sexta-feira, 22 de março de 2013

War Room: The Beatles - Please Please Me [1963]



Por Mairon Machado (MM)
Convidados: Bruno Marise (BM), Davi Pascale (DP) e Diogo Bizotto (DB)

Senhoras e senhores, voltamos com mais um War Room, tendo a participação especial de Diogo Bizotto e Davi Pascale (se o Bruno aparecer entra aqui tb). Nessa reestreia, comemoramos os cinquenta anos do primeiro álbum do The Beatles, Please Please Me, o qual será degustado por nossos colaboradores. Vamos as opiniões de cada um deles sobre as quatorze canções do LP 

1 - I Saw Her Standing There

MM: Rock básico, lembrando as linhas do rock californiano, destacando a voz de Paul McCartney. Típico do que os Beatles faziam no início da carreira, com vocalizações grudentas e o ritmo dançante. Gosto das passagens de guitarra da mesma, mas nada demais 

BM: Levada de bateria típica do Ringo, com melodia grudenta. O que mais me agrada é a levada de bateria, que influenciaria muito Tommy e Marky nos Ramones.

DP: Gosto bastante dessa musica. Rock básico, simples e muito bem feito. Ótimo trabalho vocal de Paul McCartney. Solo de guitarra do George é simples, mas bonito... 

DB: Inicia de cara com aquela que talvez seja a melhor música do disco. Quer melhor cartão de visitas que "I Saw Her Standing There"? O melhor dessa faixa é, pra mim, a maneira melódica de Paul tocar o baixo, algo que se tornaria destaque ao longo da carreira do grupo. Tino pra composições grudentas é o que não faltava.

DP: Lembrei dos Ramones no 1,2,3,4 no inicio da musica. Será que roubaram daí? 

BM: Roubar é forte auhauha 

MM: Os Beatles eram forte influência para os Ramones 

2 - Misery

MM: Baladinha sem graça. Esse piano é totalmente desnecessário, mas para a época, era uma grande inovação. Fizeram material bem melhor meses depois.

BM: "Misery" é bem comum, mas gostei bastante da melodia. 

DB: Mais uma das melhores do disco. Melodias simples mas muito boas de se ouvir. 

DP: Balada, mas agradável.

3 - Anna (Go To Him)

MM: Outra balada sem nada demais. Essa cadência do Ringo é muito chata. Salvasse apenas John Lennon nos vocais e o belo trabalho das vocalizações na ponte central. Prefiro muito mais as baladas de Ritchie Valens. Fiquei curioso para ouvir a versão original. Não sei por que, mas me lembra "Diana", de Paul Anka 


BM: Não conheço a versão original. Belas harmonias vocais, e performance interessante do Lennon. Também achei a cadência da música muito repetitiva, e incomoda um pouco, essa guitarrinha enche o saco. 

DB: "Anna" tem uma pegada soul que poucas vezes se repetiria na carreira dos Beatles dali em diante. Gosto da performance de John e, mais especialmente, da interação entre baixo e bateria, preenchendo apenas os espaços necessários e permitindo que John seja o destaque.

DP: Destaque para a bateria de Ringo que demonstra bastante criatividade, saindo daquela bateria reta e o tempo todo. E as harmonias vocais que certamente são uma das marcas registradas do quarteto. Bonita música.

4 - Chains 

MM: Essa gaitinha influenciou meio mundo anos depois. Acho que é a melhor do disco até o momento. Prefiro a versão da Carole King, que é um pouco mais animada. Aliás, a Carole King tem muita música boa a ser descoberta. 

BM: Mais um cover, e mais uma que eu não conheço a original. Ao contrário do Mairon achei a pior até o momento. Não vi nada demais, música bem descartável! Gostei da linha de baixo.

DP: Prefiro a versão deles do que a da Carole King, mais uma vez destaque para o trabalho de harmonia vocal. 

DB: Normalmente gosto das músicas que contam com vocais de George, mas esse cover não tem nada de especial para mim. É interessante o fato de que as canções compostas por eles superavam com facilidade os covers, mesmo no início da carreira.

5 - Boys

BM: Música com típicos backing vocals a la surf music, assim como as milhares de canções genéricas dos primórdios do rock and roll. Destaco o pequeno mas eficiente solo de guitarra e a performance do Ringo tanto nos vocais quanto nas baquetas.

DP: De todas que o Ringo canta, essa é uma das minhas preferidas. A limitação vocal dele é clara, mas combinou na música. O solo do George é bem bonito.

MM: Ringo Starr nos vocais? Raridade. Rock simples, riff comum, nada de extraordinário. O solo de Harrison é o melhor da canção. Desconheço a versão de Wes Farrell, infelizmente, mas a versão das The Shirelles é simplesmente fodástica.

DB: "Bap shoo ap"... Esse acompanhamento vocal já era popular na época? Por que já ouvi trocentas vezes... Pegada blues, o que acaba aproximando a banda de várias outras da época. 

6 - Ask Me Why 

MM: Lennon nos vocais é certeza de momento positivo na carreira dos Beatles. Apesar do swing meio brazuca, gostei da baladinha, principalmente (de novo) pelo bonito arranjo vocal.

BM: Tem uma levada mais tranquila, parecendo até um bolero. Destaque para as melodias inspiradas como em quase todas as canções compostas pelo grupo e para os vocais de Lennon.

DP: Balada bacaninha. Ringo faz aquilo que a musica pede, mas o destaque fica para o trabalho vocal do John Lennon.

DB: Linha de bateria bem como uma balada do tipo pede, sem ficar na retidão que alguns preferem. Não acho que a música tenha muito de especial, mas John e Ringo mandam bem.

7 - Please Please Me 

MM: A faixa-título mais importante da década de 60. Melhor canção do disco. Lennon e McCartney mostrando ao mundo a importância de seus vocais. Adoro o refrão, é de novo a gaitinha se fazendo presente. De todas as canções dos Beatles, essa é a única que conheço que as versões covers não superam a original. Sonzaço!

DB: Essa gaita está um tanto estourada na mixagem, mas ok, nada que não se possa relevar. Gosto bastante da interação vocal entre Paul e John e da criatividade das linhas. É o tipo de vanção que os diferenciava de todo o resto que estava surgindo.

DP: Bela música. Rock básico, mas muito bem feita. O vocal dobrado de John e Paul dão um charme especial. Gosto da gaita na musica, embora simples, funciona muito bem.

BM: Não gosto da gaita. Também achei a melodia bem mais ou menos. Destaque para o refrão.

8. Love Me Do 

MM: Quer gaita, tome então. Clássico dos clássicos, para muitos é a primeira canção de rock da história. Um erro, afinal, teve tantas outras antes. Simplezinha e repetitiva demais. Passo fácil.

BM: Um rockzinho quase folk, simples de tudo e com uma letra bobinha. Muito repetitiva e sem graça.

DB: "Love Me Do" foi tocada a tal exaustão que, hoje em dia, é até difícil avaliar a importância do primeiro single da banda mais importante da história da música pop. Avaliando em retrospecto, serviu mais como porta para entrar no mercado do que para demonstrar a habilidade do quarteto como compositores, músicos... artistas em geral.

DP: Gosto da música, mas não é minha preferida do disco. Destaque para a bateria do Ringo. Simples, mas criativa.

9. P. S. I Love You 

MM: Não consigo gostar das canções com Macca nos vocais, e esse andamento é tenebroso. Como uma banda que gravou "Revolution N° 9" gravou tamanha atrocidade? Passo ...

DB: Não curti o que Ringo fez na bateria. Ele demonstrou ser bem mais criativo nas anteriores.

DP: Mais uma balada. Acho legalzinha, mas não é minha balada favorita dos Beatles. Destaque para o trabalho vocal de Paul McCartney. 

BM: Gostei das melodias, mas achei o refrão bem fraquinho. O andamento repetitivo incomoda também. No mais, um belo trabalho nas vocalizações.

10. Baby It's You

MM: Mais um cover, e balada ainda por cima. As bandas soul já faziam material melhor. Outra pulável fácil fácil. Agora, o Lennon dá um banho de interpretação perto dos outros, isso é impossível de não se perceber. 

DP: Essa eu acho bem legal. Gosto bastante do trabalho vocal que o John Lennon fez na música...

BM: Mais um fillerzinho e daqueles bem esquecíveis. Passo. (Elogiar as harmonias vocais a essa altura já é ser chato).

MM: Pior, acho que é o que os Fab4 faziam de melhor em 1963, e só ... (TRETA)

DB: Gosto da maneira como John impõe sua voz nesta música, tomando ela pra si, apesar do ótimo acompanhamento feito por seus colegas nos backing vocals. Novamente, a pegada soul é muito bem vinda. John era o mais amadurecido vocalmente dos quatro nessa época.

DP: Não é pouco. tendo em vista que esse álbum foi gravado ao vivo. 

MM: Essa eu não sabia, o Please Please Me foi mesmo gravado ao vivo. Como estou por fora.

11. Do You Want to Know a Secret 

MM: Bah, que repetição. O Lado B é muito fraco perto do lado A. George Harrison nos vocais soa melhor em outras canções. Aqui não funcionou ...

DP: Gosto dessa balada. Simples, mas cativa.

BM: Outro filler. Nada demais nos vocais do George Harrison. Descartável.

DB: George cantando uma música sua de verdade, aí sim, muito melhor que "Chains". Vale citar que gosto muito do som de baixo de Paul.

12. A Taste of Honey 

MM: Caraca, estragaram um clássico. Ouvir a versão da Barbra Streisand e ouvir essa depois é pedir para quebrar o disco. Paul McCartney destruindo tudo. Nem as vocalizações funcionaram ...

DP: Não está entre minhas favoritas, mas gosto bastante do trabalho vocal do Paul.

DB: Não ouvi nenhuma versão original dos covers apresentados no disco, e esse caso não é diferente. Provavelmente a canção mais atípica presente no álbum.

BM: Gosto do vocal do McCartney nessa música. O andamento é um pouco sonolento e bem diferente do restante do álbum.

13. There's a Place 

MM: Vocais de Lennon e McCartney e a gaitinha relembrando "Love Me Do". Letra simples, embalo comum. Sinceramente, é difícil entender como o grupo estourou. Haviam tantos outros parecidos nessa época (pena que viviam apenas de singles).

BM: E tome boas melodias. A gaitinha incomoda um pouco, mas nada que atrapalhe a canção. Música bem simples mas de bom gosto. Ótima dobradinha vocal de Lennon e McCartney.

DB: Felizmente o disco não se encerra aqui, pois, se o fizesse, acabaria em um ponto baixo, pois esta e a anterior são destaques negativos.

DP: Rock típico dessa primeira fase do quarteto. Canção bem alegre e divertida. Destaque para os backing vocals do Paul. Gosto da gaitinha e das viradas do Ringo no final da música. 

14. Twist and Shout

BM: Clássico absoluto e incontestável. Versão definitiva dessa música. Os vocais rasgados de Lennon são impressionantes até hoje, imagina o choque na época. Gosto também do trabalho de guitarras e dos grooves do Ringo.

MM: Super clássico. Quem nunca cantou essa canção que jogue a primeira pedra. Aqui no Brasil, acho que o que mais ajudou a destacar essa pérola foi o clássico filme "Curtindo a vida adoidado". John Lennon cantando muito, e o riffzão da guitarra é praticamente perfeito. Rock de verdade. Não supera a versão original por que é um pouco mais lenta, mas mesmo assim, é excelente. Encerramento muito bom para um disco bem irregular.

DB: Apenas "O" cover. Mais uma a exemplificar que John era o beatle mais maduro vocalmente, capaz de interpretações mais interessantes, impositivas e, até certo ponto, agressivas que seus companheiros. Apesar de ser uma versão, tornou-se sinônimo de Beatles, e não foi à toa.

DP: Gosto bastante dessa versão. Na minha opinião, melhor versão dessa música. Mais uma vez destaque para a harmonia vocal e para o trabalho vocal de John. Destaque que esse rasgado não foi intencional. Ele estava com a voz cansada por causa do volume de horas de gravação. Mas ficou sensacional!

Considerações Finais

MM: Disco mediano. Para uma estreia, esperava bem mais, Não tinha ouvido o disco na integra, apenas conhecia-o com as canções isoladas. Parece que falta algo. Tirando John Lennon, os outros estão ainda muito atrás. Isso explica bastante para mim por que demoraram para engrenar.

DB: O disco começa muito bem, diria ótimo, e depois alterna momentos bons e outros mais fracos, mas não necessariamente ruins. Apesar de normalmente curtir mais o trabalho de Paul e George, quem se destaca mais aqui é John. Contudo, não posso deixar de citar as linhas de baixo de Paul, fazendo um papel muito mais importante do que o de um mero acompanhador.

BM: Apesar de sua importância, Please Please Me passa longe de ser um destaque na discografia dos Beatles. A banda ainda imatura, procura uma identidade que só encontraria três anos mais tarde com A Hard Days Night. O disco de estreia dos Fab Four é bem mediano e destaco o trabalho vocal de Lennon e algumas melodias inspiradas com as composições próprias superando os covers em todos os mentos, salvo a exceção de "Twist And Shout".

DP: Como vocês devem ter percebido pelos comentários, sou muito fã do quarteto. Considero Please Please Me um ótimo álbum. Principalmente, se levarmos em conta que esse é o álbum de estreia dos caras. Não o considero o melhor do quarteto, mas acho um disco bem legal de se ouvir. Claro que há musicas superiores à outras, mas no geral me agrada bastante. Não tem nenhuma musica que considere a audição uma tortura.

MM: Vejo que concordamos Bruno. Não sabia dessa do álbum ser gravado ao vivo. Isso deve ter influenciado no resultado mediano. Com certeza, não tem nada torturoso, mas na época, já existiam coisas melhores.

BM: Sem dúvida. Acho que "Twist And Shout" é o grande responsável pelo estouro do grupo.

MM: Acho que o que realmente fez o diferencial foram os vocais. Bem trabalhados eles eram, e o John tinha um vozeirão inigualável. Os Stones e os Yardbirds não conseguiam fazer linhas vocais tão boas. Só os Beach Boys podiam superar.

DB: Acredito que, para a maioria, a fase mais memorável do grupo começou com Rubber Soul, mas desde o princípio o quarteto demonstrou ser diferenciado. Como eu disse, basta ver como suas músicas próprias superavam, com facilidade, quase todos os covers. Se é para compararmos com a "concorrência" (ênfase nas aspas) que vinha do outro lado do Atlântico, como os Beach Boys, 1963 pertenceu aos Beatles.

MM: Discordo totalmente. Os álbuns do Beach Boys em 1963 são melhores. Surfin' USA dá de relho no Please Please Me, e isso que não é o melhor dos Beach Boys.

BM: Acho que o melhor de 63 pra mim vai ser o Night Beat do Sam Cooke. Puta que pariu, o que esse negão cantava era inacreditável!

MM: Sam Cooke era muito bom.

DB: Bom, ouvi os três discos dos Beach Boys de 1963 e, honestamente, nenhum deles me agradou tanto quanto Please Please Me e With the Beatles.

BM: Eu preciso ouvir de novo o Surfin USA, mas a princípio também achei bem fraquinho.

MM: Bah, que atentado. Surfer Girl é quase perfeito! 

BM: Gostei disso aqui. Sempre que tiverem me chamem. 

MM: Vamos fazer mais sim. Beleza pessoal, valeu pela audição e até a próxima. Abraços.o 

DP: Abraços! 

DB: Abraços!

BM: Abraços!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Antonio Adolfo e A Brazuca




Hoje, venho resgatar a obra de um dos grandes músicos do nosso Brasil Varonil, que em apenas dois álbuns, marcou época no final da década de 60 e início da década de 70, ao lado de uma banda competente e também marcante. Trata-se do pianista Antonio Adolfo, que com o grupo A Brazuca, registrou os álbuns Antônio Adolfo e a Brazuca (1969) e Antonio Adolfo e a Brazuca (1970).

Tibério Gaspar e Antonio Adolfo
O carioca do bairro de Santa Teresa Antonio Adolfo nasceu em 10 de fevereiro de 1947, filho de um violonista da Orquestra do Teatro Municipal começou a carreira muito cedo, incentivado por seu pai, e aos dezesseis anos, já fazia parte do clube da bossa-nova Samba a Cinco, com o qual era assíduo músico no famoso bar Beco das Garrafas.

Ainda aos dezesseis anos, fundou o Trio 3-D, com o qual lançou seu primeiro álbum, Tema 3-D, em 1964. Na companhia do pianista, estão Cacho Pomar (baixo e vocal) e Dom Um Romão (bateria), além das participalções especiais de Nelson Serra de Castro (bateria), Claudio Roditi (trompete) e Arisio Rabin (violão). O que ouvimos é uma mistura de jazz com o som brasileiro no melhor estilo da bossa-nova carioca, destacando as brilhantes versões para "Consolação", "Garota de Ipanema", "Samba de Uma Nota Só", "Berimbau", entre outras.

No ano seguinte, o Trio 3-D lançou O Trio 3-D Convida, agora tendo a participação de Carlinhos Monjardim (baixo), Nelson Serra (bateria), Paulo Moura (sax alto), Raul de Souza (trombone de piston), Edson Maciel (trombone de vara), J.T. Meirelles (sax tenor) e Jorginho (sax alto), além da participação de Eumir Deodato nos arranjos para metais. Os destaques ficam por conta destes arranjos em canções como "Reza", "Minha Namorada", "Tema 3-D" e "Peter Samba", além de Serra destruindo com solos rápidos em "Nega Dina", A bossa-nova aproxima-se ainda mais do jazz, com solos individuais para saxofone, trompete e trombone que são verdadeiras pérolas na música nacional.

A genialidade de Antonio Adolfo desponta, e em 1967, o Trio 3-D, sob o pseudônimo de Conjunto 3-D, grava Muito na Onda, com Manuel Gusmão (baixo), Nelson Serra de Castro (bateria), Helio Delmiro (guitarra), Eduardo Conde (vocal) e a jovem, com apenas vinte anos, Beth Carvalho nos vocais. O grupo volta-se para o exterior, passeando pela música francesa ("Un Homme Et Une Femme"), americana ("See You In September", "When the Saints Go Marching In" e "Watermelon Man", além de clássicos nacionais como "É Preciso Cantar", "Noite dos Mascarados" e "Sonho de Lugar".

Ainda com o Trio 3-D, Antonio Adolfo participou da peça musical Pobre Menina Rica, criada por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, e foi a partir dela que alcançou o status como um dos principais pianistas da noite musical carioca. A partir de 1967, em parceria com o letrista Tibério Gaspar, Adolfo se transformou também em um reconhecido compositor, começando a produzir seus primeiros sucessos individuais. É aqui que nasce o grupo Brazuca, o qual revolucionou a música nacional instaurando eletrônica e técnicas nas composições sutis do pop brasileiro do final da década de 60.


O grupo defendendo "Juliana", com Maia e Adolfo no centro

Passam a participar de festivais como acompanhantes e também como artistas principais. Em 1968, fazem sucesso no Festival Nacional da Canção com "Sá Marina", e no ano seguinte, a primeira parceria com Gaspar, conquista espaço com "Juliana", vice-campeã da quarta edição do Festival Internacional da Canção.


A estreia da Brazuca

O segundo lugar garantiu um contrato com a gravadora EMI, e assim, A Brazuca lançou seu primeiro disco, auto-intitulado. O grupo era formado por Antonio Adolfo (piano, arranjos), Luizão Maia e Alex Malheiros (baixo), Victor Manga (bateria), Luiz Cladio Ramos (guitarra), Julie (vocal) e Bimba (vocal). Antonio Adolfo e A Brazuca abre com "Juliana", destacando o naipe de metais entoando o riff inicial e a participação mais que fundamental do piano elétrico de Adolfo, além da bela voz de Julie.

"Futilirama" é mais animada, também com um ótimo arranjo de metais e um acompanhamento marcado de Victor Manga, em um estilo que influenciou muitos nomes durante a década de 70, como o pessoal do Clube da Esquina, Erasmo Carlos e Gal Costa, enquanto "Moça" resgata o lado mais simples da bossa-nova carioca, sempre com o piano elétrico fazendo as honras da casa. Nesse ponto, já percebemos também um importante arranjo vocal que revela-se entre as canções da Brazuca.

Adolfo mostra seus dotes ao piano na bela passagem inicial de "Dois tempos", um jazz americano regado pela flauta e pela harmonia de Victor Manga, enquanto "Vôo de Apolo" é uma incursão ao psicodelismo nacional da década de 60, em uma das melhores letras do álbum, e com viajantes passagens de guitarra, bateria e das cordas, além de um solo fantástico de piano elétrico.

O lado A encerra-se com "Porque hoje é domingo", uma agitada canção com muitos metais, voltando à brasilidade destacada em "Futilirama", contando as histórias que acontecem nos domingos cariocas.

"Maria Aparecida" abre o lado B com um ritmo marcado, parecido com o que Gil e Caetano fizeram em canções do álbum Tropicália ou Panis Et Circensis (1968), assim como "Psiu", outra bem no estilo Tropicália de ser. Gosto muito da introdução com flautas de "A cidade e Eu", apesar da canção não ser tão bela quanto sua introdução.

O álbum encerra-se com duas balada: "Pelas Ruas do Meu Bairro", tendo um maravilhoso crescendo de cordas no seu final; e "Teletema", uma singela peça musical tipicamente Jovem Guarda.


Contra-capa do primeiro LP da Brazuca

Na contra-capa do vinil, depoimentos de nomes como Roberto Carlos, Carlos Imperial, Chico Anísio, entre outros, destacam a surpresa e a beleza das canções da Brazuca: "A primeira vez que ouvi falar em 'Brazuca', pensei tratar-se de uma nova aguardente oriunda do bairro italiano de São Paulo (Brás Uca). Porém, após ouvir este álbum, vou colocar no meu dicionário: Brazuca - palavra de língua portuguesa, sinônimo de inteligente, avançado e de muito bom gosto." (Carlos Imperial).

"Uma das grandes preocupações da música no mundo inteiro, é de progredir, sem se afastar do povo. Nunca permanecer ao mesmo lugar, nunca repetir as mesmas ideias, nunca repetir o mesmo som. Eu prefiro uma música antiga com um som novo, do que uma música nova com um som antigo. Fico feliz em ver que a 'Brazuca' pensa como eu". (Roberto Carlos).

Obviamente, com o apoio desses gigantes, a Brazuca ganhou destaque, e em 1969, Antonio Adolfo e sua turma foram convidados para acompanhar a cantora Maysa. O resultado final ficou com Adolfo sendo responsável por boa parte dos arranjos de Maysa (1969), além de ver quatro de suas canções gravadas pela cantora no mesmo álbum.


Tibério Gaspar, Tony Tornado e Antonio Adolfo

No ano seguinte, Adolfo conquista a fase nacional do V Festival Internacional da Canção, com a canção "BR-3", composta em parceria com Tibério Gaspar, e interpretada por Tony Tornado e Trio Ternura, uma balada soul no melhor estilo Sam Cooke. A canção causou polêmica principalmente pelas frases: "E a gente corre na BR-3, e a gente morre na BR-3", mas o vozeirão de Tony Tornado ficou eternizado para a posteridade, dois anos antes do famigerado acidente no Festival de Verão de Guarapari, em 1971, no qual o cantor se atirou de cima do palco e caiu por cima da jovem Maria da Graça Capôs, a qual foi hospitalizada e ficou paralítica. A moça entrou diretamente na justiça contra o vocalista. Tornado chegou a ser preso, sendo liberado após pagamento de fiança. Inclusive o animador Silvio Santos ajudou Tony a pagar sua dívida, mas o acontecido em Guarapari acabou com a carreira artística de um dos maiores cantores que o Brasil já teve.



Ainda em 1970, o grupo lançou um compacto duplo, com as canções "Glória, Glorinha", "O Bailde do Clube", "Ao Redor" e "M. G. 8-80-88". Nesse mesmo ano, na noite de 13 de agosto de 1970, ocorreu um acontecimento que acabou marcando a carreira de Antonio Adolfo. Prestes a começar as gravações de seu segundo disco com a Brazuca, ele soube da morte do amigo baterista Victor Manga, em um grave acidente automobilístico.

Victor, carioca nascido em 23 de julho de 1939, havia começado sua carreira profissional nos anos 60, ao lado de Antonio Adolfo, com o qual fez vários shows no Beco das Garrafas. Em 1965, ao lado de Dom Salvador (piano) e Edson Lobo (baixo), fez parte do Salvador Trio, um ótimo grupo de jazz-samba com o qual gravou o belo Salvador Trio no mesmo ano.

Entre 1968 e 1969, integrou o conjunto A Turma da Pilantragem, da onde foi chamado por Antonio Adolfo para integrar a Brazuca. Um dos principais bateristas da música nacional, Victor faleceu em um terrível acidente, que acabou chocando aos seus colegas, mas principalmente Antonio Adolfo, que acabou compondo uma das maiores obras-primas que a música nacional já pariu.


Segundo LP do grupo, contendo o "Tributo a Victor Manga"

Ela foi registrada no segundo LP do grupo, também intitulado Antonio Adolfo e A Brazuca. Sem Victor Manga, A Brazuca sofre uma reformulação, tendo Adolfo, Luiz Claudio Ramos (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulo Braga (batera), Bimba (vocais) e Luiz Keller (vocais). O disco em si é muito mais trabalhado musicalmente, principalmente na parte vocal, e é considerado por especialistas como um dos principais álbuns da música popular brasileira.

O álbum abre com duas baladas: "Panorama", que surge lentamente com a percussão, violão e o piano elétrico entoando um belo tema. A voz de Keller é bem diferente da de Julie, tornando o som da Brazuca mais "abrasileirado" em comparação ao som soul que tínhamos no primeiro álbum; e "Claudia", com Bimba e Keller dividindo os vocais de uma canção tipicamente Bossa Nova.

Chegamos então ao emocionante "Tributo a Victor Manga". Diferente das duas canções anteriores, ela surge apenas com o tema do piano elétrico e uma marcação no prato. Melancólicamente, Keller passa a declamar um poema, enquanto Bimba e a guitarra repetem o tema do piano elétrico. A bateria passa a fazer um leve ritmo, e o poema de Keller nos apresenta a ausência de Manga:

"Agora
mais um instante
ainda perto a hora
Por aqui e por ali
No areal, no deserto, no Padre Nosso
No nosso dia, na rodovia, a velocidade
Todavia no rosto o riso, a saudade
No novo som, no mesmo tom, em qualquer solo
no sustenido, no bemol
Por aqui e por ali."


Revista Manchete de 1970:
A Brazuca já com Paulo Braga
no lugar de Victor Manga
Basta ele largar o "Vocêêêêê" inicial e os arrepios começam a correr pelo corpo. Em um ritmo dançante, Keller conta a história do acidente que o amigo sofreu como se estivesse de frente para ele. As palavras emocionam: 

"No LP
Imagem de VT, sempre você em tudo que se vê
Sempre 
Você, você
Ô Victor!!!
O sol te estilha sobre o eixo da manhã
Anoiteceu
Você partiu, se repartiu e viajou, e viajou"

E continua a chorar para o amigo, que está morto no asfalto, repartido após o acidente, com gritos dilacerantes  enquanto a bateria comanda o ritmo dançante ao fundo, e Bimba não para de repetir o tema central:

"Oh Victor!
Um passaro ferido que não voa mais
Um barco que perdido não retorna ao cais
Um cosmonauta solto em pleno espaço grita
Paz!
E eu grito, eu grito!
Ô Victor
A vida continua nua como você viu
O mesmo ponto de partida onde você partiu
E agora só a sombra em tudo que ficou
você viveu, amou, sofreu, tocou"

Aqui, o baterista Paulo Braga dá um show de interpretação, homenageando Manga com diversos rolos e rufadas no melhor estilo que o homenageado costumava tocar, acompanhado apenas pela marcação do piano elétrico de Adolfo. 

O Tributo encerra-se com a repetição do tema inicial pela guitarra, vocalizações e piano elétrico, e Adolfo vendo o amigo dividido em dois pedaços, com Keller gritando muito, quase chorando, com dor:

"Você!
Por aqui e por ali
Ao meio, em dois
E depois, sempre, sempre, sempre!.
Oh bicho!
Você se foi,
Amigo!
Você se foi,
Não sei se digo oi,
Ou se digo adeus."

Encerrando com uma forte batida nos pratos. Sem sombra de dúvidas, uma das mais emocionantes interpretações vocais já registradas nos discos brasileiros, que rendeu (e ainda rende) muitas lágrimas para os que ouvem a canção. Erroneamente, alguns acreditam que se trata de Tony Tornado nos vocais, mas conforme citado anteriormente, Tornado e sua relação com Adolfo está apenas na interpretação da clássica "BR-3".

O disco continua com a leve "Pela Cidade", tendo os vocais divididos entre Bimba e Keller, destacando a guitarra psicodélica de Ramos, enquanto "Grilopus nº 1 (1ª Parte)" é uma rápida passagem de piano elétrico, antecipando "Que se dane", ótima faixa, nos moldes do Mutantes tropicalista e com Keller soltando seu vozeirão, encerrando o Lado A em alto astral.
Contra-capa do segundo LP da Brazuca

O lado B abre com "Atenção! Atenção!", uma veloz canção interpretada por Keller e recheada de vocalizações de Bimba e Adolfo, além de um psicodélico solo feito por Ramos. "Cotidiano" retorna ao clima bossa-nova, tendo Bimba no melhor estilo Nara Leão.

Já "Tranzamazônica" é uma bela amostra da qualidade musical de Adolfo, com um ritmo nordestino embalado pela bateria e guitarra, e com o pianista fazendo misérias no tema central da canção, além de um espetáculo a parte das vocalizações e das interpretações de Keller e Bimba e a presença de efeitos que imitam pássaros na floresta.

"Cortando caminho" mantém a linha de boas composições do Lado B, destacando aqui o baixo de Luizão Maia, e a vinheta "Grilopus nº 1 (2ª Parte)" é uma insana gritaria acompanhada por percussão, abrindo espaço para "Caminhada" encerrar o LP no melhor estilo nordestino, com percussão e vocalizações sendo o centro das atenções.


A Brazuca: Luizão Maia, Bimba, Luiz Keller e Tibério Gaspar (em pé);
Luiz Claudio Ramos, Antonio Adolfo e Victor Manga (sentados)

Após o lançamento do segundo LP, Antonio Adolfo e Luizão Maia passaram a integrar a banda de Elis Regina, acompanhando a gauchinha na sua primeira turnê pela Europa, no inicio dos anos 70. Maia seguiu com Elis, enquanto Adolfo foi para os Estados Unidos, aonde aprendeu ainda mais sobre jazz.


Vital Lima, Carmelia Alves e Antonio-Adolfo

Em 1977, voltou para nosso país, lançado o primeiro disco independente da história da música nacional, Feito Em Casa, pelo selo criado por ele mesmo, o Artezanal. Neste selo, gravou muito material próprio, e também revisões para a obra de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.

Oito anos depois, fundou o Centro Musical Antonio Adolfo, participando a partir de então em eventos internacionais, seja como músico, seja como educador, e claro, fazendo sua carreira solo, pela qual recebeu dois Prêmios Sharp (pelos álbuns Antonio Adolfo, de 1995, e Chiquinha com Jazz, de 1997). Além disso, publicou sete livros de material didático para piano, dois livros sobre a música brasileira no exterior e um DVD com video-aula para piano.

Adolfo continua na ativa, apresentando-se e gravando material. Em sua discografia, constam vinte e quatro álbuns de um dos maiores músicos que nosso Brasil tem, e que felizmente, está vivo para contar sua história, apesar de poucos terem conhecimento de sua arte.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Pink Floyd - Atom Heart Mother [1970]

Pink Floyd - Atom Heart Mother

Por Mairon Machado

Esse ano, o Maravilhas do Mundo Prog irá homenagear os considerados cinco grandes grupos do rock progressivo britânico: Pink Floyd; Genesis; Yes; King Crimson e Emerson Lake & Palmer. Apesar de tantos outros grupos britânicos do gênero terem se destacado com relevância no cenário progressivo mundial, esses cinco foram os que conquistaram mais seguidores, e até hoje, são os que mais venderam LPs dentro do estilo.

Sendo assim, entre os meses de março e novembro, dedicaremos quinzenalmente este espaço para esses que foram verdadeiros geradores de Maravilhas Prog durante suas carreiras.

Começamos então com aquele que seja o mais reconhecido dentre eles. Afinal, qualquer ser humano que tenha um pequeno contato com a música já ouviu falar de Pink Floyd.
Roger Waters, Nick Mason, Rick Wright (acima); David Gilmour (abaixo)
O grupo já teve uma Maravilha Prog apresentada aqui há algum tempo, mas ela com certeza não é a única. Desde o início do grupo, em 1967, aonde a psicodelia lisérgica dos pubs londrinos incendiava as composições do quarteto formado por Syd Barrett (guitarra, vocais), Roger Waters (baixo, vocais), Rick Wright (órgão, piano, vocais) e Nick Mason (bateria), canções como "Interstellar Overdrive" e "Astronomy Domine" (lançadas no essencial The Piper at the Gates of Dawn) já mostravam pinceladas do caminho prog que os ingleses percorreriam anos depois.

Com A Saucerful of Secrets (1968), veio David Gilmour para o lugar de Barrett, e o Pink Floyd fincava de vez um dos pés no progressivo, com a espetacular suíte-título. A trilha para o filme More (1969), de Barbet Schroeder, bem como a pequena participação na trilha do filme Zabriskie Point (1970, de Michelangelo Antonioni), foram uma fuga eficiente para o novo quarteto passar a experimentar com novos instrumentos, como o moog, mellotron e gravações. Essa mudança pôde ser ouvida no álbum duplo Ummagumma (1969), no qual cada um dos músicos teve seu espaço para fazer o que bem entender, ocupando um disco inteiro de Ummagumma (deixando o  outro para gravações ao vivo, repletas de experimentação).
Contra-capa de Atom Heart Mother
Mas foi com o quinto álbum oficial que o Pink Floyd finalmente lançava sua primeira e verdadeira Maravilha Prog, e para construir a mesma, a tarefa foi árdua. "Atom Heart Mother" é uma incrível suíte de pouco mais de vinte e três minutos, dividida em seis partes, e que causa um espanto inicial ao fã do Pink Floyd, seja ele aquele que apenas conhece "Another Brick in the Wall Part 2", seja aquele que já tenha um contato maior com álbuns clássicos, como Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975), ou até mesmo o mais cavernoso dos fãs, que vive na sua louvação para Barrett.

Com a colaboração de Alan Parsons como engenheiro de som, Ron Geesin como compositor auxiliar, o Coral John Aldiss e a Abbey Road Session Pops Orchestra, o quinteto trancou-se nos estúdios da Abbey Road entre fevereiro e agosto de 1970, para sair de lá com um dos grandes álbuns do rock progressivo, que acabou levando o nome de nossa Maravilha Prog.

A ideia inicial foi tentar aproveitar o material que o grupo havia composto para Ummagumma e Zabriskie Point, e principalmente, inserir cordas ao som do Pink Floyd, o que era algo atraente para os ouvidos principalmente de Waters, Wright e Gilmour. O guitarrista, por exemplo, criou a sessão inicial da canção, originalmente chamada "Theme from an Imaginary Western", e que posteriormente virou "Father's Shout". 

Ron Geesin

Mas, por incrível que pareça, "Atom Heart Mother" ganhou forma em cima do palco. O grupo começou a apresentar versões iniciais da suíte em 17 de janeiro de 1970, no Hull University, de Kingston (Inglaterra), e desde ali, manusearam as diferentes partes apresentadas, até chegarem em uma versão final dois meses depois. Tendo as melodias concluídas, foi a vez da participação de Geesin, responsável por inserir as cordas dentro das linhas musicas do quarteto. O trabalho de Geesin foi estafante, até por que nenhum dos músicos do Pink Floyd sabia ler música. Por outro lado, a gravadora EMI cedeu sua Orquestra para acompanhar as gravações, o que facilitou na questão de preparação para a gravação. por fim, o coral de John Alldis, contando com dezesseis membros, foi chamado para fazer as partes vocais, com o regente sendo o próprio Alldis.


Durante o festival de Bath (27 de junho de 1970), uma versão quase completa de "Atom Heart Mother" foi apresentada ao grande público, com o nome de "Epic", sendo que originalmente, ela era para ser chamada "The Amazing Pudding". Somente em 16 de julho de 1970, durante uma apresentação no BBC Radio 1, Geesin sugeriu o título "Atom Heart Mother", inspirado em uma manchete do jornal Evening Standard, a qual narrava a história de uma mulher possuindo um marca-passo controlado por energia nuclear.
 

Nick Mason
Nossa Maravilha surge nos sulcos do vinil através de "Father's Shout", com os metais fazendo uma espécie de apresentação dos principais temas da suíte, destacando as trompas e a sobreposição dos instrumentos. Um tema marcado e somos apresentados ao tema central da canção, feito pelas trompas e com o acompanhamento de guitarra, baixo, órgão e bateria. O tal "Theme from an Imaginary Western" aparece, com relinchos de cavalos e galopes, entre as marcações das trompas, e após uma moto cruzar diante dos instrumentos, o tema central é repetido.

Entramos na linda "Breast Milky", na qual um violoncelo faz o belíssimo solo da canção, enquanto Wright dedilha o órgão, acompanhado pela marcação do baixo. Mason surge fazendo intervenções que acompanham o ritmo das notas do baixo, e o violoncelo dá espaço para Gilmour solar com a slide guitar, acompanhado pelo leve andamento dos demais integrantes do Floyd. "Breast Milky" então ganha um lindo crescendo com a entrada dos metais e do piano, que fazem a base para o solo rasgado e emocionante da guitarra, um dos melhores da carreira de Gilmour. No final dessa sessão, o coral surge fazendo pequenas intervenções, que levam para "Mother Fore". 

David Gilmour

Nela, o coral predomina. Acompanhado apenas pelo órgão de Wright, o coral surge primeiro com vozes feminininas fazendo um duelo em particular,o qual vai crescendo, trazendo as demais vozes do coral que entoam mais um tema emocionante. A explosão ocorre com a entrada da percussão, com o coral repetindo o tema principal dessa terceira parte em uníssono, destacando a marcação dos barítonos, além de Wright ser um atraente a mais com o seu órgão. 

Rick Wright
É o órgão que nos leva para "Funky Dung" aonde ouvimos apenas uma bluesística jam session, com Gilmour solando sem parar, melódicamente, acompanhado pelo leve andamento do órgão, baixo e bateria. O coral surge, fazendo diversas vocalizações, enquanto Wright delira no piano, levando-nos então ao tema central de "Father's Shout", agora com mais pegada pela parte da orquestra.


A repetição deste tema abre "Mind Your Throats, Please", a mais viajante das partes de "Atom Heart Mother", abrindo primeiro com os sintetizadores fazendo sons muito estranhos, enquanto ouvimos colagens instrumentais e vocais, além de efeitos diversos. Essa parte era a única que não era apresentada ao vivo, justamente pela alta quantidade de efeitos de estúdio. Os barulhos aumentam o volume, variando entre sirenes, gotas de água e outros efeitos do sintetizador, encerrando a sequência com uma grande explosão. 

Roger Waters

Por fim, "Remergence" abre a parte final da suíte, resgatando diversos trechos da canção, como partes do solo melódico de Gilmour em "Breast Milky", a sessão inicial de "Father's Shout" e trechos de "Mind Your Throats, Please", todos sobrepostos. Os metais ganham força, e assim, a melodia de "Father's Shout" aparece, após ouvirmos um "Silent in the Studio", mas de forma um pouco diferente. O violoncelo de "Breast Milky" também retorna, trazendo o derradeiro solo de guitarra, encerrando a suíte magnificamente, com o coral fazendo as vozes finais imitando o tema central de "Father's Shout", em um incrível e único arranjo, tanto vocal como instrumental, acabando simplesmente com um longo trecho vocal e os metais sendo soberanos. De arrepiar!


Alguns fatos curiosos envolvendo a gravação de nossa Maravilha Prog são também importantes para entendermos o acabamento final dessa obra. Pela primeira vez, a EMI utilizou o sistema de oito-faixas para registrar um álbum, além de uma mesa de mixagem TG12345, capaz de mixar ao mesmo tempo as oito faixas e vinte microfones. Por conta disso, a EMI exigiu que não ocorresse nenhuma edição na gravação, já que os custos poderiam ser altos, além de poucos saberem manusear o equipamento muito bem na época. Consequentemente, Waters e Mason tocaram as partes de baixo e bateria ao vivo, sendo essa a primeira gravação, que foi mixada posteriormente com os demais instrumentos, que também foram gravados ao vivo.


"Atom Heart Mother", apresentada ao vivo na Alemanha
"Atom Heart Mother" foi o encerramento de uma sequência de canções instrumentais que o Floyd fazia no final da década de sessenta, começando com "Interstellar Overdrive" e passando por "A Saucerful of Secrets". Além do fato de trazer a primeira Maravilha Prog feita pelo Pink Floyd, Atom Heart Mother também foi o primeiro álbum do grupo a conquistar a primeira posição em vendas nas paradas britânicas, sendo fundamental para a consolidação do rock progressivo como estilo favorito dos roqueiros durante o início da década de 70.

Daqui há quinze dias, apresentaremos a segunda Maravilha Prog feita pelo Pink Floyd, a qual é uma das mais belas suítes que o progressivo pariu, e que encerrava os shows do grupo no início da década de 70: "Echoes".
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