sábado, 1 de junho de 2013

Consultoria do Rock Apresenta: A Psicodelia Californiana (Parte II)

O Consultoria do Rock Apresenta desse mês continua mostrando alguns dos principais nomes da Psicodelia Californiana no final da década de 60. Esse segundo programa especial concentra-se em nomes individuais de extrema relevância, e que consolidaram a Psicodelia para uma geração pós-Monterey e pré-Woodstock, e diferente das bandas da Primeira Geração, seguiram carreira pelos anos 70 e até os anos 80, mas sem a mesma acidez que em suas origens.

Apresentamos por tanto as bandas da Segunda Geração da Psicodelia Californiana.

Para ouvir e assistir, clique aqui!

01. "Wowie Zowie" - The Mothers of Invention: liderados por um dos maiores gênios da música em todos os tempos, o guitarrista, vocalista e maestro Frank Zappa, as "Mães da Invenção" apareceram ao mundo em 1966, com o assustador álbum Freak Out. O primeiro disco duplo da história apresenta muita ironia e críticas à sociedade americana, e como diz seu nome, convida o ouvinte para enlouquecer-se com uma mistura de blues, jazz, be-bop, beat rock, valsa e diversos outros estilos, além de muita experimentação sonora. Esta canção abre o Lado B do vinil, e é uma pequena amostra da sátira-rock que Zappa e seus capangas poderiam construir. Um Pluteus salicinus para aperitivo na nossa degustação de cogumelos ácidos.

02. "Plastic People" - The Mothers of Invention: a acidez lírica de Frank Zappa surge com mais força no segundo álbum da Mothers. Absolutely Free foi lançado em 1967, e é um disco muito mais trabalhado do que seu antecessor, principalmente pela presença marcante da crítica feita com humor. "Plastic People" é um Psilocybe zapotecorum que abre o álbum atingindo em cheio os governantes e a população que aceita corrupção, roubos e sacanagem política sem nenhuma contestação ou manifesto. Zappa ampliou esse conceito nos demais discos de sua carreira, ora com a Mothers ora em carreira solo, revelando ao mundo nomes como Steve Vai, Adrian Belew, Terry Bozzio, Geroge Duke e muitos outros.

03. "Electricity" - Captain Beefheart & His Magic Band: Don Van Vliet foi, ao lado de Zappa, um músico genial e inovador. Com sua Magic Band, o vocalista ficou conhecico como Captain Beefheart, e implementou diversas experimentações na psicodélica cena da Califória, regada por viagens alucinantes em canções curtas, mas muito engenhosas. "Electricity" encerra o Lado A de Safe as a Milk (1967) como um Conocybe tenera, sendo este álbum a estreia do grupo, e um dos essenciais álbuns para se conhecer o Som da Califórnia.

04. "Kandy Korn" - Captain Beefheart & His Magic Band: As viagens aumentam no segundo disco do grupo, Strictly Personal. Com canções mais longas, Captain Beefheart explora sonoridades até então inaudíveis, entre bolhas coloridas e elefantes de cartola. Psilocybe zapotecorum para não se botar defeito. Beefheart ainda lançou mais dez discos até o início dos anos 80, que mesmo sem o impacto dos dois primeiros, ainda mostram muita ironia e inovações.
05. "Section 43" - Country Joe & The Fish: Uma banda voltada contra a guerra do Vietnam, e com um som acidamente estonteante. Liderados por Country Joe McDonald, o Country Joe & The Fish tinha como principal destaque o órgão fantasmagórico de David Cohen. "Section 43" é um Psilocybe zapotecorum com mais de sete minutos de duração, presente no álbum de estreia do grupo, Electric Music for the Mind and Body (1967), outro importante LP dessa geração.

06. "The 'Fish' Cheer / I Feel Like I'm Fixin' to Die" - Country Joe & The Fish: As críticas contra a guerra e o som delirante continuou no segundo disco do grupo, lançado no ano seguinte. Sua faixa-título é uma jazz-waltz que mantém a fábrica de Psilocybe zapotecorum na ativa, e consolida o Country Joe & The Fish como um dos principais nomes da cena psicodélica californiana. O grupo ainda lançou mais três discos posteriormente, porém sem o mesmo efeito alucinógeno de seus dois álbuns iniciais, muito por conta de McDonald ter seguido por uma carreira voltada para o folk e o country.

07. "White Bird" - It's a Beautiful Day: Um dos últimos grupos a contar com a produção de Matthew Katz ("criador" de nomes como Moby Grape e Jefferson Airplane) o It's a Beautiful Day apresentou para os hippies californianos o som mais delirante que eles podiam ouvir. Tendo como base o violino de David LaFlamme, o órgão de sua esposa, Linda LaFlamme, a voz (e as coxas) de Pattie Santos e a guitarra de Hal Wagenet, a banda apresentava um som muito diferente, tendo como principal destaque essa linda balada Conocybe Tenera, presente no maravilhoso álbum de estreia do grupo, em 1969.

08. "Galileo / Do You Remember the Sun" - It's a Beautiful Day: Com a separação do casal LaFlamme, o It's a Beautiful Day mergulha ainda mais nas viagens, extrapolando a parte musical também para a parte lírica. Essa dupla de canções encerra o segundo álbum do grupo, Marrying Maiden (1970), apresentando um enigmático poema e uma suave base instrumental, com um espetáculo vocal e deixando aquela sensação de "barato" dado por um Psylocibe cubensis. Vieram ainda mais dois álbun de estúdio e um ao vivo, porém sem a lisergia do passado da banda.
09. "Iron Butterfly Theme" - Iron Buterfly: O Iron Butterfly pode ser considerado o principal nome da Segunda Geração do flower-power californiano. Seu álbum de estreia, Heavy (1968), destaca o órgão de Doug Ingle e a guitarra de Danny Weis, fazendo uma mistura mais ácida do que o gosto de um Psilocybe zapotecorum, como podemos comprovar nessa belíssima faixa instrumental que encerra o LP.
10. "In-A-Gadda-da-Vida" - Iron Butterfly: No ano seguinte, o Iron Butterfly promovia a entrada do jovem guitarrista Erik Brann. Com apenas 18 anos, o menino estreia em um dos álbuns mais vendidos e aclamados da história do rock californiano, levado principalmente pelos viajantes dezessete minutos de sua faixa-título, uma Amanita muscaria que ainda hoje causa seus danos. O grupo modificou na década de 70, com diversas outras formações, mas deixou um legado venerado por milhões e milhões de fãs ao redor do mundo.

11. "Soul Sacrifice" - Santana: O guitarrista mexicano Carlos Santana mudou-se muito cedo para a Califórnia, e em 1969, estreiou vinílicamente com o homônimo álbum de sua banda, Santana. Carregado por uma sólida parede percussiva, e duelos extraterrestres entre órgão e guitarra, o disco fez grande sucesso, e apresentou, através dessa Pluteus salicinus, o baterista Mike Shrieve, que posteriormente destacou-se no festival de Woodstock.

12. "Se Acabo" - Santana: O segundo LP do grupo, Abraxas (1970), alcançou o primeiro lugar em vendas nos Estados Unidos. Pela primeira vez, um músico latino conquistava tal façanha (que seria repetida por Carlos Santana e sua banda posteriormente por mais três vezes). "Se Acabo" é outra Pluteus salicinus, que encerra nosso Consultoria Apresenta com um espetáculo percussivo.

Tutorial:

 Alguns cogumelos alucinógenos:

Pscilocybe cubensis - cogumelo de pequeno porte, e que foi um dos cogumelos mais utilizados pelos hippies durante o período flower-power.

Psilocybe zapotecorum - cogumelo com fortes poderes alucinógenos, e também com muitos efeitos colaterais.

Amanita muscaria - cogumelo que causa alucinações após quinze minutos de seu consumo.

Conocybe tenera - cogumelo delgado e muito frágil, que provoca pequenas alucinações.

Pluteus salicinus - cogumelo que cresce em madeiras, alucinógeno apenas se ingerido sem tratamento.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Facção Caipira - Facção Caipira [2012]



O grupo Facção Caipira surgiu em em 2009, na querida Nikity (Niterói) no Rio de Janeiro, formado por uma gurizada afim de se divertir tocando o que viesse na telha. a intenção de tocar o que gosta e cantar o que quiser. O quarteto formado por Jan Santoro (vocais, resonator), Daniel Leon (gaita), Vinicius Câmara (baixo) e Renan Carriço (bateria) ganhou destaque ao participar dos maiores festivais de Niterói, tendo arrebatado os prêmios de melhor intérprete, melhor instrumentista, melhor música e melhor banda durante o Festival Som na Universidade Federal Fluminense, no ano passado.

O auto-intitulado EP foi lançado no fim do último ano em um show lotado no histórico Teatro Municipal de Niterói, e apresenta para nós uma promissora banda do rock nacional.
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Facção Caipira é uma boa apresentação de um blues moderno totalmente inspirado nas raízes do southern rock do final dos anos 60 e início dos anos 70. Temos nele blues agitados ("JJF", "Insight"), balada bluesy com letra áspera ("Cholocate Amargo") e a animada "Etiqueta", saída de algum boteco texano, destacando a bela levada do baixo, além de duas canções gravadas ao vivo no Theatro Municipal de Niterói, a viajante "Blues Brasileiro Foragido Americano", em uma mistura de ritmo nordestino feito com a gaita e distorções na guitarra, além do slide comendo solto, e a veloz "Maluco Doido".

Destaques para o ritmo dançante de "Blues Pra Lá de Rock 'n' Roll", destacando a gaita de Leon, e, sem sombra de dúvidas para o bluesão arrastado "Hoje", com uma maravilhosa introdução feita por Leon

Um som muito bom de se ouvir, que, sustentados pelas viajantes passagens de harmônioca, criam um clima diferente do que estamos habituados a encontrar nas bandas atuais. Tomara que a banda lance em breve um full lenght, conseguindo um destaque maior do que o já tem atualmente, e claro, merecendo a audição de vocês leitores.

Vale a pena conferir este EP, ainda mais que o mesmo está disponível para download nesse site.

Parabéns e sucesso ao quarteto.

Track list


1. JJF
2. Chocolate Amargo
3. Hoje
4. Insight
5. Etiqueta
6. Blues Pra Lá de Rock 'n' Roll
7. Blues Brasileiro Foragido Americano
8. Maluco Doido

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Review Exclusivo: Yes (Porto Alegre, 26 de maio de 2013)





A noite de 26 de maio de 2013 ficará marcada para sempre no coração dos quase três mil presentes no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre. Nada mais nada menos que o grupo Yes, um dos principais nomes da história do rock progressivo e da música no geral, apresentou três de seus principais álbuns na íntegra, enlouquecendo e deixando muitos de boca-aberta com quase duas horas e meia de apresentação.


Com uma formação que é bastante discutível, já que o principal vocalista do grupo, Jon Anderson, foi substituído pelo desconhecido Benoît David, e mais recentemente, pelo jovem (e também desconhecido) Jon Davison, os britânicos desembarcaram na capital gaúcha para dar sequência na turnê 2013 World Tour, apresentando na íntegra os álbuns The Yes Album (1970), Close to the Edge (1972) e Going for the One (1977). Apesar de uma certa dúvida perante como seria a performance de Davison e também do tecladista Geoff Downes (que acompanhou o grupo em 1980, na turnê do menosprezado álbum Drama, e que voltou para o Yes em 2010), a certeza de que o esapetáculo por parte de Steve Howe (guitarra, lap steel, violões, mandolin, vocais), Chris Squire (baixo, vocais, harmônica) e Alan White (bateria), membros de formações clássicas do grupo deveria ser no mínimo excepcional. O que poucos esperavam é que o show em si fosse tão surpreendente.




Apocalypse, com Hique Gomez

Acredito que muitos como eu, ficaram bastante decepcionados com o último álbum ao vivo do grupo, In the Present - Live from Lyon (lançado em 2011). Apesar da boa recepção para Fly from Here, o último álbum de estúdio, lançado também em 2011, ao vivo o grupo pareceu abatido, com as canções mais lentas do que o normal, e alguns erros que jamais seriam cometidos no passado da banda. David saiu por problemas de saúde, e o grupo apresentou Davison, um baixista do desconhecido grupo Sky Cries Mary, com uma fisionomia que lembra bastante Roger Hodgson (Supertramp), que por acaso, também começou como baixista. O que viria dele era uma incógnita, que foi respondido com o clamor de aplausos encantados por um carisma incomum.

Antes do Yes, o palco do Araújo Vianna recebeu o grupo gáucho Apocalypse. Com trinta anos de carreira, era visível a emoção da banda, e para acalmarem seus ânimos, começaram a introdução do show com uma revisão para "Roundabout" (homenageando o head liner) e "Carmina Burana". O vocalista e flautista Gustavo Demarchi surgiu no meio do público, cantando em um estilo que lembra bastante Andre Matos, e assim, juntou-se aos demais integrantes para fazer uma retrospectiva na carreira desse importante grupo do progressivo brasileiro, e que infelizmente, é mais reconhecido fora de nosso país.

Durante uma hora de apresentação, uma mistura de Genesis, Yes e Emerson, Lake & Palmer surgiu nos alto falantes, apimentada com uma dose de modernismo de grupos mais recentes, como até mesmo o próprio Dream Theater. Houve também participação de Hique Gomez nos violinos e vocais na canção "Last Paradise", e o encerramento foi marcado por uma importante frase dita por Gustavo: "Apesar de toda a descrença, é possível SIM fazer progressivo no Brasil!". O público, apesar de pequeno, recebeu muito bem seus conterrâneos, que deixaram o palco com um gostinho de quero mais. Cabe aqui os parabéns para o marketing do grupo, que além de vender CDs e camisetas com o nome da banda em um preço muito acessível, também distribuiu gratuitamente um CD com canções do Box Set lançado pelo grupo para comemorar os 25 anos de carreira.

Encerrada a apresentação do Apocalypse, o Araújo começou a receber os fãs do Yes, que encheram o local em poucos minutos, enquanto o palco era arrumado para a sequência do espetáculo.


 Yes: Steve Howe, Geoff Downes, Jon Davison, Alan White e Chris Squire

Quando os acordes de encerramento da suíte "The Firebird" (original de Igor Stravinsky) começaram a surgir nas caixas de som, e imagens de diferentes fases do grupo surgisse no telão, o público começou a ovacionar. Era a deixa para que o quinteto adentrasse o recinto, fazendo-o com a imponência de "Close to the Edge". Ouvir essa incrível suíte ao vivo é uma aula de arte. Apesar de Howe ter cortado seu solo inicial em alguns segundos, tudo soou quase que perfeito em comparação com a versão original. A única exceção foi para White, que desde os anos 80, já não possui o mesmo vigor por detrás do bumbo, e tentar compará-lo com Bill Bruford (baterista que esteve nos cinco primeiro discos do Yes) é totalmente desqualificado e incabível.


Enquanto Howe gastava seus dedos em um solo maravilhoso, o telão apresentava a capa de Close to the Edge, o primeiro álbum a ser apresentado na íntegra, e além disso, também apresentava com letras garrafais o nome da canção que estava sendo apresentada, e também o nome de cada uma das partes da mesma. Jamais eu presenciei algo assim, Geralmente, o vocalista ou algum outro membro da banda diz: "A próxima música chama-se ...", mas o telão apresentando foi muito melhor, pois gravava nos nossos olhos aquilo que nossos ouvidos estavam interpretando.



Jon Davison

Encerrado o solo, a voz de Davison surgiu. Claro que as comparações com Anderson são inevitáveis, só que não vou titubear, o jovem mandou muito bem. Esforçando-se para ser fiel as notas originais de Anderson, Davison conseguiu conquistar a plateia com uma voz tão cristalina quanto a do venerado vocalista original, e emocionou principalmente durante "I Get Up, I Get Down", a qual, apesar do (raro) erro na entrada da letra, foi ovacionada. Downes não conseguiu reproduzir as linhas de Wakeman durante seu solo, mas também surpreendeu positivamente. Para quem acostumou-se a ouvi-lo com o Asia e o Buggles, ver ele pulando de um teclado para outro e fazendo solos muito velozes (apesar de não serem os mesmos) amenizou bastante a ausência do mago dos teclados.

O público aplaudia insanamente para cada mudança da suíte, e após seus vinte minutos, o Araújo Vianna inteiro (até mesmo os seguranças, que frequentemente viravam-se de frente para o palco para tentar entender o que estava acontecendo, e claro, voltavam seus rostos para a plateia com a boca aberta) apladiu em pé, com um sentimento de incredulidade perante o que tinha se passado, e então, Howe executou as primeiras notas de "And You And I", outra genial canção de Close to the Edge, e o álbum de 1972 foi concluído com "Siberian Khatru", tendo um show a parte por Howe, fazendo mais um grandioso solo.


Steve Howe (Geoff Downes ao fundo)

Davison fez uma breve saudação em português (muito bom por sinal), e passou a voz para Howe, que contou a história do próximo álbum a ser apresentado. Sempre com sua carranca, Howe contou que "O próximo álbum havia sido gravado na metada dos anos 70, na cidade de Montreux, e ele era baseado em algumas linhas de rock'n'roll, como essa daqui" e assim, soltou o riff "Going for the One" em sua lap steel, dando espaço para a apresentação do álbum de mesmo nome. Aqui, podemos perceber que a faixa-título ficou um pouco mais lenta que a original, o que atrapalhou um pouco principalmente na complicada sequência de palavras que encerra a mesma, mas nada de anormal.

Os fãs ficaram em silêncio para deixar Howe debulhar seu violão na linda "Turn of the Century", com Davison fazendo uma interpretação magistral, e "Parallels" agitou a casa novamente. Downes fez as deixas de Wakeman durante "Wonderous Stories", e virou-se em um polvo para recriar as complicadíssimas passagens de "Awaken".


Yes ao vivo

Essa Maravilha Prog foi o grande auge do show. Surgindo com o piano de Downes, os primeiros minutos foram uma viagem no tempo, guiada pelos vocais de Davison e pelos acordes viajantes de Howe e Downes. Ao explodir na sua parte central, Squire apareceu com o famoso baixo de três braços com o qual ele executa as diferentes passagens da suíte, e foi como que uma agulha picasse meu corpo e injetasse uma dose enorme de adrenalina. Ver esse momento, a dificuldade e concentração dos músicos para passarem nota por nota da versão original aos fãs, a trabalheira de Downes, Howe e Squire nos intrincados temas que servem como ponte entre uma estrofe e outra da letra, e claro, o majestoso trecho central, com Davison resgatando a harpa original de Anderson, e Downes levando-nos para uma viagem enigmática, entre nuvens, cerração e neblina saídos de alguma obra escrita por Marion Bradley, fez com que todos permanecessem calados, sem piscar, hipnotizados pela beleza e genialidade dos músicos. Uma obra prima, sem igual, e que eu fui abençoado por ter assistido sua exímia interpretação.

Ali, o mundo podia acabar, pois o ingresso havia sido pago com sobras. Mas ainda havia mais.


Howe, Downes e Squire


Agora, o mestre de cerimonias foi Squire. Dizendo "Vamos voltar aos psicodélicos anos 60, mais precisamente na Londres de 1969, quando entramos nos estúdios da Advison e saímos de lá com um álbum que começa mais ou menos assim" e então, o grupo soltou o riff de "Yours is No Disgrace", e fomos levados pela canção, com pesar apenas para o curto solo de Howe (obedecendo a versão original, e não estendendo-se como nas turnês de apresentação do grupo durante os anos 70 e 90).


Howe mostrou os sinais da idade ao sentar em uma cadeira, mas foi só aí que a idade apareceu, por que quando ele começou a tocar "The Clap", a casa caiu. Com uma habilidade única, ele agitou a plateia, e irritou-se com a vibração de alguns passadinhos, que assoviavam e gritavam de forma ridícula, e totalmente inválida. Lembrei-me de 1998, quando Howe, após "The Clap". passou um esporro geral na produção, e em um determinado momento, quando agrediu violentamente as cordas do violão, como um sinal de "Parem com esse barulho", visualizei novamente a "mijadeira", mas o cidadão em questão calou a boca e Howe encerrou tranquilo seu magistral solo, sendo ovacionado mais uma vez.


Yes interpretando "Going for the One"

"Starship Trooper" levou-nos pelo espaço junto da aeronave que dá nome a canção (e cuja imagem na capa do álbum Fragile, de 1971, permaneceu no telão durante um bom tempo), e Davison convidou o público para acompanhar com palmas "I've Seen All Good People". "A Venture" ficou um pouco fora do tempo original (culpa principalmente de White), e o show encerrou-se com "Perpetual Change"), uma paulada inexplicável, talvez a mais pesada canção que o Yes gravou no início de sua carreira.

O grupo agradeceu os aplausos e sem firular muito, mandou "Roundabout". Os fãs deixaram suas confortáveis cadeiras e foram para a frente do palco, assistir em pé e cantando junto o maior clássico da carreira dos britânicos. Davison foi muito simpático, acenando para todos que acenavam para ele, fazendo o sinal de V com os dedos, enquanto o som rolava sem a mesma velocidade da versão original, principalmente no trecho central da canção, mas ainda sim, cativando como há 40 anos atrás, quando foi lançada como faixa de abertura em Fragile. Obviamente, se o grupo quisesse continuar com "Cans and Brahms", "We Have Heaven", "South Side of the Sky", "Five Per Cent for Nothing", "Long Distance Runaround", "The Fish", "Mood for a Day" e "Heart of the Sunrise" (os fãs entenderão), e depois passear por Tales from Topographic Oceans e Relayer, nenhum de nós iria arredar o pé.




Davison, acenando para a câmera do baudomairon.blogspot.com

O quinteto despediu-se dos fãs, acenando e agradecendo. Sabiam que tinham feito um bom show, que na Porto Alegre, em termos de rock progressivo como música, não contando com cenários ou artefatos extra-palco, certamente foi o melhor show que eu já vi (bem melhor que o de 1998, feito pelo próprio Yes, ou o de Rick Wakeman ou o de Roger Waters no ano passado). Davison ainda ficou mais um pouco no palco, agradecendo em bom português, desejando saúde, paz, amor, prosperidade e harmonia, e confirmando uma imagem carismática, de um fã do grupo vivendo seu sonho, e entrando de cabeça nele (inclusive usando roupas adequadas para o movimento).

Não podemos comparar com o Yes da década de 70, fervendo em ideias e construindo dezenas de clássicos do rock progressivo, ou tão pouco ao início da década passada, quando ressurgiu das cinzas com uma formação fantástica, e acompanhado por uma orquestra, reviveu os clássicos da década de 70 com precisão cirúrgica.

Encerramento do show


O fato é que hoje e daqui há 50, 70, 90 anos, quando se falar de rock progressivo, pelo menos seis discos do Yes estarão entre os principais nas citações: The Yes Album, Fragile, Close to the Edge, Tales from Topographic Oceans, Relayer e Going for the One, e os meros mortais que estiveram no remodelado Araujo Vianna na noite do último dia 26 de maio puderam conferir na íntegra três deles, nota por nota, executados por geniais seres imortais.

Set list


1. Opening: Excerpts from "Firebird Suite"
2. Close to the Edge
3. And You And I
4. Siberian Khatru
5. Going for the One
6. Turn of the Century
7. Parallels
8. Wonderous Stories
9. Awaken
10. Yours is No Disgrace
11. The Clap
12. Starship Trooper
13. I've Seen All Good People
14. A Venture
15. Perpetual Change

Bis

16. Roundabout

sábado, 25 de maio de 2013

30 anos de Holy Diver




O ano é de 1982. O britânicos do Black Sabbath vivem uma fase áurea. Com o lançamento de Mob Rules, o grupo retorna para as bocas dos fãs e da mídia mundial, já que este é o segundo álbum de uma nova era no grupo, agora com os vocais do baixinho Ronnie James Dio. Tony Iommi (guitarras) e Geezer Butler (baixo) haviam perdido o baterista Bill Ward para os excessos da estrada, e o jovem Vinnie Appice (irmão do virtuose Carmine Appice) era quem dava o gás para o grupo.

Uma extensa turnê ao lado do Blue Öyster Cult, com shows completamente lotados, os dois álbuns dessa nova fase (Heaven and Hell e Mob Rules) vendendo como nunca antes na história do grupo, era a hora de lançar o primeiro disco ao vivo, para consagrar de vez aquilo que todos já comentavam: O Black Sabbath de Ronnie James Dio era a maior banda de rock do início dos anos 80.

Live Evil foi lançado em dezembro daquele ano, e foi marcado por inúmeras polêmicas. A mais grave: Dio e Appice teriam mudado a mixagem do som, buscando destacar suas partes e deixando as partes de Iommi e Butler escondidos. Indignados, Iommi e Butler mudaram a mixagem novamente, e essa briga durou alguns dias, até o álbum chegar às lojas com uma mixagem que para a maioria dos fãs, não possui nenhum destaque maior para algum instrumento.

O fato é que havia um desgaste na relação do quarteto. Os horários combinados para o trabalho não eram cumpridos, e enquanto Dio e Appice trabalhavam das 14 as 16 horas, Iommi e Butler trabalhavam no início da noite. Um dos proprietários do local de mixagem acabou fazendo a "intriga", e originando toda a confusão, que acabou tendo como solução a saída prematura de Dio, antes mesmo do lançamento de Live Evil.
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Ronnie James Dio, Vinnie Appice, Jimmy Bain e Vivian Campbell


O vocalista indignou-se com o tratamento e as acusações recebidas, saindo sem rumo, mas não tardou para que a ideia de seguir em carreira solo brotasse em sua mente, e o primeiro passo foi unir forças com Appice, o outro membro do Black Sabbath que também estava envolvido no "Caso Mixagem". Em outubro de 1982, o mundo era apresentado ao Dio, apresentando ao mundo o jovem e talentoso guitarrista Vivian Campbell, o qual havia gravado apenas dois singles com o Sweet Savatage. Completava o quarteto o baixista e tecladista Jimmy Bain.

O grupo entrou rapidamente nos estúdios, e de lá, saiu com o seu primeiro álbum, lançado exatamente há 30 anos, no dia 25 de maio de 1983. Holy Diver, além de marcar a estreia vinílica de Vivian Campbell, é um importante marco para o hard rock. Nele, Ronnie James Dio fundiu o que havia aprendido no Rainbow com o que havia criado no Black Sabbath, ou seja, letras fantasiosas com peso, e graças ao super time que o acompanhou, entrou para a eternidade como um dos melhores discos da carreira do baixinho. Ao lado de Campbell, é a atração maior nas canções, já que enquanto o primeiro mostra-se com solos virtuosos e riffs fantásticos, Dio canta livre das amarras e da sombra dos guitarristas que o acompanharam anteriormente, fazendo uma performance impecável.

Holy_Diver_Single_CoverO álbum já surge nas caixas de som com a pancada "Stand Up and Shout", com um riff pegado, lembrando os bons tempos do Rainbow de Rising, e é impossível ficar parado com esse sonzão, e principalmente, não vibrar com os solos de Campbell. Na sequência, a imortal e sombria faixa-título, com o riff sabbáthico e o andamento arrastado que modifica totalmente o clima inicial do álbum. Os efeitos nos teclados no início da canção são daqueles momentos para gelar a alma. Cinco minutos e cinquenta e um segundos que registram o que significa o nome de Ronnie James Dio para o rock.

Voltando para os hards, "Gypsy" é um soco no queixo, com mais uma introdução pegada, um riff grudento e Dio gritando como nunca, além de o solo de Campbell ser uma bonita disputa com os solos de nomes como Jake E. Lee (para comparar com o guitarrista que acompanhava Ozzy Osbourne na época). O riff de "Caught in the Middle" soa moderno, assim como a canção em geral foge totalmente do que havíamos ouvido com os vocais de Dio até então. O lado A encerra-se com "Don't Talk to Strangers", cuja introdução lenta, é apenas uma enganação para os fãs, já que seu andamento é veloz e muito pegado, também distinto da obra de Ronnie James Dio até então, culpa principalmente do talento de Campbell, responsável por outro grande solo.

O Rainbow aparece novamente em "Straight to Your Heart", faixa que abre o Lado B tendo uma interessante introdução feita por Appice, e com muito peso durante seu desenvolvimento, além de Campbell criando um riff grudentíssimo, seguida pela incrível "Invisible", saída de algum álbum obscuro da NWOBHM, com uma das mais belas introduções da carreira de Campbell, fazendo um solo genial e mais uma vez, despejando peso para Ronnie James Dio entoar sua voz.

220px-RainbowintheDarkSingleA clássica "Rainbow in the Dark" aparece nos auto-falantes, trazendo os teclados de Jimmy Bain, e outro riff sensacional criado por Campbell, esbanjando virtuosismo em seu solo, e o álbum encerra-se com os lobos uivantes na introdução de "Shame on the Night", seguida pelo riff pesadíssimo, que poderia estar em qualquer um dos LPs de Dio ao lado Black Sabbath. As brincadeiras harmônicas de Campbell, e a rasgação de garganta de Dio (dificilmente você irá ouvir outra canção com Ronnie cantando tanto), unem-se ao andamento arrastado de Appice e Bain, e deixam "Shame on the Night" em um patamar elevado dentre as favoritas canções do Dio.
O single de "Holy Diver" (contendo "Evil Eyes" e "Don't Talk to Strangers no Lado B) ficou entre os 40 mais vendidos nos Estados Unidos, e teve posições modestas na Alemanha (52), Suécia (60) e Reino Unido (72). Seu vídeo-clipe apresentou o grupo com um visual diferente do que os seguidores de Ronnie Dio estavam acostumados a ver, com o vocalista fazendo o papel de um lutador medieval com poderes mágicos.
Já o single de "Rainbow in the Dark" (com versões ao vivo para "Stand Up and Shout" e "Straight Through the Heart") não fez tanto sucesso nas vendas, mas a canção tornou-se um hino para os fãs. A canção quase ficou de fora do álbum, pois Ronnie achou-a demasiadamente pop. Porém, os demais membros do Dio gostaram do resultado final, e assim, ela foi a última canção a entrar no álbum.
Outro fato importante relaciona à Holy Diver está na marcante presença do mascote do grupo, Murray. O demônio-monstro surge no céu, entre as montanhas, assassinando um sacristão, o que causou certa polêmica.
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Vinnie Appice, Ronnie James Dio, Vivian Campbell e Jimmy Bain

O principal é que há 30 anos, Holy Diver soltava as amarras de Ronnie James Dio para navegar pelos sete mares, e principalmente, trouxe ao mundo o fabuloso Vivian Campbell, que ainda gravou mais dois discos com Dio, The Last in Line (1984), outro álbum importantíssimo para o heavy metal nacional, e Sacred Heart (1985), um disco que mergulhou ainda mais nos temas fantasiosos elaborados por Ronnie Dio.


O grupo lançou ainda mais dois discos (Dream Evil, de 1987; Look Up the Wolves, de 1990) até o baixinho retornar para o Black Sabbath e lançar Dehumanizer, em 1992, cuja história apresentamos ano passado, quando o álbum completou vinte anos.


Track list


1. Stand Up and Shout
2. Holy Diver
3. Gypsy
4. Caught in the Middle
5. Don't Talk to Strangers
6. Straight Through the Heart
7. Invisible
8. Rainbow in the Dark
9. Shame on the Night

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Emerson, Lake & Palmer - Pictures at an Exhibition [1971]


Seguindo nosso percurso pelas Maravilhas Prog criadas pelo trio britânico Emerson, Lake & Palmer, continuamos no ano de 1971. Após o lançamento de Tarkus, o grupo partiu para uma bem-sucedida turnê, vendo seu segundo álbum figurar entre os dez mais das paradas britânicas por mais de quatro meses.

A turnê era baseada basicamente nas suítes de Emerson, Lake & Palmer e Tarkus, mas também apresentava aquela que foi a primeira canção "composta" pelo grupo, e que na verdade, era uma adaptação para uma obra clássica seminal do russo Modest Mussorgsky: a incrível Pictures at an Exhibition.

Lembro que da primeira vez que ouvi falar de Keith Emerson (teclados, piano, sintetizador, moog, harpsichord), Greg Lake (baixo, guitarras, violão, voz) e Carl Palmer (bateria, percussão), a manchete do jornal Zero Hora de julhode 1992 dizia: Três que valem por uma Orquestra.

Naquela época, eu já gostava de rock progressivo, e também possuía simpatia pela música clássica, mas ficava imaginando como seria três músicos que fizessem toda a orquestração de uma canção. Imaginações infantis me levavam a pensar em homens com quatro, cinco braços, gastando todas as suas energias e mostrando todas as suas qualidades para tocar diversos instrumentos ao mesmo tempo. Porém, apesar das imaginações serem absurdas na realidade, o que esse trio fazia no palco era equivalente aos meus sonhos visionários e imaginativos, e constatei isso pouco tempo depois, quando ouvi a suíte "Pictures at an Exhibition", peça exclusiva que ocupa os dois lados do LP homônimo, de 1971.

Viktor Hartmann, o homenageado na versão original
da Maravilha Prog dessa semana
A versão do trio é uma adaptação fantástica (superada apenas, na minha modesta opinião, pela adaptação para um (!) violão feita pelo violonista japonês Kazuhito Yamashta em 1980, que você pode conferir aqui e aqui, em um show do japonês no Canadá, em 1984, e que foi esplendidamente interpretada pelo violonista ucraniano Marko Topchii) para a suíte original de dez movimentos, criada para o piano por Modest Mussorgsky no ano de 1874. Na suíte original, o pianista que se atreva a tocá-la coloca a prova todo o seu virtuosismo, e claro, fazendo as honras da casa de forma perfeita, arranca os glóbulos de quem o assiste, pois realmente, a peça é muito complicada.


A história da canção é uma homenagem de Mussorgsky para o arquiteto russo Viktor Hartmann. Ambos conheceram-se em 1870, e criaram uma amizade muito forte, que serviu como um elo para unir forças dentro da arte russa, promovendo os talentos daquele país para o resto do mundo. Porém, em 1873, Hartmann faleceu repentinamente, aos 39 anos, vítima de um aneurisma. Sua morte chocou toda a comunidade artística russa, principalmente Mussorgsky, que ficou inconsolável com a perda do amigo.

Como forma de prestar um último adeus para Viktor, o jornalista Vladimir Stasov resolveu fazer uma exposição com algumas das principais obras do artista. Assim, arrecadou mais de 400 peças criadas por Viktor, algumas doadas por Mussorgsky, que prontamente foi assistir a exposição realizada no Academy of Fine Arts de Saint Petersburg.
Modest Mussorgsky
Mussorgsky saiu tão emocionado da exposição, que acabou decidindo compor uma canção em homenagem a Hartmann. Em seis semanas, estava pronta "Pictures at an Exhibition", composta por dez movimentos que vão encaixando-se como engrenagens, formando uma máquina de Carnot (ou seja, trabalhando na mais pura perfeição).

O compositor russo criou um passeio imaginário pela exposição, circulando por algumas das principais obras de seu amigo. Inspirado pelas cores e tonalidades dos quadros da exposição, o passeio desenvolve-se através de caminhos ("Promenades") que levam de um quadro a outro, e para cada quadro, criou figuras sonoras que interpretam através de notas e acordes, as sensações e percepções quando o visitante coloca-se diante de cada quadro. Uma bela viagem, que por que não, é um dos embriões do que depois tornou-se o rock progressivo.

Pois foi uma banda de rock progressivo que fez de "Pictures at an Exhibition" seu carro-chefe para mostrar-se ao mundo. O ELP passou vários dias ensaiando e arranjando os movimentos originais, readaptando-os para uma sonoridade mais próxima ao do início dos anos 70, permitindo-se inclusive adicionar uma letra para a história. O projeto de interpretar "Pictures at an Exhibition" era um longo sonho de Emerson. Desde os tempos de The Nice, o tecladista enamorava por fazer uma apresentação solo ao piano com essa suíte. Porém, aproveitando-se da genialidade e da versatilidade de Lake e Palmer, foi nesse ponto que conseguiu construir uma versão sua, recheada com moogs, sintetizadores, órgão hammond entre outros apetrechos, e que entrou para a história do rock mundial.

Foi exatamente no segundo show do grupo que "Pictures at an Exhibition" foi apresentada pela primeira vez, o qual aconteceu durante o Isle of Wight Festival, em 1970. Apesar de ser uma versão enxuta, com apenas seis movimentos, foi um aperitivo e tanto (e também um grande holofote) para surpreender o mundo. Energética e muito virtuosa, "Pictures at an Exhibition" ocupou boa parte do show de pouco mais de uma hora apresentado pelo grupo, com Emerson e Palmer fazendo estripulias mil, e com o trio dando-se ao luxo de utilizar canhões para finalizar a suíte.


Keith Emerson (a esquerda);
Carl Palmer (acima, a direita) e Greg Lake (abaixo, a direita)
O comentário geral foi positivo, e "Pictures at an Exhibition" passou a fazer parte do set list do trio obrigatoriamente, e com a sequência de apresentações, a canção foi cada vez mais aplainada, até chegar em sua versão final, apresentada oficialmente em vinil no álbum Pictures at an Exhibition, de 1971.


Gravado ao vivo na data de 26 de março de 1971, no Newcastle City Hall (Newcastle, Inglaterra), o álbum traz única e exclusivamente toda a versão do ELP para a suíte de Mussorgsky, ocupando quase trinta e oito minutos do vinil. Essa versão possui onze movimentos, sendo oito deles adaptações dos movimentos da versão de Mussorgsky.

Seguindo fielmente a versão original, Emerson inicia "Promenade", tocando o órgão Harrison & Harrison instalado no topo do Newcastle City Hall, do qual ele desceu posteriormente para o palco através de uma plataforma móvel, enquanto Palmer executa um rufo, entrando em "The Gnome". Bateria e hammond fazem as malucas notas da canção, enquanto o baixo faz as intervenções. Os três instrumentos fazem a marcação central, retornando para as malucas notas, apenas com o hammond e a bateria, enquanto Lake faz as intervenções com o baixo, utilizando um wah-wah para criar efeitos interessantes.

O hammond então puxa os acordes que irão acompanhar o breve solo do sintetizador. Com um andamento cadenciado de baixo, bateria e hammond, o sintetizador surge timidamente, e este andamento toma conta das caixas de som, em um crescendo enigmático, para então, uma série de rufadas levarem as escalas menores de baixo, acompanhando mais uma passagem com o sintetizador em destaque. Chegamos em um viajante momento da canção, com Emerson criando os famosos "uiiiiiiiiiiiiiin" e outros barulhos eletrônicos através de seus sintetizadores e do Moog Modulado, ao mesmo tempo que  Palmer e Lake fazem o ligeiro ritmo ao fundo, o primeiro tocando os pratos enquanto o segundo insistindo na mesma nota. O órgão explode com longos acordes, enquanto o ritmo do baixo e da bateria aumenta o volume, com Palmer socando o bumbo, encerrando "The Gnome" com um rápido solo de hammond.

Voltamos então para "Promenade", tocada agora apenas pelo hammond, quase inaudível, deixando Lake ecoar sua voz (uma das mais lindas que o rock já ouviu) sozinho, interpretando a letra criada por ele. O órgão acompanha com leves notas, falando sobre . O moog valvulado ganha as atenções, fazendo o solo que nos leva para a linda "The Sage", através de uma longa nota do sintetizador.

Lake interpretando "The Sage"

"The Sage" é o momento solo de Lake, que acompanhado apenas pelo violão, faz sua voz estremecer as paredes do Newcastle Hall, seguindo um estilo folk muito belo. Após cantar duas estrofes, Lake demonstra seu lado virtuoso, fazendo uma bonita passagem com o violão clássico, mostrando que além de um grande vocalista e um bom baixista, ele também era um exímio músico com o violão. Para mim, este é o principal trecho da suíte recriada pelo ELP, e talvez o mais lindo na carreira do grupo. O trabalho de Lake é simplesmente incomum para os discos do grupo, e os minutos passam-se suavemente, trazendo novamente o vozeirão do violonista/vocalista, encerrando a última estrofe de "The Sage".


Depois desse lindo momento, Emerson e Palmer deliram com "The Old Castle", na qual o tecladista faz barbaridades e misérias com o clavinet, travando um duelo particular com Palmer, o qual agride o bumbo e as caixas. Depois dessa maluca sessão, Palmer puxa o ritmo marcado na caixa, com o baixo dançante de Lake fazendo a base para Emerson solar no moog.

Emerson, viajando em "The Old Castle"
A canção muda totalmente, virando um blues agitado chamado "Blues Variation", no qual Emerson diverte-se com o hammond, relembrando os velhos tempos de The Nice. A jam session continua, destacando a brilhante participação de Palmer, com uma marcação precisa mas sempre virtuosa, encerrando o lado A com barulhos diversos dos sintetizadores e batidas furiosas nos pratos.

Esses barulhos são a introdução de "Promenade", que abre o Lado B tocada imponente pelo hammond e tendo a marcação pegada de baixo e bateria, destacando novamente Palmer e suas rufadas, um trabalho genial!

A marcação do hammond e bateria repetem o tema central de "The Hut of Baba Yaga", com baixo e órgão repetindo as notas originais fielmente, e Palmer viajando com a bateria. O hammond faz o rápido solo central, e chegamos na viajante "The Curse of Baba Yaga", com Lake fazendo o solo da canção acompanhado por tímidas notas do órgão. O solo aqui é feito apenas com o baixo, o qual está carregado de distorção, e ainda recebe um tratamento de luxo do wah-wah. Depois, com o baixo "limpo", Lake puxa o ritmo, para Palmer soltar o braço em batidas e viradas nas caixas, pratos e tons, e o moog modulado fazer o solo principal, ora duelando com o baixo, ora viajando em um passeio próprio.

Repentinamente, a canção muda, retornando o tema central de "The Gnome", e com Lake cantando ferozmente, em gritos dilascerantes, ao mesmo tempo que Palmer comanda a loucura percussiva ao fundo, com diversas viradas e rufadas velozes. Emerson sola no clavinet, e a pancadaria come ao fundo, encerrando a letra com o mesmo clavinete sendo dominado por Emerson durante "The Hut of Baba Yaga", para uma magnífica sequência de notas de hammond, baixo e bateria nos levarem para "The Great Gates of Kiev".


Carl Palmer mandando ver em suas viradas

A velocidade absurda das viradas de Palmer são o principal destaque. Lake toca o baixo também muito veloz, com notas graves, e um longo acorde de hammond nos brinda com a doce voz de Lake, cantando as estrofes de "The Great Gates of Kiev" em um ritmo lento, diferente da loucura inicial, com o hammond repetindo a melodia original da versão de Mussorgsky.

O hammond fica sozinho, executando alguns acordes, retornando a melodia original e dando sequência para a letra. Mais uma vez o hammond fica sozinho, com pequenas mudanças de acordes. Timidamente, esses acordes passam a recriar o tema de "Promenade", com uma marcação de baixo e prato, explodindo em uma veloz rufada de Palmer, com o moog e o clavinet viajando alto, em barulhos absurdos, ao mesmo tempo que a plateia enlouquecida vibra com as estripulias de Emerson, retornando então ao hammond e a letra de "The Great Gates of Kiev", que é encerrada com as viradas de Palmer acompanhando as marcações de baixo e hammond. Lake grita absurdamente, concluindo "Pictures at an Exhibition" com a famosa frase "Death is life", seguido belos barulhos dos sintetizadores de Emerson e mais uma impressionante rufada de Palmer.

As partes novas são "The Sage", "Blues Variation" e "The Curse of Baba Yaga". No mesmo show no Newcastle Hall, o trio apresentou outra recriação para uma peça clássica, dessa feita "Nutrocker" (de Tchaikovsky, em uma versão feita por Tim Fowley), que também está presente no vinil Pictures at an Exhibition. A versão remasterizada em CD (lançada em 2001) traz como bônus "Pictures at an Exhibition" gravada em estúdio, apenas com o ELP interpretando os movimentos da versão original (sem "The Sage", "Blues Variation" e "The Curse of Baba Yaga").

Existe disponível em VHS uma apresentação do grupo Lyceum Theatre, em dezembro de 1970, a qual consta ser a primeira vez que "Pictures at an Exhibition" foi apresentada na íntegra, já com seus onze movimentos. Infelizmente, a versão em DVD cortou boa parte da apresentação, deixando apenas a suíte como única componente da mídia digital (se você encontrar a versão em VHS, não exite em vê-la).
PENTAX DIGITAL CAMERA


Capa dupla original de Pictures at an Exhibition, com os quadros cobertos (acima);

a capa interna, já com os quadros descobertos (abaixo)



A capa original de Pictures at an Exhibition foi construída no formato gatefold, apresentando seis quadros encobertos por um manto branco, cada quadro alusivo a um dos movimentos de "Pictures at an Exhibition". Quando o fã abre a capa, em sua parte interna encontra os quadros já descobertos, e consequentemente, as pinturas relativas para cada movimento ("The Gnome", "The Hut of Baba Yaga", The Old Castle", "The Sage", "The Curse of Baba Yaga" e "The Great Gates of Kiev"). Somente "Promenade" segue coberta, justamente por que ela não é alusiva a um quadro, e sim, ao caminho que guia para cada quadro.

O álbum  manteve o ELP como um dos mais vendidos na Inglaterra, alcançando a terceira posição em vendas naquele país (décimo nos Estados Unidos). Os nomes de Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer estavam gravados para sempre na história da música, mas eles estavam apenas começando a sua caminhada para tornarem-se os gigantes que vieram a ser dois anos depois. Ainda havia mais um passo, como veremos daqui a quinze dias, com a Maravilhosa "The Endless Enigma".
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