quarta-feira, 15 de maio de 2013

Review Exclusivo: UFO (Porto Alegre, 12/05/2013)


brazilposter

Por que a gente compra um DVD de um show? Bom, em primeiro lugar, para os colecionistas é uma "figurinha a menos" no seu álbum. Para os que apreciam um bom som, é uma forma de ver como funciona in the act sua banda favorita, e para  quem não tem no que gastar dinheiro, é só um apetrecho a ser levado para casa.

Dito isso, por que então alguém vai assistir a um show de rock. Obviamente, por que é fã da banda/artista ou sabe da importância da mesma. Mas duas vezes o mesmo show, por que? Gastar uma certa quantia em dinheiro para se ver quase duas horas de uma apresentação na qual você já sabe o que vai acontecer na maior parte da mesma, ao invés de apenas comprar um DVD e ficar assistindo no quentinho e confortável sofá de sua casa?

É, mas tem certos shows que não é um DVD que vai explicar. Somente estando lá, ouvindo a adrenalina ser exalada pelas caixas de som, a vibração de uma plateia que ainda não presenciou um cataclisma sonoro como o que você já ouviu, e claro, a sensação de voltar ao passado e viajar por solos inimagináveis, entre outros pormenores, que me levaram novamente a ver o UFO em ação.

Sou um grande fã da banda, e quando soube de sua primeira vinda ao Brasil (em 2010) não medi esforços para assistir Phil Mogg (vocais), Andy Parker (bateria), Paul Raymond (teclados,  guitarras, vocais) e Vinnie Moore (guitarras) em um show inesquecível na cidade de São Paulo, no dia 26 de maio daquele ano.

Saí de lá estupefato com uma performance avassaladora, e ainda mais fã da banda. Além de o grupo tocar alguns dos principais sucessos com uma precisão cirúrgica, o carisma e a simpatia de Vinnie Moore me conquistaram, e desde então, comecei a buscar sua bela carreira solo, e claro, conhecer mais sobre o cara que simplesmente substituiu Michael Schenker, e o fez com tamanha propriedade que hoje pode se dizer que ninguém mais sente falta do alemão briguento e carrancudo.
O palco do CIEE acende suas luzes para o UFO
E assim me fui, de mala e cuia, atravessar o Rio Grande do Sul em mais de dez horas de viagem, para conferir de perto toda a energia do grupo, que veio pela primeira vez à Porto Alegre através da ótima ação da Branco Produções. O show aconteceu no belo Teatro do CIEE, um local pequeno, mas muito acolhedor, que faz as bandas que lá tocam muito mais próximas de seus fãs, tornando o show um tanto quanto diferente.

Sem banda de abertura e com um pequeno atraso, o UFO subiu ao palco tendo o quarteto acima citado e o baixista Rob de Luca, ótimo músico que substituiu nada mais nada menos que Pete Way, formador da banda lá no final dos anos 60, quando ainda se chamavam Hocus Pocus. de Luca Esforça-se para preencher o palco, e toca muito bem, só que é inegável o quanto as loucuras de Way em cima do palco são ausentes. De cara, percebemos que a noite seria diferente, pois o clima no espaço aéreo gaúcho estava propício para contatos imediatos de terceiro grau, e que apesar de não causar danos aos presentes, fariam seus estragos temporários durante toda a noite de 12 de maio de 2013.

O grupo entrou enquanto as caixas de som ainda rolavam um rock anos sessenta, já com Mogg agradecendo e dando boa noite. Anunciando que iam tocar "Some experimental rock 'n' roll music", Moore detonou o riff de "Lights Out", e assim começaram as duas horas mais intensas que o Teatro do CIEE já presenciou.



                            
                                                 A mão mágica de Vinnie Moore (Phil Mogg a direita)
Mogg e cia. passearam pela carreira do UFO desde a entrada de Michael Schenker (no seminal Phenomenon, de 1974) até o mais recente Seven Deadly (lançado ano passado) e, diferente da turnê de 2010, concentrada exclusivamente nos clássicos que acabaram registrados em Strangers in the Night (1979, considerado por muitos como o melhor disco ao vivo da história), aqui houve espaço para diversas surpresas, e o resgate de obscuridades quase desconhecidas por terras-tupiniquins. Claro que os dois primeiros discos do grupo (UFO e Flying, de 1970 e 1971 respectivamente) perderam seus espaços nas apresentações do grupo desde meados da década de 70, assim como os álbuns dos anos 80 se quer são cogitados por algum fã em aparecer no set list do grupo, ainda mais por que no período entre 1974 e 1979, o UFO produziu material suficiente para no mínimo três set lists de duas horas, um diferente do outro, e todos excepcionais.

Em Porto Alegre, primeiro o quinteto tratou de ganhar logo o jogo para a plateia formada em grande número por homens entre 30 e 50 anos, que conheceram o UFO muito mais por influência de nomes como Scorpions e do próprio Michael Schenker Group do que por méritos brazucas, já que poucos álbuns dos ingleses foram lançados no país (inclusive um deles, No Heavy Pettin', de 1976, saiu com as canções de outro álbum Force it, de 1975 - só no Brasil mesmo). Na sequência de "Lights Out", o UFO mandou "Mother Mary", dedicada à todas as mães do mundo.

Mogg então passou a demonstrar seu lado "apresentador de programa de televisão", e frequentemente começou a contar histórias e a divertir a plateia. Muito discontraído, elogiou a acústica do Teatro do CIEE e também a produção do espetáculo (que por sinal fez um excelente trabalho tanto nas luzes quanto no som, o qual esteve impecável o tempo inteiro), e apresentou duas canções de Seven Deadly, "Fight Night" e "Wonderland". Ambas ganharam mais peso ao vivo, e encaixaram-se muito bem no repertório do UFO.


                        
                                                       Rob de Luca

Após as duas canções de Seven Deadly, meu lado fã tomou conta de mim. Até então, estava me comportando como um mero espectador, mas ao ver a proximidade que estava de Moore, não resisti, e chamei ele no canto do palco, entregando para ele uma palheta personalizada do site consultoriadorock.com, e pedindo em troca a palheta dele. O guitarrista me atendeu gentilmente, aceitando a troca, mas não parou por aí. Para minha grata surpresa, ele fez um sinal de positivo para a palheta e seguiu tocando com ela(!). Uma alegria enorme preencheu os poros deste que vos escreve. Não tenho como expressar a satisfação de ver um ídolo tocar com um presente dado pelo fã, e não foram segundos, foram nada mais do que seis canções ao todo, com a palhetinha do Consultoria do Rock nas mãos de um dos maiores guitarristas do mundo.

A sequência de canções citadas começou com "Cherry", clássico do álbum Obsession (1978), "Let it Roll" (de Force It), na qual Mogge pediu para uma moça servir como tradutora dele, mas a mesma acabou negando-se, seguiu com mais duas de Seven Deadly ("Mojo Town" e "Burn Your House Down"), "Only You Can Rock Me" (outra de Obsession) e encerrou-se com a imortal "Love to Love" (Force It), na qual a palhetinha voou das mãos de Moore para um fã, como atesta esse vídeo, filmado ao lado de onde eu estava.

Durante essas canções, não deu para segurar a emoção, e Moore foi extremamente atencioso com quem se colocava na frente do palco. Assim como foi em 2010, frequentemente ele chegava nos fãs, exibindo-se para as câmeras e "emprestando" a guitarra para o fã tocar. Eu me esbaldei apertando a alavanca da guitarra, assim como outros tocavam nas pernas do guitarrista, no braço do instrumento, ou apenas imitavam o jeito de tocar de Moore, que deitava-se sobre nossas cabeças, como pedindo a benção aos fãs. Algo raro de um gênio da guitarra. Queria ver um Malmsteen, um Vai ou um Satriani (três guitarristas do mesmo porte) fazer algo parecido com isso. Indecifrável. Ver, sentir e ouvir isso tudo de novo não tinha preço, e nesses minutos, toda a distância e cansaço haviam sido superados.


                            
                                                                      de Luca, Moore e Mogg

Durante as canções, Mogg não parou com suas brincadeiras, e principalmente, de elogiar a plateia e a produção. Encantado com o que estava presenciando (a maioria das canções era aplaudidas com uma vibração que fazia tremer o Teatro), por várias vezes Mogg dirigiu-se para a frente do palco para agradecer aos fãs, e conversar individualmente com alguns, além de dedicar determinadas canções para fãs que estavam na primeira fila.

Com os dez viajantes minutos de "Love to Love" (a balada mais pesada que uma banda já gravou), o Teatro veio abaixo, principalmente com o solo repleto de virtuosismo e melodia saído das mãos de Moore, e com o público na mão, houve espaço para o UFO entrar em The Visitor (2009), o melhor álbum da era Moore, interpretando "Hell Driver", e surpreender à todos com "Venus", épica faixa de Walk on Water, álbum que marcou o - primeiro - retorno de Michael Schenker ao grupo, já em 1994.

Na frente do palco, as vibrações causadas pelos bumbos de Parker faziam o coração bater mais forte, enquanto as escalas de Raymond e de Luca auxiliavam Moore a arrancar gritos estridentes de sua guitarra, fazendo-nos imaginar: "Como esse cara está conseguindo fazer isso?".
                          
                                                                           Moore e Mogg

Um emocionado Mogg mais uma vez (e foram várias até então), agradeceu e muito a plateia, e disse claramente: "Eu nunca fiz isso, mas essa noite eu faço questão de fazer isso ..." e largou o microfone de mão, chamando um roadie para o palco e descendo do mesmo em direção a plateia. Eu fui um dos que auxiliou Mogg a descer do palco, e ele, muito gratificado, abraçou aos fãs, e encarecidamente, pediu ao roadie que tirasse uma foto dele com a plateia.

Claro que já vi vários artistas descerem do palco para abraçar os fãs, mas esperar isso de Mogg, um vocalista tão frio e recluso, foi chocante. Ele voltou ao palco, e podia se ver a emoção. Novamente ajudei ele a subir ao palco, ele me agradeceu, e também agradeceu aos LPs do UFO que eu havia levado na tentativa de um autógrafo, que aquela altura, não importava mais. Com um sorriso na face, soltou "Tonight, it's too hot ..." e foi a deixa para vir a clássica "Too Hot to Handle", a qual o público gritou muito alto, e cantou palavra por palavra junto com o vocalista, que por vezes deixou apenas os fãs cantando. Nessa canção, Moore exibiu-se com graça ao colocar a guitarra nas costas e fazer um solo magistral, que poucos conseguiriam fazer com a guitarra na posição normal. de Luca aproveitou-se do momento e também tocou alguns segundos com o baixo atrás de suas costas, e claro, no final da canção, quando Moore entoou o tema do filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau, o guitarrista foi extremamente ovacionado!

Momento do show em que Phil Mogg tira foto com a plateia
(meu braço direito aparece no canto esquerdo da foto)

Para completar a primeira parte do show, o público gritava por "Rock Bottom", e Moore não deixou por menos, soltando o riff dessa que particularmente, considero o melhor solo de guitarra em todos os tempos. Com quinze minutos de duração, novamente o Teatro do CIEE veio abaixo, curvando-se perante a genialidade e o virtuosismo de Moore. Ele repetiu nota por nota o solo original de Schenker, e fez muito mais. Abusou da guitarra como se ela fosse uma frágil presa, fazendo estripulias que muito guitarrista metido a tocador não chega nem perto de fazer. Parker, de Luca e Raymond, ficaram apenas fazendo a base, embasbacados como todos os presentes com o que Moore estava fazendo, de olhos fechados, ora deitado sobre a cabeça dos fãs, ora diante de todos, no centro do palco.

Ele sorria ouvindo nossas vocalizações acompanhando a melodia de sua guitarra nos temas consagrados do solo, balançando a cabeça como um sinal de positivo, e essa retribuição fazia-nos cantar mais alto, e ele respondia com mais sorrisos e mais solos. Os minutos passaram-se despercebidos, e quando o solo acabou, foi como um êxtase orgásmico: todos estavam perdidos, com a cabeça girando após aquela maravilhosa experiência, sem saber o que era para acontecer, inclusive o guitarrista, que talvez tenha feito seu solo mais inspirado em toda a sua carreira.

Alguns segundos passaram-se para que Moore voltasse à si e puxa-se de novo o riff inicial de "Rock Bottom", ao mesmo tempo que Mogg entrou sacudindo a camiseta e dizendo "Vinnie Moore, from Delaware", e os aplausos eram tão altos que encobriam o volume da guitarra, assim como assovios e gritos de pessoas que nunca imaginariam ver e ouvir algo parecido. "Rock Bottom" acabou, assim como a primeira parte do show, e todos passaram a entoar "U  - F - O", pedindo o retorno da banda.

Moore foi o primeiro a aparecer, distribuindo palhetas e agradecendo bastante à todos, que agora já estavam em pé, ocupando o "gargarejo" do palco. Os demais músicos apareceram, e depois de Mogg agradecer mais uma vez, veio a clássica "Doctor Doctor". Descrever essa canção é impossível, até por que, apesar de não ser a favorita de muitos, ela é como uma "Stairway to Heaven", uma "Rock and Roll All Night" ou uma "Smoke on the Water". Não tem como não cantar, gritar, espernear e pular ao som desse petardo, que foi apresentado para alguns através do Iron Maiden, banda que nunca negou suas influências no UFO (e que talvez nem existisse se em 1973 Steve Harris não tivesse assistido a um show do grupo). Eu fui um dos que puxou o coro do riff principal da canção, e fui agraciado com diversos sorrisos de Moore por conta de minha atitude.

O espetáculo encerrou-se com "Shoot Shoot", e todos saíram bestificados, abduzidos pelos seres espaciais que se apresentaram para os mortais na noite de doze de maio.

Ainda houve tempo para uma breve sessão de fotos e autógrafos com Moore e de Luca, que gentilmente apareceram no hall para conversar com dezenas de fãs que os aguardavam ansiosamente com LPs, CDs e revistas alusivas à banda. Mais uma vez, Moore provou que além de um grande guitarrista, é um homem muito íntegro e humilde. Atendeu um por um com um sorriso nos lábios e uma gratidão benevolente.
                                 de Luca e a palheta do Consultoria do Rock (abaixo);
                                                         Moore e o bolha fã (acima)

A mim, me reconheceu como "the pick man", agradeceu a palheta, disse que a mesma era ótima, e eu prontamente entreguei outra palheta, a qual ele beijou e guardou no bolso de sua jaqueta (também entreguei uma palheta para de Luca, que fez questão de fazer pose com ela).

A turnê pelo Brasil está encerrando-se amanhã, com uma apresentação em Goiânia, cidade na qual o grupo também se apresentou em 2010. Ontem, o grupo tocou no Rio de Janeiro, e depois da terra brasilis, volta para a Europa. Se você está em Goiânia, vá sem medo. A abdução é pacífica, apesar de que certamente, você irá carregar eternamente as marcas de duas horas insanas do mais alto nível do hard rock mundial.    
Set List
1. Lights Out
2. Mother Mary
3. Fright Night
4. Wonderland
5. Cherry
6. Mojo
7. Burn the House
8. Only You Can Rock Me
9. Love to Love
10. Hell Driver
11. Venus
12. Too Hot to Handle
13. Rock Bottom
Bis
14.  Doctor Doctor
15. Shoot Shoot

segunda-feira, 13 de maio de 2013

War Room: Charles Mingus - Three or Four Shades of Blues [1977]



Por Mairon Machado
Convidados: Adriano "Groucho" KCarão, Bruno Marise

O War Room desse mês foge dos padrões naturais do Rock, e mergulha de cabeça em um dos projetos mais audaciosos da história do Jazz. Em 1977, o baixista Charles Mingus reuniu um conjunto de estrelas do estilo, e gravou um álbum seminal. Gênios como Larry Corryel (guitarra), Philipp Catherine (guitarra), Sonny Fortune (saxofone) entre outros, acotovelaram-se nos estúdios da Atlantic Records, e sairam de lá com o aclamado Three or Four Shades of Blues.

Nossos convidados colocaram o som para rolar acompanhados de aperitivos e petiscos, e em um discontraído bate-papo, admiraram essa obra singular na carreira de Mingus. 
Vamos aos comentários desse bate-papo jazzístico.

1. Better Get Hit in Your Soul


Bruno: Gostei da introdução

Mairon: O álbum já começa com sua melhor canção. As vocalizações mostram um clima de descontração no estúdio, e a participação dos metais é sensacional. Adoro os solos de Philip Catherine e Larry Coryel

Bruno: A primeira faixa diferente totalmente do que eu esperava do disco. Instrumentações nada convencionais para o gênero.Mingus desossando no contra-baixo, e uma azeitada mistura entre sopros e uma guitarra levemente distorcida.Sonzeira!

Adriano: Não conheço muita coisa de jazz dos anos 70, mas duvido muito que isso se assemelhe ao que jazzistas vinham gravando. Isso, porque, cara, isso não é jazz! É fusion e olhe lá! Também sou acostumado ao Charles Mingus comandando total seus discos, mas parece que aqui os demais membros tinham muita autonomia. Curtindo muito os solos de guitarra - a la Zappa fusion - e sax, mas principalmente esse trecho das "palmas".

Mairon: Uma canção altamente energética, exalando virtuosismo. Com o perdão da expressão, faixa fudida para caralho, com solos magistrais de guitarra e sax

Bruno: Uma grande demonstração de que o jazz podia ser pesado quando queria. A primeira canção mostra que é possível ser virtuosista e cativante ao mesmo tempo, sem cair na fritação pura.

Adriano: Ainda prefiro o Mingus dos anos 50/60, mas gostei da faixa. Quem sabe ele me ganhe de vez na segunda?

Mairon: Com certeza.

2. Goodbye Pork Hat

Bruno: Acalmando as coisas depois da quebradeira inicial

Mairon: um clássico mingusiano de 1959 revisitado e totalmente renovado, que vira o LP do avesso. Os violões agora são o centro das atenções junto com o baixo, e toda a insanidade da veloz faixa inicial é amenizada por um andamento típicamente jazzístico. Uma linda faixa do início ao fim.

Adriano: Valeu pela informação, Mairon! Não sou fã do jazz convencional feito lá por '59, mas tô gostando de ouvir isso.

Bruno: Uma mescla curiosa e agradável de andamento jazzístico com uma veia blues. Interessante o uso de violão, poucas vezes tinha ouvido algo assim no gênero.

Mairon: Adoro as linhas de piano de Jimmy Rowles, e esse andamento de Dannie Richmond na bateria é sensacional.Lembrando que o álbum é de 1977, e é o penultimo gravado por Mingus, que nos brilha com um solo encantador.

Adriano: Novamente, os músicos aqui parecem ter mais autonomia. Às vezes, até parece que tudo foi uma jam bem divertida. Valeu novamente pela informação, Mairon. Provavelmente, eu já ouvi algumas dessas faixas alguma vez na vida, embora não lembre. Essa faixa dois já ouvi certamente.

Mairon: "Goodbye Pork Pie Hat" é um clássico. Eu tenho ela com o Coltrane e com o Duke Ellington também.

Bruno: Faixa bastante tensa e agradável ao mesmo tempo.

3. Noddin ya head blues


Bruno: Incrível como uma faixa difere completamente da outra, adoro discos assim! Essa começa com uma introdução no piano típica do estilo mais clássico, e vai ganhando intervenções de guitarra e sopros.

Mairon: O crescendo dessa faixa é algo. Seu início arrastado, com os solos de Sonny Fortune e Phillipe Catherine são muito melodiosos, e novamente, encantam. As passagens de guitarra com as engasgadas Robbie Robertson, são fenomenais.

Bruno: genial a alternância dos solos de metais e guitarra (de novo com pegada blues).

Adriano: Essas intervenções pontuais da guitarra são uma viagem...

Mairon: Catherine tocando muito, e olha que isso é quando ele estava no Focus !!!!

Bruno: Timbre de guitarra absurdo

Mairon: O que é esse solo do Ricky Ford duelando com o Catherine. Sensacional. Isso é o que eu mais gosto nas canções do Lado A desse disco, a divisão de centros, tudo com uma harmonia impecável.

Bruno: 10:47 que passam despercebidos. Uma viagem sensacional!

Adriano: O que pude perceber até agora é que o disco é bom, com bons solos, como os dessa faixa, mas tirando a primeira música e a pegada blues, especialmente nas guitarras, não se distingue muito de um disco comum de jazz.

Bruno: Cara, eu tive a impressão oposta, achei que foge bastante do convencional.

Adriano: Falo isso porque um Black Saint and the Sinner Lady, por exemplo, é um disco que se distingue pacas!

Bruno: Ah sim! O Black Saint é anti-padrão total

Mairon: Com certeza Adriano. Mas eu acho essas duas ultimas faixas muito tradicionais. Só o violão que deu uma cara nova.

Adriano: E o estilo do Mingus era bem característico desde os anos 50

Mairon: Que bom que estas curtindo Bruno, mente aberta e que não fica preso ao MÉTAU!

Bruno: Cara, eu sempre tive mente aberta

Mairon: Isso é um elogio, não leve a mal.

Bruno: Eu entendo. É que como eu geralmente comento bastante sobre rock pesado, todos acham que eu só ouço isso.

Mairon: É por ai.

Bruno: Adoro jazz, música erudita, soul, samba, country

Mairon: Esse disco que estamos ouvindo, junto com o Live in Japan do Coltrane e o The Eyes of the Heart, do Keith Jarrett, me abriram a mente para o jazz.

Bruno: Antes eu era bitolado demais eu não tenho muita paciência pra avant-garde jazz e bebop. Mas tô achando esse fantástico até agora, tem muito de fusion.

Mairon: O lado B é bem diferente. Essas três eram do lado A, mais com o Catherine, agora o Coryell vai entrar com tudo. O foda é que o cara estava tocando progressivo no focus, estava gravando música ambiente com o corryell no Twin House e ainda fez esse discaço com o Mingus.

Adriano: Pode ser ingenuidade dos meus ouvidos, mas essa guitarra solando enquanto os metais fazem o tema me soam meio Supertramp. haha

Mairon: O Marco vai ficar louco com o Adriano, hauahua

4. Three or Four Shades of Blues
Bruno: Essa sim tô achando bem convencional

Mairon: A canção mais Mingus desse disco, repleta de improvisos e bem anos cincoenta. O lado B difere-se totalmente, soando como um jazz tradicional, mas com diversas variações, principalmente nas partes dos solos. Porém, as mudanças após as entradas do piano nos revelam outra canção ... E Jimmy Rowles exibindo sua graça.

Adriano: Realmente, de tanto eu chamar o disco de convencional, a coisa convencionalizou de vez.

Bruno: Quebra de clima total! A faixa começa num andamento típico do gênero e de repente o piano toma conta

Mairon: Totalmente fora da casinha. E virão mais mudanças ainda. Essa faixa é genial! Olha essa entrada do Mingus, retomando ao be-bop, e o Jimmy Rowles solando feito um louco. QUE QUE É ILSOM????? Música Latina?? Arrepios correm pelas minhas veias

Bruno: Mingus dá o tom, e temos mais uma mudança totalmente inesperada!

Adriano: Começa alegrinho, mas vem uma quebra e entra esse piano meio introspectivo. Lembra a faixa 3 do Black Saint, minha favorita.

Mairon: Bruno, acabamos de chegar na metade da canção ... mais mudanças virão. Vocês percebem influências do progressivo????

Adriano: Até agora não senti nenhuma vibe prog. Parece mais uma rapsódia jazz.

Bruno: Talvez um toque de King Crimson.

Adriano: Opa! E essa guitarrinha? E esse sax soando oriental? A coisa tá ficando boa! haha. Depois da quebra a música ficou animada. É como se ele dissesse "ah, vocês pensavam que agora tudo ia ser paz e conforto?". Pegadinha do Malandro essa metade da faixa 4!

Mairon: Eu vejo um pouco de Henry Cow e King Crimson

Adriano: O mais parecido com isso que vi no prog foi "The Three Fates" do ELP, mas ainda assim muito distante. Acho que isso aqui é jazz de fato, brincando com sua própria musicalidade jazz e vez ou outra fazendo referência a outros tipos de música, como o blues e a música oriental.

Bruno: depois de uma passagem com certa dose de música latina, voltamos com o andamento tradiicional do começo da música.

Adriano: Poxa, o timbre de guitarra no solo final é realmente lindo.

Bruno: Nossa e esse final? hahaha. Marcha nupcial

Adriano: Marcha nupcial! hahaha

5. Nobody Knows

Adriano: Jazzinho rápido. Parece tema de marchinha, sei lá.

Mairon: Isso sim, jazz de primeira, saído dos becos de Nova Orleans. Efusivo arranjo de metais, e o baixo de Mr. Mingus solavancando as caixas de som. Altos solos de saxofone e a guitarra aparecendo timidamente.

Bruno: Adoro esse jazz mais tradicional, remetendo aos primórdios, antes de todo o virtuosismo exacerbado dos anos 60.

Mairon: O solo de Catherine me lembra os velhos solos de Wes Montgomery, mostrando que o cara além de ser virtuoso pacas, também sabe tocar no estilo tradicional.

Bruno: Engraçado como a faixa mais "tradicional" do álbum é a que mais destoa, já que o padrão do Mingus é fugir do convencional (Ficou confuso? hahaha).

Adriano: Ah não gostei muito dessa última faixa. Adoro o swing das big bands, até gosto de ragtime e dixieland, mas tem exceções. Essa faixa é como "One o'Clock Jump" do Count Basie - gosto do estilo, mas não gostei da faixa. Perdoem os fãs de "One o'Clock Jump", haha.

Mairon: Olha esse embalo da guitarra do John Scofield, vai dizer que não é o Montgomery em pessoa?

Bruno: Belíssimo trabalho de guitarra realmente, timbre fantástico!

Mairon: O que eu não entendo é como o Mingus aguentava o pique. Olha a velocidade das escalas dele acompanhando o ritmo da bateria. Resumindo tudo: INCRÍVEL!!!!

Considerações Finais

Bruno: Conheço pouquíssimo da carreira do Mingus, mas dos álbuns que ouvi posso dizer sem medo que esse é o que mais gostei. A diversidade entre as faixas é incrível e o time de músicos impecável. Gostei de como tudo soa bem e agradável mesmo sendo virtuose. Músicas para serem apreciadas em seus mínimos detalhes. Agradeço ao Mairon por ter me apresentado a esse discaço e recomendo como porta de entrada para quem não conhece o trabalho do monstruoso Charles Mingus.

Adriano: Não gosto de dar muita bola pras minhas primeiras impressões sobre um disco, muito menos quando essa primeira audição não se dá sob as melhores condições. O que posso dizer sobre esse álbum do Mingus é que não mudou minha vida, nem minha forma de encarar a música, mas é um disco que traz uma cera riqueza, pela sua diversidade. Surpreende na primeira música, tanto pelos vocais quanto por dificilmente poder ser classificado como jazz. A quarta faixa é bem divertida e a que mais me chamou a atenção no disco. As restantes são apenas boas canções ou bons pretextos pra bons solos, coisa que não falta aqui.

Mairon: Foi com esse disco, juntamente com The Eyes of Heart de Keith Jarrett e Live in Japan de John Coltrane, que o jazz me conquistou. Um time impecável apoiando esse genial baixista, fazendo de cinco canções, em quarenta minutos, uma alegria para quem ouve, aliviando tensões, arrancando sorrisos dos lábios e aquela tradicional balançadinha de perna com o passar das faixas. Disco obrigatório em qualquer discoteca decente

Mairon:
Valeu pessoal. No post discutimos mais. Obrigado.

Adriano: É isso. Valeu, Mairon e Bruno, Consultoria e leitores. (:

Bruno: Abraço

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Emerson Lake & Palmer - Tarkus [1971]


A Maravilhas do Mundo Prog continua apresentando as Maravilhas feitas pelos principais nomes do rock progressivo britânico (Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer, King Crimson, Yes e Genesis). Depois de passearmos por quatro canções criadas pelo Pink Floyd, vamos agora conhecer o que o trio Keith Emerson (teclados, órgão, minimoog, sintetizadores), Greg Lake (baixo, guitarra, vocais) e Carl Palmer (bateria, percussão) construiu em sua fantástica carreira.
The Nice: David O'List, Lee Jackson e Keith Emerson

Fazendo um retrospecto na história do grupo, esse é um dos raros exemplos no qual uma banda que surge como um Supergrupo consegu dar certo. Já apresentamos aqui uma Maravilha Prog criada pelo grupo, "Tocatta", mas não foi apenas uma única peça musical que fez desse trio um dos principais nomes na história do rock progressivo. Em seus dez anos de duração (até a primeira separação oficial), foram oito álbuns de estúdio e três álbuns ao vivo, todos essenciais para a compreensão do que significa o rock progressivo.


Quando de sua formação, muito se especulou sobre o que viria a sair da cabeça desse trio. Afinal, a exclusividade da banda estava na figura de Keith Emerson. Saído do fabuloso The Nice, com quem lançou quatro discos de estúdio e um ao vivo, nesta banda ele já havia apresentado um protótipo do que veio a ser o Emerson Lake & Palmer, principalmente nos álbuns Nice (1969) e Five Bridges (1970), ao lado de Lee Jackson (baixo) e David O'List (bateria). Fazendo estripulias nos teclados, Emerson virou uma referência para o instrumento, principalmente por trazer ao palco um gigantesco moog valvulado (raro por sinal).
                  King Crimson: Ian McDonald, Michael Giles, Peter Sinfield, Greg Lake e Robert Fripp

Porém, o The Nice acabou após uma série de divergências até hoje nebulosas, mas Emerson não queria sair do picadeiro. Aproveitando-se da separação do King Crimson, Emerson conversou com o recém-amigo Greg Lake, que fazia parte da banda de Robert Fripp. O King Crimson fez alguns shows com o The Nice, e claro, nos bastidores, Emerson e Lake começaram a criar uma sonoridade envolvendo apenas piano, baixo e voz, o que atiçou e muito a imaginação da dupla.

Planejando uma sequência para o The Nice, Emerson sugeriu a formação de um trio apenas com baixo, teclados e bateria, o que foi prontamente aceito por Lake. O primeiro baterista da lista foi Mitch Mitchell. Como a Band of Gypsies de Jimi Hendrix também estava com os dias contados (banda da qual Mitchell fazia parte), seria o casamento perfeito. Inclusive, foi dessa situação que surgiu o boato no qual um novo grupo poderia ter surgido, o HELP, com Hendrix tocando guitarra junto de Emerson, Lake e Palmer, boato esse que só foi desmentido mais de quarenta anos depois, mais precisamente em 2012, quando Lake assumiu que nunca se quer houve a hipótese de colocar um guitarrista na banda.
 Atomic Rooster: John DuCann, Vincent Crane e Carl Palmer


Mitchell recusou a oferta, e então eis que surge o nome de Palmer. Baterista da The Crazy World of Arthur Brown, Palmer em 1970 estava começando uma carreira de respeito no Atomic Rooster. o primeiro trabalho do grupo havia acabado de ser lançado, e entrado entre os cincoenta mais vendidos no Reino Unido, o que fez com que o baterista recusasse a oferta inicialmente.


Porém, depois de uma conversa e uma jam, o clima rolou, e então, o casamento aconteceu. Emerson, Lake & Palmer surge desbancando a importância de Keith Emerson. Todos eram iguais, todos eram a banda, e todos iriam se destacar. Unindo forças individuais, o grupo subiu ao palco pela primeira vez em 20 de agosto de 1970, e seis dias depois, tocou para mais de 600 mil pessoas durante o festival da Ilha de Wight, sendo este apenas o segundo show do grupo.

Iremos falar mais desse show quando da próxima Maravilha referente ao ELP (como ficou conhecido ao grupo) e portanto, não entrarei em detalhes aqui, mas podemos antecipar que a apresentação incendiária do trio rapidamente fez com que a gravadora Island assinasse com a banda, e no primeiro dia do ano de 1971, veio ao mundo o primeiro álbum do grupo.
ELP: Emerson, Lake & Palmer

Emerson, Lake & Palmer é um apanhando de canções que mais parecem a junção de solos individuais com mesclas de partes em grupo. Sem dúvidas, o maior destaque vai para Emerson, que comanda joias como "The Barbarian", "Knife-Edge" e "The Three Fates". Palmer é o homem principal em "Tank", e Lake acabou gerando as canções mais conhecidas do álbum: "Take a Pebble" e "Lucky Man", essa última, a primeira a contar com o registro de um sintetizador moog como instrumento principal. O álbum fez um estrondoso sucesso, conquistando a quarta posição no Reino Unido, e claro, a exigência por mais não tardou.

Porém, mesmo com pouco tempo de formação, o amadurecimento do trio foi muito rápido. Ainda em janeiro de 1971, em apenas seis dias, eles entraram nos estúdios da Advision, em Londres, registrando lá o segundo álbum. Tarkus chegou às lojas em junho do mesmo ano, e mostrou que sim, era possível o ELP sobreviver como um grupo, e não com trabalhos individuais. A maior prova disso se encontra logo na suíte de abertura do LP, que carrega o nome do mesmo em mais de vinte minutos de duração, ocupando todo o Lado A.
Capa dupla de Tarkus, contando a história da suíte que ocupa o Lado A

O nome "Tarkus" refere-se ao gigantesco Tatu-Tanque que aparece na capa do LP. Criada por William Neal, ele deu o nome de Tarkus para o animal, fazendo uma mistura entre as palavras "Tartarus" (lugar de punição mencionando em Pedro 2:4) e "Carcass" (os ossos que aparecem escrevendo o nome do álbum), fazendo uma crítica a futilidade da guerra. A ideia de Emerson foi contar a história do Tatu, desde seu nascimento em uma erupção vulcânia, as batalhas com seu principal inimigo, um Manticore (figura mitológica com cabeça de homem, corpo de leão e cauda de escorpião), sua derrota para o Manticore e sua transformação para uma versão aquática, batizada "Aquatarkus".  Além disso, Tarkus significa sapiência em Estoniano. A história de "Tarkus" é contada em desenhos (também criados por Neal) que estão internamente na capa dupla do vinil original.

A suíte é dividida em em sete partes, quatro delas compostas por Emerson, duas pela dupla Emerson/Lake e uma apenas por Lake. Apesar de não ter a mão de Palmer na composição, sua importância para essa Maravilhosa suíte é enorme, começando pela introdução de "Eruption", trecho que abre a suíte com longos acordes de sintetizadores e batidas violentas nos pratos, simbolizando uma erupção vulcânica que ocasiona o nascimento de "Tarkus". Uma marcação complicadíssima de baixo, teclados e bateria surge trazendo um solo de órgão, enquanto a bateria solta o peso, marcando a canção para o moog fazer sua participação. Uma batida no gongo nos apresenta a segunda parte do solo de órgão, sempre com a complicada marcação ao fundo, a qual permanece em um pique alucinante, e então, após uma série de viradas e marcações incríveis, chegamos em "Stones of Years".
Keith Emerson, Carl Palmer e Greg Lake

Essa balada prog apresenta os vocais suaves de Lake, contando sobre as sensações que Tarkus está tendo, e como um tatu que é, apesar de sentir o que ocorre a sua volta não consegue ouvir nada. A voz é acompanhada por órgão, escalas de baixo e uma marcação recheada de rufadas da bateria. Após duas estrofes, o piano surge forte, trazendo o solo de Emerson com o órgão, enquanto ao fundo Lake executa uma escala menor e palmer continua a marcação, colocando várias viradas na mesma. O solo de Emerson não exibe o virtuosismo que o consagrou, mas apenas uma série de notas e acordes que vão aumentando de velocidade, chegando então nas duas últimas estrofes de "Stones of Years", e com efeitos na voz de Lake, Tarkus começa a viajar pelo mundo, e enfrenta uma série de inimigos, começando pelo pássaro "Iconoclast".

Temos uma maluca sessão instrumental que resgata a marcação de "Eruption", com mais pegada na bateria. Nela, Emerson abusa do órgão, arrancando longas notas do mesmo, simbolizando a derrota de Iconoclast através de uma guitarra, principal arma do segundo inimigo de Tarkus, "Mass", um ser parte lagarto, parte lagosta e parte lançador de foguetes. Essa sessão surge após uma complicada série de marcações entre baixo, bateria e órgão, e é a parte mais agitada de "Tarkus", com a marcação vibrante do baixo e do sintetizador. Lake canta rasgando a voz, fazendo diversas referências religiosas, com fortes críticas à Igreja, demonstrando também uma despreocupação da sociedade com os fatos relacionados aos bispos, padres e outros personagens religiosos. O moog valvulado marca a presença. Durante o solo de órgão, as marcações entre baixo e bateria são quebradas, e novamente, Emerson procura fugir do virtuosismo. Porém, o solo sofre uma mudança na segunda metade, com Palmer puxando o ritmo em uma rufada veloz e diversas viradas, e com Lake trazendo a guitarra para divertir-se entre as viajantes notas do moog.

O encerramento da letra de "Mass" nos leva aos delirantes minutos de "Manticore", o último inimigo de Tarkus, que surge com uma violenta marcação de baixo, órgão e bateria, todos executando as mesmas batidas ao mesmo tempo, e com breve intervenções do órgão, responsável por fazer o encerramento desse trecho com um curto solo. A violenta marcação aparece novamente, e uma incrível sequência de batidas na bateria nos leva para o trecho mais belo de "Tarkus", batizado de "Battlefield".
                    Carl Palmer, Greg Lake e Keith Emerson
O andamento cadenciado do órgão e as viradas de Palmer trazem a voz de Lake. A marcação é simples, mas cativante, e o estilo de cantar de Lake é único. Palmer também destaca-se fazendo diversas viradas sem perder o ritmo. Concluindo esse majestoso trecho, somos agraciados por um belo solo de guitarra feito por Lake, que apesar de exalar algumas notas da guitarra, extrai das mesmas uma melodia muito doce, digna de um dos melhores solos de sua carreira como guitarrista. Tarkus é derrotado A letra é retomada, agora com intervenções da guitarra ao fundo, e então, o órgão nos leva ao encerramento de nossa maravilha com "Aquatarkus".

Aqui, o moog sintetizado toma conta. Tendo ao fundo a marcação continua de bumbo, chimbal e caixa, bem como as mudanças de notas do baixo, o moog executa um tema de guerra, que repete-se por diversas vezes, e sobre este tema, passa a realizar o solo de encerramento final. Um ritmo marcial surge aos poucos na caixa de Palmer, enquanto o volume do solo do moog vai diminuindo, e então, apenas o ritmo marcial segue ecoando nas caixas de som, para um gongo retornar ao início de "Eurption", simbolizando uma nova erupção, da qual surge o animal Aquatarkus, passando a informação de que apesar de Tarkus ter sido enterrado, ele ainda estava vivo, e concluindo "Tarkus" com batidas violentas no órgão, pratos e nas cordas do baixo, além de um longo acorde de órgão e o moog duelando com a bateria.
                                                       Capa dupla de Tarkus
A suíte passou a frequentar o set list dos shows do grupo, e uma de suas melhores versões ao vivo está registrada no essencial álbum triplo Welcome Back My Friends to the Show that Never Ends ... Ladies and Gentlemen, Emerson, Lake & Palmer (1973), com mais de vinte e sete estonteantes minutos de duração. O tecladista do Dream Theater, Jordan Rudess, fez uma magnífica versão para "Tarkus" em seu álbum The Road Home (2007), contando com os vocais de Kip Winger e a guitarra de Bumblefoot. Nossa Maravilha ainda foi trilha de um filme russo em 1975 (filme este batizado de "Begstvo Mistera Mak-Kinli")

Vale a pena ressaltar que o grupo quase acabou antes das gravações de Tarkus. Enquanto Palmer mostrou-se muito bem receptivo por poder extrapolar seus limites e experimentar novas formas de tocar, principalmente com a suíte-título, Lake ficou desgostoso por não ser tão participativo na canção. Brigas ocorreram e, segundo diversas fontes, Emerson chegou a dizer para Lake: "Faça isso, ou então, deixe a banda". Lake decidiu sair, mas foi convencido por amigos e empresários a continuar, e o resultado, apareceu.

Tarkus fez tanto sucesso quanto seu antecessor, e mais, levou o trio ao topo das paradas britânicas, desbancando medalhões como Simon & Garfunkel, Rolling Stones e Paul McCartney. Lá, ele permaneceu entre os dez mais por mais de dezessete semanas. Seu lado B apresenta sete curtas canções, destacando "Jeremy Bender" e "A Time and a Place". Ainda em 1971, o grupo gravou mais uma Maravilha, mas isso é assunto para daqui há duas semanas.

sábado, 4 de maio de 2013

Consultoria do Rock Apresenta: A Psicodelia Californiana (Parte I)



A Califórnia é um dos estados mais promissores em termos de música. De lá, saíram gigantes como Beach Boys, Frank Zappa, The Doors, Sly & The Family Stone e Slayer, citando cinco diferentes estilos em que a cena californiana é indiscutivelmente vital para consolidação do mesmo. No período entre 1965 e 1968, o estado viveu um extase lisérgico, guiado pelo LSD, pelos hippies e pelo surgimento de inúmeras bandas, que misturavam os elementos do Paz e Amor com o ácido em sons únicos, viajantes, que caracterizam o que hoje é conhecido como a Geração Psicodélica da Califórnia. Depois, entre 1969 e 1972, vieram outras bandas, com a mesma proposta (e talvez até mais viajante) mas que, com a decadência do movimento flower-power, acabaram não fazendo tanto sucesso, sendo relegadas (em sua maioria) à obscuridão.

O Consultoria do Rock Apresenta portanto a Psicodelia Californiana, e nesta primeira parte, traz algumas das principais bandas do estilo na sua primeira geração, através de duas canções de cada grupo, uma mais conhecida e outra nem tanto, mas representativas do estilo que marcou o final da década de 60 em todo o mundo. A segunda parte, daqui há um mês, explorará a segunda geração de psicodelia, mantendo o mesmo formato.

01. "White Rabbit" - Jefferson Airplane: o grupo que mais divulgou o som psicodélico para o mundo abre este programa com sua mais clássica canção. Apesar de não ser exatamente detentora do estilo que o Jefferson Airplane fazia, "White Rabbit" é um Ácido Trifluorometanosulfonico lançada no segundo disco do grupo, Surrealistic Pillow, o qual é um dos mais vendidos na história da música, tendo atingido a terceira posição em vendas nas paradas americanas. Até hoje ela é associada ao mundo flower power tanto em filmes como propagandas ou desenhos que falam sobre o assunto, sendo o maior símbolo musical que a Psicodelia Californiana pariu!
02. "We Can Be Together" - Jefferson Airplane: faixa de abertura do quinto LP do grupo, Volunteers, lançado em 1969, está é mais representativa do que era a potência ácida vinda do Airplane. Vocalizações perfeitas, guitarras ensandecidas e muita potência exalando de uma cozinha fantástica no baixo e na bateria, além de uma letra-manifesto que é válida ainda para os dias de hoje. Mais flower-power (e Ácido  Fluorossulfúrico) e psicodélico impossível!
03. "Sitting by the Window" - Moby Grape: um dos maiores clássicos psicodélicos da Califórnia, gravado pelo grupo mais conturbado da Califórnia. O Moby Grape teve importância para a psicodelia principalmente pelo seu essencial álbum de estreia, lançado em 1967 e com nada mais nada menos do que dez singles lançados no mercado. Lembrando que as origens do grupo está justamente no Jefferson Airplane, já que o fundador do Grape, o guitarrista Skip Spence, era baterista do grupo que abriu esse programa. Ácido Sulfúrico para não se botar defeito.
04. "Miller's Blues" - Moby Grape: e quem disse que na psicodelia não podia haver blues? O Moby Grape faz estripulias mágicas com estilo nessa rara faixa do segundo álbum do grupo, lançado em 1968. Basta as notas da guitarra invadirem seu quarto para sermos entorpecidos por um Ácido Fluorossulfúrico em uma performance incírvel.
05. "Born Cross Eyed" - Grateful Dead: se houve um grupo californiano que conseguiu sobreviver pós-geração flower-power, este grupo foi o Grateful Dead. Liderados pelo guitarrista Jerry Garcia, o grupo lançou álbuns regularmente até os anos 90. "Born Cross-Eyed" encerra o lado A do segundo álbum do grupo como um Ácido Hidrofluórico, misturando metais, guitarra carregada de distorção e o órgão comendo solto, além de vocalizações arrepiantes. O encerramento dessa curta faixa explica sua inclusão, com barulhos indecifráveis.

06. "Viola Lee Blues" - Grateful Dead: lançada no álbum de estreia do Dead, em 1967, "Viola Lee Blues" mostra toda a ginga que consolidou o grupo para a eternidade, lotando shows e sendo uma das bandas que mais vendeu dentro dos Estados Unidos. Longas improvisações de guitarra e o órgão sacolejante, quase como um boogie, marcam essa genial peça musical, com lisérgicos dez minutos de duração de um Ácido Sulfúrico.

07. "Caterpillar" - Big Brother & The Holding Company: se o mundo conheceu Janis Joplin, a culpa foi da psicodelia californiana. Janis era a representação feminina do movimento hippie, e ao lado da Big Brother & The Holding Company, fez com que o estilo gravasse seu nome nos ballrooms californianos como o Winterland ou o Fillmore. "Caterpillar", um Ácido Hidrofluórico, está no álbum de estreia do grupo, também de 1967, e mostra a irreverência e alegria desses jovens e talentosos músicos, em um álbum menosprezado e desconhecido da maioria dos fãs por que houve um disco no ano seguinte que marcou para sempre a história de Janis, da psicodelia e do mundo, Cheap Thrills.

08 "Ball and Chain" - Big Brother & The Holding Company: foi no Festival de Monterey, em 1967, que a psicodelia californiana veio realmente ao mundo, e também ícones como "Ball and Chain" na versão da Big Brother. Cover para o blues alegre de Big Mama Thorton, é nela que Janis e cia. exalam toda sua lisergia, com a guitarra de James Gurley respigando Ácido Fluorantimônico (o mais forte dos ácidos) em seus ouvidos, nos dez minutos mais entorpecentes de sua vida, registrados no magistral Cheap Thrills, o mais vendido disco da história da Califórnia, primeiro lugar nas paradas americanas e com mais de 5 milhões de álbuns ao redor do mundo.

09. "Mona" - Quicksilver Messenger Service: este é um dos grupos mais injustiçados da história do flower power. O Quicksilver tinha nas guitarras John Cipollina, o homem que posteriormente veio a ser chamado de "O Responsável pelo Som da Califórnia", e nas suas canções, uma maravilhosa mistura de blues com lisergia. "Mona" é uma de suas canções mais conhecidas, um Ácido Hidrofluórico tendo essa guitarra com destaque, com o wah-wah comendo solto entre uma marcação hipnotizante de piano, baixo e bateria, algo que somente o Quicksilver conseguia fazer. Foi lançada no essencial segundo disco do grupo, o ao vivo Happy Trails (1969) .

10. "The Fool" - Quicksilver Messenger Service: a estreia do Quicksilver Messenger Service foi em 1968, com o álbum homônimo que encerra com essa enlouquecedora faixa, que mistura guitarra, viola e percussão em uma performance rara. Depois de seus mais de doze chapantes minutos de duração, carregados pela lisergia da guitarra de Cippolina, você certamente irá ver sapos pulando pelo seu quarto enquanto elefantes cor de rosa sobrevoam sua cama. Ácido Fluoroantimônico, e dos bons!

11. "When the Music's Over" - The Doors: para muitos, essa é a banda que realmente representa a Psicodelia Californiana. Isso claro, graças as letras de Jim Morrison, e ao órgão de Ray Manzarek. Porém, o The Doors estava longe de ser uma banda que realmente levasse a psicodelia a sério. Na verdade, o grupo fez raras incursões nesse mundo, e uma delas foi "When the Music's Over", que encerra o segundo disco do grupo (o ótimo Strange Days, de 1968) e que conta com todas as características do "Som da Califórnia", com a guitarra de Robbie Krieger cheia de distorção e viajantes onze minutos de duração. Mais Ácido Fluoroantimônico nas nossas cacholas.

12. "The End" - The Doors: esse programa encerra-se com um Ácido Trifluorometanosulfonico que viciou (e ainda vicia) muita gente com o passar dos anos. Assim como "White Rabbit", "The End" aparece em quase tudo que faz citação ao movimento flower power e a lisergia. Canção que encerra o álbum de estreia do grupo, de 1967, ela tem em sua introdução o mais importante riff que a lisérgica cena da Califórnia criou, e uma das letras mais bonitas (e bizarras) que Jim Morrison escreveu. Um atestado que, apesar de ser um porra-louca, quando queria Jim podia ser gênio.

No próximo Consultoria Apresenta, destacaremos os geniais Captain Beefheart, Country Joe, Carlos Santana e Frank Zappa, interpretando psicodélicas canções com suas respectivas bandas (Captain Beefheart Band, Country Joe & The Fish, Santana e a Mothers of Invention), além de apresentar os obscuros, mas também geniais, The Loading Zone, Iron Butterfly e It's a Beautiful Day.
Tutorial:

Classificação dos ácidos conforme seu poder de corrosão:
1 - Fluoroantimônico
2 - Trifluorometanosulfonico
3 - Fluorossulfúrico
4 - Sulfúrico
5 - Hidrofluórico

segunda-feira, 29 de abril de 2013

DVD: Uli Jon Roth - Live at Castle Donington [2007]



Por Mairon Machado

Sabe aquele DVD que quando você menos percebe ele já acabou e quando olha em sua volta está tudo revirado como se um furacão estivesse ocorrido em seu quarto e você nem se dá conta do que aconteceu até colocar o DVD na caixinha e ver que o que acabou de passar realmente era algo fora do comum? Esta foi minha experiência ao assistir o DVD Legends of Rock at Castle Donington do guitarrista alemão Uli Jon Roth.

Este é o terceiro DVD da série de três DVDs divulgadas pela Hellion Records em homenagem ao ex-guitarrista do Scorpions. Os dois primeiros foram The Electric Sun Years Vol. I e The Electric Sun Years Vol. II, compilados em um único DVD. Os dois primeiros traziam um apanhado de shows nas duas fases da banda solo de Uli (a Electric Sun). Este contém a apresentação de Uli como headliner do festival de Castle Donington, o Rock & Blues Custom Show de 2001.


Acompanhado por seu companheiro de Electric Sun Clive Bunker (bateria), Don Airey (teclados) e Barry Sparks (baixo), Uli está em excelente forma e brinda a platéia com um espetáculo musical de extremo bom gosto.


O DVD começa com a instrumental "Trail in the Wind" mostrando uma coletânea de vídeos do show, bem como os músicos que participam do espetáculo, para o apresentador animar a plateia e dar as boas vindas à Uli Jon Roth.

Uli Jon Roth e sua Sky Guitar

Com a noite começando a baixar sobre as milhares de pessoas presentes no lugar, o guitarrista detona os primeiros acordes da linda "Sky Overture", trajando sua tradicional faixa na cabeça e empunhando a famosa Sky Guitar. Com um arranjo clássico que ganhou muito com a participação de Airey, as escalas de Uli são complicadíssimas. Mostra para os Malmsteen's da vida como empregar notas rápidas, alavancadas e bends no tempero certo, alternando momentos rápidos e outros lentos. Tudo isso sempre com um sorriso no rosto, como se fosse natural executar aquelas intrincadas peças.

O show continua com um arranjo para o início do segundo movimento do Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, popularmente conhecido como "Adagio". Uma das coisas que me irrita muito é alguém que diz adorar esse concerto, mas só conhece este início do segundo movimento. Originalmente elaborado para violão e orquestra tem nessa segunda parte, chamada aqui de "Aranjuez", um duelo entre oboé e violão. Airey faz novamente um belo trabalho executando as parte da orquestra enquanto Uli brinca na guitarra fazendo os lindos temas do oboé e do violão.


"The King Returns" mantém a linha clássica de Uli. Novamente acompanhado por Airey, tem como ponto máximo o belíssimo dueto de órgão e guitarra.

Após essa apresentação inicial de sua carreira solo, o músico chama ao palco os membros do UFO (grupo briitânico que estará em turnê pelo país agora em maio, com shows em São Paulo (11), Porto Alegre (12), Rio de Janeiro (14) e Goiânia (16)) Pete Way (baixo), Phil Moog (vocais) e Michael Schenker (guitarras). Aí começa a pauleira! Moog anuncia que vão voltar no tempo e "Let It Roll" é detonada nos amps. Sparks agora toca guitarra, enquanto Way corre por todo o pequeno palco. O duelo entre Uli e Schenker é fantástico! A parte lenta começa com o solo do gordíssimo Schenker, mas que está tocando como nos anos 70 com a sua Flying V. As intervenções de Uli tornam o solo de Schenker ainda mais bonito e é impossível não se arrepiar com a qualidade sonora apresentada quando começa a alternância dos solos. A sequência final é de chorar com ambos os guitarristas tocando as notas juntos e trazendo a pauleira novamente.

Uli, Phil Mogg e Pete Way

Mais uma canção do UFO é apresentada. Agora, a clássica das clássicas, "Rock Bottom". Aqui a minha air guitar começou a fazer efeito no meu quarto. Schenker executa o riff principal, seguido por Uli, enquanto Way pula feito um garoto no palco. É impressionante como o velhinho não perdeu a forma. Moog não está na melhor forma vocal, mas mesmo assim, é o cara ideal para cantar uma das melhores músicas de todos os tempos.
Uli acompanha a melodia vocal da parte antes do solo. A prova clara da influência do UFO sobre Steve Harris. Joguem as pedras, mas imaginem Paul Di Anno cantando os "Where do we go?" da letra.
O que vêm a seguir é matador. Se o solo de Schenker sozinho já era fenomenal, imagine os dois juntos! Pois bem! Schenker começa o solo no seu melhor estilo, abusando de feeds e notas longas, mas claramente sem muita inspiração. Uli faz seu primeiro solo, também sem muita inspiração, empregando bastante escalas clássicas. O que Schenker faz na guitarra a seguir é indescritível! Uma sequência incrível de arpejos e notas rápidas, contrastando com a segunda sequência de Uli. O dueto dos dois no tema final do solo é de chorar! Notas reproduzidas igualmente vão ganhando corpo, Uli destrói as cordas da guitarra para encerrar a sequência de solos com um solo magistral de Schenker quase ajoelhdo em frente aos amplificadores. Todos da banda sorriem, felizes pelo resgate deste grande guitarrista que já passou por poucas e boas em sua carreira. O único porém é que Bunker não é Andy Parker. E assim, o acompanhamento de bateria ficou aquém do que poderia ser...
O debulhe de notas do encerramento do solo é executado idênticamente por Uli e Schenker. Moog e Way puxam a platéia com os gritos de "Rock Bottom" voltando então ao riff principal e ao encerramento da letra e da canção com Way apontando seu baixo para o público como se fosse uma metralhadora (outra das inspirações de Steve Harris), tirando a corrente do baixo e jogando o mesmo para cima, alucinado.

Michael Schenker

O público delira, mas o show não pode parar. Uli chama a lenda do rock Jack Bruce e diz que é um prazer voltar aos anos 60 para tocar alguns de seus sons favoritos. O primeiro deles: "Sunshine Of Your Love". Não houve ensaio entre Bruce e a banda de Uli. Então, não se sabia o que esperar da apresentação do ex-baixista do Cream.
Bruce brinca no baixo por alguns segundos e Uli puxa o riff deste clássico, como um bom power-trio. Que me perdoem os conhecedores e apaixonados por Clapton. O timbre de Uli Jon Roth está idêntico ao do Deus da Guitarra. Colocando para um desavisado, certamente ele vai dizer que é o Cream que está tocando. Principalmente por que o vocal de Bruce continua o mesmo dos anos 60. O guitarrista dá o seu tempero para o solo, enquanto Bruce está alucinando pelo palco, girando e pulando com seu baixo sempre com aquele balanço de cabeça que o caracterizou.
E minha air guitar surge outra vez. O solo é fantástico! Com Bruce solando junto, tentando engolir cada nota de Uli, enquanto Bunker se vira em 1000 para acompanhar o duelo dos dois. Jon Roth sola rindo com a empolgação de Bruce, que de olhos fechados caminha por todo o palco, e cede espaço para o baixista executar um pequeno solo antes de encerrá-la de forma primordial.
A alegria estampada na cara de Uli é mantida para a execução de outro clássico, "White Room". Agora contando com Airey nvovamente! Novamente é impossível não dizer que é o Cream que está tocando. O guitarrista abusa do wah-wah como se o aparelho fosse uma jovem garotinha. Bruce rasga a garganta como nos bons tempos.
É impressionante como o timbre da Sky Guitar está diferente. Isso fica comprovado no solo, onde novamente os dois gigantes lutam como gladiadores famintos pelo sangue do adversário. O que Bruce está fazendo no baixo é assustador. Tocando o instrumento como se fosse uma guitarrra. Notas altas, notas baixas, bends e muito feeling. De tirar o chapéu! O sorriso nos rostos dos músicos é marcante. A prova clara do prazer de estar no palco. Não pelo dinheiro, mas pelo amor a música.

Uli e Jack Bruce

O DVD dá um salto no tempo e entra em uma homenagem ao seu maior ídolo, Jimi Hendrix. Assim, ele apresenta para nós "All Along The Watchtower", acompanhado apenas por sua banda. Uli canta a letra de Dylan. Seu ponto forte nunca foi os vocais, e sim a guitarra. O que ele faz em "All Along ..." é para Hendrix dizer amém! E a air guitar continua fazendo efeito.
A prova final vêm na segunda homenagem a Hendrix, a pérola "Little Wing". Em um ritmo um pouco mais rápido que a original, executa o riff introdutório de forma impecável. Com a adição dos teclados de Airey, a canção ganha um clima bem flower-power. Quem é fã de Hendrix, segure as lágrimas! Cada nota de Uli solando com a ajuda do botão de volume é emocionante até mesmo para o guitarrista. Um dos raros momentos do show em que esconde seu sorriso para um momento de concentração total.
Os integrantes do UFO voltam para a magistral "Doctor Doctor". A introdução ocorre acompanhado por Airey no piano e seguido por Schenker. O riff principal é executado e novamente temos Way pulando no palco e Moog liderando o vocal. Segure a perna para não dançar por toda a casa e pagar mico para os vizinhos. Certamente os gritos de "Doctor Doctor" serão ouvidos pelos mesmos. O som encerra com a platéia alucinada, gritando o nome de Uli e UFO.
O melhor de tudo ainda estava por vir. O guitarrista sai do palco enquanto um dos apresentadores começa a instigar a plateia dizendo que ainda restam dois minutos para o encerramento do festival. Aos berros de Uli! Uli! Uli!, volta ao palco e começa a elaborar um pequeno improviso sob os aplausos dos fãs. Do nada Bunker, Airey e Bruce retornam ao palco. O que temos a seguir é um verdadeiro resgate dos tempos de Cream, chamada de "Fireworks Jam". É o momento de encerramento do festival onde fogos são lançados para a platéia desfrutar o momento.
Se no Cream, Clapton ficava sério em seu canto tentando provar que era o máximo, aqui, Bruce encontrou um ótimo parceiro que abre sorrisos para o baixista e cede seu espaço por vários momentos, enquanto os fogos explodem no céu. Os dois minutos que o apresentador havia concedido acabam se tornando em uma deliciosa jam de quase 13 minutos contando com passagens pelo tema de "Norweggian Wood" (Beatles) e um retorno ao tema de "Sunshine Of Your Love" que se encerram somente pela intervenção de um dos organizadores do evento que sobe ao palco e grita nos ouvidos de Uli que está na hora de parar. Fato que deve ter sido muito frustante, pois a alucinação de todos no palco é enorme. Todos estavam de olhos fechados, com tímidos sorrisos e não dando a mínima bola para o tempo. Somente curtindo cada segundo do que estão fazendo.
Uli despede-se. A platéia, aplaude encantada com o que acabou de ver. No meu quarto já não resta mais nada em pé. O braço da minha air guitar derrubou tudo o que havia por perto. Ainda tem os bônus. Mas antes, "Atlantis", na versão de Transcedental Sky Guitar apresenta os créditos do DVD.

Nos bônus, duas canções que ficaram de fora da sequência. A primeira é "Midnight Train", a qual foi executada apenas pelos integrantes do UFO, juntos de Bunker e Airey, onde o destaque novamente é a energia de Way e os riffs de Schenker. A segunda é nada mais, nada menos do que "Spoonful" com Bruce cantando outro grande clássico imortalizado pelo Cream ao lado de Uli e Bunker. De quebra, temos fotos da apresentação e a história de como ocorreu o espetáculo (em inglês).
Pode ter faltado uma ou outra canção, como "Hiroshima", e principalmente clássicos do Scorpions como "Hell Cat", "Fly To The Rainbow" e "Polar Nights". Agora... Um DVD que traz uma variedade que vai do UFO para o Cream, coloca juntos Uli Jon Roth e Michael Schenker, com certeza tem que estar na prateleira de todo colecionador. E em uma posição de fácil localização, para ser colocado no aparelho quase todos os dias. Apenas controle sua empolgação com a air guitar e deixe que os mestres da guitarra façam o trabalho nas guitarras de verdade. Nota 10 em 10!
Track list
1. Trail in the Wind (intro)
2. Sky Overture
3. Aranjuez
4. The King Returns
5. Let It Roll
6. Rock Bottom
7. Sunshine of Your Love
8. White Room
9. All Along the Watchtower
10. Little Wing
11. Doctor Doctor
12. Fireworks Jam
13. Atlantis
bonus tracks:

14. Midnight Train
15. Spoonful
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