sábado, 18 de maio de 2013

Melhores de Todos os Tempos: 1965



Por Diogo Bizotto
Com Adriano KCarão, Bruno Marise, Davi Pascale, Luiz Carlos Freitas, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues
Após seus álbuns anteriores terem sido citados em nossas listas congregando os melhores discos lançados em 1963 e 1964, Bob Dylan galgou a posição mais alta em 1965 com seu aclamadíssimo clássico Highway 61 Revisited, com folgas em relação ao segundo colocado, confirmando seu status lendário e sua gigantesca influência. Lembramos, como sempre, que o critério para elaborar a listagem final, baseada nas listas individuais de cada colaborador, segue a pontuação do Campeonato Mundial de Fórmula 1. Dito isso, fica o convite para que o leitor não deixe de registrar suas preferências a respeito do ano em questão, além de tecer as críticas que achar pertinente.

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Bob Dylan – Highway 61 Revisted (90 pontos)
Adriano: O disco não é ruim, de forma alguma; é bom. “Like a Rolling Stone” é um clássico merecidíssimo e “Tombstone Blues” é uma das melhores coisas da carreira do Dylan, possuindo um dos meus trabalhos de guitarra favoritos de todos os tempos (cortesia de Mike Bloomfield). As demais músicas, no entanto, embora sejam boas, não me empolgam tanto. Acho que, desse ano, ainda prefiro Bringing It All Back Home.
Bruno: Meu preferido do Dylan. Não só pela adição muito bem vinda da guitarra, mas pelas composições. Um álbum que tem “Like a Rolling Stone”, “Tombstone Blues”, “Highway 61 Revisited” e “Desolation Row” não precisa de mais nada, não é?
Davi: Na época, Dylan quis inovar e resolveu colocar um conjunto de rock por trás de suas composições folk. Os fãs mais puristas torceram o nariz, é claro. Mas o tempo se incumbiu de mostrar que o rapaz estava certo, com uma mentalidade muito à frente de seu tempo. É aqui que está imortalizado o clássico “Like a Rolling Stone” (que décadas depois foi regravada pelos Rolling Stones). Este é o disco do qual mais gosto em sua discografia. Audição obrigatória!
Diogo: Poderia ser pelo clássico “Like a Rolling Stone”, cujo status como uma das músicas mais importantes de todos os tempos é merecidíssimo. Poderia ser pela performance louca e irreverente de Dylan e do guitarrista Mike Bloomfield – cheia de feeling – em “Tombstone Blues”. Poderia ainda ser pela lúgubre, dramática e estupenda “Ballad of a Thin Man”, ou até mesmo pela épica “Desolation Row”, praticamente sem precedentes em sua carreira. Para nossa felicidade, é por tudo isso e por mais cinco fantásticos motivos que Highway 61 Revisited merece, com sobras, ocupar o primeiro posto nesta lista. No também excelente Bringing It All Back Home (criminosamente ignorado aqui), Dylan já havia cometido a heresia de oferecer algo diferente daquilo que seus admiradores esperavam, eletrificando parte de seu material, mas foi através deste disco que o músico cravou definitivamente seu nome entre o panteão dos verdadeiros gênios da música.
Luiz: Assim como todo o folk, a sonoridade de Bob Dylan nunca me agradou muito. Todavia, o artista possui em sua discografia aquelas obras que estão além de qualquer parâmetro, funcionando sozinhas, como que uma referência a si próprio. Highway 61 Revisited é um desses discos que estão acima de criador, estilo ou qualquer outra forma de definição que o limite.
Mairon: Só por ter “Like a Rolling Stone” já podemos colocar Highway 61 Revisitedcomo um dos melhores de 1965 com toda a justiça. Não entrou na minha lista porque encontrei preciosidades que considero bem melhores, mas entendo o porquê de ele ser escolhido o melhor de 1965.
Ronaldo: Ao amplificar seu som com as guitarras elétricas, Bob Dylan também amplificou sua mensagem ainda mais largamente a todo o mundo, em um trabalho estupendo tanto no aspecto musical quanto no lírico. Díficil acrescentar alguma palavra a um trabalho tão importante e tão discutido quanto este. Bob Dylan influenciou os Beatles que influenciaram Bob Dylan e esses dois influenciaram mais de meio mundo.

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The Who – My Generation (66 pontos)
Adriano: Bom disco, que por pouco não entrou no meu Top 10 particular. Já inicia detonando com “Out in the Streets” e, ainda no lado A, conta com a clássica faixa-título, uma pancada, e com minha preferida no disco, “The Good’s Gone”, na qual Daltrey canta com timbre grave, longe do seu comum. Quanto às demais faixas, todas agradam, especialmente as originais, das quais não consigo destacar nenhuma.
Bruno: Quando esse disco saiu, nada era tão barulhento e anárquico como o The Who. Quem estava fazendo isso em 1965? É o punk dando as caras dez anos antes de seu nascimento oficial. Além disso, a banda podia se vangloriar de ter uma formação impecável. Um baterista hiperativo, um baixista virtuoso, um vocalista visceral e um guitarrista que compunha brilhantemente.
Davi: Álbum de estréia do grupo britânico. Não o considero seu melhor trabalho, mas sem duvida é um álbum essencial. Townshend já dava as cartas como principal compositor e Keith Moon já demonstrava ser um baterista fantástico. No entanto, se você está acostumado com o The Who das óperas rock, vá com calma. Aqui a sonoridade é mais crua, direta e com influencia do blues. Porém, não menos visceral. Os destaques ficam por conta dos clássicos “My Generation” e “The Kids Are Alright”.
Diogo: Apesar de ainda estar a uma certa distância do The Who mais ambicioso que afloraria pouco tempo depois, mostrando de vez quão diferenciado o grupo liderado por Pete Townshend – um dos grandes arquitetos do rock – era, My Generation já deixa claro que a intenção do quarteto era fazer muito, mas muito barulho. Em comparação com o que se fazia na época, quase tudo é mais intenso: a agressividade, a crueza e, especialmente, a performance dos músicos, ressaltando o baixista John Entwistle e o baterista Keith Moon, tão estrelas quanto Townshend e Roger Daltrey, um de meus vocalistas favoritos. Os clássicos “My Generation” e “The Kids Are Alright” são destaques, mas também enfatizo a ótima “The Good’s Gone” e a avassaladora instrumental “The Ox”.
Luiz: O mundo ainda não sabia o que era barulho … Não ainda! Com uma das mais fantásticas e invejáveis formações de um grupo até hoje, o The Who chegava para estrondar o mundo já em seu debut, com uma linha de clássicos capitaneadas pela porrada da faixa título (entre outras), que imortalizaram a máxima “Beatles? Play. The Who? Destroy!”, e com total propriedade.
Mairon: Bela estreia do Who, ainda no saudoso tempo do mod. Canções curtas, despretensiosas e agradáveis. Entwistle é o principal nome em todo o disco, e clássicos como a faixa-título e “The Kids Are Alright” estão nele. É a adrenalina e energia que faltava para o rock começar a virar hard, mesmo que ainda em uma visão embrionária.
Ronaldo: Estreia estrondosa do quarteto britânico. O som tem o espírito da época, mas aponta uma selvageria ainda pouco comum nas gravações. Canções icônicas e carregadas, chacoalhando o bom mocismo das bandas pop da invasão britânica, mas, ainda sim, também sendo pop.

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John Coltrane – A Love Supreme (50 pontos)
Adriano: Não consegui entender esse disco. É só o que consigo pensar. Tanta gente com tantos gostos diferentes, todos amam esse álbum, e eu simplesmente acho um disco de jazz comum, sem nenhum appeal especial. “Resolution” me parece uma boa faixa, mas só isso! Fica, enfim, registrada minha ignorância.
Bruno: Não sou muito fã de post-bop e free jazz, mas esse aqui é uma exceção. Uma das melhores obras de Coltrane, dividida em quatro suítes impecáveis e brilhantemente executadas.
Davi: Não ouvi.
Diogo: Apesar de não ser um grande conhecedor de jazz, minha parca experiência dá a entender que A Love Supreme é, depois de Kind of Blue (Miles Davis), o mais icônico álbum do gênero já gravado. Convenhamos, isso não ocorre à toa. A interação entre Coltrane e os músicos que o acompanharam nessa fantástica jornada atinge níveis transcendentais e causa espanto, tamanha a qualidade de cada pequena intervenção. Certamente, A Love Supreme ainda soa atualíssimo.
Luiz: Um dos meus dez discos preferidos em todos os tempos. Com o perdão do trocadilho, a obra suprema. Apenas.
Mairon: Por pouco este disco não entrou na minha lista final, mas pouco mesmo. Perdeu para o também ótimo E.S.P., de Miles Davis. Coltrane começando a mergulhar no free jazz e mandando ver com uma interpretação do capeta, acompanhando por um quarteto fenomenal em um disco fenomenal.
Ronaldo: O mestre do saxofone em seu trabalho mais celebrado. Um som jazz que consegue ainda hoje soar muito moderno. Uma confluência de inspiração e talento que pode (e deve) ser apreciada sem moderação. Não entrou na minha lista porque só tenho escolhido (por critério pessoal) discos de rock ou relacionados.

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The Yardbirds – For Your Love (48 pontos)
Adriano: O álbum conta com a versão definitiva de “I Ain’t Got You”, o que é suficiente pra entrar nesta lista. É um ótimo exemplo do que representavam os Yardbirds nesse momento: um grupo que fazia basicamente versões pra composições de terceiros, mas com uma potência e cara própria que punha a banda no nível de qualquer banda autoral do período – quando não acima.
Bruno: Não ouvi.
Davi: Lançado enquanto se preparavam para a primeira turnê nos Estados Unidos. Aqui misturam músicas inéditas com outras que já haviam sido lançadas em compacto. Algo muito comum na época. É o ultimo álbum gravado por Eric Clapton e o disco que tem o maior hit do grupo, a faixa-titulo “For Your Love”.
Diogo: Mesmo ainda focando-se em covers, os Yardbirds sempre mantinham-se um passo à frente dos outros grupos britânicos. Seu senso de urgência não tinha igual, vindo a ganhar concorrência apenas no final de 1965, quando o The Who lançou sua estreia. Equilibrando as fortes influências blues expressas no disco anterior, Five Live Yardbirds, com uma surgente ambição pop, o quinteto transformava canções alheias em material mais excitante e desafiador que as originais, tornando muito difícil a tarefa de apontar destaques. Eric Clapton pode ter deixado o grupo na época do registro, mas em pouquíssimo tempo ficaria mais que comprovado que seu substituto, um tal de Jeff Beck, não devia nada em relação ao “Slowhand”.
Luiz: E os Yardbirds finalmente adentram terras norte-americanas. Em termos de sonoridade, pouco muda com relação ao seu debut, mas a dimensão alcançada a partir de então é determinante para que se firmem entre os melhores. Destaque para “I Wish You Would”.
Mairon: Em 1965 houveram muitos lançamentos fantásticos, mas o Yardbirds superou a expectativa e lançou dos álbuns incríveis. For Your Love é um apanhado de singles lançados nos Estados Unidos, e não são quaisquer singles, são verdadeiros clássicos do rock que devem ser ouvidos por todas as gerações humanas. Uma banda que jamais existirá igual. Pena que o outro álbum lançado nesse ano (Having a Rave Up With the Yardbirds) não pôde entrar na lista por conta de seu lado B, mas também é um disco igualmente incrível em seu lado A.
Ronaldo: Uma das bandas mais importantes da década de 60 em um momento de cisma – escolher entre o purismo do blues e do r’n’b norte-americano ou um direcionamento mais pop. E como o Yardbirds equacionou a questão? Ora, se equilibrou entre os dois e ainda foi além desses dois rótulos. Porém, isso lhe custou a permanência de Eric Clapton na banda. O público saiu ganhando. O Yardbirds continuou a mil e Eric Clapton foi fazer história com John Mayall e depois com o Cream.

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The Rolling Stones – Out of Our Heads (46 pontos)
Adriano: Um ótimo disco, talvez o primeiro grande álbum dos Stones. Embora ainda contenha mais covers do que canções originais, essas versões são muito competentes, super legítimas (a exceção, por não acrescentar muito, seria “Talkin’ Bout You”). De início, já temos a pancadaria de “She Said Yeah”, cujo arranjo proto-hardeiro deixa no chinelo sua contemporânea “My Generation” e iguala “Train Kept a-Rollin’” (polêmica!). Outras muito boas são “That’s How Strong My Love Is”, “Good Times” (reparem na sutileza dos arranjos e da performance vocal) e, em particular, “Cry to Me”, com Keef demonstrando ser um ótimo guitarrista solo, com muito sentimento, o que ele repete na autoral “Heart of Stone”, uma belíssima faixa. Completando esse timaço de canções, as maravilhas autorais “Gotta Get Away” e “I’m Free”. Merecia posição melhor, certamente.
Bruno: Melhor disco dessa primeira fase brit do Stones. Apesar de ainda muitas – e ótimas – versões, a banda aqui mostra uma pegada mais urgente, com guitarras mais altas e uma performance inacreditável de Mick Jagger. Discão.
Davi: Um álbum típico do inicio do grupo de Jagger e Richards. Ou seja, bastante influenciado por soul e blues e poucas composições da dupla. Mesmo que assinem apenas três faixas do disco, colocam respeito. “I’m Free” está entre os grandes destaques do disco. Entre as regravações, sempre gostei muito da versão de “She Said Yeah” (que também recebeu uma ótima versão do The Animals) e “That’s How Strong My Love Is”. Grande disco.
Diogo: Certamente o melhor disco da banda até então. Apesar de nenhum dos anteriores ser fraco, pelo contrário, Out of Our Heads é bem resolvido desde o início, com a hardeira e agressiva “She Said Yeah” até o final com a ótima autoral “I’m Free”. Em geral, os músicos demonstraram que a experiência em estúdio e nos palcos, além do óbvio entrosamento, lhes dava cada vez mais personalidade. Quanto a Mick Jagger então, nem se fala… Confirmou merecer posição entre os grandes da época, especialmente nas baladas blueseiras, caso de “That’s How Strong My Love Is”, “Cry to Me” e “Heart of Stone”.
Luiz: Meu preferido dessa fase do grupo, ao lado de Aftermath. Aqui é perceptível um som mais enérgico e extremamente versátil, indo da pegada mais firme e sacana à melodia sofrida e boêmia de uma balada como “That’s How Strong My Love Is”. Obrigatório.
Mairon: Assim como os Yardbirds, os Rolling Stones também lançaram dois discos excelentes em 1965. Prefiro Two a Out of Our Heads, mas, se considerarmos a versão norte-americana desse álbum, Out of Our Heads certamente teria que estar entre os melhores de 1965, já que possui a clássica “(I Can’t Get No) Satisfaction”.
Ronaldo: Na minha humilde opinião, o trabalho que melhor representa os Rolling Stones nos anos 60. O r’n’b turbinado, o som repleto de ironia, a postura musical de afronta e aquela musicalidade básica e cativante. Díficil destacar algo neste trabalho, que pra mim merecia estar mais próximo do pódio de 1965.

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The Beatles – Rubber Soul (44 pontos)
Adriano: Se eu fizesse um Top 20 dos álbuns de 1965, Help! Certamente entraria.Rubber Soul talvez entrasse em um Top 50 (pois não devo conhecer mais do que 50 discos desse ano). Não quero polemizar muito, então vou falar apenas das faixas que me agradam. “Girl” já foi muito mais do meu gosto, mas ainda reconheço sua peculiaridade e carga sentimental. “Wait”, não sei por que, é uma música que me agrada bastante, embora não tenha nada de incomum ou de genial. A favorita, obviamente, tinha de ser “In My Life”, esta sim um trabalho magistral, de composição e de interpretação, inclusive por parte de George Martin no solo de piano. Merecia ocupar espaço em um disco melhor.
Bruno: Revolver e Sgt. Pepper’s é o caceta! É aqui que os Besouros começaram a botar as asinhas de fora, experimentando novos instrumentos, como a cítara em “Norwegian Wood”, guitarras mais rasgadas e harmonias vocais mais elaboradas. Um discão e talvez o mais subestimado da banda. Composições de primeira do começo ao fim.
Davi: Marca o inicio de uma nova fase do Fab 4. Aqui os músicos começaram a explorar mais os recursos de estúdio e a ousar mais em suas composições. Claro que os álbuns seguintes (Revolver e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band) são os grandes marcos dessa virada, mas já havia algumas dicas, como a cítara de “Norwegian Wood” e a letra de “In My Life”, por exemplo. Imperdível!
Diogo: É meio que uma convenção amplamente aceita o fato de Rubber Soul marcar uma virada na carreira dos Beatles, e isso faz bastante sentido. Não que álbuns anteriores já não contivessem fortes indícios do caminho mais experimental que seria seguido depois, mas é neste disco que se encontram obras que confirmam essa ideia, caso de “Norwegian Wood”, “You Won’t See Me”, “In My Life” e “If I Needed Someone”, todas ótimas. Apesar de alguns destaques, trata-se também do álbum mais equilibrado do grupo até então, não trazendo sequer uma música que eu considere muito abaixo do restante do track list.
Luiz: Invejo os outros 7 bilhões de habitantes do nosso planeta (e alguns marcianos) que são fãs dos Beatles. Nunca me despertaram interesse.
Mairon: O primeiro grande discos do Fab 4. For Sale é muito bom, mas é comRubber Soul que o grupo deu uma guinada de 180 graus em sua carreira, a qual particularmente é muito melhor do que o tempo do iê-iê-iê.
Ronaldo: Primeiro trabalho da banda que começou a dar as pistas de um outro direcionamento para toda a cena britânica. As inovações aqui são o som folk e a cítara, uma pequena intervenção neoclássica em um solo de teclado e músicas que fugiam da monotemática romântico-amorosa. Como eram a referência pra todos os jovens músicos da época, os manches todos se mudaram pra essas novas direções.

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The Zombies – Begin Here (39 pontos)
Adriano: O que dizer do álbum que conta com a melhor música de 1965? Sei que é exagero, mas é difícil descrever o sentimento que causa em mim o feito musical chamado “I Can’t Make Up My Mind”, tão brega quanto linda, demonstrando a maestria de Chris White como compositor – enquanto a maioria lembra apenas de Rod Argent. Este, por sinal, ataca logo em seguida com a também lindíssima “The Way I Feel Inside”, uma faixa basicamente a cappella, com leve acompanhamento de órgão, mas cuja profundidade melódica nos leva a imaginar – em alguns casos, a ouvir! – um arranjo no estilo do que a banda fez em sua obra maior, o clássico Odessey and Oracle. O restante do disco apresenta covers que variam do bom ao ótimo e composições autorais, que pra mim são os verdadeiros destaques aqui.
Bruno: Melodias, melodias e mais melodias. Nenhuma banda se equiparava ao The Zombies nesse quesito. E o que falar do timbre limpo e suave de Colin Blunstone? Esse disco já tem uma certa dose de psicodelia, bem antes de o LSD tomar conta da música, principalmente pelas atmosferas criadas no teclado por Rod Argent. Na época, pouca gente entendeu, e Begin Here só foi se tornar um clássico anos depois.
Davi: Não ouvi.
Diogo: Este disco foi uma das grandes surpresas de 1965 pra mim. Como se não bastasse conter mais canções autorais do que covers, elas normalmente sobrepujam as versões e mostram personalidade muito acima da média. Além disso, a boa produção permite que todos os instrumentos estejam bem audíveis e destaca as ótimas intervenções de Rod Argent nos teclados. A vocação para criar e interpretar ótimas baladas foi outro fator que chamou muito a atenção, e não poderia deixar de ser, pois elas são destaque total, vide “I Can’t Make Up My Mind”, “She’s Not There” e “I Remember When I Loved Her”, além da surpreendente “The Way I Feel Inside”, trazendo apenas voz e teclados.
Luiz: A sensação ao ouvir Begin Here é de viajar pelo espaço-tempo. A sonoridade como um todo, das melodias ao vocal cadenciado, passando por uma psicodelia (?) que transporta qualquer um que ouve de volta a 1965. Quer dizer, eu acho. Não faço ideia de como seria em 1965, mas esse disco me passa uma boa sensação de como seriaa. E isso é delicioso.
Mairon: A estreia do The Zombies entre os dez melhores para mim é surpreendente. Gosto das versões para “Summertime” e “Road Runner”, e claro que “She’s Not There” é fantástica, mas em 1965 houve material muito melhor do que esse disco. A própria “She’s Not There” ficou muito melhor com o Vanilla Fudge dois anos depois. Rod Argent é o principal destaque, sem dúvidas.
Ronaldo: Não gosto muito desse trabalho. Me soa como um pop ordinário da época, com alguns inegáveis itens de requinte, mas nada que me fizesse colocá-lo no lugar do Them ou dos Pretty Things.

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The Beach Boys – The Beach Boys Today! (29 pontos)
Adriano: Não vou discutir a posição que esse disco veio a ocupar no Top 10 final, mas convido o leitor a conhecê-lo bem, e ele falará por si. Um disco já de certo modo conceitual, pois apresenta uma clara divisão entre seu lado A e seu lado B, o primeiro dedicado a canções mais animadas e o segundo àquelas mais emotivas. Em todos os momentos de Today!, o trabalho é magistral, com uma riqueza que prenuncia o clássico Pet Sounds. O ensolarado lado A é suficiente para que esse disco ganhe o ouvinte, mas é no lado B, a “noite” do disco, em que caímos de joelhos e entoamos nossa adoração a Brian Wilson e companhia. Como não se render diante da dupla “She Knows Me Too Well” e “In the Back of My Mind”, dois dos maiores clássicos dos Beach Boys e do rock em geral? O mais impressionante é que a banda ainda lançou outro excelente disco em 1965, Summer Days (and Summer Nights!!), o qual conta com pelo menos mais dois clássicos, a saber, “Let Him Run Wild” e “You’re So Good to Me”. Conheçam!!
Bruno: Talvez o melhor álbum dessa primeira fase, mas ainda assim muito aquém do que a banda se tornaria após Pet Sounds.
Davi: Esse foi o primeiro de uma série de três álbuns lançados pelo grupo em 1965. A primeira metade é marcada por canções mais rock, enquanto a segunda metade é marcada por baladas. O disco trouxe arranjos mais sofisticados do que os que vinham apresentando até então. “Do You Wanna Dance” e “Help Me (Rhonda)” estão entre os destaques.
Diogo: Se o objetivo dos Beach Boys era aperfeiçoar o pop ao máximo, em Today! foi dado um importantíssimo passo nesse sentido. Certamente melhor que seus antecessores, o álbum é mais parelho e proporciona uma experiência agradável de cabo a rabo; no entanto, ainda não o suficiente para me arrebatar como ocorreu com milhões de outras pessoas. Mesmo assim, destaco a interessante divisão entre os lados do disco, ressaltando o estilo mais rocker e uptempo no lado A e as baladas de caráter, diria, quase erudito, no lado B (meu favorito).
Luiz: Gosto tanto quanto do aclamado Pet Sounds. Pode não ser tido como um divisor de águas na discografia do grupo como o outro, mas, ainda assim, tem excelentes canções e igualmente marcantes, como “Do You Wanna Dance?”, “Good to My Baby” e “Help Me, Rhonda”.
Mairon: Em 1965, os Beach Boys, assim como os Beatles, começou sua mudança sonora, e lançou três álbuns magníficos. Qualquer um deles é merecedor de estar entre os melhores de 1965. O meu escolhido para entrar nos dez mais seria Party!, masToday! realmente simboliza bem a mudança sonora que Brian Wilson estava preparando para os Garotos da Praia.
Ronaldo: A referência pop adolescente mor da América em mais um bom trabalho, também já com alguns temperinhos a mais do que aquele surrado surf-rock da primeira metade dos anos 60.

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The Byrds – Mr. Tambourine Man (29 pontos)
Adriano: É ótimo ver os Byrds representados nesta lista, o que espero ver acontecer também nos anos posteriores. Prefiro este disco a Turn! Turn! Turn!, embora a faixa-título deste seja um clássico muito marcante pra mim. Mr. Tambourine Manapresenta as clássicas versões dos Byrds para canções de Bob Dylan, como a linda faixa-título e “All I Really Want to Do”, mas sua riqueza não se esgota aí. Ótimas versões para músicas de outros compositores, como é o caso de “Don’t Doubt Yourself, Babe” e, principalmente, “The Bells of Rhymney”, além de boas canções autorais, como “Here Without You” e “It’s No Use”, demonstram o potencial dos Byrds em levar adiante seu projeto de unir o rock ao folk (ou vice-versa).
Bruno: Folk rock não é muito minha praia. Já tentei o The Byrds várias vezes, mas não rolou. Passo.
Davi: Esse é o primeiro trabalho e um marco da cena norte-americana. Não é novidade para ninguém que o filme “A Hard Day’s Night”, dos Beatles, foi um marco para esses garotos. Foi depois de assistirem essa película que eles adquiriram as guitarras Rickenbacker (12 cordas) e Gretsch, além da bateria Ludwig. No entanto, suas grandes influencias musicais estão mais para o folk do que para o rock. A música “Mr. Tambourine Man” foi um grande hit. Particularmente prefiro a versão deles do que a original, de Bob Dylan.
Diogo: Que banda, meus amigos! O baterista Michael Clarke podia até não ser tudo aquilo, mas o tempo se encarregaria de mostrar que timaço tínhamos em Gene Clark, Chris Hillman, Jim/Roger McGuinn e David Crosby. A música excitante que brota deMr. Tambourine Man faz jus a essa seleção de craques e empolga como quase nada na época. Psicodelia, folk rock, country rock… O The Byrds influenciaria tudo isso e muito mais, ajudando como poucos grupos a moldar a música pop de maneiras que eles jamais imaginariam, fugindo inclusive do âmbito meramente musical e mudando tanto os negócios quanto o comportamento. Dizer que a força do disco reside apenas nos (excelentes) covers de Bob Dylan é sacanagem, vide composições de Gene Clark como “I’ll Feel a Whole Lot Better” e “I Knew I’d Want You”. O álbum seguinte, Turn! Turn! Turn!, até conta com duas canções das quais gosto mais ainda, a faixa-título e a emocionante “Set You Free This Time” (mostrando de vez que a estrela que mais brilhava nessa constelação era a de Gene Clark), mas, no geral, Mr. Tambourine Mané levemente melhor.
Luiz: Não ouvi.
Mairon: O que salva esse álbum são as composições de Bob Dylan. “Chimes of Freedom” e “Spanish Harlem Incident” são bons aperitivos do que o grupo viria a fazer posteriormente com o maravilhoso Fifth Dimension. Bom disco, mas desse ano, prefiro Turn! Turn! Turn!.
Ronaldo: O feliz cruzamento de Bob Dylan com os Beatles! As duas coisas mais importantes da primeira metade dos anos 60 sintetizadas no som de uma única banda. Outro que merecia estar no pódio deste ano.

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The Beatles – Help! (25 pontos)
Adriano: Este sim um bom disco, digno de figurar no Top 10 final, embora ainda tenha alguns elementos típicos dos Beatles que me desagradam (identificáveis, por exemplo, em “The Night Before” e em “Another Girl”). Gostar de iê-iê-iê não é comigo, mas “You’re Gonna Lose that Girl” tem o mérito de conseguir esse feito. Apesar da ponte e do encerramento tosquíssimos, não há como negar a beleza peculiar de “Ticket to Ride”. Mas o que realmente me encanta no disco é a trinca “It’s Only Love” (breguíssima e lindíssima), “You Like Me Too Much” (o rockabilly de Harrison me convertendo de vez ao iê-iê-iê) e principalmente “Tell Me What You See”, melhor faixa do disco. Depois dessas três, prefiro me calar.
Bruno: Bom disco, seguindo a linha de A Hard Day’s Night, mas perde feio para o maravilhoso Rubber Soul.
Davi: Este álbum foi lançado simultaneamente com o filme, mas não deve ser confundido com a trilha sonora da película. Esta, foi lançada apenas nos Estados Unidos. Aqui, o grupo apresenta 14 faixas, sendo que a música-título e a balada “Yesterday” são atualmente tidas como clássicos do grupo. No entanto, há outros ótimos momentos, como “The Night Before”, “You’re Going to Lose That Girl”, “Ticket to Ride” e “Dizzy Miss Lizzy”. Mais um grande disco dos garotos de Liverpool.
Diogo: Em que pese o fato de haver, na mesma época, grupos que mereciam tanta atenção quanto os Beatles (quando não mais), o negócio é que o quarteto muito dificilmente decepcionava, sempre apresentando em seus álbuns uma coleção mais que satisfatória de canções, ora transitando em terreno sólido, que eles mesmos construíram (“Help!”, “The Night Before”, “Ticket to Ride”), ora se permitindo algumas ousadias que viriam a pavimentar o caminho a ser seguido após Rubber Soul (“You’ve Got to Hide Your Love Away”, “Yesterday”, “I’ve Just Seen a Face”). Help! é exatamente isso, sem tirar nem por.
Luiz: Mesmo comentário que fiz a respeito de Rubber Soul (apesar de adorar a faixa título).
Mairon: Um dos piores discos que já ouvi na vida, se é que podemos chamar isso de disco. Como diz um amigo meu: “chato bá garai!”.
Ronaldo: O auge dos Beatles enquanto banda de proposta declaradamente popular. Importantíssimo do ponto de vista da difusão do próprio rock, enquanto estilo musical e de vida, impulsionada também pelo estrondoso sucesso do filme homônimo em nível mundial.

Listas individuais:
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1. The Beach Boys – The Beach Boys Today!
2. The Kinks – The Kinks Kontroversy
3. The Rolling Stones – Out of Our Heads
4. The Turtles – It Ain’t Me, Babe
5. The Zombies – Begin Here
6. Nina Simone – Pastel Blues
7. The Yardbirds – For Your Love
8. The Byrds – Mr. Tambourine Man
9. The Moody Blues – The Magnificent Moodies
10. Them – The Angry Young Them

Otis_Redding_-_Otis_BlueBruno Marise
1. The Zombies - Begin Here
2. The Beatles - Rubber Soul
3. Bob Dylan – Highway 61 Revisited
4. The Who - My Generation
5. John Coltrane - A Love Supreme
6. Otis Redding - Blue
7. The Sonics - Here Are the Sonics
8. Grant Green - I Want to Hold Your Hand
9. The Beach Boys - The Beach Boys Today!
10. The Animals - Animal Tracks

gethrjtjkDavi Pascale
1. The Beatles - Help!
2. The Who - My Generation
3. The Rolling Stones - Out of Our Heads
4. Roberto Carlos - Jovem Guarda
5. Bob Dylan - Highway 61 Revisited
6. The Beatles - Rubber Soul
7. The Animals - Animal Tracks
8. The Yardbirds - For Your Love
9. The Beach Boys - The Beach Boys Today!
10. Gerry and the Pacemakers - Ferry Across the Mersey

5701847_147Diogo Bizotto
1. Bob Dylan - Highway 61 Revisited
2. Bob Dylan - Bringing It All Back Home
3. John Coltrane - A Love Supreme
4. The Yardbirds - For Your Love
5. The Byrds - Mr. Tambourine Man
6. The Who - My Generation
7. The Byrds - Turn! Turn! Turn!
8. The Moody Blues - The Magnificent Moodies
9. The Zombies - Begin Here
10. Thelonious Monk - Monk.

The_Hollies_-_Self_TitledLuiz Carlos Freitas
1. John Coltrane - A Love Supreme
2. The Who - My Generation
3. Bob Dylan - Highway 61 Revisited
4. The Hollies - Hollies
5. The Moody Blues - The Magnificent Moodies
6. The Animals - Animal Tracks
7. The Kinks - The Kink Kontroversy
8. The Rolling Stones - Out of Our Heads
9. The Zombies - Begin Here
10. The Yardbirds - For Your Love


andressegovia-segoviaplaysbachMairon Machado
1. The Yardbirds - For Your Love
2. Andrés Segovia - Plays Bach
3. Elis Regina e Zimbo Trio - O Fino do Fino
4. O Trio 3-D - O Trio 3-D Convida
5. Wes Montgomery - Movin’ Wes
6. The Rolling Stones - The Rolling Stones No. 2
7. The Supremes - We Remember Sam Cooke
8. Julian Bream - Baroque Guitar
9. The Paul Butterfield Blues Band - The Paul Butterfield Blues Band
10. Miles Davis - E.S.P.

71rwQGlI1pL._SL1110_Ronaldo Rodrigues
1. Bob Dylan - Highway 61 Revisted
2. The Beatles - Rubber Soul
3. The Byrds - Mr. Tambourine Man
4. The Rolling Stones - Out of Our Heads
5. The Who - My Generation
6. The Paul Butterfield Blues Band - The Paul Butterfield Blues Band
7. Them - The Angry Young Them
8. The Pretty Things - The Pretty Things
9. Bert Jansch - Bert Jansch
10. The Graham Bond Organization - The Sound of ’65

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Review Exclusivo: UFO (Porto Alegre, 12/05/2013)


brazilposter

Por que a gente compra um DVD de um show? Bom, em primeiro lugar, para os colecionistas é uma "figurinha a menos" no seu álbum. Para os que apreciam um bom som, é uma forma de ver como funciona in the act sua banda favorita, e para  quem não tem no que gastar dinheiro, é só um apetrecho a ser levado para casa.

Dito isso, por que então alguém vai assistir a um show de rock. Obviamente, por que é fã da banda/artista ou sabe da importância da mesma. Mas duas vezes o mesmo show, por que? Gastar uma certa quantia em dinheiro para se ver quase duas horas de uma apresentação na qual você já sabe o que vai acontecer na maior parte da mesma, ao invés de apenas comprar um DVD e ficar assistindo no quentinho e confortável sofá de sua casa?

É, mas tem certos shows que não é um DVD que vai explicar. Somente estando lá, ouvindo a adrenalina ser exalada pelas caixas de som, a vibração de uma plateia que ainda não presenciou um cataclisma sonoro como o que você já ouviu, e claro, a sensação de voltar ao passado e viajar por solos inimagináveis, entre outros pormenores, que me levaram novamente a ver o UFO em ação.

Sou um grande fã da banda, e quando soube de sua primeira vinda ao Brasil (em 2010) não medi esforços para assistir Phil Mogg (vocais), Andy Parker (bateria), Paul Raymond (teclados,  guitarras, vocais) e Vinnie Moore (guitarras) em um show inesquecível na cidade de São Paulo, no dia 26 de maio daquele ano.

Saí de lá estupefato com uma performance avassaladora, e ainda mais fã da banda. Além de o grupo tocar alguns dos principais sucessos com uma precisão cirúrgica, o carisma e a simpatia de Vinnie Moore me conquistaram, e desde então, comecei a buscar sua bela carreira solo, e claro, conhecer mais sobre o cara que simplesmente substituiu Michael Schenker, e o fez com tamanha propriedade que hoje pode se dizer que ninguém mais sente falta do alemão briguento e carrancudo.
O palco do CIEE acende suas luzes para o UFO
E assim me fui, de mala e cuia, atravessar o Rio Grande do Sul em mais de dez horas de viagem, para conferir de perto toda a energia do grupo, que veio pela primeira vez à Porto Alegre através da ótima ação da Branco Produções. O show aconteceu no belo Teatro do CIEE, um local pequeno, mas muito acolhedor, que faz as bandas que lá tocam muito mais próximas de seus fãs, tornando o show um tanto quanto diferente.

Sem banda de abertura e com um pequeno atraso, o UFO subiu ao palco tendo o quarteto acima citado e o baixista Rob de Luca, ótimo músico que substituiu nada mais nada menos que Pete Way, formador da banda lá no final dos anos 60, quando ainda se chamavam Hocus Pocus. de Luca Esforça-se para preencher o palco, e toca muito bem, só que é inegável o quanto as loucuras de Way em cima do palco são ausentes. De cara, percebemos que a noite seria diferente, pois o clima no espaço aéreo gaúcho estava propício para contatos imediatos de terceiro grau, e que apesar de não causar danos aos presentes, fariam seus estragos temporários durante toda a noite de 12 de maio de 2013.

O grupo entrou enquanto as caixas de som ainda rolavam um rock anos sessenta, já com Mogg agradecendo e dando boa noite. Anunciando que iam tocar "Some experimental rock 'n' roll music", Moore detonou o riff de "Lights Out", e assim começaram as duas horas mais intensas que o Teatro do CIEE já presenciou.



                            
                                                 A mão mágica de Vinnie Moore (Phil Mogg a direita)
Mogg e cia. passearam pela carreira do UFO desde a entrada de Michael Schenker (no seminal Phenomenon, de 1974) até o mais recente Seven Deadly (lançado ano passado) e, diferente da turnê de 2010, concentrada exclusivamente nos clássicos que acabaram registrados em Strangers in the Night (1979, considerado por muitos como o melhor disco ao vivo da história), aqui houve espaço para diversas surpresas, e o resgate de obscuridades quase desconhecidas por terras-tupiniquins. Claro que os dois primeiros discos do grupo (UFO e Flying, de 1970 e 1971 respectivamente) perderam seus espaços nas apresentações do grupo desde meados da década de 70, assim como os álbuns dos anos 80 se quer são cogitados por algum fã em aparecer no set list do grupo, ainda mais por que no período entre 1974 e 1979, o UFO produziu material suficiente para no mínimo três set lists de duas horas, um diferente do outro, e todos excepcionais.

Em Porto Alegre, primeiro o quinteto tratou de ganhar logo o jogo para a plateia formada em grande número por homens entre 30 e 50 anos, que conheceram o UFO muito mais por influência de nomes como Scorpions e do próprio Michael Schenker Group do que por méritos brazucas, já que poucos álbuns dos ingleses foram lançados no país (inclusive um deles, No Heavy Pettin', de 1976, saiu com as canções de outro álbum Force it, de 1975 - só no Brasil mesmo). Na sequência de "Lights Out", o UFO mandou "Mother Mary", dedicada à todas as mães do mundo.

Mogg então passou a demonstrar seu lado "apresentador de programa de televisão", e frequentemente começou a contar histórias e a divertir a plateia. Muito discontraído, elogiou a acústica do Teatro do CIEE e também a produção do espetáculo (que por sinal fez um excelente trabalho tanto nas luzes quanto no som, o qual esteve impecável o tempo inteiro), e apresentou duas canções de Seven Deadly, "Fight Night" e "Wonderland". Ambas ganharam mais peso ao vivo, e encaixaram-se muito bem no repertório do UFO.


                        
                                                       Rob de Luca

Após as duas canções de Seven Deadly, meu lado fã tomou conta de mim. Até então, estava me comportando como um mero espectador, mas ao ver a proximidade que estava de Moore, não resisti, e chamei ele no canto do palco, entregando para ele uma palheta personalizada do site consultoriadorock.com, e pedindo em troca a palheta dele. O guitarrista me atendeu gentilmente, aceitando a troca, mas não parou por aí. Para minha grata surpresa, ele fez um sinal de positivo para a palheta e seguiu tocando com ela(!). Uma alegria enorme preencheu os poros deste que vos escreve. Não tenho como expressar a satisfação de ver um ídolo tocar com um presente dado pelo fã, e não foram segundos, foram nada mais do que seis canções ao todo, com a palhetinha do Consultoria do Rock nas mãos de um dos maiores guitarristas do mundo.

A sequência de canções citadas começou com "Cherry", clássico do álbum Obsession (1978), "Let it Roll" (de Force It), na qual Mogge pediu para uma moça servir como tradutora dele, mas a mesma acabou negando-se, seguiu com mais duas de Seven Deadly ("Mojo Town" e "Burn Your House Down"), "Only You Can Rock Me" (outra de Obsession) e encerrou-se com a imortal "Love to Love" (Force It), na qual a palhetinha voou das mãos de Moore para um fã, como atesta esse vídeo, filmado ao lado de onde eu estava.

Durante essas canções, não deu para segurar a emoção, e Moore foi extremamente atencioso com quem se colocava na frente do palco. Assim como foi em 2010, frequentemente ele chegava nos fãs, exibindo-se para as câmeras e "emprestando" a guitarra para o fã tocar. Eu me esbaldei apertando a alavanca da guitarra, assim como outros tocavam nas pernas do guitarrista, no braço do instrumento, ou apenas imitavam o jeito de tocar de Moore, que deitava-se sobre nossas cabeças, como pedindo a benção aos fãs. Algo raro de um gênio da guitarra. Queria ver um Malmsteen, um Vai ou um Satriani (três guitarristas do mesmo porte) fazer algo parecido com isso. Indecifrável. Ver, sentir e ouvir isso tudo de novo não tinha preço, e nesses minutos, toda a distância e cansaço haviam sido superados.


                            
                                                                      de Luca, Moore e Mogg

Durante as canções, Mogg não parou com suas brincadeiras, e principalmente, de elogiar a plateia e a produção. Encantado com o que estava presenciando (a maioria das canções era aplaudidas com uma vibração que fazia tremer o Teatro), por várias vezes Mogg dirigiu-se para a frente do palco para agradecer aos fãs, e conversar individualmente com alguns, além de dedicar determinadas canções para fãs que estavam na primeira fila.

Com os dez viajantes minutos de "Love to Love" (a balada mais pesada que uma banda já gravou), o Teatro veio abaixo, principalmente com o solo repleto de virtuosismo e melodia saído das mãos de Moore, e com o público na mão, houve espaço para o UFO entrar em The Visitor (2009), o melhor álbum da era Moore, interpretando "Hell Driver", e surpreender à todos com "Venus", épica faixa de Walk on Water, álbum que marcou o - primeiro - retorno de Michael Schenker ao grupo, já em 1994.

Na frente do palco, as vibrações causadas pelos bumbos de Parker faziam o coração bater mais forte, enquanto as escalas de Raymond e de Luca auxiliavam Moore a arrancar gritos estridentes de sua guitarra, fazendo-nos imaginar: "Como esse cara está conseguindo fazer isso?".
                          
                                                                           Moore e Mogg

Um emocionado Mogg mais uma vez (e foram várias até então), agradeceu e muito a plateia, e disse claramente: "Eu nunca fiz isso, mas essa noite eu faço questão de fazer isso ..." e largou o microfone de mão, chamando um roadie para o palco e descendo do mesmo em direção a plateia. Eu fui um dos que auxiliou Mogg a descer do palco, e ele, muito gratificado, abraçou aos fãs, e encarecidamente, pediu ao roadie que tirasse uma foto dele com a plateia.

Claro que já vi vários artistas descerem do palco para abraçar os fãs, mas esperar isso de Mogg, um vocalista tão frio e recluso, foi chocante. Ele voltou ao palco, e podia se ver a emoção. Novamente ajudei ele a subir ao palco, ele me agradeceu, e também agradeceu aos LPs do UFO que eu havia levado na tentativa de um autógrafo, que aquela altura, não importava mais. Com um sorriso na face, soltou "Tonight, it's too hot ..." e foi a deixa para vir a clássica "Too Hot to Handle", a qual o público gritou muito alto, e cantou palavra por palavra junto com o vocalista, que por vezes deixou apenas os fãs cantando. Nessa canção, Moore exibiu-se com graça ao colocar a guitarra nas costas e fazer um solo magistral, que poucos conseguiriam fazer com a guitarra na posição normal. de Luca aproveitou-se do momento e também tocou alguns segundos com o baixo atrás de suas costas, e claro, no final da canção, quando Moore entoou o tema do filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau, o guitarrista foi extremamente ovacionado!

Momento do show em que Phil Mogg tira foto com a plateia
(meu braço direito aparece no canto esquerdo da foto)

Para completar a primeira parte do show, o público gritava por "Rock Bottom", e Moore não deixou por menos, soltando o riff dessa que particularmente, considero o melhor solo de guitarra em todos os tempos. Com quinze minutos de duração, novamente o Teatro do CIEE veio abaixo, curvando-se perante a genialidade e o virtuosismo de Moore. Ele repetiu nota por nota o solo original de Schenker, e fez muito mais. Abusou da guitarra como se ela fosse uma frágil presa, fazendo estripulias que muito guitarrista metido a tocador não chega nem perto de fazer. Parker, de Luca e Raymond, ficaram apenas fazendo a base, embasbacados como todos os presentes com o que Moore estava fazendo, de olhos fechados, ora deitado sobre a cabeça dos fãs, ora diante de todos, no centro do palco.

Ele sorria ouvindo nossas vocalizações acompanhando a melodia de sua guitarra nos temas consagrados do solo, balançando a cabeça como um sinal de positivo, e essa retribuição fazia-nos cantar mais alto, e ele respondia com mais sorrisos e mais solos. Os minutos passaram-se despercebidos, e quando o solo acabou, foi como um êxtase orgásmico: todos estavam perdidos, com a cabeça girando após aquela maravilhosa experiência, sem saber o que era para acontecer, inclusive o guitarrista, que talvez tenha feito seu solo mais inspirado em toda a sua carreira.

Alguns segundos passaram-se para que Moore voltasse à si e puxa-se de novo o riff inicial de "Rock Bottom", ao mesmo tempo que Mogg entrou sacudindo a camiseta e dizendo "Vinnie Moore, from Delaware", e os aplausos eram tão altos que encobriam o volume da guitarra, assim como assovios e gritos de pessoas que nunca imaginariam ver e ouvir algo parecido. "Rock Bottom" acabou, assim como a primeira parte do show, e todos passaram a entoar "U  - F - O", pedindo o retorno da banda.

Moore foi o primeiro a aparecer, distribuindo palhetas e agradecendo bastante à todos, que agora já estavam em pé, ocupando o "gargarejo" do palco. Os demais músicos apareceram, e depois de Mogg agradecer mais uma vez, veio a clássica "Doctor Doctor". Descrever essa canção é impossível, até por que, apesar de não ser a favorita de muitos, ela é como uma "Stairway to Heaven", uma "Rock and Roll All Night" ou uma "Smoke on the Water". Não tem como não cantar, gritar, espernear e pular ao som desse petardo, que foi apresentado para alguns através do Iron Maiden, banda que nunca negou suas influências no UFO (e que talvez nem existisse se em 1973 Steve Harris não tivesse assistido a um show do grupo). Eu fui um dos que puxou o coro do riff principal da canção, e fui agraciado com diversos sorrisos de Moore por conta de minha atitude.

O espetáculo encerrou-se com "Shoot Shoot", e todos saíram bestificados, abduzidos pelos seres espaciais que se apresentaram para os mortais na noite de doze de maio.

Ainda houve tempo para uma breve sessão de fotos e autógrafos com Moore e de Luca, que gentilmente apareceram no hall para conversar com dezenas de fãs que os aguardavam ansiosamente com LPs, CDs e revistas alusivas à banda. Mais uma vez, Moore provou que além de um grande guitarrista, é um homem muito íntegro e humilde. Atendeu um por um com um sorriso nos lábios e uma gratidão benevolente.
                                 de Luca e a palheta do Consultoria do Rock (abaixo);
                                                         Moore e o bolha fã (acima)

A mim, me reconheceu como "the pick man", agradeceu a palheta, disse que a mesma era ótima, e eu prontamente entreguei outra palheta, a qual ele beijou e guardou no bolso de sua jaqueta (também entreguei uma palheta para de Luca, que fez questão de fazer pose com ela).

A turnê pelo Brasil está encerrando-se amanhã, com uma apresentação em Goiânia, cidade na qual o grupo também se apresentou em 2010. Ontem, o grupo tocou no Rio de Janeiro, e depois da terra brasilis, volta para a Europa. Se você está em Goiânia, vá sem medo. A abdução é pacífica, apesar de que certamente, você irá carregar eternamente as marcas de duas horas insanas do mais alto nível do hard rock mundial.    
Set List
1. Lights Out
2. Mother Mary
3. Fright Night
4. Wonderland
5. Cherry
6. Mojo
7. Burn the House
8. Only You Can Rock Me
9. Love to Love
10. Hell Driver
11. Venus
12. Too Hot to Handle
13. Rock Bottom
Bis
14.  Doctor Doctor
15. Shoot Shoot

segunda-feira, 13 de maio de 2013

War Room: Charles Mingus - Three or Four Shades of Blues [1977]



Por Mairon Machado
Convidados: Adriano "Groucho" KCarão, Bruno Marise

O War Room desse mês foge dos padrões naturais do Rock, e mergulha de cabeça em um dos projetos mais audaciosos da história do Jazz. Em 1977, o baixista Charles Mingus reuniu um conjunto de estrelas do estilo, e gravou um álbum seminal. Gênios como Larry Corryel (guitarra), Philipp Catherine (guitarra), Sonny Fortune (saxofone) entre outros, acotovelaram-se nos estúdios da Atlantic Records, e sairam de lá com o aclamado Three or Four Shades of Blues.

Nossos convidados colocaram o som para rolar acompanhados de aperitivos e petiscos, e em um discontraído bate-papo, admiraram essa obra singular na carreira de Mingus. 
Vamos aos comentários desse bate-papo jazzístico.

1. Better Get Hit in Your Soul


Bruno: Gostei da introdução

Mairon: O álbum já começa com sua melhor canção. As vocalizações mostram um clima de descontração no estúdio, e a participação dos metais é sensacional. Adoro os solos de Philip Catherine e Larry Coryel

Bruno: A primeira faixa diferente totalmente do que eu esperava do disco. Instrumentações nada convencionais para o gênero.Mingus desossando no contra-baixo, e uma azeitada mistura entre sopros e uma guitarra levemente distorcida.Sonzeira!

Adriano: Não conheço muita coisa de jazz dos anos 70, mas duvido muito que isso se assemelhe ao que jazzistas vinham gravando. Isso, porque, cara, isso não é jazz! É fusion e olhe lá! Também sou acostumado ao Charles Mingus comandando total seus discos, mas parece que aqui os demais membros tinham muita autonomia. Curtindo muito os solos de guitarra - a la Zappa fusion - e sax, mas principalmente esse trecho das "palmas".

Mairon: Uma canção altamente energética, exalando virtuosismo. Com o perdão da expressão, faixa fudida para caralho, com solos magistrais de guitarra e sax

Bruno: Uma grande demonstração de que o jazz podia ser pesado quando queria. A primeira canção mostra que é possível ser virtuosista e cativante ao mesmo tempo, sem cair na fritação pura.

Adriano: Ainda prefiro o Mingus dos anos 50/60, mas gostei da faixa. Quem sabe ele me ganhe de vez na segunda?

Mairon: Com certeza.

2. Goodbye Pork Hat

Bruno: Acalmando as coisas depois da quebradeira inicial

Mairon: um clássico mingusiano de 1959 revisitado e totalmente renovado, que vira o LP do avesso. Os violões agora são o centro das atenções junto com o baixo, e toda a insanidade da veloz faixa inicial é amenizada por um andamento típicamente jazzístico. Uma linda faixa do início ao fim.

Adriano: Valeu pela informação, Mairon! Não sou fã do jazz convencional feito lá por '59, mas tô gostando de ouvir isso.

Bruno: Uma mescla curiosa e agradável de andamento jazzístico com uma veia blues. Interessante o uso de violão, poucas vezes tinha ouvido algo assim no gênero.

Mairon: Adoro as linhas de piano de Jimmy Rowles, e esse andamento de Dannie Richmond na bateria é sensacional.Lembrando que o álbum é de 1977, e é o penultimo gravado por Mingus, que nos brilha com um solo encantador.

Adriano: Novamente, os músicos aqui parecem ter mais autonomia. Às vezes, até parece que tudo foi uma jam bem divertida. Valeu novamente pela informação, Mairon. Provavelmente, eu já ouvi algumas dessas faixas alguma vez na vida, embora não lembre. Essa faixa dois já ouvi certamente.

Mairon: "Goodbye Pork Pie Hat" é um clássico. Eu tenho ela com o Coltrane e com o Duke Ellington também.

Bruno: Faixa bastante tensa e agradável ao mesmo tempo.

3. Noddin ya head blues


Bruno: Incrível como uma faixa difere completamente da outra, adoro discos assim! Essa começa com uma introdução no piano típica do estilo mais clássico, e vai ganhando intervenções de guitarra e sopros.

Mairon: O crescendo dessa faixa é algo. Seu início arrastado, com os solos de Sonny Fortune e Phillipe Catherine são muito melodiosos, e novamente, encantam. As passagens de guitarra com as engasgadas Robbie Robertson, são fenomenais.

Bruno: genial a alternância dos solos de metais e guitarra (de novo com pegada blues).

Adriano: Essas intervenções pontuais da guitarra são uma viagem...

Mairon: Catherine tocando muito, e olha que isso é quando ele estava no Focus !!!!

Bruno: Timbre de guitarra absurdo

Mairon: O que é esse solo do Ricky Ford duelando com o Catherine. Sensacional. Isso é o que eu mais gosto nas canções do Lado A desse disco, a divisão de centros, tudo com uma harmonia impecável.

Bruno: 10:47 que passam despercebidos. Uma viagem sensacional!

Adriano: O que pude perceber até agora é que o disco é bom, com bons solos, como os dessa faixa, mas tirando a primeira música e a pegada blues, especialmente nas guitarras, não se distingue muito de um disco comum de jazz.

Bruno: Cara, eu tive a impressão oposta, achei que foge bastante do convencional.

Adriano: Falo isso porque um Black Saint and the Sinner Lady, por exemplo, é um disco que se distingue pacas!

Bruno: Ah sim! O Black Saint é anti-padrão total

Mairon: Com certeza Adriano. Mas eu acho essas duas ultimas faixas muito tradicionais. Só o violão que deu uma cara nova.

Adriano: E o estilo do Mingus era bem característico desde os anos 50

Mairon: Que bom que estas curtindo Bruno, mente aberta e que não fica preso ao MÉTAU!

Bruno: Cara, eu sempre tive mente aberta

Mairon: Isso é um elogio, não leve a mal.

Bruno: Eu entendo. É que como eu geralmente comento bastante sobre rock pesado, todos acham que eu só ouço isso.

Mairon: É por ai.

Bruno: Adoro jazz, música erudita, soul, samba, country

Mairon: Esse disco que estamos ouvindo, junto com o Live in Japan do Coltrane e o The Eyes of the Heart, do Keith Jarrett, me abriram a mente para o jazz.

Bruno: Antes eu era bitolado demais eu não tenho muita paciência pra avant-garde jazz e bebop. Mas tô achando esse fantástico até agora, tem muito de fusion.

Mairon: O lado B é bem diferente. Essas três eram do lado A, mais com o Catherine, agora o Coryell vai entrar com tudo. O foda é que o cara estava tocando progressivo no focus, estava gravando música ambiente com o corryell no Twin House e ainda fez esse discaço com o Mingus.

Adriano: Pode ser ingenuidade dos meus ouvidos, mas essa guitarra solando enquanto os metais fazem o tema me soam meio Supertramp. haha

Mairon: O Marco vai ficar louco com o Adriano, hauahua

4. Three or Four Shades of Blues
Bruno: Essa sim tô achando bem convencional

Mairon: A canção mais Mingus desse disco, repleta de improvisos e bem anos cincoenta. O lado B difere-se totalmente, soando como um jazz tradicional, mas com diversas variações, principalmente nas partes dos solos. Porém, as mudanças após as entradas do piano nos revelam outra canção ... E Jimmy Rowles exibindo sua graça.

Adriano: Realmente, de tanto eu chamar o disco de convencional, a coisa convencionalizou de vez.

Bruno: Quebra de clima total! A faixa começa num andamento típico do gênero e de repente o piano toma conta

Mairon: Totalmente fora da casinha. E virão mais mudanças ainda. Essa faixa é genial! Olha essa entrada do Mingus, retomando ao be-bop, e o Jimmy Rowles solando feito um louco. QUE QUE É ILSOM????? Música Latina?? Arrepios correm pelas minhas veias

Bruno: Mingus dá o tom, e temos mais uma mudança totalmente inesperada!

Adriano: Começa alegrinho, mas vem uma quebra e entra esse piano meio introspectivo. Lembra a faixa 3 do Black Saint, minha favorita.

Mairon: Bruno, acabamos de chegar na metade da canção ... mais mudanças virão. Vocês percebem influências do progressivo????

Adriano: Até agora não senti nenhuma vibe prog. Parece mais uma rapsódia jazz.

Bruno: Talvez um toque de King Crimson.

Adriano: Opa! E essa guitarrinha? E esse sax soando oriental? A coisa tá ficando boa! haha. Depois da quebra a música ficou animada. É como se ele dissesse "ah, vocês pensavam que agora tudo ia ser paz e conforto?". Pegadinha do Malandro essa metade da faixa 4!

Mairon: Eu vejo um pouco de Henry Cow e King Crimson

Adriano: O mais parecido com isso que vi no prog foi "The Three Fates" do ELP, mas ainda assim muito distante. Acho que isso aqui é jazz de fato, brincando com sua própria musicalidade jazz e vez ou outra fazendo referência a outros tipos de música, como o blues e a música oriental.

Bruno: depois de uma passagem com certa dose de música latina, voltamos com o andamento tradiicional do começo da música.

Adriano: Poxa, o timbre de guitarra no solo final é realmente lindo.

Bruno: Nossa e esse final? hahaha. Marcha nupcial

Adriano: Marcha nupcial! hahaha

5. Nobody Knows

Adriano: Jazzinho rápido. Parece tema de marchinha, sei lá.

Mairon: Isso sim, jazz de primeira, saído dos becos de Nova Orleans. Efusivo arranjo de metais, e o baixo de Mr. Mingus solavancando as caixas de som. Altos solos de saxofone e a guitarra aparecendo timidamente.

Bruno: Adoro esse jazz mais tradicional, remetendo aos primórdios, antes de todo o virtuosismo exacerbado dos anos 60.

Mairon: O solo de Catherine me lembra os velhos solos de Wes Montgomery, mostrando que o cara além de ser virtuoso pacas, também sabe tocar no estilo tradicional.

Bruno: Engraçado como a faixa mais "tradicional" do álbum é a que mais destoa, já que o padrão do Mingus é fugir do convencional (Ficou confuso? hahaha).

Adriano: Ah não gostei muito dessa última faixa. Adoro o swing das big bands, até gosto de ragtime e dixieland, mas tem exceções. Essa faixa é como "One o'Clock Jump" do Count Basie - gosto do estilo, mas não gostei da faixa. Perdoem os fãs de "One o'Clock Jump", haha.

Mairon: Olha esse embalo da guitarra do John Scofield, vai dizer que não é o Montgomery em pessoa?

Bruno: Belíssimo trabalho de guitarra realmente, timbre fantástico!

Mairon: O que eu não entendo é como o Mingus aguentava o pique. Olha a velocidade das escalas dele acompanhando o ritmo da bateria. Resumindo tudo: INCRÍVEL!!!!

Considerações Finais

Bruno: Conheço pouquíssimo da carreira do Mingus, mas dos álbuns que ouvi posso dizer sem medo que esse é o que mais gostei. A diversidade entre as faixas é incrível e o time de músicos impecável. Gostei de como tudo soa bem e agradável mesmo sendo virtuose. Músicas para serem apreciadas em seus mínimos detalhes. Agradeço ao Mairon por ter me apresentado a esse discaço e recomendo como porta de entrada para quem não conhece o trabalho do monstruoso Charles Mingus.

Adriano: Não gosto de dar muita bola pras minhas primeiras impressões sobre um disco, muito menos quando essa primeira audição não se dá sob as melhores condições. O que posso dizer sobre esse álbum do Mingus é que não mudou minha vida, nem minha forma de encarar a música, mas é um disco que traz uma cera riqueza, pela sua diversidade. Surpreende na primeira música, tanto pelos vocais quanto por dificilmente poder ser classificado como jazz. A quarta faixa é bem divertida e a que mais me chamou a atenção no disco. As restantes são apenas boas canções ou bons pretextos pra bons solos, coisa que não falta aqui.

Mairon: Foi com esse disco, juntamente com The Eyes of Heart de Keith Jarrett e Live in Japan de John Coltrane, que o jazz me conquistou. Um time impecável apoiando esse genial baixista, fazendo de cinco canções, em quarenta minutos, uma alegria para quem ouve, aliviando tensões, arrancando sorrisos dos lábios e aquela tradicional balançadinha de perna com o passar das faixas. Disco obrigatório em qualquer discoteca decente

Mairon:
Valeu pessoal. No post discutimos mais. Obrigado.

Adriano: É isso. Valeu, Mairon e Bruno, Consultoria e leitores. (:

Bruno: Abraço

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Emerson Lake & Palmer - Tarkus [1971]


A Maravilhas do Mundo Prog continua apresentando as Maravilhas feitas pelos principais nomes do rock progressivo britânico (Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer, King Crimson, Yes e Genesis). Depois de passearmos por quatro canções criadas pelo Pink Floyd, vamos agora conhecer o que o trio Keith Emerson (teclados, órgão, minimoog, sintetizadores), Greg Lake (baixo, guitarra, vocais) e Carl Palmer (bateria, percussão) construiu em sua fantástica carreira.
The Nice: David O'List, Lee Jackson e Keith Emerson

Fazendo um retrospecto na história do grupo, esse é um dos raros exemplos no qual uma banda que surge como um Supergrupo consegu dar certo. Já apresentamos aqui uma Maravilha Prog criada pelo grupo, "Tocatta", mas não foi apenas uma única peça musical que fez desse trio um dos principais nomes na história do rock progressivo. Em seus dez anos de duração (até a primeira separação oficial), foram oito álbuns de estúdio e três álbuns ao vivo, todos essenciais para a compreensão do que significa o rock progressivo.


Quando de sua formação, muito se especulou sobre o que viria a sair da cabeça desse trio. Afinal, a exclusividade da banda estava na figura de Keith Emerson. Saído do fabuloso The Nice, com quem lançou quatro discos de estúdio e um ao vivo, nesta banda ele já havia apresentado um protótipo do que veio a ser o Emerson Lake & Palmer, principalmente nos álbuns Nice (1969) e Five Bridges (1970), ao lado de Lee Jackson (baixo) e David O'List (bateria). Fazendo estripulias nos teclados, Emerson virou uma referência para o instrumento, principalmente por trazer ao palco um gigantesco moog valvulado (raro por sinal).
                  King Crimson: Ian McDonald, Michael Giles, Peter Sinfield, Greg Lake e Robert Fripp

Porém, o The Nice acabou após uma série de divergências até hoje nebulosas, mas Emerson não queria sair do picadeiro. Aproveitando-se da separação do King Crimson, Emerson conversou com o recém-amigo Greg Lake, que fazia parte da banda de Robert Fripp. O King Crimson fez alguns shows com o The Nice, e claro, nos bastidores, Emerson e Lake começaram a criar uma sonoridade envolvendo apenas piano, baixo e voz, o que atiçou e muito a imaginação da dupla.

Planejando uma sequência para o The Nice, Emerson sugeriu a formação de um trio apenas com baixo, teclados e bateria, o que foi prontamente aceito por Lake. O primeiro baterista da lista foi Mitch Mitchell. Como a Band of Gypsies de Jimi Hendrix também estava com os dias contados (banda da qual Mitchell fazia parte), seria o casamento perfeito. Inclusive, foi dessa situação que surgiu o boato no qual um novo grupo poderia ter surgido, o HELP, com Hendrix tocando guitarra junto de Emerson, Lake e Palmer, boato esse que só foi desmentido mais de quarenta anos depois, mais precisamente em 2012, quando Lake assumiu que nunca se quer houve a hipótese de colocar um guitarrista na banda.
 Atomic Rooster: John DuCann, Vincent Crane e Carl Palmer


Mitchell recusou a oferta, e então eis que surge o nome de Palmer. Baterista da The Crazy World of Arthur Brown, Palmer em 1970 estava começando uma carreira de respeito no Atomic Rooster. o primeiro trabalho do grupo havia acabado de ser lançado, e entrado entre os cincoenta mais vendidos no Reino Unido, o que fez com que o baterista recusasse a oferta inicialmente.


Porém, depois de uma conversa e uma jam, o clima rolou, e então, o casamento aconteceu. Emerson, Lake & Palmer surge desbancando a importância de Keith Emerson. Todos eram iguais, todos eram a banda, e todos iriam se destacar. Unindo forças individuais, o grupo subiu ao palco pela primeira vez em 20 de agosto de 1970, e seis dias depois, tocou para mais de 600 mil pessoas durante o festival da Ilha de Wight, sendo este apenas o segundo show do grupo.

Iremos falar mais desse show quando da próxima Maravilha referente ao ELP (como ficou conhecido ao grupo) e portanto, não entrarei em detalhes aqui, mas podemos antecipar que a apresentação incendiária do trio rapidamente fez com que a gravadora Island assinasse com a banda, e no primeiro dia do ano de 1971, veio ao mundo o primeiro álbum do grupo.
ELP: Emerson, Lake & Palmer

Emerson, Lake & Palmer é um apanhando de canções que mais parecem a junção de solos individuais com mesclas de partes em grupo. Sem dúvidas, o maior destaque vai para Emerson, que comanda joias como "The Barbarian", "Knife-Edge" e "The Three Fates". Palmer é o homem principal em "Tank", e Lake acabou gerando as canções mais conhecidas do álbum: "Take a Pebble" e "Lucky Man", essa última, a primeira a contar com o registro de um sintetizador moog como instrumento principal. O álbum fez um estrondoso sucesso, conquistando a quarta posição no Reino Unido, e claro, a exigência por mais não tardou.

Porém, mesmo com pouco tempo de formação, o amadurecimento do trio foi muito rápido. Ainda em janeiro de 1971, em apenas seis dias, eles entraram nos estúdios da Advision, em Londres, registrando lá o segundo álbum. Tarkus chegou às lojas em junho do mesmo ano, e mostrou que sim, era possível o ELP sobreviver como um grupo, e não com trabalhos individuais. A maior prova disso se encontra logo na suíte de abertura do LP, que carrega o nome do mesmo em mais de vinte minutos de duração, ocupando todo o Lado A.
Capa dupla de Tarkus, contando a história da suíte que ocupa o Lado A

O nome "Tarkus" refere-se ao gigantesco Tatu-Tanque que aparece na capa do LP. Criada por William Neal, ele deu o nome de Tarkus para o animal, fazendo uma mistura entre as palavras "Tartarus" (lugar de punição mencionando em Pedro 2:4) e "Carcass" (os ossos que aparecem escrevendo o nome do álbum), fazendo uma crítica a futilidade da guerra. A ideia de Emerson foi contar a história do Tatu, desde seu nascimento em uma erupção vulcânia, as batalhas com seu principal inimigo, um Manticore (figura mitológica com cabeça de homem, corpo de leão e cauda de escorpião), sua derrota para o Manticore e sua transformação para uma versão aquática, batizada "Aquatarkus".  Além disso, Tarkus significa sapiência em Estoniano. A história de "Tarkus" é contada em desenhos (também criados por Neal) que estão internamente na capa dupla do vinil original.

A suíte é dividida em em sete partes, quatro delas compostas por Emerson, duas pela dupla Emerson/Lake e uma apenas por Lake. Apesar de não ter a mão de Palmer na composição, sua importância para essa Maravilhosa suíte é enorme, começando pela introdução de "Eruption", trecho que abre a suíte com longos acordes de sintetizadores e batidas violentas nos pratos, simbolizando uma erupção vulcânica que ocasiona o nascimento de "Tarkus". Uma marcação complicadíssima de baixo, teclados e bateria surge trazendo um solo de órgão, enquanto a bateria solta o peso, marcando a canção para o moog fazer sua participação. Uma batida no gongo nos apresenta a segunda parte do solo de órgão, sempre com a complicada marcação ao fundo, a qual permanece em um pique alucinante, e então, após uma série de viradas e marcações incríveis, chegamos em "Stones of Years".
Keith Emerson, Carl Palmer e Greg Lake

Essa balada prog apresenta os vocais suaves de Lake, contando sobre as sensações que Tarkus está tendo, e como um tatu que é, apesar de sentir o que ocorre a sua volta não consegue ouvir nada. A voz é acompanhada por órgão, escalas de baixo e uma marcação recheada de rufadas da bateria. Após duas estrofes, o piano surge forte, trazendo o solo de Emerson com o órgão, enquanto ao fundo Lake executa uma escala menor e palmer continua a marcação, colocando várias viradas na mesma. O solo de Emerson não exibe o virtuosismo que o consagrou, mas apenas uma série de notas e acordes que vão aumentando de velocidade, chegando então nas duas últimas estrofes de "Stones of Years", e com efeitos na voz de Lake, Tarkus começa a viajar pelo mundo, e enfrenta uma série de inimigos, começando pelo pássaro "Iconoclast".

Temos uma maluca sessão instrumental que resgata a marcação de "Eruption", com mais pegada na bateria. Nela, Emerson abusa do órgão, arrancando longas notas do mesmo, simbolizando a derrota de Iconoclast através de uma guitarra, principal arma do segundo inimigo de Tarkus, "Mass", um ser parte lagarto, parte lagosta e parte lançador de foguetes. Essa sessão surge após uma complicada série de marcações entre baixo, bateria e órgão, e é a parte mais agitada de "Tarkus", com a marcação vibrante do baixo e do sintetizador. Lake canta rasgando a voz, fazendo diversas referências religiosas, com fortes críticas à Igreja, demonstrando também uma despreocupação da sociedade com os fatos relacionados aos bispos, padres e outros personagens religiosos. O moog valvulado marca a presença. Durante o solo de órgão, as marcações entre baixo e bateria são quebradas, e novamente, Emerson procura fugir do virtuosismo. Porém, o solo sofre uma mudança na segunda metade, com Palmer puxando o ritmo em uma rufada veloz e diversas viradas, e com Lake trazendo a guitarra para divertir-se entre as viajantes notas do moog.

O encerramento da letra de "Mass" nos leva aos delirantes minutos de "Manticore", o último inimigo de Tarkus, que surge com uma violenta marcação de baixo, órgão e bateria, todos executando as mesmas batidas ao mesmo tempo, e com breve intervenções do órgão, responsável por fazer o encerramento desse trecho com um curto solo. A violenta marcação aparece novamente, e uma incrível sequência de batidas na bateria nos leva para o trecho mais belo de "Tarkus", batizado de "Battlefield".
                    Carl Palmer, Greg Lake e Keith Emerson
O andamento cadenciado do órgão e as viradas de Palmer trazem a voz de Lake. A marcação é simples, mas cativante, e o estilo de cantar de Lake é único. Palmer também destaca-se fazendo diversas viradas sem perder o ritmo. Concluindo esse majestoso trecho, somos agraciados por um belo solo de guitarra feito por Lake, que apesar de exalar algumas notas da guitarra, extrai das mesmas uma melodia muito doce, digna de um dos melhores solos de sua carreira como guitarrista. Tarkus é derrotado A letra é retomada, agora com intervenções da guitarra ao fundo, e então, o órgão nos leva ao encerramento de nossa maravilha com "Aquatarkus".

Aqui, o moog sintetizado toma conta. Tendo ao fundo a marcação continua de bumbo, chimbal e caixa, bem como as mudanças de notas do baixo, o moog executa um tema de guerra, que repete-se por diversas vezes, e sobre este tema, passa a realizar o solo de encerramento final. Um ritmo marcial surge aos poucos na caixa de Palmer, enquanto o volume do solo do moog vai diminuindo, e então, apenas o ritmo marcial segue ecoando nas caixas de som, para um gongo retornar ao início de "Eurption", simbolizando uma nova erupção, da qual surge o animal Aquatarkus, passando a informação de que apesar de Tarkus ter sido enterrado, ele ainda estava vivo, e concluindo "Tarkus" com batidas violentas no órgão, pratos e nas cordas do baixo, além de um longo acorde de órgão e o moog duelando com a bateria.
                                                       Capa dupla de Tarkus
A suíte passou a frequentar o set list dos shows do grupo, e uma de suas melhores versões ao vivo está registrada no essencial álbum triplo Welcome Back My Friends to the Show that Never Ends ... Ladies and Gentlemen, Emerson, Lake & Palmer (1973), com mais de vinte e sete estonteantes minutos de duração. O tecladista do Dream Theater, Jordan Rudess, fez uma magnífica versão para "Tarkus" em seu álbum The Road Home (2007), contando com os vocais de Kip Winger e a guitarra de Bumblefoot. Nossa Maravilha ainda foi trilha de um filme russo em 1975 (filme este batizado de "Begstvo Mistera Mak-Kinli")

Vale a pena ressaltar que o grupo quase acabou antes das gravações de Tarkus. Enquanto Palmer mostrou-se muito bem receptivo por poder extrapolar seus limites e experimentar novas formas de tocar, principalmente com a suíte-título, Lake ficou desgostoso por não ser tão participativo na canção. Brigas ocorreram e, segundo diversas fontes, Emerson chegou a dizer para Lake: "Faça isso, ou então, deixe a banda". Lake decidiu sair, mas foi convencido por amigos e empresários a continuar, e o resultado, apareceu.

Tarkus fez tanto sucesso quanto seu antecessor, e mais, levou o trio ao topo das paradas britânicas, desbancando medalhões como Simon & Garfunkel, Rolling Stones e Paul McCartney. Lá, ele permaneceu entre os dez mais por mais de dezessete semanas. Seu lado B apresenta sete curtas canções, destacando "Jeremy Bender" e "A Time and a Place". Ainda em 1971, o grupo gravou mais uma Maravilha, mas isso é assunto para daqui há duas semanas.

sábado, 4 de maio de 2013

Consultoria do Rock Apresenta: A Psicodelia Californiana (Parte I)



A Califórnia é um dos estados mais promissores em termos de música. De lá, saíram gigantes como Beach Boys, Frank Zappa, The Doors, Sly & The Family Stone e Slayer, citando cinco diferentes estilos em que a cena californiana é indiscutivelmente vital para consolidação do mesmo. No período entre 1965 e 1968, o estado viveu um extase lisérgico, guiado pelo LSD, pelos hippies e pelo surgimento de inúmeras bandas, que misturavam os elementos do Paz e Amor com o ácido em sons únicos, viajantes, que caracterizam o que hoje é conhecido como a Geração Psicodélica da Califórnia. Depois, entre 1969 e 1972, vieram outras bandas, com a mesma proposta (e talvez até mais viajante) mas que, com a decadência do movimento flower-power, acabaram não fazendo tanto sucesso, sendo relegadas (em sua maioria) à obscuridão.

O Consultoria do Rock Apresenta portanto a Psicodelia Californiana, e nesta primeira parte, traz algumas das principais bandas do estilo na sua primeira geração, através de duas canções de cada grupo, uma mais conhecida e outra nem tanto, mas representativas do estilo que marcou o final da década de 60 em todo o mundo. A segunda parte, daqui há um mês, explorará a segunda geração de psicodelia, mantendo o mesmo formato.

01. "White Rabbit" - Jefferson Airplane: o grupo que mais divulgou o som psicodélico para o mundo abre este programa com sua mais clássica canção. Apesar de não ser exatamente detentora do estilo que o Jefferson Airplane fazia, "White Rabbit" é um Ácido Trifluorometanosulfonico lançada no segundo disco do grupo, Surrealistic Pillow, o qual é um dos mais vendidos na história da música, tendo atingido a terceira posição em vendas nas paradas americanas. Até hoje ela é associada ao mundo flower power tanto em filmes como propagandas ou desenhos que falam sobre o assunto, sendo o maior símbolo musical que a Psicodelia Californiana pariu!
02. "We Can Be Together" - Jefferson Airplane: faixa de abertura do quinto LP do grupo, Volunteers, lançado em 1969, está é mais representativa do que era a potência ácida vinda do Airplane. Vocalizações perfeitas, guitarras ensandecidas e muita potência exalando de uma cozinha fantástica no baixo e na bateria, além de uma letra-manifesto que é válida ainda para os dias de hoje. Mais flower-power (e Ácido  Fluorossulfúrico) e psicodélico impossível!
03. "Sitting by the Window" - Moby Grape: um dos maiores clássicos psicodélicos da Califórnia, gravado pelo grupo mais conturbado da Califórnia. O Moby Grape teve importância para a psicodelia principalmente pelo seu essencial álbum de estreia, lançado em 1967 e com nada mais nada menos do que dez singles lançados no mercado. Lembrando que as origens do grupo está justamente no Jefferson Airplane, já que o fundador do Grape, o guitarrista Skip Spence, era baterista do grupo que abriu esse programa. Ácido Sulfúrico para não se botar defeito.
04. "Miller's Blues" - Moby Grape: e quem disse que na psicodelia não podia haver blues? O Moby Grape faz estripulias mágicas com estilo nessa rara faixa do segundo álbum do grupo, lançado em 1968. Basta as notas da guitarra invadirem seu quarto para sermos entorpecidos por um Ácido Fluorossulfúrico em uma performance incírvel.
05. "Born Cross Eyed" - Grateful Dead: se houve um grupo californiano que conseguiu sobreviver pós-geração flower-power, este grupo foi o Grateful Dead. Liderados pelo guitarrista Jerry Garcia, o grupo lançou álbuns regularmente até os anos 90. "Born Cross-Eyed" encerra o lado A do segundo álbum do grupo como um Ácido Hidrofluórico, misturando metais, guitarra carregada de distorção e o órgão comendo solto, além de vocalizações arrepiantes. O encerramento dessa curta faixa explica sua inclusão, com barulhos indecifráveis.

06. "Viola Lee Blues" - Grateful Dead: lançada no álbum de estreia do Dead, em 1967, "Viola Lee Blues" mostra toda a ginga que consolidou o grupo para a eternidade, lotando shows e sendo uma das bandas que mais vendeu dentro dos Estados Unidos. Longas improvisações de guitarra e o órgão sacolejante, quase como um boogie, marcam essa genial peça musical, com lisérgicos dez minutos de duração de um Ácido Sulfúrico.

07. "Caterpillar" - Big Brother & The Holding Company: se o mundo conheceu Janis Joplin, a culpa foi da psicodelia californiana. Janis era a representação feminina do movimento hippie, e ao lado da Big Brother & The Holding Company, fez com que o estilo gravasse seu nome nos ballrooms californianos como o Winterland ou o Fillmore. "Caterpillar", um Ácido Hidrofluórico, está no álbum de estreia do grupo, também de 1967, e mostra a irreverência e alegria desses jovens e talentosos músicos, em um álbum menosprezado e desconhecido da maioria dos fãs por que houve um disco no ano seguinte que marcou para sempre a história de Janis, da psicodelia e do mundo, Cheap Thrills.

08 "Ball and Chain" - Big Brother & The Holding Company: foi no Festival de Monterey, em 1967, que a psicodelia californiana veio realmente ao mundo, e também ícones como "Ball and Chain" na versão da Big Brother. Cover para o blues alegre de Big Mama Thorton, é nela que Janis e cia. exalam toda sua lisergia, com a guitarra de James Gurley respigando Ácido Fluorantimônico (o mais forte dos ácidos) em seus ouvidos, nos dez minutos mais entorpecentes de sua vida, registrados no magistral Cheap Thrills, o mais vendido disco da história da Califórnia, primeiro lugar nas paradas americanas e com mais de 5 milhões de álbuns ao redor do mundo.

09. "Mona" - Quicksilver Messenger Service: este é um dos grupos mais injustiçados da história do flower power. O Quicksilver tinha nas guitarras John Cipollina, o homem que posteriormente veio a ser chamado de "O Responsável pelo Som da Califórnia", e nas suas canções, uma maravilhosa mistura de blues com lisergia. "Mona" é uma de suas canções mais conhecidas, um Ácido Hidrofluórico tendo essa guitarra com destaque, com o wah-wah comendo solto entre uma marcação hipnotizante de piano, baixo e bateria, algo que somente o Quicksilver conseguia fazer. Foi lançada no essencial segundo disco do grupo, o ao vivo Happy Trails (1969) .

10. "The Fool" - Quicksilver Messenger Service: a estreia do Quicksilver Messenger Service foi em 1968, com o álbum homônimo que encerra com essa enlouquecedora faixa, que mistura guitarra, viola e percussão em uma performance rara. Depois de seus mais de doze chapantes minutos de duração, carregados pela lisergia da guitarra de Cippolina, você certamente irá ver sapos pulando pelo seu quarto enquanto elefantes cor de rosa sobrevoam sua cama. Ácido Fluoroantimônico, e dos bons!

11. "When the Music's Over" - The Doors: para muitos, essa é a banda que realmente representa a Psicodelia Californiana. Isso claro, graças as letras de Jim Morrison, e ao órgão de Ray Manzarek. Porém, o The Doors estava longe de ser uma banda que realmente levasse a psicodelia a sério. Na verdade, o grupo fez raras incursões nesse mundo, e uma delas foi "When the Music's Over", que encerra o segundo disco do grupo (o ótimo Strange Days, de 1968) e que conta com todas as características do "Som da Califórnia", com a guitarra de Robbie Krieger cheia de distorção e viajantes onze minutos de duração. Mais Ácido Fluoroantimônico nas nossas cacholas.

12. "The End" - The Doors: esse programa encerra-se com um Ácido Trifluorometanosulfonico que viciou (e ainda vicia) muita gente com o passar dos anos. Assim como "White Rabbit", "The End" aparece em quase tudo que faz citação ao movimento flower power e a lisergia. Canção que encerra o álbum de estreia do grupo, de 1967, ela tem em sua introdução o mais importante riff que a lisérgica cena da Califórnia criou, e uma das letras mais bonitas (e bizarras) que Jim Morrison escreveu. Um atestado que, apesar de ser um porra-louca, quando queria Jim podia ser gênio.

No próximo Consultoria Apresenta, destacaremos os geniais Captain Beefheart, Country Joe, Carlos Santana e Frank Zappa, interpretando psicodélicas canções com suas respectivas bandas (Captain Beefheart Band, Country Joe & The Fish, Santana e a Mothers of Invention), além de apresentar os obscuros, mas também geniais, The Loading Zone, Iron Butterfly e It's a Beautiful Day.
Tutorial:

Classificação dos ácidos conforme seu poder de corrosão:
1 - Fluoroantimônico
2 - Trifluorometanosulfonico
3 - Fluorossulfúrico
4 - Sulfúrico
5 - Hidrofluórico
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