em termos de importância, a escolha do Alexandre não é exagerada. Eu, particularmente, não ouço nenhum disco de Malmsteen com regularidade, mas ainda considero Rising Force um registro interessante e não tão cansativo para um álbum quase inteiramente instrumental e veloz.


Deep Purple - Perfect Strangers (1984)
Alexandre: Há entre este disco e Born Again pouco mais de um ano, e Gillan ainda arrumou tempo para fazer uma turnê com o Black Sabbath. Nesse curto espaço de tempo encontra-se metade de minha lista. É um momento de ouro para o heavy metal e o hard rock. A volta desses dinossauros em seu mais clássico line-up se deu em grande forma, em um álbum que se junta aos grandes de sua já ótima discografia. Os anos no Rainbow mantiveram e até lapidaram o bom gosto nas composições de Blackmore. Duas dessas canções se mantêm de forma bastante constante nos shows até hoje: "Knocking at Your Back Door", que abre o disco, é uma cria do Rainbow mais acessível, fase pós-Dio. Sem dúvida foi elevada de categoria pelos vocais de Gillan e pelo clima gerado pela introdução de Jon Lord. Falando em introdução, a faixa-título, que também tem um riff matador, nunca mais sairá dos setlists. Tornou-se um hino do grupo, com poucas outras canções dignas de comparação, mesmo em sua fase mais prolífica. Só por essas duas já vale a citação. Novamente saio do óbvio para atestar que considero todas as outras músicas inspiradíssimas. A banda apronta das suas em referenciar suas influências clássicas no meio de "Under the Gun" e no riff principal de "Hungry Daze". E há, claro, aquelas pelas quais tenho maior preferência: a linda balada "Wasted Sunsets", momento sublime dos solos de Ritchie, e minha favorita, "A Gypsy’s Kiss", com outro riff matador que segue em progressão para um intrincado trecho de duelo entre Ritchie e Jon Lord culminando em ótimos solos de ambos. É o momento mais genial do disco. Acho que Perfect Strangers merecia reconhecimento na série.
André: Um bom disco do Purple, sem dúvida nenhuma. Talvez o suficiente para entrar ali pelo nono ou décimo lugar. Ian Gillan largou o Sabbath e se juntou aos seus velhos companheiros de banda para recuperar o velho Purple e voltarem ao mercado depois do pouco sucesso que tiveram em suas carreiras paralelas (exceto Blackmore e seu Rainbow). A abertura com aquele baixo em "Knocking at Your Back Door" é muito foda. Ainda destaco as duas faixas que fecham lado A e B, respectivamente: "Mean Streak", que poderia facilmente estar em um álbum como Fireball (1971), e "Hungry Daze", com uma levada rítmica muito diferente, parecendo até trilha sonora de filme. A voz de Gillan já não tem mais o mesmo poder de outrora, mas segura bem. No geral, é um disco meio deixado de lado (embora tenha sido muito aguardado na época) na discografia dos britânicos, fato que lamento, visto que é muito bem feito.
Bernardo: Um Deep Purple bem mais orientado para o pop, menos neoclássico e mais hard rock após a fase funk/groove de David Coverdale e Glenn Hughes. Não o vejo como um dos grandes clássicos do grupo, mas gosto muito de "Knocking at Your Back Door".
Christiano: O disco que marca a primeira reunião da formação clássica do Deep Purple tem bons momentos, como a faixa-título e “Knocking at Your Back Door”. A magia da banda, entretanto, já tinha se perdido. Na verdade, sempre o considerei como um álbum meio artificial, feito para agradar fãs saudosistas. Posso estar cometendo uma injustiça, mas o excesso de faixas burocráticas torna o disco apenas razoável, pelo menos para mim.
Davi: Sofro hoje daquela síndrome de quem não aguenta mais ouvir “Perfect Strangers”. Talvez pelo fato de tê-la tocado trocentas vezes na noite, acompanhando bandas de classic rock. Quem acha que essa é a única música forte deste álbum, porém, precisa pegar este disco para ouvir com urgência. Ele marca a volta do Purple e, justamente por ser seu primeiro álbum de inéditas desde (o ótimo) Come Taste the Band (1975), eles se tocaram de que não adiantava voltar fazendo a mesma coisa de antes. Fizeram uma mixagem mais moderna (para os padrões da época), com um som um pouco mais pesado. Deu certo. “Knocking at Your Back Door” é fenomenal. “Under the Gun” traz um belo solo de Ritchie Blackmore. Embora eu já esteja cansado dela, a faixa-título é, indiscutivelmente, um clássico. “Mean Streak” é aquela que talvez melhor resgate a sonoridade clássica dos rapazes. Da segunda metade do LP, a que mais gosto é “Hungry Daze”, que traz um riffzinho muito bacana casando guitarra e teclado. Pena que não conseguiram manter o nível nos dois trabalhos seguintes: o (mediano) The House of Blue Light (1987) e o (bom) Slaves & Masters (1990).
Diogo: Verdade seja dita; após o primeiro encerramento de suas atividades, em 1976, o Deep Purple nunca mais fez um grande disco. Há alguns poucos lançamentos bonzinhos, e este é um deles, mas a relevância do grupo como grande força no rock ficou no passado. Não à toa, seus setlists seguem, até hoje, focados no curto período de tempo em que a banda realmente esteve entre os maiores nomes do estilo. Perfect Strangers reúne a formação responsável por tornar o Deep Purple uma referência mundial, mas não apresenta o mesmo talento que tornou discos como In Rock (1970) e Machine Head (1972) tão especiais. "Knocking at Your Back Door", com seu jeito envolvente, melodias bem sacadas e um riff cremoso, é excelente e ajuda muito a levantar a moral do álbum. Depois dela, no entanto, pouca coisa se destaca. A faixa-título, apesar de ser extremamente carne de vaca, é uma boa canção, mas não a ponto de merecer toda a exposição que recebeu nas últimas três décadas. "A Gypsy's Kiss" e "Hungry Daze" também são músicas legais, muito por lembrarem o que Ritchie Blackmore vinha fazendo com o Rainbow nos lançamentos imediatamente anteriores. A primeira chega, inclusive, a remeter um pouco a "Fire Dance" (Bent Out of Shape, 1983). Consigo facilmente imaginar Joe Lynn Turner cantando-a. Aliás, esse é um grande problema: todos os integrantes vinham fazendo trabalhos mais interessantes, seja Blackmore e Roger Glover no Rainbow, Jon Lord no Whitesnake, Ian Gillan no Black Sabbath e Ian Paice com Gary Moore e o Whitesnake.
Fernando: A faixa-título é um dos maiores clássicos da banda. Chega a ser impressionante como uma música gravada depois de inúmeros clássicos representa tanto a banda para uma boa parcela do público. Talvez tenha marcado também por ser um disco de retorno de um gigante do rock. Foi um retorno digno. Como disse, a faixa-título é muito marcante e acaba ofuscando outras que são muito boas, como “Knocking at Your Back Door”, “Nobody's Home” e “A Gipsy's Kiss”.
Flavio: Em sua mais que aguardada e milionária volta, depois de nove anos de ausência e na formação mais clássica (Mark II), com a dupla explosiva Blackmore/Gillan, o Deep Purple traz em Perfect Strangers novas composições marcantes para sua discografia Novamente um álbum no qual Blackmore se destaca, Perfect Strangers parece mais uma continuação da carreira do Rainbow, com um toque mais leve à original pauleira do grupo nessa formação, nos anos 1970. Destaques? Vários, desde o lindo solo na balada "Wasted Sunsets", a mistura com o teor medieval na faixa-título (um clássico) e na introdução do disco, o hard descompromissado de "Knocking at Your Back Door" e o riff principal de "Hungry Daze" (que traz outro lindo solo de Blackmore). Tudo está colocado com muito bom gosto, inclusive nas letras de Gillan. Como não destacar a linha irônica "we all came out to Montreux, but that's another song, you've heard it all before"? Sensacional! Um disco sem pontos fracos, hard rock de primeira, maravilhosamente lembrado.
Mairon: Retorno da Mark II quando ninguém mais achava que seria possível. Para muitos, um dos melhores discos da banda, mas confesso que não é do meu agrado. A Mark II em si não me conquista muito. Ok, respeito Machine Head, Fireball e In Rock, e principalmente Made in Japan (1972) e Concerto for Group and Orchestra (1969), mas prefiro muito mais a Mark I e, principalmente, as Marks III e IV. Quanto ao disco, honestamente, é uma sequência dos piores momentos do Rainbow com Joe Lynn Turner. Consigo ouvir com vontade apenas "Mean Streak", que remete aos anos 1970, e a faixa-título, que creio ser o último grande clássico do Purple com Gillan. No mais, não dá. "A Gypsy's Kiss", "Hungry Daze" e "Nobody's Home" eu já ouvi outras vezes em outras canções do próprio Purple (ou do Rainbow), e não têm nada de novidade. "Under the Gun" até começa legalzinha, mas decai bastante da metade em diante. Geral paga pau para "Knocking at Your Back Door", mas, fala sério, é inacreditável que seja Ian Paice na bateria e Jon Lord nos teclados, e, principalmente, que um ano depois de ter gravado Born Again Ian Gillan tenha decaído tanto. Suportar "Wasted Sunsets" é dose para rinoceronte. Que música chata! Enfim, não consigo gostar do disco, até o ouvi sem paixão para escrever este comentário, mas bah, isto não é Deep Purple nem aqui nem na casa do Blackmore. É um Rainbow modernizado!
Ronaldo: Ouvir som de Hammond em pleno 1984 é um bálsamo para os ouvidos. O Deep Purple, porém, adotou a trilha rasteira de harmonias fáceis, batidas retas e linhas vocais óbvias neste seu retorno nos anos 1980. Ingressaram com toda a pompa no rock desprovido de groove que dominou essa fatídica década. Mais do que tendência, esses elementos foram paradigma. Algumas ideias de Perfect Strangers foram emprestadas do próprio Deep Purple de anos atrás, como "Nobody's Home", "Mean Streak" e "A Gypsy's Kiss". A faixa-título é uma ótima música, pesada e climática, mas o disco não vai muito além dela e de alguns poucos momentos. Um trabalho que pouco acrescenta tanto para o panorama da época quanto para o própria história pregressa do grupo.
Ulisses: A reunião da Mark II após uma década de separação, entregando um dos mais respeitáveis retornos da história do rock. A faixa-título já nasceu clássica e deve ser a única composição deste álbum que muita gente já ouviu, mas não demora muito para vermos que o restante do LP merece espaço nos holofotes, especialmente "Knocking at Your Back Door", "Under the Gun", "A Gypsy's Kiss" (com ritmo estranhamente ao estilo Rainbow da era Dio) e "Hungry Daze". "Wasted Sunsets" tem ritmo e voz forçados, mas o trabalho de guitarra que Blackmore faz na faixa já vale seus minutos. Pode não estar exatamente na mesma estatura dos álbuns clássicos da Mark II nos anos 1970, mas é sólido pra caramba e talvez muita gente que o ouviu na época não esperava que ele fosse ter um tracklist tão digno de respeito.


Marillion - Clutching at Straws (1987)
Alexandre: A banda havia acabado de estourar comercialmente com Misplaced Childhood (1985), mas, como acontece com vários conjuntos, a superexposição levou-os a um momento delicado, com brigas entre a banda e Fish, desgastes inevitáveis das cifras que amealharam. O vocalista, de temperamento bastante instável, mergulhado em drogas e com problemas pessoais, recém-casado e tendo que lidar com os compromissos profissionais, acabou entregando ótimas letras que refletem tudo isso em Clutching at Straws. O resultado, para mim, supera o álbum anterior. A única faixa que destoa é a tentativa meio forçada de produzir um hit em "Incommunicado". A versão em CD também traz a desnecessária balada "Going Under". Minhas favoritas são "Hotel Hobbies", "Torch Song" e "White Russian", mas, como citei, todas as demais também furaram meu disco de tanto que as ouvi. O personagem central do álbum temático é Torch, às voltas com os problemas que Fish temia enfrentar. O resumo mais claro talvez esteja na letra de "Sugar Mice", através da qual ele claramente expõe as dificuldades da solidão de um músico na estrada. Já na letra da primeira música, Fish cita os problemas com a cocaína (“Slug-like finger trace the star-splanged clouds of cocaine on the mirror”). No meio de "Torch Song", em uma consulta médica, o personagem recebe o aviso de que não chegaria aos 30 anos mantendo tal estilo de vida desregrado. Acrescente a isso uma trilha sonora perfeitamente encaixada ao cenário apresentado e temos um subestimado álbum que os holofotes poderiam refletir de forma mais merecida. Aliás, músicos como Pete Trewavas e Steve Rothery nunca foram devidamente reconhecidos e são igualmente subestimados. A forma como todos do grupo conseguiram traduzir a história nas canções coloca Clutching at Straws entre meus álbuns favoritos de todos os tempos.
André: Perto dos outros que entraram na série, este é o de que menos gostei. Curto o Marillion, não ouvi tudo o que eles têm a oferecer, sei que este é um dos discos mais bem conceituados deles, todavia achei as composições um tanto quanto desinteressantes. Temática de alcoolismo e um instrumental muito focado no teclado. A guitarra pouco se destaca, sufocada pelo teclado e pela voz de Fish na maioria das canções. Queria ter curtido mais, só que nessa audição não desceu. Darei outra chance mais para a frente.
Bernardo: Diria "progressivo de novo", mas pior, é neoprogressivo. Já não curto muita coisa dos áureos anos, mas o novo progressivo me dá gastura de terminar de ouvir os discos. Até o que ouvi, um tanto modorrento.
Christiano: Este quase entrou na minha lista. Hoje em dia é meu preferido do Marillion. Trata-se de um álbum bastante sombrio, marcando um período meio nebuloso que resultou na saída de Fish, vocalista e letrista que foi responsável por moldar a identidade do grupo. No geral, é um disco triste, meio confessional, com letras tão bonitas quanto melancólicas. É difícil destacar alguma faixa, pois ele é quase conceitual, mas pérolas como “White Russian” e “Torch Song” merecem ser mencionadas. É uma pena a banda ter tomado outros rumos, mas, até Clutching at Straws, lançaram quatro álbuns que ficariam para a história, assim como suas belas capas, criadas pelo genial Mark Wilkinson.
Davi: Nos últimos tempos, tenho procurado ouvir mais coisas do Marillion e do Supertramp. Duas bandas que sempre curti, mas nunca tinha ido muuuuito a fundo em sua obra. Este disco, contudo, eu conheço já tem um tempo. É o último álbum da fase com Fish, considerada por muitos como a fase de ouro do Marillion. O trabalho realmente é excelente. Mantém a veia progressiva ao mesmo tempo em que enxuga um pouco a sonoridade, inclusive na duração das faixas. A canção mais lembrada é, mais uma vez, uma que apresenta um forte acento pop. Nesse caso, (a ótima) “Incommunicado”. Já vi jornalista dizendo que Fish nunca havia se decidido se queria ser Peter Gabriel ou Roger Daltrey. Pior que a provocação tem um certo sentido. Ele realmente lembra os dois nas linhas vocais, mas sempre o considerei um senhor vocalista. Mais uma vez, entrega um brilhante trabalho, totalmente emotivo, com uma interpretação forte. Além do já citado hit, apontaria como destaques “The Last Straw”, “That Time of the Night” e “Sugar Mice”.
Diogo: Devo admitir uma coisa. Apesar de gostar do Marillion, a verdade é que, até hoje, nenhum álbum seu me fisgou de vez, ao ponto de me fazer exclamar "que discaço!". Não são raras ótimas canções  e acho que o grupo se sai muito bem quando faz uma intersecção com algo evidentemente mais pop, vide a excepcional dupla "Kayleigh"/"Lavender" (Misplaced Childhood), a deliciosa "Cover My Eyes (Pain and Heaven)" (Holidays in Eden, 1991) e a excepcional "Beautiful" (Afraid of Sunlight, 1995), que merecia ter atingido ao menos o top 5 da parada de singles da Billboard. Não é surpresa, então, constatar que os hits "Sugar Mice" e "Incommunicado" são mesmo as canções que mais chamam atenção em Clutching at Straws, especialmente a primeira, com um trabalho bastante melódico do guitarrista Steve Rothery. O disco é bom e deixa-se ouvir com muita facilidade, mas sinto que sua construção conceitual fica devendo um pouco e carece de mais equilíbrio entre as faixas. "The Last Straw" é outra boa música e encerra o álbum de forma digna, mas fica a impressão de que cometo um erro ao não acompanhá-lo com as letras à mão. Convenhamos, os melhores álbuns conceituais não precisam disso para que soem maravilhosos.
Fernando: Capítulo final do Marillion com Fish. Essa formação deixou quatro discos de qualidade inegável e pelo menos uma pérola, seu antecessor, Misplaced Childhood. As letras tratam de tantos assuntos que estavam atrapalhando internamente – excessos, bebedeiras e viagens sem fim – que acabaram servindo como uma DR que resultou na saída de Fish. A banda se recuperou com Steve Hogarth, mas nunca mais conseguiu fazer um álbum no mesmo nível desses quatro.
Flavio: Clutching at Straws fecha a fase inicial da banda, com a presença do primeiro vocalista, Fish. Pressionados pelo sucesso alcançado no disco anterior e principalmente pela balada "Kayleigh", o grupo, também vivenciando os agouros da vida em turnê, trouxe um clima mais sombrio. Fish monta uma história em torno de um personagem fracassado aos seus 29 anos (idade de Fish à epoca), sem emprego, mergulhado em bebida, vagando em hotéis e bares. A aproximação com a vida do vocalista é inevitável, sendo que para muitos o personagem reflete exatamente o que Fish estava passando. Independentemente do conturbado momento da banda, o disco é uma obra-prima, desfilando o melhor do Marillion, com canções impecáveis e performances soberbas. Posso destacar o maravilhoso trabalho do baixo de Pete Trewavas, estampado logo na faixa de abertura, e também o timbre melodioso e limpo da guitarra de Steve Rothery, perfeito em todo o álbum como não apontar o lindo solo de "Sugar Mice"? Fish criou letras fantásticas. Destaco a política e bélica "White Russian", "Warm Wet Circles", "Torch Song", "The Last Straw" e "That Time of the Night". É um desfile musical. Embora não tenha emplacado uma nova balada de sucesso e nem tenha alcançado o mesmo êxito comercial do anterior, considero-o como o melhor do grupo.
Mairon: Posso dizer sem sombra de dúvidas que o Marillion é uma das maiores decepções musicais que já tive. A eterna propaganda de eles serem "o novo Genesis" é a responsável pelo meu desencantamento. Não dá, é muito popzinho, nada progressivo, chato bagarái. As músicas são emendadas, tentando dar um ar conceitual, mas não conseguem me convencer. Mais um disco insuportável que tive que ouvir desses caras, que não merece lugar na série. Desculpe-me, Alexandre.
Ronaldo: Uma espécie de pop travestido de progressivo ajudou o Marillion a se tornar célebre. Há trabalhos mais progressivos e outros mais pop do que este, mas Clutching at Straws equilibra-se bem nos dois terrenos. O disco tem requinte e passagens instrumentais bem interessantes (um bom trabalho de bateria e guitarra são os destaques), mas o clima que predomina é algo que pode equivaler a um synth pop não dançante e o som dos new romantics. A sonoridade contribui para algo quase constantemente acinzentado e introspectivo. "Incommunicado" é a mais progressiva do álbum.
Ulisses: Dramático, mas com melodias o suficiente para agradar do começo ao fim. Apesar de preferir as faixas mais animadas ("Just for the Record" e a excelente "Incommunicado"), não nego que a força do álbum está no poder emotivo de composições como "Warm Wet Circles" e "Sugar Mice", que se utilizam de teclados efetivos, guitarra espaçosa e um vocalista inspirado, além de ótimas letras. Não morri de amores pelo álbum, mas entendo quem se apaixona por ele.


Queensrÿche - Promised Land (1994)
Alexandre: Assim como o Marillion, o Queensrÿche acabava de sair de uma extensa turnê, catapultada pelo sucesso de Empire (1990). Ambas as bandas fizeram álbuns mais contidos, de cunho mais reflexivo, como sequência de seus maiores trunfos comerciais. No meu entendimento, engana-se quem resume o grupo a Operation: Mindcrime (1988) e Empire. Até este quinto álbum, o que eu consigo avaliar é uma banda em plena capacidade criativa, que não repetia fórmula, álbum após álbum. O que aconteceu de Promised Land para frente realmente é uma lástima, salvam-se poucas canções no restante da discografia, a maioria no não mais que razoável Hear in the Now Frontier (1997). Este é, portanto, o último suspiro criativo do grupo. Um álbum extremamente bem gravado, para se ouvir nos detalhes. Uma ou duas audições são insuficientes para entendê-lo. Sua capa, aliás, é exuberante, certamente a mais bonita desta lista. É também um disco bastante diversificado. Há faixas que eu sequer ouso definir de forma mais acurada; como classificar "Disconnected"? Há espaço para a progressiva "Out of Mind" (minha preferida), a pesada "Damaged", a reflexiva faixa-título, o hard rock melódico de "One More Time" e uma bela interpretação ao piano por Geoff Tate em "Someone Else". A acústica "Bridge" acabou por se tornar um single que não obteve a repercussão de sua antecessora, "Silent Lucidity". Para mim, caso clássico de interferência da gravadora, buscando uma vendagem tão ou mais expressiva que o obtido em Empire. Nem sempre os melhores álbuns são os mais vendidos. Não cabe a comparação, até porque os discos são muito diferentes, mas em uma escolha desavisada eu não hesitaria em separar Promised Land para ouvir ao invés de Empire.
André: Eles me agradam em tudo até Empire. Já Promised Land, que ainda considero razoável, com alguns bons momentos, já liga um sinal de alerta de que os caminhos futuramente escolhidos não seriam bons. Fatalmente isso ocorreu para quem é fã deles naquele período. "I Am I" e "Promised Land" são as únicas que poderiam estar nos anteriores (ainda que como faixas-bônus), mas o restante do tracklist dá um certo desânimo, ainda mais sabendo o que fizeram com a carreira logo depois. Os caras tinham um vocalista poderoso (Tate) e instrumentistas muito bons (principalmente Chris DeGarmo), que neste registro começaram a se assanhar por uma vibe alternativa e noventista da qual eles não tinham domínio. O resultado é um disco bem aquém do que foi o anterior. Ouço, mas não é o Queensrÿche pelo qual eu nutri admiração.
Bernardo: Operation: Mindcrime ainda é o único do Queensrÿche que ouvi e gostei mais na época do que hoje em dia. Promised Land tem seus bons momentos, mas nada que eu ache um arroubo.
Christiano: Depois de ter conseguido uma grande exposição com Empire, o Queensrÿche gravou aquele que considero ser seu melhor álbum, mostrando que a banda estava em processo de amadurecimento e sem medo de experimentar novos caminhos. Desde o primeiro EP o grupo mostrava um diferencial em suas composições, um flerte leve com o progressivo, tendência que foi crescendo com o tempo e teve seu auge neste disco. Os climas meio oníricos de faixas como “Out of Mind” e a própria “Promised Land” evidenciam o flerte explícito com o prog, fato que enriqueceu muito a sonoridade da banda. Como um todo, o disco é perfeito do início ao fim, mas “Damaged” e “Bridge” merecem ser citadas.
Davi: Comprei este disco na época do seu lançamento e ele me decepcionou um pouco. Ouvindo hoje, ele sobe no meu conceito. Trabalho muito bem feito. Sombrio e melancólico. Chris DeGarmo e Geoff Tate faziam a diferença e isso é perceptível. Sim, o álbum tem bastantes baladas, mas são super bonitas, caso da ótima “Bridge” e da linda “Lady Jane”. As músicas mais pesadas diferem dos álbuns anteriores por trazerem uma pegada mais melancólica. Entre essas, colocaria “My Global Mind” e “Damaged” como destaques. No geral, continuo o considerando abaixo de Operation: Mindcrime e Empire, mas sem dúvida é um belo disco.
Diogo: O último grande disco do Queensrÿche suscita reações distintas, pois já aponta rumo ao caminho menos convencional que o grupo trilharia a partir de então. Para mim, contudo, trata-se ainda de mais uma belíssima obra desse quinteto, que até então havia lançado álbuns bem distintos sem no entanto decepcionar. Apesar de não ser exatamente conceitual, suas letras estão de certa forma ligadas a problemas de relacionamento decorrentes da modernidade e nossa dificuldade em lidar com eles. A maneira como letras e instrumental conectam-se é excepcional, e a variedade contida em Promised Land potencializa a percepção de cada elemento nele presente. Ao mesmo tempo em que há canções mais diretas, como "Damaged" e "My Global Mind" (que poderia tranquilamente estar em Empire), há outras com um nível de complexidade mais elevado, caso da faixa-título, com uma pegada mais progressiva e arrastada, e das quebradas "I Am I" e "Disconnected". Os destaques maiores, no entanto, são as semiacústicas "Out of Mind", cuja melancolia nos coloca entre as paredes frias de um manicômio, e a soberba "Bridge", na qual Chris DeGarmo expõe o relacionamento turbulento entre seu pai e ele e sola com muita emoção. "Lady Jane", por sua vez, é uma balada pesada com a marca do Queensrÿche e belos arranjos de piano e violoncelo. Sei que alguns discordarão, mas o resgate é muito bem vindo. É o tipo de disco que não é para qualquer um, assim como Rage for Order (1986), obra ainda melhor desse grupo cuja carreira foi irrepreensível até Promised Land.
Fernando: Meu disco preferido do Queensrÿche é Empire. Tenho um pouco de preguiça de Operation: Mindcrime, que é o mais cultuado, apesar de gostar de algumas músicas isoladas. Parece que em Promised Land a banda pediu desculpas pelo sucesso de Empire e fez um disco meio dark. Ele não empolga de cara e necessita-se de várias audições para entendê-lo. Talvez a influência do grunge, não pela parte musical, mas pelo clima das letras das bandas de Seattle, tenha influenciado o pessoal do Queensrÿche, que também é da cidade.
Flavio: Continuando a jornada de discos sempre diferentes uns dos outros, Promised Land traz maior influência do rock progressivo, principalmente do Pink Floyd, porém com a adição de elementos mais modernos. Apesar de particularmente não ser grande apreciador da faixa-título, há notadamente grandes composições no restante do tracklist. Desde Empire, a banda já vinha se alinhando com sons menos pesados, presença marcante apenas no início ("I Am I" e "Damaged"). Há grandes composições, como as introspectivas e lentas "Bridge", "Lady Jane" e "Someone Else", todas lindíssimas. Também há toques eletrônicos (já vistos em Rage for Order), como na ótima "Disconnected", outra de minhas prediletas. Há boas composições com viés mais pop rock em "My Global Mind" e "One More Time", que não destoam em qualidade, com ótimos vocais. Qualidade sonora, aliás, pode ser considerado outro aspecto a se destacar no álbum, que é muito bem produzido e mostra toda a banda em ótima forma. Considero Promised Land o último grande trabalho do quinteto. Ele foi citado em minha lista pessoal na edição correspondente e merece a lembrança.
Mairon: Lembro-me da edição da seção War Room abordando este disco e de quanto fiquei frustrado. Músicas curtas, acabando do nada, pomposo e chatinho. Tirando a guitarra, nada se escapa. O vocalista é uma cópia mal feita do Bruce Dickinson. Outro que não teria como aparecer na série, Alexandre, desculpe-me.
Ronaldo: Tem horas que parece um disco grunge e em outras vai na esteira do Dream Theater, cujo caminho deve ter sido pavimentado pelo próprio Queensrÿche. O disco é irregular e estranho, soa desconfortável em boa parte do tempo, ao que se deve essa aparente dúvida conceitual. "Out of Mind" é uma bela balada com um ótimo solo de guitarra e "One More Time" tem uma boa transa entre guitarras e violões.
Ulisses: Não ouvi nenhum álbum do Queensrÿche pós-Empire, fora o autointitulado com La Torre nos vocais, que, aliás, é um disco bacanudo. A banda soa como um Pink Floyd mais pesado e de atmosfera dark (especialmente na boa "Lady Jane"), inserindo detalhes eletrônicos e aproveitando melhor instrumentos como o piano e o saxofone, sem as guitarras tão faiscantes dos primeiros lançamentos. Um disco bem construído, bem pensado, mas sem composições particularmente cativantes, embora tenha uma aura envolvente do começo ao fim devido à ótima produção. Em alguns pontos, remeteu-me ligeiramente ao difícil Rage for Order. Destaco "I Am I" e "My Global Mind" como as mais marcantes.


Riverside - Second Life Syndrome (2005)
Alexandre: O caçula da minha lista, que tem a responsabilidade de fechar esta extensão da série, é o único de uma banda mais obscura. Os demais álbuns são de autênticos medalhões. Também é o único disco de apreciação mais recente, visto que nem foi citado na lista que elaborei para a edição voltada a 2005.  Isso se deve pura e simplesmente ao fato de eu não conhecer o grupo na ocasião. Dando os devidos créditos, fui apresentado ao Riverside pelo Kelsei, colega do Minuto HM. Desde então, a apreciação foi crescendo de tal forma que eu poderia não apenas indicá-lo nesta lista de esquecidos, mas colocá-lo em primeiro lugar na edição de seu respectivo ano. O grupo polonês faz um progressivo com inegável influência do Marillion, em especial pelas talentosas frases do (infelizmente) falecido guitarrista Piotr Grudzinski. Alia também certo peso, na linha de bandas como o Dream Theater. "I Turned You Down" lembra-me "Trial of Tears", ótimo momento do Dream Theater em Falling Into Infinity (1997). Não há como ouvir "Reality Dream III" sem lembrar dos caras. Second Life Syndrome tem ótimas composições. Para quem não conhece sua obra de forma mais ampla, é uma ótima pedida para começar. "After" é uma senhora faixa para introduzir o restante do trabalho, uma espécie de “mantra”, com uso de ótimas camadas vocais. Praticamente não há faixas fracas. A única que não me conquistou de vez foi "Artificial Smile". Destaco em especial "Volte-Face", mas também cito não só a faixa-título, como ainda o single "Conceiving". Do grupo é necessário destacar, além do guitarrista, Mariusz Duda, que consegue aliar ótimas linhas de baixo a um vocal bastante harmonioso. Ao vivo, o cara consegue dar conta de tudo. Não é fácil conciliar as linhas de baixo com o vocal ao mesmo tempo. Quem puder, dá uma checada na versão da faixa-título no DVD Reality Dream (2008), que também indico como porta de entrada. Fica aqui meu agradecimento ao Kelsei pela indicação menos conhecida desta lista e o meu agradecimento à Consultoria pela participação nesta série.
André: O estilo deles é o mesmo do Porcupine Tree e do Pain of Salvation, um mix de rock com metal progressivo focando-se mais nas guitarras do que em elementos sinfônicos. Eu gosto bastante desse gênero e os poloneses do Riverside fazem um sólido e competente segundo álbum. Gosto principalmente quando configuram o teclado para soar como hammond, tal como em "Second Life Syndrome", a enorme faixa-título. As letras são meio clichês do estilo, umas coisas meio reflexivas e filosofices que ninguém entende, mas compensam com um instrumental muito bem feito. Até estranhei este slot ser gasto com o Riverside, jurava que viria o Judas Priest com o disco do anjo.
Bernardo: Tem momentos bastante intensos e bem chamativos, mas achei que, no geral, não se sustenta muito como conjunto.
Christiano: Lembro que escutei muito o Riverside quando lançaram o primeiro disco, Out of Myself (2004). Depois disso, perdi o contato. Por isso, foi uma boa surpresa ter escutado Second Life Syndrome, um álbum muito bem feito, que aposta na modernização do rock progressivo, atualizando sua linguagem para tempos recentes. No geral, é um disco que dosa perfeitamente uma pegada mais pesada com melodias muito bonitas, como é possível perceber em “Volte-Face” e “Artificial Smile”, duas das melhores. Confesso que fiquei com vontade de escutar mais vezes. Boa redescoberta.
Davi: Não conhecia a banda, mas ficou claro que a pegada dos caras é fazer meio que um prog metal. Achei bacana que eles conseguiram fazer algo que não dá para associar muito ao Dream Theater. Muitos grupos dessa cena me soam meio que como uma cópia dos caras. Sim, pegam-se algumas referências à trupe de John Petrucci, mas, de modo geral, o som desses caras é um pouco mais sombrio, e mais pesado, inclusive. O instrumental é muito bom e destaco o trabalho de guitarra do falecido Piotr Grudzinski como o ponto alto. O trabalho de bateria e de teclado também é bem elaborado, mas achei os instrumentos mal timbrados, com uma sonoridade muito magra. A maior decepção, contudo, foi com a parte vocal. Achei o trabalho de Mariusz Duda bem abaixo do nível do restante. É como se o Rush contratasse Scott Stapp. O cara até canta direitinho, mas... Mesmo tendo essa pegada mais sombria e pesada, as faixas que mais me cativaram, por alguma razão, foram as baladas. Em especial, “Conceiving You”, para mim a melhor do disco. Gostei de conhecer o grupo, mas não virei fã. Não compraria.
Diogo: Não conhecia a banda. Vi a capa do disco e imaginei se tratar de algo tipicamente progressivo da década passada (não que isso fosse lá muito difícil de adivinhar). Dito e feito. Esses poloneses parecem pertencer à mesma leva prog europeia que gerou, entre outros grupos, o Beardfish, que também já deu as caras na série. O Riverside, contudo, é bem menos setentista que seus colegas suecos, apesar das influências também estarem evidentes. E, rapaz, não é que os caras são bons? Com uma pegada bem pesada, o quarteto passeia pela seara do prog metal sem suscitar comparações com medalhões do estilo. "Volte-Face" e "Artificial Smile" são especialmente empolgantes, mas o disco todo é bem interessante e a surpresa foi positiva. Uma coisa que me incomoda no prog mais recente é a falta de grandes vocalistas, mas até que Mariusz Duda faz um trabalho decente. Covardia seria tentá-lo comparar a caras como Greg Lake, Justin Hayward, Peter Hammill e John Wetton.
Fernando: Não conheço tanto o Riverside, mas gostei de tudo o que ouvi. Este disco começa com um clima bem progressivo, que muda um pouco depois quando entra a parte instrumental mais pesada em “Volte-Face”, que me fez lembrar de alguma música legal do Dream Theater. A comparação entre as bandas, porém, muito feita por aí, não é justa, já que o virtuosismo não é o foco de suas músicas. Li que o Riverside poderia ser um Marillion com mais peso e em “Conceiving You” isso apareceu bem, principalmente pelo solo de guitarra. A longa faixa-título é daquelas músicas em que não sentimos o tempo passar. Ótimo disco.
Flavio: O caçula da lista traz a combinação típica do recuperado movimento rock progressivo na década passada, em uma mistura com elementos mais pesados. A banda polonesa traz como maior virtude a qualidade nas composições e nas execuções. Não se vê uma preocupação com virtuosismo, e o repertório prima pela preocupação lírica com o tema do álbum e com harmonia e melodia, principalmente na guitarra do infelizmente falecido Piotr Grudzinski. O ponto de maior semelhança, inclusive, encontrado por mim como influência, está justamente nas seis cordas. Fica claro que Steve Hackett e Steve Rothery apresentam no Riverside sua criatura criativa, o que não é demérito algum, pois a guitarra é um dos destaques do álbum. Outros elementos, como o uso de repetições de riffs que vão progredindo, típicas do estilo, estão presentes em quase todas as faixas. O baixo também tem um timbre bem influenciado pelos representantes do rock progressivo, notadamente Pete Trewavas, e funciona muito bem, destacado em várias partes da bolacha. Há ainda boas performances vocais e dos teclados, em uma banda que executa sem dificuldades mesmo as partes mais intrincadas das músicas. Aponto como destaques a bela balada "Conceiving You", a climática faixa-título e "Dance with the Shadow". Second Life Syndrome também merece seu espaço, principalmente para os adeptos de rock/metal progressivo, compondo bem a excelente lista do Alexandre.
Mairon: Não conhecia a banda, então, como tenho feito, ouvi o disco sem buscar informações. Creio que se trata de um álbum conceitual, e gostei do resultado geral. Lembrou-me bandas como Porcupine Tree e I.Q., entre outros genéricos na linha dos grupos que Steven Wilson monta, mas foi legalzinho de escutar. Destaque para "Volte-Face" e para a instrumental "Reality Dream III". Não sei se deveria estar na série, mas não foi uma audição desprezível.
Ronaldo: O Riverside conduz um rock progressivo tropeçando no heavy metal, devido ao foco em guitarras, mas não chega a ser prog metal. Sua sonoridade, rica em texturas, é a cara do progressivo contemporâneo (ainda que já pesem 12 anos sobre o lançamento). O disco é marcado por tons menores e uma certa melancolia nas linhas vocais, com um trabalho admirável e original de bateria e baixo. A faixa-título é um grande destaque, com 15 ambiciosos minutos de muitas variações e sofisticação instrumental. "Artificial Smile" é outro destaque, com um riff possante e um ar misterioso. O álbum tem riqueza e assinatura própria.
Ulisses: A banda é habilidosa com os instrumentos e tem em Mariusz Duda um elemento interessante, visto que o baixista consegue encaixar bem seus vocais, versáteis e imponentes. O quarteto mistura a força do metal progressivo à la Dream Theater e Tool com momentos mais calmos e reflexivos, mas muitas vezes estende as composições com firulas instrumentais pouco interessantes, que tornam a audição fatigante.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Aerosmith - Parte II



Depois do hiper-sucesso de Toys in the Attic, o Aerosmith começa a ganhar a segunda metade da década de 70 como uma das maiores bandas de todos os tempos, e para isso, seu quarto disco, lançado em 1976, é o principal álbum da fase inicial do Aerosmith. 


Rocks, álbum de cabeceira de muitos gigantes do rock dos anos 80

De Rocks saíram três singles de extremo sucesso, que colocaram os americanos no Top 3 da Billboard: "Back in the Saddle", pesada faixa cujo refrão é para jogar o ouvinte na parede, tamanha sua violência, e cujo final é um momento de pura ode à Jimmy Page por parte de Perry, responsável também pelo baixo de seis cordas dessa faixa, a baladaça "Home Tonight", mais uma vez atestando que o Aerosmith sempre soube fazer baladas desde suas origens, com Tyler abrindo a garganta acompanhado pelo piano, e com um show de Perry na lap steel guitar, e "Last Child", cuja introdução engana muita gente, já que a leve balada vira um funk suave e cheio de groove com destaque para o grandioso solo de Whitford, mostrando que ele estava muito além de ser um mero guitarrista base. 

Vale citar que essa canção traz a presença do banjo de Paul Prestopino, de forma bastante experimental. Aliás, as experimentações rolam solta, basta ver que em "Sick as a Dog" Hamilton assume a guitarra, enquanto Perry vai para o baixo, o que em nada prejudica a harmonia da banda, e pelo contrário, cria mais um clássico. Ainda temos mais faixas que nos remetem indiretamente ao Led, como "Combination", com os vocais dobrados de Tyler e Perry, "Nobody's Fault", cuja semelhança não fica apenas no nome", e que para Kramer é sua melhor performance musical - o que considero uma boa possibilidade - e "Lick and Promise", bela pancada para acordar aquele vizinho pagodeiro, com pinceladas punk mas com fortes influências zeppelianas na guitarra de Perry. 


Tyler refrescando-se no RFK Stadium, em 30 de maio de 1976

Porém, não é uma cópia pura e simples, existe uma incrementação musical ao som do Led que diferencia bastante o aspecto geral dessas canções, tornando o Aerosmith inovador, seja nas passagens viajantes de guitarra, na levada sempre truculenta e pesada de Hamilton e Kramer, mas acredito que, principalmente, na performance vocal de Tyler, um vocalista bastante injustiçado nas listas de melhores, e que assim como Perry e Kramer, nessa época estava vivendo seu auge musical. 

As faixas rockers também marcam presença, e esse espaço aqui é dedicado para a excelente "Rats in the Cellar", rockzão endiabrado para sacudir o esqueleto, na linha da pancada que foi "Train Kept a Rollin'" no disco anterior, inclusive com Tyler abrilhantando a presença da harmônica, e o boogie regado de malícia em "Get the Lead Out", também com a presença da harmônica.  O disco que alcançou platina logo de seu lançamento (e hoje é platina quádrupla), é influência certa para muitas das bandas do hard rock e até mesmo do heavy metal nos anos 80. 

Slash considera esse seu disco de cabeceira, Vince Neil já afirmou que esse é o disco que fez ele virar músico, e muitos outros nomes da década de 80 - Testament, Metallica, Anthrax, ... - babaram ovo para Rocks, então, não preciso falar mais nada. Apenas que foi aqui que o excesso de drogas e álcool começou a surtir efeito no grupo, com a imprensa apelidando Tyler e Perry "toxic twins", e que viria a ter efeito anos depois. Mas antes, outro grande disco chegaria ao mundo.


O melhor disco, para mim, dos americanos

Draw the Line, lançado em 1977, é o meu preferido de todos os discos do Aerosmith, é assim que defino esse álbum. Poucos discos do final da década de 70 se dão ao luxo de não ter nada para corrigir, e esse com certeza é um deles. Começando pela faixa-título, um dos riffs mais sujos que Perry e Whitford criaram, já sabemos que o quinteto veio para arrasr o quarteirão, seja pelo abuso dos slides por Perry, ou simplesmente, por que o baixo de Hamilton está socando a cara do ouvinte sem piedade. 

Depois, somos conduzidos por uma mutação stoniana incansavelmente deliciosa chamada "I Wanna Know Why", com o piano de Scott Cushnie sendo o centro das atenções, ao lado do saxofone de Stan Bronstein, piano presente também na homogeneidade sonora do viajante boogie "Critical Mass", onde junto com baixo, harmônica, vozes e muitas guitarras causa uma sensação de hipnose que fará seu corpo balance por vários minutos, ainda mais por que na sequência, o Aerosmith traz mais um daqueles hards-funks que abre o sorriso na boca do pessoal da Motown, com o nome de "Get It Up", em mais uma assombrosa coleção de notas musicais em uma mesma canção, contando com a participação dos vocais de Karen Lawrence. 


Curioso compacto de "Draw the Line", no qual a
capa apresenta uma foto invertida dos músicos
Por fim, encerrando esse incrível lado A, "Bright Light Fright" é uma faixa punk com o saxofone rasgado de Bronstein e que é a primeira canção a contar com os vocais exclusivos de Perry. Mas calma, estamos apenas no lado A. "Kings and Queens" resgata o banjo de Paul Prestopino e o piano de Tyler, bem como apresenta o produtor Jack Douglas ao mandolin, em uma balada amarga e pesada que está longe das açucaradas canções dos anos 90, e com um riffzão poderoso, bem como uma virada em sua segunda metade, a qual leva para o solo de Perry através de um baixo altíssimo, que arrepia até os cabelos do suvaco, ainda mais com os longos acordes de sintetizadores. Que baita música. 

O grupo estava tão solto que é impossível descrever o que eles criaram em "The Hand That Feeds", uma espécie de disco music com guitarras distorcidas, que nunca ouvi nada similar, e com belos solos de guitarra. Voltamos aos hard-funks em "Sight for Sore Eyes" - mais uma canção que nos remete aos Stones, e Draw the Line encerra com o cover para "Milk Cow Blues" (de Kokomo Arnold), boogiezão agitado que fecha com chave de ouro o álbum mais cru, mais punk, mais heavy, mais bom de ouvir que o grupo fez, em toda sua integridade, e que foi bastante criticado pela imprensa quando de seu lançamento, por não ser tão genial quanto Rocks. Que se ralem, o disco é duca, e mesmo tendo apenas conquistado platina dupla nos EUA, deve ser ouvido sem medo.




O famoso Live! Bootleg (acima); Aerosmith no filme de Sgt. Pepper's (centro)
e o álbum trilha sonora do filme (abaixo)

Da longa turnê de promoção do álbum pelos Estados Unidos nasce Live! Bootleg, o primeiro ao vivo da banda lançado em 1978. No mesmo ano, o grupo participou do filme Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, bem como da trilha do mesmo, registrando uma versão impecável de "Come Together" que ficou tão famosa quanto a original do The Beatles.


Considerado o mais fraco disco do Aerosmith nos anos 70

Em meio há muita turbulência, chega às lojas o sexto álbum da banda, Night in the Ruts, lançado em 1979. Nesse período, Tyler tomava drogas desde o café da manhã até a ceia, e estava com grandes dificuldades de compôr. Além disso, as baixas vendas de Draw the Line fizeram com que a gravadora da banda os obrigasse a sair em turnê mais uma vez, com o objetivo que conseguir ressarcir os gastos da gravação. 

Essa turnê gerou ainda mais brigas internas, com os músicos praticamente separando-se de suas esposas. Perry foi o que mais sofreu com isso, e consequentemente, o resultado final foi um atraso de dois anos no lançamento de Night in the Ruts. Esse longo período acabou afetando o processo de conclusão das canções, com o grupo tendo que apegar-se a três covers para fechar um track list bastante curto, que originalmente, sem as covers, ficaria com apenas vinte minutos. 

Encarte do último álbum de Perry com o grupo

O grande sucesso do disco foi a baladaça "Mia", com a participação de Richard Supa nas guitarras, substituindo Perry (conforme explico a seguir) e trazendo Tyler ao piano para dar um tapa na cara daqueles que insistem em dizer que a banda só fez baladas pós-Pump. Aliás, dentre as covers, há mais uma balada, "Remember (Walking in the Sand)", de George Mothon, um grande sucesso das The Shangri-las e que aqui ganhou um singelo mas belo solo de Perry, além de uma exímia interpretação vocal de Tyler e da participação de uma das Shangri-las nos backing vocals, no caso Mary Weiss. 

Os outros covers são o sensacional blues de Jazz Gillum, em parceria com Joe Bennett e Lester Melrose, "Reefer Head Woman", com um maravilhoso solo de harmônica por Tyler, e a versão para "Think About It", na mesma linha do último registro oficial dos The Yardbirds, até com Perry encarnando Page e aumentado ainda mais sua paixão pelo Led. Aliás, falando em Led, Three Mile Smile", poderia tranquilamente estar presente em Presence (Led Zeppelin), enquanto o slide guitar de "Cheese Cake" sempre me remete à "In My Time of Dying", mas com um refrão grudento para diferenciar dos deuses britânicos.

Há os rocks sujos que consagraram os americanos, como a ótima "No Surprize" (com Z mesmo), tendo também a participação de Supa no lugar de Perry, o ritmo dançante mas pesado da quase disco "Chiquita", com muita distorção nas guitarras e uma importante participação do naipe de metais de George Young (saxofone alto), Lou Delgotto (saxofone barítono), Lou Marini (saxofone tenor) e Barry Rogers (trombone), bem como as explícitas referências disco em "Bone to Bone (Coney Island White Fish Boy)" (certamente o The Clash deve ter ouvido essa faixa para fazer algumas de suas canções fase Combat Rock e Sandinista!. 

Aerosmith com segunda formação: Kramer, Hamilton, Tyler, Jimmy Crespo e Whitford
O nome do disco é um trocadilho com Right in the Nuts (direto nas bolas), e em termos de vendas, conquistou platina apenas em 1994, tendo como ponto máximo de colocação a 14a posição na Billboard.

Perry acabou deixando a banda no meio das gravações de Night in the Ruts, e por isso Supa ocupou seu lugar, mas não por muito tempo, já que para a turnê de divulgação do álbum, Jimmy Crespo foi o escolhido. Foi um tiro na perna para os fãs da geração antiga, já que Crespo possuía um visual bastante "colorido" e diferente, exibindo bastante seu corpo jovem e cheio de pêlos, o que atraiu a mulherada, mas mandou embora muito dos fãs antigos. Durante essa turnê, em 1980, Tyler teve um colapso em pleno palco, no que ficou conhecido como o Incidente de Portland. 

Steven Tyler, desmaiado em Portland

O Aerosmith estava no fundo do poço, e a solução encontrada pela gravadora Columbia, detentora dos direitos do grupo, foi lançar a coletânea Greatest Hits, que vendeu mais de 11 milhões de cópias somente nos Estados Unidos. Quando parecia que o gupo voltaria ao normal, Tyler sofreu um grave acidente de moto no outono de 1980, ficando hospitalizado durante dois meses. 

Decepcionado, Whitford abandonou a barca grupo, surpreendendo o mundo ao formar o Whitford / St. Holmes ao lado de Derek St. Holmes, pouco depois das gravações iniciais do novo álbum começar. Para seu lugar, o francês Rick Dufay foi o homem escolhido, devido principalmente pelo bom trabalho no seu álbum solo, Tender Loving Abuse (1980), e também pelo visual ser muito similar ao de Crespo. Era uma nova era que começava para o grupo.

Contestado na época, hoje reconhecido como ótimo disco

Depois de muita água passar por debaixo da ponte nesse período, e com a entrada oficial de Jimmy Crespo e Rick Dufay, o grupo entrava em um período reciclado, que culminou em um disco bastante contestado e depreciado pelos fãs. Porém, como muitos outros, aos poucos o pessoal vem entendendo as qualidades de Rock in a Hard Place, um disco sensacional, lançado em 1982 com muita força, que mostra que mesmo a base de drogas pesadíssimas, ainda eram capazes de criar obras atemporais como a violenta "Jailbait", a swingada e pegada "Bolivian Ragamuffin", uma das melhores faixas do Aerosmith nos últimos 35 anos, com um show de Crespo no slide. 

A presença dos teclados na bizarra vinheta "Prelude to Joanie", e principalmente em "Lighting Strike's" dá um ar oitentista ao som da banda, sendo que na última temos a única participação de Whitford. O prelúdio de Joanie leva para "Joanie's Butterfly", faixa trabalhada em um clima oriental e trazendo como convidados John Lievano nas guitarras e nos violões e o violino de Reinhard Straub. 

Formação em 1982: Hamilton, Kramer, Tyler, Dufay e Crespo

Como sempre, umas referências ao Led tem que rolar, e elas aparecem em "Jig Is Up", assim como uma baladinha, e novamente o grupo se apega para um cover, fazendo uma emocionante interpretação bluesy para "Cry Me a River" (Arthur Hamilton), onde a interpretação de Tyler é de tirar o chapéu e comê-lo sem sal, já que suas lágrimas irão temperar o chapéu com esse gosto, blues esse que embriaga a casa na chapante "Push Comes to Shove", outra faixa seminal de um disco impecável. 

Ainda temos a pegada Aerosmith de sempre em "Bitch's Brew", apresentando um enganador dedilhado de violão, e da sensacional faixa-título, com a presença do saxofone de John Turi. Vale destacar que Dufay não participou de nenhuma faixa do disco, apesar de ter sido creditado no mesmo, pois quando ele foi oficializado como o quinto membro, o disco já havia sido concluído.  Considerado o maior fracasso comercial da banda (o único disco que conquistou apenas ouro em termos de vendas), Rock in a Hard Place está aí para ser ouvido por novas mentes dispostas a superar o preconceito e deparar-se com uma incrível obra, a qual considero um Top 3 na discografia da banda. Sua turnê não foi das melhores, com Tyler novamente passando problemas durante uma apresentação em Worcester. 

A Columbia despediu o grupo, e o fim era a saída mais óbvia. Mas, como uma Fênix, em 14 de fevereiro de 1984, Perry e Whitford voltaram ao grupo, o que veremos em quinze dias como o grupo volta ao cenário mundial com toda a força, conquistando uma nova geração de fãs e se tornando uma das bandas mais vendidas de todos os tempos, gerando mais uma penca de álbuns essenciais. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Aerosmith - Parte I



Uma das grandes bandas de todos os tempos, nascida nos anos 70 e que conseguiu sobreviver aos anos 80 com certa relutância dos fãs, mas que tomou novamente o topo do mundo nos anos 90 e nunca mais saiu de lá até os dias de hoje. Assim podemos resumir a longa carreira dos americanos do Aerosmith, para muitos, a "Maior Banda de Rock 'n' Roll da América". Com 15 álbuns de estúdio, e alguns ao vivo, o Aerosmith éo grupo americano que mais vendeu em toda a história, com mais de 150 milhões de álbuns vendidos ao redor do mundo, sendo 70 milhões somente nos Estados Unidos.

Além disso, vinte e uma músicas no Top 40 da Billboard Hot 100 e nove músicas no topo do Hot Mainstream Rock Tracks. Quatro Grammy Award, dez MTV Video Music Awards, membros do Rock and Roll Hall of Fame, 25 discos de ouro, 18 discos de platina e 12 de multi-platina. Um breve resumo de uma discografia cheia de altos e muitos altos (bem como alguns baixos), que você acompanha a partir de hoje, aqui na Consultoria do Rock, em duas partes.


Steven Tyler (o primeiro da esquerda para direita) na Chain Reaction (1967)

O Aerosmith surge em 1969, a partir da união dos grupos Chain Reaction, do qual fazia parte Steven Tyler (vocais, harmônica, piano) e Jam Band, de Joe Perry (guitarra, vocais) e Tom Hamilton (baixista). O Chain Reaction havia sido formado em 1964, com o nome de Sttrangeurs, e da qual era baterista e vocalista. Em setembro de 69, a Jam Band chegou à Boston, Massachussets, com a finalidade de encontrar um novo baterista, Joey Kramer, o qual vinha de Nova Iorque. 

O nascimento do Aerosmith ocorre por acaso. Perry trabalhava em uma lanchonete de Sunapee, em New Hampshire, e tinha como cliente Tyler. Quando o último viu a Jam Band em ação, interpretando a faixa "Rattlesnake Shake" (Fleetwood Mac), surgiu o embrião do Aerosmith, em outubro de 1970.


Joe Perry (centro) com a Jam Band

A formação da banda é concluída com Ray Tabano (guitarras) e Joey Kramer (bateria). O primeiro show ocorre em 06 de novembro de 1970, mas Ray não durou muito, sendo substituído por Brad Whitford logo no início de 1971, o que dá origem a uma das formações mais clássicas da história do rock. Foi Kramer quem batizou o grupo, usando uma palavra que ele gostava de escrever nos seus cadernos da escola, inspirado no disco Aerial Ballet, de Harry Nilsson.

Com diversos shows locais, chamam a atenção da Columbia Records, com quem assinam um contrato de 125 mil dólares em meados de 1972. Na sequência, surge a estreia do quinteto, lançado em janeiro de 1973. 


Versão americana de Aerosmith

Aerosmith é daqueles discos para chamar a galera pra curtir junto. Afinal, como resistir a pegada bluesy de "Somebody", trazendo um interessante solo de Perry, ou "Write Me" e "One Way Street", ambas com a presença marcante da harmônica de Tyler, e as três com riffs fáceis de grudar na cabeça, baseados no mais puro e honesto rock 'n' roll. O que chama a atenção para quem ouve Aerosmith só há algum tempo é como a voz de Steven Tyler era diferente, mais grave e rouca do que atualmente. 

Três grandes clássicos saíram daqui, começando por "Mama Kin", rockzão na linha Stones que foi eternizado pelo Guns N' Roses no álbum Lies, com destaque para o baixo de Hamilton e a presença do saxofone de David Woodford, a baladaça "Dream On", que ganhou fama nos anos 90 com uma nova gravação com orquestra, mas que na versão original, é uma arrepiante faixa onde a guitarra dolorida de Perry casa perfeitamente com os vocais agonizantes de Tyler, responsável também por pilotar o mellotron na canção, e "Walkin' the Dog", sucesso de Rufus Thomas que tornou-se um dos riffs mais marcantes de Perry e Whitford, na linha de "Come Together" (The Beatles), mas com muito peso e sujeira exalando das caixas de som. 


Versão britânica

Destaco ainda a sensacional "Movin' Out", pesada faixa inspiradíssima nos riffs afiados de Paul Kossoff no Free, e a pancada "Make It", com uma levada peculiar da bateria de Kramer em uma das introduções mais foderosas do grupo. Com certeza, não é para as menininhas que adoram "Cryin'" ou "Crazy", pois é pancada comendo praticamente o tempo inteiro.


A estreia do logo alado

Uma grande série de shows veio na sequência, e já em 1974, chega o segundo disco da banda, Get Your WingsEste é mais um belo disco dos americanos, praticamente o que os levou a consagração, conquistando a platina tripla em seu país. Aqui surge o famoso logo alado que virou marca consagrada da banda, bem como é o início da grande parceria com o produtor Jack Douglas. 

O disco é mais trabalhado do que seu antecessor, como atestam a presença do piano - a cargo de Tyler - na dançante "Lord of the Thighs", os efeitos de ventos assustadores na viajante "Seasons of Wither", a qual pode se dizer ser a balada do álbum, apesar de estar longe de ser isso, e os efusivos metais na clássica "Same Old Song and Dance" e no groove de "Pandora's Box", metais esses a cargo de Michael Brecker (saxofone tenor em ambas), Michael Brecker (saxofone barítono em ambas), Jon Pearson (trombone) e Randy Brecker (trompete) em "Same Old Song and Dance". "S. O. S. (Too Bad)" é uma faixa próxima ao punk, com as guitarras sujas sendo o centro das atenções, em um ritmo empolgante.


Compacto de "Train Kept A Rollin'"

Quando o quinteto resolve soltar a mão, apresentam faixas emblemáticas, com o peso de "Spaced" fazendo atiçar os ouvidos para similaridades Zeppelianas, . Ponto alto para a longa "Woman of the World", com sua grandiosa introdução e um show de Perry na guitarra e de Tyler na harmônica, e a foderástica versão para "Train Kept a Rollin'", a canção original de  Tiny Bradshaw, imortalizada pelos Yardbirds e que com o Aerosmith, virou uma surpreendente faixa swingada, que transforma-se violentamente para quebrar o pescoço sem piedade, tendo as participações de Steve Hunter e Dick Wagner nas guitarras. Vale destacar que quando ocorre a mudança para a pancadaria, surgem gritos como se a faixa fosse gravada ao vivo. 

Na verdade, Doulgas resolveu usar um overdub do álbum The Concert for Bangladesh, apesar de que originalmente, a banda queria mesmo ter registrado a faixa ao vivo. "Same Old Song and Dance", "Train Kept A-Rollin'" e "S.O.S. (Too Bad)" foram lançados em hoje cobiçados singles, mas não emplacaram nos charts americanos. Apesar disso, o caminho do Aerosmith já estava traçado para o sucesso a partir daqui.

O multi-platinado Toys in the Attic

Depois de garantido o sucesso, o Aerosmith veio com aquele que para mim é um dos melhores discos de sua carreira. A começar pela faixa-título, uma violenta avalanche de riffs extraídos por Perry e Whitford, e um refrão perfeito para gastar a garganta gritando em shows, Toys in the Attic é o álbum clássico que deve servir para apresentar uma determinada banda à alguém. 

Afinal, aqui estão os grandes hits "Walk This Way", união seminal do rap com o rock, de forma como poucas bandas conseguiram fazer, e "Sweet Emotion", com um riff dançante similar ao de "Walk This Way", mas bem mais sujo, destacando o uso do vocoder por Perry, para criar efeitos impressionantes, além do baixão de Hamilton ficar hipnotizando a cabeça do ouvinte por dias, bem como a presença de Jay Messina na marimba,  Mas o álbum não vive só delas, afinal, como resistir ao rockzão de "Adam's Apple", mais um show de guitarras pela dupla Perry / Whitford, ou o peso descomunal da violentíssima "Round and Round", uma das melhores faixas da banda, praticamente obscurecida pela grandiosidade dos hits que citei anteriormente, e que seria um adicional interessante no atual set list da banda, já que é daquelas faixas que surpreendem na primeira audição (quem diria que a banda que gravou essa bigorna de 300 toneladas veio a fazer melosidades como "Cryin'" ou "I don't Wanna Miss a Thing" anos depois?). 

Aerosmith nos anos 70: Tom Hamilton, Brad Whitford, Steven Tyler, Joe Perry e Joey Kramer

Nas faixas mais amenas, como "Uncle Salty" e "No More, No More", predomina uma interpretação segura de uma banda que conseguiu atingir sua maturidade, criando seu próprio estilo onde os riffs rockers e os refrões grudentos serviram de inspiração para várias bandas dos anos 80 (Guns n' Roses, Skid Row, Ratt e por aí vai). A segurança do grupo era tamanha que eles foram capazes de recriar o jazz embalado de "Big Ten Inch Record" (original de Fred Weismantel) sem deixar a peteca cair, com Scott Cushnie ao piano, Tyler na harmônica e a presença dos metais, dirigidos por Michael Mainieri, que também é reponsável pela orquestra na baladaça "You See Me Crying", um tapa na cara daqueles que acham que a banda só veio a fazer balada melosa nos anos 90. 

A diferença é que nessa época, as baladas ainda tinham pitadas hard para serem absorvidas pelos fãs que admiravam a pegada rocker do grupo, mas claro, a voz chorosa de Tyler já servia para molhar calcinhas ao redor do planeta. O disco chegou na décima primeira posição na Billboard, conquistando platina óctupla nos Estados Unidos (oito milhões de vendas), e teve como singles "Sweet Emotion", "Walk This Way" e "You See Me Crying" / "Toys in the Attic". 

Quer conhecer a banda, vá direto aqui, e não irá se arrepender, apesar de muitos atribuírem ao seu sucessor os méritos para tal, como veremos daqui há dois dias.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Michael Cooper: The Rolling Stones - Early Stones [2012]




Livros sobre música sempre são um atrativo extra para colecionadores e amantes dessa arte, seja por conta das informações históricas, seja por notícias desconhecidas, ou também por conta de catálogos feitos com precisão que auxiliam os colecionadores a guardar, armazenar e classificar seus materiais. Recentemente, escrevi sobre o bom livro Discografia Completa, dos Rolling Stones.

A versão gringa
Além disso, um novo formato de livros que surgiu com força e muito consumo são os livros de imagens. Várias bandas tiveram lançamentos que compilam em suas páginas imagens raras, inéditas, clássicas, que viram referência da exposição dos artistas, algumas bastante emblemáticas. Nessa área, um dos clássicos livros é Early Stones, lançado originalmente em 1993 (lá fora) e que saiu aqui no Brasil em 2012.

Com 328 páginas, no formato brochura, o livro traz uma série de imagens registrada pelo renomado fotógrafo Michael Cooper, cobrindo a fase embrionária dos Rolling Stones até as gravações do clássico Exile On Main St., de 1972, em um período de aproximadamente 10 anos de imagens. Cooper tornou-se um amigo pessoal da banda, sendo mais íntimo de Keith Richards, o velho Keef, e acompanhou de perto praticamente o dia-a-dia da banda, inclusive períodos de férias, visitas a locais históricos, gravações - Cooper era o único fotógrafo autorizado a registrar imagens das gravações - e momentos íntimos dos membros da banda.

Mick e Keef em Stonehenge (acima); "The Eleven Hands" (abaixo)

A compilação das imagens foi feita pelo filho de Michael, Adam Cooper, e para quem curte ver fotos, é muito legal visualizar a visita de Keef e Mick Jagger à Stonehenge, os dias de férias de Brian Jones, Mick Jagger e Keef no Marrocos, os ensaios para a gravação de Exile On Main St., momentos de lazer de Keef com sua esposa, Anitta Palenberg, e os filhos ainda pequeno, assim como Jagger ao lado de Marianne Faithfull, fotos promocionais, entre outros, como a sequência de imagens que originou a clássica foto "Eleven Hands", Keef tocando baixo e teclados, histórias e imagens do set que originou a capa de Their Satanic Majesties Request, e que foi todo montado pelos próprios Stones, momentos da clássica apresentação da banda no Hyde Park, no famoso show em homenagem à Brian Jones, o próprio Jones nos estúdios, tocando marimba, Sitar, a visita de Keef, Graham Nash e amigos ao parque Joshua Tree, e claro, muitos cigarros em quase todas as fotos dos músicos.

Galera indo dar "uma banda" com Graham Nash (acima); Keef na piscina (abaixo)

Junto das imagens, o livro também traz relatos narrados por Keef, Anitta, Marianne, Ian Stewart (pianista que acompanhou os Stones desde o início da banda, sendo considerado o sexto membro do grupo, até vir a falecer em 1985) e o escritor Terry Southern, que veio a falecer em 1995, três anos após o lançamento original de Early Stones, bem como um emocionante epílogo feito pelo filho de Michael, Adam Cooper, onde ele conta sua relação com as imagens e com o dia a dia do pai e os famosos.
Keef apreciando uma determinada substância (acima);
contra-capa da versão nacional do livro (abaixo)

Em época de Feira do Livro em várias cidades daqui do Rio Grande do Sul (não sei se no resto do país tem essa tradição), e de véspera de Black Friday em vários sites de livrarias e lojas especializadas, é uma boa pedida para os fãs dos ingleses.




quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Review Exclusivo: U2 (São Paulo, 22 de outubro de 2017)




O U2 é definitivamente uma das maiores bandas da história, independente se você goste ou não. Afinal, os caras estão na estrada há quase 40 anos, já ultrapassaram a marca de 100 milhões de discos vendidos (atualmente são quase 180 milhões de discos vendidos), e ainda são capazes de lotar estádios pelo mundo inteiro, como vem acontecendo na atual turnê de comemoração aos trinta anos de seu principal álbum, The Joshua Tree, através de The Joshua Tree Tour 2017. Dentre os shows dessa tour, quatro foram agendados para o Brasil, exclusivamente na cidade de São Paulo, estádio Morumbi. As datas foram 19, 21, 22 e 25 de outubro, e tive a felicidade de comprar e assistir ao terceiro show dos quatro, depois de algumas madrugadas tentando comprar ingresso para os dois primeiros shows.
Para os que não viveram os anos 80, ou desconhecem a carreira do U2, The Joshua Tree foi o quinto álbum dos irlandeses, e o mais bem sucedido até hoje, tendo ultrapassado a marca de 25 milhões em vendas no mundo inteiro. Bono (vocais), The Edge (guitarra, teclados, voz), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria) deixaram nesse álbum um legado de clássicos eternos para o mundo da música, que os elevou ao patamar que hoje conhecemos, e nada mais justo do que fazer uma turnê de comemoração ao seu lançamento, interpretando-o na íntegra. Como convidado especial, o guitarrista Noel Gallagher, e sua High Flying Birds foram chamados para abrir as apresentações em São Paulo.
Apresentação de Noel Gallagher[/caption]
Cabaço de uma apresentação ao vivo do U2, sedento por ver os mesmos em um palco, larguei-me para São Paulo com a expectativa de ver um show memorável, e assim o foi. O ambiente, apesar de uma temeridade por chuva forte e tormentas, foi perfeito. Mais de 75 mil pessoas tornaram o Morumbi um templo de "orações" para que Bono e cia. desfilassem em alto estilo, eternizando para os presentes talvez o melhor show da banda nessa turnê, segundo o que conversei com diversas pessoas que haviam ido nas duas apresentações anteriores.
Antes, teve a apresentação de Noel Gallagher. O ex-Oasis fez uma apresentação burocrática, um tanto quanto fria, mas que teve seus momentos. Logo na terceira canção, "In the Heat of the Moment", a plateia surpreendeu a Noel, ligando os celulares e fazendo um bonito espetáculo de luzes. Os grandes momentos da apresentação de uma hora, obviamente, ficaram nos clássicos do Oasis. Abaixo de uma forte neblina, "Wonderwall", "Don't Look Back in Anger" e "Champagne Supernova" foram cantadas aos brados pelos presentes, assim como as canções da carreira solo de Noel foram bem recebidas pelo público. Foi um pouco constrangedor ver um dos grandes nomes do rock nos anos 90 abrindo para o U2. Noel parecia um pouco "insatisfeito" com a sua posição, mas é algo que o tempo deve corrigir. Afinal, o que representa o Oasis para uma geração inteira de roqueiros é muito relevante, ainda nos dias de hoje.
Adam Clayton[/caption]
Depois de um intervalo breve para retirada dos instrumentos e material da banda de Noel, eis que surge Larry Mullen Jr., caminhando sobre o palco e indo em direção a plateia. O palco da turnê desta turnê possui um formato de árvore, lembrando a famosa árvore que surge na capa do disco de 1987. Os "galhos" da árvore estão no meio da plateia, enquanto o "tronco" conduz a banda para a "raiz", que é o gigantesco palco central. Esses são os primeiros detalhes de algo fantástico criado pelos produtores do show, já que no palco central, estão apenas a bateria e alguns retornos, nada mais. Todo o aparato sonoro que leva o som para a plateia, assim como as luzes, estão localizadas acima do telão, flutuando através de gigantescos guindastes, e com uma potência arrebatadora. Já o telão, igualmente grande, dadas as proporções, é um espelho do palco, com a árvore na vertical, "subindo" aos céus, enquanto em direção a plateia, temos o que seria a "sombra" da árvore. Muito bem bolado, e que faz parte de todo o conceito da turnê.
A garoa sumiu do nada. Larry então posiciona-se na sua bateria, colocada em um dos galhos da árvore, pertinho do público, e em alguns segundos solta as batidas iniciais de "Sunday Bloody Sunday". São raras as canções que possuem um "riff" de bateria, e essa é uma delas. The Edge surge no palco central, caminhando e tocando o riff em D da canção, e Bono vem cantando a mesma, seguido por Adam. Eles passam há poucos metros de mim, que estou na grade do "caule", e ali percebo que estou vivendo um dia inesquecível. Morumbi inteiro cantando o refrão desse clássico, lágrimas (e celulares) para todo lado, e sem perda de tempo, The Edge assume os teclados para puxar o riff de "New Year's Day", mais uma paulada cantada em uníssono. Todos vibravam em êxtase com o que estava acontecendo ali, no pequeno palco central, mas era apenas o começo de uma grande noite.
Algumas imagens do gigantesco telão durante a interpretação de The Joshua Tree[/caption]
Bono começou sua série de discursos, levando o público, e entre sua fala, The Edge dedilhava o lindo riff de uma das mais lindas canções de todos os tempos, "Bad". Cara, que coisa emocionante. As luzes que existiram no show de Noel praticamente dobraram. O estádio inteiro estava iluminado pelos celulares. Os aviões que saíam de Congonhas e passavam por cima do Morumbi naquele instante devem ter visto cenas incríveis. E puta que pariu, que força tem essa música, barbaridade. Eu e mais uma galera ao meu lado desabou em lágrimas. Meus amigos que fizeram a indiada de ir cedo para a fila (valeu Claiton e Gustavo), aguentar mais de 12 horas sem ir ao banheiro para grudar na grade e curtir aquele momento, estavam deslumbrados tanto quanto eu. Embasbacante, não há palavras para descrever o que foi "Bad".
Mas, quando as pessoas achavam que já haviam atingido o ápice de sua emoção e alegria, veio "Pride (In the Name of Love)", que aí sim, colocou a casa abaixo. Essas quatro primeiras canções, retiradas dos discos War (1983, as duas primeiras) e The Unforgettable Fire (1984, as duas últimas), foram as que lançaram o U2 ao mundo, nos seus terceiro e quarto álbuns, respectivamente. Ainda hoje são presenças constantes em todos os shows da banda. Colocá-las logo na abertura foi uma ótima ideia, pois ganham a plateia de início e ainda, tocar no pequeno palco, representa um pouco da banda em suas origens humildes, antes de ganhar o planeta com o álbum que dá nome a turnê.
The Edge (acima); Larry, The Edge e Bono (abaixo)[/caption]
Encerrada a primeira parte do show, o quarteto dirige-se para o palco principal, e lá, passa a apresentar na íntegra The Joshua Tree. Certamente um dos grandes Lados A de todos os tempos, é redundante falar que o clímax permaneceu no ar por ainda mais tempo. A sequência de abertura do disco, com "Where The Streets Have No Name",  "I Still Haven't Found What I'm Looking For" e "With Or Without You", arrebentou com as cordas vocais de muita gente. Que espetáculo sonoro, e que espetáculo visual. Toda a "árvore" vertical era um telão, com imagens perfeitas. Era o U2 tornando-se grande ao mundo, e nada mais justo do que um telão enorme para mostrar isso.
Quem acompanha a banda há algum tempo certamente ficou surpreso, empolgado e com cara de "Meu Deus, é sério que to vendo isso?" quando em "Bullet the Blue Sky" Bono empunhou a câmera de vídeo e ficou filmando The Edge, relembrando o efeito feito pela dupla no consagrado vídeo de Rattle and Hum (1988). A sequência de The Joshua Tree deu uma esfriada na plateia, até por que essas oito primeira canções são para tirar o fôlego mesmo, mas houveram grandes momentos. Em especial, quero destacar "Trip Through Your Wires", "Exit" e "Mothers Of The Disappeared". A primeira conta com um breve solo de harmônica por Bono. Porém, em um determinado momento da canção, Bono dirigiu-se a um fã, atirou a harmônica e o microfone para o mesmo e pediu para ele solar. Obviamente, o solo não foi um dos melhores, mas com certeza, a alegria da pessoa que recebeu o instrumento foi impagável.
Bono, ajoelhado a menos de 2m de mim (fotos do meu amigo Claiton Correia)[/caption]
Já as duas últimas são responsáveis por encerrar The Joshua Tree, e são tão sublimes quanto as canções que inauguram o mesmo. "Exit" teve as imagens do telão em preto e branco, novamente uma citação ao vídeo de Rattle and Hum, lançado nesse formato. Já durante a passagem de uma para outra, Bono veio caminhando dos "galhos", e acabou parando exatamente onde eu estava. De olhos fechados, deu alguns passos para trás e se ajoelhou, há pouco mais de dois metros de mim. Cara, o homem estava ali, com toda sua respeitada carreira, mostrando suas rugas ao público, ali, pertinho, ajoelhado, messiânico cantando "Mothers Of The Disappeared". QUE MOMENTO!! QUE MOMENTO!! Não tinha dor nas pernas, não tinha fome, não tinha sede, cara, foi O MOMENTO, que feliz consegui registrar aqui!
Bono interagindo com fã durante "Trip Through Your Wires" (acima); Larry Mullen Jr. (abaixo)[/caption]
Recuperar o fôlego depois de pouco mais de uma hora de apresentação arrebatadora era tarefa hercúlea, e portanto, a banda deixou o palco por alguns minutos para podermos juntar os cacos e nos preparar para a terceira parte do show, a qual já começou lá em cima, com um clássico da nova fase do grupo, "Beautiful Day", reativando a chama do espetáculo. Vieram "Elevation" e "Vertigo", clássicos incontestáveis dos anos 2000, e o Morumbi novamente estava cantando aos brados.
Para surpresa dos presentes, o grupo incluiu "Mysterious Ways", a sensualíssima faixa de Achtung Baby na qual uma garota é chamada ao palco para dançar. Não foi diferente dessa vez, mas curiosamente, Bono chamou ao palco uma pessoa que já havia dançado com ele em Paris nessa mesma canção, Juliana Sarda. Foi um momento hilário, bem honestamente.
The Edge (acima); Encerramento da apresentação de The Joshua Tree na íntegra (abaixo)[/caption]
Juliana estava lá dançando, nos "galhos da árvore", vivendo seu momento de fama, e Bono cedeu a câmera que estava filmando ela dançar. O vocalista indicou que ela fosse ao palco central filmar o que estava lá, e lá foi a Juliana. Ao chegar no palco central, Bono dirigiu-se para ela, ao microfone, dizendo: "Beautiful Lady, this is The Edge". Era o momento do solo de The Edge na canção, e certamente, Bono queria que Juliana filmasse o solo. Porém, a garota estava tão excitada com o acontecido que filmou qualquer coisa, menos o guitarrista. Foi hilário! Bono deu um tapa na cabeça, dizendo "Noooooooooo!!" enquanto Juliana voltava toda faceira para lhe entregar a câmera. Não adiantou Bono insistir, Juliana não estava no mundo dele, mas também, e compreensível a alegria da pernambucana.
Ainda houve tempo para apresentar uma nova canção, "You're The Best Thing About Me", que estará presente no próximo disco da banda, Songs of Experience, a sensacional "Ultra Violet (Light My Way)" e, fechando o espetáculo, "One", a qual mais uma vez banhou de lágrimas esse que vos escreve, por que puta que pariu, é outra canção fortíssima e tocante, assim como "Bad". Arrepios passam em meu corpo só de lembrar a frase "carry each other ..."
Bono no palco central durante "One" (acima); Bono de pertinho (abaixo)[/caption]
Terminado o espetáculo de duas horas e quinze minutos, saímos do Morumbi com o sorriso lá na testa. Foi complicado conseguir um táxi ou Uber para retornar ao hotel, principalmente por que as ruas de saída do estádio são muito estreitas. Nesse sentido, acredito que faltou um pouco de organização da produtora do evento, por que mesmo tendo ônibus especiais, a quantidade de veículos para a quantidade de pessoas foi muito baixa. Mas esse é o único defeito que posso dizer de uma noite memorável, e que espero poder repetir outras vezes. O U2 ganhou mais um admirador de suas apresentações, e pretendo certamente, voltar a vê-los em suas próximas passagens por aqui, pois é inesquecível o que esses irlandeses fazem com o coração e o cérebro de quem vivencia seus shows.
Despedida, com a bandeira brasileira ao fundo[/caption]
Set list
  1. Sunday Bloody Sunday
  2. New Year's Day
  3. Bad
  4. Pride (In The Name Of Love)
  5. Where The Streets Have No Name
  6. I Still Haven't Found What I'm Looking For
  7. With Or Without You
  8. Bullet The Blue Sky
  9. Running To Stand Still
  10. Red Hill Mining Town
  11. In God's Country
  12. Trip Through Your Wires
  13. One Tree Hill
  14. Exit
  15. Mothers Of The Disappeared
  16. Beautiful Day
  17. Elevation
  18. Vertigo
  19. Mysterious Ways
  20. You're The Best Thing About Me
  21. Ultra Violet (Light My Way)
  22. One
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